The Project Gutenberg EBook of Uma famlia ingleza, by Jlio Dinis

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Title: Uma famlia ingleza
       Scenas da vida do porto

Author: Jlio Dinis

Release Date: August 5, 2005 [EBook #16443]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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UMA FAMILIA INGLEZA




UMA FAMILIA INGLEZA

SCENAS DA VIDA DO PORTO

POR

JULIO DINIZ


Terceira Edio


Porto

Em casa de A. R. da Cruz Coutinho, Editor

18--Rua dos Caldeireiros--20


1875


TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
Rua Ferreira Borges, 31




UMA FAMILIA INGLEZA




I


ESPECIE DE PROLOGO, EM QUE SE FAZ UMA APRESENTAO AO LEITOR


Entre os subditos da rainha Victoria, residentes no Porto, ao principiar
a segunda metade do seculo dezenove, nenhum havia mais bemquisto e mais
obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleugmaticos e genuinamente
inglezes, do que Mr. Richard Whitestone.

Por tal nome era em toda a cidade conhecido um abastado negociante de
fino tacto commercial e genio emprehendedor, cujo credito nas primeiras
praas da Europa e da America, e com especialidade nos vastos emporios
da Gran-Bretanha, se firmava em bases de uma solidez superabundantemente
provada.

Nos livros de registro do _Bank of England_, bem como nos de alguns
_Joint-Stock banks_ e dos banqueiros particulares da _City_ ou de
_West-End_, podia-se procurar com exito documentos justificativos d'este
credito florescente.

No era Mr. Richard homem para seguir smente caminhos batidos, nem para
empallidecer ao abalanar-se em veredas no arroteadas, onde se achava a
ss com os seus esforos e tenacidade.

Por vezes arriscra capitaes a inaugurar companhias, a plantar novos
ramos de commercio, a auxiliar industrias nascentes, aventurando assim
proveitosos exemplos, para serem seguidos depois, j com melhores
garantias de lucro, por seus collegas, caracteres em geral cautelosos e
positivos e sempre desconfiados a respeito de innovaes.

Apesar d'isso, as crises, essas derruidoras tempestades to frequentes
na vida do commercio, tinham passado por cima da casa Whitestone,
respeitando-a. Atravs das nuvens negras, que tantas vezes assombram o
mundo monetario, vira-se sempre brilhar a firma do honrado Mr. Richard,
com o esplendor tradicional; emquanto que no sorriram fados to
propicios s de muitos meticulosos e precatados, no obstante egoistas
abstenes.

Era o caso de mais uma vez repetir o _Audaces fortuna_... de j estafada
memoria.

Esta immunidade, em parte devida  lucida intelligencia, com a qual Mr.
Richard sabia superintender nos variados negocios do seu tracto, em
parte a no sei que benigno espirito, ou acaso feliz, a que muitas vezes
parece andar subordinada a fortuna, valera-lhe uma illimitada confiana
entre todos, com quem o negocio o ligava, confiana da qual, nem em
circumstancias frivolas, se mostrou nunca indigno depositario.

O quotidiano apparecimento do negociante estrangeiro na Praa--nome que
entre ns se d ainda  rua dos Inglezes, principal centro de
transaces do alto commercio portuense--festejavam-o benevolentes
sorrisos, rasgadas e pressurosas reverencias, phrases de insinuante
amabilidade e affectuosos _shake-hands_, segundo o mais ou menos
adiantado grau de familiaridade, que cada qual mantinha com elle.

Ninguem se dispensava de qualquer d'estas demonstraes de estima, ou as
impozesse o prestigio dos avultados capitaes e da social liberalidade do
commerciante britannico, ou--como de preferencia opinaro os que melhor
conceito formam dos homens--um longo passado sem mancha, uma rectido e
cavalheirismo, aquilatados todos os dias.

Mr. Whitestone no se deixava porm desvanecer com estas homenagens dos
seus confrades, alis merecidas.

Decididamente no era a vaidade o seu defeito dominante. Aspirando essa
especie de incenso moral, que to bem formadas cabeas atorda, no
sentia, no intimo, turbar-se a limpidez, verdadeiramente crystallina, da
razo, n'elle pouco sujeita a esvamentos.

Os glos d'aquelle corao, formado e desenvolvido a cincoenta e um
graus de latitude septentrional, no se fundiam com to pouco.

Las, hymnos encomiasticos, capazes, ainda que em prosa, de atemorisar
as modestias menos esquivas, protestos hyperbolicos de venerao a todo
o transe, tudo isso escutava friamente e sem nem sequer experimentar
certa agradavel e voluptuosa titillao da alma--se me admittem a
phrase--que em quasi todos os filhos de Eva,--primeira e mal estreiada
victima da lisonja--produzem sempre os panegyricos do merecimento
proprio, entoados por bcas alheias.

A mesma indifferena, a mesma, se no absoluta impassibilidade,
estabilidade de razo pelo menos, com que, uns aps outros, esvasiava
copos de cerveja e calices do Porto e Madeira, de _rhum_, de _cognac_,
de _kummel_, de _gingerbeer_, e at de absintho, libaes, que a
qualquer pessoa menos inglezmente organisada ameaariam, em pouco tempo,
com as mais pavorosas consequencias de um completo alcoolismo; essa
mesma indifferena e impassibilidade oppunha ao effeito, no menos
inebriante, das lisonjas de que lhe enchiam os ouvidos.

A eloquencia cortez dos seus muitos enthusiastas mais do que uma vez a
recebia assobiando distrahidamente, mas sem a menor affectao, o
nacional _God save the queen_, ao qual marcava compasso com a cabea ou
com a bengala.

No se dava ao trabalho de retribuir um cumprimento com outro
cumprimento. Aquelles que teem por costume semeiar lisonjas, para depois
as colherem, em proveito proprio, encontravam em Mr. Richard Whitestone
terreno ingrato para tal genero de cultura; no vingavam l.

A chamar-se delicadeza a certos requebros de linguagem, a certas
subtilezas de galanteios, a certos meneios, ares e olhares
convencionaes, muito  moda nas salas e que variam com as pocas,
hesitar-se-hia em conceder a Mr. Richard o nome de delicado.

A delicadeza que elle praticava no era de facto essa. Fazia-a consistir
toda, a sua, nos sentimentos e nas aces inspiradas pelos eternos e
invariaveis dictames da consciencia e da razo, superiores portanto s
fluctuaes caprichosas da moda. Era uma delicadeza natural.

Verdadeiro inglez da velha Inglaterra, sincero, franco, s vezes rude,
mas nunca mesquinho e vil, podia tomar-se por uma vigorosa
personificao do typico John Bull.

Alheio e pouco propenso  metaphysica, no o namoravam as transcendentes
questes de philosophia, que preoccupam doentiamente as intelligencias
da poca; todo votado  contemplao da face positiva da vida, se no se
arroubava, como os exaltados optimistas, a considerar nos destinos
futuros da humanidade, evitava tambem o estorcer-se nas garras do
demonio da hypocondria, como se estorcem tantos, a quem prolongadas
meditaes sobre os males que perseguem o homem acabam por envenenar o
pensamento.

Possuia em compensao Mr. Richard, e em alto grau, para luctar contra
as occorrentes resistencias da vida effectiva, aquella qualidade de
espirito, que, segundo Sterne, se diz _obstinao_ nas ms applicaes e
_perseverana_ nas boas.

Outra apreciavel disposio de animo caracterisava ainda o nosso
commerciante:--era a de no ser sujeito a longas mortificaes, ou pelo
menos--e com mais rigor talvez--a de no as manifestar nos gestos ou por
quaesquer signaes exteriores.

Dir-se-hia, a julgal-o pelas apparencias, que espessa camada de
estoicismo lhe encrustra o corao, libertando-o da influencia dos
estimulos, que mais dolorosamente costumam commover essa viscera de to
numerosas sympathias.

N'este mundo, ao qual os Heraclitos dos seculos christos grangearam o
titulo lutuoso e elegiaco de _Valle de lagrimas_, no sabia successo
possivel, catastrophe realisavel, com fora de alterar por muito tempo a
costumada expresso physionomica de Mr. Richard, de lhe desbotar sequer
o colorido vigoroso, ou,--como julgo se lhe chama em linguagem
technica,--o colorido quente, do qual lhe vinha ao gesto certo ar de
satisfao, despertador das mais justificadas invejas.

Nos typos inglezes, que as ondas do oceano arrojam todos os dias s
nossas praias,  este phenomeno mais vulgar do que porventura se pensa.

Cada uma d'essas figuras britannicas vale por um protesto mudo, mas
eloquente, contra os velhos preconceitos de poetas e de escriptores
meridionaes.

Teimam de facto estes em que so indispensaveis os vividos raios do
nosso desanuviado sol, ou a face desassombrada da lua no firmamento
peninsular, onde no tem, como a de Londres--_a romper a custo um
plumbeo co_--para verterem alegrias na alma e mandarem aos semblantes o
reflexo d'ellas; imaginam fatalmente perseguidos de _spleen_,
irremediavelmente lugubres e soturnos, como se a cada momento sassem
das galerias subterraneas de uma mina de _pit-coul_, os nossos alliados
inglezes.

Como se enganam ou como pretendem enganar-nos!

 esta uma illuso ou m f, contra a qual ha muito reclama debalde a
indelevel e accentuada expresso de beatitude, que transluz no rosto
illuminado dos homens de alm da Mancha, os quaes parece caminharem
entre ns, envolvidos em densa atmosphera de perenne contentamento,
satisfeitos do mundo, satisfeitos dos homens e, muito especialmente,
satisfeitos de si.

Nem  para admirar que o romancista inglez James ousasse abrir o
primeiro capitulo de um romance seu com a seguinte exclamao:

_Merry England! Oh, merry England!_ Alegre Inglaterra! oh! alegre
Inglaterra!

E por que se no ha de chamar alegre  Inglaterra? Como se generalisou a
infundada crena de que o inglez  por fora melancolico?

 uma d'estas abuses, para lhe no dar nome peior, contra as quaes
ninguem se precav com sufficiente criterio philosophico.

Repare o leitor imparcial para qualquer dos membros da colonia ingleza,
 qual Mr. Richard Whitestone pertencia, e ver que nem s nos tempos em
que a civilisao e a industria no tinham ainda arroteado as densas
florestas britannicas, seria cabido o jovial estribilho da cano que o
supracitado romancista pz na bca do legendario Robin Hood, seu
heroe:--_Ho, merry England, merry England, ho_; pde ainda cantar,
atravs dos nevoeiros e do fumo das fabricas, o inglez moderno, fiel
depositario d'aquelle folgado caracter nacional.

Eu tenho ha muito como ponto de f, que ainda que o _spleen_ seja doena
indigena da Gran-Bretanha, no domina to fatalmente sob o co Londrino,
como muitos parece imaginarem.

Dryden affirma que as comedias inglezas possuem sobre as de todo o mundo
incontestavel superioridade.

E querem saber a que attribuem alguns esta superioridade da comedia
ingleza? Ao clima, a esse mesmo clima, que, em contrario, tantos accusam
de fomentador de hypocondrias e suicidios.

O clima inconstante da Inglaterra, explicam aquelles,  proprio para
favorecer o desenvolvimento d'esses caracteres excepcionaes e
extravagantes, precioso e inesgotavel pbulo do espirito comico da
Gran-Bretanha.--A jovialidade d-se muito bem n'aquelle poderoso
imperio.

Tom Jones e o proprio Falstaff so typos mais inglezes talvez do que uns
sombrios caracteres, que Byron pz  moda.

Ora Mr. Richard, o corajoso leitor do _Times_, o inimigo declarado da
Frana, apesar de certa seriedade de conveno, era metal inglez, livre
de toda a liga.

Nos maiores empertigamentos, a que o respeito pela pragmatica ingleza o
constrangia, l lhe estava o gesto a denunciar, que era artificial tudo
aquillo.

Emquanto ao physico..., emquanto ao physico era Mr. Whitestone
caracterisadamente inglez.

No suppriro estas palavras mais circumstanciada descripo?

No ha entre ns quem, ao ver por ahi, nos maiores e mais mesclados
ajuntamentos, certa ordem de typos masculinos, hesite em attribuir-lhes
por patria a velha Albyon, a filha dos nevoeiros, a rainha dos mares, a
terra dos _meetings_, dos _puddings_ e de muitas cousas mais?

Pois bem, todos esses caracteres, todos esses signaes distinctivos dos
mais perfeitos exemplares da classe, achavam-se reunidos na pessoa de
Mr. Richard Whitestone, como certido de naturalidade, limpa da menor
viciao.

Era aquella conhecida tez, quasi cr de tijolo; aquelles olhos azues, 
flor do rosto, a resplandecerem como saphiras; aquelles cabellos e
suissas ruivas, que, sem grande violencia de imagem, poder-se-hia talvez
comparar s lavaredas do fogo, que lhe inflammava constantemente as
faces injectadas; os dentes regulares, como enfiaduras de perolas, e
alvos, como os caramlos das montanhas; a postura erecta; os movimentos
promptos, e no rosto o tal continuado ar de satisfao.

Do vestuario podia dizer-se quasi o mesmo.--No falseava o typo. Era
ainda inglez de lei.

Um pequeno fraque de panno azul, fabricado nas melhores officinas de
Yorkshire ou do West of England; as calas, curtas e estreitas, dentro
das quaes as descarnadas tibias podiam fazer o effeito do embolo em
corpo de pneumatica; as botas esguias e compridas, onde a elegancia era
sacrificada  solidez; gravata e collete alvissimos, como os de um lord
do parlamento, e, de inverno, vestidura completa de _gutta-percha_ que,
n'estas pocas utilitarias e prosaicas, veio substituir as impenetraveis
armaduras da idade mdia--taes eram as peas principaes do guarda-roupa
do honrado negociante. Coroava finalmente tudo isto o chapo, aquelle
chapo de frma invariavel, castello roqueiro inaccessivel s ondas
destruidoras da moda; baluarte inabalavel no meio dos ventos encontrados
dos humanos caprichos; o chapo, cujo molde classico d a um grupo de
inglezes um aspecto, que  s d'elles; o chapo, expresso symbolica da
indole industrial e fabril da famosa ilha, pois desperta lembranas das
chamins, que ouriam o panorama das suas mais manufactureiras cidades.

Respirando, havia mais de vinte annos, a atmosphera perfumada do nosso
clima meridional, e bebendo, em todo este tempo, da propria fonte o
predilecto das mesas britannicas, o genuino _Portwine_--esse nectar,
cujo aroma, ainda mais que os da nossa atmosphera,  grato s
pituitarias inglezas, Mr. Richard Whitestone no conseguira, ou melhor,
estas influencias, com todos os outros feiticeiros attractivos da nossa
terra, ainda no haviam conseguido de Mr. Richard Whitestone dois
importantes resultados:--a adopo dos habitos de vida peninsular,
contra os quaes antes reagia sempre com a inteira inflexibilidade de
suas fibras britannicas, e o respeito  grammatica portugueza, que, em
todas as quatro partes, maltratava com uma irreverencia, com um
desplante de bradar aos cos e de desafiar os rigores da frula mais
indulgente.

No desmentia Mr. Richard a assero do auctor das _Lendas e
Narrativas_, quando affirma que sempre que um inglez, em casos
desesperados, recorre a algum idioma estranho, nunca o faz, sem o
torcer, estafar, e mutilar com toda a barbaridade de um verdadeiro
Kimbri.

De facto, as cinzas de Lobato e de Madureira deviam agitar-se na
sepultura sempre que Mr. Whitestone fallava, porque as regras mais
triviaes de regencia e de concordancia eram por elle atropelladas com
uma frieza de animo, com uma fleugma, com uma impassibilidade, somente
comparaveis s de um membro do _Jockey-Club_, ao passar com o cavallo
por cima do corpo de algum transeunte inoffensivo ou competidor
derrubado na arena.

No era mais feliz a prosodia, a alatinada prosodia d'este recanto
peninsular.

As combinaes grammaticaes de Mr. Richard, ao fallar a nossa lingua,
saam marcadas com um verdadeiro cunho britannico. Venus, a propria
Venus, perderia aquellas illuses, que nos refere o cantor dos
_Lusiadas_, se porventura ouvisse o portuguez que elle pronunciava.

Transparecia de alguma sorte nas oraes do seu discurso o credito
liberal de um verdadeiro cidado de Londres. O espirito conciliador e
ordeiro, o constitucionalismo arreigado n'aquelle animo inglez, e
adheso aos principios interventores adoptados no seu paiz, parecia
haverem-se estendido, extravagantemente, ao campo da syntaxe portugueza,
levando Mr. Richard, n'um excesso de tendencia harmonisadora, a tentar
n'ella concordancias de substantivos e adjectivos contra a absoluta e
insuperavel repugnancia de generos e de numeros; e a modificar a
constituio grammatical de um paiz alliado, como a Inglaterra gosta de
modificar a sua constituio politica.

O effeito reunido d'aquella prosodia e syntaxe era s vezes de uma
resultante comica que no actuava impunemente sobre os ouvidos, alis
no muito pechosos, dos collegas commerciaes, em cujos labios sorrisos
de malicia mal disfarada vinham por instantes afugentar a sisudez de
profisso.

Mr. Whitestone percebia-os e bem lhes suspeitava o sentido, mas era
completamente indifferente ao que percebia e suspeitava.

Se o contradissessem na pronuncia de uma palavra ingleza, embora das
mais controvertidas, se descobrisse um sorriso nos circumstantes, na
occasio em que elle estivesse fallando a patria lingua, ento sim,
ento era possivel que chegasse a exaltar-se a ponto de quasi ameaar o
imprudente com uma irreprehensivel applicao da nobre sciencia dos
_boxers_, quasi divina arte do sco, que, desde Jack Brougton, tem sido
cultivada em Londres com fanatismo e ensinada com talento--textuaes
palavras de um escriptor _ex-professo_.

Mas os sorrisos, que lhe valiam as atrocidades praticadas por elle nas
grammaticas estrangeiras, esses, soffria-os com impassivel indifferena
e no sei at se com certos vislumbres de orgulho e regosijo.




II


MAIS DUAS APRESENTAES, E ACABA O PROLOGO


O honrado chefe da casa Whitestone tinha dois filhos: uma gentil _lady_,
mimosa planta do Norte transplantada, aos dois annos, para o nosso
clima, e um rapaz, mais novo do que ella, e nascido j em Portugal.

Eram Jenny e Carlos.

Jenny era uma d'estas jovens inglezas, cuja suavidade e correco de
contornos, alvura e delicadeza de tez e puro dourado dos cabellos, lhes
do uma apparencia to subtil e vaporosa, e, quasi direi, to celestial,
que se espera a cada passo vel-as desprenderem-se da terra e
dissiparem-se, como instantanea viso luminosa, diante dos olhos, que
por momentos offuscaram.

Delicadas, como o arminho, que chega quasi a subtrahir-se  sensao do
tacto, de delicado que , estas poeticas organisaes septentrionaes
possuem tanto de vago, tanto de immaterial, que, junto d'ellas,
apodera-se de ns, entes profanos e grosseiros, certo invencivel
constrangimento, como se receiassemos com um spro desvanecel-as,
crestal-as com o olhar, maltratal-as com o gesto.

Os desejos no vam at alli; rodeia-as uma atmosphera de virginal
castidade, no seio da qual esses filhos alados da imaginao abatem-se
asphyxiados.

Bellezas, como ella, foram por certo as que inspiraram as imagens de
virgens dos cantos de Ossian ao espirito de quem quer que foi seu
auctor, d'aquellas virgens, que o bardo comparava  neve da planicie e
cujos cabellos imitavam o vapor do Cromla, dourado pelos raios do
occidente.

Se no azul meigo dos olhos de Jenny se no concentrava o fogo das
paixes de um corao ardido, nem se descobria a scintillao
denunciadora de phantasias exaltadas, havia n'elle no sei que
mysteriosa e suave luz, como se de reflexo levado para alli do mais
intimo da alma; os labios, delgados e levemente comprimidos, no se
agitavam sob o imperio de tumultuosos sentimentos, mas fixavam-se em
continuo sorriso, expressivo de affabilidade e de brandura, promettedor
de placidas, mas duradouras felicidades; o seio, sempre modestamente
afogado no vestido liso e singelo, embora no tivesse o arfar
voluptuoso, que arrebata as imaginaes, animava-se da ligeira
ondulao, denunciadora do sereno sentir da mulher, a quem Deus confia
os destinos da familia; d'esses sympathicos vultos de me, de irm e de
esposa, por todos encontrados ou sonhados ao menos uma vez na vida,
astros inaccessiveis s violentas tempestades, que tantas vezes ameaam
o horizonte domestico, anjos pacificadores entre os seus, que com todos
repartem carinhos e afagos, que com lagrimas e sorrisos a todos consolam
e recompensam; se, vendo Jenny, podia ainda lembrar o amor, era o amor
da mulher sempre casta que, ao estender a fronte candida aos beijos
affectuosos do esposo, baixa ainda os olhos, crando com todo o pejo de
uma primeira entrevista, e fita-os no bero do filho adormecido sob a
vigilancia dos seus cuidados.

A estatura esbelta da joven ingleza, o andar, sem os requebros languidos
das nossas elegantes, a fronte pura e de gracioso modelo, coroada por um
diadema de formosos e desadornados cabellos louros, o olhar entre
affavel e melancolico, a voz meigamente sonora e cadenciada, tudo emfim,
de modo inexplicavel como variadas phrases da mysteriosa linguagem da
belleza, denunciava os encantos, as douras d'aquelle caracter feminino,
to alheio a fraquezas mundanas, que mais se dissera angelico.

Sentia-se, vendo-a, que para ella nunca o amor seria um passatempo, um
capricho apenas, gosado entre risos, terminado sem lagrimas. Talvez
nunca to violenta paixo a chegasse a dominar at; porm, se nascesse,
seria como essas plantas, que mal se desentranham em galas de folhagem e
de flores, mas que se prendem por tenazes e penetrantes raizes ao solo
d'onde brotaram.

Em Jenny, a paixo de amante, a ter de lhe inquietar o corao,
difficilmente se revelaria, a no ser adivinhada; mas depois, se o
fosse, ou havia de consagrar-se na de esposa, de sublimar-se na de me,
ou lentamente a consumiria; ser-lhe-hia fatal, se por no comprehendida,
no chegasse a realisar essa santificada evoluo.

Almas assim esto talhadas ou para a felicidade celeste ou para a maxima
tortura; que eu no sei de outra maior, do que a d'aquelles que
concentram em si o soffrimento e suffocam todas as manifestaes de dor,
quando s vezes a revelao lhes poder dar lenitivo.

Mas o co de Jenny era ainda limpido, e amena a corrente da vida.

Um rapido e imperceptivel movimento de labios, um desvanecido contrahir
de fronte e--a no ser illuso isto,--um como escurecer do puro azul
d'aquelles olhos amoraveis, eram os unicos vestigios das raras luctas
travadas entre a sua razo poderosa, bem que de mulher, e os impulsos de
diversos affectos, lucta sempre decidida pela victoria da primeira.

Mas eram raras essas nuvens, to raras como diaphanas, to diaphanas
como passageiras.

Estava-lhe quasi sempre no seio aquella mesma placidez que se lhe lia no
semblante.

E nem porisso se julgue frio e insensivel o caracter d'ella; animavam-o
tambem os raios vivificadores dos sentimentos, que nos prendem  terra;
mas, com o influxo da vida, no transmittiam esses raios a lavareda que
destroe.

