The Project Gutenberg EBook of Marilia de Dirceo, by Toms Antnio Gonzaga

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Title: Marilia de Dirceo

Author: Toms Antnio Gonzaga

Release Date: March 30, 2006 [EBook #18082]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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MARILIA DE DIRCEO.




MARILIA DE DIRCEO.

POR T.A.G.


PRIMEIRA PARTE.


LISBOA:

Na Typ. de J.F.M. de Campos. 1824.




MARILIA DE DIRCEO.




LYRA I.


Eu, Marilia, no sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado,
De tosco trato, de expresses grosseiro,
Dos frios gelos, e dos ses queimado.
Tenho proprio casal, e nelle assisto;
D-me vinho, legume, fruta, azeite,
Das brancas ovelhinas tiro o leite,
E mais as finas ls, de que me visto.
    Graas, Marilia bella,
    Graas  minha Estrella!

  Eu vi o meu semblante n'uma fonte,
Dos annos inda no est cortado:
Os Pastores, que habito este monte,
Respeito o poder do meu cajado.
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja at me tem o proprio Alceste:
Ao som della concerto a voz celeste;
Nem canto letra que no seja minha.
    Graas, Marilia bella,
    Graas  minha Estrella!

  Mas tendo tantos dotes da ventura,
S apro lhes dou, gentil Pastora,
Depois que o teu affecto me segura,
Que queres do que tenho ser Senhora.
He bom, minha Marilia, he bom ser dono
De hum rebanho, que cubra monte, e prado
Porm, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais [~q] h[~u] rebanho, e mais [~q] h[~u] throno.
    Graas, Marilia bella,
    Graas  minha Estrella!

  Os teus olhos espalho luz divina,
A quem a luz do Sol em vo se atreve:
Papoila, ou rosa delicada, e fina,
Te cobre as faces, que so cr da neve.
Os teus cabellos so huns fios d'ouro;
Teu lindo corpo balsamos vapora.
Ah! no, no fez o Ceo, gentil Pastora,
Para gloria de Amor igual Thesouro.
    Graas, Marilia bella,
    Graas  minha Estrella!

  Leve-me a sementeira muito embora
O rio sobre os campos levantado:
Acabe, acabe a peste matadora,
Sem deixar huma rez, o nedeo gado.
J destes bens, Marilia, no preciso:
Nem me cga a paixo, que o mundo arrasta,
Para viver feliz, Marilia, basta
Que os olhos movas, e me ds hum riso.
    Graas, Marilia bella,
    Graas  minha Estrella!

  Hirs a divertir-te na floresta,
Sustentada, Marilia, no meu brao;
Aqui descanarei a quente ssta,
Dormindo num leve somno em teu regao:
Era quanto a luta jogo os Pastores,
E emparelhados correm nas campinas,
Toucarei teus cabellos de boninas,
Nos troncos gravarei os teus louvores.
    Graas, Marilia bella,
    Graas  minha Estrella!

  Depois que nos ferir a mo da Morte
Ou seja neste monte, ou n'outra serra,
Nossos corpos tero, tero a sorte
De consumir os dous a mesma terra.
Na campa, rodeada de cyprestes,
Ler estas palavras os Pastores:
"Quem quizer ser feliz nos seus amores,
Siga os exemplos que nos dero estes"
    Graas, Marilia bella,
    Graas  minha Estrella!




LYRA II.


Pinto, Marilia, os Poetas
A hum menino vendado,
Com huma aljava de settas,
Arco empunhado na mo:
Ligeiras azas nos hombros,
O tenro corpo despido;
E de Amor, ou de Cupido
So os nomes que lhe do.

  Porm eu, Marilia, nego,
Que assim seja Amor; pois elle
Nem he moo, nem he cgo,
Nem settas, nem azas tem,
Ora pois, eu vou formar-lhe
Hum retrato mais perfeito,
Que elle j ferio meu peito;
Por isso o conheo bem.

  Os seus compridos cabellos;
Que sobre as costas ondeo,
So que os de Apollo mais bellos;
Mas de loura cr no so.
Tem a cr da negra noite;
E com o branco do rosto
Fazem, Marilia, hum composto
Da mais formosa unio.

  Tem redonda, e lisa testa;
Arqueadas sobrancelhas;
A voz meiga, a vista honesta,
E seus olhos so huns ses,
Aqui vence Amor ao Ceo,
Que no dia luminoso
O Ceo tem hum Sol formoso,
E o travesso Amor tem dous.

  Na sua face mimosa,
Marilia, esto misturadas
Purpureas folhas de rosa,
Brancas folhas de jasmim.
Dos rubins mais preciosos
Os seus beios so formados;
Os seus dentes delicados
So pedaos de marfim.

  Mal vi seu rosto perfeito
Dei logo hum suspiro, e elle
Conheceo haver-me feito
Estrago no corao.
Punha em mim os olhos, quando
Entendia eu no olhava:
Vendo que o via, baixava
A modesta vista ao cho.

  Chamei-lhe hum dia formoso;
Elle ouvindo os seus louvores
Com hum modo desdenhoso,
Se surrio, e no fallou.
Pintei-lhe outra vez o estado,
Em que estava esta alma posta;
No me deo tambem resposta,
Constrangeo-se, e suspirou.

  Conheo os signaes, e logo
Animado da esperana,
Busco dar hum desaffogo
Ao cansado corao.
Pgo em seus dedos nevados,
E querendo dar-lhe hum beijo,
Cubrio-se todo de pejo,
E fugio-me com a mo.

  Tu, Marilia, agora vendo
De Amor o lindo retrato,
Comtigo estars dizendo,
Que he este o retrato teu.
Sim, Marilia, a copia he tua,
Que Cupido he Deos supposto:
Se ha Cupido he s teu rosto,
Que elle foi quem me venceo.




LYRA III.


De amar, minha Marilia, a formosura
No se podem livrar humanos peitos.
Adoro os Heres, e os mesmos brutos
Aos grilhes de Cupido esto sujeitos.
Quem, Marilia, despreza huma belleza,
    A luz da razo precisa,
    E se tem discurso, pisa
A Lei, que lhe ditou a Natureza.

  Cupido entrou no Ceo. O grande Jove
Huma vez se mudou em chuva de ouro:
Outras vezes tomou as varias frmas
De General de Thebas, velha, e touro,
O proprio Deos da Guerra deshumano
    No viveo de amor illeso;
    Quiz a Venus, e foi prezo
Na rede, que lhe armou o Deos Vulcano.

  Se amar huma belleza se desculpa
Em quem ao proprio Ceo, e terra move;
Qual he a minha gloria, pois igualo,
Ou excedo no amor ao mesmo Jove?
Amou o Pai dos Deoses Soberano
    Hum semblante peregrino:
    Eu adoro o teu divino,
O teu divino rosto, e sou humano.




LYRA IV.


Marilia, teus olhos
So ros, e culpados,
Que soffra, e que beije
Os ferros pezados
De injusto Senhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

Mal vi o teu rosto,
O sangue gelou-se,
A lingoa prendeo-se,
Tremi, e mudou-se
Das faces a cr.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

A vista furtiva,
O risco imperfeito,
Fizero a chaga,
Que abriste no peito
Mais funda, e maior.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

Dispuz-me a servir-te;
Levava o teu gado
 fonte mais clara,
 vargem, e prado
De relva melhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

Se vinha da herdade,
Trazia nos ninhos
As aves nascidas,
Abrindo os biquinhos
De fome ou temor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

Se alguem te louvava
De gosto me enchia;
Mas sempre o ciume
No rosto accendia
Hum vivo calor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

  Se estavas alegre,
Dirceo se alegrava;
Se estavas sentida,
Dirceo suspirava
 fora da dor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

  Fallando com Laura,
Marilia dizia;
Surria-se aquella,
E eu conhecia
O erro de amor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

  Movida, Marilia,
De tanta ternura,
Nos braos me dste,
Da tua f pura
Hum doce penhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

  Tu mesma disseste
Que tudo podia
Mudar de figura;
Mas nunca seria
Teu peito traidor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

  Tu j te mudaste;
E a Olaia frondoza,
Aonde escreveste
A jura horrorosa,
Tem todo o vigor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

  Mas eu te desculpo,
Que o fado tyranno
Te obriga a deixar-me;
Pois busca o meu damno
Da sorte, que for.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.




LYRA V.


A caso so estes
Os sitios formosos,
Aonde passava
Os annos gostosos?
So estes os prados,
Aonde brincava,
Em quanto pastava
O manso rebanho,
Que Alceo me deixou?
    So estes os sitios?
    So estes; mas eu
    O mesmo no sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

  Daquelle penhasco
Hum rio cahia,
Ao som do sussurro
Que vezes dormia!
Agora no cobrem
Espumas nevadas
As pedras quebradas:
Parece que o rio
O curso voltou.
    So estes os sitios?
    So estes; mas eu
    O mesmo no sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

  Meus versos alegre
Aqui repetia:
O Eco as palavras
Tres vezes dizia.
Se chamo por elle
J no me responde;
Parece se esconde,
Cansado de dar-me
Os ais que lhe dou.
    So estes os sitios?
    So estes; mas eu
    O mesmo no sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.
  Aqui hum regato
Corria sereno,
Por marg[~e]s cobertas
De flores, e feno:
 esquerda se erguia
Hum bosque fechado;
E o tempo apressado,
Que nada respeita,
J tudo mudou.
    So estes os sitios?
    So estes; mas eu
    O mesmo no sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

  Mas como discorro?
Acaso podia
J tudo mudar-se
No espao de hum dia?
Existem as fontes,
E os freixos copados;
Do flores os prados,
E corre a cascata,
Que nunca seccou.
    So estes os sitios?
    So estes; mas eu
    O mesmo no sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

  Minha alma, que tinha
Liberta a vontade,
Agora j sente
Amor, e saudade.
Os sitios formosos,
Que j me agradro,
Ah! no se mudro!
Mudro-se os olhos,
De triste que estou.
    So estes os sitios?
    So estes; mas eu
    O mesmo no sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.




LYRA VI.


Oh! quanto pde em ns a varia Estrella!
Que diversos que so os genios nossos!
    Qual solta a branca vlla,
E affronta sobre o pinho os mares grossos.
Qual cinge com a malha o peito duro;
E marchando na frente das cohortes,
Faz a toare voar, cahir o muro.

  O sordido avarento em vo trabalha,
Que possa o filho entrar no seu Thesouro.
    Aqui fechado estende
Sobre a taboa, que verga, as barras de ouro.
Sacode o jogador da copo os dados;
E n'uma noite s, que ao somno rouba,
Perde o resto dos bens do pai herdados.

  O que da vorz gulla o vicio adora
Da lauta meza os prazeres fia.
    E o terno Alceste chora
Ao som dos versos a que o genio o guia.
O sabio Gallileo toma o compasso,
E sem voar ao Ceo, calcula, e mede
Das Estrellas, e Sol o immenso espao.

  Em quanto pois, Marilia, a varia gente,
Se deixa conduzir do proprio gosto;
    Passo as horas contente
Notando as graas do teu lindo rosto.
Sem cansar-me a saber se o Sol se mve,
Ou se a terra voltea, assim conheo.
Aonde chega a mo do grande Jove.

  Noto, gentil Marilia, os teus cabellos;
E noto as faces de Jasmins, e rosas:
    Noto os teus olhos bellos;
Os brancos dentes, e as feies mimosas.
Quem fez huma obra to perfeita, e linda,
Minha bella Marilia, tambem pde
Fazer os Ceos, e mais, se ha mais ainda.




LYRA VII.


Vou retratar a Marilia,
A Marilia meus amores;
Porm como, se eu no vejo
Quem me empreste as finas cores!
Dar-mas a terra no pde;
No que a sua cr mimosa
Vence o lyrio, vence a rosa:
O jasmim, e as outras flores.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Va sobre os Astros, va,
    Traze-me as tintas do Ceo.

  Mas no se esmorea logo;
Busquemos hum pouco mais;
Nos mares talvez se encontrem
Cores que sejo iguaes.
Porm no, que em parallelo
Da minha Ninfa adorada
Perolas no valem nada,
No valem nada os coraes.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Va sobre os Astros, va,
    Traze-me as tintas do Ceo.

  S no Ceo achar se podem
Taes bellezas, como aquellas,
Que Marilia tem nos olhos,
E que tem nas faces bellas.
Mas s faces graciosas,
Aos negros olhos, que mato,
No imito, no retrato
Nem Auroras, nem Estrellas.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Va sobre os Astros, va,
    Traz-me as tintas do Ceo.

  Entremos, Amor, entremos,
Entremos na mesma Esfera.
Venha Pallas, Venha Juno,
Venha a Deosa de Cithera.
Porm no, que se Marilia
No certame antigo entrasse,
Bem que a Paris no peitasse,
A todas as tres vencera.
    Vai-te, Amor, em vo soccorres
    Ao mais grato empenho meu:
    Para formar-lhe o retrato
    No basto tintas do Ceo.




LYRA VIII.


Marilia, de que te queixas?
De que te roube Dirceo
O sincero corao?
No te deo tambem o seu?
E tu, Marilia, primeiro
No lhe lanaste o grilho?
    Todos amo: s Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izeno?

  Em torno das castas pombas
No rulo ternos pombinhos?
E rulo, Marilia, em vo?
No se afago c'os biquinhos?
E a provas de mais ternura
No os arrasta a paixo?
    Todos amo: s Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria, ter izeno?

  J viste, minha Marilia,
Avezinhas, que no fao
Os seus ninhos no vero?
Aquellas com quem se enlao
No vo cantar-lhe defronte
Do molle pouzo em que esto?
    Todos amo: s Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izeno?

  Se os peixes, Marilia, gero
Nos bravos mares, e rios,
Tudo effeitos de Amor so.
Amo os brutos impios,
A serpente venenosa,
A Ona, o Tigre, o Leo.
    Todos amo: s Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izeno?

  As grandes Deosas do Ceo,
Sentem a setta tyranna
Da amorosa inclinao.
Diana, com ser Diana,
No se abrasa, no suspira
Pelo amor de Endymo?
    Todos amo: s Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenao?

  Desiste, Marilia bella,
De huma queixa sustentada
S na altiva opinio.
Esta chamma he inspirada
Pelo Ceo; pois nella assenta
A nossa conservao.
    Todos amo: s Marilia
    Desta Lei da Natureza
    No deve ter izeno.




LYRA IX.


Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo,
Porm no me venceo a mo armada
    De ferro, e de furor:
Huma alma sobre todas elevada
No cede a outra fora que no seja
     tenra mo de Amor.

  Arrastem pois os outros muito embora
Cadas nas bigornas trabalhadas
    Com pezados martellos:
Eu tenho as minhas mos ao carro atadas
Com duros ferros no, com fios d'ouro,
    Que so os teus cabellos.

  Occulto nos teus meigos vivos olhos
Cupido a tudo faz tyranna guerra:
    Sacode a setta ardente;
E sendo despedida c da terra,
As nuvens rompe, chega ao alto Impirio,
    E chega ainda quente.

  As abelhas nas azas suspendidas
Tiro, Marilia, os succos saborosos
    Das orvalhadas flores:
Pendentes dos teus beios graciosos
Ambrosias chupo, chupo mil feitios
    Nunca fartos Amores.

  O vento quando parte em largas fitas
As folhas, que mena com brandura;
    A fonte crystallina,
Que sobre as pedras ce de immensa altura;
No frma hum som to doce, como frma
    A tua voz divina.

  Em torno dos teus peitos, que palpito;
Exalo mil suspiros desvelados
    Enchames de desejos;
Se encontro os teus olhos descuidados,
Por mais que se atropelem, voo, chego,
    E do furtivos beijos.

  O Cisne, quando corta o manso lago,
Erguendo as brancas azas, e o pescoo;
    A No que ao longe passa,
Quando o vento lhe infuna o panno grosso;
O teu garbo no tem, minha Marilia,
    No tem a tua graa.

  Estimem pois os mais a liberdade:
Eu przo o captiveiro: sim, nem chamo
     mo de Amor impia:
Honro a virtude, e os teus dotes amo:
Tambem o grande Achilles veste a saia
    Tambem Alcides fia.




LYRA X.


Se existe hum peito,
Que izento viva
Da chamma activa,
Que accende Amor.
    Ah! no habite
Neste montado;
Fuja apressado
Do vil traidor.

  Corra, que o Impio
Aqui se esconde:
No sei aonde;
Mas sei o que vi.
    Traz novas settas,
Arco robusto;
Tremi de susto;
Em vo fugi.

  Eu vou mostrar-vos,
Tristes mortaes,
Quantos signaes
O Impio tem.
    Oh! como he justo,
Que todo o humano
Hum tal tyranno
Conhea bem!

  No corpo ainda
Menino existe:
Mas quem resiste
Ao brao seu?
    Ao negro Inferno
Levou a guerra:
Venco a terra,
Venco o Ceo.

  J mais se cobrem
Seus membros bellos;
E os seus cabellos
Que lindos so!
    Vendados olhos,
Que tudo alcano,
E j mais lano
A setta em vo.

  As suas faces
So cr da neve;
E a bocca breve
S rizos tem.
    Mas, ah! respira
Negros venenos,
Que nem ao menos
Os olhos vem.

  Aljava grande
Dependurada,
Sempre atacada
De bons farpes.
    Fere com estas
Agudas lanas,
Pombinhas mansas,
Bravos lees.

  Se a setta falta
Tem outra prompta,
Que a dura ponta
J mais torco.
    Ninguem resiste
Aos golpes della:
Marilia bella
Foi quem lha do.

  Ah! no sustente
Dura peleija,
O que deseja
Ser vencedor.
    Fuja, e no olhe,
Que s fugindo
De hum rosto lindo,
Se vence Amor.




LYRA XI.


