Project Gutenberg's Mulheres e creanas, by Maria Amlia Vaz de Carvalho

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.net


Title: Mulheres e creanas
       notas sobre educao

Author: Maria Amlia Vaz de Carvalho

Release Date: July 30, 2009 [EBook #29550]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MULHERES E CREANAS ***




Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)






     *Nota de editor:* Devido  existncia de erros tipogrficos neste
     texto, foram tomadas vrias decises quanto  verso final. Em
     caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original.
     No final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos.

                                               Rita Farinha (Jul. 2009)




BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA


D. MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO


MULHERES E CREANAS

(NOTAS SOBRE EDUCAO)


Editores--JOAQUIM ANTUNES LEITO & IRMO
Rua do Almada 209--1.^o andar
PORTO




MULHERES E CREANAS




A propriedade d'esta obra pertence:

Em Portugal  _Bibliotheca do Cura de Aldeia_.

No Brazil ao snr. Adriano de Castro, residente no Rio de Janeiro.




BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA

MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO


MULHERES E CREANAS

(NOTAS SOBRE EDUCAO)


PORTO
Editores--JOAQUIM ANTUNES LEITO & IRMO
Rua do Almada 209--1.^o andar
1880




TYP. DE ALEXANDRE DA FONSECA VASCONCELLOS

29, Rua do Moinho de Vento, 29






Minha querida me


_Companheira constante e fiel de toda a minha vida, offereo-lhe este
livro humilde, que escrevi inspirada pelos seus conselhos e pelo seu
santo e nunca desmentido exemplo._




CAPITULO I


Falla-se hoje muito a respeito da dissoluo domestica, manifestada e
provada constantemente por casos de divorcio, suicidios, questes
miseraveis entre parentes proximos, rebellies filiaes, etc., etc.

Surprehende a todos aquelles, que sem aprofundarem radicalmente as
questes sociaes, se preoccupam todavia com ellas um pouco mais do que o
vulgo, que este mal que todos sentem e que poucos definem, que este
estado inquieto e doloroso que depois de agitar a familia assusta e
perturba a sociedade, se haja aggravado justamente na poca em que o
homem auxiliado por grandes e immortaes pensadores, tem adquirido a mais
elevada e justa noo do Bem que ainda lhe foi dado alcanar no seu
caminho de seculos.

A manifesta e clara contradico que hoje mais do que nunca existe entre
as idas e os factos desnorteia e desanima ainda os espiritos mais
penetrantes.

Como  que o homem que tem domado a materia a ponto de fazer d'ella a
escrava submissa da intelligencia; que forou a grande e muda Natureza a
tornal-o seu confidente e seu senhor; que arrancou ao astro e  planta o
segredo immortal da vida que os anima; que penetrou--investigador
implacavel--nas catacumbas das mortas religies, e que ouviu de cada uma
a palavra suprema que as explica e desvenda; porque  que o homem que
tem hoje a percepo lucida e completa do seu destino, no soube ainda
prostrar, vencer, amordaar o animal indomito que vive dentro d'elle,
que o martyrisa, que o rebaixa, que o leva muitas vezes ao abysmo,
quando o no leva ao lodaal? Se o bom e o bello lhe revelaram a sua
larga claridade benefica, porque se no revigora elle, e se no
robustece n'esse grande banho de luz? porque no estabelece uma harmonia
perfeita e intima entre a ida que frma dos deveres e a sua
manifestao pratica e vizivel?

Depois de havermos concedido s paixes humanas o imperio relativo que
ellas no podem perder, somos ainda forados a confessar que na culpa
d'esta desgraa que todos lamentam, compete s mulheres um grandissimo
quinho.

Concorrem ellas em grande parte para dar fora ao impulso que contraria
a marcha triumphante e apesar de tudo invencivel, que leva a civilisao
no caminho da verdadeira luz. E concorrem por varias e complexas razes
que devem analysar-se e depois combater-se.

Ignorantes impoem resistencia inconsciente s transformaes continuas
do progresso.

Retrogradas por educao e por natureza, cada innovao se lhes affigura
ou uma cousa inutil, ou uma cousa perigosa.

Amesquinhadas pela profunda escurido intellectual em que jazem
immersas, em vez de auxiliarem o homem no cumprimento difficil do dever
afastam-no pelo desdem, desanimam-no pela frivolidade, canam-no com as
exigencias loucas, gastam-lhe a fora, o alento, as aspiraes arrojadas
e grandes na satisfao de desejos pueris, ou lhe destroem a dignidade e
lhe annullam a energia obrigando-o a transigir com os desvairamentos
d'uma imaginao doentia.

Mas se as mulheres produzem este effeito funesto confesse-se para bem da
justia que aos homens se deve o atrazo intellectual em que todas ns
estamos.

Sentem elles, e a meu ver sentem muito bem, que para conservar este
equilibrio necessario  manuteno da ordem na familia e na sociedade,
cumpre que a mulher se no revolte contra a inferioridade a que
fatalmente a condemnam as leis, e contra a dependencia a que a condemnam
os costumes.

Para alcanarem porm esta submisso voluntaria entenderam desde muito,
que o melhor meio consistia em condensar as trevas da ignorancia e da
superstio em torno d'aquella de quem so forados a fazer a sua
companheira na vida, o seu consolo nas horas da provao, a me de seus
filhos, a carne da sua carne.

Terrivel contradico, systema absurdo que tem como resultado a lenta
desorganisao da familia e que corrompendo a mulher atravez do homem,
no pde deixar d'ir com o andar dos tempos corrompendo o homem atravez
da mulher.

D'um lado querem conservar-nos n'uma plana muito inferior  sua, como
illustrao, conhecimentos, intelligencia, isto para que nunca nos venha
 ida aspirar  perfeita igualdade dos direitos e dos privilegios;
d'outro lado exigem de ns prodigios de virtude, de abnegao, de
paciencia, de que s so capazes as almas bafejadas pelo sopro ideal da
eterna Perfeio.

A mulher precisa de ser moralmente mais forte do que o homem, para
conseguir levar a cabo a tarefa relativamente superior que a natureza e
a sociedade lhe impoem.

No dia em que se assentar este ponto como verdade incontestavel, o mundo
ter dado um dos seus passos mais gigantescos no caminho da felicidade.

Educar a mulher eis o grande problema que resta ainda a resolver.

Educar a mulher  arrancal-a na infancia ao seu bero ffo e tepido de
beijos, e leval-a por caminhos d'uma magestade austera que ella nunca
trilhou.

 preparal-a para a grande lucta moral que  a Vida, com os cuidados com
que Sparta, a guerreira cidade antiga, preparava os seus filhos para as
luctas do corpo, para as victorias da destreza physica.

 associal-a pela comprehenso e pela sympathia a todos os trabalhos e
investigaes do homem moderno;  dar-lhe ao lado d'este um lugar
honroso e definido, no egual pois que so diversas as attribuies de
ambos, mas equivalente em direitos e em deveres.

 fazer-lhe comprehender bem claro que as seduces do corpo--seu
orgulho supremo e seu constante desvanecimento--quando no so reflexo
da formosura e da robustez da alma, no passam d'um lao ignobil armado
ao animal malefico e bravio que todo o homem encerra em si.

Educar a mulher  leval-a a compenetrar-se do seu papel providencial na
familia, e achal-o grande, util, elevado, digno de saciar as mais
levantadas ambies, e tambem--o que  d'uma importancia capital--de
pezar como uma responsabilidade tremenda no animo mais altivo.

 dar-lhe uma ida perfeita do dever e da justia, um Ideal a que tendam
incessantemente as aspiraes do seu espirito, uma religio que a
hypocrisia e os calculos interesseiros no maculem nem amesquinhem, que
se resuma para ella no sacrificio e no amor, mas sacrificio sem
voluptuosidades dissolventes e amor sem extasis hystericos e sem raptos
de paixo sensual.

No basta porm exprimir tudo que se ousa esperar da mulher de manh, 
preciso tambem lanar um olhar demorado e justo ao que  a mulher
d'hoje.

S assim podero comprehender-se os erros que  preciso desarreigar, os
preconceitos que  indispensavel destruir, a distancia enorme que temos
de transpr para chegar ao momento da sua completa e salutar
transformao.


II

As divises sociaes que hoje em face dos homens educados nos mesmos
collegios, nas mesmas academias, nas mesmas escolas superiores, quasi
que se no distinguem, ou se distinguem apenas por ligeiros cambiantes
imperceptiveis s vistas superficiaes, imperam ainda na mulher com
extraordinaria fora. Vamos pois procurar s diversas classes as suas
femeninas representantes, e pincipiemos pela mulher da classe media,
classe que considerada no seu elemento masculino representa a
intelligencia, a riqueza, o commercio, a industria, o progresso d'um
paiz.

A mulher d'essa classe especial divide-se em dous generos
accentuadamente distinctos: aquella que as vaidades sociaes ainda no
corromperam, e aquella que pretende offuscar com os deslumbramentos da
sua opulencia, as finas graas, as exterioridades elegantes, os
requintes herdados e tradicionaes que pompeiam nas regies mais elevadas
da sociedade.

A primeira  evidentemente mais sympathica;  laboriosa e tem a rude
sensatez plebeia da sua raa. Tem o amor dos filhos, um amor animal, um
amor physico, mais instincto do que religio. No raciocina mas sente
com uma energia poderosa e creadora.

 d'uma ignorancia absoluta, ingenua, profunda, quasi sublime na sua
cegueira. Imagina-se porm investida d'um dever supremo a que todos se
subordinam:--o de proporcionar por todos os meios ao seu alcance o bem
estar material do marido, e da familia.

No tem conversao, no tem espirito, no tem aquella doura benevola e
intelligente que  para o corao dos homens o que o algodo em rama 
para o ninho das aves.

Quando aconselha irrita; quando quer guiar contraria, quanto tenta
convencer, despersuade.

 porm activa, aceada, robusta, fiel, e nas horas de adversidade, de
doena, de desfallecimento ou de miseria, tem os carinhos rudes, tem a
dedicao humilde, tem a vigilancia perseverante, tem o exemplo energico
e fecundo por isso mesmo.

O homem anda l fra, na lucta, no trabalho, na investigao, na
sciencia; vae vivendo e vendo como n'uma ascenso rude, desvendarem-se
todos os dias horisontes novos, vae estudando e sentindo como n'uma
iniciao progressiva dilatar-se-lhe o espirito, clarear-se-lhe o
entendimento.

Ella a esposa, a sua companheira, a sua melhor amiga, ignora os seus
combates, as suas glorias, as acres delicias do seu sacrificio, os
desanimos, as horas de impotencia, as aspiraes, os arrebatamentos
triumphantes da victoria.

Percebe simplesmente se o marido est doente, se anda magro, se tem
fastio, se tem roupa branca. Inventa-lhe pequenos pratos, manipula-lhe
remedios caseiros, vigia para que lhe no faltem aquelles commodos que
elle aprecia, tem prodigios de inveno espontanea para o envolver no
bem estar to necessario aos que se consomem n'uma actividade sem
treguas.

De que ha de elle queixar-se? De nada.

 amado,  estremecido, obedecem-lhe cegamente, tem a certeza de
encontrar ao seu lado sempre que o precise um sincero e leal affecto.

Mas quando um sentimento superior o transporta, quando uma grande ida o
levanta e ennobrece, quando um nobre desejo do bello e do bom lhe faz
palpitar de enthusiasmo o corao,  debalde que elle busca junto de si
o espirito que comprehenda o seu espirito, que partilhe as suas
impresses, que lhe revele emfim intima, absoluta, indestructivel, essa
unio ideal sem a qual o casamento  espiritualmente infecundo e
incompleto.

Isto tem de esmorecer fatalmente o impulso que levava esse trabalhador,
esse homem de pensamento ou de sciencia  conquista e  posse da sua
felicidade.

Sem que elle talvez mesmo d por isso, uma tristeza indefinivel, vaga,
sem traduco, lana como que um sopro esterilisador sobre as suas mais
queridas concepes. Falta-lhe alguma cousa que elle precisava e que no
entretanto no conhece nem sabe definir.

Falta-lhe o complemento do seu sr!

Subamos agora na escala social mais um degrau.

O trabalhador incansavel venceu.

O dono da fabrica fez-se capitalista; o chimico enriqueceu com a sua
descoberta; o medico alcanou uma popularidade subita; o industrial
ganhou um milho.

Elle  simples e modesto, lembra-se dos dias em que trabalhava e
combatia, como dos seus dias melhores; no quer offuscar ninguem,
basta-lhe hoje como hontem lhe bastava a consciencia do seu valor
individual.

Ella porm a mulher--e eis a segunda variedade que acima citamos--ella
que deixou penetrar na sua alma ignorante o veneno da vaidade, ella a
quem o trabalho forado j no absorve, e a quem as distraces elevadas
e nobres d'um espirito culto so vedadas, ella que no pensa, que no
medita, que no entendeu bem na sua acepo levantada e digna a misso
exercida pelo marido pois que se envergonhava da pobreza honesta em que
vivera largo tempo, eil-a que deseja esmagar as que a esmagaram n'outra
poca com o pezo da sua superioridade social, eil-a que opera a pouco e
pouco, quasi imperceptivelmente, uma influencia funesta no homem, que o
corrompe, e que o arrasta.

Emquanto elle tivera as serenas e robustas consolaes do trabalho que a
intelligencia illumina, e a que a intelligencia preside, tinha ella
apenas na sua profunda escurido mental, as pequenas humilhaes, as
raivas mal dissimuladas, os despeitos mal contidos.

No podendo ter a consciencia do seu dever o que a faria sublime, s
tivera a consciencia da sua inferioridade, que a tornara mesquinha e
redicula. Chegando o momento da desforra exigi-a completa.

Leitora, quando tu vires passar triumphante, grosseiramente desdenhosa,
mal sentada nos flaccidos coxins d'um _coup_ de oito molas, coberta de
velludos e de rendas a altiva burgueza dos nossos dias, lembra-te que 
o fructo pernicioso da ignorancia combinada com a mais feroz vaidade.

Ninguem a excede no absurdo desprezo por tudo que est abaixo d'ella,
que  mais pobre, mais humilde, menos cheio de lantejoilas e de falsos
brilhantes.

Tem as refinadas atrocidades do paria que se vinga.

Como para ella ser pobre foi o maximo dos martyrios e a maxima das
humilhaes envolve todos os pobres no mesmo olhar de cruel desdem.

As filhas d'esta me so as desgraadas creanas que por ahi vendem a
sua mocidade e os seus carinhos por um titulo avariado ou pelos milhes
d'um negreiro enriquecido.

No as accusemos, accusemos antes a perniciosa, a funesta educao que
receberam, germens que teem no passado as suas raizes damninhas e que
vo estender sobre o futuro a sua sombra deleteria e esterelisadora.

Combater estes erros, lanar por terra estes preconceitos deve ser a
mira de todo o ser que pensa e cr!


III

Deixemos agora os _menages_ modestos onde reina o trabalho ou os sales
vulgarmente luxuosos onde a riqueza ostenta os seus vos orgulhos, e
penetremos no _boudoir_ elegante, onde a mulher do alto mundo proclama o
que se lhe afigura a sua incontestavel superioridade.

Ha um preconceito falsamente democrata, e digo _falsamente_ porque a
democracia tem obrigao de ser justa, imparcial e intelligente, que
attribue aos restos desmantelados da nossa aristocracia, todas as culpas
e todas as inferioridades.

Engano!

 verdade que a aristocracia portugueza avaliada no seu conjuncto, se
annullou pela ignorancia, como a aristocracia franceza se annullou pelo
desdem, e a prova temol-a ns em Inglaterra onde esta classe que no foi
nunca ignorante nem desdenhosa, predomina com todo o pezo d'uma robusta
instituio de seculos nos destinos politicos, economicos e sociaes da
nao.

Hoje porm, o que em Portugal resta de uma raa que teve todos os
privilegios e todas as prepotencias, tenta instruir-se de boa vontade,
aspira a levantar-se pelo valor individual, e se raras vezes o consegue,
 que o passado exerce ainda a sua influencia nefasta,  que a
decadencia e o abastardamento das raas so uma verdade scientifica
contra a qual nada pde a vontade humana.

A fidalga tradicional e lendaria, soberba, sem conseguir ser magestosa,
ignorante, cheia de preconceitos, de rediculos e de toda a especie de
idas estapafurdias, olhando de muito alto com um pasmo idiota que
aspira a ser desdenhoso, para as maravilhas d'uma civilisao que no
comprehende, vae desapparecendo completamente at dos velhos solares da
provincia acastellados e altivos.

Morre sem deixar saudades e sem ter quem a substitua.

Hoje as representantes femeninas das altas classes se no seguem um
caminho mais verdadeiro, mais util, mais fecundo em resultados praticos,
revestem ao menos a sua falsa percepo da ida moderna, d'um prestigio
que  primeira vista agrada e seduz.

A educao d'ellas, uma educao toda exterioridades brilhantes, se no
 aquella de que carecem as mes, as perceptoras de futuro, estabelece
comtudo e accentua incontestavelmente a sua superioridade social sobre
as geraes que as precederam.

A influencia estrangeira e sobretudo a franceza, penetrou nas salas
desbotadas dos nossos palacios e nas luxuosas residencias da nossa
aristocracia moderna.

Se no temos a mulher de familia, a creadora de uma gerao robusta,
conscienciosa, crente e leal, temos a _mulher de sala_, que  uma nova
face da transformao lenta por que vo passando as idas e os
acontecimentos.

A mulher de sala  um producto exotico entre ns.

A Frana recebeu-a da Italia, cultivou-a, transformou-a, deu-lhe todos
os requintes falsos, todos os donaires artificiaes, ergueu-lhe um throno
no seio das suas crtes galantes, e deixou que ns, vendo-a de longe a
cubiassemos e tentassemos transplantal-a para os nossos costumes chos,
para a nossa pobreza envergonhada e modesta.

Sahiu-nos uma cousa hybrida e estranha, que no est em relao com o
seu meio, deslocada, inutil, mas em todo o caso attrahente para os olhos
superficiaes.

A mulher de sala falla umas poucas de linguas, com facilidade e
fluencia; escreve bem, com uma certa graa adquirida que no occulta a
frivolidade, mas que a envolve em vu rendilhado; conversa com vivesa e
com chiste, sabe dar aos pequenos _nadas_ da sua vida uma elegancia que
illude os incautos. Quem a v de longe, no scenario pomposo da sua
opulencia, sente-se deslumbrado; quem a observar de perto conhece que
ella tem de facto caminhado para se afastar das suas predecessoras, mas
que o caminho que vae trilhando  como o que ellas trilharam, um caminho
falso, um caminho sem sahida.

O primeiro obstaculo que a separa da verdadeira luz,  uma devoo
inteiramente errada, em que a ida luminosa e fecunda prgada pelo
Christo se subverte e se afoga n'uma onda de preconceitos e de mentiras
anti-christs.

Se a mulher das classes inferiores estabelece entre si e o marido uma
barreira enorme--a sua ignorancia--a mulher mais culta e mais educada
das classes elevadas separa-se do marido, como se separa mais tarde dos
filhos isolando-se na esphera inaccessivel do seu intransigente
fanatismo.

Quando digo fanatismo, no quero referir-me a uma crena exaggerada e
absoluta, que impere em todos os actos da vida, e que os subordine s
suas austeras exigencias.

 um fanatismo elegante, um fanatismo de _alta vida_, bastante
indulgente para se permittir todos os gozos sociaes, bastante severo
para no admittir que haja virtudes, merito, nobreza, sublimidade
possivel fra do seu estreito gremio.

Aqui como alli  sempre o divorcio na familia debaixo de qualquer dos
aspectos.

Aqui porm mais completo ainda, visto que a vida da sociedade exige mais
da mulher, visto que n'esta existencia de representao exterior e
pueril, nem ao menos subsiste entre a mulher e o marido aquella
intimidade material, aquella proteco mutua que faz com que o homem
seja o brao, o amparo, o sustentaculo, e a mulher o desvelo, a
economia, a vigilancia continua, a dispensadora e reguladora de todos os
confortos materiaes da familia.

A mulher de sala vive para todos, menos para os seus.

Veste-se, despe-se, reza, confessa-se, recebe visitas, tagarella,
agrada, encanta, mas no meio d'este labyrintho de pequenas occupaes,
de pequenos deveres, de pequenas caridades officiaes, de pequenas
praticas devotas, ignora completamente e absolutamente tudo que pde
constituir a verdadeira misso da mulher no mundo e na familia.

Se alguem tivesse a ousadia de dizer-lhe:

--Julgas-te superior e moralmente fallando a mulher do povo que ganha
com o suor do rosto ao lado do homem, o po que os filhos ho de comer 
noite, tem sobre ti superioridade moral incontestavel.

Julgas-te instruida e no tens no teu pequeno cerebro recheiado de
insignificancias bonitinhas, a noo mais elementar dos milhes de
cousas que precisas de saber para estares em harmonia com o teu tempo,
para educares dignamente aquelles em cujas mos esto os destinos de
manh.

Julgas-te virtuosa e no pratcas nem concebes sequer nenhuma d'aquellas
virtudes ss que so a dignidade, o imperio e a fora da mulher.

Julgas-te religiosa e cada uma das tuas praticas acanhadas, cada um dos
teus preconceitos mesquinhos te aparta da verdadeira religio que
allumia e esclarece os fortes.

Julgas-te boa esposa e boa me e vives ssinha n'um mundo teu, povoado
de phantasias morbidas, onde teu marido e teus filhos no penetram; no
tentas acompanhal-os, consolal-os, comprehendel-os; nunca te veio  ida
que a me de familia precisa de viver no corao dos seus, identificada
completamente com elles, para ser digna d'este sagrado nome!

Se alguem lhe dissesse isto ella julgaria ouvir fallar uma lingua
estranha, ou rir-se-ia com desdenhosa incredulidade.

Pois  necessario que ella entenda esta lio, que ella oua estas
palavras, e que pelo seu esforo permanente e consciencioso, ella tente
sahir das trevas intellectuaes e moraes em que a sua funesta e falsa
educao a teem submergido.


IV

No meio do desalento profundo, da inconsolavel tristeza, que n'esta
poca parece obumbrar de espessas nuvens a alma do homem, e como que
vencer-lhe as aspiraes e as energias, erguemos a voz desauctorisada e
humilde para apontar algumas das causas que produzem effeitos to
deploraveis.

Temos visto a desharmonia que existe no lar domestico, e encontramos
como unico motor de tamanho desastre a desigualdade intellectual que a
educao estabelece e nutre entre os dous sexos.

Mas no se trata smente de observar as causas e os effeitos, trata-se
de pensar n'um remedio que seja efficaz para este estado de cousas, que
a prolongar-se indefinidamente produz a dissoluo social nos seus
aspectos mais dolorosos e mais repellentes.

Se a sociedade e a civilisao requintada e corrupta dos nossos tempos
ainda no ensinaram  mulher o caminho verdadeiro e util que tem a
seguir, antes d'elle a teem afastado mais e mais, ella pde ainda
erguer-se do marasmo intellectual em que se compraz, e mostrar ao homem
que  digna de coadjuval-o na sua obra de reedificao, digna de
acompanhal-o na realisao pratica do que para elle, desajudado e s,
no tem passado d'uma bella concepo theorica onde s vezes transluzem
no sei que visos de chimera.

Todos os seculos teem mais ou menos acceitado a herana dos seculos
precedentes.

Ao nosso cabe porm a gloria de ter renegado muitos erros do passado, de
ter proclamado a sua independencia, de ter produzido um reviramento
absoluto n'esse conjuncto de idas, de conhecimentos, de aspiraes e de
theorias que constituem o _ideal_ humano.

O que hoje se exige da mulher  positivamente o contrario do que a
sociedade antiga affeioada por moldes diversissimos exigia at agora.

Este ponto d'uma importancia capital precisa de ser esclarecido a fundo.

 escravido absoluta a que o nosso sexo se curvou sob o imperio de
religies extinctas,  bruteza dilacerante em que elle viveu submerso
entre as sombras das idades barbaras, succedeu--e succedeu
providencialmente--a apotheose da mulher divinisada pelo christianismo,
aureolada por aquella poesia artificial, exageradamente requintada e
platonica dos trovadores da Edade media, e aquella abnegao amorosa e
idealista dos paladinos da cruz!

Essa transformao radical no destino da mulher fez sentir a sua
influencia at hoje, em phases e gradaes successivas e diversas.

 castell de repente acordada do seu lethargo mental, pela tiorba
namorada do pagem, ou pela supplica ardente do cavalleiro, succedeu a
rainha das _crtes de amor_, a que erigia em dogma ideal o adulterio, a
que proclamava em sentenas _preciosas_ a quebra de todos os laos da
familia, a que via no amor requintado, falsamente seraphico, um direito
superior a todos os direitos e deveres domesticos. Veio depois a gentil
pag da Renascena, a inspiradora dos artistas, a amante dos papas, a
musa dos loucos poetas, a princeza dos festins, erudita, apaixonada,
intelligente, cheia de phantasias superiores, que se era virtuosa se
chamava Victoria Colonna, e se era dissoluta se chamava Lucrecia Borgia.

A esta que correspondia ao seu meio social, que cumpria uma misso
civilisadora, que tinha o seu destino marcado, e a sua orbita descripta
succedeu a mulher de sala do seculo XVII e do seculo XVIII, de que hoje
s temos a descendencia amesquinhada, decadente, anachronica, e, o que 
peor de tudo, inutil quando no  funesta, ridicula quando no  tambem
perniciosa, o que lhe succede quasi sempre.

O homem que muitos seculos considerou a mulher um animal inferior e mal
domesticado, fez d'ella movido por influencias que no podemos historiar
aqui, o seu luxo, a sua poezia, o enlvo das suas horas de ocio, depois
novamente a escrava dos seus vicios ou o instrumento dos seus prazeres,
e por fim um mero ornamento social, um brinquedo sem importancia, uma
creana indocil, ante a qual se curvava, no porque a respeitasse mas
porque n'esta falsa e mentida submisso encontrava novos requintes de
prazer.

No comprehendeu porm que era victima da sua propria injustia, que a
corrupo da mulher se convertia para elle em gangrena, que o seu
amesquinhamento se lhe communicava em villeza, que a sua ignorancia o
fazia tambem retrogradar, que ha relaes reciprocas que no podem
quebrar-se, e influencias mutuas a que os dous sexos ao mesmo tempo
divorciados e unidos, no podem por mais que queiram furtar-se.

       *       *       *       *       *

Hoje uma corrente de ar puro, a corrente das idas democraticas,
purificou a atmosphera viciada onde uns poucos de seculos haviam deixado
os vestigios das suas paixes insalubres.

Tudo se transfigurou sob esta influencia benefica. Fez-se uma grande
claridade na alma dos povos e na dos individuos, o pensamento
reconquistou a sua independencia perdida, e uma voz firme e poderosa
bradou bem alto: t

--No se tracta de continuar no caminho que iamos trilhando, tracta-se
de procurar uma nova direco que nos conduza  verdade.

Ouvir esta voz  renunciar aos erros do passado, e cumpre que ns
mulheres renunciemos a elles, para no caminharmos por uma estrada
opposta quella por onde vo subindo fortes, illuminados, convencidos,
os nossos paes, os nossos esposos, os nossos irmos.

No  a uma penna to obscura como  a minha que pertence dar leis
absolutas sobre um systema de educao diverso do que hoje est
geralmente adoptado.

Limitar-me-hei rapidamente e apenas animada com a fora da consciencia,
consultando o bom senso que  apanagio dos mais humildes, e a observao
que pde ser partilha dos mais pobres, a indicar alguns dos obstaculos
que nos separam moralmente d'aquelles de quem smos companheiras e de
quem devemos ser auxilio e complemento.

A vida da sociedade  uma vida toda de egoismo e de vaidade, a vida de
familia uma vida de renunciamento e de abnegao.

Para viver na sociedade a mulher s precisa de ser exteriormente
agradavel, para viver na familia a mulher precisa de ser forte.

O mundo exige as graas, as garridices, as subtilezas do espirito, as
louanias do tracto; a familia sem prescrever inteiramente aquellas,
exige acima de tudo a consciencia firme, a ida clara e definida dos
deveres, o espirito do sacrificio, e aquella energia branda que resiste
s tentaes dissolventes do peccado.

Entendemos pois que os esforos de todos os educadores, de todos os que
se preoccupam com o futuro da sociedade devem convergir para annullar a
mulher dos sales, e para crear e fortalecer a mulher da familia.

No nos revoltamos contra as graciosas futilidades que hoje constituem a
educao feminina, no as condemnamos a um completo ostracismo,
desejamos simplesmente vel-as collocadas no lugar que por sua natureza
lhes compete. So simples ornatos decorativos, como taes os applaudimos
e os queremos, no como fundo solido e base de todo o cultivo
intellectual da mulher.

Tambem no pedimos para o nosso sexo a emancipao, essa utopia de que
hoje se falla tanto e com tantas banalidades impensadas.

O que ns desejariamos era vr na mulher uma personalidade robusta e
consciente, inaccessivel s chimeras da sentimentalidade, solidamente e
despretenciosamente instruida, tendo todas as noes praticas
necessarias para subordinarem o seu destino s leis do bom senso, ao
alcance de todos os descobrimentos e de todas as conquistas do seu
tempo, comprehendendo o bello debaixo de todos os seus aspectos; prompta
para perdoar o mal mas no para transigir com elle; sabendo resistir-lhe
mas sabendo explicar as circumstancias que o attenuam s vezes.

Tendo acima de todas as religies a religio do Bem, sacrificando-se aos
seus affectos, mas sacrificando-se principalmente aos seus deveres.

Laboriosa como condio indispensavel da propria dignidade.

O trabalho  a redempo.

No ha mulher que no tenha conhecido mais ou menos fugitivas, mais ou
menos traioeiras, mais ou menos perigosas, essas horas ms chamadas
tentaes. O trabalho  a salvaguarda para essas horas.

Os espiritos ociosos so os espiritos accessiveis.

       *       *       *       *       *

No dia em que este novo ideal tiver tomado uma frma tangivel at para
os mais humildes e para os mais ignorantes a familia estar salva,
porque ter por esteio a moralidade.

At ento ha de haver as incertezas, as duvidas, as vacillaes, os
desalentos que tornam esta hora da vida das naes, uma hora
contradictoria, estranha, profundamente dolorosa, que j no tem raizes
no passado sem ter ainda um ficto no futuro.

Trabalhem todas as mes n'esta obra sublime, e como a mythica Minerva
sahiu armada do cerebro olympico de seu pae, assim a mulher sahir do
ninho em que se educou, j prompta para receber a p firme o embate
tempestuoso das paixes, que se a vencem a inutilisam e a degradam.

       *       *       *       *       *




CAPITULO II

O falso luxo


I

Na nossa pequena sociedade de Lisboa, em que os meios esto em completo
desequilibrio com os desejos, chega todos os annos um periodo, o periodo
que antecede o carnaval, em que nos julgamos mais ou menos obrigados a
sacrificar ao amor da sociabilidade.

Entendemos que uma sociedade civilisada no pde viver sem festas e sem
saraus, portanto  necessario que sem hesitao faamos tudo que nos
seja possivel, e mesmo impossivel, para darmos e recebermos saraus e
festas.

Ouo eu por ahi dizer e affirmar que os talentos e os genios enxameiam
como papoulas nas seras de abril.

No duvido, no senhor; temos talento, temos genio, temos superioridade,
temos phantasia, temos tudo quando quizerem.

O que ns no temos  uma cousa pequena, humilde, despertenciosa,
desdenhada.

No temos _bom-senso_.

No quero aqui entrar na questo muito complexa e muito complicada de
saber se as festas, se os bailes, se os jantares de gala, se todas as
ceremonias pomposas da vida mundana podem ter no desenvolvimento da
industria, no progresso da civilisao moderna alguma influencia
benefica.

Em outros paizes mais ricos, em outras naes mais industriaes, em outro
regimen mais favoravel ao luxo creio que sim.

Entendo eu, porm, que as leis geraes no se podem applicar a casos
especiaes, e que ns no podemos conservar a vida falsamente luxuosa que
 e continuar a ser por muito tempo o nosso ideal supremo!

Em Lisboa haver cem familias que estejam no caso de gastar em
superfluidades um rendimento avantajado.

Mas, como o amor da representao  o nosso cunho nacional, como o
desprezo pelos pobres  o timbre e o brazo da nossa sociedade, como o
luxo  o sonho e a aspirao constante de todos os cerebros juvenis,
provm d'aqui que dia a dia, se sente na familia uma perturbao e uma
desharmonia mais graves que o contentamento intimo e desinvejoso vae-se
tornando uma flr rara, que s aqui ou alli enfeita suavemente a fronte
ignorante de uma collegial de quinze annos!

Depois, como se no pde vencer o impossivel, mesmo as que empregam os
maximos sacrificios para apparecerem e brilharem, depois de alcanado o
fim a que aspiravam, ficam mais tristes e mais despeitadas do que antes
de o ter realisado.

No baile,  luz opalina dos lustres, no aroma capitoso das violetas,
entre as magnificencias avelludadas das camelias, percebem--e com que
amargo desespero!--que o seu vestido no est fresco, que esto
machucadas as suas flores, que a ninguem illude o amarellado artificial
das suas rendas falsas, e que o _strass_ no pde substituir com muita
vantagem os diamantes verdadeiros.

Oh! quantas privaes, quantos sacrificios, quantas luctas conjugaes,
que scenas intimas, para alcanarem aquella _toillete_ mesquinha,
desbotada, humilhante, que parece ter malicias diabolicas em cada uma
das suas pregas, a rir-se ferozmente no seu _fru-fru_ escarnecedor.

E a dona d'esse vestuario hybrido pensa de si para si com uma furia
concentrada, que pe manchas biliosas nas suas faces, e chispas sombrias
nos seus olhos pisados.

--No consigo humilhar nenhuma das minhas inimigas, no veno nenhuma
das minhas rivaes! As pobres adivinharo todas as penas que esta hora de
ostentao me tem custado! as ricas tero d, um d profundo da minha
miseria mal disfarada e mal occulta! Que ganhei eu com isto?

Ganhou, minha senhora, ganhou alguma cousa, pde crer. Ganhou a certeza
de que seu marido ou no a estima j, se  honesto e digno e tem a alta
comprehenso dos deveres da familia, ou continua a sentir o mesmo que
at alli tinha sentido, uma paixo insalubre ou uma indifferena
bestial, e n'esse caso no passa de um homem tolo, ou de um homem mu!

Ganhou o haver definido, de si para comsigo a sua propria situao;
ganhou o reconhecer bem a que especie de marido entregou o destino de
seus filhos e o seu.

E no se diga que ha n'estas minhas palavras demasiada acrimonia, ou
injustia flagrante.

O nosso defeito consiste positivamente n'isso: em dar pouca atteno a
todas as cousas; em ver os resultados sem observar e sem julgar as
causas; em perdermos completamente de vista, que no ha effeito por mais
mesquinho que no seja o corollario de uma lei importante.

No quero, j se v, condemnar sem appello as senhoras que frequentam a
sociedade e se habituam  atmosphera artificial dos sales.

Quero provar simplesmente que entre cem senhoras que o fazem, s dez 
que o podiam fazer, e que o nosso modo de ser social se no coaduna com
esses costumes pomposos, restos e herana de um extincto regimen.

       *       *       *       *       *

Para se saber quanto o luxo corrompe e adoece um paiz bastar-nos-hia
apontar para a Frana de Luiz XV e para a Frana do segundo imperio.

A historia e as chronicas d'esses dias de ominosa memoria
revelar-nos-hiam de um modo bem claro e bem frisante quanto 
escorregadio o declive que do luxo exagerado conduz  immoralidade, ao
impudor da mulher e s deshonestas transigencias do homem.

No queremos, porm, n'este estudo despretencioso evocar a historia, nem
revolver o lodo das passadas corrupes.

Queremos simplesmente fallar ao bom senso das leitoras, e queremos
fallar chmente, simplesmente, sem declamaes, nem idas preconcebidas.

Todos sabem que o nivelamento das classes, a livre diviso dos bens, a
democratisao das fortunas, se teem conseguido debellar muitas e crueis
injustias sociaes do passado, teem sido tambem a destruio das
colossaes fortunas de outro tempo.

Hoje, quando essas fortunas por acaso existem, so creadas pelo trabalho
em grande escala, pelas importantes emprezas commerciaes, pela
actividade devoradora de homens privilegiados.

J se no fundam como antigamente em direitos estaveis e
indestructiveis. So ephemeras, contingentes, dependem de muitas causas
com que se no pde absolutamente contar.

Uma crise financeira, uma guerra europa, uma quebra importante, um
abalo qualquer de credito, e eis por terra um edificio assombroso e
complicado que parecia dever resistir ao embate de todas as tempestades,
e que um spro logra alluir!

Ora, se isto tem relao com as grandes fortunas, se nem ellas podem
contar com o dia de manh, que faro os que no possuem mais que o
necessario, os que s vezes nem isso possuem?

Antigamente, no modo por que estava constituida a hierarchia social, uns
tinham todos os bens, e outros soffriam todos os males; hoje como todos
teem eguaes direitos, todos querem ter eguaes regalias.

Seria isso muito bom, se a egualdade que existe entre as prerogativas
podesse existir tambem entre as riquezas, se em vez de haver pobres e
ricos, houvesse smente ricos, cousa a que nem os mais exaltados
socialistas se lembraram ainda de aspirar.

Ora, se est sobejamente provado que, principalmente no nosso pequeno
paiz, ha uma minoria pequenissima que  rica, ha uma maioria enorme que
 miseravel, e ha, entre os dous extremos, uma classe, a mais
importante--no fim de contas, visto que tem a superioridade da educao
e da intelligencia, que  simplesmente remediada, porque  que no
havemos de sujeitar o nosso regimen social s exigencias e necessidades
d'essa classe, que  a predominante, seno pelo numero, ao menos pela
influencia que exerce?

Essa classe pde conhecer as distraces de uma agradavel intimidade,
mas no as pompas decorativas, as ceremoniosas galas de uma vida de
salo apparatosa e futil.

Se os filhos d'essa classe olhassem para baixo e vissem as privaes, as
luctas, as miserias dos que s conseguem com o suor do rosto ganhar um
pedao de po duro e cobrir pobremente o corpo emmagrecido, de certo que
se sentiriam felizes, triumphantes, dignos de inveja, na sua
mediocridade aurea, na modesta fartura da sua vida domestica, nas
distraces intimas de um circulo affectuoso e limitado.

Mas no! Olham para cima, vem os ricos, os potentados, os dominadores
do seculo, ouvem nas tentaes febris das suas noites o tilintar
magnetico do ouro, vem passar no fundo dos seus ligeiros coups,
pallidas e desdenhosas mulheres, que medram como flres exoticas de
fulva folhagem metallica na estufa das suas salas opulentas, sentem em
si o desejo insaciado de todos os prazeres que no teem, e sem
prudencia, sem pudor, sem dignidade, atiram-se s especulaes
vergonhosas, transigem com a sua propria probidade, vendem, desde os
bens que herdaram de seus paes, at  consciencia que lhes veio de Deus,
e quando conhecem que n'esta lucta ingloria, n'esta lucta impossivel s
podem ser vencidos, j no  tempo para retrocederem no funesto caminho
encetado!

E que no ha parar n'esta ingreme descida.

Teem-me dito por varias vezes que eu sou feroz para com o sexo a que
perteno; que accuso com muita injustia as mulheres de todos os males
que teem succedido, que succedem ou que esto para succeder no nosso
mesquinho planeta.

Ora eu, pelo contrario, estou convencida de que o meu orgulho, de que a
minha vaidade feminil me levam a dar s mulheres uma importancia que
mais ninguem lhes quer reconhecer.

Eu digo que d'ellas provem todos os males, porque estou
convencida--talvez sem razo--que d'ellas podiam provir todos os bens.

Ainda no ponto de que se tracta  d'ellas toda a culpa, no meu humilde
entender.

Sim, porque no fim de contas, no so os pobres maridos que mais desejam
figurar nos bailes e nos saraus, e que de boa vontade sacrificam a
commoda poltrona em que podiam dormir a sesta, o bom e saboroso
jantarinho que podiam comer, o livro util e proveitoso que comprariam,
para gastarem esse dinheiro n'uma _toilette_ falsamente luxuosa, n'uma
_soire_ ridiculamente burgueza, n'um jantar de ceremonia cujos
acepipes, na opinio do conviva mais guloso, seriam s dignos de
figurarem n'um banquete de theatro com pratos de... papelo.

So as mulheres que teem sempre a louca ambio de figurarem ao par de
outras mais ricas, embora n'essa lucta desigual s consigam tornar bem
visivel e bem grotesca a sua derrota!

So as mulheres que consideram os prazeres mundanos como o indispensavel
elemento para a sua completa felicidade.

So ellas que arrancam s primeiras necessidades do _mnage_,  carne
que os filhos devem comer, s roupas brancas da familia, aos abafos do
inverno,  lenha do fogo das noutes frias,  mobilia commoda e
confortavel das casas, ao peculio das doenas, ao asseio e ao conforto
domestico, o dinheiro com que adquirem esse luxo ridiculo, esse luxo de
_pacotille_ que no illude, nem excita a commiserao de ninguem.

E quando ellas percebem no olhar e na bcca dos que assistem a essa
lucta absurda, um sorriso malicioso, uma faisca de ironico desdem, so
ellas que irritadas, desvairadas, fra de si, arrastam o marido 
extravagancia,  dissipao,  prodigalidade, ao crime, e arrastam os
filhos  miseria e  desolao!

Nada mais funebre, mais triste, mais sombrio do que o interior de uma
d'essas casas, em que o necessario  sacrificado ao superfluo, em que o
real  sacrificado s apparencias, em que o conforto intimo 
sacrificado ao apparato exterior.