Ser menos energico e abenoado o calor do sol, porque no inflamma os
bosques e as cidades, como o incendio que a mo do homem ateia? Mas um
cobre de verdura os prados e de flores os ramos, e alumia o hemispherio
inteiro; o outro calcina as plantas que abraa, e a pouca distancia
estende a sua claridade fatal; qual ser mais poderoso e effectivo?

Em Jenny os affectos do corao pareciam-se com as chammas dos
lampadarios sagrados, que, em honra de Deus, illuminam o interior dos
templos. O vel-as luzir eleva o pensamento a meditar cousas do co.

Ha entes assim, que tudo santificam; paixes, que n'uns acalentam
vicios, so n'elles efficazes impulsos para sublimes virtudes.

O calix, que, em mos profanas, preside aos banquetes e s orgias,
consagrado no altar, transforma-se em symbolo mysterioso da mais augusta
religio.

Deus desce tambem a muitas almas, para tornar em holocausto digno de si
as paixes originarias d'ellas.

Carlos era, sob muitos respeitos, differente da irm.

Inglez pelo sangue, meridional pelo clima, onde vira, a primeira vez, a
luz do dia, onde passra a infancia, onde sentira as primeiras commoes
da adolescencia, o despertar da vida do corao, tinha um caracter que
se ressentia d'esta, de alguma sorte, dupla nacionalidade.

Da peninsula recebera o enthusiasmo, a viveza de imaginao, a
impetuosidade de sentimentos, que raras vezes reprimia; vinham-lhe da
Gran-Bretanha a fora de vontade, a pertinacia, o estoicismo, com que,
em certas occasies, surprendia a quantos julgavam conhecel-o;
vinham-lhe at, da mesma fonte, algumas excentricidades de manifesta
herana paterna--efficaz inoculao de britannismo, que no lhe
consentiria mentir  origem, se alguma vez o tentasse.

Ainda que algum tanto estouvado, no deixava porisso Carlos de possuir
um generoso e compassivo corao, alma sensivel a todos os infortunios,
olhos a que a piedade no permittia serem estranhas as lagrimas.

Se, por aces mal refreadas, por palavras irreflectidas, as fazia
tambem verter, era elle o primeiro a accusar-se, a compadecer-se, a
procurar enxugal-as por toda a qualidade de sacrificios.

Capaz de heroica abnegao em bem dos outros, se frequentemente se
esquecia de beneficios recebidos, como se poderia censural-o, quando,
habituado a realisal-os maiores, no exigia tambem dos favorecidos a
gratido em recompensa, parecendo at desconhecer os direitos que tinha
a ella?

Corajoso at  imprudencia, liberal at  prodigalidade, sincero at 
rudeza desattenciosa, os seus maiores defeitos no passavam de nobres
qualidades, levadas ao excesso.

O que elle no sabia, ou no podia, era conserval-as no ordeiro meio
termo, to respeitado pela sociedade.

O sangue dos vinte annos fazia doudejar aquella cabea; os instinctos
generosos faziam o tormento d'aquelle corao, porque se uma, em
momentos de exaltao, conseguia romper com as generosas repugnancias do
outro, a reaco era infallivel, e este, mais tarde, obrigava-a a
arrepender-se, descobrindo, e exagerando at as nem sempre remediaveis
consequencias dos seus desvarios e caprichos.

Carlos era d'estes homens, que encerram e alimentam no proprio seio o
seu principal inimigo.

Entre Carlos Whitestone e o pae existia um cordial e puro affecto, ainda
que disfarado, em ambos elles, sob apparencias de frieza e de reserva
da mais genuina indole britannica. Raras vezes se procuravam os dois, e
sempre que, nas occasies ordinarias, se viam juntos, poucas palavras
trocavam. Quando mais solta se desenvolvia a loquacidade de Mr. Richard
na presena do filho, era ao saborear os ultimos calices, depois do
jantar de familia; mas, ainda ento, a conversa quasi se reduzia a uma
especie de extenso e variado monologo, recitado por aquelle e
interrompido por este apenas com algumas phrases de assentimento, em que
predominavam os _Yess_, ao mesmo tempo que os labios se armavam de um
sorriso de complacencia--nem sempre segura fiana de atteno.

Carlos respeitava o pae, amava-o at com extremos capazes de lhe
inspirarem os maiores sacrificios, e comtudo evitava-o, como se, junto
d'elle, se no achasse  vontade.

E no achava, de facto.

Possuia Carlos um d'estes genios, que no supportam constrangimentos; ou
ho de romper com elles ou evital-os.

Calava-se, onde no podia abandonar-se aos caprichos de uma conversa
futil; entristecia, onde lhe fossem estranhadas as expanses de uma
alegria infundada, de um d'esses irresistiveis jubilos de creana, que,
como tal, em puerilidades se revela. Dessem-lhe a liberdade de poder ser
estouvado, vel-o-iam talvez sisudo; mas, forado a isto, tornava-se
sombrio e de mau humor.

Ora a austeridade de costumes de Mr. Richard Whitestone, a rigidez dos
seus principios de decoro e de respeito s praxes da etiqueta ingleza,
exerciam sobre Carlos uma influencia, contra a qual no tinha coragem de
revoltar-se; e porisso fugia-lhe.

No pae via quasi sempre um juiz severo e inflexivel, prompto a julgal-o
e a condemnal-o talvez; e Carlos, que habitualmente trazia na
consciencia algum peccado de juventude a remordel-a, e que no confiava
no seu poder de dissimular, furtava-se, quanto podia, s investigaes
do jury paternal, sempre antevistas por elle e bem longe s vezes do
intento de Mr. Richard Whitestone.

Este, de seu lado, no amava menos extremosamente o filho; para as
verduras da mocidade era indulgente, como, em tempos passados, desejara
e precisara que fossem tambem comsigo; Deus sabe que esforos lhe
custavam at estes sisudos ares de conveno, to oppostos ao fundo de
desafogada jovialidade do seu caracter, e que no conseguiam dissipar o
sorriso, que tinha como que stereotypado nos labios.

Julgava elle, porm, do dever de pae e natural mentor, que era de
Carlos, conservar sempre certo ar de hombridade e de quasi rudeza para
com o estouvado, que, no raro, lhe estava dando motivos para mais
severas penas.

 sua preciso britannica repugnavam longos discursos de moral e
prolixas catecheses. Laconico, n'estas cousas, por systema e por
espirito nacional, nunca usava de parabolas para chamar ao aprisco a
ovelha tresmalhada.

Um unico Ho! mas pronunciado com aquella expresso, que s a larynge
britannica lhe sabe dar, um _ho_ aspirado, guttural, eloquente, inglez
emfim, combinado a um abanar de cabea rapido e desapprovador, e a dois
ou tres particulares estalidos de lingua, eram os signaes de impaciencia
e de desagrado que Mr. Richard manifestava, e dos quaes mais se temia
Carlos, do que se temeria de qualquer menos concisa formula, sob que
podesse revelar-se a censura paternal.

Dia, em que aquelle fatal _oh!_ lhe tivesse soado aos ouvidos, j no
se confiava despreoccupado a inteiro prazer; passava-lhe uma nuvem no
firmamento azul da juventude, limpido como o de poucas.

Promettia ento emendar-se; solemnemente a si proprio o promettia, mas
cdo a promessa era esquecida at que nova e similhante occasio a
renovava.

Outro era o sentir de Carlos para com a irm.

Jenny era o seu anjo bom, e o anjo bom da familia toda, a meiga, a
benigna fada, cujo olhar serenava as tempestades, e desanuviava o sol.

Com sorrisos decidia, para o bem, os combates de paixes. Debil e
delicada era aquella mo, mas quantas vezes Carlos a encontrra
interposta entre si e o precipicio, para lhe servir de amparo! Delgado e
vacillante imaginar-se-ha aquelle brao, mas firme o sentia ella sempre
ao ter de sustentar o irmo na quda imminente, ou de eleval-o at si.
Branda e suave lhe saa dos labios a voz, mas s ella se fazia escutar
dos ouvidos, quando o tumulo das paixes os ensurdecia.

No havia segredo entre os dois. De pequeno se costumra Carlos a vir
contar a Jenny quasi todas as aces da sua vida, boas ou ms que ellas
fossem.

Referia-lhe, um por um, e com sincera ingenuidade, os pensamentos
dominantes do dia, e mais do que uma vez conseguira vencer-se, quasi ao
ceder  tentao de actos menos generosos, s para no ter de os
confessar depois a este affectuoso juiz, e merecer-lhe uma amigavel
reprehenso entre sorrisos ou o mal reprimido movimento de desgosto
d'aquelles bonitos labios, o que devras o magoava.

Nem menos o affligiriam os remorsos, se procurasse subtrahir-se  pena,
no denunciando o delicto. A consciencia costumava censurar-lhe tambem
estas faltas, nas raras vezes que as commettia.

Jenny, igualmente attendida pelo irmo e pelo pae, servia-se d'esta
duplicada influencia para harmonisar toda a familia, nos momentos de
receiada discordia.

Com uma palavra extinguia qualquer irritao, que as extravagancias de
Carlos podessem ter produzido no animo de Mr. Richard; com outra
dissipava no irmo as menores tendencias  insurreio, to naturaes 
idade e temperamento d'elle contra alguma medida repressiva, posta, de
quando em quando, em pratica pelo pae, como em ultimo recurso.

Frequentes vezes o pequeno erario de Jenny abrira-se a solver dividas,
imprudentemente contrahidas por Carlos, e a remediar todas as ms
consequencias das suas leviandades. Estava sempre prompta a advogar-lhe
os pleitos, a minorar-lhe as culpas.

Mas tambem o que ella no conseguisse de Carlos, ninguem mais na terra o
conseguiria.

Deixar adivinhar desejos, era formular pedidos; uma supplica,
timidamente expressa, valia por uma ordem imperiosa. E comtudo Jenny
nunca procurava tornar apparente este predominio; antes se esforava por
o dissimular.

Conhecendo, mais por muito reflectir do que por experiencia, que no a
tinha, os mil mysterios e caprichos do corao humano, toda a sua
admiravel diplomacia feminina estava em saber fazer-se obedecida,
brincando; em aceitar e agradecer, como concesses espontaneas, o que
lhe dizia a consciencia ser o resultado de suas insinuaes e pedidos.

Desenvolvia-se de ordinario uma perfeita tactica, e engenhosamente
tecida da parte de Jenny, em quasi todas estas conferencias intimas
entre os dois irmos.

Virtuosa e sympathica hypocrisia, com que Jenny, para dominar, se
humilhava!

Quando os anjos nos imitam na dissimulao, ainda ento no perdem a sua
candura. So sempre anjos. Roam com as azas pelo ldo do mundo, mas
levantam-se immaculados.

Quem ensinra a Jenny, cuja vida se deslisra quasi toda no tracto
intimo de sua pouca numerosa familia, esta sciencia do corao, que
dizem s adquirir-se no muito lidar com os homens e com o mundo? J o
indicamos:--a sua indole pensativa, os seus habitos de reflexo. Mais se
aprende na leitura meditada de um s livro, do que no folhear
levianamente milhares de volumes. Assim tambem no estudo dos caracteres.
Observadores ha, que, aps annos e annos gastos a viver com os homens,
morrem em ingenua ignorancia a respeito d'elles; outros que, na solido
do gabinete, perscrutam no proprio corao os segredos dos mais,
decifram-os, porque, descobertas ahi as leis principaes e communs a toda
a natureza humana, facil  adivinhar depois as secundarias, d'onde
procedem as differenas. Surprende devras quando se v sar d'esses
cantos obscuros um homem a todos desconhecido, e que a todos parece
conhecer. Como e onde aprendeu este homem tudo isto? Pela observao
desapaixonada em si, ou, quando muito, nos seus mais proximos; depois a
intelligencia, vigorada por este ensino, abalanou-se, guiada por
vestigios na apparencia insignificantes, a induces fertilissimas.

Carlos no sabia resistir muito tempo  irm. Sem suspeitar que cedia,
recuava passo a passo. Aproximava-se do fim, onde a habil contendora o
queria levar, e, ao attingil-o, ficava surprendido de haver realisado,
com to pouco custo, suppostos sacrificios, cuja ideia s, momentos
antes, o tinha feito desanimar de emprehendel-os.

Por no differentes processos, cada dia se vergava, por assim dizer, s
mos de uma creana o caracter geralmente considerado inflexivel de Mr.
Richard Whitestone.

E com tal habilidade aprendera Jenny a occultar estas pequenas, mas
importantes victorias, que a todo o instante obtinha sobre os seus, que
mal vinha  ideia do bom _gentleman_, quando, muito convencido do que
dizia, se jactava de ser firme nas suas resolues, e pouco propenso a
revogar projectos formados, que, n'aquelle mesmo momento talvez, lhe
estavam dando seus actos solemne desmentido.

Taes eram os principaes membros da familia Whitestone, com quem
travaremos mais intimo conhecimento nos varios capitulos d'esta
singelissima historia, em cujo decurso, desde j o declaramos, para no
alimentar illusorias esperanas, a aco prosegue desimpedida de
complicadas peripecias.




III


NA AGUIA D'OURO


Era uma das ultimas noites do carnaval de 1855.

Havia menos estrellas no co, do que mascaras nas ruas. Fevereiro, esse
mez inconstante como uma mulher nervosa, estava nos seus momentos de mau
humor; mas, embora; o folgazo entrudo ria-se de taes severidades e
danava ao som do vento e da chuva, e sob o docel de nuvens negras que
se levantavam do sul. Graas  cheia do Douro, a cidade baixa podia bem
prestar-se n'aquella poca a uma parodia do carnaval veneziano.

 porta dos theatros apinhava-se a multido; os altos brados dos
vendedores de senhas e os agudos falsetes dos mascarados atordoavam os
ouvidos. Dos cabides dos guarda-roupas, provisoriamente armados nas
lojas circumvizinhas aos principaes sales de baile, pendiam vestuarios
correspondentes a todas as pocas e a todas as naes, e alguns, aos
quaes no era possivel assignar poca, nao, classe ou condio social
conhecida.

Numerosos grupos de espectadores paravam diante das exposies de
mascaras  venda e tornavam o transito n'aquellas ruas quasi
impraticavel. Era uma fascinao analoga  que produz um conto de
Hoffmann em imaginaes excitaveis, e exercida n'elles por tantas
mascaras enfileiradas, cuja diversidade comica de expresso e de gesto
lembrava um enxame de cabeas mephistophelicas, surgindo  luz para se
rirem das loucuras da humanidade.

Estes absortos contempladores a cada passo vinham a si,
desagradavelmente acordados pelas pragas energicas dos conductores de
carruagens, prestes a atropellal-os, ou pela interjeio pouco
harmoniosa dos cadeirinhas obrigados por causa d'elles a irregularidades
no andamento da sua grave e benefica tarefa. S ento, e ainda a custo,
se dispersavam, para, alguns passos mais adiante, se agglomerarem de
novo.

Se  licito comparar as grandes s pequenas cousas, veremos n'estes a
imagem de todos os inoffensivos scismadores d'este mundo, a quem sempre
cruelmente vem despertar o embate dos afadigados em emprezas positivas.

A animao era geral na cidade.

Todos corriam com ancia... a enfastiarem-se, fingindo que se divertiam.

Alguma cousa havia tambem na Aguia d'Ouro, a anci das nossas casas de
pasto, a velha confidente de quasi todos os segredos politicos,
particulares e artisticos d'esta terra; alguma cousa havia n'essa
modesta casa amarella do largo da Batalha, que desviava para l os
olhares de quem passava.

Desde as tres horas da tarde que o tinir dos crystaes e das porcellanas,
o estalar das garrafas desarrolhadas, o estrepito das gargalhadas, das
vozerias tumultuosas, e dos _hurrahs_ ensurdecedores rompiam, como uma
torrente, do acanhado portal d'aquelle bem conhecido edificio; e por
muito tempo essa torrente,  maneira do que succede com a das aguas dos
rios caudalosos ao desembocarem no mar, conservava-se distincta ainda,
atravs do grande rumor, que enchia as ruas.

Os criados subiam e desciam azafamados as escadas, cruzavam-se ou
abalroavam-se nos corredores, hesitavam perplexos entre ordens
contradictorias, vinham apressar os collegas na cozinha ou entretinham
com promessas os impacientes convivas da sala.

No entretanto o modesto e solitario freguez, a quem uma velleidade
estomacal convidra a ir ceiar a humilde costelleta, principal tropho
culinario da casa, era pouco attendido e, farto de esperar, retirava-se
sorrateiro e cabisbaixo.

Sob apparencias de modestia, a Aguia d'Ouro parecia d'esta vez aureolada
de no sei que magestade, condigna do seu emblema.

A luz escassa de um lampeo da rua, batendo sobre a ave de Jupiter, que
cora a taboleta do estabelecimento, parecia dar-lhe reflexos, mais
brilhantes do que os do costume.

Que era noite solemne para a casa, aquella casa que tem j dado que
entender a ministerios e a emprezarios lyricos, no podia haver duvida.

C em baixo, os serventes do caf fallavam a meia voz e mostravam no
olhar certo ar de preoccupao, certa importancia no gesto, como se
effectivamente se estivesse passando cousa de momento no andar de cima.

O caf contrastava porm com a animao que se percebia nas salas da
hospedaria.

Estavam desertos os logares d'aquella abafada quadra, em cujas paredes
ainda ento existiam, e ameaavam perpetuar-se, reproduces, em lona,
dos combates que restabeleceram a independencia da Grecia; a luz
amortecida dos candieiros no dissipava as sombras dos recantos.

O marcador do bilhar cabeceava com somno.

Os bailes de mascaras tinham derivado d'alli at os homens politicos.
N'aquella noite as discusses sobre a guerra da Crimeia, ento na ordem
do dia, travavam-se ao som das walsas e das mazurkas, nos theatros.

No  pois n'este logar, agora melancolico e quasi lugubre, que eu
pretendo demorar o leitor.

Subamos, e, por entre os criados que encontrarmos nas escadas e
corredores, penetremos na sala d'onde provm o ruido de festa que j
noticiamos.

O leitor por certo conhece o recintho. As suas particularidades
architectonicas no requerem tambem as fadigas da descripo.

 um jantar de rapazes a festa, a que viemos assistir.

Chegamos, porm, tarde.

O fumo dos charutos ennevoa a sala e empana o fulgor das luzes; o jantar
vae no fim, a desordem portanto no ponto culminante.

Ha j calices partidos, vinhos preciosos extravasados, convivas em todas
as posies, algumas indescriptiveis.

A vozeria  atordoadora. A confuso pde dar uma ideia de Babel.

Tratam-se simultaneamente todos os assumptos; as transies fazem-se com
uma rapidez, que surprende e embaraa os proprios interlocutores;
atteno, que se desvie um segundo,  atteno perdida; no encontra
depois j o dialogo onde o deixou; s vezes a conversa generalisa-se;
momentos depois, distribue-se em especialidades por diversos grupos;
mais tarde, generalisa-se de novo; em certas occasies, todas as bcas
fallam, cada um se escuta a si; n'outras algum orador consegue por
instantes fazer-se escutar de todos, at que um parte, um incidente, um
gesto, restabelece a independencia primitiva. Do-se tambem verdadeiros
encruzamentos de conversas; o dos ps da mesa responde ao dito que ouve
ao da cabeceira, emquanto que os intermedios se entreteem de outros
objectos;  um baralhar de palavras, em que a custo se tira a limpo a
expresso do pensamento.

Alli falla-se em litteratura e ouve-se, de quando em quando, pronunciar
o nome de algum romancista ou poeta de vulto ou da moda; perto,
discute-se politica e julgam-se n'um momento, e com a mais desenganada
critica, as primeiras capacidades financeiras, diplomaticas e militares
da poca; conversam mais longe de aventuras de amor dois rapazes
fronteiros e, atravessando-se diagonalmente com to agradavel prtica, o
dialogo de outros dois exerce-se sobre modas de casacos; um grupo
exalta-se, tratando assumptos de theatro lyrico e premeditando pateadas
e ovaes; juntos d'este, dois enthusiastas de hippicultura fazem a
historia pittoresca de compras, vendas e manhas de cavallos. A propria
philosophia allem fornece alimento  animao dos discursos; e tudo
isto interrompido de gargalhadas, de cantigas, de juras e exclamaes em
todas as linguas.

Seria igualmente difficil determinar o elemento commum dos individuos
reunidos alli.

Ha-os das mais diversas condies; desde o joven padre, que pe a
tractos a sciencia e a paciencia dos cabelleireiros para disfarar,
quanto for possivel, os vestigios da tonsura, at o official do
exercito, todo possuido das branduras civilisadoras do seculo e para
quem a mesma caa  occupao barbara e afflictiva da sensibilidade;
ha-os das mais diversas idades, desde o collegial de hontem, ainda
imberbe e embriagado com as primeiras commoes da vida de adolescente,
at o velho, que, ingenuamente persuadido de que o tempo se esqueceu de
lhe ir contando os annos, deixa passar a gerao, contemporanea sua, e
insiste em viver, entre rapazes, vida de rapaz; ha-os em diversas
circumstancias monetarias, desde o capitalista, que v correr descuidado
a fonte dos seus rendimentos, com tranquillisadora confiana no
inesgotavel manancial que a alimenta at  classe dos _encostados_,
verdadeiros martyres da moda, cuja vacuidade de bolsa lhes constrange a
imaginao a fabricar systemas quotidianos para os manter, embora 
custa de humiliaes n'aquella atmosphera, fra da qual j no sabem
respirar; ha-os de todos os graus de intelligencia, desde o escriptor
applaudido e que, sem favor ou com elle, conquistou reputao nas
lettras, at o analphabeto, cujas sandices so saudadas com gargalhadas
que ninguem procura reprimir na presena d'elle proprio.

Finalmente, esta reunio de elementos, debaixo de todos os pontos de
vista to heterogeneos,  uma poro da sociedade, que pretenciosamente
se decora com o titulo de elegante e para pertencer  qual  difficil
fazer resenha dos requisitos necessarios; pois que nem a propria
elegancia--na verdadeira accepo do termo-- dote generico dos seus
membros.

O motivo do jantar... O jantar no tinha motivo e era esta outra
circumstancia que o caracterisava. Um jantar pde muito bem ser motivo
de si mesmo: sendo possivel d'elle dizer-se de alguma sorte, em
linguagem philosophica, que tem em si a razo sufficiente da sua
existencia.

Na companhia encontraremos alguem j conhecido nosso.

E como, at agora, s tenho apresentado ao leitor tres pessoas, no ser
prova de grande perspicacia, da sua parte, adivinhar qual d'essas tres
ser.

Effectivamente  Carlos Whitestone um dos convivas e no dos mais
sisudos.

Ficava proximo da cabeceira da mesa. Carlos era quem mais vezes
conseguira encaminhar a um fito unico todas as attenes e modificar a
assembleia a ponto de se lhe poder referir o _conticuere omnes_ da
_Eneida_;--verdade  que no to completamente o fizera como o heroe
troyano, pois nem tinha destruio de Ilion a descrever, nem a paciencia
dos tyrios a escutal-o.

Carlos Whitestone passava por estar muito em dia com os boatos comicos e
escandalosos, de que sempre e em toda a parte  to sfrego o paladar
social.