Na toques, minha Musa, no, no toques
    Na sonorosa Lyra,
Que s almas, como a minha, namoradas
    Doces Canes inspira:
Assopra no clarim, que apenas sa
    Enche de assombro a terra;
Naquelle, a cujo som cantou Homero,
    Cantou Virgilio a Guerra.

  Busquemos,  Musa,
Empreza maior;
Deixemos as ternas
Fadigas de Amor.

Eu j no vejo as graas, de que frma
    Cupido o seu thesouro:
Vivos olhos, e faces cr da neve,
    Com crespos fios de ouro;
Meus olhos s vem gramas, e loureiros;
    Vem carvalhos, e palmas;
Vem os ramos honrosos, que destinguem
    As vencedoras almas.

Busquemos,  Musa,
Empreza maior;
Deixemos as ternas
Fadigas de Amor.

Cantemos o Here, que j no bero
    As Serpes despedaa;
Que fere os Ccos, que destronca as Hidras,
    Mais os lees que abraa.
Cantemos, se isto he pouco, a dura guerra
    Dos Trites, e Tyfos,
Que arranco as montanhas, e atrevidos
    Levo armas aos Ceos.

      Busquemos,  Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de amor.

Anima pois,  Musa, o instrumento,
    Que a voz tambem levanto;
Porm tu dste muito assima o ponto,
    Dirceo no pde tanto:
Abaixa, minha Musa, o tom, que ergueste;
    Eu j, eu j te sigo.
Mas, ah! vou a dizer _Here_, e _Guerra_,
    E s _Marilia_ digo.

        Deixemos,  Musa,
      Empreza maior,
      S posso seguir-te
      Cantando de Amor.

  Feres as cordas d'ouro? Ah! sim, agora
    Meu canto j se afina;
E a huma voz, parece que ao som dellas
    Se faz tambem divina.
O mesmo que cercou de muro a Thebas
    No canta assim to terno;
Nem pde competir comigo aquelle,
    Que desce ao negro Inferno.

        Deixemos,  Musa,
      Empreza maior,
      S posso seguir-te
      Cantando de Amor.

  Mal repito _Marilia_, as doces aves
    Mostro signaes de espanto,
Erguem os collos, volto as cabeas,
    Paro o ledo canto;
Move-se o tronco, o vento se suspende
    Pasma o gado, e no come:
Quanto podem meus versos! Quanto pde
      S de Marilia o nome!

        Deixemos,  Musa,
      Empreza maior;
      S posso seguir-te
      Cantando de Amor.




LYRA XII.


Topei hum dia
Ao Deos vendado,
Que descuidado
No tinha as settas
Na impia mo.
    Mal o conheo,
Me sbe logo
Ao rosto o fogo,
Que a raiva accende
No corao.

  _Morre, Tyranno,
Morre, inimigo_!
Mal isto digo,
Raivoso o aprto
Nos braos meus.
    Tanto que o moo
Sente apertar-se,
Para salvar-se
Tambem me aperta
Nos braos seus.

  O leve corpo
Ao ar levanto,
Ah! e com quanto
Impulso o trago
Do ar ao cho!
    Poude suster-se
A vez primeira;
Mas  terceira
Nos ps, que alarga,
Se firma em vo.

  Mal o derrubo,
Ferro aguado
No j canado
Peito, que arqueja,
Mil golpes deo.
    Suou seu corpo;
Tremo gemendo;
E  cr perdendo,
Bato as azas;
Em fim morreo.

  Qual bravo Alcides,
Que a hirsuta pelle
Vestio daquelle
Grenhoso bruto,
A quem matou.
    Para que prve
A empreza honrada,
C'o a mo manchada
Recolho as settas,
Que me deixou.

  Ouvio Marilia
Que Amor gritava,
E como estava
Vizinha ao sitio
Valer-lhe vem.
    Mas quando chega
Espavorida,
Nem j de vida
O fro monstro
Indicio tem.

  Ento Marilia,
Que o v de perto
De p cuberto,
E todo involto
No sangue seu;
    As mos aperta
No peito brando,
E afflicta dando
Hum ai, os olhos
Levanta ao Ceo.

  Chega-se a elle
Compadecida;
Lava a ferida
C'o pranto amargo,
Que deramou.
    Ento o monstro
Dando hum suspiro,
Fazendo hum gyro
C'o a baa vista,
Resuscitou.

  Respira a Deosa;
E vem o gosto
Fazer no rosto
O mesmo effeito,
Que fez a dr.
    Que louca ida
Foi a que tive!
Em quanto vive
Marilia bella,
No morre Amor.




LYRA XIII.


Oh! quantos riscos,
Marilia bella,
No atropella
Quem cgo arrasta
Grilhes de Amor!
    Hum peito forte,
De acordo falto,
Zomba do assalto
Do vil traidor.

  O amante de Hero
Da luz guiado,
C'o peito ousado
Na escura noite
Rompia o mar,
    Se o Helesponto
Se encapellava,
Ah! no deixava
De lhe ir fallar.

  Do cantor Thracio
A heroicidade
Esta verdade,
Minha Marilia,
Prova tambem.
    Cheio de esfro
Vai ao Cocyto
Buscar afflito
Seu doce bem.

  Que aco to grande
Nunca intentada!
Ao p da entrada
J tudo assusta
O corao!
    Pendentes rochas,
Campos adustos,
Que nem arbustos
Nem hervas do.

  Na funda fralda
De calvo monte,
Corre Acheronte,
Rio de ardente
Mortal licor.
    Tem o barqueiro
Testa enrugada,
Vista inflammada,
Que mete horror.

  Que seguranas!
Que fechaduras!
As portas duras
No so de lenhos;
De ferro so.
    Por tres gargantas,
Quando alguem bate,
Raivoso late
O negro co.

  Dentro da cova
Soo lamentos;
E que tormentos
No mostra aos olhos
A escassa luz!
    Minos a pena
Manda se intime
Igual ao crime,
Que alli conduz.

  Grande penedo
Este carrega;
E apenas chega
Do monte ao cume,
O faz rolar.
    A pedra sempre
Ao valle desce,
Sem que elle cesse
De a ir buscar.

  Nas limpas aguas
Habita aquelle:
Por cima delle
Verdejo ramos,
Que pomos do.
    Debalde a bocca
Molhar pertende;
De balde estende
Faminta mo.

  Tem outro o peito
Despedaado:
Monstro esfaimado
J mais descana
De lho ror.
    A rxa carne,
Que o abutre come,
No se consome,
Torna a crescer.

  Mas bem que tudo
Pavor inspira,
Tocando a lyra
Desce ao Averno
O bom Cantor.
    No se entorpece
A lingua, e brao;
No treme o passo,
No perde a cr.

  Ah! tambem quanto
Dirceo obrra,
Se precisra,
Marilia bella,
Do esforo seu!
    Rompra os mares
C'o peito terno,
Fra ao Inferno,
Subra ao Ceo.

  Aos dois amantes
De Thracia, e Abydo
No deo Cupido
Do que aos mais todos
Maior valor.
    Por seus vassallos
Foras reparte,
Como lhes parte
Os gros de Amor.




LYRA XIV.


Minha bella Marilia, tudo passa;
A sorte deste mundo he mal segura;
Se vem depois dos males a ventura,
Vem depois dos prazeres a desgraa.
    Esto os mesmos Deoses
Sujeitos ao poder do impio Fado:
Apollo j fugio do Ceo brilhante,
    J foi Pastor de gado.

  A devorante mo da negra Morte
Acaba de roubar o bem, que temos;
At na triste campa no podemos
Zombar do brao da inconstante sorte.
    Qual fica no sepulchro,
Que seus a vs erguro, descanando:
Qual no campo, e lhe arranca os frios casos
    Ferro do torto arado.

  Ah! em quanto os Destinos impiedosos
No volto contra ns a face irada,
Faamos, sim faamos, doce amada,
Os nossos breves dias mais ditosos.
    Hum corao que frouxo
A grata posse de seu bem difere,
A si, Marilia, a si proprio rouba,
    E a si proprio fere.

  Ornemos nossas testas com as flores,
E faamos de feno hum brando leito,
Prendamo-nos, Marilia, em lao estreito,
Gozemos do prazer de sos Amores.
    Sobre as nossas cabeas,
Sem que o posso deter, o tempo corre;
E para ns o tempo, que se passa,
    Tambem, Marilia, morre.

  Com os annos, Marilia, o gsto falta,
E se entorpece o corpo j canado;
Triste o velho cordeiro est deitado,
E o leve filho sempre alegre salta.
    A mesma formosura
He dote, que s goza a mocidade:
Rugo-se as faces, o cabello alveja,
    Mal chega a longa idade.

  Que havemos d'esperar, Marilia bella?
Que vo passando os florecentes dias?
As glorias, que vem tarde, j vem frias;
E pde em fim mudar-se a nossa estrella.
    Ah! no, minha Marilia,
Aproveite-se o tempo, antes que faa
O estrago de roubar ao corpo as foras,
    E ao semblante a graa.




LYRA XV.


A minha bella Marilia
Tem de seu hum bom thesouro,
No he, doce Alceo, formado
    Do buscado
    Metal louro.
He feito de huns alvos dentes,
He feito de huns olhos bellos,
De humas faces graciosas,
De crespos, finos cabellos;
E de outras graas maiores,
Que a natureza lhe do:
Bens, que valem sobre a terra,
E que tem valor no Ceo.

  Eu posso romper os montes,
Dar s correntes desvios,
Pr cercados espaosos
    Nos caudosos
    Turvos rios.
Posso emendar a ventura
Ganhando astuto a riqueza;
Mas, ah! charo Alceo, quem pde
Ganhar huma s belleza
Das bellezas, que Marilia
No seu thesouro meto?
Bens, que valem sobre a terra,
E que tem valor no Ceo.

  Da sorte, que vive o rico
Entre o fausto alegremente,
Vive o guardador de gado
    Apoucado,
    Mas contente.
Beije pois torpe avarento
As arcas de barras chas:
Eu no beijo os vs thesouros;
Beijo as douradas cadas,
Beijo as settas, beijo as armas
Com que o cego Amor venco:
Bens, que valem sobre a terra,
E que tem valor no Ceo.

  Ama Apollo o fero Marte,
Ama, Alceo, o mesmo Jove:
No he, no, a v riqueza,
    Sim belleza,
    Quem os move.
Posto ao lado de Marilia
Mais que mortal me contemplo:
Deixo os bens, que aos homens cego,
Sigo dos Deoses o exemplo:
Amo virtudes, e dotes;
Amo em fim, prezado Alceo,
Bens, que valem sobre a terra,
E que tem valor no Ceo.




LYRA XVI.


Eu, Glauceste, no duvido
Ser a tua Eulina amada
    Pastora formosa,
    Pastora engraada.
Vejo a sua cr de rosa,
Vejo o seu olhar divino,
Vejo os seus purpreos beios,
Vejo o peito crystallino;
Nem ha cousa, que assemelhe
Ao crespo cabello louro.
Ah! que a tua Eulina vale,
Vale hum immenso thesouro!

  Ella vence muito, e muito
 laranjeira copada,
    Estando de flores,
    E frutos ornada.
He, Glauceste, os teus Amores;
E nem por outra Pastora,
Que menos dotes tivera,
Ou que menos bella fra,
O meu Glauceste canra
As divinas cordas de ouro.
Ah! que a tua Eulina vale,
Val hum immenso thesouro!

  Sim, Eulina he huma Deosa;
Mas anma a formosura
    De huma alma de fra,
    Ou inda mais dura.
Ah! quando Alceo pondra
Que o seu Glauceste suspira,
Perde, perde o soffrimento,
E qual enfermo delira!
Tenha embora brancas faces,
Meigos olhos, fios de ouro,
A tua Eulina no vale,
No vale immenso thesouro.

  O fuzil, que imita a cobra,
Tambem aos olhos he bello;
    Mas quando aluma,
    Tu tremes de velo.
Que importa se mostre cha
De mil bellezas a ingrata?
No se julga formosura
A formosura, que mata.
Evita, Glauceste, evita
O teu estrago, e desdouro;
A tua Eulina no vale,
No vale immenso thesouro.

  A minha Marilia quanto
 natureza no deve!
    Tem divino rosto,
    E tem mos de neve.
Se mostro na face o gsto,
Ri-se Marilia contente:
Se canto, canta comigo;
E apenas triste me sente,
Limpa os olhos com as tranas
Do fino cabello louro.
A minha Marilia vale,
Vale hum immenso thesouro.




LYRA XVII.


Minha Marilia,
Tu enfadada?
Que mo ousada
Perturbar pde
A paz sagrada
Do peito teu?

  Porm que muito
Que irado esteja
O teu semblante
Tambem troveja
O Claro Ceo.

  Eu sei, Marilia,
Que outra Pastora
A toda a hora,
Em toda a parte,
Cga namora
Ao teu Pastor.

  Ha sempre fumo
Aonde ha fogo;
Assim, Marilia,
Ha zelos, logo
Que existe amor.

  Olha, Marilia,
Na fonte pura
A tua alvura,
A tua bocca,
E a compostura
Das mais feies.
  Quem tem teu rosto,
Ah! no receia,
Que terno amante
Solte a cadeia,
Quebre os grilhes.

  No anda Laura
Nestas campinas
Sem as boninas
No seu cabello,
Sem pelles finas
No seu jubo.

  Porm que importa?
O rico aceio
No d, Marilia,
Ao rosto feio
A perfeio.




LYRA XVIII.


No ves aquelle velho respeitavel,
    Que  moleta encostado,
Apenas mal se move, e mal se arrasta?
Oh quanto estrago no lhe fez o tempo?
    O tempo arrebatado,
    Que o mesmo bronze gasta.

Enrugro-se as faces, e perdro
    Seus olhos a viveza;
Voltou-se o seu cabello em branca neve:
J lhe treme a cabea, a mo, o queixo;
    Nem tem huma belleza
    Das bellezas que teve.

  Assim tambem serei, minha Marilia
    Daqui a poucos annos;
Que o impio tempo para todos corre.
Os dentes cahir, e os meus cabellos.
    Ah! sentirei os damnos,
    Que evita s quem morre.

  Mas sempre passarei huma velhice
    Muito menos penoza.
No trarei a moleta carregada:
Descanarei o j vergado corpo
    Na tua mo piedoza,
    Na tua mo nevada.

  As frias tardes em que negra nuvem
    Os chuveiros no lance,
Irei comtigo ao prado florescente:
Aqui me buscars hum sitio ameno,
    Onde os membros descance,
    E ao brando Sol me aquente.

  Apenas me sentar, ento movendo
    Os olhos por aquella
Vistoza parte, que ficar fronteira;
Apontando direi: _Alli fallmos,
    Alli,  minha bella,
    Te vi a vez primeira_.

  Verter os meus olhos duas fontes,
    Nascidas de alegria:
Faro teus olhos ternos outro tanto:
Ento darei, Marilia, frios beijos,
    Na mo formosa, e pia,
    Que me limpar o pranto.

  Assim ir, Marilia, docemente
    Meu corpo supportando
Do tempo deshumano a dura guerra.
Contente morrerei, por ser Marilia
    Quem sentida chorando,
    Meus baos olhos cerra.




LYRA XIX.


Em quanto pasta alegre o manso gado,
Minha bella Marilia, nos sentemos
 sombra deste cedro levantado.
    Hum pouco meditemos
    Na regular belleza,
Que em tudo quanto vive, nos descobre
    A sabia Natureza.

  Attende, como aquella vaca preta
O novilhino seu dos mais separa,
E o lambe, em quanto chupa a liza teta.
    Attende mais,  chara,
    Como a ruiva cadella
Supporta que lhe morda o filho o corpo;
    E salte em cima della.

  Repara, como cheia de ternura
Entre as azas ao filho essa ave aquenta:
Como aquella esgravata a terra dura,
    E os seus assim sustenta;
    Como se encoleriza,
E salta sem receio a todo o vulto,
    Que junto delles piza.

  Que gosto no ter a esposa amante
Quando der ao filhinho o peito brando,
E reflectir ento no seu semblante!
    Quando, Marilia, quando
    Disser comigo: _he esta
De teu querido pai a mesma barba,
    A mesma bocca, e testa_.

  Que gosto no ter a mi, que toca,
Quando o tem nos seus braos, c'o dedinho
Nas faces graciosas, e na bocca
    Do innocente filhinho!
    Quando, Marilia bella,
O tenro infante j com risos mudos
    Comea a conhec-la!

  Que prazer no tero os pais ao verem
Com as mis hum dos filhos abraados;
Jogar outros a luta, outros correrem
    Nos cordeiros montados!
    Que estado de ventura!
Que at naquillo, que de pezo serve,
    Inspira Amor doura.




LYRA XX.


Em huma frondosa
Roseira se abria
Hum negro boto.
Marilia adorada
O p lhe torcia
Com a branca mo.

  Nas folhas viosas
 abelha inraivada
O corpo escondo.
Tocou-lhe Marilia,
Na mo descuidada
A fera mordo.

  A penas lhe morde,
Marilia gritando,
C'o dedo fugio.
Amor, que nos bosques
Estava brincando,
Aos ais acudio.

  Mal vio a rotura,
E o sangue espargido,
Que a Deoza mostrou;
Rizonho beijando
O dedo offendido,
Assim lhe fallou.

  _Se tu for to pouco
O pranto desatas,
Ah! d-me attena;
E como daquelle,
Que feres, e matas,
Na tens compaixa_?




LYRA XXI.


No sei, Marilia, que tenho,
Depois que vi o teu rosto;
Pois quanto no he Marilia,
J no posso ver com gosto.
    Noutra idade me alegrava,
At quando conversava
Com o mais rude vaqueiro:
Hoje,  bella, me aborrece
Inda o trato lizongeiro
Do mais discreto pastor.
Que effeitos so os que sinto!
Sero effeitos de amor?