As criadas sujas, despenteadas, petulantes; as creanas pallidas,
anemicas, sem educao e sem solas; com os dentes podres e nodoas no
vestido; os moveis indiscretos na mal disfarada miseria, uma unica casa
elegante--a sala--falsa taboleta de uma vida de imposturas; a roupa
branca do marido encardida e grosseira, a _toilette_ da mulher vistosa e
_mirabolante_. As cres _tapageuses_, substituindo a qualidade fina e
solida; a multiplicidade dos arrebiques, substituindo a simplicidade
opulenta do trajo.

Quem depois de conhecer dous annos estas gals conjugaes, se resigna a
viver n'ellas?

Os pequenos preferem o collegio sordido e brutal; o homem foge para o
botequim ou para outros sitios peiores; a mulher vive na rua, na
modista, no theatro, nas salas do seu conhecimento, no passeio, na
ociosidade e depois Deus sabe em que!

Eis a vida creada pelo immoderado amor do luxo.

       *       *       *       *       *

Afastemos porm os olhos d'estes quadros sombrios e que no entanto,
leitora querida, tu bem sabes que no so carregados.

Imagine-se que transformada a sua educao, a mulher se formava
unicamente para o interior da sua casa.

D'essa casa no fugiriam de certo os amigos fieis e dedicados, no se
excluiam as pequenas reunies intimas, a musica, as conversaes
artisticas, as leituras agradaveis, os alegres e joviaes seres.

O que se excluia sem appellao eram os inuteis apparatos.

Como a mulher tinha em mira ser s agradavel aos seus, deixava logo de
armazenar todas as suas armas--o espirito, a graa, o sorriso, a
amabilidade--para distrahir os estranhos, para agradar aos
indifferentes.

Como desejava fugir ao tedio,  melancolia, s enervantes tristezas da
solido, aprendia a dispensar as companhias banaes, fazendo seus
companheiros, os melhores, os que nunca atraioam, os livros, a musica
boa, as flres, o trabalho.

Logo que, em vez de se enfastiar em casa, ella se, divertisse e se
achasse bem junto dos seus, elles comeariam mesmo involuntariamente a
sentir-se aquecidos por essa boa e salutar influencia.

Ninguem pde estar aborrecido ao p de uma pessoa que se diverte
francamente.

O marido por mais que os negocios de fra o preoccupem e enfadem, por
mais que as luctas da arte, do commercio, da politica, da industria, o
cansem e mortifiquem, ha de sentir forosamente um raio de bom e salutar
contentamento ao p da esposa que volitar em torno d'elle viva e
chalreadora como um pardal, fresca como uma flr, animada, activa, cheia
de invenes felizes, e de sincera e desaffectada alegria!

E depois, eliminado o luxo exagerado da existencia de qualquer familia,
eliminam-se ao mesmo tempo os cuidados mais lancinantes, as
preoccupaes mais absorventes, as luctas mais dolorosas, os despeitos
mais corruptores.

Temos visto varias vezes o seguinte: O homem trabalha para dar o
bem-estar  mulher, e rouba para lhe dar o luxo!

 que--note-se isso bem--o luxo quando no  a atmosphera natural em que
se nasceu e se tem sempre vivido, uma cousa que  fora de estar
identificada comnosco, ns j nem se quer percebemos--o luxo quando  o
fim a que aspira a nossa desenfreada ambio, torna-se um elemento
profundamente desmoralisador.

Enerva o corpo, excita fatalmente a imaginao, aggrava a
insaciabilidade natural aos desejos da mulher, d-lhe a ida de
requintes romanescos, de aventuras, de amores vedados, attrahe um
cortejo de voluptuosas tentaes.

A vida das salas  a consequencia inevitavel do amor do luxo que devora
a mulher de hoje.

No a mulher de uma certa e determinada classe, a mulher de todas as
classes sociaes.

A esposa do alto financeiro, do colosso da industria, deseja vestir-se
de um modo que logo de uma vez crte pela raiz na alma ainda mais
ambiciosa o desejo de a vencer.

Ora, como este desejo se nutre de difficuldades, todas as que esto no
mesmo caso d'ella travam a lucta e empregam os mais loucos esforos para
lograrem a palma.

As raras flres da nossa velha aristocracia, no querendo ser
desthronadas pelos potentados modernos, entram, j se v, no combate com
grave transtorno das bolsas de seus respectivos maridos.

A nenhuma d'ellas cabe completa victoria; se as rendas de Bruxellas que
guarnecem o vestido d'esta so mais preciosas, os diamantes que enfeitam
o collo e os braos d'aquella so mais raros; se a _traine_ de velludo
d'est'outra  mais distincta, a tunica de setim e ouro da outra  mais
singular.

E o combate recomea mais feroz, mais acceso, mais desapiedado.

C em baixo a lucta toma as mesmas frmas.  a lucta da falsa riqueza, a
lucta das pedras que fingem brilhantes, das _imitaes_ que fingem
rendas, dos vestidos concertados que fingem vestidos novos.

So mais profundos ainda os despeitos,  mais desesperada ainda a
energia que se gasta!

Quem vive esta vida ardente, inflammada de ambies insalubres, exaltada
de mesquinhas invejas, corroida de miseraveis tricas, no pde, no
sabe, no tem foras para ser boa esposa, boa me, boa dona de casa!

Pintmos em traos rapidos a vida das nossas mundanas; procuraremos
desenhar, se tanto nos fr possivel, a vida que ambicionamos e desejamos
para a mulher de familia.

No dia em que ella a quizer adoptar, reconquistar-se-ha a serena
dignidade, a tranquilla doura do lar domestico, que pouco a pouco se
vae tornando desflorido, melancolico e deserto.


II

Nas paginas antecedentes condemnava eu a vida de apparato, a vida da
sociedade, a _vida de sala_, pela influencia corruptora que ella exerce
nos costumes e nos sentimentos, e pela absoluta desharmonia em que ella
est com a moderna concepo da familia e da sociedade.

No entanto no basta s lavrar a condemnao de um modo de ser social, 
necessario apontar o remedio, ou pelo menos apresentar um alvitre que 
nossa consciencia parea proficuo e salutar.

As mulheres gostam da vida frivola e inutil dos sales, pelos seguintes
motivos:

--Porque as salas so o theatro dos seus triumphos e conquistas.

--Porque  ahi que ellas so lisongeadas, louvadas, incensadas e
queridas.

--Porque os homens s prestam homenagem s mais bonitas, s mais
vaidosas, e s mais ricas, na realidade ou na apparencia.

Alm d'estas causas que as levam a gostar da representao e da pompa
mundana, ha outras dependentes d'estas ou relacionadas com ellas, que as
levam a aborrecer-se no interior das suas casas.

Primeiramente, e acima de tudo, a falta de uma educao solida e
positiva, que as faa encarar a vida debaixo do seu verdadeiro aspecto.
Um aspecto de seriedade e de justia, assentando na comprehenso de
todos os deveres.

Segundo, a inhabilidade e a ignorancia, que as torna incapazes de
qualquer trabalho seguido. A falta de gosto natural ou de gosto
adquirido, para se entreterem, para se distrahirem, para revestirem de
uma frma sympathica e attrahente as suas obrigaes de donzellas, de
esposas, de mes, de donas de casa.

Terceiro, a inveterada frivolidade que herdaram, e que os exemplos
recebidos, e a falsa educao mais aggravou e desenvolveu, tornando-a um
perigo, o maior de todos os perigos que ameaam a familia.

Eu tenho repetido isto tantas e tantas vezes, que receio por fim
enfastiar as minhas leitoras.

_ necessrio antes de tudo transformar radicalmente a educao das
mulheres._

Muitas das cousas que hoje se ensinam  mister que deixem de se ensinar.

Muitas outras que se encaram debaixo de um certo e determinado ponto de
vista, cumpre que se vejam sob outro aspecto inteiramente differente.

Outras ha ainda a que ninguem attende e que se no ensinam, e 
positivamente a essas que se deve dar a maxima e a mais desvelada
atteno.

Tratemos de apresentar exemplos das tres asseres que acabamos de
apresentar.

Das cousas inuteis que hoje se consideram ainda partes integrantes de
uma educao perfeita.

Ha a _dana_: um talento absolutamente dispensavel, que nas meninas s
serve para desenvolver a _coquetterie_, o desejo de brilhar e de
agradar.

A _tapearia_: um pretexto futil para estragar o tempo. Em quanto a mo
vae preguiosamente bordando a talagara, a phantasia irrequieta da
mulher, da creana, corre e va por montes e valles,  procura de um
vedado ou de um impossivel ideal. Chama-se a este genero especial de
trabalho feminino, a _hypocrisia da preguia_.

Como estas duas cousas, ha muitas mais que no temos tempo de enumerar,
mas que se no so nocivas como a primeira, so pelo menos inuteis como
a segunda.

Procuremos agora muitas das materias que se ensinam, e devem continuar a
ensinar-se, mas s quaes a educao tal como est rotineiramente
estabelecida, no sabe dar a importancia e o valor devido.

So a musica, a historia, as linguas, a geographia, a arithmetica, etc.,
etc.

O primeiro cuidado de toda a me vaidosa ou illustrada, intelligente ou
mediocre,  que as suas filhas aprendam a tocar piano.

Muito bem.

 preciso, porm, advertir-se que a _monomania do piano_, tal como ahi
anda inoculada e propagada,  um flagello, um temivel flagello e nada
mais.

A musica  de todas as artes aquella que mais falla aos sentidos e 
alma do homem.

Modera, dulcifica, adormenta, consola, estimula, apaixona, enternece e
muitas vezes, quando profanada e desvirtuada por sacerdotes sacrilegos,
enerva, abranda a energia e a vitalidade do espirito, e vence todas as
resistencias viris do caracter.

 uma amiga, pde ser uma cumplice.

Em todos os casos  um grande, um milagroso, um divino, um terrivel
poder.

Mas mesmo pelo papel importante que occupa, mesmo pela influencia
profunda que exerce, no  dado a todos interpretal-a e comprehendel-a.

Muitos ha que se submettem ao seu irresistivel dominio, sem saber sequer
adivinhal-o ou presentil-o.

Quantas vezes no temos visto uma pobre mulher boal, uma modesta e
ignorante creatura, chorar de commoo ouvindo as notas tristes de uma
flauta ou de uma guitarra!

No tem a consciencia da commoo que a perturba, mas vibram-lhe os
nervos, latejam-lhe as fontes, toda ella palpita e estremece como que
agitada por uma potencia ignota.

Como todas as artes, a musica s pde ser interpretada por quem a
comprehenda com o seu espirito, e por quem a sinta com o seu corao.

De outro modo  uma profanao e  um escarneo.

Achamos, portanto a musica, um elemento poderosissimo de educao, mas
exigimos que haja intelligencia e vocao nas pessoas que a aprendem.

No  fazer do piano um attributo indispensavel de todo o ensinamento
elegante, e obrigar sem discernimento e sem escolha todas as meninas a
estudal-o e a atormentar com elle o ouvido do proximo.

Logo que se comprehenda bem o grande alcance da musica, a sua influencia
moralisadora, a sua misso artistica, as mes escolhero de entre as
suas filhas, aquella ou aquellas que mostrarem predisposio para este
genero de estudo e auxiliaro por todos os modos o desenvolvimento
d'essa vocao.

O piano deixar de ser o flagello e a peste das _soires_ sem ceremonia,
o tormento dos visinhos proximos, o pezadello dos maridos, o martyrio
das proprias executantes. No reinar exclusivamente como at aqui esse
despotico e terrivel instrumento.

No se dir das meninas _bem educadas_: _toca admiravelmente_,
subentendendo j o malfadado _piano_.

Dir-se-ha mais acertadamente: _sabe musica_, _toca muito bem
violoncello_, ou _harpa_, ou _rebeca_, ou _piano_ mesmo, porque ns no
queremos condemnar nenhum instrumento ao ostracismo, pelo contrario
queremos livrar os outros do ostracismo a que esto injustamente
condemnados.

Com esta escolha sensata das pessoas que particularmente devessem
cultivar a sua vocao musical, muitos bens proviriam  educao da
mulher.

A musica executada s por quem a entendesse, ouvida s por quem a
apreciasse, tornar-se-hia, em vez de um ornato de vaidade, uma elevada
distraco artistica.

Educaria e apuraria o gosto, exerceria a sua pura e civilisadora
influencia, seria o repouso depois do trabalho ou a consolao no meio
d'elle.

Os velhos mestres allemes com as suas largas e simples harmonias,
ouvidas  noute no sero modesto da familia, ao p de um ou dous amigos
intelligentes e sinceros, penetrariam o corao da mulher de uma
serenidade affectuosa e dce, de um casto enternecimento salutar!

       *       *       *       *       *

O que dizemos da musica instrumental tem applicao a todas as outras
artes.

O canto, o desenho, a pintura, a escultura mesmo.

Todas merecem o nosso respeito, no como adornos pueris, mas como
elementos de util e fecunda moralisao.

Sempre que a me ou que a educadora descubra em sua filha, ou na sua
discipula, tendencia pronunciada para um ramo qualquer de actividade
intellectual, deve por todos os modos facilitar e desenvolver essa
vocao espontanea.

Mas que a educao de todas no seja pautada por um molde uniforme!

Mas, por Deus! que no se faa d'esta grande e sublime misso de
cultivar um espirito infantil, uma questo de moda, uma questo de
vaidade, uma questo de mutua inveja mesquinha.

As linguas so hoje ensinadas com muito esmero.

Mas que applicao se d a essa sciencia adquirida em muitos annos de
estudo e de pratica?

Uma applicao deveras ridicula!

Entre vinte das meninas que sabem hoje francez, inglez, allemo ou
italiano, no ha quatro que tenham lido Hugo ou Bossuet, Racine ou
Montaigne, Shakspeare ou Milton, Goethe ou o Dante, no ha quatro
sobretudo que estejam aptas para comprehenderem estes mestres do
pensamento e da palavra.

E no entanto para que servem as linguas estrangeiras?

No passam de meros instrumentos com os quaes adquirimos noes, factos,
idas, conhecimentos, que nos seriam estranhos sem ellas.

Na lingua de um povo est consubstanciado muito do que elle  moral,
physica e intellectualmente. Penetra-se no caracter de uma nao
conhecendo a fundo as locues de que ella se serve.

E quem  que hoje encara as linguas d'este modo a no ser algum
philosopho retirado na sua torre ideal, ou algum philologo embebecido
nos seus estudos?

 preciso que este conhecimento se vulgarise e se propague, para que as
linguas estrangeiras tomem na educao o lugar que lhes compete.

A historia, que  um apontoado de datas e de nomes proprios, de
dynastias e de batalhas, logo que passasse a ser na educao das
mulheres o que ella  j no espirito dos criticos, seria um estudo
attrahente, mais dramatico do que todos os romances, de uma realidade
mais poderosa e dominadora.

A geographia, que no  mais do que uma arida e enfadonha nomenclatura,
animada pelo espirito da me intelligente, levaria a imaginao
infantil, no j pelos paizes chimericos, do sonho e do impossivel, mas
por essas regies pittorescas, onde tanto ha que vr e que aprender.

Mais tarde as sciencias naturaes, a botanica, a mineralogia, a biologia,
abririam ao espirito j preparado, horisontes larguissimos, onde pudesse
espraiar-se livremente.

       *       *       *       *       *

Assim educada, quer dizer, sabendo tudo que sabe hoje, mas classificado
por outra ordem, e encarado debaixo de outro aspecto, e muitissimas
cousas que hoje no sabe, mas s quaes a conduziria naturalmente, o novo
methodo dos seus estudos, a mulher transfigurada, levantada,
fortalecida, podia aspirar a uma vida inteiramente diversa da que hoje
tem.

Teria grandes vantagens esta modificao profunda no seu modo de ver, de
pensar e de sentir.

Vulgarisada para todos a educao cujas bases apontamos, desapparecia da
sociedade essa entidade singular chamada _mulher pedante_.

 extraordinario mas  verdade, a ignorancia das outras  que constitue
o pedantismo d'esta.

Sendo uma excepo no seu meio, tem as qualidades e os defeitos das
_excepes_.

Comprehende que  alvo da curiosidade, do pasmo, da observao dos que a
rodeiam, e a pouco e pouco vae cahindo n'uma _pose_ artificial que a
torna ridicula.

Poucas so as que tem a coragem de--tendo um lado superior--se
conservarem simples, desartificiosas, naturaes.

Lram, estudaram, compararam; no meio da estupidez geral, produzem um
vago assombro que lentamente vae distinguindo n'ellas!

Oh! mas no dia em que a mulher instruida deixasse de ser uma excepo
admiravel, como ellas, as pobres _mulheres pedantes_ se sentiriam
humilhadas e deslocadas!

A vida de sala iria pouco a pouco sendo o apanagio das frivolas e das
tlas, e acabaria por desapparecer completamente.

A mulher dentro de sua casa sentir-se-hia bem, porque teria em si
recursos sufficientes no s para entreter os seus, como tambem--e 
isto o principal--para se _entreter a si_.

 essa a grande questo!

 preciso que as mes preparem o espirito de suas filhas de modo que
ellas no precisem dos outros para viver contentes.

E como se ha de conseguir este fim?

Educando-as para que ellas bastem a si proprias. Dando-lhes ao espirito
todos os recursos, ao corpo todo o vigor, ao caracter toda a austera
dignidade; cultivando e desenvolvendo todas as faculdades superiores que
ellas revelem, encadeando harmonicamente as suas acquisies
intellectuaes, para que d'essa harmonia interior resulte para ellas uma
exacta e elevada comprehenso da vida!

E no  muito o que ns exigimos.

Somos a primeira a confessar que hoje ha muito mais esmero e apuro do
que havia antigamente na instruco que as classes abastadas do s suas
filhas.

Pouco mais precisam de aprender; o que lhes falta  a ligao logica
entre as varias cousas que aprendem,  uma concepo mais larga das
mesmas sciencias que adquirem,  o conhecimento das proprias armas que
possuem, contra esse inimigo poderoso da mulher, chamado Tedio.

Em nosso humilde entender classificariamos d'este modo os conhecimentos
indispensaveis a toda a mulher, para esta ser julgada apta a exercer o
sacerdocio de esposa, de me, e de dona de casa.

As linguas estrangeiras, consideradas como meios de adquirir noes
praticas, idas justas, factos positivos; como meios de comparar, de
julgar, de aquilatar, de exercer emfim o seu senso critico, de modo que
o desenvolvesse, elevasse e afinasse; como meios de conhecer as
differentes manifestaes do bello e de as poder relacionar entre si.

A Historia, com o fim de conhecer atravs d'ella a humanidade de todos
os tempos, de seguir a sua lenta e continua evoluo, e de penetrar
lucidamente no sentido da palavra--progresso.

O conhecimento profundo e philosophico da historia moralisa, pacifica, e
revigora as crenas. D ao espirito, alm de notavel perspicacia, grande
justeza de pontos de vista.

Viriam depois, como j dissemos, a geographia natural, a arithmetica, a
geometria, as sciencias da natureza, e isto harmonicamente,
progressivamente, de deduco em deduco, sem esforo, ligando um
conhecimento a outro conhecimento, n'uma cadeia logica e inquebrantavel.

Juntamente com estas acquisies uteis, e como que amenisando os
esforos que ellas por ventura custassem, a me intelligente levaria sua
filha a cultivar especialmente a arte para a qual sentisse mais
accentuada vocao.

Preparada por esta iniciao em que o espirito fosse exigindo dia a dia
alimento mais substancioso e mais forte,  proporo que mais rico de
vigor e de vitalidade elle se sentisse, escusado  dizer, que nenhuma
mulher deixaria de comprehender e de saborear com intimas delicias o
encanto novo e superior com que a arte illuminasse a sua vida.

Seria uma ascenso gloriosa e lenta, s alturas onde se respira um ar
mais puro e mais subtil.

D'alli, d'aquella montanha ideal, a que ella houvesse subido, levada
pela sciencia e pela arte, pelo estudo e pelo sentimento, ser-lhe-hia
facil descobrir o caminho que devesse seguir na vida. A ida do dever,
esta ida que  o remate e a cora da educao perfeita,
apresentar-se-lhe-hia como um resultado natural de todo o trabalho
interior que no seu espirito se houvesse feito.

Chegariamos emfim ao ponto que queremos attingir.

A educao deixaria de ser um fim e tornar-se-hia o meio elevado e
transformado de alcanar a perfeio moral.

Resta, porm, fazer uma pergunta que est no animo de todos.

Sujeitar-se-ha a mulher, assim arrancada de chofre  banalidade da
esphera limitada em que tem vivido at agora, a cumprir as mesmas
humildes obrigaes, que teem sido e continuaro a ser a sua tarefa
quotidiana, e o seu quinho na vida?

De certo que sim, e seguindo o mesmo methodo que seguimos para o seu
cultivo intellectual no nos ser difficil provar que esses mesmos
deveres, logo que sejam comprehendidos dignamente, em vez de humilharem,
so um triumpho para aquella que os sabe exercer.




CAPITULO III

A velhice das mulheres


Nas nossas continuadas predicas cerca da transformao que  necessario
operar-se em tudo que respeita  educao feminina, levamos em mira
principal, duas cousas muito dignas de attender-se.

Primeiro: que a mulher torne quanto possa, independente de
circumstancias exteriores, a marcha do seu destino, quer dizer, que ella
no seja forada fatalmente a seguir um caminho para o qual haja no seu
espirito instinctiva repugnancia, que ella dispense na sua vida
influencias estranhas e muitas vezes incompativeis com a sua indole.

Segundo: que ella se v lentamente preparando na infancia e na sua to
curta e ephemera mocidade, para a quadra mais longa, mais difficil e
podemos hoje dizer, mais dolorosa da sua existencia: a velhice.

Exemplifiquemos, para que melhor seja comprehendido o nosso raciocinio.

No que toca ao primeiro ponto, lancemos em roda os olhos e vejamos. Por
toda a parte encontraremos argumentos victoriosos.

No estado presente da educao a mulher est sujeita a uma funesta
dependencia, a qual mesmo sem tendencia para exageraes declamatorias,
se pde chamar escravido.

Assim como descuram dar ao seu corpo por meio da gymnastica a fora, a
elasticidade, a ligeireza, o vigor, assim descuram dar  sua alma a
energia, que a torne superior aos preconceitos, e ao seu espirito a
forte e larga educao, que a habilite para ganhar honestamente a sua
modesta subsistencia.

Sente-se fraca, e pusillanime diante do trabalho, diante das luctas,
diante da desgraa.

Confessa a cada instante o medo pueril que a avassalla; medo de no
resistir s tentaes que a covardia dos homens arma  insensatez da
mulher; medo do riso alvar com que os tolos lhe castigariam a viril
energia; medo de se sujeitar ao trabalho incansavel e tenaz que ha de
dar-lhe a independencia, a dignidade, a livre posse do seu destino.

Alm do medo a impossibilidade absoluta.

Se nada sabe, o que ha de ella fazer?

Podia dirigir a contabilidade de uma casa de commercio importante.

As mulheres com o seu instincto de ordem, mais desenvolvido do que os
homens, so proprias para este genero de trabalho.

Podia, sendo medianamente illustrada, ser caixeira de um estabelecimento
de modas, de uma loja de papel, de um mercador de fazendas, etc., etc.
Tudo isto est em harmonia com a delicadeza dos seus orgos.

Podia ensinar linguas, ensinar musica, ensinar e explicar as sciencias
que houvesse aprendido, a historia, a arithmetica, a litteratura, a
geographia.

Podia, tendo alguns fundos que houvesse herdado de seus paes,
estabelecer qualquer pequena industria, emfim, ter uma aco propria,
independente e no subordinada aos caprichos alheios, ou s
circumstancias eventuaes.

Mas como no sabe fazer nada d'isto, como a sua educao a pz e a
conserva n'um estado de absoluta e desoladora humildade, no tem seno
tres caminhos a seguir.

Ou casar mesmo que no tenha pelo seu noivo nenhum sentimento de
respeito; mesmo que o ache ridiculo ou estupido ou mu; mesmo que elle
lhe seja imposto unicamente pelas conveniencias egoisticas do seu
futuro; mesmo que nenhum lao de sympathia a elle a prenda, e d'esta
funesta causa escusado ser dizer quantos males terriveis no resultam
para a sociedade e para a familia!

Ou ficar a cargo dos parentes mais ricos, que por commiserao a
acolham, a alimentem, a vistam, a protejam, e n'este caso soffre e
decahe a sua dignidade propria, a alma curva-se-lhe n'uma postura
humilhante, deixa de ter responsabilidade, de ter opinio, de ter
individualidade emfim; constitue-se um ser mutilado cujo aspecto
enfermio faz tristeza e d, quando se no torna um temperamento azedo,
atrabiliario, perverso, folgando no espectaculo de todas as desgraas
alheias.

A terceira hypothese j todos a adivinharam infelizmente.

A mulher repellida da familia, porque a no quizeram inutil e pobre, no
achando em si nem a coragem, nem a sciencia do trabalho, lucta contra o
mal que lhe revela as suas traidoras miragens, mas se mo estranha a no
soccorre e a no prende, succumbe, precipita-se e perde-se.

D'estas tres hypotheses exceptuamos, j se entende, todas as mulheres
que tiverem a suprema felicidade de encontrar no homem a quem entregaram
absolutamente o seu destino, alm do noivo escolhido e preferido entre
todos, o protector mais util e mais dedicado.

Exceptuamos tambem as ricas, porque essas que no tinham em si proprias
a independencia, adquiriram-na indirectamente por meio da sua fortuna.

Mas a diviso infinita dos bens vae diminuindo mais e mais o numero das
ultimas, e a felicidade negativa que ha na maior parte dos _mnages_
tornando as meninas de pouca edade impacientes de sahirem da casa
paterna, imprudentes e precipitadas na escolha, vae diminuindo em no
menor proporo o numero das primeiras.

Como quer que seja, abandonemos essas duas cathegorias de excepes e
achamo-nos em frente de uma numerosissima maioria.

       *       *       *       *       *

Os resultados que encontramos so, portanto, os seguintes:

A incapacidade absoluta da mulher dominar o seu destino, incapacidade
cujas causas j apontmos, produz estes tres generos de victimas.

A mulher que casou, porque no podia deixar de o fazer, que casou para
ter po, para ter casa, para ter luxo, para ter protector, um editor
responsavel da sua vida, e que tendo smente este objectivo, se no
occupou nem um instante em estudar e conhecer o homem a quem ia para
sempre entregar-se.

A creatura humilhada, dependente, parasita, vivendo das migalhas do luxo
que a rodeia.

A desgraada que a sua fraqueza inteiramente desprotegida perdeu e
abysmou.

Nenhuma d'estas mulheres condemnadas ao descontentamento intimo, 
dolorosa inquietao da consciencia, em resultado de uma causa identica,
pde estar satisfeita comsigo mesma.

O que fazem, pois, para fugirem de si? Procuram quanto sabem e como
podem, os outros.

As festas de uma folia burlesca, ou as festas de uma pompa deslumbrante,
o mundo, emfim, a convivencia, o barulho, tudo que aturde, tudo que faz
esquecer.

Ainda aqui os nossos calculos nos no illudiram.

A mulher procura o mundo, porque as alegrias que pde encontrar em si
mesma, no s lhe no bastam para illuminar com ellas o lar onde vive
com os seus, como lhe no chegam para si propria se distrahir e se
contentar.

       *       *       *       *       *

Entremos agora no segundo ponto que ha pouco tocmos.

A mocidade da mulher  forosamente curta. Aquella que se compenetrar
sensatamente d'esta ida, o que deve fazer para attenuar a amargura?

Preparar-se com dignidade, com resignao, diremos mesmo com alegria
para esse longo supplicio da mundana, que se chama velhice.

O homem, desenvolvendo em muito mais larga escala e de um modo muito
mais variado a sua actividade complexa, pde gosar at  mais avanada
edade dos prazeres que por assim dizer mais apreciou.

A ambio, as luctas da politica, as lucubraes da sciencia, as
argucias da diplomacia, as investigaes da historia e da critica, e
mesmo os gosos ardentes da arte.

Vejam-se Goethe, Miguel Angelo, Hugo, Beethoven, Talleyrand, Thiers e
tantos e tantos mais.

A mulher de hoje, a mulher educada por este acanhado ideal que a domina,
funda o seu fragil poder nas graas fugitivas da sua formosura, no
encanto juvenil da sua vivacidade, na sua elegancia, no seu riso frivolo
e pueril, no esplendor radiante do seu luxo, na sua convivencia inutil e
perfumada como a das flres!

Um dia alveja-lhe na massa fulva, cendrada, ou negra dos seus cabellos,
um fio de prata, o primeiro, invisivel para todos os olhos, mas que o
espelho revelou aos seus.

Esse fio traz preso a si a desventura!

Oh! ella reinou, dominou, teve subjugadas aos seus ps todas as foras e
todas as vontades!

A casa, mesmo sendo a casa um ninho ffo e perfumado, parecia-lhe bem
pequena e bem mesquinha para theatro dos seus triumphos.

Era das salas que ella gostava!

Do murmurio surdo, abafado, voluptuoso de admirao, que ella excitava
ao entrar nos sales pelo brao do seu pobre marido, muito enfastiado e
soberanamente ridiculo!

Como todos gabavam o sabio decote do seu corpete, revelando com uma
indiscrio que accendia invejas e desejos em torno d'ella--invejas e
desejos que a enroscavam como serpentes de fogo--a brancura do seu collo
e dos seus hombros, aquella brancura setinosa de camelia, que o orvalho
da madrugada humedeceu.

Como era magestosa a cauda do seu vestido! como as flres e as perolas
se ennastravam bem nas suas tranas opulentas! como os braceletes de
brilhantes mordiam de raios iriados a carnao explendida dos seus
braos!

Como a adoravam, como a detestavam ferozmente aquelles homens e aquellas
mulheres!

Cada olhar tinha a agudeza de uma lamina de ao!

Traspassavam-n'a, feriam-n'a, beijavam-n'a aquellas mudas caricias
insolentes, e aquelles odios violentos e felinos!

E a consciencia da sua formosura, da sua soberania omnipotente, do seu
prestigio invencivel, fazia-a vibrar toda como ao contacto de uma pilha.

Sentia-se rainha. Tinha ditos graciosos, tinha repentes felizes, tinha
epigrammas implacaveis, _coquettismos_ crueis; era espirituosa, era
bella, era triumphante!

A casa, os filhos pequeninos, o marido, os livros, que so to bons
companheiros da honestidade e da modestia, onde ficara tudo isso? Nas
brumas indecisas de um passado que ella no queria ver.

Oh! que intensidade de vida n'estas horas!

Era s pensando n'ellas que vivera. Para que havia de lr, para que
havia de instruir-se, para que havia de ir perguntar  natureza muda, o
segredo de todas as suas riquezas, para ella inuteis e desdenhadas?

Era feliz porque era admirada.

       *       *       *       *       *

Como desce o panno sobre o tablado cheio dos deslumbramentos de uma
magica, assim para ella descera agora o panno, sobre os prestigiosos
esplendores da sua vida de garridice e de vaidade, de luxo e de loucura.

Aquelle cabello branco avisou-a sinistramente de que tudo acabara.

Se contina a luctar com a velhice que nunca se deixa vencer, achar s
escarneos onde antigamente achra cultos, s baldes onde a tinham
acclamado em triumpho.

Se vae procurar as alegrias e as distraces proprias d'essa nova phase
da sua vida, o que  que encontra em torno de si?

No ficra ninguem no lar, que primeiro do que os outros, ella havia
desertado.

O marido andava l fra no trabalho absorvente, ou na dissipao
criminosa. Como ella nada lhe dera nos dias florentes da mocidade, elle
tambem nada lhe queria dar agora nas tardes glaciaes da velhice. Crera
outros interesses ou outras affeies, seguira outro rumo, outra ordem
de idas. J agora no era possivel tornarem-se a encontrar na terra.

Os filhos esquecidos, indifferentes, quasi estranhos, estavam no
collegio ou nas escolas, se o pae tinha tido piedade; estavam na
vergonhosa ociosidade, na vadiagem ignobil, se o pae tinha tido
indifferena.

Em todos os casos, nada de commum podia haver entre essa me frivola e
vaidosa, e esses filhos desprezados.

Os livros? Sim, os livros... Os que ella conhecera.

Eram romances.

Fallavam de paixes indomitas, de amores _mais fortes do que a morte_,
de aventuras romanescas ao luar, com escadas de seda e capas _couleur de
muraille_; de juramentos feitos em voz soluante na sombra voluptuosa
das alamedas; de duettos de ternura cantados pelas Rosinas e pelos
Almavivas de torna-viagem.

Que lhe importava a ella tudo isso, que era agora o enlevo d'outras,
embebecidas na mesma mentira que a transvira, mas que aos seus cabellos
brancos parecia uma ironia cruel!

Mas a natureza  sempre me, a natureza acolhe at os mesmos parias.

Ella tem a sombra das suas arvores, a musica dos seus passaros, o aroma
das suas charnecas em flr, as serenas linhas das suas montanhas azues!
Ella tem a claridade pallida das suas estrellas, a doce melopa das suas
fontes, o soturno e angustioso bramido dos seus mares, a influencia
calmante das suas noites tepidas!

Acolher a natureza aquella que tantos e tantos annos a desconheceu?
No.

E no  que ella seja implacavel ou severa, no  que ella saiba sequer
das mesquinhas miserias que se agitam no seu seio.  porque no  na
velhice que a alma pde iniciar-se n'um culto novo.

 que para tudo  indispensavel uma aprendizagem gradual,  que a vasta
creao s tem consolos tranquillisadores, caricias adormecedoras, para
os velhos, quando teve para os moos sonhos, sorrisos, radiosas
esperanas.

 que a alma, que ao desabrochar no soube ser sensivel  enternecedora
poesia das cousas, nunca saber entender na hora triste do declinar, a
sua ineffavel e divina linguagem!  que os longos horisontes de purpura
e de ouro sabem vestir de bemditas claridades a alma dos velhos, quando
os velhos se recordam, e vem docemente descer a noute cheia de
estrellas e de harmonias mysteriosas sobre uma vida que teve por
companheiros o trabalho, o amor puro, o sacrificio, a abnegao!

Resta apenas como pasto e alimento a estas almas que andaram em busca da
felicidade por toda a parte, menos no lugar to proximo e to
accessivel, onde ella estava, resta-lhe apenas a falsa devoo.

 l que ellas vo buscar refugio.

Vivem nas egrejas, procuram um confessor que tenha a jesuitica paciencia
de revolver com ellas o monto de flres murchas do passado, a ver se
ainda de l vem o vestigio da extincta fragrancia, praticam
fervorosamente toda a casta de supersties rediculas; entram em
associaes pseudo-caridosas, gastam o resto da vida de outra frma no
menos redicula e no menos balofa do que gastaram os dias da juventude.

E de vez em quando, para maior espanto nosso, morre uma em cheiro de
santidade entre a piedosa confraria.

       *       *       *       *       *

O que  pois necessario e indispensavel para todas ns?

 que possamos viver sem o auxilio dos outros, e tirando unicamente dos
intimos mananciaes do nosso espirito e da nossa alma, elementos para
construir com elles a nossa propria felicidade.

Quando a mulher depois de ter recebido uma educao robusta, depois de
ter desenvolvido as suas faculdades no sentido mais amplo e mais
favoravel, depois de estar apta a viver de pouco, a dispensar tudo que
seja luxo ou vaidade, de ter dado uma applicao util s suas aptides
especiaes, depois de ter adquirido uma larga somma de idas geraes, de
noes e de pensamentos justos, quando a mulher emfim, tendo a
consciencia de que mesmo ssinha na vida, saber grangear dignamente o
seu po, olhar em torno de si,--forte, intelligente e instruida--e entre
os homens que a rodearem, e que a preferirem, fixar a sua escolha n'um
homem, esse pde sentir-se justamente ufano.

No haver n'este consorcio nenhuma especulao e nenhum calculo.

Ella est apta a julgal-o, a estudal-o, a entendel-o, por isso foi
raciocinada a sua escolha. Elle achou uma companheira fiel do seu
destino, um guia incorruptivel, um precioso auxiliar.

Trabalharo ambos.

Commerciante ou sabio, poeta ou diplomata, artista ou especulador,
negociante ou politico, sempre a coadjuvao de uma intelligencia
cultivada e flexivel, penetrante e fina, ser de incalculavel utilidade
ao homem.

No vivero de certo nos arrobamentos e transportes dos romanescos e
rapidos amores; tero um fim commum, o bem proprio e o bem de seus
filhos. Tero meios identicos, o trabalho, a mais escrupulosa dignidade
de vida, o estudo perseverante, a economia e a paz.

Como o casamento foi um acto em que no entrou a paixo irreflectida, a
precipitao estupida, ou o calculo inevitavel, ha muito mais garantia
de que essa unio seja duradoura e feliz. Como a phantasia da mulher 
irrequieta e audaz, logo que ella faa o seu fito de alguma cousa de
maior e de mais elevado, deixaro de ser perigosos os seus caprichos.

O homem, preparando-se para casar, tambem no dir comsigo: Vou buscar
um encargo.

Dir com muito mais propriedade: Vou buscar um auxilio.

Eis inteiramente deslocado o velho ponto de vista.

Provir d'esta nova interpretao do casamento o haver muito menos
mulheres solteiras.

As que houver, porm, tero o seu lugar, o seu destino, a sua tarefa.

Trabalharo.

No ha ninguem que querendo e sabendo, se no possa tornar util, e
produzir em bem, tudo que consome em sustento.

Descrescero de certo as industrias que vivem do luxo e da dissipao,
mas crear-se-ho outras novas, mais necessarias, e para as quaes a
mulher poder levar as suas faculdades felizes, s quaes s falta
educao condigna. E quando para todas chegar a velhice ser como a
cora e o remate de um monumento sublime.

       *       *       *       *       *

Ha muito quem alcunhe de pretenso esta minha teima de attribuir todos
os males da familia  falsa educao das mulheres.

Como se ellas fossem tudo!

Como se d'ellas dependesse tudo!

 que realmente, directa ou indirectamente, pela sua influencia
immediata ou pela sua longinqua influencia, o caso  que muitos males,
que muitas desgraas, que muitas immoralidades se lhes devem!

_Cherchez la femme_, direi eu sempre, por mais que achem vaidosa
pretenso feminina esta minha ida.




CAPITULO IV

A dissoluo dos costumes e o casamento


Os philosophos, os moralistas, os observadores clamam continuamente
contra a dissoluo dos costumes modernos, ou descrevem-na com o
pungente _realismo_ da sua solta e desbragada ironia.

Uns accusam, outros fulminam, outros contentam-se com chascos e satyras
de Juvenaes _au petit pied_.

Poucos so os que ao passo que apontam o mal, indiquem o remedio, ou
pelo menos o caminho que deve seguir-se para chegar a alcanal-o.

As theorias so optimas, a pratica  deploravel.

Ninguem  j to ignorante e to desallumiado da scentelha sagrada, que
confunda o bem com o mal, mas o criminoso desleixo de todos,  mais
funesto  sociedade e  familia, do que a ida confusa que em pocas
menos adiantadas se formava dos deveres de cada um.

Sim, a familia parece corroida por um occulto verme, que pouco a pouco
vae dando a essa arvore frondosa, cheia de fructos e de flores, um
aspecto morbido e doentio que entristece e causa profundo assombro aos
que de perto lhe observam o progressivo definhar.

Mas no basta mostrar ao mundo este indicio da sua decadencia moral,
cumpre investigar as causas para oppr um dique aos effeitos desastrosos
que todos os dias se vo mais claramente revelando.

Este dever  de todos; dos grandes e dos humildes. No ha ninguem que
no esteja interessado igualmente na destruio de to terrivel
flagello.

Tragam uns os esplendores do talento que v de cima, e que das alturas
onde paira, derrama luz clara sobre os que labutam na sombra; tragam
outros o bom senso, a experiencia, a f e a boa vontade.

Parece que metade do caminho est vencido, porque se muitos,--se a
maioria--anda transviada, todos pelo menos sabem definir o ideal a que
aspiram, o fim que desejam attingir e do qual involuntariamente se
afastam.

O grande mal da nossa poca --quem tal o diria?-- a preguia
intellectual. Todos trabalham mais ou menos, porm ha poucos que meditem
e que pensem.

O seculo desoito foi o seculo do pensamento; o seculo desenove  o
seculo da industria.

Predomina a materia, aspira-se ao bem-estar do corpo, aos gozos da
riqueza, ao sybaritismo refinado e artistico e pouco se attende  voz
prophetica d'essa Cassandra, chamada philosophia, que debalde clama aos
homens que elles vo por um caminho errado, que trilham uma estrada que
no  a verdadeira, visto que a no illumina e lhe no mostra os
precipicios, a verdadeira e eterna luz.

Os males que affligem a sociedade, que affrouxam os laos da familia,
que contaminam e dissolvem lentamente os costumes, provm de uma causa,
composta de muitas causas complexas, e para combater a qual devem
juntar-se os esforos de todos os que amam o bem.

Ninguem considera o casamento como elle precisa de ser considerado, no
j sob um ponto de vista mystico e sentimental, porm no seu verdadeiro
aspecto, nas suas relaes inilludiveis com a sociedade e com a
verdadeira moral.

Como sempre,   mulher que aqui me dirijo,  com a mulher que eu fallo.
O homem tem-se em muita conta para dar atteno  minha debil e
desautorisada voz.

A mulher attender-me-ha porque  em vista da sua felicidade, da
felicidade de seus filhos, da solidez e do aconchego de seu ninho, que
eu lhe estou aqui fallando.

O casamento no  um contracto puramente social, no  uma unio s
filha da religio e do sentimento, no  uma sanco legal de affectos
egoistas e de paixes indomadas, de tudo isso tem alguma cousa, mas 
muito mais srio, mais sagrado e mais santo do que isso tudo.