Por isso o escutavam todos com prazer.

Sinto que no chegassemos a tempo de ouvir o principio da narrao, que
elle levava em meio.

--O nosso homem--dizia Carlos, accendendo um charuto no de um
jornalista; seu vizinho--apesar do aviso que recebera, resolveu na
melhor das boas fs...

--Ento  a boa f dos maridos--commentou a meia voz um padre, que,
atrazado nas operaes gastronomicas, investia com denodo contra um
tymbale de pombos, ainda miraculosamente intacto, e acrescentou:--No
sei de outra, que a exceda.

--Regula por essa a dos amantes ingenuos--acudiu Carlos ao commentario.

--Mas  de menos consequencias--respondeu o outro.

--Silencio, padre Manoel!--bradaram algumas vozes--Vamos l, Carlos; e
depois?

--Depois--proseguiu Carlos--enfeitou-se, perfumou-se, aparamentou-se,
frisou-se...

--E tingiu-se; que no esquea--acrescentou do fim da mesa uma voz.

--E tingiu-se; sim--disse Carlos--e feitos todos estes aprestos,
caminhou para a entrevista.

--E como se realisava essa entrevista?--perguntou um militar.

--De uma maneira muito singular;--proseguiu Carlos--o conselheiro, todas
as noites, depois de pousar na relva o chapo, a bengala e as luvas,
trepava como um eschilo, pela faia que fica junto da varanda e...

--Ora! Impossivel!--exclamaram alguns, rindo.

--Palavra!

--Isso  contra todas as leis da mechanica, aquelle bojo...--principiou
a dizer um estudante da Universidade.

--Pelo contrario;--atalhou outro-- exactamente o bojo que o faz subir.
Lembra-te do principio de Archimedes. Os aereostatos...

A quda do conselheiro seria uma bella experiencia para um curso de
physica...

--Divertida...--annotou uma voz.

--Como exemplificando as leis da quda dos graves... um to _grave_
personagem--concluiu o primeiro.

Estes sujeitos guindavam o _calembourg_ ao supremo grau da escala do
espirito.

--Ento? deixem fallar Carlos; e depois?--disseram alguns curiosos.

Carlos continuou:

--N'aquella noite, porm, estava reservada ao conselheiro a mais triste
surpreza; ao entrar na espessura da folhagem, deu de cara com o outro.

--Com o Victor?

--Exactamente, com o Victor. Imaginem agora vocs o soberbo dialogo, que
se seguiu ao encontro.

--Devia ser preciosissimo! Que harmonioso certame de rouxinoes!

--O conselheiro principiou talvez por dizer-lhe:


  _Tytire, tu patul recubans sub tegmine fagi
  Formosam resonare doces Amaryllida silvas_


--Protesto contra o _recubans_. A posio de Victor era menos commoda.

--_Mutatis mutandis_, j se sabe.

-- padre Manoel, dize-nos como a tua latinidade exprimiria a posio em
que estava o Victor.

--No interrogues o padre. No vs que elle est, como os antigos
agoureiros, consultando as entranhas das aves? respeitemos a solemnidade
do acto.

--Mas as consequencias, Carlos, quaes foram as consequencias?

--As consequencias foram as que vocs j sabem, o conselheiro...

N'este ponto, a narrao de Carlos foi interrompida por o criado da
hospedaria, que se aproximou d'elle para lhe entregar a carta.

--Com a sua permisso, meus senhores,--disse Carlos, preparando-se para
abril-a.

--Bravo!--exclamou o jornalista--temos carta de algum Ecco impaciente.

--_E un foglio a me lasci_--cantarolou um _dilettante_, voltando as
costas da cadeira para a mesa.

-- a proposta de capitulao de alguma Troya sitiada--disse o militar.

--Cheira-me a fumo de gambiarra e ribalda; temos intriga de camarim.

--Antevejo ento uma descarga de bilhetes de beneficio, a que poucos
escaparemos.

Carlos sorria, ao abrir a carta.

-- Carlos, olha que so perigosos para as digestes os sobresaltos de
corao--notou o estudante de medicina.

--Socega;  um excitante a que j estou habituado--respondeu Carlos.

De repente tornou-se serio.

--M nova!--disseram alguns.

--O caso complica-se.

--As exigencias da beneficiada sobem at o acrostico, querem ver?

--No  isso; aposto que mais outro conselheiro trepa uma segunda faia,
e d'esta vez vinga o collega, na pessoa de Carlos.

Carlos no os escutava j. Ergueu-se, aproximou-se do aparador, e
escreveu no verso do bilhete, que recebeu, algumas palavras  pressa.

Emquanto fazia isto, os companheiros do festim, fingindo dictar-lhe a
resposta, diziam:

--Meu anjo, se no co...

--Vo nas azas do amor...

--Qual outro Leandro, eu, naufrago...

--Minha Helosa; se o infortunio de Abeillard...

--Julieta, quando o rouxinol...

Carlos voltou para a mesa, depois de fechar a carta e de entregal-a ao
criado.

Esforava-se por manter nos labios o sorriso; mas o esforo era visivel,
circumstancia que, como sempre, lhe annullava o effeito.

--Que  isso?--disse o militar, que lhe ficava defronte--respiraste a
peste n'essa carta?

--O nosso Manrique ter de correr a salvar a sua Leonora das garras de
um conde de Luna?--disse o _dilettante_.

--Ulysses voltou aos lares domesticos; o que vale por um mandado de
despejo aos...

--Um capellista, menos attencioso, insiste pelo prompto pagamento de uma
avultada conta de enfeites.

--Um domin leva a sua ingratido at...

--J vo numerosas as hypotheses--disse Carlos, enchendo um calix de
vinho e procurando conservar s suas palavras o tom jovial do principio
da noite; depois acrescentou:--Este bilhete era para me recordar...

--Ai! recordaes!...

  _Te souviens tu, de mme,
  De nos transports brulants_...

--Para me recordar que era hoje o dia dos meus annos--concluiu Carlos.

--Devras!

-- o que eu te digo.

  _Quan tu m'as dit: je t'aime!
  J'avais alors vingt ans_.

--E estavas calado com isso.

--Se o ignorava! Quando o soubesse a tempo, no me teriam aqui.

--Ento? Receber-nos-hias em tua casa?

--Tambem no. Costumo consagrar estes dias exclusivamente  vida de
familia.

--Oh! oh! sentimentalismo!

--Britannico! Ps no _fender_, _punch_ na mesa, _Times_ na mo. E de
quando em quando um monossyllabo rosnado, ou uma interjeio, que produz
na garganta o effeito do acido prussico. Delicioso!

--Deve ser um co aberto!

--Mas co inglez, um pouco turvo de nevoeiros.

--E de carvo de pedra.

--No esquecendo uma paraphrase de algum texto biblico.

--E umas variaes vocaes sobre motivos do _God save_.

Carlos sorriu, respondendo:

--Creiam-me, de vez em quando, tem seus prazeres tambem um dia passado
assim.

Eu quero acreditar que, dos circumstantes, muitos, se no todos, sentiam
a verdade do que acabra de dizer Carlos, e tambem possuiam faculdades
para apreciar estes intimos gosos de familia; mas envergonhavam-se de
fazer to claro, e em plena ceia de carnaval, tal confisso. Que querem?
no est em moda trazer o corao  vista.  costume tratar, como
ridiculas, todas as manifestaes de sentimento; consideram-se como
pequenas fraquezas que com milhares de outras, s se devem confiar na
discrio das quatro paredes do nosso quarto.

Carlos porm no sabia dissimular; com verdadeira convico e franca
ingenuidade, dissera aquellas palavras, que lhe valeram alluses
epigrammaticas ao que elles chamavam respeitabilissima tendencia para
pae de familias.

O bilhete, que motivra esta scena e que parecia haver impressionado
devras Carlos, era da irm e dizia apenas:


Charles.

 hoje o dia 19 de fevereiro. Fazes vinte annos. Julguei que seria
desnecessario pedir-te para nos dares o prazer de te vermos comnosco. O
pae esperava-te. Adeus.

_Jenny_.


A este pequeno bilhete, Carlos respondeu apenas:


Jenny.

Confiaste de mais na minha memoria; acredita que me esqueci. No me
succederia o mesmo de certo, se, em vez do meu, fosse o dia do
anniversario de qualquer de vs. Fazes-me a justia d'essa supposio,
no  verdade? Agora no posso valer-lhe. Obriguei-me a seguir at o fim
companheiros to doudos como eu; e, quando os deixasse, no sei se ainda
iria em estado de poder, sem profanao, sentar-me ao teu lado,  santa
e patriarchal mesa de familia. Bem vs que nem vale a pena festejar o
dia, em que veio ao mundo mais uma cabea leve. manh te pedirei
perdo... Como me lembrei tambem de fazer annos na segunda-feira de
entrudo?!

Teu mau irmo

_Charles_.


A final, aps algumas explicaes mais, um dos convivas levantou-se e
empunhando o calix:

--Meus senhores, proponho que saudemos o anniversario de Carlos--bradou,
em tom de brinde.

--Apoiado--responderam todos, imitando-o.

--Carlos--continuou o primeiro--bebo aos teus vinte annos! Contes pelos
trezentos e sessenta e cinco dias, que se vo seguir ao de hoje, as
paixes que fizeres nascer; e possas tu...

--No se admittem longos _speeches_; ol! Bebamos!--disse uma voz.

-- sempre mais expressivo o gole que entra, do que a phrase que
se--acrescentou outra.

--At porque, devendo sempre dar-se a primazia ao mais sabio,  o vinho
que a merece; pois  elle, n'este momento, o que mais _sabe_.

--Ora faze-nos o favor de nos poupar, ao menos agora,  difficil
digesto dos teus _calembourgs_.

--Ento? Bebamos!--insistiu o cro.

E o brinde foi geral.

Carlos correspondeu constrangido quella saudao. Parecia-lhe estar
vendo Jenny a olhal-o com uma expresso de amigavel desgosto; Jenny, a
unica a fazer companhia ao velho negociante, que no pouco devia ter
sentido a ausencia do filho. Durante toda a noite j no era para o
pobre rapaz dissipar completamente aquella impresso penosa.

Apoderra-se de Carlos Whitestone um pensamento fixo, um quasi remorso
de se ver alli; e este effeito, se no lhe distrahia completamente a
atteno dos assumptos, que na sala se tratavam, enfraquecia-lhe a
intensidade d'ella a ponto de nem j tomar parte nas discusses, nem o
occuparem, por muito tempo, as ideias aventadas por os outros.

 placa da camara escura, no preparada na officina photographica, 
comparavel o pensamento, em occasies assim. L se gravam ainda as
imagens das cousas exteriores, mas, no as fixando a atteno,
dissipam-se rapidamente, removidos os objectos que as motivaram.

D'ahi o tom distrahido e indifferente das raras observaes feitas por
Carlos no resto da noite, e a impaciencia de algumas respostas, que foi
forado a dar.

Entre muita cousa, que se disse na sala, eis o que elle ouviu, sem
escutar; a qualquer d'estes assumptos no costumava Carlos, nas
ordinarias disposies de espirito, recusar attenes, nem esquivar a
concorrencia propria.

O jornalista, que ficava ao lado d'elle, interpellou-o pela preoccupao
em que o viu.

Ora uma observao qualquer da parte d'este jornalista tendia fatalmente
a degenerar em longa revista litteraria, que era difficil interromper.

--Que tem voc, homem? O tal bilhete produziu um effeito quasi
apopletico. Coragem!  negocio de corao? Alguma loura e nevada _miss_?
hein? Oh! as inglezas! A desassombrada candura do seu suavissimo _to
flirting_!--d'aquelle _flartar_, como, com tanta razo, traduz Garrett,
 falta de melhor vocabulo.

E elle ahi principiava:

--Voc j leu Garrett, Carlos? Que me diz d'aquellas _Viagens_, hein?
Oh!  inquestionavelmente o melhor dos seus livros. Prefiro-as s de
Xavier de Maistre. Que eu no participo da admirao geral por Xavier de
Maistre;  preciso que saiba.

Pausa, durante a qual saboreou um gole de Xerez. Depois de alguma
assero mais arrojada, a pausa era de rigor.

Carlos, j se sabe, no redarguiu. N'este intervallo, pde ouvir o
conviva proximo, que dizia:

--Eu agora o que desejava era ter, pelo menos, trezentos contos de ris;
ia d'aqui a Paris; depois...

O jornalista proseguiu:

--Xavier de Maistre inspirou-se de Sterne;  evidente; ficou porm a
grande distancia d'elle. A _Viagem sentimental_, sim. Oh! A _Sentimental
journey_.  um livro delicadamente temperado de uma certa especiaria
philosophica, unica que se combina com vantagem  litteratura amena. O
_humour_ morreu com Sterne.--Pausa.--A demasiada philosophia gela a
inspirao litteraria. Ahi tem Pope.  frio,  rido, 
marmoreo.--Pausa.--Os poetas francezes no teem tanta tendencia para se
deixarem _philosophicar_, permitta-me o neologismo. Victor Hugo, s
vezes... Qual prefere voc,  Carlos, Lamartine ou Victor Hugo? Victor
Hugo  mais byroniano. E  notavel que fosse Lamartine quem cubiasse o
_Childe Harold_. Fora de contrastes! Aquelle _Childe Harold_! aquelle
_Childe Harold_! Que me diz voc quelle _Childe Harold_?  o unico
poema verdadeiramente romantico, que se tem escripto at
hoje.--Pausa.--Perdo-lhe o _Poor, paltry slaves_! com que nos mimoseia.
E note que eu no sou admirador cego do Byron.

Nova e maior pausa, durante a qual o orador accendeu um charuto.

Carlos continuava calado.

Percebeu ento que n'um grupo vizinho se dizia:

--Quem tem uma bonita parelha  o visconde de Custoias.

--Melhor  a do Manoel Galveias.

E mais adiante:

--Perdo, menino; mas para mim a synthese no  uma mera condensao dos
factos analyticos; a synthese precede a analyse, e d a esta a fora que
vae buscar ao mundo interior, isto , verte n'ella o immutavel, os
principios evidentes; Kant...

O jornalista continuava:

--Eu no me regulo pela critica convencional.  o meu systema. No me
resolvo a entoar _amen_  opinio dos povos.--Pausa.--Por exemplo, tenho
a sinceridade e a coragem de confessar que no me fascina Dante.

Grande pausa.

--Padre Manoel--dizia n'esta occasio, do fundo da mesa, um dos
convivas, apontando para o calix, que levava aos labios--_Ecce Deus qui
ltificat juventutem meam_.

O padre sorriu, mas no disse nada. Comia.

--Porque a final de contas--proseguiu o discursador--voc ha de
concordar commigo; Dante  um rapsodista quasi como Homero. Que  a
_Divina Comedia_, seno o compendio das crenas religiosas d'aquelle
tempo?

Pausa.

--O que ha a respeito da revoluo carlista em Pamplona?--ouviu Carlos
perguntar.

--Nada mais se sabe por emquanto, apenas que esto implicados alguns
sargentos, cabos e paizanos--respondia outra voz.

E continuava a dissertao litteraria:

--O grande merecimento de Dante  o da frma. L essa qualidade tem
elle. Logo os primeiros versos:

  _Nel mezzo del cammin di nostra vite_...

Acho porm dotes superiores em Boccacio.--Ento que quer?  um espirito
encarnado em corpo de menor vulto, mas... voc j leu o _Decamaron_?
Deve ler.  um livro excepcional. Ha n'elle alguma cousa que vae alm do
seculo, em que foi escripto. E esse  o signal supremo do genio. As
imitaes de La Fontaine so pallidas. Desengane-se. La Fontaine, a
final, era contemporaneo de Luiz XIV. N'aquella crte no podia existir
a verdadeira inspirao. Abomino a litteratura d'esse tempo. Detesto
Luiz XIV e o seu seculo.--Pausa.--Molire salva-se, mas porque? Porque o
genero comico tem uma ndole especial. No  a inspirao que o regula;
 a analyse,  a reflexo philosophica.

--Eu aposto--berrava um politico--que se os alliados se metterem a dar o
assalto a Sebastopol, no fica um s vivo.

--Veremos--questionava outro.--Deixa Omer-Pach occupar a estrada de
Sebastopol a Simphirepol e depois fallaremos. Olha que elle j
desembarcou na Eupatoria com quarenta mil homens.

O jornalista continuou:

--Ha um unico homem que admiro, em qualidades comicas, mais do que
Molire,  Rabelais. Oh! o Rabelais  o meu livro! Ha tres livros que
nunca tiro da minha banca de estudo, nem da minha mala de viagem.

-- a _Biblia_, os _Lusiadas_ e o _Paulo e Virginia_. J sei.  o
costume--disse emfim Carlos, levantando-se, j impaciente e procurando
subtrahir-se  torrente de perguntas, respostas, apreciaes criticas,
cotejos e citaes, que saam, em tom categorico, da palavrosa bca do
vizinho.

--No ha tal--respondeu este, porm, tomando-lhe o brao e levantando-se
igualmente.--Esses so a formula dos tres grandes sentimentos da alma--o
da religio, da patria e do amor;--bem o sei; mas confesso-lhe, o que,
por temperamento, mais me seduz  a pintura social e a analyse das
paixes, e s tres homens as fizeram bem: Lesage, Richardson e Rabelais.
A creao de Pantagruel e Gargantua  famosa!

--Quem dizes tu que tem uma garganta famosa?--exclamou, voltando-se, um
_dilettante_, por traz de cuja cadeira os dois passavam n'aquelle
momento..--Fallas de Ponti? Oh! que mulher! Que vocalisao! Que
sentimento!

--Ahi tornas tu com a Ponti--disse um velho rapaz, pronunciado
adversario da prima-donna e um da numerosa seita, que passa metade do
anno a suspirar pelo theatro lyrico e outra a dizer systematicamente mal
das companhias escripturadas.--s capaz de sustentar que vae bem na
_Norma_. Se ouvissem a Rossi-Cassi...

--A Rossi-Cassi! Oh! por quem s, desalmado! No sacudas reputaes
cobertas pelo p do tempo! Pff! Que poeira! Vive da actualidade.

--Fallar na Rossi com esse enthusiasmo de conhecedor equivale a um
assento de baptismo feito pelo menos em 1800.

--Nego--bradou embespinhado o velho rapaz.

--_Parce sepultis_--disse o padre.

--_Lascia la donna in pace_--trauteou outro _dilettante_.

Carlos e o jornalista tinham passado adiante. O jornalista ia j a
fallar em librettos de operas, em Felice Romani, em Manzoni, no _Ei fu_!
do _Cinque maggio_... etc., etc., etc...

Carlos foi retido agora pela mo de um rapaz, junto do qual tinham
chegado.

--Aqui est quem nos pde informar--dizia o que o segurava.-- Carlos,
dize-nos uma cousa: conheces a Laura Viegas?

--No--respondeu Carlos, distrahido.

--Conheces por fora. A filha do Viegas, d'aquelle brazileiro, que
comprou a quinta do Pedroso.

--E ento?

--Mas conheces? Bem. Que dote achas tu que ter aquella rapariga?

Carlos encolheu os hombros, significando a sua ignorancia e preparava-se
j para seguir para diante, quando outro, a quem igualmente preoccupava
esta sciencia dos dotes, o segurou por sua vez.

--No tem que ver; o Viegas no lhe pde dar mais de nove contos.

--Triplique, e no lhe faz favor nenhum--disse, do alto da mesa, o
padre, conseguindo passar esta nota por meio de uma briga travada entre
os mais disparatados assumptos.

--Ora ahi tens!--disseram os disputantes, aceitando o auxilio, como de
valia provada.

O padre limpava tranquillamente os beios e enchia um calix de malvasia.

--Ento diz o padre Manoel que o Viegas...

--O Viegas tem pelo menos...--dizia de l o padre, elevando o calix
entre os olhos e a luz, e revendo-se na limpidez do licor; e antes de
completar a phrase, levou-o  bca e despejou-o de um trago.

Depois continuou:

--Tem pelo menos ... pelo menos...

Aqui, enxugou os labios e emfim concluiu:

--Sessenta e sete contos de ris.

--Ora!

Carlos passra para o outro lado da mesa, seguido ainda do jornalista,
que lhe a dizendo:

-- a questo do dia--O dinheiro--A litteratura resente-se...

E d'aqui passou a fallar de Alexandre Dumas, filho, de Emile Augier, de
Ponsard ... etc., etc...

--Deixa-te d'isso;--dizia no ponto da sala a que os dois chegavam, um
rapaz imberbe e ainda em estudos de preparatorios--a Emilia Victorina 
outra qualidade de mulher. Ainda hontem, em casa do baro de Tavares, me
encontrei com ella. Trajava de Maria Stuart. Era uma perfeita rainha,
uma mulher distincta, esplendida.

--Foi, foi; j no . Descobriam-se-lhe os primeiros estragos, quando em
ti appareciam os primeiros dentes.

--A idade...--dizia outro.

--Ora a idade! a idade! A mulher tem sempre a idade que parece ter.

--Concordo; mas, depois dos quarenta e tantos annos, a mulher parece ter
a idade que tem.

--Barbaro!  Carlos, que dizes tu?

--Digo que sim--respondeu Carlos, que nem attendera  discusso.

--Est esta creana do Duarte a affirmar que prefere a Emilia Victorina
 Marianna Prazeres.

--E prefiro, repito.

--No sejas impio. Quem no acha admiravel aquella bonita cabea da
Marianna?

--E a mo? Aquella mo comprida e delgada, onde as veias se desenham em
azul; a verdadeira mo artistica, aristocratica.

--No assumpto mos, peo licena para citar a primeira...--das
provincias do Norte pelo menos, a da Clementina Rialva--lembrou um
individuo, a quem a conversa arrancou a uma quasi modorra.

--Apoiado!--entoaram muitas vozes.

--A proposito da Clementina Rialva--exclamou uma chronica viva de boatos
do dia--sabem que o Chico da Lous, sempre a tira por justia?

--Devras?!

--Asseverou-m'o hontem o Brito, que, como sabem,  todo d'elle.

--Terrivel catastrophe!

--Deixa l. O Chico o mais que quer  empregar-se. Ora o Rialva, pae,
tem influencia e, feitas as pazes do estylo...

--Sim, as pazes sentimentaes dos quintos actos dos dramas.

--Que influencia tem o Rialva?--perguntou, encolhendo os hombros, um
mallogrado aspirante  eleio popular.

--No. Est feito! O cunhado  empregado na secretaria do reino...

--E o ministerio deve-lhe servios.

--Ests enganado. Foi moda fallar-se ahi muito nos servios eleitoraes
do Rialva; pois eu digo-vos que elle nem quatro votos arranjou ao
Roboredo.

--Como no arranjou?  menino! Pois quem levou l o Roboredo?

--Quem levou l o Roboredo, foi...

--Eu te digo, Pires; elle teve em tempo alguma influencia no ministerio,
mas depois de um certo emprego na alfandega que pediu para o sobrinho, e
que no obteve, abandonou a regenerao...

--Que sobrinho? O que ns em Coimbra chamavamos o gigante Polyphemo? Oh
que alarve!

--Sempre foi um homem, que teve a habilidade de concluir o curso, e que
nunca se pde conformar com a existencia dos antipodas. Dizia elle que
at lhe fazia mal pensar na posio incommoda, em que haviam de viver
esses pobres diabos, se existissem...