  Sio da minha cabana
Sem reparar no que fao;
Busco o sitio aonde moras,
Suspendo defronte o passo.
    Fito os olhos na janella,
Aonde, Marilia bella,
Tu chegas ao fim do dia;
Se alguem passa, e te sada,
Bem que seja cortezia,
Se accende na face a cr.
Que effeitos so os que sinto!
Sero effeitos de Amor?

  Se estou, Marilia, comtigo,
No tenho hum leve cuidado;
Nem me lembra, se so horas
De levar  fonte o gado.

  Se vivo de ti distante,
Ao minuto, ao breve instante,
Finge hum dia o meu desgosto:
J mais, Pastora, te vejo
Que em teu semblante composto
No veja graa maior.
Que effeitos so os que sinto!
Sero effeitos de Amor?

  Aonde j com o juizo;
Marilia, to perturbado,
Que no mesmo aberto sulco
Metto de novo o arado.
  Aqui no cento pgo,
Noutra parte em vo o cgo:
Se alguem comigo conversa,
Ou no respondo, ou respondo
Noutra coiza to diversa,
Que nexo to tem menor.
Que effeitos so os que sinto!
Sero effeitos de Amor?

  Se geme o bufo agoureiro
S Marilia me desvella:
Enche-se o peito de magoa,
E no sei a causa della.
    Mal durmo, Marilia, sonho,
Que fro leo medonho
Te devora nos meus braos:
Gella-se o sangue nas veias.
E slto do somno os laos
 fora da immensa dor.
Ah! que os effeitos que sinto
S so effeitos de Amor.




LYRA XXII.


Muito embora, Marilia, muito embora
Outra belleza, que no seja a tua,
Com a vermelha roda, a seis puxada,
    Faa tremer a rua.

  As paredes da salla aonde habita
Adorne a seda, e o trem dourado;
Pendo largas cortinas, penda o lustre
    Do tto apainelado.

  Tu no habitars Palacios grandes,
Nem andars nos coches voadores;
Porm ters hum Vate, que te preze,
    Que cance os teus louvores.

  O tempo no respeita a formosura;
E da palida morte a mo tyranna
Arraza os edificios dos Augustos,
    E arraza a vil choupana.

  Que bellezas, Marilia, florecero
De quem nem se quer temos a memoria?
S podem conservar hum nome eterno
    Os versos, ou a historia.

  Se no houvesse Tasso, nem Petrarcha,
Por mais que qualquer dellas fosse linda,
J no sabia o mundo, se existiro
    Nem Laura, nem Clorinda.

  He melhor, minha bella, ser lembrada
Por quantos ho de vir sabios humanos,
Que ter urcos, ter coches, e thesouros,
    Que morrem com os annos.




LYRA XXIII.


N'um sitio ameno
Cheio de rosas,
De brancos lyrios,
Murtas viosas;

  Dos seus amores
Na companhia
Dirceo passava
Alegre o dia.

  Em tom de graa,
Ao terno amante
Manda Marilia
Que toque, e cante.

  Pga na lyra,
Sem que a tempere,
A voz levanta,
E as cordas fere.

  C'os doces pontos
A mo atina,
E a voz iguala
A voz divina.

  Ella, que teve
De rir-se a ida,
Nem move os olhos
De assombro cha.

  Ento Cupido
Apparecendo,
 bella falla
Assim dizendo:

  _Do teu amado
A lyra fias,
S porque delle
Zombando rias_?

  _Quando n'um peito
Assento fao,
Do peito subo
 lingoa, e brao_.

  _Nem creias que outro
Estylo tome,
Sendo eu o mestre,
A aco teu nome_.




LYRA XXIV.


Encheo, minha Marilia, o grande Jove
De immensos animaes de toda a especie
    As terras, mais os ares,
O grande espao dos salobros rios,
    Dos negros, fundos mares.
    Para sua defeza,
A todos do as armas, que convinha;
     sabia Natureza.

  Do as azas aos passaros ligeiros;
Do ao peixe escamoso as barbatanas:
    Do veneno  serpente,
Ao membrudo Elefante a enorme tromba,
    E ao Javali o dente.
    Coube ao leo a garra:
Com leve p saltando o servo foge;
    E o bravo touro marra.

  Ao homem do as armas do discurso
Que valem muito mais que as outras armas:
    Do-lhe dedos ligeiros,
Que podem converter em seu servio
    Os ferros, e os madeiros;
    Que tecem fortes laos,
E forjo raios com que aos brutos corto
    Os vos, mais os passos.

  s timidas donzellas pertencero
Outras armas, que tem dobrada fora:
    Do-lhes a Natureza
Alm do entendimento, alm dos braos
    As armas da belleza.
    S ella ao Ceo se atreve,
S ella mudar pde o gello em fogo,
    Mudar o fogo em neve.

  Eu vejo, eu vejo ser a formosura
Quem arrancou da mo de Coriolano
    A cortadora espada.
Vejo que foi de Helena o lindo rosto
    Quem pz em campo armada
    Toda a fora de Grecia.
E quem tirou o Sceptro aos Reis de Roma,
    S foi, s foi Lucrecia.

  Se podem lindos rostos, mal suspiro,
O brao desarmar do mesmo Achilles;
    Se estes rostos irados
Podem soprar o fogo da descordia
    Em pvos alliados;
    Hes arbitra da terra;
Tu pdes dar, Marilia, a todo o mundo
    A paz, e a dura guerra.




LYRA XXV.


O cego Cupido hum dia
Com os seus Genios fallava,
Do modo que lhe restava
De captivar a Dirceo.
    Depois de larga disputa,
Hum dos Genios mais sagazes
Este conselho lhe do:

  As settas mais aguadas,
Como se em roxa batessem,
Do nos seus peitos, e descem
Todas quebradas ao cho.
    S as graas de Marilia
Podem vencer hum to duro,
To izento corao.

  A fortuna desta empreza
Consiste em armar-se o lao,
Sem que sinta ser o brao,
Que lho prepara, de Amor.
    Que elle vive como as aves,
Que j deixro as pennas
No visco do Caador.

  Na fora deste conselho
O raivoso Deos socega,
E  tropa a honra entrega
De o fazer executar.
Todos pertendem ganh-la,
Batem as azas ligeiros,
E vo as armas buscar.

  Os primeiros se occultro
Da Deosa nos olhos bellos;
Qual se enlaou nos cabellos;
Qual s faces se prendo.
    Hum amorinho cansado
Cahio dos labios ao seio,
E nos peitos se escondo.

  Outro Genio mais astuto
Este novo ardil alcana,
Muda-se n'uma criana
De divino parecer.
    Esconde as azas, e a venda;
Esconde as settas, e quanto
Pde d-lo a conhecer.

  Ella que v hum menino
Todo de graas cuberto,
To risonho, e to esperto
Alli szinho brincar.
    A elle endireita os passos;
Finge Amor ter medo, e a Deosa
Mais se empenha em lhe pegar.

  Ella corria chamando;
Elle fugia, e chorava:
Assim foro onde estava
O descuidado Pastor.
    Este, mal vio a belleza,
E o gentil menino, entende
A malicia do traidor.

  Pe as mos sobre os ouvidos,
Cerra os olhos, e constante
No quer ver o seu semblante,
No o quer ouvir fallar.
    Qual Ulysses n'outra idade
Para illudir as Seras
Mandou tambores tocar.

  Cupido, que a empreza via,
Julga o intento frustrado,
E de raiva transportado
O corpo no cho lanou.
    Traou a lingoa nos dentes;
Metto as unas no rosto,
E os cabellos arrancou.

  O Genio, que se escondia
Entre os peitos da Pastora,
Erguo a cabea fra,
E o successo conheco.
    Deixa o socego em que estava,
E vai ligeiro metter-se
No peito do bom Dirceo.

  Apenas c'o brando peito
Lhe tocou a neve fria,
Com o calor que trazia
Lhe abrazou o corao.
    D o Pastor hum suspiro,
Abre os seus olhos, e slta
Do apertado ouvido a mo.

  Logo que viro os Genios
Ao triste Pastor disposto
Para ver o lindo rosto,
Para as palavras ouvir.
    Cada hum as armas toma,
Cada hum com ellas busca
Seu terno peito ferir.

  Com os cabellos da Deosa
Lhe frma hum Cupido laos,
Que lhe seguro os braos,
Como se fossem grilhes.
    O Pastor j no resiste;
Antes beija satisfeito
As suas doces prizes.




LYRA XXVI.


O destro Cupido hum dia
Extrahio mimosas cores
De frescos lyros, e rosas,
De jasmins, e de outras flores.

  Com as mais delgadas pennas
Usa de huma, e de outra tinta,
E nos angulos do cobre
A quatro bellezas pinta.

Por fazer pensar a todos
No seu lizo centro escreve
Hum letreiro, que pergunta:
_Este espao a quem se deve_?

  Venus, que vio a pintura,
E lo a letra engenhosa,
Pz por baixo: _Eu delle cedo;
D-se a Marilia formosa_.




LYRA XXVII.


Alexandre, Marilia, qual o rio
Que engrossando no Inverno tudo arraza;
    Na frente das cohortes
    Crca, vence, abraza
    As Cidades mais fortes.
Foi na gloria das armas o primeiro,
Morro na flor dos annos, e j tinha
    Vencido o mundo inteiro.

  Mas este bom Soldado, cujo nome
No ha poder algum, que no abata,
    Foi, Marilia, smente
    Hum ditozo pirata,
    Hum salteador valente.
Se no tem huma fama baixa, e escura;
Foi por se pr ao lado da injustia
    A insolente ventura.

  O grande Cesar, cujo nome va,
 sua mesma Patria a f quebranta;
    Na mo a espada toma,
    Opprime-lhe a garganta,
    D Senhores a Roma.
Consegue ser here por hum delicto;
Se acaso no vencesse ento seria
    Hum vil traidor proscripto.

  O ser here, Marilia, no consiste
Em queimar os Imperios: move a guerra,
    Espalha o sangue humano,
    E despovoa a terra
    Tambem o mo tyranno.
Consiste o ser here em viver justo:
E tanto pde ser here o pobre,
    Como o maior Augusto.

  Eu he que sou here, Marilia bella,
Seguindo da virtude a honroza estrada.
    Ganhei, ganhei hum throno.
    Ah! no manchei a espada,
    No a roubei ao dono.
Ergui-o no teu peito, e nos teus braos:
E valem muito mais que o mundo inteiro
    Huns to ditosos laos.

  Aos barbaros, injustos vencedores
Atormento remorsos, e cuidados;
    Nem descano seguros
    Nos Palacios cercados
    De tropa, e de altos muros.
E a quantos nos no mostra a sabia historia
A quem mudou o fado em negro opprobrio
    A mal ganhada gloria?

  Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo
Nos braos do descano, e mais do gosto:
    Quando estou acordado,
    Contemplo no teu rosto
    De graas adornado;
Se durmo logo sonho, e alli te vejo.
Ah! nem desperto, nem dormindo sbe
    A mais o meu desejo.




LYRA XXVIII.


Cupido tirando
Dos hombros a aljava,
N'um campo de flores
Contente brincava.

  E o corpo tenrinho
Depois enfadado,
Incauto reclina
Na relva do prado.

  Marilia formosa,
Que ao Deos conhecia,
Occulta espreitava
Quanto elle fazia.

  Mal julga que dorme
Se chega contente,
As armas lhe furta,
E o Deos a no sente.

  Os Faunos, mal viro
As armas roubadas,
Sahiro das grutas
Soltando rizadas.

  Acorda Cupido,
E a causa sabendo,
A quantos o insulto
Responde, dizendo:

  _Temieis as settas
Nas minhas mos cruas?
Vereis o que podem
Agora nas suas_.




LYRA XXIX.


O tyranno Amor risonho
Me apparece, e me convida
Para que seu jugo acceite;
E quer que eu passe em deleite
O resto da triste vida.

  _O sonoro Anacreonte_
(Astuto  o moo dizia)
_J perto da morte estava,
Inda de amores cantava;
Por isso alegre vivia_.

  _Aos negros, duros pezares
No resiste hum peito fraco,
Se Amor o no fortalece:
O mesmo Jove carece
De Cupido, e mais de Baccho_.

  Eu lhe respondo: _Perjuro
Nada creio ao que dizes;
Porque j te fui sujeito,
Inda conservo no peito
Estas frescas cicatrizes_.

  Amor, vendo que da offerta
Algum apreo no fao,
Me diz affoito que trate
De ir com elle a combate
Peito a peito, brao a brao.

  Vou buscar as minhas armas;
Cinjo primeiro que tudo
O brilhante arnz, e  pressa
Ponho hum elmo na cabea,
Tomo a lana, e o grosso escudo.

  Mal no Campo me apresento,
Marilia (oh Ceos!) me apparece:
Logo os olhos me fita,
O meu corao palpita,
A minha mo desfallece.

  Ento me diz o tyranno:
_Confessa louco o teu erro;
Contra as armas da belleza
No vale a externa defeza.
Dessa armadura de ferro_.




LYRA XXX.


Junto a huma clara fonte
A mi de Amor se sentou:
Encostou na mo o rosto,
No leve somno pegou.

  Cupido, que a vio de longe,
Contente ao lugar corro;
Cuidando que era Marilia
Na face hum beijo lhe do.

  Acorda Venus irada:
Amor a conhece; e ento
Da ousadia, que teve,
Assim lhe pede o perdo:

  _Foi facil,  Me formosa,
Foi facil o engano meu;
Que o semblante de Marilia
He todo o semblante teu_.




LYRA XXXI.


Minha Marilia,
Se tens belleza,
Da natureza
He hum favor.
Mas se aos vindouros
Teu nome passa,
He s por graa
Do Deos de amor,
Que terno inflamma
A mente, o peito
Do teu Pastor.

  Em vo se viro
Perlas mimosas,
Jasmins, e rosas
No rosto teu.
Em vo terias
Essas estrellas,
E as tranas bellas
Que o Ceo te do;
Se em doce verso
No as cantasse
O bom Dirceo.

  O voraz tempo
Ligeiro corre:
Com elle morre
A perfeio.
Essa, que o Egypto
Sbia modera,
De Marco impera
No corao;
Mas j Octavio
No sente a fora
Do seu grilho.

  Ah! vem,  bella,
E o teu querido
Ao Deos Cupido
Louvores dar;
Pois faz que todos
Com igual sorte
Do tempo, e morte
Posso zombar:
Tu por formosa,
E elle, Marilia,
Por te cantar.

  Mas ai! Marilia,
Que de hum amante,
Por mais que cante,
Gloria no vem!
Amor se pinta
Menino, e cego:
No doce emprgo
Do charo bem
No v defeitos,
E augmenta, quantas
Bellezas tem.

  Nenhum dos Vates,
Em teu conceito,
Nutrio no peito
Nescia paixo?
Todas aquellas,
Que vs cantadas,
Foro dotadas
De perfeio?
Foro queridas;
Porm formosas
Talvez que no.

  Porm que importa
No valha nada
Seres cantada
Do teu Dirceo?
Tu tens, Marilia,
Cantor celeste;
O meu Glauceste
A voz ergueo;
Ir teu nome
Aos fins da Terra,
E ao mesmo Ceo.

  Quando nas azas
Do leve vento
Ao Firmamento
Teu nome for:
Mostrando Jove
Graa extremosa,
Mudando a Esposa
De inveja a cr;
De todos ha-de,
Voltando o rosto,
Sorrir-se Amor.

  Ah! no se manche
Teu brando peito
Do vil defeito
Da ingratido:
Os versos beija,
Gentil Pastora,
A penna adora,
Respeita a mo,
A mo discreta,
Que te segura
A durao.




LYRA XXXII.


N'uma noite socegado
Velhos papeis revolvia,
E por ver de que tratavo
Hum por hum a todos lia.

  Ero copias emendadas
De quantos versos melhores
Eu compuz na tenra idade
A meus diversos amores.

  Aqui leio justas queixas
Contra a ventura formadas,
Leio excessos mal acceitos,
Doces promessas quebradas.

  Vendo sem razes tamanhas
Eu exclamo transportado:
_Que finezas to mal feitas!
Que tempo to mal passado_!

  Junto pois n'hum grande monte
Os soltos papeis, e logo,
Porque reliquias no fiquem,
Os intento pr no fogo.

  Ento vejo que o Deos cego
Com semblante carregado
Assim me falla, e crimina
O meu intento acertado.

  _Queres queimar esses versos?
Dize, Pastor attrevido,
Essas Lyras no te foro
Inspiradas por Cupido_?

  _Achas que de taes amores
No deve existir memoria?
Sepultando esses triunfos,
No roubas a minha gloria_?

  Disse Amor; e mal se calla,
Nos seus hombros a mo pondo,
Com hum semblante sereno
Assim  queixa respondo:

  _Depois, Amor, de me dares
A minha Marilia bella,
Devo guardar humas Lyras,
Que no so em honra della_?

  _E que importa, Amor, que importa
Que a estes papeis destrua;
Se he tua esta ma; que os rasga,
Se a chamma, que os queima, he tua_?

  Apenas Amor me escuta
Manda que os lance nas brazas;
E ergue a chamma c'o vento,
Que formou batendo as azas.




LYRA XXXIII.


Pga na lyra sonora,
Pga meu charo Glauceste;
E ferindo as cordas de ouro,
Mostra aos rusticos Pastores
A formosura celeste
De Marilia, meus amores.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cpia
    Se affaste della.

  Que concurso, meu Glauceste,
Que concurso to ditoso!
Tu s digno de cantares
O seu semblante divino;
E o teu canto sonoroso
Tambem do seu rosto he dino.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cpia
    Se affaste della.

  Para pintares ao vivo
As suas faces mimosas,
A discreta Natureza
Que providencia no teve!
Creou no jardim as rosas,
Fez o lyro, e fez a neve.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cpia
    Se affaste della.