Se esta quadra transitoria e convulsa que atravessa a gerao de que
fazemos parte,  triste como nenhuma outra, essa tristeza provm
principalmente das imperfeies que maculam o casamento, das duvidas que
assaltam todos os espiritos ao vr to longe da sua resoluo definitiva
o problema importante da familia.

Por toda a parte o desconsolo, o desalento, a duvida, a melancolia
insanavel dos que, depois de haverem sonhado um esplendido e estrellado
sonho, despertam para as agras tristezas da realidade e nada encontram
que corresponda s radiosas esperanas com que se haviam embalado.

 que realmente depois da escurido caliginosa, da noute lugubre e
sinistra que durante seculos envolveu a humanidade, fizeram-lhe esperar
tanto, evocaram diante do seu deslumbrado olhar tantas apparies
luminosas, apontaram-lhe para um ideal to levantado, fizeram-lhe crr
em to divinas utopias, que todos os desalentos se desculpam ao vr quo
pouco a realidade dos factos correspondeu a todos esses sonhos por ora
infecundos.

Mas no percamos a f; sem ella o mundo caminhar sem ter outro norte
que no seja o perigoso conselho das suas paixes desordenadas.

Se ainda pouco est feito, appellemos para o futuro e vamos preparando
essa evoluo pacifica e luminosa de que j talvez nenhum de ns
aproveite os resultados beneficos.

Esqueamos este egoismo feroz e improductivo que nos faz desanimar em
todas as emprezas de que no possamos com mo soffrega e impaciente
colher os fructos embora prematuros e mal sasonados.

       *       *       *       *       *

No ha nada mais triste do que ouvir o modo desdenhoso, quasi sacrilego,
com que os moos de hoje, os moos de ambos os sexos, fallam do
casamento e da familia.

Elles duvidam, rindo com ironia ignobil de tudo que n'outro tempo amavam
devotamente. Foram-se os bardos sentimentaes e um tanto rediculos,
diga-se a verdade! que amavam sem esperana, mas com ternura apaixonada,
as queridas perfidas, que desprezavam o seu desinteressado affecto.

A litteratura, que  o espelho das sociedades, tem por feio a ironia
mordente, a analyse fria, a dissecao anatomica mais positiva e mais
crua.

O desdem pela mulher manifesta-se sob todas as frmas, e debaixo de
todos os aspectos.

Se acabaram as declamaes de _Benedicto_ e de _Antony_ contra a
tyrannia esmagadora da instituio conjugal, apparecem em logar d'estas
os quadros mais abjectos da dissoluo e da decadencia a que chegou o
casamento e com elle a mulher.

No limiar da adolescencia os que no alardeiam um cynismo falso e to
ridiculo como os transportes romanticos do passado, calculam
arithmeticamente o que pde provir-lhes em beneficios liquidos d'aquillo
a que chamam um _bom casamento_.

No attendem s qualidades moraes, que no podem apreciar nem conhecer;
quando muito, lanam no oramento como uma verba de certa importancia as
vantagens physicas da noiva escolhida.

Nenhum grande pensamento os exalta, nenhuma ida definida e clara da
misso que aceitam os eleva a seus proprios olhos.

Pelo seu lado a _noiva_, a creana radiosa que enfeitam todas as galas e
todas as flres dos vinte annos, gaba-se em confidencia s amigas
intimas, de que _j no tem illuses_ e que _conhece a vida_, a vida de
que ella no leu ainda sequer a primeira pagina!

Casa porque a familia quer, casa porque encontrou aquelle rapaz em dous
bailes, porque o achou _interessante_, _sympathico_, _muito amavel_,
porque emfim  um _bom partido_, segundo diz o pap!

Outras vezes casa porque gosta d'elle, mas gosta d'elle
instinctivamente, animalmente, sem o conhecer, sem saber se essa mo que
aperta nas suas mos virginaes, ser sempre em todas as crises, em todas
as occasies da vida, a mo de um homem honrado.

No dia em que se acham ligados indissoluvelmente o seu primeiro
sentimento  um sentimento de surpreza, quasi de susto.

Dizem ento os frivolos e os superficiaes: o _melhor tempo  o da lua de
mel_.

Engano! Esses dias so os dias da vertigem, mas no so os dias da
felicidade.

Cada defeito que os dous mutuamente se descobrem,  como uma semente
envenenada que ha de germinar mais tarde.

No se lembram do futuro, saboreiam com a volupia da paixo sensual os
prazeres ephemeros d'essa hora que passa. No fundo, bem no fundo do
pensamento, n'um escaninho escuro em que ambos fogem de entrar, porque
sabem que l os espera a desilluso, teem guardadas muitas das tristes
descobertas que fizeram n'aquellas horas de abandono, de loucura, de
extasi, em que as suas almas se embeberam voluptuosamente.

_Elle_ sabe j que a mulher  frivola,  ignorante,  vaidosa, que v no
casamento as alegrias da vaidade, antes de ver os deveres e os
sacrificios; _ella_ tem a certeza de que todas aquellas promessas
radiosas no passam de uma chimera que o tempo desfar, que o marido no
tem as delicadezas que satisfariam a alma da mulher ainda a menos
exigente, e a menos ambiciosa.

Na ebriedade d'aquelles primeiros tempos perdoam-se mutuamente os
defeitos, que parecem at graciosos, lindos e feiticeiros.

O que os entristecer mais tarde, o que avincar de rugas de mau
prenuncio o rosto do marido, e far encher de insondavel tristeza o
corao da mulher, no  mais que a resultante das pequenas e todavia
fataes concesses e desculpas que reciprocamente fizeram os noivos aos
defeitos que viram apparecer nas primeiras horas da convivencia, nos
risonhos dias do noivado.

_Ella_ sahiu do aconchego tepido da familia, das douras do lar paterno,
dos braos amoraveis da me; vem acostumada a quererem-lhe muito, a ser
muito estimada e amada. Em casa conheciam-lhe os gostos, as inclinaes,
os habitos e os defeitos, porque a par das boas qualidades ha sempre no
corao humano um recanto onde se abrigam as deficiencias de caracter e
de genio.

Aquillo que os paes, as mes e as pessoas que de mais perto conviviam
com _ella_ lhe perdoavam,  desculpado tacitamente por _elle_ no extasi
e na delicia ineffavel do noivado; porm, mais tarde tudo isso servir
de base a accusaes asperas, e a censuras amargas.

_Ella_, pelo seu lado, retrahir-se-ha, offendida e triste ante as
imperfeies que outr'ora desculpava, e para as quaes hoje  intolerante
e severa.

Por isso, a me, quando d o ultimo abrao  filha que parte para os
braos do noivo expede dilacerantes soluos de afflico, e lamenta-se
desesperadamente.

-- um estranho, pensa a me, pouco viveu com ella; mal a conhece, viu-a
apenas nos sarus,  luz viva do gaz, cercada de adoraes, risonha,
feliz, espirituosa e delicada. Eu tambem fui assim... Mas como me custou
a aprendizagem da vida! E como esta  devras to outra e differente do
que suppunha!

Pobre creana!

Isto pensam as mes, com aquelle sagrado affecto que nunca se desmente,
e que no trepida ante nenhum sacrificio, por mais arduo e assombroso
que seja.

Mas, de quem  a culpa, bom Deus?

Sobre quem deve recahir a culpa das nuvens que se acastellaram no futuro
da vida dos noivos, a culpa das horas longas e plumbeas que os esperam,
das recriminaes azedas, que faro exploso mais tarde, e que levaro
quelle dce lar tranquillo o desassocego, a duvida, a desilluso, e a
algida tristeza desconsoladora de vermos as ridentes chimeras que se
desfazem lugubremente, e que nunca mais resurgiro?

A culpa deve caber tanto a um como a outro, tanto  mulher como ao
marido.

O noivado  uma iniciao augusta, uma escla onde devemos aprender a
ser justos e tolerantes.

O que hoje transparece vagamente, o defeito que aponta subtil e timido
em meio das alegrias do noivado, ser pouco tempo depois injustamente
considerado uma cousa horrivel e monstruosa.

E mister que o marido e a mulher se no julguem a suprema e alta
perfeio, e que sejam complacentes para as maculas e defeitos a que
ninguem escapa.

O homem, com a sua vida ruidosa e trabalhadora de militar, de
negociante, de artista e de proprietario ter impaciencias, phrenesis e
agastamentos. Quando a sua natureza se expandir livremente e sem peias,
no ser o mesmo que estava mezes ou annos atraz aos ps da noiva,
submisso, trmulo e feliz, no medindo o mundo seno pelo ambito
aquecido pelo bafo da sua gentil amada; perder todo esse ar de
humildade e de escravido, e, sem o querer, ha de ferir a pobre
creatura, machucar-lhe os mimosos caprichos e offender-lhe a ingenua e
nativa delicadeza.

A mulher com o seu pouco ou nenhum conhecimento das difficuldades da
administrao de uma casa, ante o enorme peso das responsabilidades que
prev, ter hesitaes, duvidas e receios, que lhe faro rebentar muitas
e repetidas vezes as lagrimas, no principio da sua difficil e to
ambicionada posio de senhora e dona de casa.

Quando o marido recolher da rua, da praa, das officinas, das academias,
desgostoso, com o corao mordido pelo infortunio, magoado pela
ingratido de um amigo, pela falsidade de um outro em que cgamente
confiara, pelas mil contrariedades emfim da vida, e precisar de uma boa
e querida palavra de affecto, de um conselho leal e sincero, de uma
consolao benigna, a mulher deve esquecer-se de si, velar resolutamente
as feridas que sangram, para s pensar no marido de que  solidaria
companheira, e de cuja consciencia viril deve ser amoravel directora.

Nas mos da mulher est a tranquillidade, o socego, a ventura e a
honestidade do lar, porque ella deve ser a perseverana inalteravel, a
bondade suprema e inexgotavel, a intelligencia allumiada pela doce luz
que dimana do corao.

Que a mulher saiba perdoar, que a mulher desculpe o egoismo, a dureza,
as coleras bruscas do marido, e ver como este saber fingir que ignora
que tambem n'ella existem maculas, que tambem n'ella avultam defeitos.

Se deseja ser perdoada, que perde ella primeiro, que d o exemplo, e os
resultados d'essa condescendencia sero de maravilhoso alcance.

Ah!  preciso repetil-o mil vezes, dmos um caracter de austera
seriedade ao casamento, respeitemol-o, cerquemol-o de garantias
duradouras, se no quizermos que a familia se desmanche, e que a
immoralidade triumphe.

Que as noivas antes de pensarem na inveja que o seu vestido branco e a
grinalda de flr de laranjeira causaro s suas mais intimas amigas,
entrem no seu novo lar, resolvidas a crearem a felicidade do ente, que
apesar de viril e forte ha de ter durante a vida muitas horas de
abatimento e tristeza, que s os beijos de uma esposa honesta espancam.

Que se compenetrem as noivas, que dos primeiros dias do noivado depende
a paz dos dias futuros, a saude, a educao e o porvir dos filhos.

Passados os primeiros dias, volvidos os primeiros mezes, sendo o marido
intelligente e a mulher bondosa, tendo ambos uma completa noo do justo
e da verdade, podero facilmente escolher o caminho que os leve mais
direitos  felicidade, de que tantos casados andam distantes porque se
no souberam corrigir a tempo, e porque deixaram que se expandissem em
espraiada e opulenta rama os defeitos que ambos conheceram e viram com
olhos benevolamente complacentes, e s ento complacentes! de noivos.

No campo no  raro ouvir-se s aldes a quem se pergunta se se do bem
com a vida de casadas, o seguinte dizer quasi invariavel na bocca
d'essas mulheres:

--Ao principio tivemos as nossas _turras_, mas a gente, como o outro que
diz, foi-se habituando um ao outro, e agora no ha que se lhe diga; o
que elle quer, quero eu tambem.

_Ao principio tinhamos as nossas turras_... ouviram?  que no campo ao
primeiro beijo segue-se bem cedo a primeira recriminao;  que no campo
o noivado dura menos, mas em compensao descobrem-se brutalmente as
differenas de genio e as desigualdades que a pouco e pouco vo
desapparecendo.

A mulher, porm, que  sempre mulher, quer ande vestida de sedas, quer
ande envolvida em saragoa, pde com a sua benefica e pacificadora
influencia, tanto no campo como na cidade, desculpando o marido,
conseguir que este lhe desculpe e lhe attenue as imperfeies e defeitos
que esto fatalmente inherentes, ai de ns!  mesquinha natureza humana.




CAPITULO V

As mes e as filhas


Venho ainda hoje fallar s mes a respeito das suas filhas. Creio que 
um meio de ser ouvida com atteno.

Se as mes so pela maior parte das vezes a causa inconsciente dos males
que affligem a educao de seus filhos, no  d'ellas a culpa, que s
levam em mira o bem e a felicidade dos queridos fructos das suas
entranhas.

Mas o amor das mes  cego como um instincto, e como tal precisa de ser
guiado e dirigido.

Entregues a si, transviadas pelas noes incompletas que j lhes eivaram
de erros funestos a educao que receberam na infancia, ouvindo mais a
voz da propria vaidade, que a voz austera da razo, as mes continuam a
suppr que na educao de uma menina se deve attender antes de tudo s
_exterioridades brilhantes_, que faro d'ella a favorita dos sales
mundanos, a elegante e afamada cultora de todas as delicadas
frivolidades sociaes.

Desde a burgueza, que, apenas sahe dos desfiladeiros sombrios da
miseria, j cuida to smente em hombrear com as duquezas que inveja de
longe, at  mais aristocratica descendente das antigas paladinas, todas
teem as mesmas noes falsissimas cerca da educao que suas filhas
devem receber.

No estudam os diversos espiritos que se propoem a adornar com as mesmas
galas sedias; para ellas uma _educao de senhora_ no varia.

Segue sempre a mesma norma absurdamente anachronica.

Os filhos so reclamados pela escola, pelo lyceu, pelo instituto, e teem
de sujeitar-se s regras acanhadas e incompletas da educao official;
as filhas, debaixo da direco mediata ou immediata das mes, comeam no
lar domestico a sua aprendizagem, que  como que a opposio systematica
a todos os instinctos poderosos de que a natureza as dotou.

Turbulentas, como  natural que sejam as creanas, aprendem a suffocar a
espontanea e salutar actividade dos seus pequenos membros. A primeira
obrigao que reconhecem  a _de no fazerem bulha_.

Tornam-se taciturnas e sonsas.

O habito de contrariarem incessantemente os impulsos to naturaes da sua
idade, como que lhes abre o caminho para a hypocrisia, o peior e o mais
vulgar dos vicios femininos.

Sentindo continuamente pesar-lhe sobre a cabea uma presso despotica,
de que no podem reconhecer a justia, aspiram instinctivamente ao
livramento, teem surdas revoltas intimas, de que nenhum olhar sonda os
segredos.

No se desenvolvem na plena liberdade da natureza, ha nos seus corpos
miudinhos um aspecto de enfezamento e de fraqueza que faz pena.

A vaidade maternal cuida ento de as enfeitar; o vestuario das suas
pequenas joias torna-se para as mes--para as mulheres--um negocio de
alta e gravissima importancia.

No ha nada que as satisfaa; os bordados finos, as rendas, as sedas, as
plumas, os velludos, tudo se combina para adornar o gracioso e querido
anjo.

Dous resultados inevitaveis:

A immobilidade a que este luxo condemna as suas victimas pequeninas, e a
feroz vaidade de que elle lhes lana n'alma a primeira semente, que mais
tarde ha de desatar-se em venenosos fructos.

A pequena assim vestida julga-se forosamente de uma essencia superior
s que no podem competir com ella em opulencia; de um lado levanta-se o
orgulho, de outro lado rasteja a inveja.

O gosto de ser contemplada, admirada, de excitar emulaes raivosas, de
ser apontada como um modelo de elegancia infantil, accende no espirito
da creana a funesta luz que mais tarde ha de allumiar os erros da
mulher.

Quando sa emfim a hora em que o espirito exige a sua indispensavel
cultura, o mesmo systema que at alli dominou na educao da pequenina
contina a fazer sentir a sua corruptora influencia.

--Quero que a minha filha se no possa envergonhar de apparecer ao p
das mais ricas!--diz a me enfatuada na sua funesta vaidade.

       *       *       *       *       *

Chamam-se os professores de dana, de musica, de linguas, de desenho, ou
conduz-se a menina ao collegio mais afamado em prendas d'este genero.

Algumas mes exigem tambem que as filhas aprendam a _bordar_ a l, a
_bordar_ a ouro, a _bordar_ sobre escomilha, a fazer _crochet_, flres,
pequenos trabalhos de agulha, proprios para ornamentao de um quarto de
pensionista ingenua.

Outras, mais dadas  sciencia, querem uns elementos de geographia,
alguma historia sagrada e profana, uma leve tintura de arithmetica.

Por cima de tudo isto um p dourado de devoo elegante, ministrada pelo
director das consciencias do _high-life_.

No se admitte de modo nenhum que um velho sacerdote obscuro e
despretencioso, cujos sermes no tenham fama, cujas predicas no sejam
ouvidas, entre suspiros e lagrimas, pelas devotas da aristocracia,
inicie a pequena neophyta nos mysterios subtis da doutrina catholica.

 indispensavel um padre galante, perfumado, estrangeiro, que torne o
ensino da religio alguma cousa de artistico e de adocicado como elle.

_Saber bem doutrina_ constitue um dos deveres de uma educao primorosa,
e no entanto a filha que aprendeu, a me que a mandou ensinar, ignoram
todos os deveres a que esta sciencia, a ser bem comprehendida, as
obrigaria.

Sabem doutrina como sabem grammatica; quer dizer repetem de cr umas
certas e determinadas regras de que no percebem a applicao pratica.

Aos quinze annos a menina preparada por estes elementos tem a sua
educao completa.

Quer seja filha de um duque, quer seja filha de um fabricante, quer o
seu destino a reserve para receber n'uma sala faustuosa os altos
personagens da politica e da diplomacia, para fazer parte da crte, para
conviver n'um p de intimidade com todos os grandes, e com todos os
opulentos; quer ella tenha de partilhar as luctas obscuras de um modesto
empregado, de um industrial de poucos haveres, de um artista
desprotegido,  a mesma a sua educao moral, physica e intellectual.

Est do mesmo modo preparada para as luctas e para os combates da vida;
tem a mesma fora nos musculos, tem as mesmas faculdades no espirito,
tem as mesmas noes na consciencia.

A burgueza ou a fidalga, com tanto que tenham dinheiro, teem os mesmos
direitos, as mesmas aspiraes, ambicionam para suas filhas o mesmo
lugar na sociedade.

Mas o que deve confessar-se uma vez por todas  que esta educao, toda
vaidade, toda orgulho frivolo, toda inutil ostentao, convem to pouco
 filha da aristocracia e da opulencia, como  filha da burguezia e da
mediocridade.

Uma, collocada nos altos pincaros sociaes, precisa de ter o juizo recto
e seguro para conhecer os homens, a graa ondeante e fina para os
attrahir, o conhecimento profundo dos seus interesses e paixes, para os
conciliar entre si; precisa de fallar a cada um a linguagem mais propria
para o convencer e dominar; precisa de ser, junto de seu marido um
auxiliar proficuo com que elle conte, uma intima e fiel alliada, que o
ajude a conservar dignamente a posio que herdou dos seus avs ou que
conquistou com o brao e com o pensamento.

A outra, n'uma esphera que  inferior  da primeira, segundo o ponto de
vista social, mas que de feito lhe  superior, porque inclue mais altos
e mais complexos deveres--a outra precisa de descer com seu marido 
arena onde combatem os modernos trabalhadores, precisa de lhe ser em
tudo e por tudo ajuda, guia e conselho, precisa de acceitar para si
terriveis responsabilidades, para as quaes nenhuma lio a preparou!

Dir-me-ho que o nivelamento democratico das modernas sociedades d a
todos os mesmos direitos, porque d a todos os mesmos deveres; que a me
opulenta e nobre que cria suas filhas nos ffos ocios da riqueza no
sabe se em breve ter de vel-as curvadas ao peso da maxima miseria,
assim como a mulher de um humilde empregado no sabe se ver sua filha
ascender a uma prospera e brilhante posio, elevada por um d'esses
casamentos que so vulgares, como d'antes eram raros.

D'accordo, meus senhores; mas essa hypothese em cousa alguma destre a
minha assero, pois o que eu disse e repito  que a educao feminina,
tal como hoje a entendem, para nenhuma classe da sociedade, para nenhuma
posio brilhante ou precaria  util ou conveniente.

       *       *       *       *       *

Que desenvolvimento moral, physico ou intellectual, pde adquirir-se
partindo de to errados principios?

A que fim se aspira, que fim se attinge, alcanando uma educao que tem
por unica base a vaidade?

Pois a mulher, que levou annos e annos da sua vida a adquirir
conhecimentos inuteis, est porventura armada para resistir s
tentaes, s adversidades, s miserias, aos combates da vida?

Imagine-se, em contraposio a esta falsa cultura, que constitue o que
os burguezes embebecidos em comico enthusiasmo chamam uma _educao
muito fina_, imagine-se que as mes, juntando-se n'uma piedosa cruzada,
conseguiam crear uma instituio moderna, onde suas filhas recebessem a
educao que hoje lhes poderia servir, para se tornarem uteis na
sociedade e na familia.

Quantas vezes no tenho eu acariciado em sonhos a ida d'essa
escola-modelo, onde a creana aprendesse a ser mulher, onde a mulher
aprendesse a ser me! onde uma direco harmonica e intelligente
presidisse ao desenvolvimento do espirito e ao desenvolvimento no menos
sagrado do corpo; onde a moral caminhasse a par da sciencia, onde a
primeira noo que o entendimento feminino recebesse fosse esta: Todo o
trabalho nobilita e exalta a quem o executa com a consciencia de cumprir
um dever!

Eu no quizera por certo proscrever da educao da mulher as graas, que
so para ella o que o perfume  para a flr.

No queria vr o mundo convertido n'um viveiro de _pedantes_,
enfronhadas em sciencia e tornando antipathica a virtude,  fora de lhe
darem ares dogmaticos.

Se a leitora suppe de mim tal abominao,  que eu bem pouco tenho
conseguido revelar-me aos seus olhos.

O meu intento  outro; permitta-me que lhe torne aqui bem palpavel.

V. exc.^a, minha senhora, tem uma filha, um pequenino anjo, louro e
risonho, que  n'este mundo o seu enlevo, como que um bocadinho do cu
azul, que lhe cahiu no seio n'um dia abenoado.

Tome o meu conselho: no siga na educao do seu pequeno amor o systema
que sua me seguiu comsigo, que as suas amigas seguem com as filhas que
teem.

Crte de uma vez este fatal n gordio da tradico, do costume, da
rotina, que faz morrer em flr tantas innovaes beneficas.

Tenha a coragem das suas opinies; inutilise esse formoso e rico enxoval
que umas modistas banaes inventaram por ordem sua; deite fra essas
sedas, essas rendas, esses instrumentos de perdio para a alma
pequenina que Deus lhe confiou.

Vista sua filha simplesmente, com um aceio gracioso e poetico, que
revele os seus desvelos de me, mas que no denuncie as suas vaidades de
rica.

Bem v que, livre de todo aquelle fausto que a incommodava, como um lao
de fita incommoda uma ave, a sua doce pequenina se sente mais livre e
mais contente.

Eu bem sei que ainda ha pouco uma amiga sua, passando por ella, a mediu
dos ps  cabea, muito espantada e um pouco desdenhosa, perguntando a
si mesma se v. exc.^a j no era to rica como ella julgou; mas em
compensao d'esta pequena ferida de seu amor proprio, houve uma creana
pobre, que ao parar junto da sua filhinha, ousou estender a bocca de
rosas, e beijal-a com um dce e fraterno beijo, como os anjos se do
entre si, e para os quaes Deus do alto da sua gloria teve sempre um
sorriso bom!

Que importam os desdens dos parvos e dos mediocres aos que no teem as
invejas dos miseraveis a pezarem-lhe na cabea como uma eterna maldio!

Quando a sua filha passa com o seu vestidinho branco, muito simples e
muito aceiado, as mes pobres sorriem-se com amor por dous motivos,
ambos santos: porque ella no humilha ninguem, e deixa uma esmola de po
e um rasto de luz no seu caminho de anjo inconsciente.

Oh! como so doces ao corao das mes as benos que se desfiam como um
rosario de perolas sobre a cabea loura de seus filhos.

       *       *       *       *       *

Quando a intelligencia j viva e luminosa da sua filha lhe pedir
cultivo, como as flores pedem agua, no a force a um trabalho pesado e
tenaz, nem to pouco lhe d da vida uma ida to frivola, que ella s
aprenda o que  superfluo para no dizer inutil.

Abra-lhe com a sua mo maternal to delicada e to subtil o vasto livro
da natureza, e deixe que ella, enlevada e curiosa, o folheie cheia de
amor e de f. Toda a sciencia se encerra n'isto, minha senhora.

Faa-a penetrar na alma de todas as cousas para que a vida se no
conserve aos seus olhos inanimada e esteril.

Em vez de lhe ensinar a doutrina morta que vem nos livros, leve-a
brandamente por um declive suave a comprehender o espirito d'essa lei,
que  feita de tanto amor!

Conte-lhe as miserias occultas que ha n'este mundo, ensine-a, ou antes,
deixe que ella adivinhe como essas miserias se consolam pela esmola do
po e pela esmola do carinho, e, quando ella voltar do albergue da
desgraa, ao seu lado, calada, pensativa, com os olhos cravados nas
nuvens alaranjadas do poente, pergunte-lhe ento baixinho, com a sua voz
de me, a unica que nunca perturba nem afugenta os sonhos de uma
virgem:--Comprehendes agora as palavras do Christo: _Ama a Deus sobre
todas as cousas e ao proximo como a ti mesmo_?

S este commentario das lies do Justo pde fazer com que ellas dem
abenoados fructos!

Em vez de lhe occultar os mil subterfugios com que a maldade humana
tenta avassallar e corromper a innocencia, innocule-lhe lentamente com a
sua palavra serena e firme a fora necessaria para vencer e dominar as
astucias criminosas e traioeiras.

Faa-lhe sentir com a lio e com o exemplo que a mulher tem quasi
sempre em si o seu peior inimigo, e que este inimigo, que toma todas as
frmas imaginaveis,  sempre no fundo o mesmo! o orgulho.

Que ella comprehenda bem que o dominio que a mulher exerce pela sua
bondade nobilita aquelle que se lhe submette, emquanto que o despotismo,
que tem como origem a belleza e a graa artificial das seduces,
rebaixa o homem que o acceita, e a mulher que o pe em aco.

Nas cousas triviaes da vida pratica prepare-a para todas as
eventualidades.

Que se no ache deslocada n'um throno, nem atraz d'um balco.

Eis o ideal.

Ha uma dignidade que est comnosco, que participa da nossa propria
assencia, que provm da noo elevada que ns temos dos nossos direitos
e dos nossos deveres, e que  portanto independente de qualquer
circumstancia exterior.

 d'esta dignidade que uma educao justa e forte deve dar  mulher, e
que em todas as peripecias da vida, por mais desusadas e estranhas, a
deve acompanhar.

Ter bastante humildade para exercer sem repugnancia os trabalhos menos
delicados, e bastante superioridade para comprehender a ida do dever
que os exalta e sobredoira; ver na vida, primeiramente as obrigaes,
depois as distraces, eis aquillo que todas as mes devem ensinar s
suas filhas.

No dia em que todas o souberem, teremos ento, em vez das creanas
fracas e inuteis, que o homem ora protege, ora escravisa, segundo o
impulso das suas ephemeras paixes, uns seres pensantes, conscios da sua
fora, sem ambies desregradas de um poder que lhes no deve pertencer,
sem a hypocrita humildade, que faz de cada mulher uma victima pouco
sympathica.

As salas tero menos estatuetas de _biscuit_ amaneiradas e ridiculas,
mas a familia ter mais elementos na vida e durao; os pianos deixaro
de suspirar em noutes de luar as suas sentimentaes confidencias; mas a
verdadeira comprehenso da arte, da religio, e da poesia penetrar como
por encanto nos entendimentos feminis.

Teremos emfim ao lado do batalhador das modernas lides uma companheira,
no s digna d'elle, porm capaz de o levantar a um nivel que elle
ainda, desacompanhado e desprotegido, no pde desgraadamente attingir.




CAPITULO VI

Leitura para nossas filhas


                                                   Minha querida amiga:

Disse-me hontem que sua filha tinha esgotado a pequena bibliotheca
infantil, que a muito custo colligio para ella, e que esse candido e
luminoso espirito, de quinze annos exige energicamente mais alimento que
a nutra e que a deleite.

Pergunta-me a respeito da leitura que ha de permittir a sua filha, a
minha opinio, o meu conselho.

 um caso difficil este que me prope.

Lili  uma graciosa e excepcional creatura; tem a logica inflexivel das
creanas intelligentes, tira rapidamente a concluso das premissas que
submettam ao seu criterio. A leitura pde fazer-lhe muito mal ou muito
bem; no pde de modo algum ser-lhe indifferente.

A minha amiga seguindo as tradices que j encontrou assentes,
pergunta-me se pde deixar ler a sua filha _Paulo e Virginia_, esse
idyllio que tem cem annos e que ameaa ser eterno, ou _Jocelyn_, o poema
mais perigosamente mystico que eu conheo. Falla-me no _Genio do
Christianismo_, de Chateaubriand, e nas tragedias sacras de Racine.

No se lembra para sua filha de nenhum outro escripto e lembrou-se
justamente d'aquelles que s lhe podiam fazer mal.

Antes de mais nada, responda-me francamente: quer fazer de sua filha uma
mulher solidamente instruida ou ento uma mulher ignorante?

Quer que ella saiba resistir s tentaes que forosamente ha de
encontrar na vida, ou quer que ella se conserve na mais completa e
absoluta inexperiencia at  edade em que ha de entregal-a ao homem que
tem de ser seu marido?

Da resposta a estas duas perguntas  que tudo depende, porque segundo a
ida que a minha amiga frma da educao de uma mulher, segundo o
systema que tenciona pr em pratica com relao  educao de sua filha,
o futuro d'esta ha de levar um outro caminho.

Eu no posso dizer-lhe positivamente: faa isto, faa aquillo.

Posso apenas contar-lhe o que fiz.

Minha filha tem hoje vinte seis annos,  casada,  me, e tem sabido
cumprir a dupla e difficil misso que a sorte lhe confiou.

No sei se deva attribuir os meritos que todos lhe reconhecem  educao
que procurei dar-lhe; parece-me, porm, que sem falsa modestia poderei
confessar, que os meus cuidados no foram de todo inefficazes, e que o
muito que pensei e meditei sobre o caracter da minha querida filha, me
ajudou a guial-o no caminho do seu aperfeioamento.

Ha gente que diz que as mulheres no devem ler.

No sei se alguma vez tem ouvido essas opinies estupidas ou perfidas;
no lhes d credito minha boa amiga.

Eu no acho merito algum  mulher ignorante, que se resigna ao
cumprimento dos seus obscuros deveres de todos os dias.

Segue rotineiramente um caminho de que no conhece as difficuldades, e
se no se afasta d'elle  porque no sabe de nenhum outro.

A mulher deve ler, mas se mais tarde no pleno uso das suas faculdades
mentaes, e da sua fora moral, ella pde ler tudo sem perigo, 
indispensavel que uma educao anterior a tenha preparado e fortalecido,
 indispensavel que haja o maior cuidado na cultura intellectual que
ella deve receber na infancia e na adolescencia.

Diz-me a minha amiga, que a maior parte dos romances so immoraes, que
os que no so immoraes nos intuitos so perigosamente exaltados ou
revellam ao espirito da mocidade quadros que ella no deve conhecer:
diz-me que a historia de todos os povos no  mais que um amontoado
confuso de crimes e de vicios, que a sciencia est em contradico
absoluta com as verdades de religio, e no meio das duvidas que se
desnorteiam e assaltam quasi que prefere condemnar sua filha a uma
ignorancia que ao menos a conserve simples de corao e tranquilla de
espirito.

Tenho duas objeces a fazer-lhe minha amiga, e parece-me que ambas ho
de impressionar o seu esclarecido entendimento.

Em primeiro logar, se consultar bem a sua consciencia, ver que transige
por fraqueza e por preguia com a ignorancia de sua filha.

Prefere que ella no tenha quasi nada, a ter de se entregar a trabalho
difficilimo de escolher com o mais delicado dos escrupulos o que ella
deve saber.

Em segundo logar, essa ignorancia, que para a mulher lhe parece o porto
socegado e tranquillo onde ella repousar affoutamente, parece-me a mim
um banco de perfidas areias onde facilmente ella pde naufragar.

J estou d'aqui prevendo a sua objeco.

Mas eu no quero tal que minha filha seja ignorante. Pelo contrario,
dei-lhe uma excellente educao. Aqui no se tracta seno das leituras
que depois de educada eu lhe devo permittir ou recusar.

Minha amiga, creia isto que lhe vou dizer. Se sua filha no souber seno
o que tem aprendido at agora, de poucos recursos fica munida para
combater na grande batalha em que vae entrar.

Ensinou-lhe o cathecismo, bem sei; Lili fez j a sua primeira communho,
e respondeu ao exame de doutrina com admiravel facilidade, e com uma
memoria impecavel.

E depois?

Em que  que essas noes a auxiliam para que ella chegue a conceber o
bem absoluto, a eterna justia, o Espirito Supremo que anima a grande
natureza?

 preciso que ella forme de Deus uma larga e fecunda ida, e as
manifestaes da sua grandeza no esto no cathecismo, esto espalhadas
n'essa creao universal que ella no sabe ver e que ella no conhece.

Conhece a historia pelos pequenos opusculos cheios de todas as maculas e
impurezas, que deixaram chegar s suas mos infants.

No ser uma irriso dizer que ella conhece a historia?

Sabe os nomes dos reis, as datas dos seus nascimentos e mortes,
coroaes e consorcios, e os filhos que tiveram e as cidades e villas
que conquistaram; mas que ida tem ella d'essa historia sublime, que
participa do drama e da epopa, que tem paginas doloridas e paginas
brilhantes, que tem cantos triumphaes, e gemidos de lutuosa angustia,
d'essa historia em que esto registradas tantas luctas heroicas, tantas
conquistas immortaes, e que se chama a historia da humanidade?

No lhe parece que deve ser um estudo elevado, fortificante,
robustecedor, que faz conhecer melhor, os esforos titanicos que o homem
tem empregado para alcanar a quasi omnipotencia que hoje possue?

Do homem rude, primitivo, inhabil, rodeiado de perigos para o corpo e de
chimeras para o espirito, esmagado pela fora brutal da natureza, sem
comprehenso do destino que o esperava e da misso a que vinha, at ao
homem dos nossos dias, ao rei, ao victorioso, ao vencedor, ao que tem
dominado todas as tyrannias que o dominavam, que differena enorme vae,
minha querida amiga!

Entre o pria errante das selvas pre-historicas e esse triumphador que
se chama Newton ou Goethe, Claude Bernard ou Victor Hugo, ha a distancia
de uns poucos de milhares de seculos, que  preciso conhecer ao menos
pelos marcos milliarios que teem assignalado a passagem dos mais
illustres caminhantes n'essa estrada luminosa que se chama civilisao.

 isso que eu chamo conhecer a historia.

D'essa sciencia o espirito de sua filha, curioso, vido, aberto para
todas as grandes cousas, s pde colher proveito, um enorme proveito
cujo alcance mal lhe posso explicar!

Dir-me-ha que n'essa historia ha crimes ignobeis, ha quadros
revoltantes, ha homens condemnados cujo contacto pde ferir o delicado e
original espirito de uma creana.

Oh! mas tambem ha martyrios, sacrificios, abnegaes, arrojos sublimes!

Se ha criminosos, tambem ha heroes; se ha algozes, tambem ha martyres;
se ha monstros, tambem ha santos.

Deixe que no cerebro da creana se faa a mysteriosa elaborao de que
ha de sahir o culto pelo que fr bello e bom, o odio raciocinado e
violento a tudo que fr abjecto e vil, a compaixo virtuosa e divina
para tudo que fr fragil e ignorante!

Ponha nas mos de sua filha todos os cantos d'essa epopa enorme.
Faa-lhe lr com atteno essa historia, e quando ella tiver chegado 
ultima pagina, ser mulher. Uma mulher instruida, uma mulher forte,
capaz de ser esposa digna, e me desvellada, tendo aprendido a conhecer,
comparar, julgar e a pensar.

No sei se comprehendeu bem a ida que procurei expr-lhe. Apontei a
traos largos a direco _una_ que deve dar s leituras de sua filha.
Isto a que chamei conhecer a historia, no , como viu, ler simplesmente
os historiadores.

 lr, dominada por uma ida de elevada critica, que as conversaes
d'uma me intelligente podem dar, todas as que tenham trazido a este
thesouro formado pelos seculos, algum conhecimento precioso e util.

Os bons historiadores como Macaulay e como Herculano, os poetas que
vivificam e animam o passado, que entram no espirito de todos os
seculos, como Michelet: os viajantes intrepidos, os exploradores, os
navegantes, os homens de sciencia, conquistadores tambem e dos mais
gloriosos; os moralistas, os criticos, todos aquelles que buscam
lealmente a verdade e que aspiram ao aperfeioamento do homem.

Fallei-lhe de Michelet e deixe-me dizer-lhe o que penso d'elle.

 o corao mais apaixonado de justia que eu conheo, o que o no priva
de ser injusto muitas vezes; mas tem uma alma to grande, tem uma
comprehenso to viva do bello, tem faculdades artisticas to poderosas,
que para mim no ha companheiro melhor para um espirito moo.

Deixe que sua filha leia muito Michelet.

 um grande mestre. Atravez d'elle ella saber sentir melhor, amar com
um amor mais intelligente a natureza.

Michelet tem a doura misericordiosa que redime e levanta os humildes e
anima os fracos, tem a paciencia que penetra no intimo dos sres mais
inferiores, e que o illumina de uma luz sympathica.

Sabe fazer ver tudo, sabe explicar todos os mysterios.

 um genio que tem alguma cousa de propheta.

Como  bom, divinamente bom, o contacto d'aquelle espirito, d bondade e
fora.

Para elle no ha na natureza, nada que tenha vida, e no tenha alma!

Da planta ao mollusco, e do mollusco ao homem tudo que vive ama, e tudo
que ama tem direito ao nosso amor.

Doce philosophia que nos ensina o segredo de todas as misericordias!

Minha querida, ainda que para mim Michelet seja o melhor dos poetas, no
entendo que das leituras de uma menina se deva proscrever
implacavelmente a outra poesia.

Quando digo isto refiro-me  poesia rimada,  que canta no ouvido, com
uma musica que  muitas vezes traioeira.

Procure no entanto que seja o mais tarde possivel, que essas vozes de
sereia penetrem no ouvido de sua filha.

Oh!  que  preciso muita fora para resistir  influencia dissolvente
que ellas teem em ns.

Nunca perca de vista que a vida  um combate, um rude e terrivel
combate, e elles os que cantam e os que choram em vez de inocularem no
espirito a fora de que este precisa, tornam-n'o debil, amollecem-n'o,
em voluptuosidades enervantes.

Ninguem tem medo de Lamartine.

As mes do-n'o a ler s suas filhas, os noivos do-n'o de presente s
suas noivas.

Para todos elles  o mais puro dos poetas, um cysne que nunca maculou as
suas pennas brancas no lodaal das paixes insalubres!

No se illuda com este juizo que universalmente se formou a respeito de
Lamartine e dos melancolicos da sua escola.

Que maior perigo para uma alma juvenil do que a aspirao a um ideal
impossivel? do que a sede de venturas irrealisaveis e do que o sonho de
amores que no existem?

E depois os poetas inconsolados e inconsolaveis no ensinam a luctar
contra as magoas da vida. Ensinam a curvar a cabea aos golpes da
fatalidade, ensinam a chorar covardemente, a deliciar-se nas agonias, a
saborear a doura debilisadora das lagrimas!

Saudemos os que combatem virilmente, os que vencem a desgraa, os que
furtam a sua alma s languidas tristezas da desesperana, saudemos os
que so fortes, alegres e bons.

 d'essas intelligencias eleitas, que sua filha deve smente
alimentar-se.

Ella ha de querer ler romances.

 natural.

Os romances so a fantasia, e na vida das mulheres a fantasia tem um
grande logar.

 na escolha d'esses que precisa ter o maior cuidado.

Proscreva sem d, da bibliotheca de sua filha, as obras primas dos
romancistas francezes.

Balzac  um anatomista implacavel.

Os seus romances matam a flr da f na alma dos innocentes.

Georg Sand  um bello anjo revoltado.

Tem o orgulho de Satanaz na imaginao de uma mulher apaixonada.

Octave Feuillet to fino, to delicado, s deve ser lido depois dos
trinta annos.

Daudet um delicioso romancista, comeou a escrever n'uma poca doentia;
ha n'elle um no sei que de morbido que entristece e que faz mal.

Escusa de procurar minha amiga.

Ns as mulheres para quem a vida j no tem segredos, adoramos esses
escriptores, porque elles contam-nos o que j tinhamos adivinhado,
relembrando-nos o que tinhamos sentido; descrevem-nos o que tinhamos a
curiosidade de conhecer, mas as creanas que os lerem devem experimentar
bem dolorosas surprezas.

 a litteratura ingleza a mais rica, a mais fecunda no genero que
procura.

Walter Scott um verdadeiro poeta, reviver para sua filha as scenas mais
pittorescas de um passado aventuroso.

Puros amores, enthusiasticos guerreiros, heroismos nacionaes,
sentimentos caracteristicos de uma raa energica e arrojada, incidentes
romanescos, mas de um romanesco so, tudo que tem o poder de enlevar e
attrahir a imaginao colorida e ardente de uma mulher de poucos annos.

No ha creaes femininas mais diliciosamente virginaes do que as do
romancista escossez.