--E um dia em que elle...

Unisona e estrepitosa gargalhada, partindo de um grupo, que estava j em
p no outro extremo da sala, interrompeu a historia.

Todas as attenes e todos os olhares convergiram para alli.

Eram quatro os rapazes que riam e riam at lhes carem as lagrimas dos
olhos. Junto d'estes, o quinto mostrava, em certo ar constrangido,
poucas disposies para expanso igual.

-- impagavel este homem!--dizia um dos que riam.

--Que foi? que foi?--perguntavam os que no faziam parte do grupo, rindo
j com anticipao tambem.

O dos ares constrangidos respondeu:

--No faam caso; so doudos.

--Que foi? digam--insistiam todos na sala.

-- aqui o Claudio Pires, que fez uma das suas descobertas.

--Eu disse...--tentou este interromper.

--Silencio!--bradaram muitos a um tempo.

--O Claudio!--continuou um dos que mais ria--ouvindo aqui o Loureno
fallar com elogio em um systema de comportas que viu no estrangeiro,
observou-nos que havia de se dar bem por l, porisso que nada se lhe
accommoda melhor com o estomago, depois de jantar, do que as comportas.

--Comportas de marmellos, ou assim uma cousa,  o que eu disse.

A justificao foi suffocada por um cro geral de gargalhadas.

--O barbaro era capaz de roer os diques dos Paizes Baixos e sacrificar a
Hollanda a uma geral inundao.

--Que terrivel capricho estomacal!

--Vejam do que est dependente a sorte dos imperios! Esta escapou a
Volney!

E os ditos succediam-se, e cruzavam-se os epigrammas, e a confuso subia
de ponto com isto.

At que emfim uma voz dominou o tumulto.

--Reparem que so onze horas e que  tempo de fazermos a nossa entrada
solemne nos bailes de mascaras.

Era o velho rapaz que fallava, e erguendo-se da mesa, exclamou, enchendo
o calix:

--s nossas conquistas d'esta noite!

--Apoiado!--disseram todos, imitando-o.--s nossas conquistas.

E seguiu-se tal arrastar de cadeiras, que parecia uma tempestade.

Passados alguns minutos, desembocavam do portal da Aguia os joviaes
companheiros, depois de um jantar, que durara oito horas.

Os passos de muitos resentiam-se do emprego d'esta tera parte do dia.

Um dos convivas, que estivera at alli quasi sempre silencioso, tomou
ento o brao de Carlos e, apoiado n'elle, caminhou, com movimentos mal
seguros, por o largo da Batalha, dizendo em tom confidencial e quasi
commovido, estas palavras, que ia entremeiando com prolongadas
aspiraes no tubo do volumoso cachimbo.

--Carlos, tu s meu amigo; talvez o nico amigo que eu tenho... Por isso
vou confiar de ti a ultima das impresses que eu revelei em verso... Eu
gsto de fallar d'isto s com quem me entenda. Os poetas precisam de um
corao para ecco. Almas de sensitiva...

Apesar da intimidade, em que ia feita a confidencia, muitos dos que a
ouviram acercaram-se d'elle, porque tinha certa nomeada o engenho
poetico e improvisador do que fallava assim.

Alguns porm j tinham travado conhecimento com varias mascaras
desgarradas, que encontravam caminho do theatro. Dois seguiam cantando a
plenos pulmes o duetto da Lucia:

_O' sole pi rapido a sorger t'apresta_

O poeta confidencial principiou a recitar com certo enthusiasmo quasi
selvagem, o seguinte hymno ao tabaco, o qual, devemos confessar, no era
muito para produzir ecco nos coraes:

  No centro dos circulos
  De nuvens de fumo,
  Um deus me presumo,
  Um deus sobre o altar!
  Nem d'outros thuribulos
  Me apraz tanto o incenso,
  Como o d'este immenso
  Cachimbo exemplar!

  Em divans esplendidos,
  Cruzadas as pernas,
  Fuma, horas eternas,
  O ardente Sulto.
  Subindo-lhe ao cerebro
  O magico aroma,
  Esquece Mafoma,
  Houris e Alcoro.

  Longe, oh! longe o opio,
  Que os sonhos deleita
  Da misera seita
  Dos Theriakis!
  Horror ao narcotico
  Que vem das papoulas!
  E ao que arde em caoulas,
  No altar do Caciz!

  Que a raa gentilica
  Das zonas ardentes
  Consuma as sementes
  Do arabio caf.
  Despejem-se as chavenas
  Da atroz beberagem
  Da cr do selvagem
  Da adusta Guin.

  E a tal folha exotica,
  Delicias da China,
  Por nossa m sina
  Trazida de l,
  Servida em familia,
  N'um morno hydro-nfuso?...
  Anathema ao uso
  Das folhas do ch!

  Nem tu,  alcoolico
  Humor dos lagares,
  Ters meus cantares,
  Meus hymnos ters.
  Embora das amphoras
  Vasado nas taas,
  Aos outros tu faas
  A lingua loquaz.

  Cerveja britannica,
  De furor espuma!
  De cousa nenhuma
  Me podes servir.
  Quando ouo do lupulo
  Gabarem proezas,
  s bcas inglezas,
  Desato-me a rir.

  Nem venha da camphora
  Prgar maravilhas
  O das cigarrilhas
  Famoso inventor.
  Raspail  scismatico
  E eu sou orthodoxo,
  O seu paradoxo
  No me ha de elle impr.

  Meu canto  da America,
  Paiz do tabaco,
  Perante o qual Baccho
  Seu sceptro partiu.
  A Europa, Asia, e Africa
  E a terra hoje toda
  Este heroe da moda
  De fumo cobriu.

  At na Laponia,
  Da gente pequena,
  Se fuma; e no Sena,
  No Tibre e no P,
  No Volga e no Vistula,
  No Tejo e no Douro;
  Que immenso thesouro
  Se deve a Nicot!

  Meus ridos labios
  Mais fumo inda aspirem
  Que os parvos suspirem
  Por beijos, aos mil.

  No quero outros osculos,
  No quero outra amante.
  Qual mais doudejante
  Que o fumo subtil?

  Tornadas Vesuvios,
  As bcas fumegam.
  De nuvens que cegam
  Vomitam montes.
  Fumar! Oh delicias!
  Prazer de Nababo!
  E leve o diabo
  Do mundo as paixes!

--Bravo!--disseram quantos o escutavam, devras enthusiasmados com a
musa do recitador.

O proprio Carlos sorriu, menos preoccupado j. Principiava a
dissipar-se-lhe a nuvem.

--Quem compra uma senha?!

--S. Joo! quem quer?

--Doze vintens, meus amos, doze vintens.

Com estes analogos preges caiu um bando de negociantes de senhas sobre
os recem-chegados da Aguia, que trataram de obter bilhetes da melhor
maneira possivel. Cdo entravam no salo do theatro, onde j centenares
de pessoas morriam de calor, de asphyxia e de tdio; e eram trilhadas,
apertadas, esmagadas quasi, aos encontres dos mascaras, arrebatados
n'um galope vertiginoso.

O leitor, que todos os annos costuma saturar-se de fastio alli tambem,
com boa vontade me dispensar de o constranger a repetir mais outra vez
a operao, recordando essas horas de insipidez, a que se sujeita, sob
pretexto de gosar o carnaval no Porto, e para fazer o que todos
fazem;--uma das mais poderosas razes dos nossos actos na vida.

Pedindo venia por tanto tempo o haver demorado, em diverso fra dos
seus habitos, provavelmente mais pacificos--o que fiz s por a
necessidade que tinha de mostrar em aco o caracter do nosso heroe e
exemplificar o seu systema de vida e sua companhia habitual--concordo em
que nos retiremos e vamos a scenas menos agitadas do que estas, que nem
consolam, nem divertem.




IV


UM ANJO FAMILIAR


Vae adiantada a manh do dia seguinte quelle, em que se passaram as
scenas descriptas j. So mais de onze horas, Carlos dorme ainda.

Recolhera-se  hora critica, em que principiam a desmaiar as estrellas
no firmamento, a agitarem-se nos ninhos as aves e a soarem na rua os
scos de alguns operarios mais matutinos. Que admira pois que durma, a
sonhar talvez a continuaco, favoravel aos seus desejos, de qualquer
aventura incompleta do baile da vespera?

A situao da casa de Mr. Richard Whitestone facilitava esta infraco
dos direitos do dia, que se fez para vigilias e trabalho, e no para
sonhos e repouso.

O leitor, que  do Porto, quasi me dispensa de dizer-lhe que era o
bairro de Cedofeita aquelle, onde a familia Whitestone vivia.

Esta nossa cidade--seja dito para aquellas pessoas, que porventura a
conhecem menos--divide-se naturalmente em tres regies, distinctas por
physionomias particulares.

A regio oriental, a central e a occidental.

O bairro central  o portuense propriamente dito; o oriental, o
brazileiro; o occidental, o inglez.

No primeiro predominam a loja, o balco, o escriptorio, a casa de muitas
janellas e de extensas varandas, as crueldades architectonicas, a que se
sujeitam velhos casares com o intento de os modernisar; o saguo, a
viella independente das posturas municipaes e  absoluta disposio dos
moradores das vizinhanas; a rua estreita, muito vigiada de policias; as
ruas, em cujas esquinas estacionam gallegos armados de pau e corda e os
cadeirinhas com o capote classico; as ruas ameaadas de procisses, e as
mais propensas a lama; aquellas onde mais se compra e vende; onde mais
se trabalha de dia, onde mais se dorme de noite. Ha ainda n'este bairro
muitos ares do velho burgo do Bispo, no obstante as apparencias
modernas que revestiu.

O bairro oriental  principalmente brazileiro, por mais procurado pelos
capitalistas, que recolhem da America. Predominam n'este umas enormes
moles graniticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de
azulejo--azul, verde ou amarello, lizo ou de relvo; o telhado de beiral
azul; as varandas azues e douradas; os jardins, cuja planta se descreve
com termos geometricos e se mede a compasso e escala, adornados de
estatuetas de loua, representando as quatro estaes; portes de ferro,
com o nome do proprietario e a era da edificao em lettras tambem
douradas; abunda a casa com janellas gothicas e portas rectangulares, e
a de janellas rectangulares e portas gothicas, alguma com ameias, e o
mirante chinez. As ruas so mais sujeitas  poeira. Pelas janellas quasi
sempre algum capitalista ocioso.

O bairro occidental  o inglez, por ser especialmente ahi o _habitat_
d'estes nossos hospedes. Predomina a casa pintada de verde-escuro, de
rxo-terra, de cr de caf, de cinzento, de preto... at de
preto!--Architectura despretenciosa, mas elegante; janellas
rectangulares; o peitoril mais usado do que a sacada.--J uma
manifestao de um viver mais recolhido, mais intimo, porque o peitoril
tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo
dos jardins; jardins assombrados de acacias, tilias e magnolias e
cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas.
Chamins fumegando quasi constantemente. Persianas e transparentes de
fazerem desesperar curiosidades. Ninguem pelas janellas. Nas ruas
encontra-se com frequencia uma ingleza de cachos e um bando de creanas
de cabellos louros e de babeiros brancos.

Taes so nos seus principaes caracteres as tres regies do Porto; sendo
desnecessario acrescentar que n'esta, como em qualquer outra
classificao, nada ha de absoluto. Desenhando o typo especifico, nem
estabelecemos demarcaes bem definidas, nem recusamos admittir algumas,
e at numerosas excepes, hoje mais numerosas ainda do que ento, em
1855.

 claro pois que era n'este ultimo bairro que residia o illustre Mr.
Richard, e sua familia.

O nome da rua sou obrigado porm a occultal-o, para evitar indiscries
mal sofridas em terras, onde todos se conhecem.

A casa, essa posso descrevel-a, ainda que o farei com o devido
artificio, para a no trahir para com algum leitor mais desoccupado.

Era uma das taes casas escuras, com vidraas de caixilhos brancos,
retirada ao fundo de um jardim, nas grades do qual se entrelaavam to
intimamente as folhas sempre verdes das Australias e os ramos floridos
de japoneiras gigantes, que resguardavam de vistas curiosas as avenidas
irregularmente traadas por entre relva digna de uma paizagem ingleza.

A casa tinha um andar apenas, alm do mirante. Uma especie de pavilho,
ou corpo lateral, seguia um dos lados do jardim, e vinha abrir tres
amplas janellas para a rua, que era das menos frequentadas da cidade.

Era n'este pavilho o quarto de Carlos.

Toda aquella residencia respirava certo ar de commodidade, certo
_confortable_, esse sympathico adjectivo do vocabulario inglez.

Andavam-lhe por longe as vozes discordantes da industria e do commercio,
to funestas s encantadas vises dos somnos matinaes.

Tudo parecia fomentar aquelle dormir reparador de Carlos, que ia
absorvendo a manh inteira, pelo menos segundo a maneira de contar o
tempo dos poucos, que ainda hoje comeam a dar as boas tardes logo
depois do meio dia.

Jenny nunca podia adormecer emquanto no ouvisse entrar o irmo,
circumstancia que, no obstante, lhe occultava para o no constranger
nos seus prazeres, ou de que apenas o fazia conhecedor, quando n'esse
constrangimento preva utilidade.

Tendo por isso notado a hora avanada a que, d'aquella vez, Carlos
voltra a casa, deixava-o agora dormir para que restaurasse as foras
perdidas pela vigilia da vespera e porventura necessarias para vigilias
novas.

Como uma joven me, solicita pelo somno do seu primeiro filho, desde
manh cdo a viam os criados apparecer nas proximidades dos aposentos do
irmo, a prevenir e afastar o menor ruido, que podesse despertal-o.

No extenso corredor, que medeiava entre o quarto de Carlos e o resto da
casa, passeiava, desde o alvorecer, e com passos levissimos, essa doce
figura de mulher, como se fora o anjo da guarda d'aquelle estouvado, que
nem suspeitava sob que azas protectoras adormecera.

s vezes parava junto da porta de Carlos, e applicando ahi o ouvido
attento, parecia espiar o menor rumor que de dentro sasse, a
denunciar-lhe o acordar.

Depois afastava-se e dirigia-se lentamente para a sala opposta, onde a
inspeccionar e dirigir os preparativos do _lunch_ de Mr. Richard, cujas
horas se aproximavam j.

N'uma d'estas occasies, em que voltava de dentro do quarto do irmo,
encontrou-se com um criado, rapaz ainda, o qual, encostado  ombreira da
porta do jardim, parecia to dominado por pensamentos penosos, que nem
lhe deixaram perceber a aproximao de Jenny.

A joven ingleza olhou-o com bondade, e parando junto d'elle
perguntou-lhe:

--Como est sua me, Jos?

O rapaz voltou a si e tomando logo uma attitude de respeito, respondeu:

--Hoje ainda no sei, minha senhora; hontem porm deixei-a bem mal.

--Hoje no sabe?!--exclamou Jenny, desviando o olhar para o relogio do
corredor, que marcava onze horas e meia--No sabe, e  perto de meio
dia!

--Ento, minha senhora? Como o snr. Carlinhos se levanta mais tarde...

--V vel-a, Jos, v. N'aquelle estado, coitada!... Sabe l a falta que
lhe estar fazendo?

--Mas, se...

--V; Carlos no lhe importa. Eu lhe direi. Ande, v.

--Ento muito agradecido, minha senhora,--disse o rapaz, sensibilisado
com a bondade da sua joven ama.

Jenny continuou passeiando.

Ao passar junto das escadas do mirante, parou, affirmando-se em alguma
cousa, que via n'ellas. Subiu dois ou tres degraus e curvou-se para
observar melhor; era uma penna de ave, que o vento transportra do pateo
para alli. Jenny no pde reprimir um pequeno movimento de desagrado.

O escrupuloso amor do asseio, radicado no caracter e nos habitos
inglezes, no lhe permittia ver com indifferena aquillo.

--Varreram-se hoje estas escadas, Pedro?--perguntou ella a um criado,
com longo avental branco, que n'aquelle momento passava no corredor.

--Varreram, sim, minha senhora--respondeu este.

--Repare--acrescentou Jenny.--A fallar verdade so bem pouco cuidadosos.
Veja esse corrimo cheio de p.

-- que se tornou a sujar. O vento...

--Seria; mas no tira que se limpe outra vez.

--De certo; eu vou j.

--E olhe--continuou Jenny, indicando as vidraas, que davam para o
jardim--passe tambem com um panno humedecido por esses vidros to baos
e d lustro aos metaes dos fechos.

--Sim, minha senhora; e digo tambem ao hortelo que ensaibre o jardim;
depois da chuva que tem cado bem precisa d'isso--lembrou o criado, como
todos os d'esta classe, mais zeloso em superintender nas tarefas dos
outros do que em cumprir as suas.

Jenny fez um gesto de assentimento e passou para diante. Entrou na sala
de jantar.

Lanou o olhar para a mesa, onde, sobre toalha de alvissima bretanha,
brilhavam os mais puros crystaes e mais preciosa loua ingleza.

Esteve algum tempo a examinar com atteno as particularidades do
servio, accusando por vezes no gesto algum defeito que percebia.

--Pedro--chamou ella por fim, apoiando a mo no espaldar da cadeira,
destinada a Mr. Richard.

O criado, que andava no corredor, acudiu ao chamamento.

--Ento onde pz a mostarda?

--Ai!  verdade.

O criado correu ao aparador a buscar esse indispensavel artigo da
cozinha britannica.

--Veja como dobrou esse guardanapo.

O criado apressou-se a corrigir a imperfeio notada.

--Aquelle po no  o que o pae quer para os _lunchs_. Bem sabe.

--Tem razo, minha senhora.

O po foi substituido com celeridade, verdadeiramente ingleza.

--Desvie mais para o centro aquellas flores. To perto do fiambre no;
chegue o prato mais para c. Assim. Veja esse trinchador como ficou.
Ficou peior agora. Assim. Ponha o _Times_ ahi ao lado. Est bom. Pde
ir.

Ficando s, por suas proprias mos deu ainda um geito particular a tudo,
attendendo a pequenas circumstancias muito do agrado de Mr. Richard e de
que s ella tinha conhecimento; necessidades pueris, mas necessidades a
final, e de que ninguem  isento. Correu as cortinas das janellas, para
dar  sala aquellas meias sombras discretas, tanto do gosto inglez, e
voltou de novo ao corredor.

Alguns passos dados, veio a ella uma criada, ainda nova, com os olhos
baixos e maneiras enleiadas.

--Que tem, Luiza?--perguntou-lhe Jenny.

--Venho dizer adeus a _miss_ Jenny, porque me vou hoje embora.

--Como vae embora! Quem a mandou?

--Ninguem, mas...

--No est bem?

--Se estou, mas...

--Ento?

--A _miss_ Jenny sabe que a minha irm estava a servir ahi para fra da
cidade. O trabalho era muito, coitada, e ella era to fraca! Lidou
quanto pde, at que emfim cau doente. Vae para casa de minha me. Mas
como ha de tratal-a a pobre de Christo? ella, quasi entrevada e cega?
Meus irmos andam todo o santo dia por fra, e para pagar 
enfermeira?... Quem pensa n'isso? Assim vou eu... e, quando ella se
achar melhor, se a _miss_ Jenny me quizer outra vez...

--A Luiza no pde de modo nenhum deixar-nos agora.

--Mas...

--Escute; se quizer tratar de sua irm, traga-a para ahi.

-- minha senhora...

--Prepare-lhe aquelle outro quarto do mirante.

--Seja por amor de Deus...

--Olhe, Luiza--apressou-se a interrompel-a Jenny--v ver se me aprompta
aquelles punhos que eu lhe disse, v.

--Vou j fazel-o, minha querida senhora--disse a rapariga, a quem
palpitava o corao alvoroado de contentamento.

N'isto ouviram-se gritos agudos, desentoados, pungentes, que fizeram
parar Jenny e assombraram-lhe a fronte serena de uma nuvem de tristeza.
Vinham do andar superior aquelles gritos.

O criado, vendo-a parada a escutal-os, disse meio compungido, meio a
sorrir:

-- a snr. Catharina; tem estado desde hontem to impaciente!

--Pobre Kate!--murmurou Jenny, suspirando--e subiu com ligeireza as
escadas, que conduziam ao mirante.

Catharina ou Kate, segundo a familiar abreviatura ingleza, era uma
criada octogenaria, que tinha sido ama de Mr. Richard e jazia agora,
paraplegica e demente, n'um dos quartos da casa, vigiada com carinho
pela familia Whitestone e com impaciencia, a custo reprimida, por os
criados e criadas. Em certos dias os accessos da velha eram furiosos e
as suas imprecaes, em lingua mestia de portuguez e de inglez, e os
seus gritos horripilantes punham em alvoroo toda a casa. Em momentos
assim era difficil apazigual-a; to violentas gesticulaes fazia, que
poucos eram os braos para impedir-lhe que se maltratasse.

--Ces!--bradava ella agora, n'aquelle estranho _imbroglio_ linguistico,
impossivel de reproduzir aqui e que fazia rir as criadas que a
seguravam--Ces! Teem-me aqui presa! Querem matar-me  fome!  fome! Mas
deixem estar que em vindo Dick... Elle ha de vir, ha de vir! Larguem-me!
Dick! Dick!--Era o nome familiar que ella dava ainda a Mr.
Richard.--Dick! pois assim queres matar-me? assim queres ver-me morrer?
No tens pena de mim? Dick! Fui eu que te trouxe ao peito, eu... Olha
que sou a pobre Kate Simpleton. Dick! Dick! Livra-me d'estes demonios,
que me querem afogar. Que mal te fao eu, para me deixares morrer?
Larguem-me!

E por um esforo inesperado d'aquelles braos emaciados e fracos, soltou
os punhos das mos, que os seguravam, e levando-os s faces, feria-se no
rosto encarquilhado e contrahido.

N'isto entrou Jenny no quarto.

A velha apoderra-se de uma faca, que por descuido lhe tinham deixado ao
alcance da mo.

Jenny fez signal s criadas para que se afastassem do leito e
aproximou-se d'elle.

--Cuidado, _miss_ Jenny!--disse a despenseira, gorda, ruiva e sardenta
matrona ingleza, que suava ainda com o esforo que sustentra.

--Cautela, menina!--repetiu a outra criada, musculosa portugueza dos
arredores da Maia--Olhe que ella  perigosa n'estas occasies.

Jenny no as attendeu.

Chegou-se ao leito da velha demente e passou-lhe nos pulsos as mos,
delicadas e debeis.

A velha estremeceu e fitou n'ella o olhar espantado e ameaador.

--Bons dias, Kate--disse-lhe affavelmente Jenny, sem que no rosto,
risonho e sereno, se desenhasse a menor sombra de receio.

Kate ficou a olhal-a por algum tempo d'aquella maneira.

--Ento que ruindade  esta hoje, Kate? Nem me conheces?

A velha principiou a socegar; conservava-se porm ainda muda, e no
desviava de Jenny os olhos espantados.

--No me conheces, ama?--continuou esta, em tom mais affectuoso--Kate,
ento? J nem queres conhecer a Jenny?

O rosto da octogenaria illuminou-se com um sorriso estranho, selvagem
quasi; a cabea principiou a agitar-se-lhe em movimento affirmativo,
que, pouco a pouco, augmentou de velocidade, at  rapidez de certos
desordenados gestos proprios d'aquelles estados de espirito; a mo
soltou a faca que ainda segurava.