  A pintar as negras tranas
Peo que mais te desvelles:
Pinta chusmas de amorinhos
Pelos seus fios trepando;
Huns tecendo cordas delles,
Outros com elles brincando.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cpia
    Se affaste della.

  Para pintares, Glauceste,
Os seus beios graciosos,
Entre as flores tens o cravo,
Entre as pedras a granada;
E para os olhos formosos,
A estrella da madrugada.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cpia
    Se affaste della.

  Mal retratares do rosto
Quanto julgares preciso,
No ds a cpia por feita;
Passa a outros dotes, passa,
Pinta da vista, e do riso
A modestia, mais a graa.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cpia
    Se affaste della.

  Pinta o garbo de seu rosto
Com expresses delicadas;
Os seus ps, quando passeo,
Pizando ternos amores;
E as mesmas plantas calcadas
Brotando viosas flores.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cpia
    Se affaste della.

  Pinta mais, prezado amigo,
Hum terno amante beijando
Suas douradas cadeias;
E em doce pranto desfeito,
Ao monte, e valle ensinando
O nome, que tem no peito.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cpia
    Se affaste della.

  Nem suspendas o teu canto,
Inda que, Pastor, se veja
Que a minha bocca suspira,
Que se banha em pranto o rosto;
Que os outros choro de inveja,
E chora Dirceo de gosto.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cpia
    Se affaste della.


FIM DA 1.^a PARTE.




MARILIA DE DIRCEO.

POR T.A.G.


SEGUNDA PARTE.


LISBOA: 1824.

Na Typ. de J.F.M. de Campos.




MARILIA DE DIRCEO




LYRA I.


J no cnjo de loiro a minha testa,
Nem sonoras Canes o Deos me inspira:
    Ah! que nem me resta
    Huma j quebrada,
    Mal sonora Lyra!

Mas neste mesmo estado em que me vejo,
Pede, Marilia, Amor que v cantar-te:
    Cumpro o seu desejo;
    E ao que resta supra
    A paixo, e a arte.

A fumaa, Marilia, da canda,
Que a molhada parede ou uja, ou pinta;
    Bem que tosca, e fa,
    Agora me pde
    Ministrar a tinta.

Aos mais preparos o discurso apronta:
Elle me diz, que faa no p de huma
    M laranja ponta,
    E delle me sirva
    Em lugar de pluma.

Perder as uteis horas no, no devo
Vers, Marilia, huma ida nova:
    Sim, eu j te escrevo,
    Do que esta alma dita
    Quanto amor approva.

Quem vive no regao da ventura,
Nada obra em te adorar, que assombro faa:
    Mostra mais ternura
    Quem te estima, e morre
    Nas mos da desgraa.

Nesta cruel masmorra tenebrosa
Ainda vendo estou teus olhos bellos,
    A testa formosa,
    Os dentes nevados,
    Os negros cabellos.

Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda
A chusma dos Cupidos, que pendentes
    Dessa bcca linda,
    Nos ares espalho
    Suspiros ardentes.

Se alguem me perguntar onde eu te vejo,
Responderei--no peito--que huns Amores
    De casto desejo
    Aqui te pintro,
    E so bons Pintores.

Mal meus olhos te viro, ah! nessa hora
Teu Retrato fizero, e to forte,
    Que entendo, que agora
    S pde apagallo
    O pulso da Morte.

Isto escrevia, quando,  Cos, que pejo!
Descubro a lr-me os versos o Deos loiro.
    Ah! d-lhes hum beijo,
    E diz-me que valem
    Mais que letras de oiro.




LYRA II.


Esprema a vil calumnia muito embora
Entre as mos denegridas, e insolentes
    Os venenos das plantas,
    E das bravas serpentes.

Chovo raios e raios, no meu rosto
No has-de ver, Marilia, o modo escrito;
    O medo perturbado,
    Que infunde o vil delicto.

Pdem muito conheo, pdem muito,
As Furias infernaes, que Pluto move;
    Mas pde mais que todas
    Hum dedo s de Jove.

Este Deos converto em flor mimosa;
A quem seu nome dero, a Narciso,
    Fz d' muitos os Astros,
    Qu' inda no Ceo diviso.

Elle pde livrar-me das injurias
Do nescio, do atrevido ingrato povo;
    Em nova flor mudar me,
    Mudar-me em Astro novo.

Porm se os justos Cos por fins occultos
Em to tyranno mal me no soccorrem,
    Vers ento, que os sabios,
    Bem como vivem, morrem.

Eu tenho hum corao maior que o mundo.
Tu, formosa Marilia, bem o sabes:
    Hum corao, e basta,
    Onde tu mesma cabes.




LYRA III.


Succede, Marilia bella,
 medonha noite o dia:
A estao chuvosa e fria,
 quente secca estao.
    Muda-se a sorte dos tempos;
    S a rainha sorte no?

Os troncos, nas Primaveras,
Broto em flores viosos;
Nos Invernos escabrosos
Largo as folhas no cho.
    Muda-se a sorte dos troncos;
    S a minha sorte no?

Aos brutos, Marilia, corto
Armadas redes os passos;
Rompem depois os seus laos,
Fogem da dura priso.
    Muda-se a sorte dos brutos;
    S a minha sorte no?

Nenhum dos homens conserva
Alegre sempre o seu rosto;
Depois das penas vem gosto,
Depois do gosto afflico.
    Muda-se a sorte dos homens;
    S a minha sorte no?

Aos altos Deoses movro
Soberbos Gigantes guerra;
No mais tempo o Ceo, e a Terra
Lhes tributa adorao.
    Muda-se a sorte dos Deoses;
    S a minha sorte no?

Hade, Marilia, mudar-se
Do destino a inclemencia:
Tenho por mim a innocencia,
Tenho por mim a razo.
    Muda-se a sorte de tudo;
    S a minha sorte no?

O tempo,  bella, que gasta
Os troncos, pedras, e o cobre,
O vo rompe, com que encobre
 verdade a vil traio.
    Muda-se a sorte de tudo;
    S a minha sorte no?

Qual eu sou ver o mundo,
Mais me dar do que eu tinha,
Tornarei a ver-te minha.
Que feliz consolao!
    No ha de tudo mudar-se,
    S a minha sorte no.




LYRA IV.


J, j me vai, Marilia, branquejando
Loiro cabello, que circla a testa.
Este mesmo, que alveja, vai cahindo,
    E pouco j me resta.

As faces vo perdendo as vivas cres,
E vo-se sobre os ossos enrugando,
Vai fugindo a viveza dos meus olhos;
    Tudo se vai mudando.

Se quero levantar-me, as costas vergo;
As foras dos meus membros j se gasto,
Vou a dar pela casa huns curtos passos,
    Peso-me os ps, e arrasto.

Se algum dia me vires desta sorte,
V que assim me no pz a mo dos annos:
Os trabalhos, Marilia, os sentimentos,
    Fazem os meus danos.

Mal te vir me dar em poucos dias,
A minha mocidade o doce gosto;
Vers burnir-se a pelle, o corpo encher-se,
    Voltar a cr ao rosto.

No calmoso Vero as plantas secco,
Na Primavera, que aos mortaes encanta,
Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho,
    Verdeja logo a planta.

A doena deforma a quem padece;
Mas logo que a doena fez seu termo,
Torna, Marilia, a ser quem era d'antes,
    O definhado enfermo.

Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta,
No meio da desgraa, que me altera:
Eu tambem te supponho qual saude,
    Ou qual a Primavera.

Se do esses teus meigos, vivos olhos
Aos mesmos Astros luz, e vida s flores;
Que effeitos no faro, em quem por elles
    Sempre morro de amores?




LYRA V.


Os mares, minha bella, no se movem;
O brando Norte assopra, nem diviso
Huma nuvem sequer na Esfera toda,
O destro Nauta aqui no he preciso;
Eu s conduzo a no, eu s modro
    Do seu governo a roda.

Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla,
Rasga-se a vla, o mastaro se parte!
Qualquer varo prudente aqui j teme
No tenho a necessaria fora, e arte.
Corra o sabio Piloto, corra, e venha
    Reger o duro leme.

Como succede  no no mar, succede
Aos homens na ventura, e na desgraa:
Basta ao feliz no ter total demencia,
Mas quem de venturoso a triste passa,
Deve entregar o leme do discurso
    Nas mos da s prudencia.

Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem;
E esta alma, em tanta pena consternada,
Nem sabe aonde possa achar conforto.
Ah, no, no tardes, vem, Marilia amada,
Toma o leme da no, mara o panno,
    Vai-a salvar no porto.

Mas ouo j de Amor as sabias vozes:
Elle me diz que soffra se no morro;
E perco ento se morro huns doces laos.
No quero j, Marilia, mais soccorro,
Oh ditoso soffrer, que lucrar pde
    A gloria dos teus braos.




LYRA VI.


De que te queixas,
Lingua importuna?
De que a Fortuna
Roubar-te queira,
O que te deu?
    Este foi sempre
    O genio seu.

Levou, Marilia,
A impia sorte
Catoens  morte;
Nem sepultura
Lhes concedeu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

A outros muitos,
Que vs nascro,
Nem merecro,
A grandes thronos
A impia ergueu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

Espalha a cega
Sobre os humanos
Os bens, e os damnos;
E a quem se devo
Nunca escolheu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

A quanto he justo,
J mais se dobra;
Nem igual obra
C'os mesmos Deoses
Do cro Ceo.
    Este foi sempre
    O genio seu.

Sbe ao Ceo Venus
N'hum carro ufano;
E cahe Vulcano
Da pura esfera,
Em que nasceu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

Mas no me rouba,
Bem que se mude,
Honra, e virtude:
Que o mais he della,
Mas isto he meu.
    Este foi sempre
    O genio seu.




LYRA VII.


    Meu prezado Glauceste,
    Se fazes o conceito,
    Que bem que ro abrigo
A candida virtude no meu peito.
Se julgas, digo, que mereo ainda
    Da tua mo soccorro;
    Ah! vem dar-m'o agora,
    Agora sim que morro.

    No quero, que montado
    No Pegaso fogoso,
    Venhas com dura lana
Ao monstro infame traspassar raivoso.
Deixa que viva a perfida calumnia,
    E forge o meu tormento:
    Com menos, meu Glauceste,
    Com menos me contento.

    Toma a lyra doirada,
    E toca hum pouco nella:
    Levanta a vz celeste
Em parte que te escute a minha bella;
Enche todo o contorno de alegria;
    No soffras, que o desgosto
    Affogue em pranto amargo
    O seu divino rosto.

    Eu sei, eu sei, Glauceste,
    Que hum bom Cantor havia,
    Que os brutos amansava;
Que os troncos, e os penedos attrahia.
De outro destro Cantor tambem affirma;
    A sbia Antiguidade,
    Que as muralhas ergura
    De huma grande Cidade.

    Orfeo as cordas fere;
    O som delgado, e terno
    Ao Rei Pluto abranda,
E o deixa que penetre o fundo Averno.
Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste;
    Na lyra, e mais no canto:
    Podes fazer prodigios;
    Obrar ou mais, ou tanto.

    Levanta pois as vozes:
    Que mais, que mais esperas?
    Consola hum peito afflito;
Que he menos inda, que domar as fras.
Com isto me dars no meu tormento
    Hum doce lenitivo,
    Que em quanto a bella vive,
    Tambem, Glauceste, vivo.




LYRA VIII.


Eu vejo,  minha bella, aquelle Numen,
A quem o nome dero de Fortuna,
    Pega-me pelo brao,
    E com voz importuna
    Me diz que mova o passo;
Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra,
    Quanto o destino manda,
    Que ella obre sobre a terra.

Que coizas portentosas nelle encontro!
Eu vejo a pobre fundao de Roma,
    Vejo-a queimar Carthago;
    Vejo que as gentes doma;
    E vejo o seu estrago.
L florece o poder do Assyrio Povo:
    Aqui os Medos crescem
    E os perde hum brao novo.

Ento me diz a Deosa: _E que pertendes?
Todas estas Medalhas vr agora?
    Ah! no, no sejas louco!
    Espao de annos fra
    Para isto ainda pouco.
Deixo estranhos successos; vem comigo,
    Vers quanto inda deve
    Acontecer comtigo_.

Levou-me aonde estava a minha historia,
Que toda me explicou com medo, e arte.
    _Tirei-te libras de oiro_
    Me diz, _e quero dar-te
    Todo aquelle thesoiro.
No suspira por bens hum peito nobre_:
    Sevro lhe respondo.
    _Vivo affeito a ser pobre_.

Aqui me enruga a Deosa irada a testa;
E fica sem fallar hum breve espao.
    _Alegra, alegra o rosto_,
    Prosegue, _alli te fao
    Restituir o posto_.
Respondo com ar de mofa, e tom sereno.
    _Conheo-te, Fortuna,
    Posso morrer pequeno_.

_Aqui te dou_, me diz, _a tua amada_.
Ento me banho todo de alegria
    _Cuidei_, me torna a cega,
    _Que essa alma no queria
    Nem esta mesma entrega.
He esse o bem_, respondo, _que me move;
    Mas este bem he santo,
    Vem s da mo de Jove_.

Queria mais fallar; eu insoffrido
Desta maneira rompo os seus accentos:
    _Basta, Fortuna, basta;
    Estes breves momentos
    L noutras coizas gasta;
Da minha sorte nada mais contemplo_.
    E chamando Marilia
    Suspiro, e deixo o Templo.




LYRA IX.


A estas horas
Eu procurava
Os meus Amores;
Tinho-me inveja
Os mais Pastores.

A porta abria,
Inda esfregando
Os olhos bellos,
Sem flor, nem fitta
Nos seus cabellos:

Ah! que assim mesmo
Sem compostura,
He mais formosa,
Que a estrella d'alva;
Que a fresca rosa.

Mal eu a via,
Hum ar mais leve,
(Que doce effeito!)
J respirava
Meu terno peito.

Do cerco apenas
Soltava o gado,
Eu lhe amimava
Aquella ovelha
Que mais amava.

Dava-lhe sempre
No rio, e fonte,
No prado, e selva,
Agua mais clara,
Mais branda relva.

No cllo a punha,
Ento brincando
A mim a unia;
Mil coizas ternas
Aqui dizia.

Marilia vendo
Que eu s com ella
He que fallava;
Ria-se a furto,
E disfarava.

Desta maneira
Nos castos peitos,
De dia, em dia
A nossa chamma
Mais se accendia.

Ah! quantas vezes
No cho sentado,
Eu lhe lavrava
As finas rcas,
Em que fiava?

Da mesma sorte
Que  sua amada,
Que est no ninho,
Fronteiro canta
O passarinho.

Na quente ssta,
Della defronte,
Eu me entretinha
Movendo o ferro
Da sanfoninha.

Ella por dar-me
De ouvir o gosto,
Mais se chegava:
Ento vaidoso
Assim cantava:

No ha Pastora,
Que chegar possa
 minha  bella;
Nem quem me iguale
Tambem na estrella:

Se Amor concede
Que eu me recline
No branco peito,
Eu no invejo
De Jove o leito:

Orno seu peito
As ss virtudes,
Que nos namoro;
No seu semblante
As Graas moro.

Assim vivia:
Hoje em suspiros
O canto mudo:
Assim, Marilia,
Se acaba tudo.




LYRA X.


Arde o velho barril, arde a cabea,
Em honra de Joo na larga rua;
O credulo Mortal agora indaga,
    Qual seja a sorte sua?

Eu no tenho alcaxofra, que  luz chegue,
E nella orvalhe o Ceo de madrugada,
Para ver se rebento novas folhas,
    Aonde foi queimada.

Tambem no tenho hum ovo, que despeje
Dentro de hum cpo d'agua, e possa nella
Fingir Palacios grandes, altas Torres,
    E huma No  vla.

Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido
Que na boca hum bochecho d'agoa tome,
E atrz de qualquer porta attento esteja,
    At ouvir hum nome.

Que o nome, que primeiro ouvir, he esse
O nome, que ha de ter a minha amada:
Pode verdade ser, se fr mentira,
    Tambem no custa nada.

Vou tudo executar, e de repente
Ouvi dizer o nome de Filena:
Despejo logo a boca: ah! no sei como
    No morro alli de pena!

Apparece Cupido: ento soltando
Em ar de zombaria huma risada.
E que tal, me pergunta, esteve a pea?
    No foi bem pregada?

Eu j te disse, que Marilia he tua:
Tu fazes do meu dito tanta conta,
Que vais acreditar, o que te ensina
    Velha mulher j tonta.

Humilde lhe respondo: quem debaixo
Do aoite da Fortuna afflito geme,
Nas mesmas coisas, que s so brinquedos,
    Se agoiro males, teme.




LYRA XI.


Se acaso no estou no fundo Averno
Padece,  minha bella, sim padece
    O peito amante, e terno,
As afflies tyrannas, que os Preceitos
Arbtra Rhadamantho em justa pena
    Dos barbaros delictos.

As Furias infernaes, rangendo os dentes
Com a mo descarnada no me applico
    As raivosas serpentes.
Mas cerco-me outros monstros mais irados:
Mordem-me sem cessar as bravas serpes
    De mil, e mil cuidados.

Eu no gasto, Marilia, a vida toda
Em lanar o penedo da montanha;
    Ou em mover a roda.
Mas tenho ainda mais cruel tormento:
Por coisas que me affligem, roda, e gyra
    Canado pensamento.

Com retorcidas unhas agarrado
s tepidas entranhas no me come
    Hum abutre esfaimado.
Mas sinto de outro monstro a crueldade:
Devora o corao, que mal palpita,
    O abutre da saudade.

No vejo os pomos, nem as aguas vejo,
Que de mim se retiro, quando busco
    Fartar o meu desejo;
Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato,
Que lograr-te no possa, estando vendo
    Nesta alma o teu retrato.