As suas mulheres, como as mulheres de Sakspeare, como as mulheres de
Dickens, so feitas de um raio de luar, de uma petala de rosa, de um
canto de rouxinol.

O crime nem de leve se approximou d'ellas; o vicio, de envergonhado,
cra na sua presena; no conhecem as ms tentaes, as vigilias
ardentes, os sonhos que perturbam e agitam a alma das outras mulheres.

Que doces e queridos exemplos! que bellas e radiosas companheiras.

As escriptoras inglezas seguiram a tendencia moralisadora da sua nao.

Os livros de algumas d'ellas teem a graa d'um narrar discreto e
_nuanc_.

No se queixe de que no pde dar  sua filha romances que a distraiam,
sem a inquietarem.

Dickens o mais energico e convencido dos moralistas, Mrs. Graswell,
Broute, Georges Elliot e muitos mais que no tenho tempo de enumerar,
ahi esto para desmentirem.

Que sua filha entremeie a leitura de escriptores mais instructivos com
esta outra leitura amena e agradavel, e ver como ella aprende a gozar
da companhia dos bons livros, e a dispensar as futeis distraces
mundanas que esterelisam o espirito, e o tornam mesquinho e baixo.

Assim, absorvida pelo estudo bem dirigido, pelas elevadas distraces
intellectuaes, assim educada, fortalecida, illucidada, ver como ella
chega  edade propria de escolher o seu destino, possuindo um so
criterio, uma penetrao delicada, uma firmeza de principios que a ponha
ao abrigo de qualquer tentao menos digna.

Conhecendo o bem e o mal, e comprehendendo o que um e outro significam e
valem, saber o que no sabem os ignorantes, saber escolher o caminho
que tm de seguir se lhe confiarem a escolha.

Parece-me que para chegar a este fim a leitura, o cuidadoso cultivo da
intelligencia devem ser auxiliares preciosos, no acha?

Encontramos esta carta nos papeis velhos de uma excellente amiga nossa,
e sem a corrigir vimos offerecel-a s nossas leitoras.




CAPITULO VII

As dactas d'uma vida


A ida para o collegio


--Ento achaste o que procuravas?

--Achei. Eu tinha consultado a este respeito a baroneza de S., que tem,
como sabes, immenso juizo. Indicou-me o collegio de M.^{me} Maubry.

Uma franceza elegantissima.

Parece-me que fiquei muito bem servida.

--Tu  que foste ao collegio fallar com a directora?

--Pois a quem havia eu de confiar similhante encargo? Fui, vi, julguei
por meus proprios olhos, e fiquei satisfeita.

--O collegio est bem situado?

--Sim. Est n'um sitio muito central, muito concorrido, tudo muito 
mo. Um constante vai-vem de carruagens, que nas horas de recreao ha
de distrahir immenso as creanas.

--E a respeito de jardim para ellas correrem?

--Tem um jardim pequeno, mas muito bonito, muito bem tratado,  ingleza.
Conhece-se  primeira vista a obediencia e a docilidade das discipulas,
olhando para o jardim. Nem um vestigio de travessuras infants. Uma
limpeza ideal nas pequenas ruas aradas.

Fui l na hora do recreio da tarde; andavam as meninas passeiando e
conversando com uma gravidade! uma compostura!.. pareciam senhoras em
miniatura!.. Achei engraadissima aquella parodia de uma das nossas
salas.

--Ainda bem que me contas isso tudo, Mathilde. Ando com vontade de
metter as minhas pequenas em um collegio, porque esto de uma maldade!..
No pra nada com ellas! Importunam-me extraordinariamente. Tu sabes.
Nem eu nem o pae gostamos de barulho, e dous diabretes em uma casa
pequena,  de se morrer. Decido-me pelo teu collegio. Perguntaste o que
l ensinam.

--Oh! a esse respeito podes estar descansadissima.

Uma perfeita educao de senhora. M.^{me} Maubry  o typo da parisiense
delicada e graciosa.

Tem um cuidado inexcedivel com as maneiras das discipulas, com o seu
modo de se apresentarem, com a sua _toilette_.

Disse-me ella que tinha por systema, dar-lhes desde muito cedo o gosto
de agradarem na sociedade, de excitarem em torno de si uma sensao
agradavel... impregnal-as d'aquella graa especial que constitue a
mulher do mundo!.. Approvo immenso aquella maneira superior de entender
a vida social.

--Mas no me fallaste ainda da instruco que recebem as discipulas...

--Oh! j se v, correspondente ao resto. Linguas... nas linguas M.^{me}
Maury tem um apuro especial. Piano, canto, um pouco de historia, de
geographia, dana, desenho, varios bordados, etc., etc. Creio que  o
sufficiente para brilhar entre as primeiras.

M.^{me} Maubry segue o systema moderno no que elle tem de muito
aproveitavel. Ministra a instruco brincando por assim dizer. Ha
concertos semanaes em que figuram as melhores discipulas; ha cursos de
conversao; ha noutes em que se l alto, se recita ou se representa.
N'uma palavra, o fim d'ella  tornar deleitoso o estudo, e desenvolver a
emulao entre as discipulas. Como verdadeira franceza, percebeu que a
vaidade  o motor principal da mulher e...

--Minha querida, interrompeu n'este momento o marido da oradora; faze o
que quizeres, visto que tive a imprudencia de te jurar que educarias tua
filha conforme te aprouvesse e sem que eu nunca entrasse n'isso; mas o
que desde j te affirmo  que a tua M.^{me} Maubry  uma corruptora
inconsciente da mocidade, e que a tua filha nunca passar de uma boneca!

       *       *       *       *       *


_Durante as ferias_


--Mam, eu antes quero o lao cr de rosa...

--Pois faz a Lili muito mal. O azul fica-lhe muito melhor. Olha que no
_baile infantil_ ho de estar muitas companheiras tuas do collegio. Que
alegria para ellas se te virem feia!

--Alegria, mam? Alegria porque? As meninas do meu collegio so todas
minhas amigas, ho de gostar muito de me ver bonita e bem vestida.

--Assim ser, minha filha, mas as _mams_ d'ellas  que com certeza ho
de ter inveja de mim se tu fores a mais linda, a mais bem vestida, a que
danar melhor!

Chega-te aqui Lili! Deixa-me annellar os teus cabellos. Assim  que
ficas bonita, ouviste? Levanta os teus olhos para mim, so to bonitos
os teus olhos!..

--A mam quer que eu levante os olhos? M.^{me} Maubry ralha commigo por
eu os levantar de mais. Diz ella que uma menina deve andar sempre de
olhos baixos, deve crar de vez em quando... nunca se deve rir com
vontade.

--M.^{me} Maubry diz-te isso?..

--Diz, mam, e que assim  que as senhoras agradam e se tornam amaveis.

       *       *       *       *       *

--Ento, minha Lili, tu e a mam divertiram-se muito no tal _baile
infantil_?

--Ah! pap, no imagina! Dancei muito, e todos me disseram que eu era a
menina mais bonita que l estava.

-- verdade! a Lili estava encantadora. No imaginas como a elogiaram!
Todas me perguntaram onde ella aprendeu a danar.

--E a mim tambem, mam.

As outras meninas perguntaram-me onde era o meu collegio.

--Vs! dizias tu, meu maridinho ralhador, que M.^{me} Maubry era uma
professora m. V o triumpho que teve a nossa filha no primeiro dia em
que appareceu em publico!

Lili, corada de alegria, foi dar uma pirueta defronte do espelho.


_A primeira communho_


Acabou agora mesmo de vestir-se. Branca, branca que parece uma pomba.

O vu de gaze cahe em prgas soltas e ondeantes por sobre aquelle corpo
esbelto e franzino, de 14 annos; a cora de rozas emmoldura-lhe
deliciosamente a fronte eburnea e levemente sombreada por uns toques de
infantil melancolia.

Acha-se linda, e sente que todos que a virem ho de achal-a assim!

Dentro da sua alma resa como que um cantico de orgulho!

Vae ser noiva do Senhor, vae receber pela primeira vez no puro
tabernaculo do seu corao a visita mysteriosa do Esposo!

O seu director espiritual, um moo sacerdote francez, fino, louro,
delicado, com uma voz branda e persuasiva, com umas mos brancas, de
cardeal, com uns gestos lentos e graves de irreprehensivel bom gosto,
acabou hontem de a conduzir at aos umbraes d'essa nova vida, em que
ella vae penetrar j consciente do que  e do que vale.

Que doura mystica tinham as palavras d'aquelle padre!

Eram ternas, unctuosas, de uma graa desconhecida!

At alli para ella a religio fra um no sei qu de vago, triste e
indefinivel, mais para assombro e terror do que para delicioso extasi...

O Christo macilento e ensanguentado, com a fronte coroada de espinhos, e
o corpo cravejado de prgos, dera-lhe a ida de uma angustia desoladora
e desesperada, que s vezes enchera de lagrimas a sua pequenina alma de
dez annos.

Porque seria que,  voz do moo confessor, o Martyr do Calvario como que
se tinha transfigurado aos olhos d'ella?

O padre pintara-o bello, radiante de mocidade, prodigo de ineffaveis
esperanas, chamando a si as almas virginaes, e promettendo-lhe a
eternidade no amor, a radiosa alegria das nupcias celestiaes.

Era uma nova musica, a que elle fizera vibrar aos ouvidos da gentil
neophyta, que sentia, sem saber como, inundal-a uma alegria anciosa, um
pungitivo arrebatamento, inteiramente desconhecido ao seu passado!

E olhava para o espelho, e sentia-se bella, moa, radiosa de vida e de
esperanas, com um profano desejo de alegrias novas, de triumphos
ignorados a alvoroar-lhe o seio juvenil.

E agitando em torno de si as prgas fluctuantes do vo de noiva do
Christo, baixou os olhos languidos sobre o livro das oraes e leu em
voz baixa e palpitante as palavras sagradas, na lingua melodiosa em que
se habituara, por um requinte de aristocracia, a fallar com Deus:

_Oh! venez le bien-aim de mon coeur! venez, Agneau de Dieu, chair
adorable, venez servir de nourriture  mon me! Que je te voie,  le
Dieu de mon coeur, ma joie, mes dlices, mon amour, mon tout!_

_Qui me donnera des ailes pour voler vers toi! Mon me loigne de toi,
impatiente d'tre remplie de toi, languit, te souhaite avec ardeur et
soupire aprs toi,  mon Dieu,  mon unique bien, ma consolation!
Embrase moi, mon Dieu, brule, consume mon coeur de ton amour... Mon
bien-aim est  moi_

O que, traduzido na nossa lingua, decididamente reputada impropria para
fallar com a Divindade, significa pouco mais ou menos a seguinte
edificante declarao de amor:

Vem, amado da minh'alma! cordeiro de Deus! carne que eu adoro! vem
servir-me de alimento ao corao! Quero ver-te, oh Deus amado, minha
alegria, minha delicia, meu amor, meu tudo!

Quem me dera azas com que voasse para ti!

Minh'alma afastada da tua presena almeja por se impregnar de ti,
enlanguece, deseja-te com ardor, e suspira por ti, oh meu Deus, oh meu
unico bem, minha consolao!

Abraza-me oh Deus! queima, consome o meu corao com as chammas do teu
amor!..

s meu, oh bem amado, pertences-me!


_Na volta do baile_


Lili vem extraordinariamente pallida e pensativa! As brancuras
opalisadas do alvorecer penetram atravez dos vidros da carruagem, e como
que cingem de uma graa ideal os contornos delicados do seu rosto, que o
capuz de baile emmoldura em alvas rendas.

Danou at s seis da manh; vem cansada, abatida, toda ennovellada nos
ffos coxins do seu _coup_, mas vem pensando muito.

 que o viu no baile, e lhe disseram que _elle_ seria o seu marido.

O pae antes d'ella partir de casa--vestida de tulle e rendas, coroada de
myosotis, e com um collar de perolas lacteas e iriadas, a affagar
voluptuosamente a transparencia rosea do seu collo--o pae, antes d'ella
partir, dissera-lhe gravemente, mas com uma gravidade em que havia muito
affecto:

--_Elle_  moo,  nobre,  herdeiro de uma casa riquissima.

A familia deseja este enlace. No te quero forar, Lili; mas, se
gostares d'elle, approvarei com enthusiasmo essa affeio!

-- moo e nobre, pensra Lili comsigo. Hei de amal-o por fora. Ter
maneiras distinctas, um porte correcto, um sorriso levemente desdenhoso.
E dir _amo-te_, com uma graa fina e superior!

Depois,  proporo que o baile se ia approximando, com o esplendor
prestigioso dos seus lustres, com o capitoso aroma das suas montanhas de
flores, com as prismaticas scintillaes dos seus diamantes, com o
ruge-ruge que fazem ouvir as serpentes e as sedas, Lili pensava que era
positivamente uma cousa agradabilissima ser rica!

--Irei muitas vezes ao baile, ouvirei em torno de mim o murmurio
discreto de admirao que enlouquece as mulheres, terei vestidos de
velludo negro, com diademas de brilhantes a morderem o ouro fulvo dos
meus cabellos! Invejar-me-ho, e quando eu sahir acclamada e triumphante
das salas em que fr rainha, deixarei no meu caminho um rasto de
admiraes apaixonadas!

Vira-o no baile, fallara com elle, tinham danado juntos.

Percebera que o noivo que lhe destinavam era um pobre rapaz, ignorante e
enfatuado, muito feliz de ser nobre, de ser rico, e de haver mulheres
que em torno d'elle cubiassem o seu titulo futuro e a sua riqueza
presente.

Apesar d'isso, Lili estava contente.

Era ella que _elle_ preferira, e visto que _elle_ era rico, teria
carruagens, daria bailes e festas, teria um modo original, severo e
elegante de vestir-se, as suas amigas imitariam a mobilia das suas
salas, e o feitio dos seus chapus, seria uma das raras mulheres que
sabem gozar, em toda a sua plenitude, a vida social no que ella tem de
fastoso e brilhante.

Que importa que _elle_ no saiba dizer _amo-te_ com a voz que Lili tinha
sonhado!

A troco do seu ouro, ouviria dos labios d'ella sem hesitao e sem
lagrimas as palavras mysteriosas que a mulher pura s deve dizer ao
eleito do seu corao, as palavras magicas:

_Sou para sempre tua!_


_Dez annos depois_


J lhe no chamam Lili.  condessa.

Tem um palacio magestoso e severo, povoado com obras primas de todas as
artes e de todas as civilisaes.

As festas que ella d so citadas pela sua pompa severa e artistica,
pela sua graa principesca, pelos requintes de bom gosto que as
singularisam entre todas.

Tem um povo de criados correctamente respeitosos, que obedecem a cada um
dos seus accenos.

As suas carruagens quando passam ao trote largo dos finos cavallos
inglezes excitam a admirao dos entendidos e a inveja dos profanos.

A condessa nunca est s.

Hoje uma recepo a que no pde faltar, manh um baile, no outro dia
um jantar diplomatico, e as mil praticas da sua devoo aristocratica, e
as pequenas _soires_ intimas que d, e as festas a que preside em sua
casa, e que o seu gosto escrupuloso e cultivado dirige desde os minimos
accessorios.

Tudo isto lhe prende o tempo, a absorve e a distrae.

Tem duas filhas... que uma governante ingleza educa e acompanha.

Tem um filho... que est no collegio.

Tem marido... que anda sempre por fra!

Ser feliz? Quem ha que o possa dizer? Na sua pallida fronte marmorea
no se reflecte seno uma sombra.

 a mulher do mundo na sua accepo mais genuina.

Viveu e vive da monstruosa vaidade que desde a infancia lhe deram por
exclusivo alimento.

Sabe que  bella, invejada, cubiada, admirada, odiada at!

Isto basta-lhe, isso a sacia e satisfaz!


_Na velhice_


Est sentada ao fogo na vasta sala opulenta povoada como outr'ora por
tudo que ha mais bello e mais luxuoso.

Um grande candieiro espalha, atravez do seu globo fosco, uma luz
discreta e tranquilla sobre a mesa oval cheia de bagatellas preciosas.

A condessa est s, e os seus olhos baos e amortecidos seguem as
chammazinhas iriadas do fogo com uma insistencia pensativa.

Com a formosura perdeu a fora dominadora que a tornava poderosa e
querida.

Os amigos da hora dos triumphos povoam agora as salas illuminadas e
festivas onde suas filhas j casadas segundo as conveniencias da alta
posio que occupavam, continuam a vida de que sua me lhes dra o
exemplo tentador.

O seu confessor comea a sentir-se cansado do escrupulo esmiuador com
que a condessa aproveita os longos ocios da solido para esgravatar
piedosamente nos mais escuros escaninhos da consciencia.

--Minha senhora, diz-lhe o bom do abbade, que j no era o moo
almiscarado dos dias da mocidade, e que ganhra em abdomen o que perdera
em mystica elegancia; minha senhora, no nos percamos em funestos
exageros. Deus no quer a morte do peccador, snr.^a condessa.

Nem essa distraco ultima lhe ficra.

As praticas adocicadas do confessionario, aquelles extasis a um tempo
deliciosos e pungitivos, as confidencias segredadas a meia voz, a
analyse fina e delicada dos peccados mais subtis, tudo isso lhe falta
para suprema distraco.

No fim de contas a sua vida no fra mais do que um sonho frustrado, a
carreira impetuosa e desvairada atrs de uma sombra que fugia sempre!

No tivera as livres e salutares expanses da alegria infantil, no
tivera os sonhos cariciosos e ideaes da adolescencia, no fra filha,
nem amante, nem esposa, nem me!

Agora j no saberia ao menos ser av!

E pelos recantos sombrios do aposento enorme, a condessa julgou ver
deslisar uma pequenina figura de cabea annellada e loura, uma figurinha
que dava pelo nome de Lili!

Era o phantasma saudoso de sua infancia que passara!

--Minhas filhas--murmurou baixinho a altiva senhora,--perdoae-me pelo
amor de Deus, assim como n'este momento eu perdo  minha me!




CAPITULO VIII

Casamentos pobres e casamentos ricos


Uma das accusaes mais frequentes que hoje se dirigem aos homens  que
elles so egoistas, interesseiros, que introduzem o calculo e as
finanas no que devia ser um impulso espontaneo do corao, que
confundem um pouco nos seus sonhos do futuro o mercantilismo e o amor.

Eu, que no gosto de julgar sem ter conhecido ao menos as causas que
produzem um certo e determinado effeito, lembrei-me de observar de
perto, nos costumes e praticas de todos os dias, se eram realmente bem
cabidas as censuras frisantes que por ahi ouo continuamente  poro
mais _feia_ da humanidade.

_Uma cabana e o teu corao!_ eis o que antigamente soluavam aos ps
das suas deusas de _biscuit_ os trovadores de algodo em rama.

Um _rez de chausse muito commodo e quatro contos de ris de
rendimento!_ eis o minimo a que hoje aspiram nas suas suspirosas
alegrias os pretendentes mais positivistas da nossa quadra utilitaria e
mercantil.

Mudou a tal ponto o corao humano, que j os sinceros e impetuosos
sentimentos no possam acclimatar-se n'elle?

Isto caminha n'uma tal e to rapida decadencia, que tudo que era bom,
honesto, sincero no amor, tenha fugido assustado para outras regies
ainda inexploradas?

Sinceramente no o acreditamos.

Em primeiro logar, em todas as pocas e em todos os paizes, o
desinteresse absoluto, o completo desprendimento dos bens da terra, foi
cousa muito rara, e muito para notar-se com espanto.

Que o digam os claustros sem conto, povoados de pallidas monjas juvenis,
que o mundo expulsava do seu seio, por no tr que lhes dar nenhuma das
alegrias naturaes que so o apanagio mais caro da mulher!

Se alguma differena temos que apontar so as conquistas alcanadas pela
familia, nos terrenos que at aqui usurpara o egoismo e a ambio do
homem.

Mas, admittindo mesmo que se accentue na nossa poca, com uma certa
fora o interesse pessoal, que  um dos elementos mais esterilisadores
que pde existir na sociedade, no demos s ao homem a culpa de essa
tendencia nefasta.

 incontestavel que  proporo que as civilisaes se desenvolvem,
crescem as necessidades, cresce o amor do luxo, sem que para todos
cresam proporcionalmente os meios de satisfazer essas aspiraes
fataes.

No  portanto espantoso, que o homem, ainda o mais dedicado e crente,
antes de tomar aos hombros o pesadissimo encargo da familia, mea as
suas foras, calcule com preciso mathematica os meios de que dispe
para cumprir as obrigaes que acceita, e muitas vezes diante da grande
desproporo que encontra entre aquelles e estas, suffoque a voz do
sentimento e siga os austeros e aridos conselhos da razo!

 que a familia, tal como est constituida na sua generalidade,
estabelece um grandissimo desequilibrio entre os deveres do homem e os
deveres da mulher.

Se a esta, em face da consciencia e da razo, cabe a tarefa mais
espinhosa, a misso mais elevada e mais complexa, nem por isso, logo que
ella fecha os ouvidos a esta voz superior que to poucas escutam e que
to poucas entendem, se acha realmente forada a outra cousa que no
seja consumir sem produzir, receber sem dar, acceitar proteco, amparo,
ajuda, sem pagar estes beneficios com beneficios equivalentes.

Queixam-se do homem porque elle conta com o dote da noiva, e este entra
com bastante peso na balana dos seus affectos.

Que dizem ento da mulher que casa para ser livre, para ser
independente, para ter diamantes e rendas preciosas, para frequentar os
bailes, os theatros, os passeios, para ser uma taboleta ambulante do
luxo real ou do luxo hypothetico do _mnage_?

Imagine-se, por instantes um rapaz moo, intelligente, cheio de
aspiraes ss, de boa vontade e de energia, dotado de ricas faculdades
intellectuaes, capaz de conquistar  fora de perseverana, de trabalho
e de privaes, um lugar distincto na sciencia ou na industria, na
politica ou no magisterio.

No tem dinheiro, ou tem apenas uma pequena fortuna que o pae lhe legou,
juntamente com um nome honrado.

Sente a natural aspirao de completar a sua existencia, unindo-se 
mulher que mais ou menos lhe povoou os sonhos de adolescente.

No tem tempo para escolher; absorve-o o trabalho a que forosamente tem
de consagrar quasi todas as suas horas.

No tem um conhecimento profundo da natureza feminina.

Os nossos costumes com as suas reservas hypocritas, com as suas
precaues restrictas, que do ida pouco lisongeira do pudor e da
castidade das mulheres portuguezas, oppoem-se a que o homem tenha
d'ellas um conhecimento que no seja frivolo, ridiculo, superficial--o
conhecimento que se adquire em uma sala entre duas quadrilhas
sensaboronas, ou n'um camarote durantre um entre-acto cheio de tedio.

No pde pr-se pelo mundo  busca de uma excepo: o molde das nossas
meninas da sociedade varia muito pouco.

Todas sabem bordar a matiz, tocar a _Somnambula_ e o _Trovador_ ao
piano, fazer _housses_ de crochet, papaguear em duas ou tres linguas
puerilidades comicas, danar os _Lanceiros_ e criticar as _amigas
intimas_.

N'estas circumstancias o que pde fazer o pobre moo?

Ou resistir s solicitaes impetuosas da mocidade,  necessidade
instinctiva que sente do conchgo de familia, d'aquelle _sweet home_ que
tanto imperio tem no corao de todo o homem de pensamento e de
trabalho; ou tem de contentar-se com a escolha feita  pressa de uma
d'essas rachiticas flres de salo.

 desinteressado no sentido mais amplo da palavra, tem aquellas santas
utopias que so a suprema riqueza dos vinte annos; na sua escolha impera
tudo menos o calculo e a arithmetica.

Prefere, pois, uma noiva pobre.

Applaudem-lhe a generosa imprevidencia; gabam-lhe os sentimentos
honestos e cavalleirosos; envolve-o um certo prestigio durante uns
poucos de mezes.

Os mezes da _lua de mel_.

--Portou-se admiravelmente!--exclamam as _mams_, contemplando com ar
piedoso as filhas sem dote, e envolvendo na sua furia rancorosa os
_dandys_ que andam  pesca de noivas ricas, pelas aguas turvas da nossa
sociedade.

Resultado pratico de tudo isto: seis mezes depois de casado, o nosso
pobre heroe v-se a braos com todos os encargos de um _mnage_ a que
falta o conchgo e a alegria. Como no teve tempo de fazer-se amado,
como o amor  no fim de contas um genero carissimo que o corao das
meninas de hoje prodigalisa muito pouco, encontra em casa ao voltar das
luctas quotidianas, a que se arrojou com novos alentos e nova f, um
acolhimento frio, um rosto desconsolado, uma mulher que finge resignao
e que s tem despeito, porque o casamento lhe no deu nenhumas das
frivolas vantagens que lhe promettera.

Tinha sonhado com _toilettes_ elegantes, uma _robe de chambre_ bordada,
uma touca de manh como as que desenha a phantasia pittoresca dos
caixeiros da _Mode Illustre_, queria uma casa de jantar elegante com
mobilia _en vieux chne_, aparadores carregados de finas porcellanas, um
criado de casaca preta e modos de embaixador, passando discretamente,
sem fazer barulho, por cima do _parquet_ suisso, cuidadosamente
encerrado.

Gostava de ter um _boudoir_ todo de seda cr de perola onde ella podesse
ler, preguiosamente deitada no no seu pequeno _fauteuil_ muito
flascido, diante de um _guridon_ cheio de violetas e de _gardenias_, os
ultimos romances, as revistas estrangeiras, as criticas musicaes dos
mestres mais famosos.

Sempre tivera a esperana de fugir pelo casamento  presso sordida da
miseria paterna.

Detestava a vida que tinha levado em solteira, fazendo ella propria os
vestidos para ir ao baile, cerzindo redes nas botinas de setim branco,
com os dedos picados, um roupo de chita amarrotado, e o corao cheio
de rancor e inveja s que tinham o luxo e o conforto que ella no tinha.

Aquelle homem apparecera-lhe.

Era pobre,  verdade, mas disseram-lhe que _tinha talento_, que tinha
_ou que ia ter uma posio_; acceitara-o por cansao, por desalento,
porque se impacientava j de esperar mais tempo.

Levara comsigo os mesmos sonhos que a tinham perseguido, imaginava casas
imprevistas, edificava hypotheses extravagantes;  fora de ambicionar a
riqueza, acabava por se convencer que havia de ser rica.

E agora!

Tudo que a cercava era to mediocre!

Se tivesse pachorra, se tivesse boa vontade, podia enfeitar com plantas
o seu pequenino quarto de trabalho, pr ao menos umas cortinas de cassa
branca na janella.

No tendo a riqueza, podia ter o aceio; no tendo o luxo, podia ter a
graa.

Os livros bem dispostos sobre a mesa, cujo tapete ella propria houvesse
feito ao sero, uma jarra de loua com um ramo de madresilva ou de rosas
de maio, as cadeiras agrupadas com um certo ar de intimidade e de
alegria, um aspecto de pobreza satisfeita que faz to bem  alma!

Vestiria um simples roupo de fazenda clara, sem enfeites, mas de um
feitio elegante e gracioso, os cabellos bem penteados, uma flr presa
nas tranas.

Iria ella mesma  cosinha arranjar uns pratinhos de que elle gostasse, o
pobre trabalhador que  noute voltaria cansado, mas cheio de f robusta
e de profundas crenas, porque o amor o amparava e lhe sorria!

Dentro de uma gaiola, na janella da casa de jantar, haveria um canario
muito alegre, no tanto ainda assim como ella, a pequenina _mnagere_
muito atarefada, muito contente, espalhando na sua casa modesta e pobre
um perfume de virtude, de castidade, de ternura animadora e s!

Mas quem  que a tinha educado para cumprir este programma to simples e
to difficil?

Quem lhe tinha communicado com o leite a noo d'estes graves e honestos
deveres?

A me que a passeara de baile em baile,  cata de um marido?

Os livros que ella lra e que fallavam de duetos apaixonados entre um
bardo _pelintra_ e uma menina romantica com olheiras e muito p de
arroz?

O marido ao principio quer luctar; procura educal-a elle, j que a
familia a no educou; vem de fra muitas vezes preoccupado com os seus
estudos, com um problema scientifico que deseja resolver, com uma
especulao industrial que talvez lhe d a paz e a aurea mediocridade a
que tanto aspira, por amor da sua querida mulhersinha... no importa!

Sacode como um peso importuno todos os pensamentos que o absorviam,
senta-se ao p d'ella, porque a v triste, enfastiada, com um certo
desleixo no aspecto que lhe aperta o corao, procura no reparar, para
a casa sem arranjo a que falta aquella poesia do lar que tanto o
captivou nas suas scismas de rapaz; conversa, afaga-a, desenrola diante
do olhar d'ella vago e distrahido um horisonte de futuras alegrias.

Um dia, porm, descobre com magoa que ninguem jmais poder sondar nem
comprehender, que tudo que elle esperou um dia assenta n'uma base
chimerica; que essa mulher, a quem associou a sua vida, em vez de
ser-lhe amparo, guia, consolao, conselho, em vez de luctar ao lado
d'elle para conquistarem ambos a ventura dos filhos, o dce e tranquillo
socego da velhice, vive toda absorta n'um sonho de imaginarias riquezas;
que empallidece de raiva de vr as outras ricas emquanto ella  pobre;
que amaldia todos os dias o alimento que elle lhe ganha
laboriosamente, porque lhe no  servido em pratos do Japo; que olha
com desdem para os modestos presentes que elle  custa de longas
economias consegue comprar-lhe; que detesta emfim tudo que elle ama; que
tem o tedio invencivel de tudo que elle julgou, por muito tempo, o
resumo de todas as suas alegrias!

N'essa hora dolorosa e que tem de soar fatalmente na vida de quasi todos
estes obscuros luctadores, alguns, os mais fracos, amaldioam tambem a
sua austera e honrada pobreza, e tractam de fugir-lhe atirando-se a
todos os turvos mares da especulao e do mercantilismo!

Outros--os fortes--afastam-se com desdem de aquella que, sem talvez
saber o que fazia, tentava arrastal-os por um declive funesto, e
isolam-se n'um mundo onde no querem a companhia de ninguem.

Ha tambem os que, despertando do sonho em que andaram embebidos,
descrem de tudo em que um dia acreditaram e cedem  convico fatal de
que no mundo no ha cousa alguma que seja digna, desinteressada e sem
liga de calculos vis.

A verdade  que mais ou menos todos se arrependem e todos o deixam ver!

Este exemplo  que vae a pouco e pouco destruindo no corao dos moos a
ida de que a familia, em vez de roubar o alento e a fora ao homem, os
robustece e lhes d mais solidos alicerces.

No dia em que as mulheres tiverem coragem para supportarem com alegria e
com intrepidez a pobreza que tanto as assusta, vero como a base do
casamento deixa de ser o calculo que hoje o macula.

Se o homem, que  por natureza egoista, comprehender que unindo a sua
vida  vida d'uma mulher dedicada, adquire novas foras para a lucta em
que anda empenhado,  incontestavel que deixar de considerar como unico
elemento de prosperidade futura o dote da noiva que houver escolhido.

No basta ter coragem e ter intrepidez para supportar as privaes da
pobreza;  preciso antes de tudo compenetrar-se bem da ida de que a
pobreza tem grandes alegrias defezas aos ricos; que a modestia dos meios
no obsta a que possamos enflorar a vida dos que amamos, com aquelle
dce e poetico conchego, que  para a alma um ninho mais tepido e mais
macio, do que as pompas magestosas que envolvem theatralmente a vida dos
millionarios.




CAPITULO IX

A uma noiva


                                                  Minha querida Maria:

A tua carta conta-me as tuas primeiras e adoraveis alegrias de noiva.

Ests radiante!

Subiste ao _setimo co_ da ventura humana e crs que no  possivel
cahir de l.

Fallas-me do teu vo branco, da tua cora, das palavras enternecidas que
_elle_ te disse, das opulencias do teu enxoval, do teu quarto de cama 
Pompadour, do amor que tens ao teu _maridinho_, do futuro que sonhas
radioso, eu sei; fallas-me de tudo, filha, e eu li esse poema gentil da
tua mocidade com um verdadeiro enternecimento bem sincero.

Fallas-me de tudo, digo eu; engano-me.

No me fallaste de uma cousa importantissima, filha.

No me fallaste da panella.

Sou eu, pois, que vou fallar-te, com a mais profana das irreverencias,
d'este assumpto que  um dos mais graves n'um _mnage_ que principia.

Credo! exclamas tu com aquella _moue_ engraadissima, que eu te conheo
do collegio, e que sempre teve a habilidade de me fazer rir immenso.

--Pois eu sei l sequer se ha em minha casa uma panella! Pois eu hei de
misturar as confidencias extaticas da minha mysteriosa e ideal
felicidade com a relao das minhas cassarolas! Que tem este amor que me
enleva e me arrebata, com a comida que se manipula na cosinha! Deixa que
eu te descreva as rendas e os setins com que me enfeito para lhe agradar
a _elle_; mas, por Deus, pelo amor da arte, da poesia, da delicadeza
feminil, no queiras que eu ajunte a essas descripes uma nova receita
de refugado.

Ouve-me, filha; ninguem attende por ahi estas verdades, que so
elementares, tudo quanto ha de mais elementar.

Sabes onde se fabrca e se consolda a felicidade de um _mnage_?

Na cosinha.

Sabes de onde sahe muitas vezes a ruina de uma casa?

Da cosinha.

Sabes qual  a origem de tantas doenas que por ahi nos desconsolam com
os seus aspectos repulsivos?

A cosinha.

E tu entrando na vida conjugal, acceitando o _encargo_ d'almas, porque a
dona da casa acceita-o, recebendo nas tuas pequenas mos delicadas a
responsabilidade complexa de me de familia, tu pobre querida ignorante,
ousas dizer desdenhosamente que nem sabes sequer se em tua casa ha
cosinha.

Pois sabe.

Ests habituada a evocar com a aerea ligeireza dos teus longos dedos
brancos as notas immortaes em que Beethoven, Rossini, Mayerbeer nos
legaram as mysteriosas riquezas da sua alma?

Gostas dos delicados lavores inventados, pela paciencia feminal, dos
bordados custosos, das matizadas sedas, de todo esse conjunto de
graciosas futilidades em que ns dispendemos horas e horas da nossa
vida?

Pois, minha querida, logo que a mulher penetra no limiar da sua casa de
esposa tem de antepr tudo que  util a tudo que  agradavel, tem de
adoptar como suprema divisa da sua vida a palavra--sacrificio!

E no creias que isto seja uma dolorosa e inutil mutilao do teu ser.

Quanto mais te sacrificares, cr que maior e que melhor te has de
sentir.

Ser como um progressivo ascender a uma esphera superior.

C em baixo ficam as pequenas vaidades, as frioleiras inuteis, as
puerilidades infantis, os despeitos raivosos, toda a expresso mesquinha
e imperfeita do teu organismo; l em cima est a larga tranquillidade
que ha de envolver-te como um delicioso banho tepido, a consciencia
plena de haveres attingido o fim para que foste creada, a certeza divina
da felicidade que communicas em torno de ti, a satisfao do dever
preenchido, tudo emfim que nos eleva, que nos depura, que nos faz
comprehender o motivo para que viemos a este mundo--aqui para
ns--eminentemente estupido!

No te deslumbrem, pois, as primeiras alegrias da tua _lua de mel_.

Entre parenthesis,  esta uma phrase que eu abomino, pela simples razo
de a achar falsa, e causadora de falsas e funestas interpretaes da
vida conjugal.

A _lua de mel_  uma mentira; no existe, ou, se existe, no deve de
modo nenhum existir, o que vem a dar na mesma.

Esse periodo officialmente consagrado, que se funda em toda a especie de
impostura, deve ser abolido sem appellao por todos os pares honestos
que se estimem e prezem.

Imagine-se por um instante que os novos conjuges assumiram a liberdade
de formularem em palavras tudo que tivessem no pensamento, o que diziam
um para o outro:

J conheo todos os teus defeitos, j sei que hei de vir a dar-me muito
mal comtigo: achei-te ainda agora profundamente ridiculo n'aquella
phrase que me disseste; mas como estamos na _lua de mel_, deixa-me que
te beije com transporte, que te recite ao piano o idyllio apaixonado da
minha ventura, que olhe para ti com a sentimentalidade pigas com que os
caixeiros romanticos olham para as namoradas, que minta emfim
conscienciosamente, como compete a quem se acha de posse de uma posio
official e a quem no pde renunciar sem desdouro!

No seria profundamente ridiculo este dialogo?

Pois sabe, minha querida, que em cada cem casaes, oitenta podiam em boa
consciencia traval-o entre si.

Muitas vezes a _lua de mel_ no passa de uma dolorosa iniciao.

Mais tarde as circumstancias modificam-se, o que nos parecia prenuncio
de desgraas transforma-se em tranquilla felicidade; os caracteres, que
no fundo se repelliam, embora na apparencia se afagassem, adaptam-se e
identificam-se em resultado da ultima convivencia; a paz domestica
conquista-se, com esforos meritorios de parte a parte; o que ha pouco
era mentira, torna-se uma verdade luminosa e pura.

E o que prova tudo isto, minha amiga?

 que o tempo mais difficil da nossa vida de casadas  aquelle que os
tolos e os impostores chamam, seguindo a estupida rotina de seculos, o
mais delicioso!

Sou adoravelmente feliz, porque ainda no conheo bem meu marido, nem
meu marido me conhece a mim...

Palavra, que acho isto uma esplendida interpretao da vida domestica!..

Commentem bem esta phrase implicitamente incluida em todos os louvores
que se tecem  celebre _lua de mel_, e ahi tem os divorcios, os
adulterios, os intimos dramas conjugaes, as luctas atrozes em que dous
entes se dilaceram at que n'elles morra a alma e o corpo!

Mas, minha Maria, que longe me arrastou esta digresso apaixonada.

Perdoa-me.

Se bem me lembro, estavamos ambas muito mais _terra a terra_.

Eu tinha conseguido fazer-te largar o teu piano de Erard, as tuas
aquarellas e os teus bordados, e tinha-te arrastado at  cosinha de tua
casa, cuja existencia tu teimavas em ignorar.

Talvez tu penses, minha pobre amiga, que esse _senhor_, discreto, ameno,
gracioso, condescente, que acha graa a tudo que tu dizes, que concorda
com todas as tuas opinies, que s vezes se ajoelha submissamente aos
teus ps, e te diz baixinho--adoro-te!--com uma expresso de _tenor_ em
disponibilidade, que se delicia com as tuas _toilettes_, que d muita
atteno  variedade artistica do teu penteado, que , emfim, _todo teu_
no sentido falso d'esta palavra, pensa tudo quanto diz, e se conservar
por muito tempo n'esse adoravel e massador diapaso?..

Enganas-te.

Elle enfastia-se soberanamente do seu papel, estuda-te com ar
sorrateiro, e pede a Deus que acabe o periodo em que tem de renunciar 
sua individualidade, para se conformar com os usos e costumes da
sociedade elegante, de que faz ou quer fazer parte.

Acabado que seja esse periodo que tem limites determinados, dize-me tu
qual o meio de que tencionas usar para o prenderes junto de ti, para que
elle comece ento a ser sincera e dignamente _o teu marido_, isto , o
teu melhor e mais fiel amigo, para que a vossa vida commum assente em
bases solidas e perduraveis.

Julgas que basta para isso vestires o teu mais bonito vestido, penteares
o teu bello cabello louro do modo mais excentrico e original, dizeres
com a tua voz sonora e grave os paradoxos mais scintillantes,
mostrares-lhe as riquezas com que uma esmerada educao povoou o teu
espirito?

Innocente creatura! no conheces o que  o _homem_, o animal mais
prosaico e positivo da creao!

O que elle quer depois das suas luctas com os outros homens, das faras
que  obrigado a representar para o publico, dos combates em que 
alternativamente vencido e vencedor, o que elle quer  descanso,
conchego, esquecimento de todos os artificios que vo l por fra, e
sobretudo (no te horrorises, minha sonhadora!) e sobretudo commodidades
physicas.

D-lhe a melhor das poltronas, o mais confortavel dos gabinetes, o mais
suave e caricioso dos sorrisos, e, principalmente, d-lhe _um bom
jantar_.

Cheguei emfim, ao ponto a que tendia desde o principio d'esta carta.

Confesso que me custou! Isto de mulheres!..

Tu provavelmente imaginas que um bom jantar  cousa que pertence
exclusivamente aos dominios do bom cosinheiro.

Como te enganas!

Em primeiro logar, no ha nada peior que um _bom_ cosinheiro.

Um _bom_ cosinheiro  a ruina de uma casa,  um envenenador de barrete
branco,  um assassino de abdomen tranquillisador e hypocrita.

Um _bom_ cosinheiro comea por nos dar cabo da bolsa, o que  terrivel;
acaba por nos dar cabo do estomago, o que  simplesmente irremediavel.

Todos os _restaurants_ luxuosos possuem a prenda de um _bom_ cosinheiro.

Pe um pobre homem a jantar durante dous annos a fio n'um d'esses
_restaurants_ elegantes, e depois conta-me por miudos em que estado
miseravel vaes dar com elle.

Destruida esta primeira ida, deixa-me ainda dizer-te uma cousa que tu
no sabes.

A mesa no tem tal a importancia insignificante que tu embirras em
querer dar-lhe.

Sendo o estomago um dos orgos principaes da humanidade,  absurdo
desdenhar d'esse modo o que tem com to elle estreitas relaes.

Se eu fosse pedante era capaz at de te provar que o livro que
descrevesse o que o homem tem comido nas pocas primitivas e nas quadras
de civilisao refinada e perfeita, nos periodos de barbaria e nos
tempos de desenvolvimento e de progresso, seria o livro mais completo da
historia universal da humanidade.

O alimento faz o homem.

Os antigos scandinavos, _os reis do mar_, os impetuosos e bravios
caadores de _uroch_, brancos, athleticos, sanguinarios, de olhos azues
metallicos e faiscantes; alimentavam-se nos seus festins cyclopicos da
carne quasi crua dos animaes que matavam.