--Eu logo vi que me conhecias--dizia Jenny, afastando-lhe
compassivamente os cabellos da fronte enrugada.--E has de estar quieta,
no has de?

--Sim, sim--dizia a velha, a rir como creana, e lanava os braos em
volta do collo de Jenny, aproximava-a do seio e beijava-a, murmurando
com voz chorosa as mais ternas expresses de affecto da lingua ingleza.

--Sim, sim, _poor thing_; sim--repetia muitas vezes, cingindo-a a cada
momento mais a si.

--Ai, _miss_ Jenny, _miss_ Jenny!--dizia a despenseira aterrada.

Jenny fez-lhe signal com o dedo, a impr-lhe silencio, ou a mandal-a
sar.

A demente, tomando a cabea de Jenny, principiou a balanar-se como a
adormecer creanas, e cantava ao mesmo tempo uma melancolica toada, com
a qual, havia cincoenta annos, adormecera j o pequeno Dick, actualmente
Mr. Richard Whitestone.

Eis o sentido da cano que, em dialecto escossez, ella cantava:

  Dorme, filho, que eu vigio,
  E emquanto dormes, sorri;
  Que a tua poro de lagrimas
  Eu as chorarei por ti.

Jenny no lhe offerecia resistencia. A velha chorava, cantando; a voz
ia-se-lhe a enfraquecer gradualmente; por fim tomou-a um d'aquelles
profundos somnos, que parece, n'esses estados, participarem j do
caracter do somno final, que no vem longe.

Adormeceu entoando em voz j mal percebida:

  A tua poro de lagrimas...
  Eu as chorarei... por ti...

Jenny desprendeu-se-lhe ento dos braos, conchegou-lhe a roupa, fechou
a janella, e, recommendando silencio aos criados, desceu.

No fim dos degraus encontrou sentado o jardineiro da casa, com o rosto
entre as mos e soluando.

--Que  isso, Manoel?

O velho ergueu-se com sobresalto.

--Ai, menina Jenny,  que... veja.

E apontou para o degrau da porta do jardim, onde jazia partido um vaso
de porcelana com uma preciosa begonia.

--Como foi isto?--perguntou Jenny.

--O pae mandou-me trazer do quarto d'elle para a estufa este vaso e
tanto cuidado me recommendou! e vae eu... veja a minha desgraa, logo ao
descer a escada escorrego... Valha-me Deus, valha!

--Socegue. Meu pae no lhe ha de ralhar muito...

--Pois sim; mas se elle tanto me recommendou! E era um vaso de tanta
estimao! Ai, como me principia hoje o dia, Senhor.

Jenny viu, commovida, a afflico do velho, que nem tinha coragem para
apresentar-se diante de Mr. Richard.

A bondosa rapariga baixou-se, e tomando os dois fragmentos do vaso, onde
se continha ainda a terra com a begonia, uniu-os cuidadosamente, e
descendo ao quintal, caminhou, segurando-os, em direco da estufa.

--Onde vae, menina?--dizia o jardineiro admirado.

Jenny no lhe respondeu.

O velho seguiu-a.

Ao aproximar-se da estufa, onde Mr. Richard labutava em cuidados de
jardinagem, Jenny disse-lhe, levantando a voz:

--No quiz confiar a ninguem este vaso, porque... Ai!

Era o vaso, que lhe caa das mos, e vinha fazer-se pedaos no cho, 
entrada da estufa.

--Oh!--disse Mr. Richard, correndo em soccorro da begonia.

--Vem, vem!--dizia Jenny, fingindo-se consternada--como Deus me
castiga a presumpo!

-- verdade--disse Mr. Richard agachado--um vaso to bonito! Creana!
Olhem para esta pobre begonia! Como ficou!

--Est vingado, Manoel--continuou Jenny.--Eu a desconfiar de si, e
vae...

O velho hortelo no podia fallar; emquanto Mr. Richard examinava os
estragos da begonia, elle cobria de beijos a mo de Jenny, que no pde
retiral-a a tempo.

Era meio dia.

--Vamos,--disse Jenny a Mr. Whitestone--perde-me a culpa e venha ao seu
_lunch_.

Mr. Richard olhou affectuosamente para a filha, a quem afagou nas faces
e, separando-se com um suspiro da begonia, seguiu para casa, murmurando,
a sorrir:

--Estouvada! buliosa!

No degrau da escada no escapou  vista aguda de genuino inglez a terra,
que ficra alli, como vestigio do delicto de Manoel. Jenny, que o
percebeu, apressou-se a dar uma causa ao facto.

--Fui eu que estive a mudar aquellas raizes, que vieram de Inglaterra...

--J! No sei se seria bom. Vamos ver como ficaram.

--Agora no, que so horas do seu _lunch_.

Mr. Richard no insistiu e dentro de alguns segundos procedia j aos
preparativos d'esta refeio matinal.




V


UMA MANH DE MR. RICHARD


Mr. Richard era de uma rigorosa pontualidade nos seus actos de vida
domestica. Logo pela manh, depois de uma leitura de _Biblia_ e de uma
revista  preciosa colleco de aves e de insectos de Inglaterra, que
possuia, consultando a proposito os livros de Yarrell, Shuckard, Rennie,
e de outros especialistas da localidade, passava a gosar no jardim das
bellezas matutinas e a exercer a sua paixo florista, cavando, mondando,
semeiando os seus bem guarnecidos canteiros. Esta occupao matinal de
Mr. Richard, foroso  confessal-o, no era demasiadamente favoravel ao
horto, para com o qual elle tinha alis as melhores intenes d'este
mundo.

Apesar de no seu gabinete se encontrarem constantemente abertos livros
de botanica e de horticultura desde a _Flora Londinensis_ de Curtis e as
obras completas de Lindley, at s publicaes periodicas das varias
sociedades horticolas de Londres, Mr. Richard Whitestone costumava fazer
sciencia por sua conta e risco. Despresando os preceitos dos escriptores
theoricos, juntamente com a experiencia provada do velho Manoel,
ensaiava s vezes processos, no referidos nos manuaes de jardinagem,
com grave detrimento das mimosas e raras plantas, cuja acquisio, por
todo o preo, obtinha nos melhores mercados da Europa e principalmente
no _Covent-Garden market_ e no _Pantheon de Oxford Street_.

A natureza tinha sempre muito que fazer ao remediar os resultados da
arte do velho commerciante.

Felizmente para o aspecto geral do jardim, Mr. Richard Whitestone era
exclusivo nas affeies floristas. A uma unica planta dedicava, em cada
poca do anno, os seus cuidados horticultores. Por aquelle tempo, eram
as begonias as suas predilectas. Ia um destroo n'ellas, occasionado por
tanto amor e cuidados, que consternava o velho Manoel, devras
affeioado s plantas.

Mr. Whitestone ensaira nas pobres uma especie de rega,  qual grande
numero succumbiu. Era um liquido artificial de uma composio indigesta,
e em que elle procurra reunir todos os elementos, que julgra mais
proprios para lhes desenvolver a vegetao.

--Isso queima-lhe as folhinhas!--aventurra-se a dizer Manoel, vendo Mr.
Richard a temperar aquella caldeirada.

--Cala a bca, tolo. Vers como ficaro viosas.

 vista do resultado, Mr. Richard teve porm de abandonar o processo,
mas sem se dar por vencido.

-- que estes vasos so pouco porosos... Hei de mandar vir de Londres
uns.

Era uma maneira muito de Mr. Richard, esta de sair das situaes
apertadas. Appellava sempre para Londres, como fiel inglez que era.

N'estes entretenimentos levava pois o tempo at  hora do _lunch_.

Voltava ento a casa. Era uma verdadeira hecatombe de ostras qualquer
refeio d'estas. O mercado do Porto a custo pde satisfazer as
exigencias dos numerosos malacozoofagos da colonia ingleza, entre os
quaes Mr. Whitestone occupava logar eminente. O _roast-beef_  ingleza,
ou o fiambre, a mostarda, as batatas, a bolacha, a cerveja, o queijo de
consistencia pastosa forneciam tambem estes _lunchs_, accommodados 
robustez d'aquelle estomago saxonio, descendente dos que ainda no quinto
seculo da era christ eram antropophagos--segundo affirma o auctor da
_Viagem de Jersey a Gran-ville_.

Carlos fazia de ordinario companhia ao pae n'este repasto matinal. Mr.
Richard gostava de ver o filho junto de si, em to solemnes momentos,
comquanto no trocasse com elle meia duzia de palavras; passados os
cumprimentos iniciaes, era costume seu abrir o _Times_ e acompanhar o
acto manducatorio da leitura d'este interminavel jornal, interrompendo-a
apenas por alguma certa phrase a recommendar ou criticar um ou outro
prato.

Porisso a ausencia de Carlos n'esta manh cavou-lhe uma ruga de
descontentamento na fronte, que os ares do jardim haviam expandido, e
suspendeu-lhe a aria festiva, mas por elle um tanto estragada, que entre
dentes vinha trauteando ao entrar na sala.

Esta musica era a de uma das melodias de Russell, popularissimo
compositor e vocalista inglez, a cujas salas, por aquelle tempo, corria
em Londres a multido vida e enthusiasta, com o fim de o ouvir cantar
as proprias composies, que elle mesmo acompanhava ao piano. Nas salas,
nos theatros, nas ruas e nos campos, tanto na Inglaterra, como na
America do Norte, l-se em noticias d'essa poca, repetiam-se as
composies d'este musico notavel, cujo caracter nacional se
aperfeioara na convivencia da escola italiana, sem perder com isso,
diz-se, o cunho da originalidade.

De entre a colleco de melodias, ou cantos populares, publicadas
n'aquelle anno em Londres, e procuradas com alvoroo pelos amadores
nacionaes espalhados por todo o mundo, havia uma que Mr. Richard sobre
todas amava. Era essa a que vinha trauteando ao entrar na sala.

Tanto na indole d'este musico, como na da lettra, que assigna o nome do
dr. Mackay, encontrava-se de facto muito do caracteristico genio inglez,
para justificar de sobra esta preferencia.

 um canto de animao aos numerosos bandos de emigrados, que de todos
os pontos da Gran-Bretanha partem a cruzar os mares,  procura da
riqueza, e, sem lagrimas, se despedem do bero natal, que todavia amam
com fervor. Se  licito admittir que, n'estas luctas travadas no seio da
sociedade actual para conquistar a riqueza, pde ainda incidir um raio
d'aquelle esplendor pico, de que se illuminam os trabalhos analogos do
mythologico Jason, de certo os inglezes so os heroes d'essas epopeias
modernas. Aquelle desprendimento com que se separam do que amam quasi
com fanatismo--a patria e a familia--, aquella coragem estoica, que os
alenta nos revzes, e a firmeza de animo, que nas victorias lhes evita
os somnos perigosos, do a esses argonautas do commercio um prestigio
respeitavel, que certas ridiculas exterioridades no podem suffocar.

Como complemento ao estudo do caracter de Mr. Richard Whitestone daremos
aqui a traduco dos versos do dr. Mackay, por ser o conceito d'elles
afinado pelo sentir do honrado negociante.

Era esta mesma cano a que os soldados inglezes entoavam na Crimeia,
durante a campanha d'aquelle tempo; e ao partirem da patria, emquanto os
instrumentos marciaes soltavam aos ventos as notas d'este canto popular,
milhares de espectadores cantavam unisonos:

  _Cheer, boys!, cheer..._

que so as primeiras palavras do hymno, que traduziremos assim:

Eia! rapazes, eia! Longe de ns a ociosa tristeza. Almas varonis, a
coragem nos alentar no caminho! A esperana impelle-nos para diante, e
mostra-nos um esplendido manh; esqueamos portanto a escuridade de
hoje.

Adeus, pois,  Inglaterra! Ficam-te ainda muitos filhos, que como ns te
amem.

Ns enxugaremos as lagrimas, que ao principio derramamos. Porque havemos
de chorar, ao soltarmos as velas em busca da fortuna? Adeus, pois,
adeus, Inglaterra! adeus para sempre.

Eia! rapazes, eia! pelo paiz! pelo paiz natal!--Eia, rapazes! a vontade
forte imprime vigor ao brao. Eia! a riqueza recompensa o trabalho
honrado; eia! eia, rapazes! pela nova terra, pela terra feliz!

Eia! uma favoravel briza sopra para nos impellir livremente sobre o
dorso do oceano; o mundo seguir-nos-ha pela esteira que deixarmos; no
Occidente brilha a estrella do imperio. Aqui temos fadigas e pouco a
recompensal-as; alm a abundancia sorrir s nossas penas; e nossas
sero as planicies e as florestas, e o gro dourado amadurecer para ns
em campos sem limites.

Foi pois a musica correspondente a esta cano que Mr. Richard
interrompeu quando, ao entrar na sala, viu que com um unico talher
estava preparada a mesa.

--Carlos est ainda na cama?--disse, voltando-se para Jenny e n'um tom,
em que se revelavam ligeiros indicios de mau humor.

Cumpre-me avisar aqui os leitores de que, para dupla commodidade, minha
e sua, farei fallar portuguez a Mr. Richard e at segundo as regras de
uma grammatica, cuja auctoridade elle nunca reconheceu.

Jenny sentiu a necessidade de advogar a causa do irmo junto de Mr.
Richard, que, j bastante indisposto com a ausencia de Carlos no dia do
seu anniversario, encarava agora com maus olhos taes excessos de
indolencia filial.

Profundo admirador das bellezas d'este mundo sublunar, Mr. Richard
olhava o somno como um invejoso, que nos furta algumas horas de prazer
n'esta vida, e ao qual, obrigado a fazer ligeiras concesses, tratava
sempre como inimigo.

 interrogao paterna, Jenny respondeu:

--Ainda.

--Ho!--acudiu Mr. Richard, com a sua monosyllabica e guttural
interjeio de desgosto, acompanhando-a dos accessorios do costume.

Jenny acrescentou:

--Charles teve de se recolher hontem mais tarde...

--Escolheu bem o dia.

--No se lembrava...

--Exquisito!

--Creia que se no esqueceria assim, se se tratasse do dia 3 de julho,
do anniversario do pae.

Mr. Richard sentou-se e pz-se a ler o _Times_.

Jenny sentou-se defronte d'elle, mas arredada da mesa.

--E, como se deitou tarde--proseguiu ella, passado tempo--e eu receei
que a falta de descanso lhe podesse fazer mal, ordenei que o no
chamassem.

--Ento veio muito tarde?

--Julgo que ... s duas horas...--balbuciou Jenny.

O criado, que comera a servir Mr. Richard, pensou fazer um obsequio
corrigindo:

--Perdo, miss Jenny, passava j das quatro.

--Ho!--repetiu Mr. Richard.

Jenny olhou para o criado de maneira, que lhe deu a conhecer a
inconveniencia da correco.

--Foi uma promessa, que Charles fez a uns amigos...--disse ella--e s
soube o dia que era, quando j no ia a tempo de recusar.

Mr. Richard no precisava de ouvir mais nada, para suspender as suas
censuras. Tinha j perdido o habito de discordar da filha. Porisso s
respondeu, lendo o _Times_:

--Sim, sim. Est bom. O mal d'essas extravagancias  d'elle e porisso...

N'isto entrou, aos saltos, na sala um d'esses pequenos ces felpudos,
pretos e pardos, verdadeiros Atilas dos ratos e rivaes dos velhos
exterminadores d'esta raa perseguida.

--_O' Butterfly, good morning! How do you do, sir?_--exclamou Mr.
Richard, saudando o seu co predilecto, que lhe estendeu a pata como
para um _shake-hand_. Havia n'isto um requerimento a uma fatia de
fiambre, o que o inglez no indeferiu.

O pequeno quadrupede sentou-se ento com familiaridade na cadeira
devoluta ao lado do seu dono, fazendo a devida justia s sobras do
_lunch_, que lhe cabiam em partilha.

Jenny erguia-se a cada momento para servir o pae, attendendo a
particularidades, futeis de mais para merecerem a observao do criado
ou de outrem, que no fosse uma filha.

N'uma d'estas occasies, Mr. Richard, como se no tivesse perdido ainda
o fio da conversa anterior, disse a meia voz:

-- que ha oito dias, que nem apparece no escriptorio e ...  feio isso.

Jenny no respondeu.

Era claro que durante todo o tempo, em que tinham guardado silencio, o
mesmo pensamento occupra o espirito de ambos.

Receio que os redactores do _Times_ no tivessem d'esta vez conseguido
captivar a atteno do seu leitor.

Levantou-se por fim o inglez.

Lavando as mos e estendendo a vista pelos floridos taboleiros do
jardim, murmurava ainda:

--Parece mal.  mau costume.

E sau da sala para o gabinete.

Jenny acompanhou-o.

--E demais nem tanto custa--dizia elle ainda, pelo caminho.

Enfiando o sobrecasaco e aceitando das mos de Jenny o chapo e a
bengala, continuou no mesmo tom:

--D logar a que se diga ... a que se repare...

Calando as luvas de pellica cr de canna, por uma exquisitice
patriotica mandadas vir de Inglaterra directamente, resmoneou ainda:

--No sei que custe muito estar alguns minutos no escriptorio.

E, passado um momento:

-- feio,  feio.

Parecia emfim disposto a sar, mas Jenny, costumada a observal-o,
descobria-lhe certa hesitao, como se se travasse n'elle uma lucta
entre duas resolues encontradas.

--At logo, Jenny--dizia Mr. Richard, mas sem acabar de partir.

--No sei o que me esquece!--murmurou depois com manifesta perplexidade.

Jenny correu os olhos pelo quarto.

--O leno?--perguntou, offerecendo-lhe um que vira sobre o toucador.

--Ah! o leno, sim ... o leno...

Era evidente que no estava satisfeito ainda.

--Agora ... no me falta nada; adeus.

Jenny julgou que d'esta vez sempre saria.

--Ah! sim--continuava elle, parando novamente.

Jenny fitou-o com olhar interrogativo.

--No sei o que... Ah!... Ento... ento Carlos... no se levanta esta
manh?

--Se quer que o chame?

--No, no...  que...

E depois, interrompendo-se:

--No  nada.

--Deseja que lhe d algumas ordens?

--No... mas... Emfim, o que  tem tempo.

--Mas diga; Charles no deve tardar a erguer-se...

-- que...

E Mr. Richard, com certo modo embaraado, aproximou-se da secretria,
abriu-a e tirou de l um magnifico relogio e corrente, de construco
ingleza, objecto que expressamente havia encommendado de Londres para
presentear o filho no dia dos annos d'elle.

A ausencia de Carlos na vespera impedira-lhe realisar o affectuoso
intento.

Agora como que sentia vergonha de ter a sua affeio resistido inteira
ao delicto filial, e de no lhe restar j no corao fora bastante para
reprimir as expanses d'ella.

--Ahi est--dizia Mr. Richard a Jenny, procurando com um tom sacudido
tirar s palavras a menor sombra de affecto.--Se quizeres, pdes dar
isso a teu irmo. Para elle  que eu o destinava, se hontem...

Jenny tomou o relogio das mos do pae, a quem agradeceu com um sorriso
de ternura.

Mr. Richard proseguiu:

--Que eu no sei se Carlos o querer; ainda que  objecto de preo...

--O maior preo  ser uma lembrana sua, senhor.

Mr. Richard resmoneou um monosyllabo inglez e ensaiou um gesto de
inveterado scepticismo, que no lhe sau muito expressivo.

Jenny acrescentou:

--E de mais preo ainda, se das suas proprias mos o recebesse.

--Queres talvez que v acordar Carlos, para que me faa o favor de me
aceitar as minhas prendas?--perguntou o pae com certo azedume.

--Mas se... logo ao jantar...

--Talvez no nos d a honra de nos fazer companhia.

--Oh! se Carlos soubesse...

--Nada, nada. Entrega-lh'o tu, se quizeres.

E, dizendo isto, sau da sala, atravessou o jardim e dentro em pouco
tempo transpunha o porto da rua.

O criado, que o encontrou no corredor, ouviu-o murmurar ainda:

--Parece muito mal.

Mas, chegando  rua, j ia apparentemente satisfeito. Caminhava com a
rapidez, peculiar ao povo para o qual o tempo  dinheiro, dirigia ao
favorito _Butterfly_ phrases de cordial affecto e trauteava por entre
dentes o popular--_Cheer, boys, cheer!,..._




VI


AO DESPERTAR DE CARLOS


Jenny ficou ainda por muito tempo immovel junto da porta, onde se
despedira do pae. O olhar corria-lhe pelos objectos que a rodeiavam; o
pensamento porm no acompanhava o olhar.

Aquellas feies, em que se podia reconhecer, mysteriosamente, combinada
 candura de uma creana no sei que severidade, toda maternal, tomavam
agora um ar de preoccupao e melancolia, uma d'essas sombras, que as
ideias graves parece projectarem no semblante de quem no aprendeu a
dissimulal-as.

Jenny presentia haver chegado uma nova occasio de ser necessario
intervir com a sua influencia pacificadora e angelica para dissipar a
nuvem, embora tenue, que assomava no horizonte domestico.

Exercera j de um dos lados essa influencia, conseguira adoar as
disposies acerbas de Mr. Richard para com o filho; faltava-lhe porm o
resto, estava ainda incompleta a obra; era preciso ensaial-a sobre
Carlos tambem.

E Jenny, que bem conhecia o irmo, tinha f em que o no tentaria
debalde.

Rompia porisso um raio de confiana por entre as sombras d'aquella
preoccupao.

Foi n'este estado de espirito que chamou Andr para que fosse acordar o
irmo.

Andr era o mais antigo criado da casa, especie de mordomo jubilado, que
servia Mr. Whitestone desde o seu estabelecimento no Porto e trouxera j
ao collo os dois filhos do inglez.

--V,--disse Jenny--diga a Charles que eu o espero na bibliotheca.

Carlos dormia tranquillamente, quando o velho Andr lhe entrou no
quarto. A respirao profunda, pausada e regular denunciava um somno,
livre de pesadelos e de sonhos importunos.

O criado, depois de escutar algum tempo aquelle som, unico que, com o do
bater da pendula vizinha, se percebia no quarto, caminhou com precauo,
bem escusada a quem vinha para despertar, at uma das janellas, que
entreabriu.

Espalhou-se ento no aposento uma meia claridade, coada atravs das
longas cortinas que, soltas das abraadeiras douradas, rojavam pelo
tapete.

Pde ento o velho observar a completa desordem que ia n'aquella sala.

Estes raios de luz, menos felizes do que os evocados pelo _fiat lux_ do
_Genesis_, pde dizer-se que vieram ainda illuminar um chos; pois
difficilmente se encontraria mais apropriada expresso para designar o
aspecto do aposento, a cuja vista se dissolveu em sorrisos toda a sisuda
gravidade, desenhada nos labios e nas feies do mordomo.

A scena, de facto, escapa  mais esmiuadora descripo.

Parecia que todos os objectos, alli contidos, haviam, durante a noite,
entrado em dana phantastica, de tal sorte os surprendera o dia,
deslocados da natural situao.

As cadeiras, amontoadas em desordem no meio da sala, haviam usurpado as
attribuies dos guarda-roupas; estes, abertos de par em par,
patenteavam o interior desordenado e quasi vazio, como aps um saque de
cidade conquistada.