Estou no Inferno, estou, Marilia bella;
E n'huma coisa s he mais humana
    A minha dura estrella:
Huns no podem mover do Inferno os passos;
Eu pertendo var, e var cedo
     gloria dos teus braos.




LYRA XII.


Ah, Marilia, que tormento
No tens de sentir saudosa!
No podem ver os teus olhos
A campina deleitosa,
Nem a tua mesma Alda,
Que tyrannos no proponho
 inda inquieta ida
Huma imagem de afflio.
    Mandars aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vo.

Quando levares, Marilia,
Teu ledo rebanho ao prado
Tu dirs: aqui trazia
Dirceo tambem o seu gado.
Vers os sitios ditosos
Onde, Marilia, te dava,
Doces beijos amorosos
Nos dedos da branca mo.
    Mandars aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vo.

Quando  janella sahires
Sem quereres, descuidada,
Tu vers, Marilia, a minha
E minha pobre morada.
Tu dirs ento comtigo:
Alli Dirceo esperava
Para me levar comsigo:
E alli soffreo a priso.
    Mandars aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vo.

Quando vires igualmente
Do caro Glauceste a choa,
Onde alegre se juntavo
Os pouco da escolha nossa,
Pondo os olhos na varanda
Tu dirs, de mgoa cha:
Todo o congresso alli anda,
S o meu Amado no.
    Mandars aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vo.

Quando passar pela rua
O meu companheiro honrado,
Sem que me vejas com elle
Caminhar emparelhado,
Tu dirs: no foi tyranna
Smente comigo a sorte;
Tambem cortou deshumana
A mais fiel unio.
    Mandars aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vo.

N'uma masmorra mettido
Eu no vejo imagens destas,
Imagens, que so por certo
A quem adora funestas.
Mas se existem separadas
Dos inchados rxos olhos,
Esto, que he mais, retratadas
No fundo do corao.
    Tambem mando aos surdos Deoses
    Tristes suspiros em vo.




LYRA XIII.


    Ves, Marilia, hum cordeiro
    De flores enramado,
    Como alegre caminha
    A ser sacrificado?
O Povo para o Templo j concorre:
A Pyra sacro-santa j se accende:
O Ministro o fere, elle bala, e morre.

    Vs agora o novilho,
    A quem segura o lao:
    No cho as mos especa:
    Nem quer mover hum passo:
No conhece que sahe de hum mo terreno;
Que o forte pulso, que a seguir o arrasta,
O conduz a viver n'um campo ameno.

    Ignora o bruto, como
    Lhe dispomos a sorte:
    Hum vai forado  vida,
    Vai outro alegre  morte,
Ns temos, minha bella, igual demencia:
No sabemos os fins, com que nos move
A sbia, occulta Mo da Providencia.

    De Jacob ao bom filho
    Os mos matar quizero:
    De conselho mudro,
    Como escravo o vendro:
Jos no corre a ser hum servo afflito:
Vai subindo os degros, por onde chega
A ser hum quasi Rei no grande Egypto.

    Quem sabe se o Destino
    Hoje,  bella, me prende,
    S porque nisto de outros
    Mais damnos me defende?
Pde inda raiar hum claro dia.
Mas quer raie, quer no, ao Ceo adoro;
E beijo a santa mo, que assim me guia.




LYRA XIV.


Alma digna de mil Avs Augustos!
    Tu sentes, tu soluas
    Ao ver cahir os justos;
Honras as santas leis da Humanidade:
    E aos teus exemplos deve
Gravar com letras de oiro no seu Templo
    A candida Amizade.

No he, no he de Here huma alma forte,
    Que v com rosto enchuto
    No seu igual a morte.
No he tambem de Here hum peito duro,
    Que a sua gloria firma,
Em que lhe no resiste ao ferro, e fogo,
    Nem legio, nem muro.

Oh! quanto ousado Chefe me namora,
    Quando v a cabea
    Do bom Pompeo, e chora!
He grande para mim, quem move os passos,
    E de Dario aos filhos,
Que como escravos seus tratar podra,
    Recebe nos seus braos.

Se alcana Eneas, Capito piedoso,
    Entre os Heres do Mundo
    Hum nome glorioso,
No he, porque levanta huma cidade;
    He sim, porque nos hombros
Salvou do incendio ao Pai a quem detinha
    A mo da branca idade.

Ah! se ao meu contrario entre as chmas vira;
    Eu mesmo, sim, da morte
    Aos hombros o remira:
Inda por elle muito mais obrra:
    E se nada servisse,
Fizera ento, Amigo, o que fizeste,
    Gemra, e suspirra.

Oh! quanto so duraveis as cadas
    De huma amizade, quando
    Se do iguaes idas!
Se a pezar dos estorvos se sustinha
    Nossa unio sincera,
Foi por ser a minha alma igual  tua,
    E a tua igual  minha.

Se,  caro Amigo, te merece tanto,
    L lhe fica a sua alma,
    Limpa-lhe o terno pranto.
De quem eu fallo, s tu, Marilia bella.
    Ah! sim, honrado Amigo,
Se enxugar no poderes os seus olhos;
    Pranta ento com ella.




LYRA XV.


Eu, Marilia, no fui nenhum Vaqueiro;
Fui honrado Pastor da tua Alda;
Vestia finas lns, e tinha sempre
A minha cha do preciso cha.
Tiraro-me o casal, e o manso gado,
Nem tenho a que me encoste hum s cajado.

Para ter, que te dar, he que eu queria
De mr rebanho ainda ser o dono;
Prezava o teu semblante, os teus cabellos
Ainda muito mais que hum grande Throno.
Agora que te offerte j no vejo
Alm de hum puro amor, de hum so desejo.

Se o rio levantado me causava
Levando a sementeira prejuiso,
Eu alegre ficava apenas via
Na tua breve boca hum ar de riso.
Tudo agora perdi; nem tenho o gosto
De ver-te ao menos compassivo o rosto.

Propunha-me dormir no teu regao
As quentes horas da comprida ssta,
Escrever teus louvores nos olmeiros,
Toucar-te de papoilas na floresta.
Julgou o justo Ceo, que no covinha
Que a tanto gro subisse a gloria minha.

Ah, minha bella, se a Fortuna volta,
Se o bem que j perdi alcano, e provo;
Por essas brancas mos, por essas faces
Te juro renascer hum homem novo;
Romper a nuvem que os meus olhos cerra,
Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.

Fiadas comprarei as ovelhinhas,
Que pagarei dos poucos do meu ganho;
E dentro em pouco tempo nos veremos
Senhores outra vez de hum bom rebanho.
Para o contagio lhe no dar sobeja
Que as affague Marilia, ou s que as veja.

Se no  tivermos lans, e pelles finas,
Podem mui bem cobrir as carnes nossas
As pelles dos cordeiros mal cortidas,
E os pannos feitos com as lans mais grossas.
Mas ao menos ser o teu vestido
Por mos de Amor, por minhas mos cozido.

Ns iremos pescar na quente ssta
Com canas, e com cstos os peixinhos:
Ns iremos caar nas manhs frias
Com a vara envisgada os passarinhos;
Para nos divertir faremos quanto
Reputa o varo sabio, honesto, e santo.

Nas noites de sero nos sentaremos
C'os filhos se os tivermos  fogueira;
Entre as falsas historias, que contares,
Lhes contars a minha verdadeira:
Pasmados te ouvir; eu entre tanto
Ainda o rosto banharei de pranto.

Quando passarmos juntos pela rua
Nos mostrar c'o dedo os mais Pastores,
Dizendo huns para os outros: olha os nossos
Exemplos da desgraa, e sos amores.
Contentes viviremos desta sorte,
At que chegue a hum dos dois a morte.




LYRA XVI.


Vejo, Marilia,
Que o ndeo gado
Anda disperso
No monte, e prado;
Que assim succede
Ao desgraado,
Que a perder chega
O seu Pastor.
Mas inda soffro
A viva dr.

Tambem conheo,
Que os Pegureiros,
Que apascentavo
Os meus cordeiros,
Daro suspiros
E verdadeiros;
Porque perdro
Hum pai no amor.
Mas inda soffro
A viva dr.

Eu mais alcano;
Que a minha herdade
Estando eu prezo,
Soffrer no ha-de
Nem a charrua,
E nem a grade;
Que a mo lhe falta
Do Lavrador.
Mas inda soffro
A viva dr.

Mas quando sobe
 minha ida,
Que tu ficaste
L nessa Alda.
De mil cuidados
E mgoa cheia;
Das paixes minhas
No sou senhor.
Eu j no soffro
A viva dr.

A quanto chega
A pena forte!
Peza-me a vida,
Desejo a morte,
A Jove accuso,
Maldigo a sorte,
Trato a Cupido
Por hum traidor.
Eu j no soffro
A viva dr.

Mas este excesso
Perdo merece,
E delle Jove
Se compadece;
Que Jove,  bella,
Mui bem conhece,
Aonde chega
Paixo de amor.
Eu j no soffro
A viva dr.




LYRA XVII.


    Dirceo te deixa,  bella,
    De padecer canado:
    Frio suor j banha
    Seu rosto descrado;
O sangue j no gyra pela va,
    Seus pulsos j no batem;
E a clara luz dos olhos se baca:
A lagrima sentida j lhe corre;
J pra a convulso, suspira, e morre.

    Seu espirito chega
    Onde se pune o erro:
    Late o co, e se lhe abrem
    Grossos portes de ferro.
Aos severos Juizes se apresenta;
    E com sentidas vozes
Toda a sua tragedia representa:
Enche-se de ternura, e novo espanto
O mesmo inexoravel Rhadamantho.

    Abre hum pasmado a boca,
    E a pedra no despede;
    Outro j no se lembra
    Da fome, e mais da sede:
Descana o curvo bico, e a garra impia
    Negro abutre esfaimado:
Nem a roca medonha a Parca fia,
At as mesmas Furias inclementes
Deixo cahir das unhas as serpentes.

    J voto os Juizes;
    E o Rei Pluto lhe ordena
    Deixe o sitio, em que fico
    Almas dignas de pena.
J sahe do escuro Reino, e da memoria
    Lhe passa tudo quanto
Ou pde dar-lhe mgoa, ou dar-lhe gloria.
S, bem que o gosto as turvas agoas tome,
Inda, Marilia, inda diz teu nome.

    Entra j nos Elysios
    Campinas venturosas,
    Que mansos rios corto,
    Que cobrem sempre as rosas.
Escuta o canto das sonoras aves,
    E bebe as agoas puras,
Que o mel, e de que o leite mais suaves.
Aqui, diz elle, espero a minha bella,
Aqui contente viverei com ella.

    Aqui... porm aonde
    Me leva a dr activa?
    He illuso desta alma.
    Jove inda quer que eu viva.
Eu devo sim gosar teus doces laos;
    E em paga dos meus males
Devo morrer, Marilia, nos teus braos.
Ento eu passarei ao Reino amigo;
E tu irs despois l ter comigo.




LYRA XVIII.


No mlho, Marilia,
De pranto a masmorra
Que o terno Cupido
No ve, e no corra,
A hilo apanhar.
Estende-o nas azas
Sobre elle suspira,
Por fim se retira,
E vai-to levar.

Se o moo no mente,
Aos tristes gemidos,
Aos ais lastimosos
No guardes unidos,
Marilia, c'os teus:
As lagrimas nossas
No seio amonta
Frma azas, e va,
Vai p-las nos Ceos.

A Deosa formosa,
Que amava aos Troianos,
Livra-los querendo
De riscos, e damnos
A Jove buscou.
As aguas, que o rosto
Da Deosa banhro,
A Jove abrandro,
E assim os salvou.

Confia-te,  bella,
Confia-te em Jove;
Ainda se abranda,
Ainda se move
Com ancias de amor.
O pranto de Venus,
Que obrou no Pai tanto,
No tem que o teu pranto
Apreo maior.




LYRA XIX.


    Nesta triste masmorra,
De hum semivivo corpo sepultura,
    Inda, Marilia, adoro
    A tua formosura.
Amor na minha ida te retrata,
Busca extremoso, que eu assim resista
 dr immensa, que me cerca, e mata.

    Quando em meu mal pondero,
Ento mais vivamente te diviso:
    Vejo o teu rosto, e escuto
    A tua voz, e riso.
Movo ligeiro para o vulto os passos:
Eu beijo a tibia luz em vez de face;
E aperto sobre o peito em vo os braos.

    Conheo a illuso minha;
A violencia da mgoa no supporto;
    Foge-me a vista, e caio
    No sei se vivo, ou morto.
Enternece-se Amor de estrago tanto;
Reclina-me no peito, e com mo terna
Me limpa os olhos do salgado pranto.

    Despois que represento
Por largo espao a imagem de hum defunto,
    Movo os membros, suspiro,
    E onde estou pergunto.
Conheo ento que Amor me tem comsigo;
Ergo a cabea, que inda mal sustento,
E com doente voz assim lhe digo.

    Se queres ser piedoso,
Procura o sitio em que Marilia mra,
    Pinta-lhe o meu estrago,
    E v, Amor, se chora.
Se as lagrimas verter a dr a arrasta,
Huma dellas me traze sobre as pennas,
E para allivio meu s isto basta.




LYRA XX.


E me visses com teus olhos
Nesta masmorra mettido;
De mil idas funestas,
E cuidados combatido:
Qual seria,  minha bella,
Qual seria o teu pezar?

 fora da dr cedra;
E nem estaria vivo,
Se o menino Deos vendado,
Extremoso, e compassivo,
Com o nome de Marilia
No me viesse animar.

Deixo a cama ao romper d'alva;
O meio dia tem dado,
E o cabello inda flutua
Pelas costas desgrenhado.
No tenho valor, no tenho;
Nem para de mim cuidar.

Diz-me Cupido: E Marilia;
No estima esse cabello?
Se o deixas perder de todo
No se ha de enfadar ao vllo?
Suspiro pego no pente,
Vou logo o cabello atar.

Vem hum taboleiro entrando
De varios manjares cheio,
Pe-se na meza a toalha,
E eu pensativo passeio:
De todo o comer esfria,
Sem nelle poder tocar.

Eu entendo que matar-te,
Diz Amor, te tens proposto;
Fazes bem: ter Marilia
Desgosto sobre desgosto.
Qual enfermo c'o remedio
Me afflijo, mas vou jantar.

Chego as horas Marilia,
Em que o Sol j se tem posto,
Vem-me  memoria que nellas
Via  janella o teu rosto:
Reclino na mo a face
E entro de novo a chorar.

Diz-me Cupido: J basta,
J basta, Dirceo, de pranto;
Em obsequio de Marilia
Vai erguer teu doce canto.
Pendem as fontes dos olhos,
Mas eu sempre vou cantar.

Vem o Forado accender-me
A velha uja canda;
Fica, Marilia, a masmorra
Inda mais triste, e mais fa.
Nem mais canto, nem mais posso
Huma s palavra dar.

Diz-me Cupido: So horas
De escrever-se o que est feito;
Do azeite, e da fumaa
Huma nova tinta ageito,
Tomo o po, que penna finge,
Vou as Lyras copiar.

Sem que chegue o leve sono
Canta o Gallo a vez terceira;
Eu digo ao Amor; que fico
Sem deitar-me a noite inteira:
Fao mimos, e promessas
Para elle me acompanhar.

Elle diz que em dormir cuide,
Que hei-de ver Marilia em sonho;
No respondo huma palavra,
A dura cama componho,
Apago a triste canda,
E vou-me logo deitar.

Como pde a taes cuidados
Risistir,  minha Bella,
Quem no tem de Amor a graa?
Se eu que vivo  sombra della
Inda vivo desta sorte,
Sempre triste a suspirar?




LYRA XXI.


Que diversas que so, Marilia, as horas
Que passo na masmorra immunda, e fa,
Dessas horas felizes, j passadas
    Na tua patria Alda.

Ento eu me ajuntava com Glauceste;
E  sombra de alto Cdro na Campina
Eu versos te compunha, e elle os compunha
     sua cara Eulina.

Cada qual o seu canto aos Astros leva;
De exceder hum ao outro qualquer trata
O ecco agora diz: _Marilia terna_;
    E logo: _Eulina ingrata_.

Deixo os mesmos Styros as grutas:
Hum para ns ligeiro move os passos;
Ouve-nos de mais perto, e faz a flauta
    C'os ps em mil pedaos.

Dirceo (clama hum Pastor,) ah! bem merece
Da ternissima Marilia a formosura.
E aonde, clama o outro, quer Eulina
    Achar maior ventura?

Nenhum Pastor cuidava do rebanho,
Em quanto em ns durava esta porfia.
E ella,  minha amada, s findava
    Depois de acabar-se o dia.

 noite te escrevia na cabana
Os versos, que de tarde havia feito;
Mal tos dava, e os lias, os guardavas
    No casto, e branco peito.

Beijando os dedos dessa mo formosa,
Banhados com as lagrimas do gosto,
Jurava no cantar mais outras graas
    Que as graas do teu rosto.

Ainda no quebrei o juramento.
Eu agora, Marilia, no as canto;
Mas inda vale mais que os doces versos
    A voz do triste pranto.




LYRA XXII.


Por morto, Marilia,
Aqui me reputo:
Mil vezes escuto
O som do arrastado,
E duro grilho.
Mas, ah! que no treme,
No treme de susto
O meu corao.

A chave l sa
Na porta segura:
Abre-se a escura,
Infame masmorra
Da minha prizo.
Mas, ah! que no treme;
No treme de susto
O meu corao.

Eu vejo, Marilia,
A mil innocentes
Nas Cruzes pendentes,
Por falsos delictos,
Que os homens lhes do.
Mas, ah! que no treme,
No treme de susto
O meu corao.

Se penso que posso
Perder o gozar-te
A gloria de dar-te
Abraos honestos,
E beijos na mo.
Marilia, j treme,
J treme de susto
O meu corao.