Nero gostava de saborear as contorses de agonia das _muras_ que creava
nos seus viveiros, e que alimentava muitas vezes com o corpo palpitante
dos escravos, e nas festas voluptuosas e crueis que dava na sua _Casa de
ouro_, emquanto danavam as bailarinas gaditanas e egypcias, os
convivas, coroados de rosas, esperavam que o peixe tivesse soltado o
ultimo arranco de vida para se servirem do saboroso acepipe.

No vs atravez d'estes dous exemplos uma raa de instinctos barbaros, e
uma civilisao pavorosa e apodrecida?

O homem moderno enfraquecido pela degenerao progressiva de umas poucas
de geraes, tendo de dispender uma enorme poro de energia e de fora
nas luctas incessantes a que o obrigam as infernaes exigencias da nossa
poca, precisa, por assim dizer, de ser reconstituido dia a dia.

 n'isto que as mulheres no pensam bastante.

Depois em um _mnage_, sobretudo de medianos haveres, a mesa
relaciona-se com tres questes de uma alta importancia.

Primeiro, a questo da saude, que sobreleva a todas.

Segundo, a questo da economia de que depende a paz, a alegria, o
socego, a elegancia modesta da vida intima; o bom humor do marido, a
_toilette_ fresca e garrida da esposa, a alvura da toalha pezada de
linho adamascado, tudo que emfim constitue o conforto e a alegria
domestica.

Terceiro, a fidelidade do marido s modestas mas saborosas iguarias da
sua mesa de familia.

O jantar tem de ser bem feito, economico e salubre. Eis o grande
problema.

Para o resolveres no te fies n'uma cosinheira muito estupida, muito
suja e muito rotineira, nem n'um altivo sujeito cheio de theorias
estapafurdias e de nomes francezes estropiados.

Fia-te em ti.

 o mais seguro, o mais razoavel, aquillo que teu marido te ha de
agradecer mais.

No estragues as tuas finas mos de duqueza, no desas  humilhante
posio de _cordon bleu_ da tua propria casa, mas dirige tu esse ramo
to importante de administrao domestica.

Estuda essa sciencia to util e to descurada que se chama _chimica
culinaria_, e vers como a saude dos que tens debaixo da tua guarda ha
de progredir com isso.

No te injuries, nem te afflijas ento quando conheceres que o sorriso
que teu marido negou s sabias architecturas do teu penteado, lhe
desabrocha nos labios franco e alegre em frente de um caldo feito sob a
tua direco, de um _roastbeef_ temperado pelas tuas mosinhas de fada,
de um novo acepipe que inventastes e que lhe despertou o esmorecido
appetite.

A arte de ser esposa e de ser me funda-se n'um segredo muito simples.

No se trata de sermos felizes  custa dos que so nossos; trata-se de
fazermos felizes os nossos,  nossa propria custa.

Comeamos pelo sacrificio, e acabamos pela apotheose!

Mas que de cousas eu fui buscar para te dar uma lio de _azeites e
vinagres_.

Ai! filha,  que tenho aprendido  minha custa que na terra no ha nada
pequeno, e que todas as cousas que de perto se nos afiguram mesquinhas,
esto de tal maneira ligadas e relacionadas entre si, que formam unidas
este grande conjuncto que se chama a vida.




CAPITULO X

O dever de ser bonita


Dizia uma das mais espirituosas escriptoras da Frana, aquella para quem
Theophile Gauthier inventou o gracioso epitheto de _bas lilas_,
livrando-a d'este modo da terrivel, grotesca e immerecida alcunha de
_bas bleu_, que _o primeiro e mais sagrado dever da mulher  ser
bonita_.

Abaixo o paradoxo! bradou logo em torno a turba-multa das feias,
furiosas contra a sentena que as punha por assim dizer fra da lei.

Foi necessario entrar em explicaes, e todas ns vemos ento a
comprehender o que Madame de Girardin entendia pela belleza feminina.

Ser bonita no fim de contas no  ter frmas esculpturaes--isso j
passou de moda, no  ter feies perfeitas--no ha nada mais
profundamente monotono e massador; no  ter collo de _alabastro_,
cabellos de _ebano_, labios de _rubis_, dentes de _perolas_, olhos de
_diamante preto_, testa de _marfim_, etc., etc., etc.

--Deixemos isso aos artifices mais ou menos engenhosos, que trabalham
com as sobreditas materias, e aos _trovadores_ mais ou menos choramigas,
que manejam as sobreditas rimas; no  saber olhar com expresso ardente
ou languida consoante o genero da phisionomia; saber sorrir com malicia
ou com ternura, saber inclinar-se meiga e scismadora ao influxo do um
sentimento occulto, ou erguer a cabea altiva e triumphante com a plena
consciencia da propria formosura!

Ser bonita, ser bella, na accepo elevada e completa d'esta palavra, 
possuir a graa mysteriosa que prende os que param junto de ns, que
attrahe os que vo passando ao nosso lado.

Resta agora analysar os fios tenuissimos de que se tece este divino
encanto da mulher!

A graa de que eu fallo  feita principalmente de intelligencia e de
bondade.

O primeiro dom concede-o Deus, e aperfeioa-o e depura-o a vontade
humana; o segundo adquire-se  custa de sacrificios cccultos, de
abnegaes intimas, de aspiraes continuas e incessantes para a suprema
perfeio!

Todos podem ser bons!

 preciso que os espiritos se compenetrem profundamente d'esta verdade,
que  o primeiro passo para a conquista do bem, que todos ambicionam e
que tantos julgam vedado.

No ha terreno, por mais duro, inhospito e ingrato, a que um cultivo
cuidadoso e vigilante no possa arrancar flres.

No homem--e quando digo _homem_, refiro-me geralmente  humanidade--, no
homem ha preso, algemado, vencido, um robusto animal de tendencias
bravias, que lucta continuamente para reconquistar a perdida liberdade.

Foi a aco civilisadora de seculos sem conta que domou essa fra de
funestos instinctos;  a presso continuada e constante de uma vontade
energica, de uma razo esclarecida, de uma percepo profunda de todos
os deveres, que conserva e sustem intimidado e submisso o terrivel
selvagem.

Uns precisam de desenvolver n'esta porfia assidua, mais tenacidade e
mais fora, outros de indole nativamente branda e pacifica, podem deixar
adormecer de vez em quando a accesa vigilancia.

So no fim de contas os primeiros que teem maior merecimento.

Ser bom  quasi sempre um esforo, mas para ser meritorio cumpre que
este esforo seja to invisivel para todos os olhos, que a analyse ainda
a mais perspicaz no chegue a dar por elle. A bondade  o supremo
attractivo da mulher, aquelle que mais aco exerce em torno de si.

A bondade  pois a verdadeira belleza feminina.

Imaginae que a ella se reune a intelligencia, e tendes o ideal da
perfeita formosura, da unica que s se apaga e extingue com a vida, da
que excita os grandes, os eternos, os sos e robustos amores.

O culto pago da belleza plastica  um dos erros que mais ha de custar a
destruir, e que no entanto se acha to deslocado no ideal moderno, como
se achava no seu verdadeiro lugar, no velho mundo que a revoluo deitou
por terra alluido e decomposto!

A mulher transviada por esta falsa comprehenso do seu destino, s
aspira a ser bonita no sentido futil e exterior da palavra, s inveja as
que possuem os ephemeros encantos de que foi desherdada, e no percebe
que a belleza interior  aquella cuja gloriosa conquista, accessivel
para todos, lhe podia dar a realeza e o predominio.

A quantas meninas sentimentaes de olheiras roxas e phrases sonoras no
temos ns ouvido lamentar a pouca durao dos affectos terrestres, a
_inconstancia_ do homem, a ingratido cruel que faz definhar as suas
victimas em desolador abandono!

Apesar do aspecto ridiculo de que estas romanticas e elegiacas creaturas
se revestem, que ninguem se ria d'elles!

Victimas se chamam, e victimas so de certo, mas no de imaginarias
perfidias ou de tragicas aventuras.

So victimas da sua educao falsa, da sua sentimentalidade pigas, da
ida inteiramente errada que formam da vida pratica.

Imaginaram que haviam de ser eternamente amadas, amadas com extasis
poeticos, com grandes discursos inflammados, com acompanhamento de viola
franceza e de epistolas em verso, que tivessem de mais em amor, o que
tivessem de menos em grammatica; sonharam ser as pallidas Julietas
apaixonadas, recebendo  luz branca da lua, as confidencias convulsas
dos seus Romeos de obra grossa; e para attingirem este ideal dos seus
desejos suppozeram que lhes bastavam a alvura da tez, o brilho do olhar,
a frescura dos labios, a abundancia dos cabellos, e por cima de tudo
isto a garridice, a pretenso, a ignorancia e a _toilette_!

Em muito menos tempo do que  preciso para murchar uma rosa, os proprios
homens se enfastiaram.

E eil-as inconsolaveis e inconsoladas, maldizendo a traio masculina,
que lhes no deu mais que o castigo merecido!

Houve tempo em que a mulher feia tinha como unico refugio o convento.

Felizmente, porm, esse tempo vae longe.

O homem j no exige da companheira do seu destino, como condio unica
de felicidade, encantos que murcham com os annos.

Assenta em mais solidas bases a ventura conjugal.

Mulheres, sde boas, cultivae o espirito, e allumiae a consciencia; na
vida do homem ha horas escuras; que a luz que sabeis diffundir as
illumine.

A sociedade tem desfiladeiros sombrios, tem _selvas ignotas_, como o
_inferno_ do Florentino, aprendei a guiar com a vossa pequena mo branca
e macia os robustos luctadores, que s vezes param no limiar d'esses
caminhos, com a vista incerta e o passo hesitante.

E isso que hoje se exige de vs.

Eu vou mais longe que _madame_ de Girardin, na sua arrojada proposio
que to poucos comprehenderam.

Quando vejo um homem sou capaz de adivinhar a que genero pertence a
mulher que elle tem por esposa; quando entro n'uma casa basta-me vr a
disposio dos moveis, a escolha dos livros, o aspecto das creanas, a
expresso das _cousas mudas_, para poder afianar se a dona d'essa casa,
a divindade modesta e tutelar d'esse pequeno templo,  digna do seu
titulo sagrado de esposa e me.

 que tudo falla, para quem sabe ouvir, e a mulher sobretudo--natureza
expansiva e vibratil--pe uma indiscrio involuntaria em cada objecto
de que se rodeia.

Mais de uma vez tenho ouvido vozes femininas levantarem-se em favor da
emancipao politica e social do seu sexo.

Pobres sres hybridos e incompletos so de certo os que teem to
acanhada ida do destino da mulher.

No dia em que esta fr emancipada, cahir para sempre do throno que tem
seculos por degraus.

 que a emancipao politica seria a abdicao domestica, quer dizer, a
mais dolorosa catastrophe que tem affligido as sociedades.

Imagino que nenhuma verdadeira mulher a acceitaria!

A familia tal como a entendem todos que sabem sentir e pensar,  o
refugio onde se vae buscar paz e esquecimento;  o templo onde encontram
_direito de asylo os parias_ que andam c fra aos baldes da ira
popular;  o lugar querido, inaccessivel onde os athletas do pensamento
acham momentos de alegria descuidada, onde os mineiros cansados da
sciencia, os que andam pelos antros obscuros arrancando segredos aos
seios da natureza, procuram a clara e festiva luz dos affectos simples,
onde os politicos esquecem a maldade e a mesquinhez humana, onde os
diplomatas fallam verdade, onde os argentarios fecham os ouvidos ao
tinir metallico do ouro, onde os que caminham levando no corao as
terriveis hydras do odio e da inveja se assentam por instantes
embevecidos na musica matinal de umas vozes infantis que chilram, de
uma voz crystallina que adverte, aconselha e consola.

Os que roubarem a familia ao incansavel trabalhador d'estas eras de
febre e de combate, roubam-lhe a fora, a energia, a consciencia, a
dignidade, o amor, roubam-lhe tudo emfim!

Emancipar a mulher  atacar na sua base a familia,  trazer para dentro
do lar as paixes tumultuosas da praa publica,  destruir o mais doce
dos poderes a que o homem se curva, o temivel poder da fraqueza
feminina!

E no se diga que eu combato a mulher quando combato a sua libertao
absoluta perante a sociedade e perante a lei.

Os que pretendem furtal-a  tutella salutar, que a contm na esphera que
lhe  propria,  que so os seus peiores inimigos.

Dentro, porm, d'essa esphera quantos servios ella deve fazer e no
faz!

Exemplifiquemos: A mulher  na generalidade ambiciosa. Qualidade que no
est de todo em todo desligada de peccado, mas qualidade util na maior
parte dos seus resultados.

Esta ambio pela influencia latente que exerce no animo masculino
leva-o, no poucas vezes a arrojados commettimentos e a grandes e nobres
cousas.

At um certo e determinado limite,  portanto benefica a ambio da
mulher.

Transviada, porm, do seu verdadeiro fito, quantas vezes esta ambio
mal dirigida por uma educao eivada de mesquinhos preconceitos no
arrasta o homem at  infamia,  deshonra,  quebra de todos os pudores,
ao suicidio!

A garridice, o amor da _toilette_, das pequenas futilidades elegantes, o
gosto do luxo, das graciosas invenes da moda, ahi est uma das graas,
um dos elementos do dominio da mulher.

Mas ainda n'este ponto cumpre que uma razo clara, que uma percepo
definida do dever, a guie, a dirija, a constranja nas suas tendencias
muitas vezes exageradas.

No ha nada mais agradavel n'um _mnage_ do que uma mulher moa, fresca,
elegante, da graciosa e simples elegancia que provm do gosto apurado e
distincto; os requintes de luxo exterior so, por assim dizer, na vida
do homem, uma superfluidade necessaria, so um conchego para o corpo,
uma caricia para a alma, mas que nunca o luxo conduza a familia  mais
leve transigencia indelicada, que nunca a mulher lhe sacrifique um s
dos seus deveres!

Todos so igualmente respeitaveis; todos esto unidos entre si por uma
cadeia de los inquebrantaveis.

Na mulher ainda mais do que no homem, o abuso das qualidades uteis leva
s mais funestas consequencias.

Para a mulher ainda  mais delgada a linha do dever.

O caminho  estreito, difficil, sinuoso: para quem d'elle ou para alm
d'elle est o erro.

Por isso quantas senhoras s vezes dizem:

Queixam-se de ns porque somos garridas, e se nos vem modestas, sem
prendermos a minima atteno s futilidades perigosas do luxo,
condemnam-nos ou fogem do nosso lado.

Queixam-se de ns porque somos ignorantes, mas se o nosso espirito se
accende em curiosidades scientificas, se lmos, se estudamos, se
tentamos ir um pouco alm dos limites impostos ao nosso sexo, somos
alcunhadas de pedantes, e de _preciosas_ ridiculas!

Queixam-se de ns porque somos devotas, supersticiosas, porque levamos
ao exagero as praticas do catholicismo, porque nos deixamos guiar
mysteriosamente pela mo occulta do padre, mas se procuramos livrar-nos
d'este jugo, se queremos a independencia absoluta do espirito e da
consciencia, chamam-nos _livres pensadoras_, e os homens sentem medo
instinctivo de entregar a sua honra nas nossas mos.

E por aqui adiante uma longa jeremiada n'este teor.

Eu, porm, mesmo concedendo que ha um fundo de incontestavel verdade no
que dizeis, respondo-vos, minhas senhoras, que  positivamente porque a
vossa misso  difficil que ella tem tamanha importancia e pde adquirir
de dia para dia uma importancia ainda maior.

No dia em que comprehenderdes claramente o vosso destino, sabereis ento
o que  ter a graa, a elegancia, o encanto exterior, sem que vos
contaminem as criminosas vaidades; o que  ser intelligente, instruida,
reflexiva sem conhecer o pedantismo, e a ridicula pretenso; o que  ter
o ideal religioso, sem o manchar com supersties, preconceitos,
intolerancias funestas; o que  aproveitar cada uma das vossas
riquissimas faculdades equivalentes, mas no iguaes, das do homem, sem
que a vossa inercia as esterilise, sem que a vivacidade nervosa do vosso
temperamento as leve a extremos e demazias altamente funestas  familia
e  sociedade da qual  aquella o mais perfeito reflexo.




CAPITULO XI

O trabalho das mulheres


O preconceito mais funesto, que ainda nasceu e medrou n'este mundo,  o
que considera o trabalho uma escravido deshonrosa.

Comea hoje a irradiar os seus primeiros clares rubros a aurora do dia
que ha de vr o trabalho santificado, que ha de assistir  divina
apotheose d'esse bemfeitor supremo da humanidade, d'esse amigo de todas
as horas, que conforta os animos desconsolados, que levanta os animos
abatidos, que distre de todos os tdios, que lucta contra todas as
inercias.

Por emquanto, sobretudo entre ns,  rara a mulher bastante superior
para confessar que trabalha, e o que  peior de tudo,  rara a mulher
que trabalha sem absoluta e incontestavel preciso.

Mais d'uma vez temos visto senhoras, que pela sua educao mais apurada
e mais completa deviam estar a cima de to profunda ignorancia dos seus
deveres, confessarem que no gostam de fazer nada, que so preguiosas,
que no tem com que se distrahir, que os dias lhes parecem seculos,
etc., etc.

E no entanto qual ser a creatura bastante desfavorecida de Deus, para
no poder aproveitar proficuamente as horas do dia, sempre curtas para
quem as sabe empregar bem?

Fallemos primeiramente das meninas solteiras de pouca edade; para essas,
logo que queiram tornar-se dignas do alto destino que as espera, pouco
ser sempre o tempo para se instruirem, para adquirirem os varios e
complexos conhecimentos de que carecem antes de exercerem a sua misso
complexa.

No so smente os futeis ornamentos superficiaes em que ellas devem pr
a mira; a par d'esses, que tambem so indispensaveis, ha todo um mundo,
que a mulher ignora, e cuja explorao lhe enriqueceria o espirito de
thesouros incomparaveis.

E depois, mesmo os frivolos adornos, que constituem uma alta educao
mundana, podem ter uma significao elevada, um sentido occulto, uma
_alma_ emfim, logo que se no considerem um _todo_, mas uma parte
insignificante do mais alto e perfeito conjuncto; logo que occupem o
lugar que lhes compete, na classificao harmoniosa e bem graduada das
varias riquezas que formam um espirito.

Saber cantar, saber tocar piano, saber fallar as linguas, saber desenho
e pintura, que vale tudo isso quando se no tenha uma ida elevada e
synthetica, que ligue entre si estas diversas acquisies intellectuaes,
e que por assim dizer as vivifique?

O que  preciso antes de tudo,  comprehender a musica e a sua
influencia poderosa nas almas e nos organismos;  saber usar com
aproveitamento esses instrumentos que se chamam linguas, as quaes por
si, s, tomadas abstractamente, nada significam e para nada servem; 
estudar a natureza sob os seus multiplos aspectos e transplantal-a para
a tela ou para o papel;  ter emfim um ideal, que sobredoire todas estas
prendas, que superficialmente entendidas e superficialmente executadas,
no teem valor nem tem utilidade alguma na vida pratica.

Basta a qualquer espirito feminino entrar n'este caminho, que
imperfeitamente acabamos de apontar, e, sem que elle mesmo tenha a
consciencia d'isso, as suas idas ho de dilatar-se e encadeiar-se por
uma successo logica, e dar  vida um novo e imprevisto aspecto.

As meninas bem educadas das nossas altas classes sociaes, teem todas uma
grande facilidade em fallar varias linguas; aproveitam porm essa
facilidade... conversando com os diplomatas.

No lem Schiller, nem Goethe, nem Shakespeare, nem Macaulay, nem
Pascal, nem Montaigne; no entram no genio das differentes
nacionalidades e das differentes litteraturas; no comparam entre si as
civilisaes, chegando por esta comparao a conhecerem de um modo mais
ou menos perfeito a humanidade, no senhor! Conversam com os _gommeux_
da diplomacia estrangeira e contentam-se com isso!

Na musica que, mais do que nenhuma arte, lhes revelaria o corao do
homem no corao de tantos homens de genio, o que ellas vem smente  o
modo de executarem mais difficuldades e de desesperarem de inveja mais
rivaes!..

Na pintura, copia da natureza que as podia fazer penetrar no seio
carinhoso e fecundo da grande me, so to frivolas, to superficiaes,
como em todas as outras cousas.

As mais das vezes no teem animo de colherem uma flr do jardim e de a
copiarem com o pincel ou com o lapis! Copiam copias, amesquinhando a
natureza, e atrophiando a propria imaginao!

So estes defeitos, que todas ns as que pensamos um pouco, devemos
combater com todas as nossas foras!

Longe de mim o aconselhar  mulher que se emancipe dos seus graves e
obscuros deveres, que tente luctar com o homem, e arrancar-lhe a palma
das grandes descobertas e das grandes conquistas!

O que eu pretendo  provar-lhe que  divina entre todas, a misso a que
o futuro a convida.

A mulher de sala tem por fora de morrer; surja pois a mulher da
familia, ser complexo, grande e nobre sr, que as geraes vindouras ho
de admirar fervorosamente.

A mulher da familia no  de certo a matrona desgeitosa, deselegante, s
occupada em dar a vida, o leite e o alimento aos filhos de um affecto,
despido de todas as flores e de todas as poesias.

No, ella deve ser instruida, profundamente instruida, tendo ao mesmo
tempo a consciencia de que essa instruco a no aparta do cumprimento
religioso dos mais humildes deveres do amanho da casa e da maternidade.

O homem deve achar n'ella no s a enfermeira desvelada das suas
doenas; no s a distribuidora sensata e economica do seu alimento; no
s a dona de casa aceiada, vigilante, infatigavel; no s a me
carinhosa, dedicada, capaz dos maximos e dos mais perseverantes
sacrificios, seno tambem a companheira do seu espirito; a socia das
suas aspiraes; a intelligencia que comprehenda e partilhe as suas
legitimas ambies e as suas chimericas phantasias; o animo viril que
saiba amparal-o nas horas de desalento; a mo firme e branda, que saiba
guial-o nos momentos escuros de lucta e de tentao: o seio terno que
lhe acolha a cabea cansada na hora sinistra das derrotas; o bello e
enthusiastico espirito que applauda a suprema embriaguez das suas
victorias; n'uma palavra, a mulher digna de ser me e de educar uma
gerao de fortes.

 preciso, que se compenetrem bem d'esta ida fundamental: o trabalho,
seja de que especie fr no desdoira uma mulher nem deixa de ser
compativel com as mais delicadas distraces de um espirito culto.

Trabalhar no  fazer _crochet_, no  cozer durante seis mezes na mesma
camisa, que ha de ser offerecida a um pobre romantico, a um pobre de
_opera-comica_; no  bordar umas eternas _babouches_, que se comeam no
dia seguinte ao do casamento, e que se acabam dez annos depois.

Trabalhar  ser util,  occupar o espirito,  adquirir conhecimentos ou
espalhal-os em torno de si,  concorrer para o bem-estar dos outros e
para o seu aperfeioamento proprio.

A mulher que trabalha levanta-se cedo, no conhece as scismas
voluptuosas, os languores morbidos, as _flneries_ sem motivo e sem fim.

 activa, por isso no tem aquellas horas de tdio profundo, que
descobrem diante de um olhar os horisontes sinistros e esbraseados do
suicidio; tem saude porque o tempo bem applicado e bem dividido no lhe
deixa intervallos para se _escutar_, se sondar, para analysar as suas
pequenas dres, os seus pequenos incommodos, e os aggravar tomando
remedios nocivos, e entregando-se  molleza que a pouco e pouco destroe
a robustez do corpo; gosa de tudo com alegria, com vitalidade, com
expanso, no desdenha nenhum dever, nenhuma occupao, nenhum trabalho
porque o amor e a intelligencia prendem-se a tudo que ella faz.

Porque sabe conversar na sala com facilidade e chiste, nem por isso
deixa de saber estar na cosinha, observar um por um todos os utensilios,
vr se esto limpos, inventar um _menu_ que reuna as condies da
economia e da variedade, ensinar a sua cosinheira, fazer mesmo por suas
mos um prato predilecto, que  mesa o marido e os filhos ho de saudar
com alegria e saborear com appetite.

Desejo que ella saiba bordar, mas exijo que saiba serzir panno, dar
rdes com perfeio, cozer a roupa da casa e a roupa dos filhos, cortar
e fazer os seus vestidos, dando assim mais que um exemplo de economia,
um exemplo de moralidade! protestando at onde chegam os seus limites,
contra a torrente impetuosa e funesta, que arrasta as familias desde o
luxo at  infamia, desde a impostura at  quebra de todas as
dignidades e de todos os pudores.

Quero mais, que ella se no envergonhe de confessar que trabalha, e que
no diga que o seu fato  feito por uma qualquer modista estrangeira,
quando  ao seu laborioso sero que ella deve a elegancia que d'este
modo  duplamente preciosa e sympathica.

No imagine a mulher, que entre os deveres que acceitou ha uns que a
deslustram, e outros que lhe ficam bem.

Debaixo do ponto de vista da razo todos os deveres so eguaes e esto
prezos entre si por uma cadeia invisivel.

Da alegria da mesa depende a alegria do lar; da economia de todos os
instantes, depende o bom humor das festas de familia; da elegancia e
primoroso aceio da mulher depende a ternura inexgotavel do marido; do
modo porque ella rege e domina o seu pequeno imperio domestico, depende
a educao dos filhos, a moralidade do interior, a harmonia intima da
vida, e at a graa, o espirito, a liberdade com que ella conversa e ri
na sala.

Todas as mulheres se queixam dos maridos, e nenhuma ainda percebeu o
seguinte: so ellas que preparam e determinam o seu destino;  a ellas
que a familia em geral deve a sua desordem, a sua dissoluo, ou a sua
felicidade.

No basta ter todas as graas,  preciso ser util, e no fardo que se
acceita em commum tomar a parte que mais custa a supportar.

No basta ser util, prestadia, arranjada, economica;  preciso ter a
intelligencia que idealisa um pouco os tristes e aridos encargos da
vida.

Toda ou quasi toda a mulher se sente amesquinhada pelo seu destino, e
protesta contra as leis, contra os usos, contra as instituies, que a
exilaram dos altos cargos da republica, que lhe tolheram o passo para
todas as eminencias sociaes, e que a condemnam  obscuridade e  lhaneza
do viver domestico.

Oh! abenoados sejam os costumes, as leis, as instituies, que deram ao
homem tudo que  ruido, pompa, ostentao, orgulho e vaidade, e que nos
deram a ns a dce misso de encaminharmos o futuro, de guiarmos a
humanidade no caminho do bello e do bom!

Se at agora temos trahido essa misso a que fomos destinadas, a culpa 
nossa e no de quem constituio sob uma frma to racional e to justa a
sociedade.

O tempo que passamos no barulho vazio das festas mundanas, colhendo
decepes e rancores, excitando invejas, provocando sensuaes applausos,
porque o no gastamos a lr, a estudar, a penetrar no mundo da natureza
e no mundo da sciencia em todos os seus aspectos to varios, em todas as
suas manifestaes to sympathicas; porque no dirigimos a poder de
trabalho e de esforo a primeira educao de nossos filhos, e deixamos
que mos mercenarias lhe arranquem aquella dce penugem da alma que  a
ignorancia dos pequeninos?

Porque no fazemos da nossa casa, um ninho alegre e ffo, que o nosso
marido prefira ao botequim, ao Gremio, ao Club, ao restaurante,  casa
dos seus amigos, e onde elle esteja certo de encontrar o alimento mais
saboroso e mais hygienico, o ar mais puro e lavado, a poltrona mais
commoda, a conversao mais animada, mais substancial, mais chistosa e
menos pedante?

Pouco a pouco  regenerao da mulher, seguir-se-hia a regenerao do
homem, deixariamos de ser a ruina, para nos tornarmos o conforto;
deixariamos de ser o tdio para nos tornarmos a alegria.

Talvez no houvesse tantos bailes e saraus, talvez Offenbach, Dumas
filho, Sardou tivessem menos espectadores, talvez as salas de bilhar
perdessem um pouco da sua popularidade; talvez os ourives e as modistas
fechassem algumas das suas lojas, mas em compensao quebravam menos
negociantes, perdiam-se menos mulheres, a calumnia renunciava a uma
grande poro do seu alimento diario, o falso luxo que mata de fome os
filhos e que arrasta sedas pelas ruas enlameiadas da cidade, ou se
reclina voluptuosamente nos coxins flascidos d'um coup de oito mollas,
o falso luxo deixaria de ostentar com to descarada altivez as suas
lentejoulas compradas com moeda vil, e esta nossa sociedade, que paroda
to ridicula e to desgraadamente a sociedade cosmopolita, opulenta e
artificial da Frana, tomava diverso rumo, assumia a dignidade que lhe
falta, e descobriria no futuro o ideal, que no tem e que procura nas
trevas.

O primeiro passo para que este deploravel estado de cousas melhore um
pouco,  que as mulheres comecem a trabalhar.

As ricas instruam-se; as pobres ajudem seu marido sem se envergonharem
da sua honesta pobreza, e todas sem exceptuar qualquer posio social,
occupem o tempo para no darem logar s tentaes da vaidade, aos sonhos
morbidos que enfraquecem o corpo e o espirito, s negras horas
dissolventes do tdio, em que tudo se concebe e se admitte como
possivel, at o esquecimento de todos os deveres, at o proprio crime
com o seu romantico cortejo de sensaes e de terrores.




CAPITULO XII

A toilette


As mulheres teem, na generalidade, um costume deploravel! S se vestem e
se enfeitam e querem ser amaveis para o publico.

O marido, ainda o mais feliz e mais extremoso, tem sempre um rival
terrivel, um rival exigente, um rival que lhe rouba parte das
prerogativas e lhe cerceia parte dos direitos.

Esse rival  o publico,  esse detestavel tyranno chamado _tout le
monde_, a quem tudo se sacrifica, e do qual em recompensa s se recebem
criticas e desdens!

Para elle nos vestimos, para elle levamos horas e horas a combinar o
effeito da nossa _toilette_, para elle estamos defronte do espelho
prendendo flores no cabello, inventando as difficeis architecturas do
penteado, para elle sabemos tocar piano e sabemos cantar, para elle
desejamos ser formosas! para que elle nos applauda--mentiroso e
humilhante applauso!--exhaurimos todos os recursos da nossa imaginao.

Para agradarmos a elle, que  o _extranho_, nos esquecemos dos que so
nossos!

Em casa as mulheres, pelo menos as mulheres portuguezas, as que eu de
mais perto conheo, preferem a tudo, aquillo a que to impropriamente
chamam _estar  vontade_.

Usam uma _robe-de-chambre_ desbotada, quando no trazem um vestido velho
que j no serve para a rua; trazem o cabello em _papelotes_ ou frisado
em ganchos, e como querem descansar um pouco das talas que impuzeram aos
ps, consolam-nos, mettendo-os em umas largas _babouches_ desgeitosas.

Pela manh,  hora do almoo do vontade de chorar!

O marido olha para ellas e... de duas uma:--ou sente fastio ou come como
um lobo.

De qualquer dos modos manifesta a sua melancolia.

Questo de temperamento que no vem ao caso analysar aqui.

Ao meio dia, eis porm, que se lembram das visitas que no tardam, das
_inimigas intimas_ que veem colhr invejas e semear despeitos, de todas
as ferozes exigencias sociaes, de que so submissas escravas!

Desfranzem a testa, ageitam um sorriso malicioso ou sentimental,
consoante o genero da physionomia, mergulham o corpo nas tepidas e
perfumadas caricias do banho, vestem-se, burnem-se, penteiam-se,
pintam-se... e apparecem transformadas.

Durante umas poucas de horas esto no palco.

O auditorio  escrupulosissimo. Ao menor indicio que lhe deste,
manifesta sem piedade o seu desagrado.

Ellas, no entanto, suam _sous le harnais_, mas so intrepidas at 
heroicidade.

Teem caricias felinas, sorrisos que adormecem a tristeza nos coraes
mais desconsolados, sabem ser engenhosas, cheias de invenes felizes,
conseguem plenamente o seu fim, e ao deixarem a scena fica no ar uma
impresso boa, quasi enternecida.

Chegou a occasio de voltar aos _bastidores_.

N'este caso os bastidores so a companhia do marido.

Oh! Como ellas veem cansadas, aborrecidas, cheias de tedio, e de
desalento! Despem, com a voluptuosidade com que se despe um cilicio,
todas essas elegancias que as torturavam; o sorriso ficticio
apaga-se-lhes dos labios, a luz ficticia esmorece-lhes no olhar.

A pelle precisa de _cold-cream_, de _veloutine_, de todos os
ingredientes nauseabundos: o cabello cahe-lhes aos ps, solto dos
ganchos que o prendiam, e em quanto a aia, com um sorriso ladino, os
recolhe cuidadosamente na caixa de carto, o marido contempla
assarapantado, cheio de ingenuo e comico assombro, aquella cabea que
ainda ha pouco, no orgulho com que se erguia, na magestade altiva com
que ostentava o delicado edificio das tranas e dos _riados_, lembrava
uma das cabeas gentis que o seculo XVIII beijou com enlevos e que a
guilhotina beijou com volupia selvagem.

O p estreito e _cambr_, que ainda ha pouco nos circulos vertiginosos
da valsa, fazia pensar n'aquellas andorinhas forasteiras, que roam a
terra com o vo inquieto e leve, sacode as prises que o ligavam
dolorosamente, e dilata-se  vontade, com uma furia de independencia
verdadeiramente demagogica e revolucionaria, na primeira chinela que
apparece.

Todo o aspecto physico se transfigura e--consequencia fatal d'esta mesma
causa--o aspecto moral transfigura-se tambem.

Como a dissimulao eterna  impossivel ainda aos mais hypocritas, os
defeitos que to cuidadosamente se esconderam ao publico, revelam-se ao
marido.

Riamos sem vontade ainda agora!

Com a fortuna! Desabafemos o nosso mau humor, visto que estamos em casa!

Tinhamos paciencia para aturar com expresso interessada e benevola as
sensaborias muito estafadas de um senhor engravatado, de luvas cr de
canario e bigode retorcido e insolente?...

Sejamos agora desapiedadas para as historias j um pouco velhas, mas em
summa bastante apresentaveis que o nosso marido nos quer contar!

Fingir! sempre fingir!... Impossivel!

Sejamos verdadeiras, ao menos n'esta occasio, j que s desagradamos
quelle que tem obrigao restricta de nos aturar, quer queira, quer
no!

Isto, que  primeira vista parece insignificante, quasi frivolo, tem um
alcance enorme no destino de vv. ex.^{as}, minhas senhoras!

O marido, ao perceber que de todas as mulheres a mais desagradavel  a
sua, tem um momento de profunda tristeza, ao qual succedem uns poucos de
annos de revolta!

 assim que se destroe a familia,  assim que se torna desflorido e
deserto o lar.

Em compensao enchem-se os sales, os _clubs_, os theatros, os
botequins. Resta saber se uma das cousas pde n'uma sociedade honesta e
bem constituida supprir a outra.

Sejam mais garridas em casa, e sejam-no menos fra; aspirem  elegancia
desprezando os mentirosos artificios; procurem, antes de tudo, agradar 
familia e conseguiro a pouco e pouco, sem esforo premeditado, agradar
aos estranhos.

Uma familia boa, unida e feliz  como um fco de calor que attrahe e que
irradia luz benefica.

Ha casas onde se entra e onde nos sentimos como n'um meio sympathico e
captivante.

So sempre as casas em que a mulher possue a intelligencia do corao,
essa cousa rara e preciosa, que suppre a formosura, o talento e todos os
attractivos do espirito.

Vestir-se com uma graa despretenciosa e simples, rodear-se de cousas
bellas, sentir e communicar em torno de si o prazer das distraces
delicadas, ser em casa um perfume vivo, uma harmonia suave que no
cansa, uma luz serena que allumia e que no deslumbra, eis o que  ser
mulher na accepo completa da palavra.

Toda a mulher tem de ser _coquette_ para o marido emquanto para o marido
a eterna tentao for o pmo vedado.

Em geral s se conhecem os dous extremos.

Ou a matrona envolvida na sua virtude como n'uma couraa, temivel,
assanhadia, formidavel, imaginando merecer todas as homenagens do
esposo, porque afugenta com medonho aspecto as homenagens de todos os
outros; ou ento a mulher dos sales, a flr exotica das nossas estufas
mundanas, Salamandra que vive no fogo, Ninon de _biscuit_ que se compraz
nas adoraes que provoca e que inspira, infativel actriz que s  luz
da _ribalta_ sabe desenvolver e manifestar todos os seus recursos.

Entre os dous contrastes  que fica a verdade.

Mulheres, desenvolvei no seio da familia as graas que desperdiaes
pelas voragens d'este mundo.

Tende todas as flexibilidades e todas as resistentencias, todas as
graas e todas as energias; sde o encanto, sem deixardes de ser a
virtude; e sobretudo perdei de vista o publico, esse brutal amante que
vos absorve, que vos perde e que nunca vos corresponde.




CAPITULO XIII

Victoria Woodhall


Uma oradora americana


Os Estados-Unidos, que so decididamente a patria das excentricidades
colossaes, o paiz em que o excesso do positivismo, como que para
justificar o axioma de que _os extremos se tocam_, tem conduzido a
intelligencia a uma especie de permanente hallucinao, os
Estados-Unidos estiveram para dar segundo affirmou a imprensa ingleza,
mais uma prova evidente do seu amor pelas originalidades ruidosas.

Dizia-se que a presidencia d'esta republica to poderosa e florescente
ia ser offerecida a uma mulher, e citava-se o nome d'essa mulher, que 
uma das mais fervorosas e apaixonadas propagandistas da reforma politica
e social, uma das advogadas mais eloquentes da emancipao completa do
seu sexo.

J muitas vezes o temos dito, antipathisamos formalmente com esta
doutrina revolucionaria, da qual no esperamos seno funestos
resultados, por isso nenhum lao de sympathia pde prender-nos  famosa
Victoria Woodhall, de que se occupam com verdadeiro enthusiasmo alguns
dos jornaes importantes da Inglaterra e da America do Norte.

No deixaremos, porm, de estudar com atteno os poucos dados que
conhecemos do seu caracter e da sua intelligencia, porque, embora como
mulher--no concordemos com as suas theorias,--como artista--no podemos
deixar de reconhecer que ella  um producto perfeito do seu meio.

Victoria Woodhall  moa, tem uma formosa presena, _sabe vestir-se_, o
que j  deveras para notar-se n'uma advogada convicta dos _direitos
politicos da mulher_, e se aprecia os triumphos que a sua palavra um
pouco emphatica costuma arrancar aos numerosos ouvintes que a escutam,
nem por isso desdenha os cuidados minuciosos da elegancia mundana.

Teem-na visto prgar sobre um texto biblico, que ella modernisa segundo
as conveniencias da sua these, trajando elegantemente um vestido de
velludo preto, e com uma rosa purpurea aninhada nas lustrosas tranas
escuras do seu cabello garridamente penteado.

 casada, visto que lhe chamam Mistres Woodhall, mas nos sales onde tem
preleccionado apparece sempre s sobre uma elevada platafrma, de onde
prga s turbas.

O marido, se existe,  um simples comparsa, ninguem o nota e ninguem se
occupa em fallar d'elle. Entre parenthesis: no ha posio mais
deploravel que a do marido de uma mulher _celebre_, quer dizer de uma
mulher que falla em publico, que apparece, que declama, que tem os
ruidosos triumphos da actriz, da cantora, da agitadora politica, e agora
os mais modernos da preleccionista social.

Nunca pudemos deixar de sentir muito d do Baro Stael, de _monsieur_
Rolland, do marido de Henriqueta Beecher Stowe, e de tantos outros
forados e obscuros satelites d'esse astro brilhante e phenomenal que 
a mulher acclamada pelo indiscreto applauso das multides.

Agora o marido de Mr. Victoria Woodhall, se acaso vive, o que no
podemos de modo algum affirmar, no tendo nunca ouvido citar o seu nome,
parece-nos uma victima igualmente lamentavel do mesmo negro fado.

Victoria tem dado conferencias, extraordinariamente concorridas, em
Nova-York, em Londres, em Liverpool e em outros centros industriaes da
Inglaterra e da America.

Tem a voz insinuante e harmoniosa, a gesticulao arrebatada e
artistica, a palavra facil, fluente, emphatica, mas to quente e
apaixonada que exerce sempre uma impresso profunda nos que a escutam.

Como j dissemos no tem os terriveis oculos azues, nem o rosto anguloso
e severo de Mrs. Beecher Stowe, uma mulher que fez no seu paiz uma
revoluo humanitaria, e que destruiu aos nossos olhos todo o effeito
sympathico da sua cruzada contra a escravatura com aquellas conferencias
pedantes pelas quaes concluiu a sua carreira litteraria.

A mulher oradora precisa de ser formosa, sob pena de ser ultra-ridicula.
Parece-nos, porm, que do ridiculo simples, sem circumstancias
aggravantes, no a salva nem mesmo a formosura.

Victoria Woodhall no seu paiz prga em favor da santidade do matrimonio,
da reforma da educao, de todos os graves e momentosos assumptos de que
hoje depende a regenerao politica e moral das sociedades.

Fra do seu paiz, porm, no vo to longe ainda as suas aspiraes.

O que ella por emquanto reclama  a igualdade e nivelamento absoluto de
deveres e direitos entre a mulher e o homem.

Adoptamos com todo o corao no os meios, mas o fim d'essa propaganda
to necessaria; mas no podemos concordar de modo algum com o
complemento que a feminil oradora proclama indispensavel.

Achamol-o contraproducente, illogico, funesto s instituies abaladas,
que se pretendem salvaguardar.