Nas mesas, nos sofs, em _voltaires_, no cho, por toda a parte emfim,
menos nos logares competentes, via-se casacos, coletes, calas, mantas
de differentes cres e feitios. O pavimento achava-se literalmente
alastrado de objectos de impossivel enumerao; aqui, umas luvas,
caladas pela primeira vez na vespera e j postas de lado como inuteis;
alli, alguns ramos de flores desfolhadas e murchas, cuja posse,
procurada talvez com incansavel insistencia, trouxe depressa aps si o
abandono e o esquecimento; n'outros pontos, charutos meio consumidos, os
fragmentos de uma preciosa jarra de porcelana da India, um livro, que
commettera o delicto de no excitar a curiosidade, uma cadeira derrubada
com o fardo que lhe pesou sobre o espaldar; cartas, collarinhos,
retratos, lenos, chicotes. As esporas no logar do relogio; este pousado
na beira do marmore do fogo; sobre o leito, um domin de setim;
pendente  cabeceira, o jornal da vespera e um longo cachimbo com tubo
de gutta-percha; aos ps polvorinho de caa, o robe-de-chambre de
damasco e o teliz da horsa favorita; no velador, um tinteiro de prata,
transformado em cinzeiro de charutos; um chapo pendurado na chave da
porta; o candieiro no cho, alguns livros e mappas geographicos quasi
debaixo da cama. Um _abat-jour_ de carto envernizado com figuras
extravagantes, representando chins em posies todas chinezamente
ridiculas, servia de barrete ao busto de Shakespeare, cujo pescoo
estava alm d'isso diplomaticamente enfeitado com uma gravata de baile;
defronte, Byron, coberto com chapo de feltro de abas largas, o qual lhe
pendia galhardamente sobre a orelha esquerda, parecia fitar com
petulancia o seu illustre conterraneo; no outro angulo, era aquella
figura sria e bondosa de sir Walter Scott, com no sei que ares de
acanhado debaixo do barrete turco, que a guerra da Crimeia pozera ento
 moda; e finalmente um quarto busto occultava, sob mascara de setim
preto, a expresso de candura e de soffredora tristeza do cantor dos
combates dos anjos e demonios, o sublime Milton.

Dir-se-hia que estes grandes personagens da litteratura ingleza,
obedecendo  voz do carnaval, haviam surgido da sepultura, para virem
celebrar tambem entre si, com as suas cabeas pallidas, a mais estranha
mascarada.

No meio de toda esta confuso, um enorme _terra-nova_, de ventas
leoninas e corpulencia de touro, languidamente recostado nas molles
almofadas do sof luxuoso, pousava as patas musculosas e pelludas sobre
um magnifico album de gravuras, com a mais absoluta irreverencia pela
preciosidade, que assim lhe servia de cabeceira e de estrado.

Imagine-se o resto.

Andr, o methodico Andr, sorria e abanava a cabea no meio de tanta
desordem. Demorou-se alguns instantes a examinar todo aquelle
desarranjo, que bem simulava os vestigios de recente lucta; depois
caminhou para o leito, afastou vagarosamente, de m vontade ainda, as
cortinas brancas, que o resguardavam, e curvando a cabea, fitou os
olhos na fronte espaosa e liza de Carlos, sem que se resolvesse a
acordal-o de dormir to tranquillo.

Carlos tinha a physionomia sympathica e expressiva. O melhor do typo
saxonio encontrava-se alli. Os cabellos louros, curtos e naturalmente
annelados, deixavam-lhe livre a fronte ampla, de bossas proeminentes, e
cujos angulos se prolongavam por sobre as temporas; as cres eram do
alvo delicado, proprio dos typos septentrionaes; o nariz de perfil, em
que no entrava o elemento da mais desvanecida curva; os labios, algum
tanto grossos e levemente encrespados n'um sorriso, entre ironico e
affectuoso, prompto a caracterisar-se com facilidade igual n'um ou
n'outro d'estes sentidos; as palpebras longas, salientes e nas quaes, em
curvas azuladas, transparecia uma rede de pequenas veias, e em torno s
orbitas o circulo de cr desmaiadamente rxa, vestigio de longas noites
de agitadas vigilias; taes eram os traos principaes d'aquella
physionomia aberta e attrahente, que, em alguns d'elles, offerecia o que
quer que era de Byron. Os olhos, n'aquelle momento velados, possuiam
fogo correspondente  vivacidade do espirito que os animava; as feies,
paralysadas agora pelo somno, gosavam em vigilia de mobilidade extrema e
eloquente, outro ponto de analogia com as do poeta inglez, segundo a
crena dos seus biographos.

Andr acabou emfim por o chamar, mas com voz, que parecia de quem
desejava no ser escutado.

--Snr. Carlos--disse elle.

Apesar de pronunciada em tom baixo, e quasi a mdo, bastou esta palavra
para o despertar.

Abriu immediatamente os olhos, fitou-os no criado e, estendendo os
braos n'aquelle quasi involuntario movimento, com que todas as manhs
despedaamos as ultimas cadeias com que nos algema o somno, deixou-lh'os
cair em volta do pescoo, como para apoiar-se, dizendo ainda com voz mal
distincta:

--Bons dias, Andr. Que horas so?

--Meio dia.

Foi a resposta que obteve, acompanhada de significativo sorriso.

--_Save us!_--exclamou Carlos, imitando a despenseira ingleza, de quem
era esta a phrase habitual, e ao mesmo tempo voltou os olhos para o
relogio fronteiro, o qual, como em resposta a esta mimica
interrogatoria, bateu doze lentas e sonoras pancadas.

--Pois no me parecia--continuou Carlos, ao acabar de contal-as.--Ia at
estranhar-te a madrugada, sabes tu? E... e... o pae?

--Sau j.

--E... e que disse?

Andr encolheu os hombros, respondendo:

--Nada.

Era a maneira de exprimir que alguma cousa dissera.

Carlos comprehendeu isto mesmo, mas no perguntou mais nada.

--Toca a pr a p, que so horas!--dizia o Andr, occupando-se a
levantar alguns dos objectos que via pelo cho.

--Deshumano, cruel, que me recordas?--respondeu-lhe Carlos em tom de
recitao tragica.

--Vamos, vamos, preguioso.

Carlos abriu ainda outra vez a bca em gesto quasi sentimental de
despedida ao somno que se afastava; afagou com a mo o colossal
_terra-nova_, que veio pousar-lhe a cabea nos joelhos, e abriu ao acaso
o livro que encontrou  mo, um romance de Dickens, do qual leu algumas
linhas distrahido.

--Ento?--insistiu o Andr, vendo-o pouco disposto a levantar-se--Fica
ahi?

--Vae-me buscar o almoo, homem. Traze-me s caf. Parece-me que inda
agora terminei aquelle turbulento jantar de hontem.

--Ento quer almoar aqui?

--E julgo que  uma resoluo muito louvavel.

--Mas...

--Mas o qu?... Que objeces lhe pes? Falla.

-- que miss Jenny espera-o na bibliotheca.

Carlos de um salto sentou-se na cama.

-- pateta! e inda agora me vens com isso? Depressa--chega-me d'ahi esse
robe-de-chambre.--Isso no... no vs que  um domin?... Anda...
avia-te... Aquelle leno... O outro... Bem... Vae... Dize a Jenny que
n'um momento estou com ella.

E depois de proceder com a maior celeridade quelle ligeiro _toilette_
de manh, Carlos entrou na bibliotheca, onde Jenny o esperava.

Era n'esta bibliotheca que muitas vezes os dois irmos se entregavam a
leituras communs, restos de habitos adquiridos na infancia, quando pelos
mesmos livros estudavam, formando um gracioso grupo de cabeas louras,
objecto das contemplaes apaixonadas e das benos cordiaes de Mr.
Richard Whitestone.

--Bom dia, Charles--disse Jenny, estendendo-lhe a mo, que elle apertou
affectuosamente.

--Fiz-te esperar muito, filha? Perda-me; mas aquelle pateta no soube
dizer-me logo que tu...

--Desculpa mandar-te acordar, mas...

--Fizeste bem; seno, dormiria at  noite.

--Vieste hontem muito tarde, Charles--disse Jenny, abaixando-se
disfaradamente para acariciar o _terra-nova_, que se lhe deitra aos
ps.

--Pois ouviste-me?

--Ouvi.

--Ento acordei-te, Jenny? No foi por falta de cautela, porm... sempre
sou um desastrado!

--No, no acordaste. Eu no tinha adormecido ainda.

--No tinhas adormecido! s quatro horas! Estiveste doente, Jenny?

--No, mas...

Carlos olhou para a irm com uns modos, que procurou tornar severos.

--Querem ver que foi por minha causa?... Ento que te tenho eu dito,
Jenny? Fico de mal comtigo se tornas a ter essas canceiras por mim, a
ponto de...

--No, no foi por canceira,  que...

-- que tu s uma teimosa e o que merecias...

--No se trata agora d'isso. Dize-me: vens hoje mais cdo?

--Hoje!  tera-feira de entrudo!  Jenny! Deixa ao menos passar o
carnaval, deixa j agora acabar esta maldita poca, e depois... depois
vers que hei de ficar muitas noites em casa ao p de ti e de... Tens-te
enfastiado muito aqui s, no tens, pobre pequena?

--Ora, no fallo por mim; mas...  que... isso faz-te doente por certo,
Charles. Esses jantares to longos... Essas noites to mal dormidas...

--A mim?! A mim nada me faz mal, filha; l por isso...

--E depois... Olha, Charles, ha devras tanto tempo j que te no vemos
comnosco,  noite... No  por mim que fallo, repito; mas o pae... bem
sabes, antigos habitos... gosta de nos ver reunidos todos... a certas
horas. Coitado! No digo sempre, mas... s vezes, de quando em quando,
se te no custasse...

--Pois sim, Jenny, pois sim. Deixa voltar o vero, que eu prometto...
prometto que, muitas vezes at, hei de fazer o que dizes. Mas as noites
de inverno! As noites de inverno, no obstante tudo quanto imaginou
aquelle bom Thomson nas suas _Estaes_, so to longas para se passarem
em casa!

--As de estio... depois... j sei... has de achal-as to formosas que...

--No--replicou Carlos, sorrindo;--ento depois de eu te prometter havia
de... Mas, olha c, Jenny, tu s muito boa, e j sei que me vaes at
ralhar por o que eu vou dizer; mas deves concordar em que de facto 
pouco agradavel, para um rapaz da minha idade pelo menos, a maneira por
que o pae costuma passar aqui as suas _soires_. Aquelle eterno _Times_,
aquelle _Times_ sem fim aterra-me, Jenny. A _Biblia_  um livro que
respeito e admiro, mas tremo um pouco das paraphrases dos nossos
reverendos lettrados; confesso que tremo. O _Tristam Shandy_ do Sterne
j o sei de cor; no _Tom Jones_ de Fielding, quando o no tivesse ainda
lido, no haveria j capitulo de que no fosse bem informado,  fora de
o ouvir citar; e, a fallar verdade, ter de passar uma noite a escutar,
mais uma vez, os commentarios a um e outro, com que fatalmente nos
flagella o inesgotavel enthusiasmo paterno... a fallar verdade!

--Charles!--disse Jenny, em tom reprehensivo.

--E para cumulo dos males--proseguiu Carlos--estar sempre debaixo da
permanente ameaa de uma visita do _spleen_ de Mr. Morlays ou da, no
menos para temer, jovialidade de Mr. Brains, Heraclito, e Democrito,
inglezes que o sabor nacional tornou mais difficeis de digerir ainda, do
que os proprios philosophos gregos. Ahi est o que me faz procurar
aquelles logares onde, como diz Thomson: sussurra um publico, possuido
de todos os assumptos, e animado de mixtos discursos.

Jenny no pde deixar de sorrir s reflexes do irmo; mas, como para
diminuir o effeito d'esta fraqueza, apressou-se a dizer-lhe:

--Pois sim, Charles; mas nem hontem! Hontem, na verdade!... no dia dos
teus annos!...

--Ento que queres, menina? No me lembrei de tal, realmente. Acredita.
Reputo to pouco motivo para festas o facto do meu nascimento!

--Mas os que te estimam formam melhor opinio d'esse dia. Nem lhes
queres dar o prazer de t'o affirmarem?

--Daria se... se me lembrasse.

--O pae destinava-te uma surpreza. Coitado! Fez-me pena a maneira por
que elle me encarregou, ainda ha pouco, de te entregar este
relogio--disse Jenny, passando para as mos do irmo o presente de Mr.
Richard.

--Devras?! Pois elle... Pobre pae! Vs? E eu que lhe roubei esse
prazer! Ai Jenny, esta minha cabea! Tu inda ao menos sabes o que me vae
no corao, no  assim?

--Sei, Charles, sei.

--Mas os outros...

--Todos te fazem justia, s tu  que...

--Mas repara, Jenny,  um relogio magnifico este; pois no ?! Bem; no
ha que ver, snr. Carlos;  preciso que pela sua parte faa alguma cousa
tambem. Est dito; no esperarei pelo vero. O carnaval est a expirar;
acabando elle ... penitenciar-me-hei na quaresma.

--O carnaval! Muito divertidos devem ser esses bailes de mascaras, para
assim te attrahirem, Charles!

--Enganas-te, Jenny; so insipidos, mas... Tu no pdes talvez entender
isto, que no obstante  exacto... so insipidos, mas irresistiveis ao
mesmo tempo.

--Ora!

--Acredita-me. Rara  a noite em que me no encho de tdio, em que no
morro de semsaboria no meio d'aquelle infernal tumulto, e ento, se de
l me lembro de ti, do socego dos teus seres, do silencio das tuas
noites, do teu bonito quarto cr de violeta, pergunto a mim mesmo,
Jenny, por que me conservo longe d'alli, o que me afasta das portas
d'esse paraizo, voluntariamente perdido por este louco, que nem merece
ser teu irmo. Sinto vontade ento de soltar uma lamentao como a de
Eva por errar n'um mundo, que ao p do teu, Jenny,  tambem obscuro e
selvagem; por estar a respirar n'um ar bem menos puro.--No  assim que
diz o Milton?--E comtudo no tenho nenhum archangelico poder a impr-me
a expatriao. Vs?

--Ests a gracejar, Charles?

--Acredita que no. Outros te poderiam dizer o mesmo se...

--E  isso que te conservou por l, ainda hoje, at s quatro horas da
manh?

--Hoje? Ah, mas... perdo, Jenny; tudo tem suas excepes. A noite de
hontem, por exemplo, no me deixou desagradavel memoria de si; devo
confessal-o.

--Ento?

--Ento...  que eu tenho que te contar, e se tiveres a paciencia de me
escutar e prometteres no me ralhar muito...

--Ah! pois temos culpas?

--Eu sei? Desconfio tanto de mim, que j me no atrevo a affirmar que
procedesse bem. Mas tu o dirs.

Jenny sorriu.

--Ouamos--disse ella, preparando o almoo, que um criado acabava de
trazer para a sala.




VI


REVISTA DA NOITE


--Como te disse, Jenny,--principiou Carlos, procedendo quelle
extemporaneo almoo, s horas a que muita gente encetava a sria e
importante tarefa da digesto do jantar--hontem correu-me a noite mais
agradavel que de costume.

--Sim? Ento que te succedeu?

--Eu te conto. Levantamo-nos da mesa s onze horas; foi um longo jantar,
ao qual os brindes continuados no deixaram nunca desfallecer a
animao. Entrei no theatro, um pouco atordoado e um pouco pezaroso;
atordoado pelos effeitos excitantes d'aquellas muitas libaes e
d'aquelle rudo todo...

--E pezaroso...

--Com os remorsos que a tua carta me veio despertar.

--Ah!... remorsos?!...

--Afiano-te que os tive. N'estas disposies de animo parecia-me um
inferno o theatro, verdadeiros demonios aquellas insulsas mascaras,
gritos de condemnados as desafinaes da orchestra...

--E ficaste?

--E fiquei; fiquei, ancioso por que o final do divertimento me
auctorisasse a retirada. J vejo que nem ideia fazes sequer d'estas
cousas, que alis so verdadeiras. Deixa-me continuar.

--Contina--disse Jenny, folheando ao acaso um livro de gravuras
inglezas, que estava na mesa.--Mas  devras estranha essa maneira de te
divertires... martyrisando-te.

--, confesso que . Mas outros muitos esto n'este caso; pdes crel-o.

--Bem; vamos adiante--replicou Jenny, fitando os olhos nas lettras
douradas da brochura.

Carlos proseguiu:

--Deixei os meus companheiros e sentei-me extenuado; nem queria ver, nem
apreciava nada do que em torno de mim succedia. A final, porm, por
fazer alguma cousa, reparei nos vizinhos de hombro a hombro, entre quem
a sorte me arrojra.

Jenny ergueu para o irmo a vista, com um modo particular.

--Do lado direito, encontrei um homem gordo, que dormia. Como a
felicidade alheia no  espectaculo de que nos venha conforto, quando o
infortunio nos punge, desviei com despeito os olhos d'esta
bemaventurana e voltei-os...

--Para o lado esquerdo?

--Justamente; para o lado esquerdo.

--E... e o que achaste d'esse lado do corao, Charles?--perguntou
Jenny, sorrindo.

--Ai, Jenny! ai, minha pobre irm! prepara a tua santa paciencia, que
aqui venho eu confiar-te mais uma das minhas paixes.

--Eu logo vi; no sei porque foi que t'o estava a ler no rosto. Ento 
devras uma paixo?

--Receio que sim.

--Pobre Charles! Que fatalidade!

--Ests a rir?--disse Carlos, sorrindo tambem e estendendo a chavena
para a encher outra vez--Ora ouve. Ao meu lado esquerdo, do lado do
corao, como dizes, estava um dmin feminino, fitando-me de uma
maneira ... como nem te sei dizer... e com uns olhos... mal sabes que
bonitos olhos eram aquelles, Jenny!

--Os da mascara?--perguntou Jenny, preparando a chavena.

--No; os da mascarada, os quaes eu percebia atravs das aberturas
oculares da elegante mascara de setim preto que ella trazia. A cabea
descaa-lhe ligeiramente sobre o hombro em postura de tanta languidez e
melancolia, e n'esta posio a sda da mascara descobria-lhe um canto de
labios e um principio de collo to bem modelados, que eu no pude
desviar mais d'alli o olhar extasiado, e... e... Ento que quer dizer
agora esse teu sorriso, Jenny?

--Estou a admirar a rapidez com que te apaixonas e extasias.

-- que no imaginas que bonito cortrno o d'aquelle rosto; no
imaginas! Eu digo-te uma cousa, Jenny; bem sei quantas illuses andam
ligadas  mascara de sda, que, por descuido estudado, se afasta um
pouco, o preciso... o conveniente... Porque na maior parte dos rostos ha
pequenos pontos fracos, que a mascara artificiosamente occulta, deixando
s apparecer as perfeies. Conheo que  facil illudir-se ento o olhar
e phantasiar-se falsamente o todo pela parte que se pde ver, conheo...

--Basta, basta, Charles. Pena  que de to pouco te sirva o tanto que
conheces, visto que ainda hontem...

--Hontem no havia, no podia haver illuso. Isso  que no. Aquella
cabea no era d'essas cabeas buliosas, como folhas de alamo, que
morrem por ser adivinhadas. Era uma cabea scismadora, melancolica,
cheia de sentimento, estremecendo a cada belleza que, com pezar seu, no
podra occultar...

--Ah! Que singular cabea!

--E depois ha certos extremos de perfeio, que a natureza, quando os
cria, no os vae desperdiar assim em qualquer rosto, que nas mais
feies destroe d'esses primores parciaes. E n'este caso estava tudo o
que eu vira do perfil da minha sympathica vizinha, a quem dirigi a
palavra!

--A quem dirigiste a palavra!

--Sim; que achas tu de extraordinario n'isto, para fazeres esse
movimento? N'um baile de mascaras prescinde-se das apresentaes,
ridicula inveno da etiqueta, que eu desconfio ser originaria da nossa
diplomatica Inglaterra.

A reflexo historica transformou n'um sorriso o movimento de surpreza de
Jenny.

Carlos continuou:

--E depois vaes ver que tudo quanto lhe disse podia bem ser repetido 
mais ingenua lady n'um dos nossos bailes de familia. A final de contas,
irmanzita, eu, que arranjei por ahi, no sei bem como, a reputao de
atrevido, tenho ainda canduras, de que muitos dos mais timidos se riam
j aos quinze annos.

Esta confisso, na qual alguma cousa havia verdadeira, desafiou em Jenny
um gesto de duvida, que o mesmo sorriso affectuoso veio porm suavisar.

--Olha que  assim--proseguiu o irmo--e seno... escuta. Como te disse,
fallei  minha sympathica vizinha. Perguntei-lhe se estava muito
fatigada. Ahi tens; a pergunta  mais do que ingenua,  quasi ridicula.
Que lhe censuras tu?

--A essa, de certo que nada. E depois?

--Ella respondeu-me:--Bem mais fatigada d'isto tudo do que esperava,
vindo aqui, snr. Carlos.

--Como disseste?... Snr. Carlos?!

-- verdade, snr. Carlos. Sabia o meu nome a mysteriosa incognita;
sabia o meu nome! Est de ver que augmentou a minha curiosidade.
Continuando a conversar, vim a saber d'ella que tinha vindo alli
acompanhada de outros dmins femininos, cujo humor mais galhofeiro
contrastava com aquella melanclica seriedade. Ficamos a conversar um
com outro, amigavelmente, innocentemente, assim como eu converso agora
comtigo. E... queres que te diga? havia at alguma cousa do teu fallar,
maneiras de dizer tuas, na conversa d'aquella rapariga; e era isto
talvez o que me impunha certo acatamento para com ella, de que no podia
livrar-me. No imaginas a graa, o bom senso, a viveza, que revelou em
todo aquelle dialogo commigo. Mostrou-se muito informada a meu respeito
e at a respeito da nossa familia; houve um momento, em que deu mostras
de querer fallar de ti; eu porm evitei a conversa...

--Porqu?!--perguntou Jenny, fingindo-se offendida.

--Porque...--balbuciou Carlos embaraado, e depois, com mais resoluo,
continuou:--Digo-te a verdade Jenny; respeito-te muito; tenho por o teu
nome uma venerao muito grande, para que me fosse agradavel ouvil-o
pronunciar n'aquelles logares, e pronunciado de mais a mais por...--no
obstante o favoravel conceito que continuo a fazer da
desconhecida--mas... por labios que... no sei ainda... que no tenho a
certeza se sero dignos d'isso. Passadas duas horas talvez n'este
inoffensivo conversar, chegaram, j fartos de alvorotar o salo, alguns
dos rapazes, que me tinham acompanhado. Foi-me pouco agradavel,
confesso-o, a presena dos meus amigos e sobretudo desagradabilissimos
os galanteadores conceitos que dirigiram  minha interlocutora e os
gracejos com que a respeito d'ella me mimosearam.

--Coitada!

--Coitada? Ai, se j principias assim a lamental-a ... mal vae  minha
historia.

--Pois acaso?...

--Escuta. Ao principio, ella no mostrou timidez; sustentou com
vivacidade o dialogo, aparando e retribuindo triumphantemente os
galanteios, que elles lhe dirigiram. Mas a lucta era desigual; porque
emfim os contendores, n'esta esgrima de palavras, tinham de reserva
armas, de que ella no podia servir-se. Foi ento, ao reconhecer isto,
que se mostrou inquieta e ergueu-se para retirar-se; seguimol-a;  porta
do salo ella e as companheiras voltaram-se, viram-nos e pareceram
atemorisadas. Ella ento, a desconhecida, dirigiu-se a mim e pediu-me
que lhes servisse de protector, appellou para a minha generosidade e
eu...