Repra, Marilia,
O quanto he mais forte
Ainda que a morte,
N'um peito esforado
De amor a paixo.
Marilia, j treme,
J treme de susto
O meu corao.




LYRA XXIII.


No praguejes, Marilia, no praguejes
A justiceira mo que lana os ferros:
No traz de balde a vingadora espada;
    Deve punir os erros.

Virtudes de Juiz, virtudes de homem
As mos se dero, e em seu peito moro.
Mando prender ao Ro austera a boca,
    Porm seus olhos choro.

Se  innocencia denigre a vil calumnia
Que culpa aquelle tem que applica a penna.
No he o Julgador, he o processo,
    E a lei quem nos condemna.

S no Averno os Juizes no recebem
Accusao, nem prova de outro humano;
Aqui todos confesso suas culpas,
    No pde haver engano.

Eu vejo as Furias affligindo aos tristes:
Huma o fogo chega, outra as serpes move;
Todos maldizem sim a sua estrella,
    Nenhum accusa a Jove.

Eu tambem inda adoro ao grande Chefe,
Bem que a prizo me d que eu no mereo.
Qual eu sou, minha bella, no me trata,
    Trata-me qual pareo.

Quem suspira, Marilia, quando pune
Ao vassallo que julga delinquente;
Que gosto no ter podendo dar-lhe
    As honras de innocente?




LYRA XXIV.


Eu vou, Marilia, vou brigar co' as feras:
Huma soltro, eu lhe sinto os passos,
    Aqui aqui a espero
    Nestes despidos braos.
He hum malhado tigre; a mim j corre,
Ao peito o aperto, estalo-lhe as costelas,
Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.

Vem agora hum Leo: sacode a grenha,
Com faminta paixo a mim se lana;
    Venha embora, que o pulso
    Ainda no se cana.
Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira,
O corpo lhe fraqua, os olhos incho,
Aoita o cho convulso, arqueja, e espira.

Mas que vejo, Marilia! tu te assustas?
Entendes que os destinos inhumanos
    Expoem a minha vida
    No crco dos Romanos?
Com ursos, e com onas eu no luto.
Luto c'o bravo monstro que me accusa;
Que os tigres, e lees mais fro, e bruto.

Embora contra mim raivoso esgrima
Da vil calumnia a cortadora espada;
    Huma alma, qual eu tenho,
    No se reca a nada.
Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia,
Pizar-lhe o negro cllo, abrir-lhe o peito
Co' as armas invenciveis da innocencia.

Ah, quando imaginar, que vingativo
Mando que desa ao Tartaro profundo
    Hei-de com mo honrada
    Erguer-lhe o corpo immundo.
Eu ento lhe direi: Infame, indno,
Obras como costuma o vil humano;
Fao o que faz hum coraao divino.




LYRA XXV.


Minha Marilia,
O passarinho,
A quem roubro
Ovos, e ninho,
Mil vezes pousa
No seu raminho,
Piando finge
Que anda a chorar.
    Mas logo va
Pela espessura,
Nem mais procura
Este lugar.

Se acaso a vacca
Perde a vitla,
Tambem nos mostra,
Que se desvla,
O pasto deixa,
Muge por ella,
At na estrada
A vem buscar.
    Em poucos dias,
Ao que parece,
Della se esquece,
E vai pastar.

O voraz Tempo,
Que o ferro come,
Que aos mesmos Reinos
Devora o nome,
Tambem, Marilia,
Tambem consome
Dentro do peito
Qualquer pezar.
    Ah s no pde
Ao meu tormento
Por hum momento
Allivio dar.

Tambem,  bella,
No ha quem viva
Instantes breves
Na chamma activa;
Derrete ao bronze
Sendo excessiva
Ao mesmo seixo
Faz estalar.
    Mas do amianto
A fbra dura
Na chamma atura
Sem se queimar.

Tambem, Marilia,
No ha quem negue,
Que bem que o fogo
Nos oleos pegue,
Que bem que em lingoas
s nuvens chegue,
 fora d'agoa
Se ha de apagar.
    Se a negra pedra
Ns accendemos,
Com agoa a vemos
Mais s'inflammar.

O meu discurso,
Marilia, he resto:
A pena iguala
Ao meu affecto.
O amor que nutro
Ao teu aspecto,
E o teu semblante
He singular.
    Ah! nem o tempo,
Nem inda a morte
A dr to forte
Pode acabar.




LYRA XXVI.


Aquelle, a quem fz cgo a Natureza,
C'o bordo apalpa, e aos que vem pergunta;
Ainda se despenha muitas vezes,
    E dois remedios junta.

De ser cga a Fortuna eu no me queixo;
Sim me queixo de que m cga seja
Cga que nem pergunta, nem apalpa,
    He porque errar deseja.

A quem gastar no sabe, nem se anima,
Entrega as grossas chaves de hum thesoiro;
E lana na miseria a quem conhece
Para que serve o oiro.

A quem fere, a quem rouba, a infame deixa
Que a traz do vicio em liberdade corra,
Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime
    N'esta vil masmorra.

Mas ah! minha Marilia, que esta queixa
Co' a slida razo se no coaduna,
Como me queixo da Fortuna tanto,
    Se sei no ha Fortuna?

Os Fados, os Destinos, essa Deosa
Que os Sbios fingem que huma roda move
He s a occulta mo da Providencia,
    A sbia mo de Jove.

Ns he que somos cegos, que no vemos;
A que fins nos conduz por estes modos;
Por torcidas estradas, ruins varedas
    Caminha ao bem de todos.

Alegre-se o perverso com as ditas;
C'o seu merecimento o virtuoso;
Parecer desgraado,  minha bella,
    He muito mais honroso.




LYRA XXVII.


A minha amada
He mais formosa
Que branco lyrio,
Dobrada rosa,
Que o cinnamomo,
Quando matiza
Co' a folha a flor.
Venus no chega
Ao meu Amor.

Vasta campina
De trigo cha,
Quando na ssta
C'o vento onda,
Ao seu cabello
Quando flutua
No he igual.
Tem a cr negra:
Mas quanto val!

Os astros, que ando
Na esfera pura,
Quando scintilo
Na noite escura,
No so humanos,
To lindos, como
Seus olhos so.
Que ao Sol excedem
Na luz que do.

s brancas faces,
Ah! no se atreve
Jasmis de Italia,
Nem inda a neve,
Quando a desata
O Sol brilhante
Com seu calr.
So neve, e causo
No peito ardr.

Na breve boca
Vejo enlaadas
As finas per'las
Com as granadas;
A par dos beios
Rubins da India
Tem preo vil.
Nelles se agarro
Amores mil.

Se no lhe dsse
Compadecido
Tanto soccorro
O Deos Cupido;
Se no vivra
Huma esperana
No peito seu;
J morto estava
O bom Dirceo.

V quanto pde
Teu bello rosto;
E de goza-lo
O vivo gosto!
Que sobmergido
Em hum tormento
Quasi infernal,
Porqu' inda espero
Resisto ao mal.




LYRA XXVIII.


    Deten-te, vil humano,
    No espremas cicutas
    Para fazer-me damno.
O umo que ellas do he pouco forte,
    Procura outras bebidas,
    Que apressem mais a morte.

    Desce ao Reino profundo,
    Ajunta ahi venenos,
    Que nunca visse o mundo;
Traze o negro licr, que tem nos dentes,
    Nos dentes retorcidos
    As raivosas serpentes.

    Cachopo levantado,
    Que pz a Natureza,
    Dentro no Mar salgado,
No se abala no meio da tormenta,
    Bem que huma onda, e outra onda
    Sobre elle em flor rebenta.

    Arvore, que na terra
    s robustas raizes,
    Buscando o centro, afferra,
No teme ao furaco mais violento;
    E menos se se deixa
    Vergar do rijo vento.

    Sou tronco, e rcha,  bella,
    Que aoita o Sul que brama,
    E o Mar, que se encapella:
No temas que do rosto a cr se mude:
    Vence as rchas, e os troncos
    A slida Virtude.

    A maior desventura
    He sempre a que nos lana
    No horror da sepultura:
O cobarde a morrer tambem caminha;
    Com que males no pde
    Huma alma como a minha?




LYRA XXIX.


Eu descubro procurar-me
Gentil mancebo, e loiro,
Trazia a testa adornada
Com folhas de verde loiro.
Vejo ser o Pai das Musas,
E me entrega a lyra d'oiro.

J basta, me diz,  filho,
J basta de sentimento;
O canado peixe exige
Hum breve contentamento.
Louva a formosa Marilia
Ao som do meu instrumento.

Firo as cordas; mas que importa?
A dr no socega em tanto.
Ergo a voz, ento reparo
Que quanto mais corre o pranto
He mais doce, e mais sonoro
Meu terno, e saudoso canto.

Apollo fitou os olhos
Na mo, que rega o brao;
E depois de estar suspenso,
De me houvir hum largo espao;
Assim diz: _o Deos Cupido
Faz inda mais do que eu fao_.

_Eu te dou a minha lyra,
Louva, louva a tua Bella;
Porm v que ta concedo
Com condio, e cautella_...
Eu lhe corto a voz, dizendo,
Que s canto em honra della.




LYRA XXX.


O pai das Musas,
O Pastor loiro
Deo-me, Marilia,
Para cantar-te
A lyra de oiro.

As cordas firo,
O brando vento
Teus dotes leva
Nas brancas azas
Ao firmamento.

O teu cabello
Vale hum thesoiro;
Hum s me adorna
A sabia frente
Melhor que o loiro.

Nesses teus olhos
Amor assiste;
Delles faz guerra;
Ninguem lhe foge;
Ninguem resiste.

Algumas vezes
Eu o diviso
To bem occulto
Nas lindas cvas,
Que faz teu riso.

Nesses teus peitos
Tem os seus ninhos
Destros Amores,
Nelles se gero
Os Cupidinhos.

Vences a Venus,
Quando com arte
As armas toma,
Porque mais prenda
Ao fero Marte.

Eu produzia
Estas idas,
Quando, Marilia;
O som escuto
Das vis cadas.

Dou hum suspiro.
Corre o meu pranto;
E inda bebendo
Lagrimas tristes,
De novo canto.

Sou da constancia
Hum vivo exemplo.
E vs,  ferros,
Honrareis inda
De Amor o Templo.




LYRA XXXI.


Roubou-me,  minha Amada, a sorte impa,
    Quanto de meu gosava
    N'um s funesto dia.

Honras de maioral, manada grossa,
    Fertil, extensa herdade,
    Bem reparada cha.

Metteo-me nesta infame sepultura,
    Que he sepulcro sem honras,
    Breve masmorra, escura.

Aqui,  minha Amada, nem consigo,
    Venha outro desgraado
    Sentir tambem comigo.

Mas se esta companhia no mereo;
    Os Deoses me do outra,
    Inda de mais apreo.

No he, no, illuso o que te digo;
    Tu mesma me acompanhas;
    Peno, mas he comtigo.

No vejo as tuas faces graciosas,
    Os teus soltos cabellos,
    As tuas mos mimosas.

Se eu as visse, infeliz me no dissera,
    Bem que subira ao Porto,
    Bem que na Cruz pendra.

No ouo as tuas vozes magoadas,
    Com ardentes suspiros
    s vezes mal formadas.

Mas vejo,  cara, as tuas letras bellas;
    Huma por hum beijo,
    E choro ento sobre ellas.

Tu me dizes que siga o meu destino;
    Que o teu amor na ausencia
    Ser leal, e fino.

De novo a carta ao corao aperto,
    De novo a molha o pranto
    Que de ternura verto.

Ah! leve muito embora o duro Fado;
    A tudo quanto tenho
    Com meu suor ganhado.

Eu juro, que do roubo nem me queixe,
    Com tanto,  minha cara,
    Que este s bem me deixe.

Que males voluntarios no subro,
    Os que te amo, smente
    Porque menos te ouvro?

D pois aos mais seus bens a Deosa cga;
    Que eu tenho aquella gloria,
    Que a mil felizes nega.




LYRA XXXII.


Se o vasto mar se encapella,
E na rcha em flor rebenta,
Grossa no, q' no tem lme,
Em vo sustentar-se intenta;
At que naufraga, e corre
 discrio da tormenta.

Quem no tem huma Belleza,
Em que ponha o seu cuidado,
Se o Ceo se cobre de nuvens,
E se assopra o vento irado,
No tem foras que resisto
Ao impulso do seu fado.

Nesta sombria masmorra,
Aonde, Marilia, vivo,
Encosto na mo o rosto,
Fico s vezes pensativo.
Ah! que imagens to funestas
Me finge o pezar activo.

Parece que vejo a honra,
Marilia, toda enlutada,
A face de hum pai rugosa,
N'um mar de pranto banhada,
Os amigos mascilentos,
E a familia consternada.

Quero voltar os meus olhos
Para outro diverso lado,
Vejo n'u  grande Praa
Hum Theatro levantado.
Vejo as Cruzes, vejo os Potros,
Vejo o Alfanje afiado.

Hum frio suor me cobre,
Lao-se os membros, suspiro,
Busco allivio s minhas ancias,
No o descubro, deliro.
J, meu Bem, j me parece,
Que nas mos da morte espiro.

Vem-me ento ao pensamento
A tua testa nevada,
Os teus meigos, vivos olhos,
A tua face rosada,
Os teus dentes crystallinos,
A tua boca engraada.

Qual, Marilia, a estrella d'alva,
Que a negra noite affugenta,
Qual o Sol, que a nevoa espalha
Apenas a terra aquenta,
Ou qual Iris, que o Ceo limpa,
Quando se v na tormenta.

Assim, Marilia, desterro
Triste illuso, e demencia;
Faz de novo o seu officio,
A razo, e a prudencia;
E firmo esperanas doces
Sobre a candida innocencia.

Restauro as foras perdidas,
Sbe a viva cr ao rosto;
Gyra o sangue pela va,
E bate o pulso composto.
V, Marilia, o quanto pde
Contra os meus males teu rosto.

FIM.




MARILIA DE DIRCEO.

POR

F.A.G.


TERCEIRA PARTE.


LISBOA:

Na Impresso Regia. Anno 1812.

_Com licena_.

_Vende-se na loja da Gazeta_.




AO LEITOR.


A geral acceitao, que a primeira, e segunda parte da Marilia de Dirceo
tem devido ao Pblico, animou ao seu Editor a dar  luz huma terceira
parte da dita Obra, a que fez juntar outras diversas Rimas do mesmo
Author, que lhe fazem honra, e que abono asss a distincta opinio que
tem adquirido naquelle genero de Poesia. Adverte o Editor, que huma
terceira parte da dita Marilia de Dirceo ha tempos publicada, he Obra de
outro engenho, o que facilmente conhecer ainda o Leitor menos
intelligente.




MARILIA DE DIRCEO.




LYRA I.


Convidou-me a vr seu Templo
  O cego Cupido hum dia;
  Encheo-se de gosto o peito,
  Fiz deste Deos hum conceito
  Como delle no fazia.

Aqui vejo descorados
  Os ternissimos amantes
  Entre as cadas gemerem;
  Vejo nas piras arderem
  As entranhas palpitantes.

_A quem ama quanto avista_,
  (Diz Cupido) _no aterra:
  Quem quer cingir o loureiro,
  Tambem vai soffrer primeiro
  Todo o trabalho da guerra_.

_Com tudo que te dilates
  Neste sitio no convenho;
  Deixa a estancia lastimosa,
  Vem vr a Salla formosa,
  Aonde o meu Solio tenho_.

Entro n'outro grande Templo:
  Que perspectiva to grata!
  Tudo quanto nelle vejo
  Passa alm do meu desejo,
  E o discurso me arrebata.

He de marmore, e de jaspe
  O soberbo frontespicio:
  He todo por dentro d'ouro,
  E a hum to rico tesouro
  Inda excede o artificio.

As janellas no se adorno
  De sedas de finas cres:
  Em lugar de cortinados
  Esto prezos, e enlaados
  Fastes de mimosas flores.

Em torno da Salla Augusta
  Ardem dourados brazeiros;
  Queimo rezinas, que estalo,
  E postas em fumo exalo
  Da Panchaya os gratos cheiros.

Ao p do Throno os seus Genios
  Alegres hymnos entoo:
  Dano as Graas formosas;
  E aqui as horas gostosas
  Em vz de correrem, vo.

Esto sobre o pavimento,
  Igualmente reclinados
  Nos collos de seus amores,
  Os grandes Reis, e Pastores
  De frescas rosas coroados.

Mal o acrdo restauro,
  (Me diz, o Moo risonho:)
  _Como ainda no reparas
  Em tantas cousas to raras,
  De que este Templo componho_?

_Sabes a historia de Jove?
  Aqui tens o manso Touro;
  Tens o Cisne decantado;
  A Velha em que foi mudado,
  Com a grossa chuva d'ouro_.

_Applica, Dirceo, agora
  Os olhos para esta parte:
  Aqui tens o verde Louro,
  Que inda estima o Pastor louro,
  E a Rede, que enlaa a Marte_.

_Vs este Arco destramente
  De branco marfim ornado?
   Casta Deosa servia,
  E o perdo quando dormia
  Do gentil Pastor ao lado_.

_Vs esta Lyra? com ella
  Tira Orpheo ao bem querido
  Dos infernos aonde estava.
  Vs este Farl? guiava
  Ao meu nadador de Abydo_.

_Vs estas duas Espadas
  Ainda de sangue cheias?
  A Thysbe, e a Dido matro;
  E os fortes pulsos armro
  De Pyramo, e mais de Eneas_.

_Sabes quem vai no Navio,
  Que nesse mar se levanta?
  He Theseo. Vs esse Pomo?
  He de Cydippe, assim como
  So aquelles de Atalanta_.

_V agora estes retratos,
  Que destros pinceis fizero:
  Ah! que pinturas divinas!
  Todos so das Heroinas,
  Que mais victorias me dro_.