Queremos o casamento grave, austero e santo, querermos a creana educada
com solicitude extremosa, queremos a mulher respeitada e querida,
consciencia de bronze e corao de cra, queremos na arte um ideal
severo e levantado, queremos na sociedade a incorruptivel e serena
justia, queremos o homem regenerado e forte, e  porque desejamos tudo
isso, que pedimos a Deus afaste para bem longe de ns o terrivel
flagello da mulher dominando o seu proprio destino e o destino da
sociedade.

N'um discurso de Victoria Woodhall, pronunciado em Nova-York e
applaudido enthusiasticamente por um auditorio de 40:000 pessoas leem-se
os trechos seguintes:

Fallando do casamento,  escusado dizer que falamos n'esse casamento
ideal que toda a maldade dos homens no pde destruir; n'esse casamento,
de cujos membros poder dizer-se com verdade: _Foram unidos por Deus, e
o poder do homem, no lograr desunil-os_; n'esse casamento, de cujas
alegrias jmais querero apartar-se os que um dia as conhecerem; n'esse
casamento que  to sagrado, to puro, to santo, que nem a sombra de
uma discusso pde existir entre, os dous factores que o determinam;
fallamos n'esse casamento em que os dous representantes oppostos da
humanidade--o elemento positivo e o negativo das raas--se tornam pela
aco e pelo pensamento n'um unico ser, e to perfeito, que os mesmos
motores o movam e o faam pensar e obrar; em resumo, n'esse casamento do
qual nem a sombra d'um elemento estranho possa alterar a pureza, a
unidade, a ideal perfeio.

O casamento  geralmente considerado como um assumpto por demais
frivolo ou pueril.

Aceitam-no ou quebram-lhe os laos com a mesma pressa e a mesma ida
das responsabilidades que elle impe, como se o considerassem uma
instituio especialmente designada para satisfazer as egoisticas
paixes da humanidade.

Sim, concordamos plenamente com este levantado ideal do casamento que a
formosa preleccionista apresenta e proclama, mas affirmamos que elle
nunca poder realisar-se se triumpharem universalmente as doutrinas que
ella to ardentemente advoga.

A prova evidente d'esta nova assero  ella quem se encarrega de nol-a
fornecer.

A mulher, como ns a sonhamos e a queremos, no  a forasteira acclamada
e illustre que anda espalhando por sobre a cabea das turbas
indifferentes ou passageiramente commovidas, as suas convices e as
suas theorias sociaes.

Recolhida no seu modesto e placido interior, me de um bando infantil,
mimoso e louro, de que ella fosse a providencia, o amparo, a suprema
alegria, esposa de um homem forte e honesto, de um trabalhador, de um
membro activo e laborioso da moderna sociedade, a aco d'esta mulher
seria muito mais restricta, mas incontestavelmente mais util e mais
salutar.

No daria uma hora de commoo dramatica ao auditorio que viesse
ouvil-a, curioso de excentricidades novas; no julgariam possivel a sua
eleio como presidente de uma republica poderosa; mas as pessoas que
vivessem em mais ou menos estreito contacto com ella receberiam a
influencia honesta do seu exemplo, e os filhos que ella educasse seriam
outros tantos elementos fecundos da futura regenerao social.

No  prgando o respeito ao casamento que se convencem os homens, 
provando esse respeito nas minimas aces e nas aces mais decisivas de
uma existencia.

Mrs. Victoria Woodhall tem arrebatamentos soberbos de eloquencia
oratoria, fulminando a decadencia em que o sentimento da familia tem
modernamente cahido, mas como quer ella provar-nos que comprehende essa
absoluta identificao de duas almas, essa absorpo de um espirito em
outro espirito seu irmo, ella que affirma to rasgadamente a sua
individualidade, ella que apparece em plena luz deixando na sombra
aquelle de que no pde ser seno a metade incompleta, a poro
imperfeita e mutilada.

Anda n'uma gloriosa faina a converter as suas irms que prevaricam ou
descreem, ou ignoram.

Mas se o exemplo da gloriosa propagandista as tentar e seduzir?

Onde fica o lar modesto, o aceio do ninho, o terno amor dos filhos
pequeninos, as obscuras virtudes domesticas, toda a graa, toda a
poesia, todo o conchego, todo o encanto mysterioso e indestructivel
d'essa ineffavel unio chamada o casamento?

       *       *       *       *       *

No nos surprende, porm, este producto extraordinario de uma sociedade
agitadissima e ainda para si propria indefinida e indefinivel.

A America tem-se feito a si mesmo, no procura para as suas leis e para
os seus costumes uma solida base tradicional.

N'ella que  to forte como nao, to pertinaz nos intentos, to
energica nas aces, n'ella que  uma prova terminante de como em dous
seculos se frma uma raa, unica e cheia de virginal vigor, ha cousas
que esto ainda perfeitamente vagas e fluctuantes.

O destino das mulheres  uma d'essas cousas.

Politicamente possuem os mais amplos direitos, podem ser tudo, aspirar a
tudo, todas as carreiras esto abertas diante dos seus passos;
socialmente  quasi um dogma o respeito que inspiram.

Ninguem ousa insultal-as nem com uma palavra, nem com uma suspeita,
gosam de uma liberdade absoluta, andam ss, viajam desprotegidas ou
antes protegidas pela sua fraqueza omnipotente, nos caminhos de ferro,
nos omnibus, nos paquetes; sentam-se ssinhas  meza redonda de um
_hotel_, fazem emfim impunemente, apoiadas pela despotica soberania dos
costumes, tudo que a ns, europas de facto ou de tradio, se affigura
quasi monstruoso de inconveniencia.

E no entanto, apesar d'este reinado apparente, apesar d'este predominio
ostensivo,  bem mais profunda a invisivel influencia que as mulheres do
velho mundo exercem em torno de si, no sobre as leis, o que seria
pouco, mas sobre os costumes, o que  quasi tudo.

 que somos as rainhas do lar; de nosso bom ou mau juizo depende a paz
ou a guerra, a ventura ou a desgraa, a prosperidade ou a ruina, a dce
mediania tranquilla ou a agitada e tempestuosa existencia mundana.

No parecemos nada e somos tudo!

Os que mais nos desdenham no escapam ao nosso poder. Submettem-se-lhe
inconscientemente. Os que luctam contra ns teem de confessar-se
vencidos.

No somos medicas, no somos advogadas, no somos professoras, no somos
preleccionistas officiosas de qualquer theoria, mais ou menos arriscada;
mas somos a influencia continua e permanente, a voz surda que sempre se
escuta, a tentao funesta ou a guia providencial, o grande poder
obscuro, a que se no furta o filho, o irmo, o marido, o proprio pae!

Que importa que no possamos exercer a nossa aco dentro da esphera
restricta e limitada das leis, se os costumes ahi esto, para que ns os
crimos, os modifiquemos, os transformemos, para que ns lhes dmos o
nosso collectivo impulso enorme!

Na America, visto que a mulher tem a faculdade de luctar com o homem no
campo da actividade pratica, -lhe restringido fatalmente o seu poder na
esphera em que ella pde e deve ser rainha.

O casamento na America protestante, dizem os viajantes que teem
observado os costumes d'essa raa estranha e vigorosa,  um contracto
temporario que se baseia no calculo, e que o mais leve atricto pde
destruir.

O divorcio  alli um facto vulgarissimo, ha mulheres divorciadas de tres
maridos que contrahem muito serenamente um quarto matrimonio to sagrado
e to respeitavel como os tres primeiros.

Os filhos resentem-se inevitavelmente d'este estado transitorio em que
permanece a familia.

No teem respeito nem disciplina, e  mais do que provavel que no
tenham amor.

Em pequenos teem de sujeitar-se s regras estabelecidas, logo porm que
sahem da infancia representam por si proprios, encetam a grande lucta da
vida.

A independencia pessoal, o individualismo britannico, accentua-se alli
d'uma frma muito mais saliente.

_Cada um por si_, eis a lei que rege o verdadeiro _Yankee_, lei que
herdou de seus avs anglo-saxonios e que exagerou, accommodando-a s
despoticas exigencias do seu meio.

Assim como a sociedade politica, assenta no principio da mais ampla e
rasgada descentralisao, assim a sociedade moral  dominada por um
principio exagerado de independencia, que afrouxa necessariamente os
laos da familia.

No se faz ida entre ns do que  um interior nos Estados-Unidos.

Nas classes burguezas e medianamente favorecidas dos bens de fortuna,
vive-se por assim dizer em commum n'uma especie de hospedaria, em que se
reune uma duzia ou mais de familias.

s horas da refeio agglomera-se em torno da meza aquella multido de
indifferentes que mal se conhecem; comem  pressa absortos em
preoccupaes de ordens diversas que ainda mais os separam e os
distanceiam.

A comida feita sem amor, sem solicitude, sem o cuidado que inspiram 
boa me e  boa esposa as predileces dos filhos e do marido, a hygiene
da familia, a economia do lar, no tem para nenhum dos commensaes nem
alegria nem sabor.

Comem como quem cumpre uma obrigao indispensavel e enfadonha, e d'alli
partem para a faina, para o trabalho sem treguas, para a lucta acerba e
pertinaz.

Nem um momento de repouso ou de tranquillo devaneio.

A vida  o trabalho; o tempo  mais do que dinheiro,  sangue.

A existencia dos americanos  uma existencia de operario, tressuada,
esmagadora.

Todos querem conquistar a sua poro legitima de abundancia ou mais
ainda, de riqueza.

Para que?

Para terem bem firme a consciencia de que a mereceram.

Ha uma pressa febril, uma impaciencia vertiginosa, uma ancia de todos os
instantes n'esta raa de impetuosos luctadores.

As qualidades e os defeitos britannicos attingem alm do Atlantico um
relevo exagerado.

N'esta vida cortada de obstaculos e difficuldades, n'esta vida em que a
energia do homem, o seu vigor physico e moral, a dura tenacidade do seu
querer, se exercitam e robustecem na mais desenvolvida escala, que lugar
pde haver para a poesia, para a arte, para as tranquillas douras da
vida domestica, para os prazeres de uma culta sociabilidade?

Ha tempo apenas para admirar as extravagancias imprevistas, as cousas
novas e excentricas que firam a atteno, que se imponham rapida e
subitamente ao pasmo das turbas.

Deriva do modo inteiramente caracteristico porque os americanos entendem
a vida, o lugar que n'ella do  mulher. Isolada por um esteril
respeito, despojada de todo o predominio que entre ns lhe concedem os
costumes, e a tradio religiosa e social, a mulher para tentar adquirir
a consciencia da sua fora, tem fatalmente de ir procural-a na arena em
que luctam os homens.

Isto em vez de os converter, mais os liberta d'aquelle poder occulto e
latente, d'aquella doce e invisivel influencia que partindo d'alto lhes
suavisaria a indole, os costumes e os gostos.

Victoria Woodhall  o fructo genuino d'esta sociedade incompleta n'uns
pontos e n'outros inteiramente transviada do verdadeiro caminho, do
caminho que conduz  felicidade e ao equilibrio de todas as faculdades
humanas.

S na America do Norte  que esta valente prgadora das reformas sociaes
podia ter nascido, s a America  que podia entendel-a e applaudil-a com
to sincero enthusiasmo!

Se manh uma das nossas mulheres comeasse a percorrer as grandes
cidades da Europa meridional, prgando a transformao dos costumes, os
direitos politicos do sexo feminino, a reforma das instituies, a sua
prdica, por mais eloquente que fosse, seria abafada em uma tempestade
homerica de risos!

Aqui muito  puridade, eu no sei se somos ns, que temos razo!




Criados e Amos




CAPITULO XIV


I


Fallemos dos nossos criados.

 um assumpto este de importancia summa.

Tem relaes estreitas com a administrao da casa, com o seu aceio,
arranjo, conforto e bom governo; com a moralidade que n'ella existe, com
a figura que ella representa em relao s outras casas.

Parece uma questo ridicula e comesinha; tem sido estragada por todas as
matronas de mau humor que desafogam n'ella a superabundancia da sua
bilis;  o assumpto obrigado das conversaes das mes burguezas, em
quanto nas pequenas _soires_ dos quartos andares _as meninas_ estafam
um desgraado piano asthmatico, os _litteratos_ da familia recitam
versos a _Ella_, e tres commendadores gordos e vermelhos disputam
acalorada e ferozmente a uma banca de voltarete.

Ninguem todavia ainda encarou esta questo debaixo do seu verdadeiro
aspecto.

Declama-se contra a decadencia e desmoralisao dos criados de hoje, mas
ninguem pensou que esta decadencia, que esta desmoralisao, provm
forosamente de alguma causa que  necessario conhecer e destruir.

 primeira vista, observando na familia, esse elemento que se tem
tornado to indispensavel quanto perigoso, nota-se o seguinte:

--Que os criados de hoje no se podem comparar aos criados antigos, nem
na fidelidade, nem na lealdade, nem no desinteresse, nem na moralidade.

J se v que esta regra tem excepes numerosas, de que no tractaremos,
mas que reconhecemos e admittimos.

--Que dia a dia se nota n'esta classe um desapego mais profundo pelas
familias a quem serve, e em cujo seio penetra.

--Que elles so sempre ou quasi sempre os auxiliares da traio, do
vicio, da desobediencia, e que portanto  profundamente corruptora a
influencia que exercem na familia.

--Que o seu interesse consiste em especularem com as fraquezas ou as
maldades d'aquelles de quem dependem, e que vivem e medram na
immoralidade dos seus superiores.

--Que pelo seu comportamento se revelam inimigos natos de todos que
esto acima d'elles, e que presentindo a vantagem que lhes pde provir
do rebaixamento dos entes de quem receiam a severidade ou que so
forados, muito contra sua vontade, a respeitar, o fim que elles teem, e
que procuram por todos os modos attingir,  o seguinte: penetrar
vagarosa e cautelosamente na confiana dos amos, extorquir-lhes os seus
segredos, e divulgal-os por sde instinctiva de vingana, ou
exploral-os, por desejo immoderado de ganho.

Posto isto, provado est que os criados so os nossos _inimigos
necessarios_, e que  preciso que para com elles a nossa attitude seja
por em quanto inteiramente defensiva.

E dizemos _por em quanto_, por uma razo muito simples.

Porque entendemos que, quando n'uma classe inteira se manifestam
symptomas de corrupo e de gangrena, a culpa vem por fora de longe, e
_de cima_, e que devemos applicar-nos com todas as nossas foras e todos
os nossos desejos, a modificar essa culpa, e a redimil-a por fim.

A que pde attribuir-se o contraste notavel que se reconhece entre os
criados _antigos_ e os criados de hoje?

A muitas causas independentes da nossa vontade, e sobretudo da vontade
d'elles; as causas que teem o seu _qu_ de politicas, e seu _qu_ de
economicas, o seu _qu_ de sociaes, o seu _qu_ de philosophicas.

Vejam em quantas questes nebulosas e importantes entesta esta humilde
questo de criados.

Transformao completa do viver social e do viver domestico.

D'antes a familia era fundada n'um principio de muito menos justia, mas
n'uma base de muita mais solidez.

Havia o _chefe_ que acolhia  sua vasta sombra, os irmos, os parentes
pobres, os filhos, os servos que eram tambem uma tradio e tambem uma
herana.

Quando o chefe morria succedia o filho ou o irmo mais velho, que
herdava os irmos, os tios, os parentes pobres, os servos, todos os
haveres, e tambem todas os encargos da numerosa communidade.

Os criados entravam ao collo de sua me que vinha ser aia, ou varredora,
ou engommadeira, ou outra cousa qualquer e sahiam de 60 ou 80 annos no
caixo para o cemiterio, deixando na familia nova gerao de servos que
eram seus filhos.

D'este modo havia estabilidade nos seus empregos. S eram demittidos por
_erro de officio_.

No receiavam o dia de manh, no sentiam a esmagadora indifferena dos
superiores a revelar-lhes que na familia eram prias, eram estranhos,
eram inimigos.

No precisavam de se apossar de um segredo, de ameaar tacitamente com
uma denuncia, de lisongear vilmente um vicio ou mesmo uma mania, para
darem solidez e garantia de durao  sua posio dependente e precaria!

Em quanto que na vasta sala de jantar, de tectos apainelados, e custosos
pannos de Arras, em torno da pesada meza de carvalho, primorosamente
entalhada, se reunia alegre a numerosa familia, em que umas poucas de
geraes se enlaavam, na cosinha do palacio, ao lume crepitante das
fornalhas enormes, reunia-se tambem a familia ainda mais numerosa dos
antigos servos.

Eram paes, mes, filhos, s vezes netos.

No estavam privados de todas as condies humanas, tinham as suas
festas intimas, as suas alegrias, os seus affectos.

O seu maior empenho consistia em que a familia de que dependiam,
florescesse e prosperasse; a sorte d'elles e dos seus, estava por assim
dizer, identificada com a sorte dos amos.

Affeioavam-se quellas paredes, ou quelles moveis,  senhora que era
branda e protectora para elles, s creanas que tinham ajudado a crear,
e que um dia viriam a conceder-lhes a mesma proteco que hoje recebiam
dos paes.

Eram maus, interesseiros, crueis s vezes! Embora!  porque eram homens,
e no porque eram servos.

Tinham as qualidades boas ou ms da humanidade e no as de uma
determinada classe.

D'aqui a sua superioridade sobre os criados de hoje.

       *       *       *       *       *

No regimen moderno, a familia tem outra constituio e outros costumes.

As fortunas extremamente divididas j no consentem esse modo de viver
opulento e patriarchal.

Os mesmos ricos, que so no fim de contas os grandes financeiros
modernos, esses que juntaram a fortuna de que gosam  custa de privaes
e de trabalho, so egoistas para todos, e particularmente duros para os
inferiores.

Na sua opinio os criados so machinas. Umas machinas que vestem casaca,
e usam gravata branca.

Exigem d'elles um servio irreprehensivel, uma obediencia passiva, uma
disciplina exemplar.

De resto odeiam-nos porque lhes teem um certo mdo.

Comprehendem perfeitamente que so rediculos, elles que andaram tanto
tempo de tamancos, a varrer os armazens, a levarem empurres e maus
tractos dos caixeiros grandes da casa, a curvarem-se humildemente diante
dos _patres_, dando-se agora aquelles ares superiores e desdenhosos de
potentados.

Emquanto comem em pratos de Sevres ou do Japo, uns manjares exquisitos
que o cosinheiro, o seu cosinheiro de dez ou doze libras por mez, lhes
impinge traioeiramente, sentem-se acanhados diante do olhar frio, do
olhar metallico dos criados de meza, e imaginam que elles no mudo
escarneo d'esse olhar, lhes dizem que esto percebendo o seu
desastramento, os seus gestos grosseiros, e at a saudade com que
recordam a assorda e o bacalhau salgado dos bons dias da mocidade.

D'esta hostilidade mutua nada bom pde resultar.

Os amos so orgulhosos, cheios de desdem, de indiferena, de duro
egoismo; os criados so hypocritamente humildes, so invejosos, e
malevolamente escarnecedores.

S um lao pde ligar estes sres; a cumplicidade.

De cima no haver brandura em quanto de baixo no houver subserviencia
criminosa.

Ambos o comprehendem de sobejo; comprehendem-no sobretudo os criados que
andam  mira d'um segredo, d'uma indiscrio, d'uma descoberta qualquer
que os faa levantar a cabea.

No dia em que a aia recebe a primeira confidencia da senhora, no dia em
que entrega o primeiro bilhete, no dia em que lhe  escutado o primeiro
recado de que a encarregam, invertem-se os papeis, e s continua
apparentemente aquella humildade que a suffocava de colera e de
despeito.

Era escrava obediente e muda, hoje  cumplice, o que quer dizer tyranna.

Ao marido em caso identico succede o mesmo.

Moralidade d'esta situao: o criado de hoje triumpha quando seus amos
se rebaixam.

       *       *       *       *       *

Entremos nas casas burguezas, que constituem hoje a maioria.

Vive-se com pouco, ha uma ou duas criadas, a pobreza traz comsigo uma
certa promiscuidade que abala o respeito.

J aqui os criados no so automatos que se movem ao impulso d'uma
vontade superior.

No so mudos, no teem a fria apparencia aristocratica que revela a
opulencia da casa em que servem.

Pelo contrario; as criadas esto iniciadas nos pequenos segredos da
familia, mas como a vida de hoje, toda de expedientes, toda no ar,
desiquilibrada, impostora, no tem aquella dignidade da vida antiga, as
criadas com o seu malicioso instincto plebeu penetram esse viver,
julgam-no e escarnecem-o.

Podia-se viver decentemente com o pouco que ha. Chega mesmo para uma
alimentao sadia, para a satisfao das necessidades indispensaveis; se
a dona da casa desenvolver os seus recursos de economia,
conseguir-se-hia sem muito trabalho, no fim do anno, _joindre les deux
bouts_ como expressivamente dizem os francezes.

O pae  um funccionario bem collocado, o rendimento se no  grande pelo
menos  sufficiente para uma vida mediocre e laboriosa.

Diante d'este quadro parece-nos que no ha brecha por onde possa
penetrar a malicia interesseira da criadagem.

Pois ha, minhas senhoras!

O dono da casa tem um emprego bom,  verdade, mas aspira a subir de
posto, quer de mais a mais a carta de conselho, leva isto _em capricho_
por causa das _picuinhas_ do seu collega da secretaria, o conselheiro
Fulano; logo, para attingir este fim desejado  preciso antes de tudo
_figurar_.

Tem de ir aos _chs_ do seu amigo deputado, s _soires_ do baro de tal
_que  muito influente_, tem de dar de jantar de vez em quando ao seu
amigo _cicrano_ que  parente do primo da mulher do secretario
particular do ministro, tem de gastar muito em apparato ridiculo, em
luxo avariado, em pompa feita de remendinhos.

A mulher, j se entende, no lhe fica atraz!

Podra!

E ella ento que tem de se vingar d'uns chascos que as snr.^{as} Silvas
fizeram ha tres annos a um vestido de seda um tanto usado que ella
trazia; e que tem de fazer rebentar de inveja a _D. Leocadia_ que 
mulher d'um commendador seu conhecido; e de _quebrar os olhos_  prima
Ausenda que anda a dizer pelas casas do seu conhecimento que no sabe
onde ella vae buscar para tanto luxo!

Filhas d'estes paes o que sero as meninas?

Querem vestidos de seda, embora os comprem em _segunda mo_, querem
joias embora sejam falsas, querem botinas de taco alto, porque as teem
visto s pequenas da viscondessa de M. e da baroneza de S. e da marqueza
de V.; querem apparecer no theatro, querem ir ao _Club_, querem tomar
banhos quando no seja em praia elegante, ao menos na Ericeira; querem
_reunir  noute_ uma vez por semana, umas visitas que nunca vo, querem
fazer emfim o que por ahi faz _toda a gente_.

Resultado d'isto, resultado inevitavel.

Deve-se na tenda, deve-se no carvoeiro, deve-se na modista, deve-se no
sapateiro, deve-se na loja de fazendas, deve-se s criadas.

A falta de seriedade na vida, acarreta comsigo um milhar de pequeninas
humilhaes insupportaveis.

As criadas vo  porta receber os credores, e trazem dentro os recados
com um sorriso magano que escapa a todas as reprehenses e a todos os
castigos.

Se esto de mau humor resmungam, fazem causa commum com o _inimigo_, que
 no fim de contas o _confrade_; se esto bem dispostas do alvitres,
inventam e lembram desculpas, lamentam a _senhora_, etc., etc.

De qualquer dos modos amesquinham os amos, estabelece-se entre elles e
ellas uma intimidade funesta.

Destroe-se assim o respeito, disciplina, a obediencia, aquella
hierarchia que tem de existir n'uma familia para que essa familia esteja
bem organisada.

Um dia, as _meninas_, que teem recebido a educao mais perniciosa e
mais falsa, fartam-se d'aquella vida de privaes intimas, de balofas
apparencias e querem fugir d'ella.

Teem s uma porta: o casamento.

Nas familias pobres da burguezia, o casamento  julgado a porta por onde
se sahe da miseria!

Quantas vezes no  elle a porta por onde se entra na desgraa!

Comeam ento a namorar.

A namorar seja quem fr. O alferes que passa, o _dandy_ pelintra que
encontram nos seus passeios, o _litterato_ pallido e fatal que olhou
para ellas da plateia.

Quem  a confidente natural d'este _namoro_, a auxiliar forada d'esta
intriga ridicula?

A criada!

 ella quem espia a me, e quem ajuda a enganal-a;  ella quem entrega e
recebe as cartas,  ella quem se _farta de rir_ com a menina, ouvindo
contar o que ella lhe disse, e o que elle lhe tornou!

Quantos perigos, quantas humilhaes, quantas vergonhas n'este facto que
 hoje trivial e repetidissimo!

A criada s tem a ganhar na execuo d'estes misteres.

Ganha indulgencia para as suas proprias faltas, uma advogada que ou por
medo ou por sympathia defende a sua causa, e at se tanto fr preciso se
revolta por amor d'ella contra a authoridade maternal. Ganha quem a
ajude no trabalho!

Ganha a possibilidade de ser insolente e atrevida, de se vingar da sua
posio inferior, de desafogar o mau genio, e isto sem perigo de
qualidade alguma.

       *       *       *       *       *

Quando se no do estes casos que ahi deixamos apontados do-se outros
identicos ou outros similhantes.

Da parte dos superiores indifferena profunda, desejo de explorar de
todos os modos e feitios os dependentes, rudeza, orgulho, egoismo,
desapego.

Da parte dos inferiores, a mesma indifferena creada a pouco e pouco
pela incerteza cerca do dia de manh; desaffeio pronunciada,
despeito, inveja, e desejo de trabalhar o menos possivel, em troca do
maior salario que poderem alcanar, separao de vida, de interesses, de
alegrias, de affectos.

Se entra em casa a doena com todo o seu cortejo de lugubres tristezas,
de vigilias e de lagrimas, nunca a criada saber ser enfermeira. Far o
servio, resmungando, furiosa, desattenta, fazendo esperar um caldo para
ir  janella _ver quem passa_; deixando apagar o lume de noite porque
adormecer inteiramente esquecida dos que soffrem e velam.

E que lhe importa a ella no fim de contas que elles morram ou se salvem.

Hoje est aqui, manh estar n'outra parte!

Se adoecer vem uma maca e leva-a para o hospital abandonada, ssinha
como um co!

No d porque no recebe.

Entre os criados e os amos os interesses so absolutamente oppostos.

A unica circumstancia que pde alterar esta situao reciproca: a
cumplicidade.

Que admira, pois, que todos os dias se observe maior e mais profunda
immoralidade nos criados das grandes cidades? que admira que as
excepes se vo tornando dia a dia mais raras?

A culpa  de uns e d'outros, mas o mal tem ainda remedio.

Procuremos apontal-o.

No que respeita aos amos cumpre:

Que sejamos benevolos para que a humildade dos nossos inferiores nunca
seja para elles uma humilhao.

Que tenhamos no interior das nossas casas a maxima dignidade e o maximo
respeito de ns mesmos e dos outros, para que o nosso exemplo levante
ainda os que esto mais baixo.

Que vivamos de modo que nunca receiemos o escarneo, ou a censura de
alguem, para que sobre ns nunca possam exercer-se influencias funestas.

Que no exploremos a actividade dos pobres, para que os pobres no
tenham interesse em explorar as nossas fraquezas, e j que 
indispensavel crear-se e educar-se a classe dos criados, juntemos todos
os recursos da nossa experiencia e do nosso bom senso, para dar prompto
e efficaz remedio a todos os males que so por assim dizer o privilegio
especial d'essa classe.


II

No capitulo anterior, tractando d'esta questo, tentmos apresentar as
causas que determinam e aggravam a decadencia e desmoralisao dos
criados modernos.

Essas causas teem um resultado fatal que vem a ser o seguinte:

 to precaria, to falta de garantias, to exposta a continuas
alteraes a sorte dos criados, que para ella s descem os que n'outra
esphera no poderiam achar collocao que lhes d a subsistencia.

Os bons, que por acaso ou por circumstancias fortuitas acceitam este
modo de vida, so ainda mais desgraados do que os maus, porque so mais
explorados.

Portanto ou fogem d'elle, ou se corrompem fatalmente.

Estamos, pois, em face d'este dilemma.

Ou havemos de no ter criados, ou havemos de os ter maus.

 verdade que fomos ns que voluntaria ou involuntariamente os
corrompemos e estragmos.

Concedo.

Agora, porm, no se tracta d'isso.

Achamos o resultado das nossas proprias culpas e procuramos os meios de
o modificar.

Primeira necessidade imprescindivel:  preciso educarmos os nossos
futuros criados.

Mas como?

Creando para isso instituies especiaes, ou modificando a indole das
que j existem.

Tractemos antes de tudo das mulheres.

Esto por todo o reino espalhadas, e ainda bem que assim , as
instituies de caridade, tanto de iniciativa dos particulares, como de
iniciativa do Estado.

O que  que n'esses asylos se aprende, salvo excepes possiveis, mas
que no chegaram ainda ao nosso conhecimento?

Aprende-se em primeiro lugar o que hoje  indispensavel para toda e
qualquer situao, por mais humilde que seja; aprende-se a ler,
escrever, contar, coser e marcar.

Aprende-se em segundo lugar a bordar de branco, a bordar de missanga, a
bordar com cabello, a fazer crochet, a tocar orgo ou _harmonium_; ha
alguns onde se aprende grammatica, historia, geographia, etc., etc.

Muito bem.

Em cada cem raparigas, admittimos que haja dez, cuja intelligencia
superior possa mais tarde aproveitar-se d'este genero de estudos.

Sero mestras regias, sero talvez caixeiras de alguma pequena loja,
sero mesmo professoras particulares se houverem progredido no estudo e
adquirido uma instituio mais solida e mais proficua.

Que fazemos das outras noventa?

Imaginemos que cincoenta casaram muito moas.

Acham um artista, um carpinteiro, um chapeleiro, um entalhador, um
pedreiro, um operario de fabrica, que as rouba  desamparada solido que
estava  espera d'ellas e que as leva para o seu pobre albergue
desguarnecido e miseravel.

Dos conhecimentos que adquiriram na educao dada pelo asylo quaes
aproveitaro, quaes applicaro  sua felicidade, ao seu bem estar
domestico?

Com que trabalho podero auxiliar o trabalho do marido, insufficiente
para acudir a todas as necessidades do _mnage_?

Que officio aprenderam a exercer?

Do as voltas de casa, varrem, limpam o p, cosinham, mas fazem tudo
isto mal.

Nunca ninguem as compenetrou bem da importancia altissima d'estes
misteres to humildes.

Ter a roupa do marido bem desencardida, bem engommada, com os seus
remendos bem deitados, ter a casa acciada e fresca, ter uma comida pobre
mas saborosa e bem temperada, ter a alegria, a abnegao, a boa vontade,
e, em muitas das horas que ficam vagas, exercer qualquer pequena
industria que ajude o marido, banir de casa a tagarellice das visinhas,
viver s com o seu homem, com os seus filhos, no trabalho continuo, no
trabalho fecundo, isso que  de certo o ideal, quem  que lh'o ensinou a
praticar?

Deixemos, porm, essas cujo destino agora no precisamos de apreciar e
voltemos para as que ficam.

Sahem do asylo, vo umas servir, outras vo ser costureiras,
vendedeiras, etc., etc.

Umas so as pobres creaturas roucas e aguardentadas que ahi vemos
atravessar as ruas, apregoando hortalias, ou fructa, outras as pallidas
e anemicas creanas, de _cuia_ postia, chapeu de aba revirada,
polonaise phenomenal, bota de taco alto e cambada, que encontramos 
noutinha ou de manh cedo, indo para casa das modistas, ou voltando de
l.

As outras quem as no conhece, ao menos por ter ouvido fallar d'ellas?

So as criadas de hoje, ou sero as criadas de manh.

A educao que lhes deram est em contraposio perfeita com a tarefa
que teem de cumprir.

Uma que foi apresentada para cosinheira, no tem as minimas noes
culinarias, mas em compensao l correctamente os jornaes que veem de
manh.

Outra, cuja obrigao  engommar, no tem geito seno para bordar de
matiz.

Algumas, menos favorecidas da intelligencia, no sabem o que aprenderam,
nem aprenderam aquillo que fazem.

So as mais vulgares!

       *       *       *       *       *

Porque  pois que se no d s raparigas do povo, ao menos s que so
educadas nos asylos de beneficencia, uma educao em harmonia com o seu
futuro papel?

No reprovamos de certo a leitura, a ortographia, uns elementos de
arithmetica, mas o que reprovamos  que haja uma uniformidade absoluta
na educao que se ministra a tantas e tantas creanas de indoles
diversas, de intelligencias diversissimas.

Aquellas que tivessem disposies para um genero de trabalhos mais
levantados, deviam encontral-o n'uma casa especialmente destinada para
as filhas do povo que at aos 12 annos tivessem dado manifestaes
inequivocas de claro e perspicaz entendimento.

Ali formar-se-hiam futuras professoras, ou futuras artistas.

Haveria n'esse estabelecimento mestras ou mestres que a cada uma
conforme a sua vocao ensinassem as linguas, a musica, a pintura em
porcellana, a grammatica, a geographia, a contabilidade, etc., etc.

A essa casa, que devia ser subsidiada pelo governo e auxiliada pela
bolsa particular, iriam as mes de familia procurar _professoras
portuguezas_ para as suas filhas, professoras cuja educao fosse
completa, e cuja moralidade podesse ser affianada.

Mais tarde os chefes de casas de commercio, mais capazes de
comprehenderem o grande alcance d'esta innovao, iriam tambem buscar a
essa casa raparigas honestas, que elles podessem sentar  mesa ao lado
de suas filhas, e a quem confiassem a contabilidade e os livros do seu
estabelecimento.

Os fabricantes de louas e outros industriaes achariam na intelligencia
e na prompta comprehenso feminina grande auxilio, e auxilio mais
economico.

Abaixo logo d'essa cathegoria mais elevada de intelligencia, haveria,
n'outra casa, as que tivessem especial tendencia para os trabalhos que
requerem no s engenho, mas tambem habilidade manual.

Costureiras de vestidos, modistas de chapeus, raparigas que soubessem
fazer rendas, fazer franjas, etc., etc., e que o asylo logo que lhes
houvesse completado a aprendizagem, podia empregar convenientemente.

Seriam estas, preferidas de certo a raparigas avulsas que entram para
qualquer officio completamente ignorantes do trabalho que teem a fazer.

A disciplina escolar, a instruco elementar recebida, a aprendizagem
methodica, affirmava-lhes a sua superioridade enorme sobre as outras.

       *       *       *       *       *

Collocadas assim as mais destras e as mais intelligentes, ficariam
aquellas cujo espirito menos desenvolvido se recusava a uma applicao
difficil.

Estas seriam educadas expressamente para criadas de servir.

Mas que educao precisa uma criada?

Ora essa!

Uma criada precisa uma educao to cuidadosa como uma duqueza.

A differena consiste unicamente n'isto:

Uma tem de educar-se para criada, e outra tem de educar-se para duqueza.

No asylo destinado a formar criadas, haveria o mesmo escrupulo na
escolha das mestras.

Antes de tudo uma moralidade austera.

Depois no que toca  parte technica da educao, officinas distinctas
onde cada uma das discipulas fosse alternativamente aprender os servios
que mais tarde tivesse a cumprir.

Officinas onde se aprendesse a cosinhar segundo as regras da hygiene.
Officinas onde se aprendesse a engommar segundo os processos mais
adiantados. Outras onde se lavasse roupa de l, e roupa de linho e
algodo.

Outras onde se talhasse roupa branca, fatos de creana, e fatos de
senhora.

No se attenderia aqui como no _atelier_ das modistas do asylo superior,
aos caprichos da moda, mas unicamente  commodidade, ao bom gosto e 
hygiene.

Outras ainda onde se cozesse  machina.

Haveria mulheres especialmente encarregadas de ensinarem as discipulas a
varrer, a limpar o p, a esfregar o sobrado, ou a enceral-o  moda
franceza, a deitar bem _rdes_, a fazer meias, a cerzir panno, etc.,
etc.

Haveria n'este estabelecimento um requinte de aceio hollandez.

As mestras escolhidas primeiro nos paizes estrangeiros, e depois
educadas pelo mesmo asylo, ensinariam com o maior cuidado s suas
discipulas, que as criadas destinadas pelo seu trabalho a penetrarem no
seio de familias inteiramente estranhas a viverem em contacto com gente
de muita qualidade eram foradas a ter, alm da honestidade commum a
todas as mulheres honestas, uma honestidade particular da sua classe,
uma honestidade composta de elementos muito variados.

Dir-lhes-hiam que uma criada boa tem de ser leal, tem de ser digna, de
resistir s ms tentaes, de ser fiel, de ser boa companheira, de ser
laboriosa e de ter o escrupulo mais exagerado no cumprimento das suas
obrigaes.

N'este asylo ainda haveria subdivises necessarias.

As mais geitosas para um certo e determinado trabalho applicar-se-hiam a
elle de preferencia, no desprezando porm os outros.

Aquella que fosse destra para tudo, aproveitaria egualmente todos os
elementos que houvessem de constituir a sua educao.

Ser criada no --entenda-se bem--nem uma vergonha nem um _pis aller_;
ser criada  um officio, s vezes mais complicado que os outros, porque
comprehende muitos.

A unica differena  que se pde ser uma boa criada no sendo
excessivamente intelligente, e que as qualidades aqui indispensaveis so
robustez, destreza de mos, fidelidade, amor de trabalho.

       *       *       *       *       *

No se diga que isto  uma utopia impossivel.

No estado de adiantamento a que chegou entre ns o principio de
associao applicado  beneficencia, nada mais facil do que organisar
por este modo os asylos do paiz, ou pelo menos de uma cidade do paiz.

No augmentaria de modo algum a despeza, mas progrediria necessariamente
a educao popular.

Reunidas debaixo de uma direco geral, todas as casas de Beneficencia
de uma cidade, passaria esta no a crear asylos novos, mas a modificar a
indole dos que existem.

Estabelecer-se-hia uma especie de gradao natural.

Em baixo a casa que recebesse sem distincao todas as creanas de 4 a 10
annos que estivessem no caso de serem admittidas.

Alli, sob a direco de professores intelligentes, e de directoras de
espirito cultivado, far-se-hia aos 12 annos de edade a escolha.

Umas seriam enviadas para o asylo profissional de 1.^a classe, outras
para o asylo profissional de 2.^a classe, a terceira para o asylo das
criadas futuras.

Aquellas que estivessem mais adiantadas trabalhariam logo, de modo que
grangeassem um salario por mesquinho que fosse.

Esse salario entraria como elemento de receita na caixa central.

Este plano, como se v, no  mais que um plano embryonario, o germen
d'uma ida que se nos affigura util e praticavel.

Outros melhor do que ns o estudem e desenvolvam, se entenderem que o
merece.

       *       *       *       *       *

Quanto a ns, acreditamos piamente que s ento comeariamos a ter
criadas.

As que sahissem do asylo com 20 annos de edade ficariam sujeitas a uma
certa e determinada vigilancia, cujo systema e cujas bases nos no
compete agora explicar.

Com estas garantias de moralidade, e de bom servio, seriam preferidas a
todas que as no tivessem, e pelo menos fariam uma util concorrencia s
criadas indisciplinadas e ignorantes que hoje temos.

As casas dignas e honestas teriam criadas cujo comportamento as no
deslustrasse.

As outras ficariam com as que teem hoje.

No merecem mais.

       *       *       *       *       *

Nos asylos dos rapazes, seguir-se-hia uma norma egual ou parecida.

Esses como teem campo muito mais vasto para exercerem as suas
actividades complexas, dariam de certo, bem educados e bem dirigidos, um
pequeno contingente para a classe dos criados.

Seria um bem.

Uma criada representa sempre uma necessidade, um criado representa
sempre um luxo!

Para que ha de haver criados de meza ociosos e insolentes, cosinheiros
envenadores e infieis?

Estes servios to faceis no podem ser feitos por mulheres?

Logo que este uso se propagasse entre os ricos, deixaria de ser indicio
de pobreza, ou de habitos plebeus.

No fim de contas tudo isto no passa de conveno!

       *       *       *       *       *

J que o Estado julga descer occupando-se d'estas _pequeninas_ questes
de moralidade domestica, que a iniciativa individual o substitua.

Ninguem mais do que ns tem applaudido o engrandecimento progressivo, o
rapido desenvolvimento das instituies de caridade.

No  o dinheiro que falta, porque entre ns quando se falla na miseria,
a caridade nunca faltou; o que falta  uma direco boa.

A rotina n'isto como em tudo  funestissima.

A nossa caridade official d po e vestuario s creanas, mas que faz em
favor das mulheres?

Dando-lhes uma educao que no est em harmonia com os seus meios
futuros, condemna-as  miseria,  desgraa, quantas vezes  ociosidade e
 ignominia?

A educao deve fazer-se pratica e positiva, deve tornar-se um
preventivo efficaz contra os maus conselhos da pobreza ou da preguia!

Os que pensarem n'isto faro um bem  familia, e  sociedade.




Creanas




CAPITULO XV


I

So ellas a alegria da familia, como a familia  a suprema ventura dos
felizes, e o supremo consolo dos desgraados.

Quando apparecem trazem comsigo o sol; tudo se illumina.

Sorriem os labios mais ironicos, marejam-se de lagrimas doces os olhos
mais aridos, estendem-se prodigas de benes as mos mais avaras.

Ellas so a graa que se ignora, a fraqueza que nenhum poder assusta, a
innocencia que interroga, a aurora intellectual que desponta e que
diffunde em torno de si uma luz cariciosa e limpida, uma luz que se
reflecte em jubilos no corao das mes.

Tudo na vida  para ellas mysterio, mysterio que as chama e as attrahe,
cujas trevas as no apavoram, em cujos sinistros meandros nem sequer
receiam perder-se.