--Tu protegeste-as, no  verdade?--disse Jenny, juntando as mos, e
fixando no irmo um olhar de sympathia--Protegeste, no protegeste?

--Fui, fui um D. Quixote de donzellas perseguidas. Ento que queres tu?
No te dizia eu que havia ainda em mim muito da candura dos quinze
annos?

--No te arrependas, Charles, no te arrependas de ser generoso.

-- certo que consegui afastar os meus associados, o que no foi pequena
tarefa; fiz valer porm os direitos de descobridor e prometti-lhes
revelar o segredo d'aquella mascara, segredo cuja investigao me
competia. Feito isto, segui-as. Ao principio tudo foram effuses de
gratido  minha nobreza de caracter, ao meu corao, aos meus
sentimentos, etc., mas, quando nos livramos das ruas mais centraes e
passou o perigo da perseguio que temiam, tudo mudou de figura e
principiaram j a pedir-me para tambem me retirar. Esta ingratido
offendeu-me e recusei... Ento? ahi ests sria outra vez!

--E com razo, Charles. Pois pediam-te e tu... Isso j no  de
generoso... Quem sabe os motivos?

--Perda-me, Jenny; tu  que no sabes nada d'estas cousas. Pouco
generosas eram ellas. E demais, esses pedidos seriam sinceros? A regra 
recusal-os sempre; e est certa de que quasi nunca a recusa offende.

--Basta que uma vez...

--Mas repara, Jenny... Valha-me Deus!... Ora vem c. Tu ests-me ahi a
phantasiar uns bailes de mascaras  tua moda. Suppes que todos estes
dmins eram... eu sei l... outras tantas princezas disfaradas ou
outras Jennys como tu.

--Pois bem, uma vez que o disseste, vamos que era eu?...

Carlos previu o mau terreno, em que se collocava, admittindo a hypothese
e porisso interrompeu a irm, dizendo:

--Mas no supponho, nem posso suppr, porque... porque ainda ninguem viu
uma Jenny n'aquelles logares; e demais ouve, que eu no sou ainda assim
merecedor de tantas severidades. Teimei, como disse, em seguil-as; para
desistir, exigia conhecel-as; ellas porm recusaram tirar a mascara e
sobretudo a tal, que eu mais desejava saber quem era. s tres horas e
meia estavamos aqui defronte de casa, aonde me tinham trazido
manifestamente para me tentarem a entrar. Resisti  tentao e transpuz,
sem hesitar, a porta, continuando a seguil-as. As companheiras da minha
incognita levavam j o caso a rir e acredito que no poriam grande
duvida em darem-se a conhecer; ella porm mostrava-se... ou fingia-se,
deveras afflicta; dirigiu-se a mim e de mos juntas pediu-me que me
retirasse.

--E tu?...

--Eu... eu recusei.

-- Charles!

--Ouve. Ella insistiu. Disse-me que lhe poderia fazer muito mal se
teimasse, e eu insisti...

--Como s s vezes to mau!

--Mas se eu no acreditava na sinceridade d'aquelles mdos, e agora
mesmo... Mas a final, a rapariga disse-me com uma voz chorosa e na qual
me pareceu descobrir tanta sinceridade: --Peo-lhe este favor por...
Adivinhas por quem ella me foi pedir?

--No.

--Peo-lhe este favor por sua irm, por Jenny; sim, por ti, foi por ti
que ella me pediu e fl-o ajuntando as mos com tal candura, que eu...
Precisas de perguntar-me se condescendi d'esta vez?

Jenny estendeu a mo ao irmo.

--Obrigada. A final o bem triumpha sempre no teu corao. Estava certa
d'isso.

Carlos baixou a cabea, como mortificado com estes louvores da irm.
Dir-se-hia que aquellas palavras lhe estavam a fazer sentir remorsos,
longe de os desvanecerem.

Depois de uma hesitao de momentos, terminou por dizer, com evidente
enleio:

--Olha, Jenny... eu por fim de contas no sou homem para aceitar
louvores que no mereo... repugna-me esta hypocrisia; custa-me deveras,
mas... sou forado a dizer-te que... que no sou digno d'esses
applausos.

--Porqu?

--Porque... alguma cousa se passou... Eu no disse tudo ainda e... 
verdade que... condescendi... sim... mas no to desinteressadamente
como... sim... porque exigi... usurpei...  maneira de compensao...

--O qu?

--Um beijo, ao qual a pobre rapariga no retirou a tempo a face e que a
lanou n'uma especie de desespro, fingido talvez, de certo... mas bem
fingido...

Jenny reproduziu o gesto de desgosto.

--Mas no me condemnes, Jenny,--apressou-se Carlos a acrescentar--porque
a final eu nem lhe vi o rosto, e estou provavelmente condemnado a nunca
descobrir quem ella seja. Alm d'isso cumpri religiosamente o
promettido, renunciando a acompanhal-a, o que me custou devras; ainda
hoje me preoccupa o olhar, a voz d'aquella rapariga e quasi lamento...
Vamos, no continues a olhar-me d'esse modo. Pois recusas perdoar-me,
quando eu...

--A fallar verdade, mereces bem pouco que te perdoem. Mas, como cedeste
em meu nome, quasi me tiraste o direito de ser severa. O final... o
final... na verdade...

--E vs o meu endurecimento na culpa? foi isso de toda a aventura o que
me deixou mais agradavel memoria de si...

--Ento!--disse Jenny, batendo-lhe com o livro na mo--Olha se queres
que retire ainda o perdo que j te dei. Que mais ters a pezar-te na
consciencia? aproveita o ensejo d'esta minha disposio benevola.

--Julgo que no tenho mais nada.

--Ahi est uma alma com excellente opinio de si! Visto isso, tens
cumprido todos os teus deveres?

--Mas... deveres de que genero?

--Que pergunta! Pois nem sabes os deveres que tens?! Maus indicios!
Deveres de christo, de cidado, de filho, e de...

--O que ahi vae! o que ahi vae! Por quem s, Jenny! vamos por partes,
seno...

--Pois bem, quero fallar-te agora s de uns, que me parece teres
descurado um pouco.

--Falla.

--Dize-me: tens ido ao escriptorio?...

--Ai, o escriptorio!--disse Carlos, rindo--Ento era d'isso que me
querias fallar? Bem longe estava eu de pensar no escriptorio.

--Tens l ido?

--Eu no.

--No!

--Ha j bastante tempo que l no vou, ha... mas... achas isso grande
peccado?

--E pergntal-o? No  o trabalho um dever?

--O trabalho ser.

--Ento...

-- que faz sua differena. Tu no sabes como eu trabalho no
escriptorio?  outra d'essas imposturas sociaes, que me fariam rir
devras, se no fossem to fastidiosas.  preciso que saibas, minha boa
Jenny, que no escriptorio, o trabalho real, o trabalho util, o
trabalho--trabalho, est encarnado na pessoa de Manoel Quentino. Esse
sim.  quem alli faz tudo, quem a tudo d soluo, e parece-me que o
unico at capaz de o fazer. Exige-se que eu v l tambem, no para
trabalhar; a minha cooperao o mais que faz  impacientar o bom do
homem, distrahir os outros caixeiros e alterar a ordem methodica dos
papeis commerciaes. Eu vou s para fingir que entro n'aquellas cousas,
para representar de commerciante, embora no penetre em nenhum dos
segredos ou transaces, em que anda empenhada a firma. Hoje lembram-se
de me communicar o principio de certo negocio, do qual se julgam depois
to dispensados de dizer-me o resultado, como eu de perguntar por elle;
manh, dar-me-ho parte da concluso de outro, cuja existencia eu
ignorava ainda. Ora aqui tens como eu sou commerciante. O pae gosta de
me ver l em baixo, como representante da firma Whitestone & C., e mais
nada. Chego ao escriptorio, abro a janella, mostro-me ao publico como
uma especie de taboleta da casa, dou tres passeios na Praa, converso em
tudo, menos no negocio, e venho embora. Se isto  trabalhar...

--Mas, j que te repugna essa ociosidade, porque no trabalhas devras?

--Porque no  costume. O trabalho  para o guarda-livros. Ns somos uma
especie de padrinhos; damos o nome  creana e pagamos-lhes o enxoval,
mas no nos encarregamos das fadigas da sua educao. Comtudo, j uma ou
outra vez tentei trabalhar, por descargo de consciencia; mas lembrana
minha era saudada com uma risada do Manoel Quentino e com o riso mal
disfarado dos outros caixeiros. Pelos modos era disparate certo.

--Pois bem; porisso mesmo que to pouco se exige de ti  que devias ser
mais assiduo.

--Mas  to monotono! Fazes l ideia! Odeio aquella rua dos Inglezes,
Jenny; abomino-a.

--E preferes mortificar o pae, que j hoje se queixou das tuas faltas,
quando um pequeno sacrificio...

--No lhe chames pequeno; mas, grande que seja, estou resolvido a
fazel-o para te agradar. manh...

--manh!--disse Jenny, encolhendo os hombros.

--Pois ento? queres que j hoje?...

--E porque no?

--Mas v que j  tarde...

--Mais tarde ser se te demorares.

Carlos emmudeceu.

--E ao mesmo tempo--proseguiu Jenny--aproveitaria a occasio de mandar
saber d'aquella pobre viuva ingleza, que ha j tantos dias no apparece.
No tenho querido que l v nenhum criado, porque, por mais que lhes
recommende, todos gostam de a aperrear, e ella, coitada, afflige-se
tanto... Se tu fosses hoje ao escriptorio, ficava-te em caminho...

Jenny sabia que qualquer aco generosa servia a Carlos de estimulo para
realisar sacrificios: por isso lhe lembrou esta visita de caridade a uma
das muitas pobres, que a familia Whitestone soccorria. No se enganou a
previdencia da irm.

--Est dito--disse Carlos com modo resoluto.--Vou hoje ... trabalhar.
Mal sabe Manoel Quentino, que  o grande motor d'aquella machina
commercial, o que lhe est imminente. O homem d ao demo o meu auxilio;
mas que t'o agradea, Jenny. Manda-me o Jos para me ajudar a vestir;
inda hoje me no deu o gosto de o ver, o mariola.

--Ai, o Jos?--disse Jenny, pousando a mo no hombro do irmo--Olha,
Charles, o pobre rapaz tem a me to doente, que eu tive pena d'elle e
mandei-o...

--Basta, basta; fizeste bem. Eu no me lembrava d'isso, seno...
Passaremos sem o Jos, e no passaremos mal.

Jenny abraou o irmo, e saiu contente da sala.

Em consequencia d'este dialogo, Carlos appareceu na Praa Commercial
pelas duas horas da tarde.




VIII


NA PRAA


Havia grande actividade na larga rua chamada dos Inglezes,  hora a que
o filho de Mr. Richard Whitestone alli chegou.

A vida commercial estava ento no seu auge; numerosos grupos occupavam
os passeios, o centro da rua e os portaes das velhas casas, que de um e
de outro lado limitam. Presta-se a curioso estudo o aspecto da Praa em
occasio assim.

Nas posturas, no ademan e em varias outras exterioridades dos
differentes individuos, que compem estes grupos, pde-se encontrar
indicios da posio commercial, que elles occupam.

Vem-se homens de aspecto grave, de movimentos pausados, de palavras
medidas e espremidas, escutados, aqui e alm, por um auditorio attento,
mudo, boquiaberto, cujas cabeas, balanando-se, como as dos bonecos de
porcelana, commentam com movimentos de approvao as palavras d'estes
oraculos;--so directores de bancos, ou de companhias commerciaes de
outra qualquer natureza, bem ou mal reputados as primeiras capacidades
da Praa; os accionistas, sempre inquietos pelo seu futuro dos capitaes,
meditam cada palavra d'elles, como as de uma mensagem de Napoleo III,
na abertura do parlamento francez.

Mais longe, passeiam, com ar de quem est confiado em si, outros que no
escutam os primeiros, mas que os saudam com fraternal familiaridade. No
teem to numeroso cortejo a rodeial-os, porm so igualmente
cumprimentados por todas as cabeas da Praa; chamam aos labios das
pessoas, a quem se dirigem, um sorriso de affabilidade, e obrigam-lhes o
tronco  inclinao expressiva de acatamento, pouco differente da
eloquencia persuasiva, a qual, segundo um escriptor humorista, 
representada por o angulo de 85 1/2 com o horizonte.--So estes os
negociantes, que no administram capitaes alheios, mas que dispem de
grandes capitaes proprios; de quem menos directamente depende portanto a
numerosa turba dos pequenos capitalistas, mas cujos destinos influem,
mais ou menos, sobre os de toda a Praa. Alm d'isso teem a fazel-os
valer o prestigio da riqueza, prestigio que se impe at aos que nada
esperam d'ella.

Observa-se s vezes um espectaculo,  primeira vista de difficil
interpretao. Um homem, humildemente vestido, de aspecto triste, de
cabea baixa e barbas crescidas,  escutado com anciedade na roda dos
mais esplendidos membros do corpo commercial; todos parecem esforar-se
por no perder a menor palavra das poucas e sumidas, que o tal homem
pronuncia. De vez em quando, elle murmura no sei que phrase e limpa ou
faz que limpa uma lagrima, e os outros levantam as mos ao co, cruzam
os braos, encolhem os hombros, coam a cabea, do uma volta, como a
distrahir mgoas, e tornam a acercar-se d'elle, como se fosse o centro
de attraco d'aquelles elementos dispersos; e toda a scena se produz de
novo. Que quer dizer isto?-- um negociante fallido de pouco e rodeiado
de credores, a quem, na sua humiliao, domina e que, de quando em
quando apavora, calculando com voz dolente o diminuto dividendo que lhes
conceder. No ha posio social, situao na vida, por mais abjecta e
precaria que parea, que no tenha a sua aristocracia. Os ladres teem
os monarchas conquistadores; os homicidas, os duellistas e guerreiros; a
pobre, a opprimida, a miseravel classe dos devedores, tem os grandes
negociantes fallidos.

O olhar exercitado em estudar a physiologia da praa talvez possa
distinguir do negociante, cujos pagamentos ainda em poca alguma foram
suspensos, aquelles, cujas remotas _fracturas_ teem sido miraculosamente
_consolidadas_ pelos dotes das esposas. Mas a segurana e franqueza de
maneiras  to igual nas duas especies, que  nossa analyse no 
possivel a discriminao.

A contrastar com todos estes, v-se uma turba, igualmente numerosa,
agitar-se na Praa, sempre a passo rapido, rapazes pela maior parte com
papeis, saccas ou amostras na mo; sem de um portal para entrar em
outro; descem a calada do Terreiro em direco  alfandega, ao caes ou
a bordo de algum navio mercante; consultam os individuos dos grupos, que
j mencionamos, ou aguardam pacientes que elles os descubram e
interroguem; dirigem-se-lhes ento, tirando o chapo--atteno nem
sempre retribuida--; so estes os segundos caixeiros, os chamados de
fra, os praticantes de escriptorio, os cobradores, e ainda os
despachantes; aquelles, emfim, sobre quem mais pesada se exerce a carga
da vida do commercio e que menos proventos auferem d'ella. Distinguem-se
pelo grau de velocidade dos passos; a dos despachantes chega a ser
incommoda de ver-se.

 digna de nota tambem a posio que tomam mais ordinariamente os dois
interlocutores dos curtos dialogos, que a cada momento se travam no meio
da rua, entre os representantes das diversas hierarchias sociaes, que se
dizem--caixeiro e patro--. O caixeiro est perfilado, com a mo na aba
do chapo e os olhos fitos nos labios do negociante; este responde-lhe,
olhando para o lado e, s vezes, sorrindo at para um collega, que de
longe falla por acnos--distraco perigosa para a clareza da ordem
dada, mas cujas consequencias so attribuidas depois a quem a recebeu;
os patres mais accessiveis levam a sua bondade a ponto de puxarem por o
boto do casaco, ou de desapertarem o do collete do subordinado,
emquante lhe do instruces. Quando o caixeiro expe o resultado da
commisso que executou, -lhe permittido o accionado, mrmente se, na
execuo d'ella, houve a vencer a renitencia de algum devedor emerito,
circumstancia, na qual pde at tentar um epigramma, com a certeza de
que agradar. Porm quando so mais modestos os ares do caixeiro e mais
impertinentes os do patro,  quando o segundo est sendo convencido por
o outro de um erro, que repugna ao seu amor-proprio confessar.

Ha ainda outra classe, tambem inquieta, apressada, incansavel, porm
muito longe das disposies para a reverencia d'esta ultima, em que
fallamos. Ha nas suas cortezias rasgadas alguma cousa de artificial, que
no illude ninguem, e s vezes a menos ceremoniatica familiaridade
substitue at essas apparencias de respeito. So espantosos de
tenacidade a perseguirem em certos casos o commerciante, que em vo
tenta fugir-lhes; passam-lhe da esquerda para a direita, da direita para
a esquerda; atravessam-se-lhe no caminho; entram com elle nos portaes,
sobem com elle as escadas, invadem-lhe o dito dos escriptorios,
transpem a barreira dos mostradores, encostam-se sem ceremonia s
escrivaninhas, batem-lhe amigavelmente nos hombros, collocam-lhe diante
dos olhos garrafas, vidros, massos de fazenda, tabellas de preos,
amostras de todos os generos commerciaveis, de que andam constantemente
munidos e a custo se resolvem a soltar das mos a victima, que chegaram
a atacar.--So estes os corretores e agentes de casas estrangeiras.

A classe dos primeiros guarda-livros  a poro aristocratica d'esta
_bureaucracia_ ou escriptoriocracia commercial. Mostra-se principalmente
 janella dos primeiros andares, onde vem, de vez em quando, descansar
das fadigas de uma escripturao. De ordinario, conservam a penna entre
os dedos, como para significar que  momentanea a pausa--o que nem
sempre succede. Mais necessarios, e porisso mais apreciados e
attendidos, gosam j de certas franquias e privilegios entre os da sua
classe. -lhes concedido fallarem da janella para a rua com algum
collega ou amigo que passa; a alguns at se permitte fumar na varanda um
charuto, e ausentarem-se algum tempo do escriptorio sem prvia
requisio; na rua, saudam mais desassombrados os patres e so menos
distrahidamente correspondidos por estes.

Acrescente-se agora a progenie ociosa dos grandes
capitalistas--commerciantes honorarios, cuja vida commercial se reduz,
como a de Carlos, a passeiar na Praa at s quatro horas da tarde; o
brazileiro retirado, distrahindo-se a presenciar, como espectador, o
labutar do negocio,  maneira da maritimo velho que se senta  beira-mar
a olhar para as ondas, de que vive arredado j; acrescente-se ainda o
empregado da alfandega, fumando o cigarro, nas frequentes entreabertas
de descanso de suas laboriosas manhs; os carrejes em disponibilidade,
estacionados a cada esquina; os moos de escriptorio encostados s
ombreiras das portas: os meninos dos directores de companhias, confiados
 vigilancia de algum empregado subalterno; isto tudo composto de
inglezes ruivos, de allemes louros, de brazileiros escuros, de
portuguezes de todas as cres, e ter-se-ha imaginado o aspecto da Praa
commercial do Porto,  hora em que Carlos Whitestone a atravessou.

Carlos passava pelos differentes grupos alli reunidos como por entre
gente, que toda lhe era igualmente familiar.

Como sempre, e como em toda a parte, no se constrangia alli tambem.

O genio que tinha no lhe consentia etiquetas; a sua posio social no
deixava que ninguem lhe estranhasse as familiaridades.

Enfiava o brao no de um dos mais sisudos commerciantes, a quem tratava
pelo nome de baptismo; de repente, deixava-o, para accender o charuto no
cigarro de um segundo caixeiro de escriptorio, que o estava saboreando
s occultas, e alli mesmo pactuava com este qualquer partida de caa.
Aproximava-se do grupo de capitalistas e bares, que discutiam
acaloradamente o relatrio de uma companhia, e cdo, com suas reflexes
e commentarios, fazia degenerar a conversa para assumpto mais frivolo e
jovial; abandonava-os, e ia abraar alguns rapazes, to laboriosos como
elle, que fallavam dos bailes da vespera ou abriam a bca de enfadados;
d'alli dirigia-se a cumprimentar um inglez esgalgado, que passava sobre
uma hursa, mais esgalgada ainda, e examinava com olhos de conhecedor as
qualidades physicas do quadrupede e os expedientes da arte do
cavalleiro; tolhia a passagem do despachante que atravessava a correr a
Praa e, apesar de tantas pressas, conseguia fazel-o parar a escutal-o:
chamava pelo nome o gallego da esquina, para que lhe viesse sacudir a
lama das botas, e, durante esta operao, divertia-se a bater-lhe com o
chicote na copa do chapo. s vezes ouvia com apparente atteno um
homem, que lhe vinha fallar de certo negocio pendente do escriptorio
Whitestone, mas, se a exposio se demorava, o seu interlocutor, quando
menos o esperasse, achava-se s, porque Carlos fora, sem ceremonia,
conversar com o guarda-livros, seu amigo, que avistra na janella de um
primeiro andar. To depressa entrava em um dialogo com o mendigo que lhe
pedia esmola, como com qualquer rapariga, cujas graas o attrahissem.

N'este genero de occupaes se demorou Carlos Whitestone na Praa
aquelle dia, procurando ser visto pelo pae,--unico fim que tinha na
ideia.

Mr. Richard estava porm na Assembleia Ingleza ou Feitoria, da qual era
assiduo frequentador.

Um dos muitos grupos, de que Carlos Whitestone se aproximou, compunha-se
das mais graduadas individualidades da praa.

Carlos passou o brao por cima do hombro de um baro, enfiou o outro no
de um capitalista brazileiro, e cumprimentou familiarmente um velho
inglez, que estava na companhia tambem.

--O que no ha em toda a Europa  uma Bolsa assim como a do Porto--dizia
um commerciante bem intencionado, em quem se encarnra a balda, muito
portugueza, de pendurar no pinaculo da perfeio alguma cousa boa, que
temos ainda por c.

O inglez estremeceu de pasmo.

--_What!!_--A exclamao saiu-lhe ingleza na violencia da exploso--Na
Europa! Que diz, senhor? Vocemec j viajou?

--Nada, no, senhor; ainda no sa do Porto; mas dizem entendedores...

--Ora ento... ento... A Bolsa de Londres... o Royal Exchange... no
vamos mais longe... o Royal Exchange, o moderno; porque o primeiro Royal
Exchange foi do tempo da rainha Elisabeth, construido por um architecto
chamado Gresham, em 1500 e tantos; ardeu em 1667. Dois annos depois
levantou-se o segundo; este foi construido por Jerman; ainda me lembra
bem d'elle; ardeu em 1838. Estava eu em Londres. Em 1842 lanou-se a
primeira pedra de novo, que foi segundo o plano de Tite, e dentro em
tres annos estava completo.

--E esse quando ardeu?--perguntou Carlos.

O inglez sorriu, sem responder  pergunta, e preparava-se para entrar em
circumstanciada descripo da planta baixa e alta do edificio.

Carlos interrompeu-o outra vez:

--O que estou vendo, Mr. Lyons,  que ha em Londres uma terrivel
disposio para _arderem as bolsas_.