_Repara nesse semblante,
  He o semblante de Helena:
  L se avista a Grega Armada,
  E aqui de Troya abrazada
  Se mostra a funesta scena_.

_Vs est'outra_ formosura?
  _He a bella Deidama_;
  _L_ tem Achilles ao lado,
  _De huma saia disfarado
  Como com ella vivia_.

_Clepatra he quem se segue:
  Alli tens lanando a linha
  Marco Antonio socegado,
  Ao tempo em que Augusto irado,
  Com armada mo caminha_.

_Aqui Hermes se figura:
  V hum Sabio dos maiores,
  Qual infame delinquente,
  Ir desterrado smente
  Por contar os seus louvores_.

_Este he de Omphale o retrato:
  Aqui tens (quem o diria!)
  Ao grande Hercules sentado
  Com as mais damas no estrado,
  Onde em seu obsequio fia_.

_Anda agora a est'outra parte:
  Conheces, Dirceo, aquella_?
  Onde ves? (lhe digo:) explica,
  Que belleza aqui nos fica,
  Sem fazeres caso della?

Ergo os olhos ponho a vista
  Na imagem no explicada,
   quanto he digna de appreo!
  Mal exclamo assim, conheo
  Ser a minha doce amada.

O corao pelos olhos
  Em terno pranto sahia,
  E no meu peito saltava:
  Disfarado Amor, olhava
  Para mim a furto, e ria.

Depois de passado tempo,
  A mim se chega, e me aballa;
  Desperto de tanto assombro:
  Elle bate no meu hombro,
  E assim affavel me falla.

_Sim, caro Dirceo, he esta
  A divina formosura,
  Que te destina Cupido;
  Aqui tens o lao urdido
  Da tua immortal ventura_.

_O Numen, Dirceo, o Numen
  Que aos trabalhos de hum humano
  Desta sorte felicita,
  No he, como se accredita,
  No he hum Numen tyranno_.

_Olha se a cega Fortuna
  De tudo quanto se cria,
  Ou nos mares, ou na terra,
  Em o seu thesouro encerra
  Outro bem de mais valia_?

_Lizas faces cr de rosa,
  Brancos dentes, olhos bellos,
  Grossos beios encarnados,
  Pescoo, e peitos nevados,
  Negros e finos cabellos_;

_No vale mais, que cingires
  Co' brao de sangue immundo
  Na cabea o verde louro?
  Do que teres montes d'ouro?
  Do que dares leis ao mundo_?

_Ah! ensina, sim ensina
  Ao vil mortal atrevido,
  E ao peito que adora terno,
  Que tem para hum Inferno,
  Para o outro hum Ceo, Cupido_.

Ao resto Amor me convida;
  Eu chorando a mo lhe beijo:
  E lhe digo, Amor, perda
  No seguir-te; pois no va
  A vr mais o meu dezejo.




LYRA II.


  Em vo do amado
Filho que foge,
Venus quer hoje
Noticias ter.

  Sagaz, e astuto
Elle se esconde
Em parte aonde
Ninguem o v.

  Dos signaes dados
Bem se conhece,
Que elle aborrece
A Mi que tem.

  Se os seus defeitos
Ella publca,
Razo lhe fica
De se offender.

  Foge o Menino,
E disfarado
Vive abrigado
N'uma cruel.

  Com mil caricias
A impia o trata;
Nem o desata
Do peito seu.

  Se a semelhana
Sempre amor gera,
Deve huma fera
Outra accolher.

  Ah! se o teu nome,
Marilia, calo,
Que de ti fallo
Bem pdes crer.




LYRA III.


Tu no vers, Marilia, cem captivos
Tirarem o cascalho, e a rica terra,
Ou dos cercos dos rios caudelosos,
    Ou da minada Serra.

No vers separar ao habil negro
Do pezado esmeril a grossa ara;
E j brilharem os granetes de ouro,
    No fundo da bata.

No vers derrubar os virgens matos,
Queimar as capoeiras inda novas,
Servir de adubo  terra a fertil cinza,
    Lanar os gros nas cvas.

No vers enrolar negros pacotes
Das secas folhas do cheiroso fumo;
Nem espremer entre as dentadas rodas
    Da doce cana o sumo.

Vers em cima da espaosa meza
Altos volumes de enredados feitos;
Ver-me-has folhear os grandes livros,
    E decidir os pleitos.

Em quanto revolver os meus Consultos,
Tu me fars gostosa companhia
Lendo os fastos da sabia, mestra Historia,
    Os Cantos da Poesia.

Lers em alta Voz a imagem bella;
Eu vendo que lhe ds o justo appreo;
Gostoso tornarei a lr de novo
    O cansado processo.

Se encontrares louvada huma belleza,
Marilia, no lhe envejes a ventura,
Que tens quem leve  mais remota idade
    A tua formosura.




LYRA IV.


  Amor por acaso
A hum pouso chegava,
Aonde accolhida
A Morte se achava.

  Risonhos, e alegres
Os braos se dro,
E as armas unidas
N'um sitio pozero.

  De emprezas tamanhas
Cansados j vinho,
E em larga conversa
A noite entretinho.

  Hum conta que ha pouco
A seta aguada
Em huma belleza
Deixra empregada.

  Diz outro que as flexas
Cravra no peito
De hum grande, que teve
O Mundo sujeito.

  Em quanto das foras
Cada hum persumia,
Seus membros j laos
O somno rendia.

  Dormindo tranquillos
A noite passro,
E inda antes da Aurora
Com ancia acordro.

  _He tempo que o leito
Deixemos,  Morte_;
Amor, j erguido
Fallou desta sorte.

  _He tempo_, em resposta
A morte repete,
_Que  nossa fadiga
Dormir no compete_.

  _As armas colhamos,
Voltemos ao giro:
Cada hum a seu gosto
Empregue o seu tiro_.

  Vo inda c'os olhos
Em somno turbados,
Ao sitio em que os ferros
Esto pendurados.

  Amor para as setas
Da morte se enclina:
De amor logo a Morte
C'o as flexas atina.

  Oh golpes tyrannos!
Oh mos homicidas!
So tiros da Morte
De Amor as feridas.

  De hum sonho, que pinto,
Marilia conhece,
Se amor, ou se morte
Este alma padece.




LYRA V.


Eu no sou, minha Nize, pegureiro,
Que viva de guardar alho gado;
    Nem sou pastor grosseiro
Dos frios glos, e do Sol queimado,
Que veste as pardas ls do seu cordeiro.
    Graas,  Nize bella,
    Graas  minha Estrella!

A Cresso no igualo no thesouro:
Mas deo-me a Sorte com que honrado viva.
    No cinjo cora d'ouro;
Mas Pvos mando, e na testa altiva
Verdeja a Cora do Sagrado Louro.
    Graas,  Nize bella,
    Graas  minha Estrella!

Maldito seja aquelle, que s trata
De contar escondido a vil riqueza!
    Que cego se arrebata
    Em buscar nos Avs a v nobreza,
Com que aos mais homens seus iguaes abata.
    Graas,  Nize bella,
    Graas  minha Estrella!

As fortunas que em torno de mim vejo,
Por falsos bens que engano no reputo;
    Mas antes mais desejo,
No para me voltar soberbo em bruto
Por vr-me grande quando a mo te beijo.
    Graas,  Nize bella,
    Graas  minha Estrella!

Pela Ninfa que jaz vertida em Louro,
O grande Deos Apollo no delira?
    Jove mudado em Touro,
E j mudado em Velha no suspira?
Seguir aos Deoses nunca foi desdouro.
    Graas,  Nize bella,
    Graas  minha Estrella.

Pertendo Hanibaes honrar a Historia,
E cinjo com a mo de sangue cha
    Os louros da victoria.
Eu revolvo os teus dons na minha ida:
S dons que vem do Ceo so minha gloria.
    Graas,  Nize bella,
    Graas  minha Estrella!




LYRA VI.

_Traduco_.


  Amor que seus passos
Ligeiro movia,
Por mil embaraos
Que hum bosque tecia.

  Nos hombros me acena
Com brando raminho;
E logo me ordena
Que siga o caminho.

  Por entre a espessura
Do bosque me avano:
E a traz da ventura
Incauto me lano.

  J tinha calcado
Os montes mais duros:
C'o peito rasgado
Os rios escuros.

  Eis que huma serpente
A lingua vibrando,
Me crava o seu dente,
Me deixa espirando.

  Ento surprendida
Da dr que a traspassa,
Minha alma ferida
Aos beios se passa.

  As iras detesta
Amor isto vendo,
E as azas na testa
Me bate dizendo:

  _Tu choras, tu gemes
Da Serpe tocado,
E o brao no temes
De hum Numen irado_?




LYRA VII.


Tu, formosa Marilia, j fizeste
Com teus olhos ditosas as campinas,
Do turvo Ribeiro em que nasceste:
    Deixa, Marilia, agora
    As j lavradas terras;
Anda affoita romper os grossos mares,
Anda encher de alegria estranhas terras.
    Ah! que por ti suspro
    Os meus saudosos lares.

No corres como Sapho sem ventura
Em seguimento de hum cruel ingrato,
Que no sede aos encantos da ternura:
    Segues a hum fino amante,
    Que a perder-te morria.
Quebra os grilhes do sangue, e vem,  bella;
Tu j foste no Sul a minha guia.
    Ah! deves ser no Norte
    Tambm a minha Estrella.

Vers ao Deos Neptuno socegado
Aplainar co' tridente as crespas ondas;
Ficar como dormindo o mar salgado.
    Vers, vers d' alheta
    Soprar o brando vento,
Mover-se o lme, disrinzar-se o linho,
Seguirem os Delfins o movimento,
    Que leva na carreira
    O empavezado pinho.

Vers como o Leo na pra arfando
Converte em branca espuma as negras ondas
E as talha, e corta com murmurio brando.
    Vers, vers Marilia
    Da janella dourada,
Que huma comprida estrada representa
A linfa cristalina, que pizada
    Pela poupa que foge
    Em borbotes rebenta.

Bruto peixe vers de corpo immenso,
Tornar ao torto anzol depois de o terem
Pela rasgada boca ao ar suspenso:
    Os pequenos peixinhos
    Quaes passaros voarem:
De toninhas vers o mar coalhado,
Ora surgirem, ora mergulharem,
    Fingindo ao longe as ondas
    Que frma o vento irado.

Vers que o grande monstro se apresenta
Hum repuxo formando com as aguas,
Que ao ar espalha da robusta venta.
    Vers em fim, Marilia,
    As nuvens levantadas
Humas de cr azul, ou mais escuras,
Outras de cr de rosa, ou prateadas
    Fazerem no Orizonte
    Mil diversas figuras.

Mal chegares  foz do claro Tjo,
Apenas elle vir o teu semblante
Dar no lme do baixel hum beijo.
    Eu lhe direi vaidoso:
    No trago, no comigo
Nem pedras de valor, nem montes d'ouro,
Roubei as aureas Minas, e consigo
    Trazer para os teus cofres
    Este maior Thesouro.




LYRA VIII.


Em cima dos viventes fatigados
As verdes dormideiras espremia,
Os mentirosos sonhos me cercavo.
    Na vaga fantasia
    Ao vivo me pintavo
    As glorias, que disperto
    Meu corao pedia.

Eu vou, eu vou subindo a No possante
Nos braos conduzindo a minha bella;
Volta a grande roda, e a grossa amarra
    Se enla em torno della:
    J ponho a pra  barra,
    J che ao som do apito
    Ora huma, ora outra vla.

Os arvoredos j se no distinguem:
A longa praia ao longe no branqueija;
E j se vo sumindo os altos montes.
    J no ha que se veja
    Nos claros Orizontes,
    Que no sejo vapores,
    Que Ceo, e mar no seja.

Parece vo correndo as negras ondas,
E o pinho qual rochedo estar parado:
Ergue-se a onda, vem  No direita
    E quebra no costado:
    O Navio se deita,
    E ella finge a ladeira
    Sahindo do outro lado.

Vejo nadarem os brilhantes peixes;
Cahir do Les a linha, que os engana:
Hum dourado no anzol est pendente,
    Soffre morte tyranna;
    Entre tanto que a sente
    Ao tombadilho aoita
    A cauda, e a barbatana.

Sobre as ondas descubro huma Carroa
De formosas conchinhas enfeitada;
Delfins a movem, e vem Thetis nella:
    Na popa est parada:
    Nem pde a Deosa bella
    Tirar os brandos olhos
    Da minha doce amada.

Nas costas dos Golfinhos vem montados
Os nz Trites, deixando a Esfera cheia
Co' rouco som dos buzios retorcidos.
    Recra, sim recra
    Meus attentos ouvidos
    O canto sonoroso
    Da musica Sera.

J sbe ao grande mastro o bom gageiro;
Descobre arrumao, e grita terra:
 murada caminha alegre a gente;
    Alguns entendem que erra:
    Pelo immovel smente
    Conheo no ser nuvem,
    Sim o cume de alta serra.

De Mafra j descubro as grandes torres;
(E que nova alegria me arrebata!)
De Cascaes a muleta j vem perto,
    J de abordar-nos trata:
    J o piloro esperto
    Inda debaixo manda
    Soltar mezena, e gata.

Eu vou entrando na espaosa barra:
A grossa artilheria j me atra.
L fico Pao de Arcos, e a Junqueira.
    J corre pela pra
    Huma amarra ligeira;
    E a No j fica surta
    Diante da gr Lisboa.

Agora, agora sim, agora espero
Renovar da amizade antigos laos:
Eu vejo ao velho Pai, que lentamente
    Arrasta a mim os passos:
    Ah como vem contente!
    De longe mal me avista
    J vem abrindo os braos.

Dbro os joelhos pelos ps o aperto,
E manda que dos ps ao peito passe:
Marilia quanto eu fiz fazer intenta;
    Antes que os ps lhe abrace
    Nos braos a sustenta;
    D-lhe de filha o nome,
    Beija-lhe a branca face.

Vou a descer a escada ( Ceos!) acrdo,
Conheo no estar no claro Tejo.
Abro os olhos, procuro a minha amada,
    E nem se quer a vejo.
    Venha a hora affortunada,
    Em que no fique em sonhos
    To ardente desejo.




_A huma despedida_.


Chegou-se o dia mais triste,
Que o dia da morte fa:
Cahi do throno Dirca,
Do throno dos braos teus.
    Ah! no posso, no, no posso
    Dizer-te meu bem adeos.

Impio Fado, que no pde
Os doces laos quebrar-me,
Por vingana quer levar-me
Distante dos olhos teus.
    Ah! no posso, no, no posso
    Dizer-te meu bem adeos.

Parto em fim, e vou sem vr-te,
Que neste fatal instante,
Ha de ser o teu semblante
Mui funesto aos olhos meus.
    Ah! no posso, no, no posso
    Dizer-te meu bem adeos.

E crs, Dirca, que devem
Vr meus olhos penduradas
Tristes lagrimas salgadas
Correrem dos olhos teus?
    Ah! no posso, no, no posso
    Dizer-te meu bem adeos.

De teus olhos engraados,
Que podro piedosos,
De tristes em venturosos
Converter os dias meus?
    Ah! no posso, no, no posso
    Dizer-te meu bem adeos.

Desses teus olhos divinos,
Que ternos, e socegados,
Enchem de flores os prados,
Enchem de luzes os Ceos?
    Ah! no posso, no, no posso
    Dizer-te meu bem adeos.

Desses teus olhos em fim,
Que domo Tigres valentes?
Que nem rigidas Serpentes
Resistem aos tiros seus?
    Ah! no posso, no, no posso
    Dizer-te meu bem adeos.

Da maneira que serio
Em no vr-te criminosos
Em quanto foro ditosos,
Agora serio ros.
    Ah! no posso, no, no posso
    Dizer-te meu bem adeos.

Parto em fim, Dirca bella,
Rasgando os ares cinzentos;
Viro nas azas dos ventos
Buscar-te os suspiros meus.
    Ah! no posso, no, no posso
    Dizer-te meu bem adeos.

Talvez, Dirca adorada,
Que os duros Fados me neguem
A gloria de que elles cheguem
Aos ternos ouvidos teus.
    Ah! no posso, no, no posso
    Dizer-te meu bem adeos.

Mas se ditosos chegarem,
Pois os slto a teu respeito;
D-lhes abrigo no peito,
Junta-os c'os suspiros teus.
    Ah! no posso, no, no posso
    Dizer-te meu bem adeos.

E quando tornar a vr-te
Ajuntando rosto, a rosto,
Entre os que drmos de gosto;
Restitue-me ento os meus.
    Ah! no posso, no, no posso
    Dizer-te meu bem adeos.




CANO.


Ds que vi, formosa Elvira,
Os teus divinos cabellos,
Esses vivos olhos bellos,
Que invja dos astros so,
Foi-se, Elvira, foi-se embora
Toda a paz do corao.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He s por motivo seu.

Em quanto, Elvira, se occulta
A meus olhos teu semblante,
Hum minuto, hum breve instante
Parece que fim no tem.
Se alcano de vr-te a gloria,
Ento va o tempo bem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He s por motivo seu.

Quando te ris por acaso
Para outro qualquer sugeito,
Estala dentro do peito
De ciume o corao:
Se me pes os olhos julgo
Que zombas de mim ento.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He s por motivo seu.

Quando ha brinco na floresta,
E a divina Olaia canta,
O mesmo gado levanta
A cabea para ouvir.
S por mais que Alceo forceje
No pde o prazer fingir.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He s por motivo seu.

Quando levo  clara fonte
O rebanho do meu gado,
Che-me da mo o cajado,
E com ella  testa vou:
Fico pasmado, e ignoro
O lugar aonde estou.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He s por motivo seu.