Em cada um d'aquelles pequeninos cerebros encerra-se em germen tudo que
 no homem pequenez ou grandeza, genio ou mediocridade, fora ou
impotencia, virtude, abnegao, esquecimento de si ou egoismo, vicio e
crime.

Onde ha maior mysterio do que a creana?

Debalde a interrogamos; no sabe responder, seno quelles que pelo
poder da sympathia logram identificar-se com ella.

Recebel-a das mos de Deus  para a mulher, para a me a mais tremenda
das responsabilidades, e desgraadamente aquella de que tem a
consciencia menos definida e menos clara!

       *       *       *       *       *

Ser me, quem o no ?

A difficuldade e o segredo  saber sel-o.

Na sociedade, tal como ella est constituida e continuar a estar por
largos e dilatados annos, dous entes, um homem e uma mulher, moos
ambos, encontram-se, olham-se, sorriem-se e pensam de si para comsigo
que esto _apaixonados_.

Durante alguns dias, alguns mezes, a que elles em falsa e sentimental
linguagem chamam _seculos_, repetem um ao outro, n'um tom mais ou menos
desafinado os _duettos_ de ternura doentia que os romancistas, os
prosadores e os _maestros_ inventaram para conveniencia sua... dos seus
emprezarios e editores, e para envenenamento do resto da humanidade.

N'este meio tempo, por detraz dos bastidores, os paes, que fingem _no
ver nada_, calculam _in petto_ quaes os prs e os contras pecuniarios do
matrimonio hypothetico.

Se os primeiros levam certa vantagem aos segundos, celebra-se com a
devida pompa o almejado consorcio, e n'essa noite ha mais dois
desconhecidos, dois indifferentes, dois estranhos acorrentados um ao
outro por um lao que devia ser sagrado, e que muitas vezes consegue
smente ser... dourado!

O marido no outro dia vae para as suas labutaes do costume, para a
vida exterior que o reclama e absorve, a mulher fica em casa provando os
vestidos do enxoval, experimentando se lhe fica bem a touca, distinctivo
invejavel das noivas, ensaiando os seus primeiros vos timidos de
senhora independente, que pde  sua vontade fechar o piano, atirar fra
o lapis e as tintas, deixar para um canto a costura e o bordado, e
subverter-se sem receio das censuras maternas no _dolce far niente_, que
tanto a namorava em seus dias de educanda submissa.

D'alli a um anno, se  boa, docil, se tem a intuio das cousas
delicadas, se um poderoso instincto de creatura amoravel lhe pede que
espalhe em volta de si a felicidade, concedamos-lhe que j tem tido
tempo de conhecer e apreciar seu marido, que principia a estimal-o, que
se lembra um poucochinho envergonhada dos falsos lyrismos de solteira,
das cartas que lhe escrevia _fazendo estylo_ e copiando phrases dos
grandes apaixonados que a lenda e o romance immortalisam; que tem,
emfim, ainda incompleta, mas j accentuada a noo da verdade e da
justia que ha de guiar-lhe a vida.

Param, porm, aqui os seus conhecimentos, e um dia, surpreza, encantada,
extactica, chorando de alegria, umas lagrimas verdadeiras, d'estas que
se escoam entre risos de gratido, percebe que tem nos braos um
pequenino ser, a quem tem direito de chamar filho, porque o gerou no
seio em longos mezes de agonia insondavel.

Que ha de fazer d'elle? Como ha de desenvolver, robustecer, cultivar a
saude d'aquelle entezinho, fragil e indefezo, que lhe solta no regao os
seus primeiros vagidos, buscando com a boquinha faminta e o instincto
animal, que Deus concede a todos os seres creados, a primeira gotta do
leite materno, que  a sua vida?

Entram as amigas e dizem-lhe em cro:

--No o cries que perdes a formosura, o vio, a mocidade, tudo o que
prende e captiva teu marido.

--No o cries, que tens de te despedir dos bailes, das noites
triumphantes em que a valsa nos arrebata nos circulos vertiginosos, em
que as flres e as finas essencias nos embriagam com o perfume
enervante, em que a musica nos ca nos sentidos as suas caricias
languidas, em que a luz cra do gaz nos beija as espaduas opalinas, em
que a admirao dos homens nos envolve na audaz provocao dos seus
olhares, em que a inveja das mulheres nos enrosca em espiraes de cobra.

--No o cries, que ters de perder as noutes, no entre alegrias e
folgares, mas na alcova, onde a medo bruxoleia a luz mortia da
lamparina, junto de um pequeno bero, ouvindo aquelle choro da infancia,
to doloroso para os ouvidos maternaes.

Teu marido fugir de ti; elle, que anda cansado da faina diaria, quer as
noutes tranquillas, os somnos fartos, as placidas madrugadas;
repugnam-lhe os primeiros trabalhos que a creana tem que dar por fora
 me, que fr me, na accepo plena da palavra.

No creio que a maior parte das mulheres oua os funestos e corrosivos
conselhos das amigas falsas; hoje comea a radicar-se em todos os
espiritos a convico justa e sensata de que s a me, quando  robusta,
ou quando  simplesmente s, deve amamentar o filho.

Entregal-o aos braos mercenarios de mulher estranha  aceitar a mais
tremenda das responsabilidades.

A ama pde communicar no leite os seus vicios, os seus instinctos maus,
as suas doenas ou defeitos de organisao hereditaria, toda a herana
fatal de um passado inteiramente desconhecido para as pessoas que to
levianamente lhe confiam o que devia ser o mais precioso thesouro da sua
alma.

Abstraiamos, pois, a ama, por no querermos suppr que se trata aqui de
uma me frivola at ao crime, despiedosa at  ferocidade, ou fraca a
ponto de no poder cumprir os deveres da sua misso maternal.

Fica-nos simplesmente a me inexperiente e ignorante em face da
recem-nascida creatura, flr que precisa o mais desvelado cultivo, a
mais complexa das educaes.

No a accusemos ao vel-a aceitar o seu mimoso fardo com to leviana
confiana, com uma to plena inconsciencia da grande misso que precisa
de cumprir.

A culpa no  d'ella; n'este ponto ha um criminoso apenas-- o homem.

       *       *       *       *       *

Abrem-se universidades, lyceus, escolas, seminarios, institutos
scientificos, para educarem no seu seio os jurisconsultos, os medicos,
os sacerdotes, os mathematicos, os commerciantes, os sabios, os cidados
do futuro.

S falta uma escola, a primeira, a mais indispensavel das escolas, a que
facilitaria e tornaria fructiferos os trabalhos das outras: falta a
_escola das mes_!

Ninguem se lembrou ainda de a crear, julgam-na desnecessaria, ou talvez
que a julguem frivola.

--Como  que se ha de ensinar a ser me?  s a natureza que instrue a
mulher. Ha mes de quinze annos que sabem mais n'este assumpto do que
velhos pensadores de sessenta. Deixae obrar a natureza,  ella a grande
mestra, a suprema inspiradora!

De accordo, meus senhores; quem  que nunca se lembrou de negar  me o
seu divino instincto de proteco e de ternura? Quem ao vel-a segurar
com to delicado carinho o tenro corpo do filho, acalental-o nos braos,
adivinhar-lhe as necessidades e os desejos at para elle indistinctos,
negar que entre esses dous entes ha uma cadeia mysteriosa, que a
natureza nunca poder mais desatar?

Mas  necessario que o estudo auxilie o maravilhoso instincto, que elle
ensine  me a comprehender no seu triplice aspecto, physico, moral e
intellectual, a educao do ser complexo, que hoje  uma fraqueza que
implora auxilio e ajuda, que manh ser uma fora util ou funesta,
conforme a direco que haja recebido desde os mais tenros annos.


       *       *       *       *       *


_O estudo que comprehende todos os outros estudos, e que deve, portanto,
constituir o ponto culminante da instruco,  a theoria e a pratica da
educao da infancia._

Estas palavras de Herbert Spencer, o philosopho mais notavel da moderna
Inglaterra, um grande pensador, um chefe de escola, provam de sobejo at
que ponto, aos olhos do homem que medita, avulta hoje o grande problema
da educao.

 um erro imaginar que a creana nasce boa.

Ha n'ella instinctos innatos de natureza selvagem, instinctos
primitivos, que s uma habil cultura modifica, transforma, encaminha ou
desarreiga.

Toda a creana  curiosa: mes aproveitae essa grande fora, que conduz
o homem  conquista de todas as grandes descobertas da sciencia e da
arte, e que pde quando entregue a si conduzir a creana ao mais
deploravel e mesquinho dos vicios de caracter,  curiosidade esteril do
ocioso, da _senhora visinha_. A creana tem o instincto do roubo.
Apossa-se do que v, do que attrahe pelo brilho, do que lhe desafia a
cubia, a gulodice, o amor da posse.

Leitora, quando o teu pequenino de tres ou quatro annos tiver artes de
te roubar uma joia muito querida, um manjar muito reservado, um
_bibelot_ qualquer, que seja para ti de grande estimao, no chores
desconsolada, lendo n'esse primeiro symptoma sinistras prophecias. Esse
prenuncio de ambio desregrada pde, dirigido com previdente
vigilancia, transformar-se na legitima energia que leva o homem a
desejar a posse das riquezas honestamente adquiridas, a exercer no seu
espirito uma influencia fortificante, a tornal-o pertinaz no caminhar
para um ficto que de longe antevio.

Dirigir toda e qualquer tendencia para um fim elevado e util, combater a
inercia, a preguia physica e intellectual da creana, empregando
activos reagentes, ir ajudando lenta e gradualmente a evoluo natural
do entendimento infantil, abrir-lhe o espirito a todas as curiosidades
ss, apontar para a natureza inteira como para um livro enorme,
mysterioso, cheio de apaixonado interesse, de peripecias dramaticas, de
imagens vistosas, que elle ha de ir decorando a pouco e pouco,
conduzil-o at ao limiar da adolescencia, puro de corao, immaculado no
corpo, prompto e apto para absorver em si os conhecimentos complexos que
o esperam, robusto, so, energico, confiante, cheio de crena nos
outros, e de crena maior em si, eis a misso das mes. Que de cousas
no so indispensaveis para a saber cumprir!

       *       *       *       *       *

Uma das cousas que a mulher quasi geralmente ignora  a hygiene pratica,
que ella tanto precisava saber, tendo, como tem, a seu cargo a
distribuio e direco do alimento da familia.

Do alimento que se ministra  creana depende em grande parte no s a
sua futura saude, mas, o que poucas mulheres sabem,--o seu caracter
futuro!

Dae a uma creana alimentos irritantes, inflammaveis, apimentados;
deixae-a usar sem discernimento de bebidas em que o alcool predomine, e
tereis o temperamento adulterado, o caracter azedo, os habitos baixos,
os gostos perversos, todas as aberraes de um organismo estragado.

Dae-lhe s carne, alimentae-a brutalmente de materias fortemente
azotadas, e fareis d'ella, da meiga e fragil creatura, do pequeno anjo
de cabellos louros e olhos innocentes, um temperamento sanguinario,
selvagem, amigo das luctas bravias, das distraces violentas, dos
exercicios athleticos, que caracterisam as rigorosas raas do norte.

Exemplo: os inglezes, que s domam as revoltas brutaes do temperamento
com a forte disciplina de uma educao que  o supremo milagre do
espirito sobre a materia.

A alimentao fraca produz os organismos inertes, fleugmaticos, sem
impulso, sem fibra, sem energia duravel.

Saber pois, conhecer os diversos attributos que caracterisam a
alimentao do homem, saber combinal-os de modo que todos concorram para
o seu bem-estar physico, e que nenhum produza as graves perturbaes
organicas de que podem ser origem,  a sciencia das mes, sciencia para
cujo estudo devem tender todos os seus esforos.

       *       *       *       *       *

A actividade quasi incessante da creana  um dos meios que mais
efficazmente concorrem para o seu crescimento physico e, por
consequencia, para o seu desenvolvimento intellectual.

As mes, julgando fazer n'isto um grande servio a seus filhos, combatem
por todos os modos esta actividade, obrigando as creanas a uma
quietao que se transforma em supplicio para os pequeninos corpos
buliosos, que um impulso involuntario leva a um quasi continuo
movimento.

No  s com as reprehenses, s vezes asperas e sempre injustas, no 
s encerrando os pobres seres pequeninos em espao muito estreito para
os seus desejos,  tambem vestindo-os para obedecer ao despotismo da
moda, e s exigencias da propria vaidade de um modo que est em pleno
contraste com a ida que todo o espirito um pouco sensato deve formar
das aspiraes e necessidades da infancia!

A creana, que quer e que precisa de correr no espao amplo, pelas ruas
pedregosas, pelos campos lavrados, pela matta cheia de raizes, traz
quasi sempre uma botina alta, justa, de salto levantado e estreito!
Ella, que aspira aos movimentos livres, que se compraz nos grandes
gestos, que trepa s arvores, que se roja pelo cho, que atira ao longe
os improvisados projectis que encontra, sente-se cruelmente cingida por
um fato rico, elegante, phantasioso, caro por fora, e que tem o defeito
duplo e contradictorio de a entristecer lentamente, inconscientemente
pelas censuras e ralhos de que lhe  motivo incessante--visto que no ha
nada mais avarento do que a prodigalidade e nada mais economico do que a
ostentao--e de a tornar vaidosa pelo habito e pelo gosto de attrahir
as vistas dos frivolos, e a inveja dos pobres, dos pequenos rotos, dos
miseraveis de cinco annos, que ignoram as alegrias bemditas da sua
liberdade indomada!

Mes, arrancae ao vestuario dos vossos filhos tudo que fr vaidade,
falso luxo, ostentao ridicula!

A graa das creanas consiste na plena expanso da sua vitalidade; o
luxo d'ellas est no doce aroma de infancia que de si exhalam, e que
falla de aceio, de pureza, de carinho materno, que revela--aos que sabem
ver--as matinaes e frescas alegrias do banho, as risadas crystallinas
como perolas que se desfiam, os gritinhos infantis, as fugidas subitas,
todo esse poema, que ninguem traduz, de um bando de pequeninos corpos,
feitos de leite e rosas, com cabelleiras louras por aureola, que uns
braos amorosos amparam, susteem, acariciam, em quanto que um sorriso
meigo e pensativo illumina em clares de limpidez ideal, uma bocca que
s sabe abenoar, uns olhos de me, que nunca desamparam nem desfitam o
tepido ninho das suas doces aves implumes.


II

Por muito tempo todas as attenes do homem se fixaram n'um ponto que se
avistava para alm da vida terrestre.

Curava-se smente da alma considerando a terra morada transitoria, cheia
de males e de miserias, e o corpo ephemero involucro, especie de lodoso
carcere onde o espirito prisioneiro anciava por levantar o vo para as
altas espheras da eterna bemaventurana.

Este pensamento, que dominava todos os outros e ao qual todos os outros
se subordinavam,  a causa suprema de onde deriva toda a philosophia da
edade mdia, e que determina o ideal a que tenderam os sonhos de
milhares de geraes, nossas predecessoras na vida.

Foi elle que estabeleceu o medonho antagonismo entre o espirito e a
materia, causa de tantos erros e de to falsas interpretaes; foi elle
que levou o homem perdido e transviado a considerar a natureza como a
sua mais cruel inimiga, como a sua tentao mais perigosa e abominavel.

D'esta guerra anti-humana e anti-natural nenhuma conquista verdadeira
poderia provir.

Era falso o ponto de vista de que o homem partia, falsissimas todas as
deduces que d'esse ponto de vista resultavam.

O corpo era um farrapo miseravel que s merecia desprezo e humilhao;
todo o prazer, ainda o mais natural era um peccado que cumpria expiar
cruelmente; a vida era um periodo curto de passagem e penitencia; a
creana nascida j vinha contaminada do peccado original; a alma, s a
alma precisava dos nossos cuidados, das nossas meditaes, do nosso mais
especial e esmerado cultivo!

Quantos erros de educao, de moralidade e de hygiene!

Quantas revoltas medonhas este despotismo espiritual no excitava!

Mas foi por acaso esse tempo de pura espiritualidade?

Pelo contrario!

Nunca os instinctos maus do homem imperaram com mais violencia! Nunca se
materialisaram mais todos os cultos e todas as idas!

O Deus que todos adoravam em extasis apaixonados, era o Christo
dolorido, cadaverico, crivado de pregos, escorrendo sangue de cada uma
das suas chagas abertas.

A dr maternal era symbolisada por sete espadas atravessando um corao
dilacerado.

Os fanaticos mostravam  admirao das turbas os estygmas sangrentos das
suas carnes palpitantes.

Os ascetas tinham vises nas quaes o Padre Eterno, o Christo, a Virgem,
os Santos, lhes appareciam sob a frma humana, com feies diversas e
caracteristicamente accentuadas, fallando na linguagem mais correntia e
mais ch.

A _resurreio da carne_ era um dos pontos fundamentaes do dogma
catholico. O espiritualismo d'essas ras barbaras era muito mais
_material_ do que a sciencia de hoje.

--Para que aperfeioarmos e amenisarmos a vida,--diziam do alto dos seus
pulpitos ou nas paginas dos seus tractados as terriveis authoridades
d'essas ras to hostis para o homem.--Quanto maiores supplicios
houvermos padecido n'este momento rapido, maior quinho de gloria tem
para ns a eternidade. Sofframos todas as humilhaes mais abjectas,
curvemo-nos diante de todas as tyrannias, deixemos que os vermes devorem
o nosso corpo ulcerado, sejamos grandes em face do Senhor, como Job na
sua gloriosa estrumeira. Os que forem ultimos c em baixo, sero os
primeiros no cu!

E a humanidade, bria de um sonho de beatitude immortal, perdia a fora
para combater, e esperava passivamente a resurreio esplendida que os
illuminados lhe promettiam!

Oh! quanto devemos  robustez de espirito,  f fecunda e creadora que
moveu alguns homens privilegiados a fazerem-nos sahir d'esse marasmo
estagnador!

Foram esses homens os verdadeiros creadores da sciencia, que hoje
illumina at os mais ignorantes, dos bens que hoje desfructam at os
mais desgraados.

       *       *       *       *       *

Um dos problemas resolvidos pelos modernos, e que se no fossem esses
benemeritos de que acima fallamos ficaria para sempre obscuro,  o
problema da educao.

Segundo o ponto de vista da edade mdia, a me no devia attender seno
 alma de seu filho.

Era preciso fazer d'elle um santo, e as mais das vezes s se fazia um
bandido.

E que o alvo a que se tendia era estupido e anti-natural e os meios de
que se usava eram inteiramente contraproducentes.

Hoje a me j no tem desculpa nem da sua ignorancia propria, nem da
ignorancia da sua poca.

Se no sabe  porque no quer saber.

O homem moderno tem applicado grande parcella da sua prodigiosa
actividade em descobrir os meios mais efficazes de fazer as geraes que
vo seguir-se-lhe melhores do que as geraes que o precederam.

Est pacificada a guerra que se havia travado entre a alma e o corpo.

Mais ainda; hoje comprehende-se perfeitamente que  da saude do corpo
que depende a saude da alma, e que os maus so quasi sempre os enfermos
ou os defeituosos.

O caminho das boas mes est naturalmente traado.

No poupar esforos para aperfeioar e robustecer o corpinho querido,
dentro do qual est crescendo e desabrochando a flr maravilhosa, a flr
delicadissima, que  a alma infantil.

Poucas pessoas comprehendem a fundo qual seja a responsabilidade de ser
me.

No a pde haver mais seria e mais tremenda.

Desde que a creana nasce at ao segundo periodo da sua vida, em que
ella j comea a ser susceptivel de ensino, quantos cuidados multiplos,
engenhosos, delicados e constantes!

Um movimento menos suave, um golpe de ar quando a creana est no banho,
um abafo excessivo ou uma imprudente e rapida mudana de habitos,
qualquer pequena cousa que  primeira vista parece insignificante, pde
ter um alcance enorme no futuro do querido entezinho.

Sabemos de uma creana que ficou cega, porque estabeleceram uma corrente
de ar no quarto em que ella tomava um banho tepido.

Conhecemos uma pobre mulher, que tem padecido toda a vida cruelmente,
que nunca pde trabalhar, nem ser util a ninguem, porque a tornou
rachitica uma quda que a fizeram dar brincando com ella em pequena.

Ha muita gente que se diverte estupidamente atirando as creanas ao ar,
fazendo-as dar voltas, abalando-lhes o pequeno cerebro.

Quem pde dizer os resultados fataes para o seu organismo que d'ahi
resultam!

A creana  tudo que ha de mais fragil e de mais delicado.

Pensem bem todas as mes que um erro de hygiene pde s vezes fazer de
uma indole pacifica uma indole perversa.

A alma e o corpo, os dous irreconciliaveis, inimigos de outro tempo,
esto hoje para todos os olhos to estreitamente unidos, to
profundamente identificados, que no ha abalo ou sensao que um
experimente e de que o outro deixe de resentir-se logo.

       *       *       *       *       *

Pensam muitas mes que o melhor meio de emendarem os erros de seus
filhos, so os ralhos repetidos e os castigos severos.

Engano perfeito!

O unico meio de educao verdadeiramente proficuo  o exemplo.

Que encargo de almas no assume a mulher que quizer ser boa me!

A mais doce e a mais tocante relao reciproca que existe entre a me e
o filho,  aquella em virtude da qual a me educando-se educa, e o filho
sendo ensinado ensina.

Emquanto ensinamos os nossos filhos, a ns proprias nos estamos
illustrando.

Pensando nas virtudes que elles devem adquirir e no meio de lh'as
inocularmos no corao, como que se nos vo lentamente revelando todas
as bellezas incomparaveis d'este mundo moral, de cuja contemplao
andavamos, seno alheiadas, ao menos distrahidas.

Oh! de quantos rasgos bons no  origem para a me, o receio de vr
traduzir-se um espanto accusador nos olhos limpidos de seu filho.

E depois  necessario que todas as educadoras pensem muito n'esta
verdade to simples e to lucida.

O exemplo,  que ensina, guia e robustece a alma e educa o espirito.

Que importa que ella pregue e ensine as boas palavras, e a brandura do
caracter, se ella no provar com o seu exemplo de todos os dias a divina
graa d'estas qualidades e d'estes usos?

A creana obedecer talvez, mas sem convencimento e sem alma!

Para que todas as benos de Deus chovam sobre a cabea das que sabem
ser boas mes, nem esta beno suprema lhes faltou.

Ao contacto divino da infancia, na doce intimidade da innocencia, perdem
defeitos e ganham virtudes.

A educao bem comprehendida  to util  me como  creana.

       *       *       *       *       *

Imagine-se uma creatura fraca, indolente, tendo sido de pequena
criminosamente amimada, mas ao mesmo tempo possuidora de claro e
perspicaz entendimento.

Tem habitos inveterados de preguia, tem horas desoladoras de tedio e de
morbida melancolia. O tempo para ella  pesado e longo.

Vive, no _gosando_ as horas porm _matando-as_ como pde.

No se occupa, no reage contra o seu natural e funesto prostramento,
no tem um fim util e querido para o qual viva.

Um dia esta creatura infeliz  me!

Comprehende toda a responsabilidade que lhe cahiu sobre os hombros, e
como no fim de contas  intelligente e boa, quer cumprir dignamente a
sua sagrada misso.

Como  milagrosa e abenoada a influencia que n'este caso a creana
innocente exerce no caracter de sua me.

Acabaram-se as longas scismas dolentes, as doentias tristezas, os
inuteis desalentos!  preciso que ella ensine a viver  fragil
creaturinha que Deus confiou aos seus braos.

Quantas d'estas redempes se no devem  infancia! Quantas vezes a mo
inconsciente de um pequeno ser de dous ou tres annos no tem redimido os
erros de seus paes!

       *       *       *       *       *

Lembra-nos, a proposito d'isto, uma poesia deliciosa que lmos ha muitos
annos, e cuja ida  esta.

Duas desgraadas creaturas, d'estas que a miseria prende s vezes
mutuamente por ephemeros laos, arrastavam juntas uma vida angustiada e
degradante.

_Ella _sem coragem, sem aceio, sem actividade, sem aquella fora que ao
mais negro albergue pde dar a mysteriosa graa dos ninhos; _elle_,
ocioso, cruel, covarde diante da desgraa e diante do trabalho, brio s
vezes, d'aquella selvagem embriaguez da aguardente e do absintho.

Porque se conservaram unidos?

Nem elles proprios o sabiam.

Poder do habito, abjecto marasmo das supremas degradaes.

Um dia, n'aquelle antro miseravel, soou o vagido de uma creana.

No se admirem.

Tambem s vezes das podrides de uma sepultura desabrocha uma rosa de
maio.

Quando  noite o homem voltou de suas divagaes sem rumo, a pobre
mulher prostrada nas palhas apodrecidas da enxerga, perguntou-lhe
espantada:

--Porque me no bates? porque me no ralhas? quem  que suspendeu o
insulto da tua bocca, e os golpes dos teus braos?

E elle, o homem perdido e brutal, respondeu baixinho com um
enternecimento desconhecido na voz rouca:

--_Tenho medo de acordar o pequenino._

--_J'ai peur de rveiller l'enfant._

Oh! creanas, creanas, como isto revela bem o poder divino que  to
vosso!

       *       *       *       *       *

Tenho fallado muito s mes n'este assumpto.

Nunca me cansarei de lhes repetir que se entreguem bem do intimo d'alma
 educao dos seus filhos!

 que no ha creanas ms, como no ha homens perversos.

Ha creanas mal educadas e ha homens pervertidos.

Na educao que as creanas recebem dominam ainda perigosos
preconceitos, e dizemos _perigosos_, por que n'este grave assumpto todo
o erro  um perigo.

Apontemos alguns.

Toda a me ambiciona possuir um filho modelo.

Quer dizer, um menino muito direito, muito aprumado, que falla como um
livro, que sabe grammatica, maximas moraes, que repete versos classicos,
que nunca faz bulha, que tem gestos desdenhosos e reprehensivos para a
travessura dos outros, que nunca se esquece das lies, que  emfim um
_prodigio_ que todas as mes invejam, e apontam como ideal a seus filhos
menos privilegiados.

Esta classe de creanas pde dizer-se que  a unica verdadeiramente
antipathica.

Evitemos quanto possivel que os nossos filhos sejam _meninos modelos_.

Para evitar este resultado,  preciso no dar excessiva atteno s
graas naturaes da creana, no a louvar de modo que ella oua, no a
forar a estudos precoces, fazel-a brincar, correr dar-lhe plena
liberdade de movimentos e de impulsos.

Se a creana tem demasiada propenso para os estudos mais proprios de
outra edade, cumpre distrahil-a, pl-a em contacto com a natureza,
ensinal-a a comprehender a alma das cousas.

Nada melhor para desenvolver o espirito e o corao das creanas do que
a vida no campo.

Plantas, arvores, animaes, os alegres trabalhos da lavoura, tudo que
desperta sans curiosidades no entendimento infantil.

Dae ao vosso filhinho um alegrete do jardim para elle tratar, dae-lhe um
animalzinho manso e inoffensivo a que elle se affeioe.

       *       *       *       *       *

s vezes quando o nosso filhinho bate com a cabecinha no cho, ou em
qualquer movel da casa, vemos com indifferena a criada que o trata
bater tambem, fingindo-se muito zangada, no objecto que sem culpa nem
consciencia  a causa da magoa que afflige o nosso pequeno amor.

Este velho costume das aias e das mes pouco atiladas,  um erro.

Torna a creana absurdamente vingativa.

D'ahi a bater ou a ter vontade de bater em quem a contraria, no vae
nada.

De cada ida falsa se faz n'estes cerebros delicados e impressionaveis o
germen de um vicio ou de um defeito.

Quantas mes eu no tenho ouvido dizer: Meu filho  to teimoso! Meu
filho  to guloso! Ou to tagarella, ou to curioso!--ou to colerico!

Mes, procurae bem no passado e achareis a semente d'isso que hoje 
planta damninha e venenosa.

       *       *       *       *       *

Combater a teima, com a teima, a gulodice natural com a abstinencia
forada, a clera instinctiva, com os castigos implacaveis,  pessima
tactica.

O meio de levar uma creana a esquecer-se de que teimava, 
distrahir-lhe a atteno para assumpto muito diverso d'aquelle que a
absorvia.

Quando uma creana  exageradamente gulosa, o meio de a emendar 
leval-a a envergonhar-se do seu defeito, a crar d'elle diante de si
propria.

Nas cleras a que todas as creanas so mais ou menos sujeitas, o
remedio mais efficaz  uma brandura magoada.

Que a me deixe ver que os erros de seu filho a no enfurecem, mas a
fazem soffrer muito.

A creana ficar desarmada e moralisada.

Para ella a revelao subita de que foi causa de grande amargura para
aquella a quem mais estremece, corresponde ao despertar da consciencia e
ao pungir do seu primeiro espinho!

Usemos na educao dos meios puramente moraes, e no das degradantes
correces physicas.

Acordemos por todos os modos imaginaveis o bom senso da creana, e a
impressionabilidade do seu ser moral.

Que ella conhea sempre o mal e o bem, no pelos inconvenientes ou
vantagens que d'estas duas cousas possam provir, mas pelo que ellas
valem, pelo que significam, pelo rebaixamento que uma inclue em si, e
pela essencia superior de que a outra  feita.


III

N'este delicioso e querido assumpto da educao infantil tudo est dito,
e tudo est ainda por dizer.

As regras geraes teem forosamente de ser modificadas na sua applicao
a casos particulares; nenhuma creana existe no mundo que seja
absolutamente egual a outra creana;  ao espirito da me que pertence o
gravissimo e delicado encargo de corrigir, ampliar, alterar, restringir
as regras e os preceitos enunciados pelos educadores e pelos moralistas.

O que , pois, necessario antes de tudo,  levar as mes a pensarem
profundamente n'estas altas questes, e a estudarem com pertinaz
paciencia o caracter das creanas cujos destinos teem de dirigir.

Conhecemos uma senhora, alis muito boa e muito dedicada, que, tendo
cinco filhos, os educa a todos pelo mesmo systema.

Resultado inevitavel e fatal:

As creanas so todas deploravelmente educadas.

Ernesto Legouv, distincto escriptor francez, que tem consagrado grande
parte da sua vida a notaveis estudos sobre a sorte da mulher, e sobre a
educao da creana, publicou ha mezes um bello livro que d'aqui
recommendo a todas as minhas leitoras.

Intitula-se--_Nos filles et nos fils_, e contm uma serie de scenas e
estudos de familia, muito proprios para ampliar e esclarecer o corao e
o entendimento das mes em certos momentos criticos da sua difficil
misso.

Um d'esses trechos, e talvez um dos mais importantes, trata das creanas
e dos criados, da intimidade forada e muitas vezes perigosa que entre
elles se estabelece, e dos resultados nocivos que d'essas relaes
resultam para a educao.

Legouv leu este trecho na _Academia Franceza_; por aqui se reconhece a
sua importancia, a maneira superior por que foi tratado.

Muitas mes desattendem na educao dos seus filhos a questo gravissima
dos criados.

Deixam que as creanas vivam n'um contacto muito intimo com gente de
tracto grosseiro, de comportamento equivoco, de linguagem eivada de
erros, de conversao baixa e degradante.

Quantas mes eu no tenho ouvido dizer s suas filhinhas de quatro,
cinco e oito annos:--_Vae l para dentro; deixa-me conversar?!_

Imaginam ellas que para a creana nenhuma consequencia m pde provir da
sua intimidade com as criadas.

Enganam-se.

Antigamente, quando os domesticos faziam, por assim dizer, parte
integrante da familia, nasciam e morriam na casa, no havia perigo em
que as creanas estivessem junto d'elles e com elles tagarellassem e
brincassem.

O instincto d'essas boas creaturas, afinado na convivencia de pessoas de
educao elevada, fazia-lhes comprehender que as creancinhas eram uns
seres sagrados e queridos, cuja intelligencia se no devia macular nem
de leve, cujos ouvidos tinham de ser escrupulosamente respeitados.

Hoje, infelizmente, como j o dissemos, esse modo de comprehender a vida
de familia, modificou-se completamente.

Os nossos criados entram e sahem com uma rapidez e uma facilidade
incrivel; no criam raizes em parte alguma, e este viver de prias no
meio dos que teem lar e alegrias intimas e familia e tecto seu,
desenvolve-lhes contra os amos uma estranha hostilidade.

Dizem mal por gosto, por necessidade, por um costume de classe.

Precisam de vingar-se, e vingam-se dos maus e dos bons, sem escrupulo e
sem remorso.

De cada casa d'onde sahem trazem os segredos, as anecdotas mais intimas,
os incidentes comicos, os acontecimentos grotescos; e contam tudo isto,
uns aos outros, n'uma grande liberdade de palavras, de apreciaes e de
commentarios.

Surprehenderam aqui um drama, alli um ridiculo, conhecem as miserias de
muito interior, os vicios que se fazem pobreza, e a pobreza que se faz
vicio.

Com o amor do pittoresco e do maravilhoso, que ha sempre na alma do
povo, do um colorido phantastico aos seus contos, que attrahe por fora
a curiosidade da creana.

Imaginem-se uns ouvidos de cinco, de seis, de oito ou nove annos a
beberem essa deploravel sciencia!

E no se diga que a creana no entende!

A creana tem o instincto da curiosidade desenvolvido n'um
extraordinario grau!

A creana entende quasi tudo, e d'aquillo que no entende guarda a
memoria at  edade em que o mysterio lhe seja naturalmente explicado.

No levar nunca para um caminho mau a curiosidade de uma creana, deve
ser um dos maiores cuidados da me.

Mas dir-me-ho: as pessoas crescidas conversam por fora em mil
assumptos melindrosos; se realmente as creanas percebem, como evitar
que ouam?

 n'isso positivamente que est o mal.

Na sala de uma senhora que tem filhos e que se compenetra absolutamente
dos seus deveres de me, deve haver o maximo escrupulo na escolha das
diversas conversaes.

Assim como ha limpeza nas habitaes, porque no haver limpeza nos
espiritos?

No ha tantos assumptos attrahentes de conversao?

Ser absolutamente preciso dizer mal, murmurar, revelar indiscretamente
mysterios alheios?

No quer isto dizer que a humanidade se limite a um puritanismo de
palavras, que degenerar por fora em hypocrisia; mas entre esse excesso
ridiculo e a liberdade absoluta que se usa diante das creanas, creio
que ha um meio termo que seria facil de adoptar.

E depois, seja dito com toda a coragem: ou se  me no sentido completo
e absoluto d'esta palavra ou se  mulher do mundo.

Ou nos havemos de consagrar  companhia dos nossos filhos,  sua
educao, ao desenvolvimento gradual das suas delicadas faculdades, 
vigilancia solicita das suas almas e dos seus corpos, ou havemos de dar
aos tenros espiritos de quem somos guias, o deploravel espectaculo das
fraquezas e dos defeitos que tanto lhes desejamos fazer evitar.

       *       *       *       *       *

Na creanca do sexo feminino a tendencia que mais cedo se desenvolve  a
vaidade.

A pequenita de tres annos j comea a ter orgulho e presumpo no seu
vestidinho bordado, nas suas saias de folhos, no seu chapu vistoso e
garrido.

Todos se riem da _gracinha_.

--Meu anjinho! Como  presumida! Diz a me toda enlevada. E gaba-a
muito.--Ests linda! a minha filha  muito bonita. Fica-lhe to bem este
vestido!

Mais tarde, d'ahi a quinze annos, quando a creancinha do outro tempo 
um rapariga delambida, arrebicada, cheia de appetites luxuosos, de
ambies extravagantes, sonhando com um noivo _muito rico_ que lhe sacie
todos os seus desejos de riqueza e de pomposa elegancia, quando os
homens serios e honestos olham para ella com desdem, e no seu intimo a
desprezam como uma boneca inutil e frivola, de quem  a culpa, digam-no
sinceramente?

A culpa  de quem favoreceu, em vez de combater, esse pendor funesto,
to natural  mulher, e que s  custa de muita reflexo ella consegue
vencer.

A culpa  da me, que teve orgulho dos defeitos da sua filha, em vez de
lidar por transformal-os em virtudes.

A mulher  vaidosa? Pois bem! se no podemos destruir esse vicio
organico, demos-lhe ao menos um rumo diverso do que elle leva.

Que, em vez de ter vaidade dos seus trapos e dos seus miseraveis
arrebiques, ella tenha vaidade de ser boa, laboriosa, honesta, instruida
e forte.

Faamos comprehender bem ao nosso anjinho de tres annos, que  bem mais
difficil e glorioso ser docil do que ter um vestido novo; que  muito
mais digno de louvor saber ler do que trazer um chapu de plumas.

Isto no  mais do que indicar o caminho.

No ha me cujo instincto a no advirta de que estamos fallando verdade.

       *       *       *       *       *

At a escolha da boneca  uma cousa importante!

Uma boneca esplendidamente vestida, de chapu com flores, de luvas e
cabellos d'ouro annellados, inspira um certo assombro, e depois uma
certa inveja. Uma boneca de trapos, estupida, inerte e molle causa
desdem e antipathia.

Oh! a primeira boneca! que jubilo supremo que ella no deu a todas ns!
Comparavel  alegria da primeira boneca, s a alegria do primeiro filho!

 a mesma hesitao em lhe tocarmos com medo que ella se _quebre_! o
mesmo susto! a mesma curiosidade! o mesmo enlevo! o mesmo espanto
namorado e feliz!

A me intelligente comprehende e sabe aproveitar isto.

A boneca  como a aprendizagem da maternidade!

--Est nua, coitadinha, est nua a tua boneca, Lili. Que frio que ella
deve ter! Que desconforto! Que pena de olhar para ti e de te vr to bem
vestida e quente e confortavel. Senta-te aqui ao p de mim, Lili, vamos
ns fazer o fatinho da tua boneca!

E como o corao  que sempre domina e guia a mulher, eis o corao
fazendo um milagre n'aquella mulhersinha de oito annos, que deixa de ser
a traquinas, a turbulenta, a ociosa creaturinha, e que principia a
conhecer as delicias do trabalho e os santos prazeres do sacrificio.

O sacrificio por uma boneca!

Sim, o sacrificio, e porque no?

S quem no  me e quem nunca foi creana  que escarnecer da
expresso que empregamos.

Pois no sabem que essa primeira boneca, que se recolhe nua nos braos,
e que se veste, que se cala, que se conchega, que se adormece entre
beijos e affagos,  o primeiro sonho de um corao de me?

       *       *       *       *       *

As amigas das nossas filhas!

Grave e momentoso assumpto, no raro descurado e de cujo esquecimento ou
de cujo desleixo resultam s vezes damnos irremediaveis.

No collegio  que se travam quasi sempre as primeiras amizades. Ora, ns
para as meninas desadoramos o collegio.

Por muito bom que elle seja, achamol-o sempre pessimo.

Quem  que nos responde pela boa escolha de relaes que alli adquirem
nossas filhas?

Quem nos diz que essas creanas todas que alli se reunem, e que entre si
trocam as mais intimas e minuciosas confidencias, s viram bons
exemplos, s conhecem quadros de santa e impeccavel moralidade?

Pois nenhuma d'ellas trar comsigo aquella funesta curiosidade, que
perdeu a nossa primeira me?

Todas so innocentes, todas ignoram da vida o que ella tem de baixo ou
de corrosivo?

Quem nos affirma que ellas sabero ser boas e honestas companheiras, que
no lanaro com uma palavra imprudente um germen venenoso, que no
corrompero com precoce perversidade o espirito da creana innocente,
que n'ellas se confiar?

As amigas das nossas filhas so aquellas de quem logo depois de ns
depende a pureza, a candura, a innocencia d'ellas!

 de uma grave imprudencia acceitar para uma filha nossa, sem escolha e
sem criterio, a companhia de outra creana.

Cumpre conhecer bem a me, a educao que ella d aos seus filhos, o
modo porque vivem, o caracter, a moralidade d'essa familia.

E que as mes, n'este ponto, se no prendam com preoccupaes de banal
delicadeza. Primeiro que tudo est o futuro das suas filhas.

Se a educao de um rapaz  j difficilima, que ser a educao de uma
menina?

Quantos perigos a evitar, quantos obstaculos a temer, quantas
contrariedades em meio do caminho!

Que a me procure ser a melhor amiga de sua filha, e que esta no receie
confiar-lhe nem os seus pequeninos segredos infantis, nem as mysteriosas
comoes da sua alma adolescente.

N'esta deploravel educao que hoje se d e se recebe, a primeira cousa
de que os filhos tratam  de enganar os paes.

De que provm isto? Da mal entendida severidade d'estes.

A indulgencia para as primeiras travessuras prepara naturalmente a
creana para se confiar sem medo ao corao que a sabe entender e lhe
sabe perdoar.

Mas  muito delicado este ponto da misso maternal.

Se o excesso da severidade cria a desconfiana e a mentira, o excesso da
indulgencia cria o cynismo e a desvergonha.

Que difficil no  para um espirito de me saber ao mesmo tempo attrahir
a confiana e impr o respeito!

Levar o filho que peccou a confessar a culpa, no por ter a certeza de
que ser facilmente perdoado, mas por lhe exigir a consciencia que no
esconda o seu delicto aos olhos d'aquella que sabe com mo delicada e
firme repr no caminho direito o ente fragil que se transviou.

No dia em que a me tiver alcanado do corao de sua filha ou de seu
filho esta singular conquista de venerao e de amor, pde sentir-se
tranquilla e satisfeita, pde sem medo responder pelo futuro.

       *       *       *       *       *

Para concluirmos este capitulo que, talvez por muito incorrectamente
desenvolvido enfastiasse as leitoras, sem lograr a ventura de as
convencer, damos em seguida o fragmento de uma carta, que por
circumstancias que seria inutil referir, ha pouco tempo chegou s nossas
mos.

Como vero, pertence esse trecho a uma carta que na vespera do seu
casamento foi dirigida  sua filha por uma extremosa me.

Explica muito melhor do que ns o podemos fazer o triumpho de um bom
corao maternal.

No tive animo de te dizer todas estas cousas frente a frente.

Tive medo de chorar, e tu sabes, meu anjo, que detsto acima de tudo os
enternecimentos intempestivos.

Depois, teria pejo, eu, tua me, eu que julgo ter concorrido pelos
cuidados de toda a vida para o excellente exito da minha obra--quer
dizer, da tua educao--teria pejo de te encher de louvores que embora
justos, recahiriam um pouco sobre mim.

Sabes que eu nunca te deixei, que por amor de ti renunciei, e de muito
boa vontade,  companhia dos indifferentes e dos frivolos, que s viriam
destruir ou modificar o effeito de todos os meus esforos, to
santamente abenoados por Deus!

Com que saudades eu me lembro dos seres de outro tempo, em que tu j
serena, grave e modesta como s hoje, lias ao p de mim, emquanto os
nossos bons e velhos amigos conversavam em cousas ss, em cousas
simples, das que no podem ferir os ouvidos de uma menina!

No te aconselho que renuncies ao mundo por amor dos anjinhos que viro
de certo abenoar e consagrar o teu casamento; mas peo-te que sejas
escrupulosa como eu sempre fui na escolha d'aquelles que admittires na
sagrada intimidade do teu lar.

Procurei sempre evitar em ti todos os excessos, mesmo os excessos bons.
No te quiz beata, nem _espirito forte_; no desejei que fosses uma
metaphysica, nem um entendimento demasiadamente positivo, nem mulher s
de sala, nem mulher exclusivamente do _mnage_.

O ideal, minha filha,  que de tudo se saiba ser um pouco.

Gostarei que recebas com graa senhoril na tua saleta de todos os dias,
artistica e confortavel, mas no desejarei menos que saibas ensinar a
tua cozinheira, fazer o rol da tua roupa, concertar o fato de teus
filhos, e economisar sem mesquinhez e gastar sem avareza.

No quiz nunca que tivesses outra amiga, e creio ter feito bem.

Se foi egoismo, Deus no me castigou por elle, porque devi a essa
precauo, por ventura excessiva, ter tido a deliciosa confidencia das
tuas primeiras alegrias e dos teus primeiros sonhos.

manh j no sers minha, querido encanto; nem j sero os meus beijos
os unicos que a tua pura testa de vinte annos receber! Mas n'esta
saudade dilacerante que me punge, quantas compensaes supremas eu no
encontro!

Entrego-te ao teu noivo, to candida, to ignorante do mal como deviam
ser todas as creanas da tua edade, que tivessem me, que s n'ellas
pensasse e s por ellas vivesse!

Nunca ouviste pronunciar uma palavra grosseira, nunca ouviste applaudir
um acto injusto, nunca se abaixaram os teus olhos seraphicos a um
espectaculo ignobil.

Eu fui sempre a tua fiel companheira; e, como as vestaes velavam o fogo
sagrado, velei eu pela tua immaculada innocencia!

De que ventura se privam as que preferem o mundo aos seus filhos!

Ignoram as alegrias profundas de ser me, como eu fui, como tu sers,
minha joia!

No ha na tua alma um pensamento, uma ida, uma saudade, que eu no
conhea, e se manh quizer folhear diante de teu marido o livro radioso
da tua infancia e da tua adolescencia, no haveria n'elle uma s pagina
que eu lhe no podesse repetir de cr.

Respondo pelo passado e respondo pelo futuro. Basta-me essa gloria para
me consolar de todas as minhas saudades!

 bem pezada n'este mundo a cruz das boas mes, mas no te esqueas
nunca, minha filha, que mesmo n'esta hora de tantas lagrimas, eu
confesso bem alto, no ha rosas mais frescas, mais puras e mais
orvalhadas do que as rosas que enfloram e entrelaam essa cruz!

S d'aqui a muitos annos comprehenders a angustia com que te
digo--_adeus_!

Ento, sei que has de chorar por mim!




CAPITULO XVI

Cartas de um marido


Meu caro amigo.

Onde  que fui desencantal-a? perguntas tu com justificado espanto.

E tens razo.

O facto  que nunca a vi, valsando n'um baile  luz quente e abafadia
do gaz, decotada, cheia de p de arroz e de suor, abandonando-se n'uma
postura voluptuosa, nos braos de um sujeito esgrouviado, de casaca,
collarinhos de papelo, e olhar que tenta ser magnetisador e
irresistivel, e que depois de tamanhos esforos no consegue ser seno
comico.

Nunca a encontrei cantando n'um concerto duetos apaixonados em beneficio
dos meninos pobres, vendendo n'um bazar sorrisos de danarina e
_bibelots_ de fancaria em beneficio dos velhinhos aleijados,
representando n'um sarau dramatico, comediazinhas maliciosas em
beneficio dos adultos cegos.

Frequentando os theatros de segunda ordem, onde os palhaos e as
_cocottes_ de Offenbach, e dos modernissimos _maestrinos_ da decadencia
se desengonsam em scena, fazendo gestos desmanchados e sublinhando com
sorrisos torpes as suas cantilenas de _caf-concerto_, debalde a
procurei pelas frisas, e pelos camarotes, applaudindo as faradas
impuras, e dando gargalhadas que attrahissem a atteno e os maliciosos
commentarios da plata.

Nas noites de vero, no Passeio Publico, quando ha musica, fogo de
artificio, muito calor e muito aperto, e as meninas burguezas que ainda
no podem gozar da _villeggiatura_ elegante, passeiam com _toilettes_
claras, na plena expanso da _flirtation_ lisbonense, confesso que
muitas vezes atravessei a multido, pisado, empurrado, offegante, sem
respeito pelas caudas de seda, de _foulard_, de linho transparente, que
para alli vo desfructar o prazer de se encherem de poeira e de rasges,
e que debalde procurava reconhecel-a em cada vulto feminino, esbelto,
gracioso, que passava pisando a areia das ruas, com o taco alto das
estreitas botinas de pellica.

At comecei a frequentar S. Luiz, a igreja da devoo fidalga, do
arrependimento perfumado de _poudre d'iris_, do mais alto, do mais
distincto e do mais desdenhoso beaterio...

Vi todas as nossas flores da _alta vida_, trajando com discrio
finamente aristocratica, revelando a elegancia que as distingue, no modo
de se ajoelharem, de se persignarem devotamente, de erguerem os olhos
com extasi piedoso, para a imagem alabastrina da Virgem, que parece
erguer-se como um lyrio desabrochado, d'entre as verduras e as brancas
florescencias que a cercam de todos os lados.

Vi-as descalarem, das suas estreitas luvas de cinco botes, as mos
esguias, avelludadas, feitas da alvura dos marfins; vi-as curvarem-se
at ao cho, humilhadas, contritas, mas sempre correctas; lerem uma
orao privilegiada, em cada um dos quatro ou seis grossos volumes
devotos que trazem comsigo, beijarem com felina graa as mos
rechonchudas e macias dos louros abbades francezes, disputarem entre si
com delicadeza, no inteiramente isenta de colera, a sua vez de
confissionario, e de confidencias adocicadas e asceticas; mas nenhuma
d'essas encantadoras filhas de Eva, com os seus gestos miudos, os seus
movimentos ondeantes de serpente, as multiplas seduces da sua
artificial formosura, me deu a ida boa, s, carinhosa, como um affago
de me, que eu tivera vendo-a, a ella.

Escuso de accrescentar que _ella_ no se encontrava entre essas todas.

Um dia porm,--que bom dia aquelle!--tornei a vel-a em casa de uma amiga
de minha me.

No me pareceu bella, pareceu-me boa, mas de uma bondade em que a
belleza no deixava de entrar, embora como elemento secundario.

Estava com as suas amigas em volta de uma grande mesa de sero. Largra
um pequeno trabalho da agulha, e comeara a lr alto a pedido de todas
as companheiras.

Lia um livro de Michelet, _L'insecte_.

Tinha a voz grave, sonora, musical, como eu sempre imaginei que havia de
ser; a luz coada pelo globo fosco do alto candieiro, banhava de vagos
tons dourados o seu cabello simplesmente penteado, torcido n'um grosso
rolo luminoso sobre a nuca torneada e forte.

No me lembro bem de como estava vestida, signal de que era to
despretencioso o seu trajo que no prendia nem demorava a atteno.
Havia de ser por fora bastante distincto para lhe no alterar a graa;
bastante singelo para no dar um aspecto de artificio  sua natural e
casta formosura.

Emquanto a ouvia ler, parecia-me comprehender melhor aquella grande alma
luminosa do velho Michelet.

E sentia em mim a vivificante sympathia da natureza, o amor dos
pequeninos, a ternura comprehensiva para tudo que vive, que sente, que
palpita na enorme Creao.

Quando acabou de ler, fechou o livro, e naturalmente, sem languidez, sem
cansao, pegou de novo no trabalho, e recomeou a bordar.

Aproveitei o ensejo e sentei-me n'uma cadeira vaga ao seu lado.

Conversmos muito. Em muita cousa, em quasi tudo.

Era um gosto ver de perto a luz tranquilla e doce d'aquelle olhar azul
escuro, reflectido, serio, innocente.

No baixava os olhos deixando transparecer nas faces rubor intempestivo;
tinha um modo seu de olhar, franco, sincero, de uma limpidez de lago
suisso em que se reflectisse o largo cu da primavera.

De vez em quando ria-se.

Que musica crystallina a do seu riso!

Uma das vezes lembra-me, que seguindo o falso pendor da nossa detestavel
educao de sala, fui sentimental, sem dar por isso, de uma
_sentimentalidade_ piegas, da que produz sempre um certo effeito no
espirito das meninas que _valsam_.

Levantou subitamente a cabea, como se ficasse um tanto surprehendida,
como se tivesse agourado melhor de mim,  primeira vista.

Depois, no sei o qu, provavelmente a expresso alambicada da minha
cara, desafiou-lhe a vontade de rir, uma vontade de rir irresistivel!

Coitadinha! Que bem educada que ella !

Suffocou aquella boa hilaridade to espontanea! Disfarou perfeitamente
o effeito comico que eu lhe produzira, isto com uma graa, to cheia de
infantilidade!

Castigou-me melhor assim, do que outra qualquer fingindo um enleio
theatral.

D'alli a nada, a dona da casa, uma senhora de aspecto muito distincto e
muito bondoso, veio pedir-lhe com grande empenho que fosse para o piano.

Levantou-se docilmente, e tocou e cantou emquanto quizeram ouvil-a!

Era a simplicidade, a graa, a mais delicada intuio artistica, isto
acompanhando uma vocao musical deveras notabilissima.

Nem uma s d'aquellas languidas arias italianas, de um sentimentalismo
to dissolvente e que parecem banhar a alma que as escuta n'um tepido
banho de caricias molles!

Musicas graves e de uma austera melancolia como as dos mestres allemes;
ou musicas graciosas, ligeiras, scintillantes, inoculando no espirito
uma sensao de frescura matutina, de robusta alegria, levando-nos atraz
das suas notas de crystal, pelas pradarias illuminadas da luz das
alvoradas estivas, onde os melros maliciosos assobiam, saltando de ramo
em ramo!

Quando sahi d'alli, d'aquella casa hospitaleira, em que o espirito
parecia dilatar-se affectuosamente, pensei de mim para mim que ella
havia de ser minha mulher!

.....................................................................

...Sabes uma cousa? Temos um filho! Estas palavras a ti no te dizem
nada, a mim banham-me o corao n'uma alegria que em lingua humana se
no pde exprimir.

A deliciosa cano da minha felicidade, canto-a eu em beijos chilreados,
no corpinho rolio e avelludado, no corpinho de leite do meu primeiro
pequenino!

Vivemos em um bairro pouco central, em uma rua muito socegada, onde
passam pouquissimos trens, e onde se no ouve o pregoar rouquenho dos
vendilhes ambulantes.

O nosso oramento  de uma exiguidade que faz rir, mas no sei porque
minha mulher tem a habilidade de fazer render da maneira mais milagrosa
os nossos modestissimos haveres.

Creio que se manh me visse rico, no podia ser to feliz.

Se eu fosse rico, havia de ter criados, no  verdade? Criados graves,
solemnes, de olhar sonso, que vivessem da minha vida, que maculassem com
a sua ironia baixa as santas expanses do meu affecto de marido e de
pae, que invejassem a minha felicidade, que calumniassem as minhas
intenes, os meus actos, a minha vida toda!

Ao jantar um ou dous d'aquelles figures altos, espadaudos, ociosos,
vestidos de preto, haviam de espreitar com olhar guloso cada bocado que
eu mettesse na bca; teria um cozinheiro gordo, de barrete branco, que
me fizesse molhos indigestos, uma criadinha de quarto buliosa, e
petulante que se risse do _burguezismo_ pacato dos meus habitos.

Viveria escravo, preso nas malhas de ouro, d'esta grande rede que se
chama a riqueza.

Receberia muitas visitas, muita gente indifferente ou hostil, que viesse
para me bajular, e que se fosse embora para me morder traioeiramente
pelas costas.

Uma governante ingleza empavezada, grotesca, um pouco pedante, cortaria
na sua flr, na querida alma transparente do meu pequeno anjo, os
carinhos, as expanses innocentes, os risos inextinguiveis e sem causa,
tudo que  hoje a nossa alegria!

E depois, habituado ao luxo no sentiria o conchego! Satisfeitos at 
saciedade todos os desejos, no teria nunca a boa, a vivificante
sensao do obstaculo vencido!

E o socego depois do trabalho! E as alegrias da posse, quando o objecto
longo tempo cubiado, para alcanar o qual se fizeram tantas economias,
se supportaram tantas privaesinhas, nos apparece emfim em todo o
prestigioso brilho do impossivel, que de repente se deixa conquistar!

Ai! as minhas alegrias de pobre, que saudades que eu terei d'ellas mais
tarde!

Mas, meu querido A., no comeces tu agora a lamentar-me imaginando-me
novo monge entregue s austeridades da penitencia voluntariamente
acceita!

No te disse eu que uma boa mulher que nos ame, e que nos saiba amar, 
um thesouro inestimavel, que o homem desdenha, e que por isso, se tem
feito to raro?

A minha casa no tem estofos de seda, no tem custosos moveis de
carvalho entalhado, no tem frageis porcellanas de Saxe, de Sevres ou do
Japo, no tem tapetes turcos, nem artisticos Gobelinos.

Mas olha que nem sempre o luxo  o conforto, nem sempre a opulencia  a
graa, nem sempre as cousas caras so as cousas elegantes!

A nossa pequenina casa, toda forrada de papel claro, com as suas
cadeiras de _cretonne_, as suas cortinas muito brancas, e vasos de
plantas em pequenas estantes de madeira, e jarras de flres na mesa de
jantar, com a luz clara e festiva do sol, a illuminal-a toda, com o
aceio escrupuloso que  o luxo dos pobres, com a tranquilidade doce e
recolhida, que  a poesia dos que se amam e na qual pe a espaos a nota
clara e festiva o riso do nosso filhinho, a nossa casa  como que a
deliciosa encardenao do poema do nosso amor!

Todas as senhoras que eu conheo sahem muito; os maridos voltam  noite
exangues das enfadonhas labutaes do dia, com o espirito abatido, com o
corpo cansado e no entanto teem de seguil-as ao baile, ao theatro, a
casa das amigas, de figurarem de comparsas na fastidiosa comedia social,
de se mostrarem debaixo de um aspecto desfavoravel, de realizarem emfim
 risca o lendario typo que o _romantismo_ amarrou ao pelourinho do
ridiculo, o _marido_ macambuzio, o _marido_ desengraado, o _marido_ sem
espirito, em quanto  roda, fresco, malicioso, cheio de ditos e
anecdotas, com uma rosa na abotoadura, borboleteia o _galan_ que pova
de perigosas seduces a fantasia de todas as pobres mulheres frageis!

Minha mulher  noite sahe raras vezes, de modo que eu durante o dia, na
atmosphera pesada e asphyxiante do escriptorio, estou sem querer a
scismar no conforto que me espera quando eu voltar.

O jantarinho quente, saboroso, cozinhado pela nossa velha Anna, debaixo
da direco da minha querida Maria, a toalha muito branca, um ramo de
lilazes no centro, as fructeiras de vidro com as suas pyramides de
fructas, sahindo do ninho fresco e avelludado das folhas verdes, os
talheres muito bem limpos, um grande conchgo na atmosphera, e em tudo
visiveis o gosto _d'ella_, os cuidados _d'ella_, o affecto _d'ella_
manifestando-se no bem-estar que me envolve e me acaricia!

Depois,  noite, o gabinete com a mesa redonda no centro, o candieiro de
Carcel de luz clara e discreta, a poltrona de marroquim, com os grandes
braos abertos que me convidam, os jornaes do dia, a ultima _Revista_,
um romance novo, e a minha querida mulhersinha, com um vestido que lhe
fica muito bem e que andou ella propria a fazer s minhas escondidas--a
ladina!--como se eu no tivesse olhos perspicazes que vem de longe! com
os seus longos cabellos louros penteados d'aquelle modo simples e
puramente artistico, que faz da cabea de cada estatua grega uma cabea
encantadora, e sobretudo com o seu sorriso bom, o seu olhar affectuoso e
honesto, a sua voz consoladora que  uma musica, a melhor das musicas
para o meu corao!

Para alm do reposteiro entre-aberto, v-se a alcova, o bero de
cortinados brancos, e  luz branda da lamparina, sobre uma cadeira, um
vestidinho claro, uns pequenos sapatos, umas meiazinhas de cr, umas
cousas para que ninguem repara, e que a mim me fazem s vezes chorar.

Tenho j perguntado a mim mesmo, que differena existe entre mim e os
outros homens, porque  que elles andam pelo gremio, pelos cafs, pelos
theatros, alguns pelas salas, e porque estou eu tanto em casa, finda que
seja a minha tarefa diaria?

Serei melhor do que os outros maridos?

No; ella  que  melhor do que as outras mulheres.

A felicidade de que eu gozo devo-a  sua comprehenso to santa dos
deveres, e ao meu egoismo todo masculino.

Vou para onde me chama maior somma de alegrias e de confortos que posso
conhecer n'este mundo.

No ha n'isto merito nem dedicao dignos de louvor.

Se  noite a nossa pequena sala se enchesse das amigas de minha mulher,
palradeiras, frivolas, pueris, a discutirem banalidades,  provavel que
eu fugisse para qualquer outra parte.

Se quando chegasse a casa, a visse prompta para sahir,  minha espera
para me fazer envergar uma terrivel casaca muito hostil, que me acenasse
de longe com as suas azas de gafanhoto, se ella me apparecesse toda
occupada de si, da sua _toilette_, dos triumphos que ia ter, e
esquecendo completamente as exigencias mais prosaicas, do meu
temperamento de homem, da minha vida de trabalhador, com certeza que me
chegaria a minha hora de revolta, que o trabalho deixaria de ser o meio
de que eu me servisse para alcanar o bem estar dos meus, e que se
tornaria simplesmente uma tarefa exercida sem alma, sem alento interior,
s para que o mundo me no alcunhasse de ocioso e de zango da grande
colma social.

Dos defeitos d'ella proviriam todos os meus defeitos, dos seus
esquecimentos, todas as minhas faltas.

J vs quanto ganhei casando-me com esta querida e nobre creatura.

Se me perguntares o que ella sabe, dir-te-hei que sabe tudo, e que a
sciencia toda lhe provm de uma s fonte--o corao.

Comprehende Shakespeare e faz deliciosamente uma _omellete_, toca com o
sentimento mais fino e mais ideal, uma phantasia de Beethoven, e
inventou um systema engenhoso e abreviado de fazer o rol da lavadeira;
adora as flores, os versos, as creanas, os livros, tudo que  bello,
tudo que  bom na natureza, e de manh, com a sua touquinha de cambraia
branca, o seu avental de merino, um _espanador_ de pennas na mo, pondo
os moveis em harmonia, tocando em todas as cousas, imprimindo em tudo o
cunho da symetria e da ordem, atarefada, sem distraco, sem enfado,
parece uma _spinster_ ingleza atacada da monomania do arranjo.

A brincar com o filho, na rua areada do nosso pequeno jardim, dir-se-hia
a sua irm mais velha; na hora da atribulao, na hora difficil em que
de um bom conselho depende s vezes a dignidade de um homem, lembra um
espirito austero, cheio de altivas aspiraes estoicas.

O contacto d'ella faz bons os que so maus, faz robustos os que so
fracos!

So estas as mulheres que salvam a honra e a felicidade dos maridos.

Queres um conselho? Procura no mundo outra Maria como  a minha e
casa-te.




CAPITULO XVII

Confidencias maternaes


Minha querida amiga.

Ha quasi quatro mezes que te no escrevo, e supponho que no estars por
isso mal comigo.

No sei bem dizer-te como se passam os meus dias, e quando s onze horas
da noite adormeo, um poucochinho fatigada e deixando sempre para o dia
seguinte parte da tarefa d'aquelle dia, metto a mo na consciencia e
sinto que no commetti o delicto de desperdiar um s instante.

E talvez que no fim de contas assim no seja.

Ouve-me tu, e julga.

Fez hontem um anno o meu querido _baby_.

 louro,  rosado, tem uma cabelleira revolta e crespa que lembra uma
aureola de anjo, ou uma juba de leo pequenino, tem um corpo rolio,
mimoso, redondinho que parece feito por uma fada muito habilidosa no seu
torno de marfim.

Comea a andar, e os passos d'elle, desastrados e timidos enchem-me a
alma de um susto, de uma inquietao, de uma delicia, de um _no sei
qu_ profundamente novo na minha vida e que eu no encontro palavras que
exprimam bem!

At aqui parecia-me que _elle_ era _eu_, que fazia parte de mim, que ns
ambos formavamos um todo.

Agora percebo e com uma surpreza que s vezes chega a ser dolorosa! que
me enganara, e que cada um d'aquelles passinhos hoje to miudos e to
vacillantes, manh apressados e firmes, o ir afastando de mim na vida,
se eu o no souber seguir, fazendo-me como elle pequena, como elle
infantil, penetrando intimamente na sua alma e ao mesmo tempo
compenetrando-me bem de todas as doces claridades matutinas que ha
dentro d'aquelle espirito que vae desabrochar.

No comprehendes bem esta iniciao lenta, que no momento em que o corpo
da me e o corpo do filho deixam de ser um s, faz uma s das duas almas
de ambos?

Visto que elle j no pde ser _eu_,  preciso que eu seja _elle_; s
assim lhe poderei ir inoculando na alma e no entendimento, tudo que no
meu entendimento e na minha alma houver de bom; s assim me poderei ir
lentamente transformando sob a influencia regeneradora e purificante
d'aquella immaculada innocencia!

Oh! divina transmisso mutua de virtudes e de foras, que constitue o
lao moral e inquebrantavel que une a me ao filho das suas doloridas
entranhas!

Por ora nada tenho que ensinar ao meu louro _bb_.

Tenho s de escutar o que diz no silencio, aquella pequenina alma em
embryo, e de aprender a ler n'aquelle mysterioso livro que 
indecifravel para todos e que  to eloquente para mim.

Bb tem uns grandes olhos; uns dizem que so azues, outros dizem que
no. Por ora no tem cr; ou para melhor dizer ha na sua limpidez de
crystal todos os cambiantes e todos os reflexos. Os olhos de Bb so
como a alma d'elle, teem a doura do leite que bebe, teem a suavidade
dos beijos com que o visto noite e dia.

Scisma s vezes vagamente... longamente... Em que? No ha ninguem que o
saiba dizer, visto que um corao de me o no adivinha. Scisma no cu
d'onde veio? Talvez. Ha mysterios de luz na alma profunda das creanas.

Gosta da claridade dos dias limpidos, das arvores, das cres vivas, e
tambem da opalina tristeza do luar. Gosta dos sons, dos risos, das
caricias,  uma alma que vive em pleno azul.

Nenhuma sombra n'aquella tela transparente onde a mo de sua me vae
escrever as primeiras palavras.

Muita gente imagina que ser me custa apenas as dres dilacerantes de
algumas horas, os incommodos mais ou menos crueis d'um certo periodo, e
depois os cuidados de doze ou treze mezes.

Quem pensa assim no sabe o que  ser me!

Pois tu no ouviste que elle espera, e que a primeira palavra definida e
clara que ha de vibrar na sua alma, sou eu que hei de dizel-a,  a minha
mo tremula, fraca e inexperiente que ha de tornar-se firme para a
gravar indelevelmente?

E se a voz esmorecer? E se a mo vacillar?

Quem me disse a mim que acertarei? quem me deu foras para encaminhar um
sr que s de mim ha de receber na terra o santo e a senha?

E depois quando o vejo to lindo, querendo j esboar o primeiro
capricho, querendo experimentar a primeira vontade, querendo vencer o
primeiro obstaculo, pergunto a mim mesma se terei valor sufficiente para
lhe fazer perceber que a vida  uma lucta, para se tanto fr preciso,
ser eu propria que lucte com elle, e que o ensine a ser vencido!

De quantas coragens mais que viris precisa de compor-se a fraqueza
maternal!

.....................................................................

Mas nenhum d'estes vagos pensamentos que eu deixo aqui to mal expressos
te diz quaes so as occupaes em que levo os meus dias!

Meu Deus! e olha que acordo cedo!

Ainda bem a cotovia no deixa ouvir a sua alegre voz matinal, ainda bem
o gallo no atra os campos com o seu grito estridulo de combate, que 
um convite impetuoso para o trabalho, j a voz do meu filho me acorda
tambem a mim.

Que penna pde contar as delicias d'aquelle despertar! Os risos, as
negaas, os beijos, e o modo malicioso com que elle deitado nos meus
braos e depois de fartar as exigencias do pequenino estomago, larga o
seio para me sorrir com os beicinhos tintos de leite, e torna de novo a
pegar-lhe para saborear voluptuosamente, lentamente o que j no tem
vontade de engulir com a avidez deliciosamente glutona da infancia.

Vem depois o banho, o banho que  um poema!

Est alli a grande bacia de agua tepida, e emquanto o dispo, elle salta
e ri, e deita-se para traz e namora a transparencia da agua, at ao
instante em que mergulha emfim entre risadas de crystal que me echoam no
corao.

Tu sabes l os cuidados, as manhas, as idas engenhosas que  necessario
pr em pratica para illudir a impaciencia d'estes seres adoraveis! O
banho dura meia hora, e acabo d'alli encharcada, despenteada, canada,
triumphante.

 uma victoria de todos os dias.

O resto do dia pertence-lhe a elle quasi exclusivamente.

 um tyranno o meu _bb_.

Tenho de o passear, de lhe dar de comer, porque  preciso que saibas que
o doutor vendo que elle j tem oito dentes--carnivora creatura!--me deu
licena emfim para lhe dar tres vezes ao dia a sua competente papinha,
tenho sobretudo de o entreter porque a imaginao infantil que desperta
tem exigencias de que tu no podes fazer ida!

 _spleenetico_ como um velho _lord_ o meu seraphim de palmo e meio de
altura.

D-se-lhe um brinquedo agora, recebe-o com uma apparencia de enthusiasmo
que illude os inexperientes; d'alli a um instante pe-n'o de parte
desdenhoso, enfastiado, insaciavel...

Quer ver sempre cousas novas, quer que o emballem, e lhe cantem e o
levantem ao ar e o faam rir.

Por'ora trata-se simplesmente de enganar aquella actividade graciosa e
irrequieta, mas quando chegar o momento de a applicar?

Sabes uma cousa? sou felicissima e tenho muito mdo...

.....................................................................
.....................................................................

_Quatro annos depois._

.....................................................................

Cinco annos! Sabes l! Um homem, positivamente um homem!

 mau.

Deixa l dizer que so boas as creanas. Olha que  uma perfeita
illuso, minha querida.

Que bem se conhece n'elle j, o bravio animal que todos ns somos!

_Bb_  um monstro!

No outro dia levei-o commigo a casa d'uma senhora minha amiga. Pois
imagina que elle matou com a sua espada de pau, a boneca de pellica e
semeas de Julia, uma pequenita de 3 annos, a filha mais nova da dona da
casa!

E como ella chorasse muito humilde, muito medrosa diante d'aquella sanha
terrivel, chegou a ameaal-a--o desgraado!--com a mesma espada de pau
que j fizera tamanhos maleficios.

Chorei de pena de o ver to mau, to irascivel, to colerico, e elle o
leo pequenino, ajoelhou-se com as mosinhas postas aos meus ps, e
gago, cheio de lagrimas, com os grandes olhos espavoridos,
disse-me--perdo mam!

 Magdalena, imagina tu a fora de que eu precisei para o no devorar de
beijos! Pois no o fiz!

Mostrei-lhe uma cara seria, magoada, cheia de consternao e no o
abracei em todo o dia.

Ha de ser colerico, j vs.

Quem me ensinar a mim a corrigil-o?

J sei o que me respondes.--Faze queixa ao pae. O pae que lhe ralhe.

Deus me defenda de tal.

Em primeiro lugar o medo no corrige, humilha; no modifica, rebaixa.
Depois eu no quero recorrer a ninguem para influenciar a alma de meu
filho.

O pae ha de intervir sim senhor, porm mais tarde. Por'ora  elle meu,
s meu.

Toda a creana tem defeitos, e ai d'aquella que os no tem! Arrenego das
_creanas-modlos_. Transformar esses defeitos--que so indicios
caracteristicos do temperamento da organisao, de qualidades muitas
vezes herdadas--em foras activas e fecundas, eis o grande problema da
educao.

E talvez tu cuides, minha pobre amiga, que as _gracinhas_ de _bb_
ficam por aqui?

Pois ainda ha mais? exclamas tu assustada.

Sim, ha muito mais. Ha cousas que eu com a ajuda de Deus tenciono
aproveitar e dirigir para o futuro bem d'elle.

Bb roubou!... imagina!

No outro dia desappareceram-me de cima de uma _etagre_ da saleta umas
bugigangas de marfim que me tinham trazido de Macau; adivinha onde fui
dar com ellas?

No seu quarto dos _bonitos_.

No estavam escondidas, valha a verdade! estavam impudicamente
espalhadas ao sol, com uma ostentao de cynismo deveras aterradora.

No posso explicar bem o trabalho que tive para, sem polluir aquella
innocencia sagrada, lhe explicar que n'este mundo ha _meu_ e _teu_, e
que a propriedade  um direito inviolavel.

Como no ha nada mais difficil--para no dizer impossivel--do que
introduzir uma ida abstracta na cabea d'uma creana, no imaginas de
quantos artificios e quantas manhas me val.

Cheguei a _roubar-lhe_ tambem eu propria, parte dos seus _bonitos_.

Ento  que era vel-o, sem se atrever a condemnar-me, e no entanto
sentindo revoltados, l dentro da sua alminha de cinco annos, todos os
instinctos de justia que sempre mais tarde ou mais cdo alli tinham de
manifestar-se.

--Tiveste muito pena de te tirarem os teus bonitos?

--Tive muita sim, mam, respondeu todo sobresaltado e ainda mal
restabelecido do susto.

--Ora ainda bem! O _bb_ agora nunca mais tira nada a ninguem, ouviu?

--Ah! sim, e ficou-se instantes como que seguindo um trabalho que sem
elle mesmo querer se lhe ia fazendo l dentro. Ah! sim,  muito feio
tirar s pessoas o que ellas teem. Bb nunca mais tira...

No outro dia a Guilhermina, a minha velha aia que tu conheces
perfeitamente, dizia-me consternadissima:

--Ninguem faz ida de como o menino  mentiroso. Inventa cousas que  de
fazer tremer uma pessoa.

De feito, no ha nada mais prodigioso do que a phantasia de bb.

Conta os factos mais extraordinarios que nunca se deram, como se tivesse
assistido a elles. Da mais pequenina cousa deduz uma longa historia
falsa. Umas vezes encontrou na rua um homem muito feio que o quiz levar
comsigo; outras vezes mordeu-lhe um bicho, que elle parece ter visto e
que descreve com as cres mais vivas. Quando est um pedao longe de mim
vem narrar-me assombrosos acontecimentos que se deram com elle, do mesmo
modo quando me deixa instantes, conta  Guilhermina uma infinidade de
pormenores que s existiram na sua imaginao.

Como  que eu hei de conseguir subordinar a um principio de exactido e
de verdade aquelle espirito iriado e phantastico, para o qual todas as
cousas tomam uma frma differente da realidade?

Crear uma alma! que misso difficil, que misso esmagadora.

No fim de contas as foras da natureza no so boas nem ms; da
applicao d'ellas  que tudo depende.

Do meu anjinho, impetuoso cheio de ambies, de curiosidades, de
irrequieta alegria, de cubias intuitivas, de energia vital, pde uma
direco boa fazer um caracter nobre, viril, pertinaz, capaz de todas as
luctas, prompto para todos os combates, investigador, inventivo, cheio
das beneficas curiosidades do bem, e das ambies generosas que levantam
e enobrecem.

E pensar, meu Deus, que mal dirigidas, todas estas qualidades, todas
estas foras, todas estas manifestaes de vida intensa, podem leval-o 
perdio,  infamia, ao crime!..

Oh! meu Deus, dae-me vida e entendimento para que s eu amolde e
affeie a querida alma de meu filho!

.....................................................................
.....................................................................

O Luiz faz hoje o seu primeiro exame no Lyceu; j se no chama _bb_,
j no tem aquelles annellados cabellos de ouro que eram o meu orgulho e
as minhas unicas joias, os seus bellos olhos escuros j no tem a doura
pensativa, o pasmo encantador da alma que se busca e que se ignora; usa
jaquetinha e calas, e hontem dei a uma vizinha pobre uma blusa que era
d'elle, a sua ultima blusa de ha dous annos.

Que tolice! Sabes que lh'a dei a chorar?

O meu Luiz  quasi um homem.

 bom,  meigo,  d'uma deliciosa innocencia, de uma expanso de vida
que assombra!

No  meditativo, nem poeta; nada d'isso.  d'uma alegria impetuosa;
d'uma actividade sem limites.

Gosta de estudar para me satisfazer a mim, mas tenho a certeza que gosta
de brincar para se satisfazer a si.

No sabe muito; ao p dos nossos _sabichesinhos_ em miniatura, creio
mesmo que passar por um ignorante; mas a verdade  que est apto e
preparado para aprender tudo.

Suppe tu um lavrador que fizesse as suas sementeiras antes de preparar
a terra com os convenientes adubos, e aqui tens parte dos educadores de
hoje.

No meu filho--perda-me este santo orgulho--nenhuma qualidade foi
atrophiada, todas esto no pleno desenvolvimento que lhe  proprio,
n'aquella florescencia opulenta no fim da qual j se antev sazonado e
saboroso o promettido fructo.

Tem o corpo d'um pequeno atleta. Capaz de resistir s longas viagens,
aos estudos complicados da sciencia moderna, aos trabalhos complexos do
luctador d'este seculo estranho e poderoso.

At os seus recreios e distraces foram dirigidos com desvelo.

Desenvolvem-lhe o corpo dia a dia, a natao, a gymnastica, a equitao,
todos os exercicios physicos que tendem a duplicar e desenvolver o vigor
natural do homem, a creal-o mesmo se elle originariamente no existe.

Vivemos muito no campo, durante a sua risonha infancia. O amor e o
conhecimento intimo da natureza, das plantas e dos bichos, das cousas
inanimadas e das cousas mudas, o espectaculo grandioso ou suave dos
campos e das montanhas, dos tempestuosos mares, ou das placidas e fartas
lezirias, entra como um elemento fortalecedor, vivificante, cheio de
ensinamentos praticos na educao das creanas. Nunca uma arvore ensinou
uma aco m; nunca uma flr ou um ninho de aves crearam um pensamento
abjecto.

No poz nunca o p n'um collegio. No conhece nem as alegrias nem as
lastimas d'essa intimidade que tem decididamente mais resultados
funestos do que vantagens conhecidas.

Aprendi quanto me foi possivel, no para lhe ensinar, mas para estudar
com elle, e comprehender antes d'elle o que era preciso que elle
comprehendesse.

Diante dos seus bellos olhos limpidos e curiosos no consenti nunca que
passassem os abjectos quadros que polluem tanta imaginao infantil.

No me cancei inutilmente a prgar-lhe sermes de moralidade abstracta;
pratiquei o bem para que elle o praticasse; em minha casa s tem visto
exemplos dignos.

Mais tarde, quando os maus, rindo lugubremente, lhe disserem que o bem
no existe, elle no acreditar n'essa blasphemia porque pensar em mim!

No  ainda um homem, mas promette vir a sel-o!

Est quasi cumprida a minha tarefa.

Hoje quando elle voltar contente de haver sido premiado--porque estou
certa de que o ser--acceitarei ainda os seus beijos como uma
recompensa.

D'aqui vante  a seu pae que pertence a direco suprema d'aquelle
espirito que desabrocha para todas as altas curiosidades da vida.

Choro porque as mes so fracas, Magdalena, mas para que choro eu?

J nada, nada na terra nem mesmo a minha morte nos pde separar.

Todas as virtudes que elle tiver, sero simplesmente o fructo das flores
que eu tenho cuidado com tanto amor, assim como essas flores veem dos
germens que eu semeei cheia de susto, de delicias, de ambies, de louco
anceio!

Fui eu que o conduzi pela mo, ao mesmo tempo tremula e confiante, at
ao limiar da sua pura adolescencia.

Sinto orgulho  verdade, mas tambem sinto saudades!

Saudades do tempo em que o embalava nos meus braos, em que elle s de
mim vivia, como eu vivia s para elle.

Foram as minhas alegrias mais superiores e mais completas.

D'ora vante  preciso que elle se emancipe um pouco da minha tutella
extremosa, que elle se v robustecendo ao contacto rude dos homens e das
cousas.

Fui eu que o formei. Sinto que pertencer ao numero dos fortes, e que
no succumbir na lucta da vida...

.....................................................................
.....................................................................
.....................................................................

Como estou velha, minha querida amiga de outros dias!

Lembrei-me tanto de ti, hoje, na igreja onde fui assistir ao casamento
do meu Luiz!

Tem 24 annos, realisou as doces promessas que eu sonhara e sahiu hoje de
casa de seus paes para outra casa que vae ser d'elle.

Tu no sabes a nuvem de tristeza que obumbra a minha alma, no sabes
como todos os egoismos humanos se revoltam em mim, e ameaam fazer-me
naufragar na sua formidavel tempestade!

Oh! deixa-me desabafar comtigo!

Quem  que ainda revelou ao mundo o martyrio que crucifica as mes!

Foi para outra que eu andei formando aquelle divino thesouro com todas
as riquezas que pude juntar dentro da minha alma!

Tantas noites que velei a pensar, a estudar, a pedir  voz intima da
consciencia que esclarecesse e fortalecesse e guiasse o meu fragil
corao de mulher!

Tantos annos de abnegao profunda, de abnegao sem nome, de todas as
horas, de todos os instantes, esquecida de tudo que no fosse aquella
alma pequenina que andava a crear e a robustecer.

N'esse empenho me fugiu a mocidade. Por elle, pelo meu adorado ingrato
me esqueci de tudo que fra meu!

E hoje elle partiu; partiu risonho, triumphante, orgulhoso como um rei,
sem se lembrar que onde vira at alli sua me, deixava uma triste
condemnada!...

E ha quem falle por ahi em ciumes romanescos, em ciumes ephemeros, em
ciumes d'um instante! Qual ciume poder comparar-se a este que me est
dilacerando o peito?

Oh! Luiz! oh! meu amor! oh! minha solido!...

.....................................................................
.....................................................................

Na ultima vez que te escrevi estava louca, minha velha amiga.

Nunca est s quem ama, e espera, e cr em Deus, e semeou o bem no seu
caminho.

Veio lembrar-me tudo isso n'essa hora de amarga revolta que passou, o
querido companheiro de toda a minha vida, o meu honesto guia, aquelle
que partilhou commigo todas a sublimes responsabilidades que ha no amor
dos paes.

J sou av minha amiga, o meu Luiz  j pae.

Nas alegrias d'elle vejo reflectidas as alegrias extinctas, cujo aroma
vago perfuma a minha alma de uma saudade ineffavel.

No se esqueceu de mim, o meu querido filho; tem presentes todas as
minhas lices, o lao mysterioso que um dia nos uniu conserva-se
inquebrantavel, e hoje no deixa ainda de vir consultar-me a cada
instante como nos dias em que a sua alma e a minha trocavam
incessantemente confidencias mutuas.

Estou consolada!

Vejo descer a velhice sobre mim como uma noite calma, tranquilla e cheia
de estrellas!

No  nunca infructifera a obra das mes.

O meu sacrificio, se o foi, ser continuado, e desatar-se-ha em flores
bemditas de gerao em gerao.

Felizes todas as que puderem adormecer como eu no seio de um filho a
quem deram tudo que tinham de melhor, de quem receberam tudo que n'este
momento levanta a minha alma para alm da vida terrestre, e me faz
antever o somno tranquillo e doce das consciencias justas.

.....................................................................
.....................................................................


FIM.


       *       *       *       *       *


DA MESMA AUTHORA

NO PRLO

CONTOS E PHANTASIAS, 1 vol.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.   59| acquisios         | acquisies          |
  |#pg.   97| Dir-me-ho quo      | Dir-me-ho que       |
  |#pg.  147| _mar dinho_         | _maridinho_          |
  |#pg.  161| Girardiu            | Girardin             |
  |#pg.  189| uma lcance          | um alcance           |
  |#pg.  250| grande gestos       | grandes gestos       |
  |#pg.  263| desonvolver         | desenvolver          |
  |#pg.  263| affiige             | afflige              |
  |#pg.  308| exemplo dignos      | exemplos dignos      |
  +----------+---------------------+----------------------+





End of the Project Gutenberg EBook of Mulheres e creanas, by 
Maria Amlia Vaz de Carvalho

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MULHERES E CREANAS ***

***** This file should be named 29550-8.txt or 29550-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/2/9/5/5/29550/

Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.net/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.net

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.net),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.net

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