Quando vou segar o trigo,
(Olha bem como ando cego.)
N'uma parte nelle pego,
Metto n'outra a fouce em vo;
Dos que vem alguns se riem,
Outros mostro compaixo.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He s por motivo seu.

Quando me deito no colmo,
Sempre sonho que te vejo,
Que te fallo, e que te beijo
A branca nevada mo.
Acrdo, Pastora, e foges:
Eu fico mais triste ento.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He s por motivo seu.

Quando alguem meu mal pergunta,
Bem que seja a vez primeira,
Rompo ainda que no queira
O segredo sem saber.
O teu nome, Elvira, digo,
Quando devo o seu dizer.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He s por motivo seu.

Fujo ao trato dos pastores,
Para hum bosque me retiro;
Com desafogo suspiro,
E chamo por ti meu bem.
Os valles que se enternecem
Chamo-te ao longe tambem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He s por motivo seu.

Quando escuto o triste mocho
A gemer no meu telhado,
Qualquer mal excogitado
No me deve algum temor:
S receio que me agoure
Mo successo ao meu amor.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo
    Se suspira,
    Se delira,
    He s por motivo seu.

Os pastores que me avisto
Com o dedo j me aponto,
E  roda do fogo conto
Da maneira que me vem.
Sou o exemplo dos amantes
Que esta nossa Alda tem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He s por motivo seu.




SONETO I.


  He gentil, he prendada a minha Alta;
As graas, a modestia do seu rosto
Inspro no meu peito maior gosto,
Que vr o proprio trigo quando onda.

  Mas vendo o lindo gesto de Dirca
A nova sugeio me vejo exposto;
Ah! que he mais engraado, mais composto,
Que a pura Esfera de mil astros cha.

  Prender as duas com grilhes estreitos
He huma aco ( Deoses!) inconstante,
Indigna de sinceros, nobres peitos.

  Cupido, se tens d de hum triste amante,
Ou frma de Lorino dous sugeitos,
Ou frma desses dous hum s semblante.




SONETO II.


  N'um fertil campo do soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva descanava,
Quando vi que a Fortuna me mostrava
Com alegre semblante o seu Thesouro.

  De huma parte h[~u] monto de prata, e ouro
Com pedras de valor o cho curvava;
Aqui hum sceptro, alli hum trono estava,
Pendio coroas mil de grama, e louro.

  _Acabou-se_ (diz-me ento) _a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna os concedo, vai, procura_.

  Escolhi, acordei, e no vi nada:
Commigo assentei logo que a ventura
Nunca chega a passar de ser sonhada.




SONETO III.


  Enganei-me, enganei-me, paciencia;
Accreditei as vozes, cri, Ormia,
Que a tua singeleza igualaria
 tua mais que angelica apparencia.

  Enganei-me, enganei-me, paciencia;
Ao menos conheci que no devia,
Pr nas mos de huma externa galhardia
O prazer, o socego, e a innocencia.

  Enganei-me, Cruel, com teu semblante,
E nada me admiro de faltares,
Que esse teu sexo nunca foi constante.

  Mas tu perdestes mais em me enganares;
Que tu no achars hum firme amante,
E eu posso de traidoras ter milhares.




SONETO IV.


  Ainda que de Laura esteja ausente,
Ha de a chama durar no peito amante;
Que existe retratado o seu semblante,
Se no nos olhos meus, na minha mente.

  Mil vezes finjo vla, e eternamente
Abrao a sombra v; s nesse instante
Conheo que ella est de mim distante,
Que tudo he illuso que esta alma sente.

  Talvez que ao bem de a vr Amor resista;
Porque minha paixo, que aos Ceos he grata,
Por innocente assim melhor persista:

  Pois quando s na ida ma retrata,
Debuxa os dotes com que prende vista,
Esconde as obras com que offende ingrata.




SONETO V.


  Ao Templo do Destino fui levado:
Sobre o Altar hum Cofre se firmava,
Em cujo seio cada qual buscava
Tremendo annuncio do futuro estado.

  Tiro hum papel, e leio: Ceo Sagrado!
Com quanta causa o corao pulsava:
Este duro Decreto escrito estava,
Com negra tinta pela mo do Fado.

  _Adore Polidoro a bella Ormia,
Sem della conseguir a recompensa,
Nem quebrar-lhe os grilhes a tyrannia_.

  Das mos, Amor mo arranca, e sem detena
Tres vezes o levando  boca impa,
Jurou comprir  risca a tal sentena.




SONETO VI.


  Ergue-te,  Pedra, e desde a margem fria,
Que os muros banha a Lusitana Athenas,
Mostra-me as desmaiadas assucenas
Do rosto que me occupa a fantasia.

  Deixa [~q] eu beije a mo, [~q] pde hum dia
Ceder de amor s lastimosas scenas;
Q'entre as ancias, a dr, a mgoa, as penas
Renove a saudosa idolatria.

  Solto do vo mortal, oh Feliz Astro,
Une ao cadaver a truncada testa,
Levanta o bello clo de alabastro:

  Huma alma grande junto a ti protesta
Fazer a gloria da defunta Castro;
A illustre Neta vez: Maria he esta.

_ Illustrissima e Excellentissima Senhora Condessa de Cavalleiros, D.
Maria Jos de Ea e Bourbon_.




SONETO VII.


  Quantas vezes Lidora me dizia,
Ao terno peito minha mo levando,
Conjurem-se em meu mal os Astros, quando
Achares no meu peito aleivosia.

  Ento que no chorasse lhe pedia,
Por firme seu amor acreditando;
Ah! que em movendo os olhos suspirando
Ao mais acautellado enganaria.

  Hum anno assim viveo:  Ceos! agora
Mostrou que era mulher: a natureza
S por no se mudar a fez traidora.

  No, no darei mais cultos  belleza,
Que depois de faltar  f, Lidora,
Nem creio que nas Deosas ha firmeza.




SONETO VIII.


  O Numen Tutelar da Monarquia,
Que fez do grande Henrique a invicta espada,
Procurou dos Destinos a morada,
Por consultar a idade que viria.

  A mil, e mil heres descriptos via,
Que exalto de Furtado a estirpe honrada,
E na serie, que adora dilatada,
O nome de Francisco descobria.

  Contempla huma por h[~u]a as letras d'ouro,
Este penhor, que o tempo no consome,
Promette ao Reino seu maior thesouro.

  Prosta-se o Genio: e sem [~q] a empreza tome
De lhe buscar sequer mais outro agoiro,
O sitio beija, e lhe mostra o nome.

_Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Visconde de Barbacena,
Francisco Furtado de Mendona_.




SONETO IX.


  Nascer no bero da maior grandeza,
De palmas, e de louros rodeado,
Deve-se aos grandes Pais, ao Tronco honrado,
Que illusrra desde longe a natureza.

  Se porm muito mais se adora, e preza
O dom que o nobre sangue trs herdado
Pela propria virtude sustentado,
Feliz o objecto da presente empreza.

  De mil Heres no Tjo vencedores
Hum ramo nasce, hum ramo que a memoria
Faz immortal de seus Progenitores.

  Eu leio em vaticinio a sua historia;
Une Francisco a par de seus maiores
Ao herdado explendor a propria gloria.

_Ao mesmo excellentissimo Visconde_.




SONETO X.


  Mudou-se em fim Lidora, essa Lidora
Por quem mil vezes f me foi jurada;
Que vos detem ( Ceos!) que castigada
Ainda no deixais to vil traidora?

  No haja piedade: sinta agora
A dita sem remedio em mal trocada;
Pois se assim no succede, fica ousada
Para ser outra vez enganadora.

  Vingai,  justos Ceos..., mas ah! [~q] digo?
Que maltrateis Lidora? o sentimento
Privou-me do discurso, eu me desdigo.

  No, no vibreis o raio violento;
Pois sei que a compaixo do seu castigo,
Hade augmentar depois o meu tormento.




SONETO XI.


  A Deos cabana, a Deos; a Deos,  gado,
Albina ingrata, a Deos, em paz te deixo:
A Deos doce rabil, neste alto freixo
Te fica ao meu destino consagrado.

  Se te for meu successo perguntado,
No declares rabil de quem me queixo;
No quero que se saiba vive Aleixo
Por causa de huma infame desterrado.

  Se vires a Pastor desconhecido,
Lhe dize ento piedoso: Ah! vaite embora,
Atalha os damnos, que outros tem sentido.

  Habita nesta Alda huma Pastora
De rosto bello, corao fingido,
Humas vezes cruel, e as mais traidora.




SONETO XII.


  Com pezadas cadeias maniatado,
s vozes da razo insurdecido,
Dos Ceos, de mim, dos homens esquecido
Me vi de amor nas trvas sepultado.

  Alli aliviava o meu cuidado
C dar de quando em quando algum gemido:
Ah tempo! que smente reflectido
Me fazes entre as ditas desgraado.

  Assim vivia, quando a falsidade
De Laura me tornou n'um breve dia
Quanto a razo no pde em longa idade.

  Quebrei o vil grilho que me opprimia:
 feliz de quem gosa a liberdade!
Bem que venha por mos da aleivosia.




SONETO XIII.


  Obrei quanto o discurso me guiava;
Ouvi os Sabios quando errar temia:
Aos bons no gabinete o peito abria;
Na rua a todos como iguaes honrava.

  Julgando os crimes nunca voto dava
Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;
Mas podendo salvar o justo ria,
E devendo punir ao ro chorava.

  Nem foro, Villa Rica, os meus intentos
Metter em ferreo cofre copia d'ouro,
Que chegue aos filhos, e que passe aos netos.

  Outras so as venturas que me agouro:
Ganhei saudades, adquiri affectos,
Vou fazer destes bens melhor thesouro.

_Feito quando o Author acabou o Lugar de Ouvidor de Villa Rica, e foi
despahado para Desembargador da Bahia_.




SONETO XIV.


  Quando o torcido buo derramava
Terror no aspecto ao Portuguez sisudo,
Quando sem p, nem oleo o pente agudo
Duro intonso o cabello em lao atava.

  Quando contra os Irmos o brao armava
O forte Nuno oppondo escudo, a escudo;
Quando a palavra que perfere a tudo
Com a barba arrancada Joo firmava.

  Quando a mulher  sombra do marido
Tremer se via: quando a Lei prudente
Zelava o sexo do civil ruido;

  Feliz ento, ento s innocente
Era de Luso o Reino: oh bem perdido!
Ditosa condio, ditosa gente!




SONETO XV.


  Sombras illustres dos vares famosos,
Que  Grecia, e Roma destes Leis hum dia;
Vs que do Elysio na regio sombria
Respiraes entre os Zefiros mimosos.

  Grande Licurgo,  tu Solon, [~q] honrosos
Louros cingis, que egregia companhia
Fazeis aos Mazzarinos, eu queria
Adorar vossos vultos magestosos.

  Vs fizesteis da vossa Patria a gloria;
Por vs hoje he feliz a humanidade:
Que dignos sois de huma immortal historia!

  Cesce, cesse porm vossa vaidade;
Que basta a escurecer vossa memoria
Hum Carvalho, que adora a nossa idade.

_Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Pombal reformando
a Universidade de Coimbra_.




SONETO XVI.


  As molles azas a bater comea
Entre as palhas o tenro passarinho,
E largos dias por deixar o ninho
Se cana, se fadiga, se arremea.

  H[~u] impulso, outro impulso  vo se apresa,
J se firma no p, j no biquinho,
Nas folhas se tem, passa ao raminho
T que a penna se esforce, e se endurea.

  Quando emfim he capaz de movimento
Deixa os arbustos vaga pelos ares,
E sobre as altas faias toma assento:

  Estes sejo, Salicio, os exemplares
Em que a vossa virtude anime o alento,
Porque hum dia da Fama honre os Altares.




_Ao Illustrissimo Senhor Luiz Beltro de Gouvea_.

ODE.


    Se entre as louras aras
Do meu Jaquitinhonha, hum Genio erguido
    s Regies alheas
Manda que em doce metro reppetido
    Hoje o teu Nome leve,
Tanto  virtude, meu Beltro, se deve.

    Vejo a sordida inveja
De ira morder-se, e as serpes sacudindo
    Por se tragar forceja:
De pejo, e de vergonha em vo cobrindo
    Co' as frias mos o rosto,
Geme a calumnia no mortal desgosto.

    Vs, Genios fortunados,
Que do Templo da Gloria honrais a estancia,
    Os meritos sagrados
Cantai do bom Ministro: He a constancia,
    A sabia fortaleza
He quem o guia na maior empreza.

    Se os rigidos palmares
Da Idumeya consulto; o bravo Noto
    Os tormentosos ares
No podem mais dobralos: zomba immoto,
    Nem s ondas tem medo
Sobranceiro ao Egeo, firme penedo.

    Tal a constancia tua
Em meio foi dos perfidos rumores;
    A verdade, que nua
Derramava em teu rosto as vivas cres,
    Sobre as aras decentes
Vio por triunfo mil trofeos pendentes.

    A vigilancia, o zelo,
A rectido do espirito; elevada
    Ao gro mais rico, e bello,
Essa virtude, que nos traz provada
    Em meio dos Thesouros
A s virtude, que enobrece os Louros:

    Tudo, tudo apparece
Sabio Ministro da victoria ao lado;
    Athenas, que me offerece
No seu pblico Erario accreditado
    Aristides, o Justo,
Em ti acena o seu modelo augusto.

    Mil vezes orgulhosa
Negra calumnia o seu desterro tenta;
    A virtude preciosa
Contra o fero Themistocles sustenta.
    No ha fora que baste,
No ha poder que o peito lhe contraste.

    Feliz o Rei, o Povo,
Feliz tambem de Themis a ballana;
    De hum modo raro, e novo
Nas tuas mos eu vejo, que descana:
    Aos premios, ao castigo
Se reparte sem queixa o brao amigo.

    Ah! sinta a nossa idade
De hum sangue illustre, de hum talento raro
    A prvida igualdade!
Melhor do que nos marmores de Pharo,
    Em memoria nos vindouros
T'ergue o Serro h[~u] Padro nos seus Thesouros.




_Imitando o sonho de Scipio_.

ODE.


    J vou tocando,  Licio,
De Lustros dez o fatigado termo;
    E j meu corpo enfermo
Se avisinha da morte ao duro officio:
Que cedo o meu destino me promette
Calcar as sombras do medonho Lethe!

    Eu descerei contente
A ver os Manes dos Avs amados;
    Que bem aventurados,
Se outro mundo trataro, se outra gente!
No viro elles, como eu triste vejo,
O velho mando peiorar sem pejo.

    Passro da innocencia
Pela candida estrada os ps levando;
    Inda a fera violencia
No corrompia da Justia o mando;
Praticava-se a prvida igualdade
Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.

    A pura f do Amigo,
Renovava de Orestes a memoria:
    Commum era o perigo,
Reciproca tambem a pena, a gloria:
Que traies, e que enganos tem disposto
Em nossos dias hum fingido rosto!

    Tudo se v mudado
Nesta idade fatal em que de ferro
    O Idolo adorado
Torpemente protege o crime, o erro:
Como de susto, e de vergonha cheia
Se retira de ns a bella Astrea!

    Ah! E quem de teus laos
Deve ao pezo gemer,  mundo cego?
    Rotos em mil pedaos
Os teus grilhes a pendurar j chego;
No mais os teus encantos me deleitem,
Estes miseros restos se aproveitem.

    Que differentes climas
J me finjo habitar! Os brandos ares,
    Que tu Zefiro, animas
Que prazeres me inspiro! Dos pezares,
Das magoas, do desgosto, e do tormento
Aqui no sa o tragico lamento.

    Slto do mortal manto
Cuido que o centro dos Elysios piso!
    Oh quanto he bella, quanto
A margem deste Lago! Em fresco riso
Lirios, e rosas, quaes no colhe Flora,
Aqui saudo a perpetua Aurora.

    Adoravel sciencia,
Que encheste as noites, e esgotaste os dias,
    Da humana intelligencia,
Agora sei quam longe te desvias!
Este o seio da luz, aonde tudo
Sem fadiga se alcana, e sem estudo!

    O nmero, a distancia
Dos Orbes Celestiaes j sabio admiro:
    Noto a eterna constancia
Do Planeta da Luz; observo o giro
Da Terra, que regula a varia face
Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.

    Certa, e firme a carreira
J marco de Saturno, Marte, ou Jove,
    Da esfera derradeira
Contemplo a fora, que os mais Orbes move;
A harmonia me encanta acorde, e rara,
Que de Samos o Sabio j notra.

    Aqui se patenta
Dos errados systemas o conceito;
    E longe a minha ida
De vacilar, j firma o mais perfeito.
Quem seno tu,  Genio, sobre humano
Libertar me podra deste engano!

    De Massinissa o Pao
De Carthago ao Here tal scena pinta:
    Ao soberbo ameao
Da Fortuna, elle v clara, e distincta,
Qual o meu Genio me retrata agora,
A bella Patria, onde o descano mora.

    He este,  Licio, he este
Sem dvida, o Paiz bello, e sereno,
    Aonde em paz celeste
No respira da inveja o atroz veneno:
E aonde livres da infeliz mudana
Descana o teu, e o meu bom Pai descana.

    Que doce companhia
Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse
    O momento que hum dia
To gostosa unio nos lavra, e tece!
Cheguemos a beijar as Mos Sagradas,
Que enchem de gloria as immortais Moradas.

    Em praticas suaves
Alli as breves horas gastaremos;
    Nem j nos sero graves
Na lembrana os trabalhos que aqui temos;
Nem da pezada humanidade nossa
Pena haver, que atormentar-nos possa.

    Mas tu, que dos humanos
Reges,  Grande Deos, a dubia sorte;
    Tu, que a meta dos annos
Firmas, descendo de teu mando a morte,
Dilata os dias do meu Licio, em quanto,
Douto me instrue, e me entertem seu canto.

FIM






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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org

Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.

Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

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including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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