O baro e o brazileiro acharam extraordinaria graa ao dito de Carlos, e
batendo-lhe no hombro e chamando-lhe magano, patusco, cabea de
vento, e outras injurias assim amaveis, no quizeram mais saber do que
lhe dizia o inglez, o qual se viu constrangido e engulir o resto da
noticia historica e architectonica.

--Mas, senhores!--dizia em outro grupo, para o qual Carlos se dirigiu, o
meticuloso possuidor de umas cinco aces de certa companhia, a um dos
directores da mesma--Eu no vejo as cousas bem figuradas. Para que hei
de estar a dizer o contrario? Negocios com o governo nunca me agradaram.
O governo! Quem  o governo? O governo a final no  pessoa que se
penhore; porisso voto que...

--Mas repare,--dizia o director com exemplar paciencia--repare que as
garantias offerecidas so das mais seguras; o governo compromette-se...

--E adeus, minhas encommendas!--tornou o outro--Ora que  scisma! Mas
quem  o governo? Eu no sei quem  o governo! Uns valdevinos, que hoje
so tudo e manh so nada... Faz-se o contracto com uns e manh
respondem por elle caras novas. No me entendo com isso. Muito bonitas
fallas, sim, senhores; mas como no respondem por o que  seu... E os
nossos capitaes...

Estes capitaes eram cem mil ris por junto.

O director pedia resignao a Deus, para no romper com o obstinado.

Carlos representou aqui de enviado celeste. Tomou o brao do accionista
dissidente, e, sem lhe attender aos esforos, afastou-o para o passeio,
dizendo-lhe a meia voz:

--O senhor j sabe do que se trata hoje na Praa? Vae organisar-se uma
companhia monstro.

--Pois sim, sim; mas deixe-me, que tenho que discutir alli com o
senhor...

--Oua--insistia Carlos-- negocio dos accionistas ganharem quarenta por
cento, avaliando muito por baixo.

O homem, que era de ingenuidade proverbial entre os collegas, olhou para
Carlos com gesto entre desconfiado e inquiridor.

Depois a phrase quarenta por cento era de uma sonoridade!

A physionomia de Carlos tomra uma expresso de sisudez irreprehensivel.

--Pois sim, mas... eu agora...--dizia ainda o homem.

Carlos insistiu:

--Olhe que lhe fallo serio.  uma companhia de capitalistas inglezes,
que se vae metter n'isso. Meu pae est encarregado do trabalho da
instituio.  porisso que eu...

--Mas que  a final?--perguntou o sujeito com curiosidade.

--Demais espera-se que o governo conceda um subsidio...

O homem teve vontade de perguntar quem era o governo, mas resistiu 
tentao d'esta vez.

--Mas qual  o fim?--perguntou em vez d'isso.

--E o commercio do Porto vae resentir-se vantajosamente d'este
commettimento--continuava Carlos, devras embaraado em organisar a tal
companhia.

--Mas o fim da empreza? ... o fim?--bradava j o outro.

--O fim? Um grande fim... uma nova via de trafego commercial entre a
cidade alta e a baixa.

--Como? Alguma rua...

--No, senhor; aproveita-se uma riqueza ainda inexplorada, que ha no
seio da cidade.

Um enxame de ideias extravagantes esvoaaram na imaginao do
accionista, que j com ardente curiosidade perguntou:

--Mas... que ? como?

--Nada menos do que tornar navegavel o rio da Villa.

O accionista dissidente olhou ainda alguns instantes para Carlos; mas
cdo depois voltou-lhe as costas _desapontado_ e procurou o director,
que estivera interpellando; este porm aproveitra o ensejo e
desapparecera, esquivando-se a resolver o difficil problema que o outro
lhe apontra ao peito--Quem era o governo?

O leitor, que  do Porto, permitta-me que eu explique aos que o no so,
que este nome pomposo de rio da Villa  dado a um pequeno riacho de
aguas menos limpas que se despenha por uns sitios escusos e no mais
asseiados do que ellas, at desaguar furtivamente e como envergonhado,
no Douro.

O primeiro individuo de quem, depois d'este, Carlos se avizinhou, era
uma potencia commercial, que ouvia amavelmente o pedido que lhe fazia um
collega, para elle pedir a outro, para este pedir a terceiro e este
terceiro pedir ao ministro para o ministro empregar na alfandega o filho
do cunhado do primeiro que pedia. Esta complicao enredada de
pedidos--da qual inevitavelmente se havia de resentir o periodo, como
resentiu--parecia clarissima para o que estava sendo exorado, pois, sem
pedir explicaes, e como homem que logo  primeira vista entrou no
mago da questo, no fazia seno prometter applicar todo o seu
valimento e ser at importuno para servir o amigo.

Carlos chegou no meio d'essas promessas cordialissimas.  preciso que se
diga que Carlos sabia, por acaso, que este capitalista havia recebido,
aquella mesma manh, uma carta de Lisboa, assegurando-lhe que fora
provido, no logar disputado, um parente seu. Esta circumstancia fez com
que o pouco dissimulado irmo de Jenny ficasse verdadeiramente abysmado
diante da impavidez, com que o negociante illudia o amigo. Obedecendo 
franqueza pouco de sociedade, que dissemos ser um dos elementos do
caracter d'elle, Carlos no pde emfim reprimir-se, que no dissesse:

--Mas, senhor F., olhe o que promette; esqueceu-se de que o seu parente
C. foi, hontem mesmo, despachado para esse logar?

Seguiu-se uma careta entre os dois interlocutores, que trocaram algumas
phrases, em taes casos forosamente tolas; fartos emfim de mastigar
oraes sem nexo, separaram-se friamente.

O capitalista ralhou muito com Carlos; porm Carlos ainda ralhou mais
com elle pela sua pouca lisura.

E o certo  que ficaram amigos. Ha nos caracteres francos e generosos
como o de Carlos, o que quer que seja que dissipa resentimentos ainda
aos mais reservados e egoistas.

Resolveu finalmente o irmo de Jenny entrar no escriptorio.

Ao dirigir-se para l, viu que lhe vinha ao encontro um homem gordo,
baixo e crado, que j de longe lhe estava fazendo cortezias.

Parou a escutal-o.

--V. s. passou bem?--disse o recem-chegado.

Carlos correspondeu ao cumprimento.

--Ora eu--continuou o homem--j ha pouco fui ao escriptorio de v. s.;
mas nem v. s. nem o senhor seu pae l estavam. Eu no sei se v. s. me
conhece.

--No, senhor--disse Carlos, entretido a olhar para o lao da gravata do
seu interlocutor.

--Eu sou o Anastacio Rebello, que fiz aquelle carregamento de laranjas o
anno passado...

Carlos fez distrahidamente um gesto affirmativo, e passou a examinar o
boto de peito do snr. Anastacio Rebello.

--Ora v. s.--proseguiu este--ha de estar certo de que ha dois mezes...
um meu correspondente de Braga me pediu... Eu no sei se o pae de v. s.
lhe disse... Talvez no dissesse...

--Talvez no--disse Carlos, sem o attender...

--Pois o negocio  simples: este meu correspondente... que  tambm meu
compadre... isto , eu  que sou padrinho do filho d'elle, uma creana
de treze annos, que esteve ha mezes em minha casa, a banhos na Foz, por
causa de uns humores frios que...

Carlos assobiava j.

--Mas agora quer este meu compadre... Olhe; aqui est a carta que elle
me escreveu;--proseguiu o homem, procurando-a no casaco--eu julgo que a
trago commigo... Por ella far ideia.

E principiou a tirar papeis sobre papeis, cartas, escriptos, ordens,
letras, contas, recibos... dizendo, ao passo que examinava cada qual por
sua vez:

--No... isto  outra cousa...  a ordem para me pagarem uns cincoenta e
tantos mil ris... E j no veem sem tempo... Mas onde diabo puz eu a
carta?... No  isto... Isto  o escripto de arrendamento da minha casa
do Forno Velho... Isto ... Que S. Pedro  isto?... Ah! a carta do
Maranho... isto ... isto  uma encommenda que me fazem de Bragana...
V. s. no me sabe dizer onde se vende... a estampa da guerra da
Crimeia?

--Eu no, senhor--disse Carlos, dando dois passos para o escriptorio.

--Encommendaram-m'a e eu...--continuava o homem, seguindo-o--Ah! achei;
c est a carta!--exclamou, segurando Carlos pela manga do casaco--Ora
quer ler?

--Eu no, senhor--respondeu este, tentando evadir-se.

--Prezado amigo e compadre--principiou o homem a ler.--Recebi a sua de
13 e agradeo-lhe as recommendaes, que me manda. A comadre...-- a
mulher d'elle--recommenda-se  snr. D. Maria do Carmo-- a minha
mulher...--e o Juca...-- o tal meu afilhado...--manda muitos beijos ao
padrinho...

--Que  o senhor--disse Carlos, j impaciente com a massada.

--Justamente--respondeu o homem, sorrindo  perspicacia de Carlos.

--Pois sim, mas eu agora no posso demorar-me--acrescentou Carlos,
fazendo outra tentativa para fugir.

--Isto tambem no interessa...--concordou o homem--aqui mais abaixo 
que... tal, tal, tal... sim, senhores...--A festa do Bom Jesus este
anno promette ser feita com espavento e eu espero que
vocemec...--Elles querem que eu...

--Com licena, que estou com pressa.

--Sim; isto tambem no faz ao caso.  aqui abaixo...--A camara
municipal foi reeleita, como sabe; a gente da opposio levou uma
derrota que...

Carlos j no podia mais.

--Ora, meu caro senhor, que tenho eu com isso? Faz favor de me dizer?

--Tem v. s. razo...  que eu julgava... Tal, tal, tal--O seguro no
quer pagar os prejuizos do incendio da minha casa da rua do
Souto...--Olhe que tambem isto de seguros...

--Adeus--disse Carlos, rompendo de todo com o snr. Anastacio Rebello.

--Ah!  aqui; agora sim--exclamou este triumphantemente--C
est...--Aquella encommenda que eu fiz para Inglaterra...

Justamente quando o snr. Anastacio chegava ao ponto desejado, atravs
d'aquelle mar, cheio de baixios, da carta do seu correspondente, Carlos
vendo uma galante costureira, que a passos apressados atravessava a rua,
deixou-o sem ceremonia para se dirigir a ella.

--Adeus, minha flor.

A rapariga respondeu-lhe:

--Ninguem o conheceu hontem no baile.

--Ento esteve l?

E proseguiu o dialogo, mesmo em presena de toda a sisuda classe
commercial, que ao filho de Richard Whitestone tudo desculpava.

Anastacio Rebello dobrou a carta do compadre, e afastou-se escandalisado
com o que via.

Outros rapazes aproximaram-se. A rapariga fugiu.

Carlos, depois de alguns instantes tomados por occupaes analogas s
que descrevemos, caminhou emfim para o escriptorio.

Era assim que elle tratava negocios na Praa Commercial; vejamos no
escriptorio.




IX


NO ESCRIPTORIO


Na velha sala de paredes cinzentas e de soalho carcomido pelo caruncho,
onde Mr. Richard Whitestone tinha o escriptorio, havia vinte annos que
escrevia, addicionava, subtrahia, multiplicava, e dividia algarismos, e
isto tudo resmoneando, cantarolando e tossindo, o snr. Manoel Quentino,
personagem da idade do seu seculo, primeiro guarda-livros da casa, e
homem de habitos de vida, to beneficiadores da saude do corpo, como
mantenedores da serenidade do espirito.

Manoel Quentino era a alma d'aquelle recinto. Na confuso de papeis, com
que lidava, taes como:--correspondencias, facturas, contas correntes,
contas de venda, conhecimentos, primeiras, segundas e terceiras vias de
letras, minutas de seguros, recibos e mais documentos commerciaes, elle
s, habituado desde muitos annos quillo, podia descobrir uma disposio
ordenada.

D'isto mesmo se gabava; o que no se devia taxar de presumpo da sua
parte.

Pedissem-lhe de repente a mais insignificante carta, que elle, sem
hesitar, iria dar com ella. Era porm seu o segredo d'esta singular
classificao, que dera s cousas; para o proprio Mr. Richard,
antolhava-se um ddalo o escriptorio, ddalo onde, ao querer
orientar-se, no dispensava nunca o fio conductor das explicaes do
guarda-livros.

Homem de habitos regulares, a mais no poder ser, invariavelmente ao
soarem as sete horas da manh no vero, e as oito, no inverno, estava
Manoel Quentino movendo a chave na porta do escriptorio; e meia hora
depois, sentado j  banca, todo entregue ao trabalho da escripta. s
tres da tarde, no inverno, e s quatro, no vero, movia segunda vez a
chave, mas em sentido contrario; exceptuando uma ou outra occasio
extraordinaria, em que a affluencia de servio o obrigava a seres.

No era Manoel Quentino d'estes guarda-livros de mo rapida, e de
prompto expediente, que n'um momento do soluo a muitos negocios
juntos. Elle tudo queria feito com tempo, e, como a cada momento dizia:
para pressas  que no era; graas, porm,  paciencia e 
regularidade de trabalho, que no perdia nunca, insensivelmente o
servio adiantava-se-lhe nas mos e difficil seria acharem-o atrazado
alguma vez.

Observava pontualmente o judicioso preceito: _festina lente_, e
comprovava, com o exemplo, a efficacia d'elle.

Queria Manoel Quentino immensamente quelle escriptorio, tal qual se
achava, assim mesmo desataviado e n. Por vezes, Mr. Richard, e
principalmente Carlos, haviam procurado realisar n'elle certos
melhoramentos, que o fizessem mais commodo; tiveram porm de recuar
diante das repugnancias do velho guarda-livros, que declarou affligir-se
devras com isso; e, como era elle a parte mais interessada no caso,
visto que alli passava grande parte da vida, foi-lhe facil vencer.

Em resultado d'isso, continuava a deliciar-se com aquellas quatro
paredes escuras, com o tecto de castanho apainelado, que o tempo
ennegrecera, com o cho aspero e picado pelos insectos, com as janellas
de construco antiga, de pequenos caixilhos, e abundantes em fechos,
aldrabas e postigos, com a porta de fortaleza, cujos gonzos perros
tinham um chiar, que era para Manoel Quentino como o timbre de uma voz
de amigo, agradavel ainda quanto pouco harmoniosa, com as escrivaninhas,
os mochos, os cabides, o lavatorio e toda a mobilia emfim, feita segundo
os velhos modelos dos escriptorios antigos.

Eram aquellas as testimunhas do encanecimento dos seus cabellos; como
taes as amava.

Alm de Manoel Quentino, compunha-se o pessoal do escriptorio de dois
segundos caixeiros e um rapaz de servio, a todos os quaes o
guarda-livros accusava constantemente de mandries e ao mesmo tempo
quasi os impedia de trabalhar, pela excessiva disposio que tinha para
fazer tudo por suas mos.

Momentos antes de Carlos chegar, Manoel Quentino havia dado aos
escripturarios duas cartas insignificantes a copiar e entregra-se elle,
com todos os seus cinco sentidos,  redaco da correspondencia para
Londres.

Dos escripturarios, um, tendo terminado a sua facil tarefa,
aproveitou-se da distraco de Manoel Quentino, tirou s escondidas da
escrivaninha um romance de Paulo de Kock e pz-se a lel-o, com a sfrega
curiosidade dos dezesete annos; o outro occupou o tempo a escrever uma
carta de amores  dama dos seus pensamentos, carta em que, por
incidente, foram inclusas algumas alluses epigrammaticas ao
guarda-livros, a quem entre outras cousas se chamava Argos
desapiedado; o rapaz de servio, deixado tambem em disponibilidade,
entretinha-se a perseguir as moscas da vidraa ou a traar com o dedo
lettras maiusculas nos vidros, que humedecia com o bafo. Qualquer
d'estas tres occupaes, sendo pouco ruidosa, mantinha-se no escriptorio
um silencio, que agradava a Manoel Quentino.

Elle era o unico a interrompel-o, graas ao singular monologo, que
estava de contnuo murmurando  penna com que escrevia.

Dava-se effectivamente em Manoel Quentino uma illuso singular.

 fora de lidar com a penna,  fora de to indissoluvelmente a ver
associada ao seu destino, o velho guarda-livros acabra por julgal-a
quasi dotada de certa intelligencia e fallava-lhe, animando-a,
reprehendendo-a, sopeando-lhe os impetos, como a caprichoso corcel que
se pretende guiar.

--Anda, anda,--dizia elle--que ronceira que ests hoje! Olha que no
temos esse tempo, que julgas... Ento?... Que  isso agora?... Pois j
queres mais tinta? Depressa gastaste a que bebeste! V, avia-te...
Bonito R! Isso no esperava eu de ti!... Adeus! Agora mais este
cabello!... E sujas-me todo!... Trapalhona!... Ai, que impertinente que
ests!... Adiante! adiante! adiante!... Espera, espera... L te esqueceu
um D!... E agora?... Agora v se te mexes entre essas duas lettras...
Assim... Ah! ... no toques nos SS ... assim... Bem... Contina, mas com
tento... Ento! No querem ver que pras outra vez? Ora isto 
demais!... Deixa estar que... Oh!

Era um borro, que lhe caa no meio da pagina e lhe inutilisava a
correspondencia quasi no seu termo.

  Trai la rai, la rai, larai lai
  Trai, larai, larai, laro, lo
  Trai larai lai, larai larai lai,
  Trai lari, lari, lari, laro lo.
  Trai lari, lari, lari, laro lo.

Isto era a trautear o hymno da Carta, cousa que elle fazia sempre
n'estas occasies criticas. E sem mais alguma observao pz a folha
suja de lado, preparou outra e encetou nova correspondencia, no sem
primeiro substituir a penna, dizendo-lhe ao deixal-a:

--Descansa. Hoje no ests nos teus dias. Vem c tu--dizia para
outra.--V l como te portas!

E, olhando fixo para ella:

--Umh! No tens l muito boa cara! no... Ora vamos a ver... V,
despacha-te, que tenho mais que fazer!... Abre os bicos... abre...
Assim... bem! Sim, senhora!... Bravo... Ninguem havia de dizer que tu...
Caspite!...

E com estas palavras de animao ia applaudindo o bom servio da penna e
quasi lhe parecia vel-a trabalhar com mais ardor, assim estimulada.

Foi n'este momento que um valente encontro abriu a porta do
escriptorio, e o _terra-nova_, precedendo Carlos Whitestone, invadiu o
at alli silencioso e tranquillo recinto, principiando logo por entornar
a infusa com agua, collocada a um dos cantos da sala.

Manoel Quentino, que estremecera com a subita appario do quadrupede,
ao ver o estrago que a sua impetuosidade produzira, pz-se a olhar
silencioso para elle e em seguida para a porta, como se contasse com
mais alguma invaso, no menos revolucionaria do que esta.

Effectivamente Carlos no se fez esperar.

--_Good Morning_, Mr. Manoel Quentino!--bradou Carlos do limiar, fazendo
para o guarda-livros uma reverencia muito rasgada.

--_Good Morning_, Mr. Charles--respondeu Manoel Quentino, encolhendo os
hombros e dando s feies um ar de paciente resignao, uma especie de
bondoso mau humor.

Cumpre advertir aqui que Manoel Quentino fallava o inglez, graas  sua
longa convivencia com os _Her Majesty's subjects_ residentes na nossa
cidade; mas o inglez de Manoel Quentino era, at certo ponto, como o
portuguez do patro. Causava especial sensao ouvil-o pronunciar todas
as palavras inglezas n'um tom, inflexo e maneiras, do cunho mais
genuinamente portuguez. Podia dizer-se que Manoel Quentino fallava
portuguez em inglez.

--Ditosos olhos que o vem!--disse elle a Carlos; e depois para o rapaz
do escriptorio:--Olha aquella agua que se entornou...--e para Carlos
outra vez com gesto velhaco:--Ento esteve doente?

--Eu? Tenho gosado a mais florescente saude do mundo--respondeu Carlos.

--Como no tem apparecido!--Anda, avia-te rapaz!

--Tenho-lhe talvez feito aqui muita falta?

--Umh!--resmungou Manoel Quentino.

Os caixeiros, que com a entrada de Carlos haviam escondido, um o
romance, outro o modelo epistolar, sorriram entre-olhando-se.

--E voc como tem passado por aqui sem mim, minha flor?--perguntou
Carlos, mexendo-lhe nos papeis--Cada vez mais bonito, cada vez mais
contente.

--Adeus, adeus. No bula ahi, homem! Que  o que quer? que  o que quer?

--Lumes. No ha lumes n'esta casa? que diabo!...

--Eu logo vi. No pensa seno em fumar. Espere l, espere l. No me
desarranje isso. Eu dou-lhe lumes, eu dou. Ora ahi tem. E deixe-me.

Carlos accendeu um charuto e offereceu outro a cada um dos caixeiros,
que os afagaram com olhares vidos, mas sem se atreverem a aceital-os.

--Fumem--insistia Carlos.

Manoel Quentino levantou os olhos e fixou-os nos dois rapazes.

Sob a influencia d'aquelle olhar, hesitaram ainda.

Carlos obrigou-os porm a aceitar, offereceu-lhes lume para accenderem,
e emquanto o faziam, voltou-se para Manoel Quentino, e vendo a cara de
contrariado com que ficava, aproximou-se d'elle:

--Que tem voc, Manoel Quentino? Deixe fumar os rapazes. No seja
fossil.

--Se o pae vier por ahi, cuida que ha de gostar de... E demais a mais, 
distrahil-os do servio...

--Que servio? Olhem o grande servio que elles
faziam!--Rapaz--acrescentou logo depois, dirigindo-se ao perseguidor das
moscas da janella--vae  rua de Santo Antonio saber se aquelle meu
casaco est prompto... e chega de caminho ao theatro de S. Joo,
pergunta pelo bilheteiro e dize-lhe que vaes de meu mando tomar seis
cadeiras para a recita de quinta-feira... entendes? Seis cadeiras;
depois...

--E faz favor de me dizer quando  que elle ha de levar a
correspondencia ao correio?--perguntou com mau humor Manoel Quentino.

--Eu sei l d'isso? Anda, vae...

--Mas...

--Ora! mande ao correio quem quizer... Avia-te. Salta.

O rapaz sau a correr.

Manoel Quentino encolheu os hombros.

Carlos dirigiu-se  janella, que abriu de par em par. Uma rajada de
vento, entrando na sala, fez esvoaar toda a papelada da banca de Manoel
Quentino.

--L vae! l vae! l vae tudo com os diabos!--exclamou o
guarda-livros--Adeus, minha vida; estou arranjado!

Carlos desatou a rir.

--Isso; ria-se, que tem muita graa! Ento os senhores que
fazem?--perguntou, descarregando as iras sobre os caixeiros--Ponham-se 
palestra e a fumar, e eu que trabalhe; hein?

--Deixe estar que eu apanho isso--disse Carlos, continuando a rir.

E todos quatro principiaram a apanhar os papeis, dispersos por a sala.

--Vo l saber agora...--proseguiu Manoel Quentino--vo l saber agora a
ordem em que eu tinha tudo isto! Olhem... olhem... Ficou bonita a carta
do correspondente de Liverpool! Sim, senhores! Olhem para estas contas
da gerencia da capella ingleza! Tambem ficaram asseiadas! Pois estas
apolices... E o maldito co a afocinhar-me na agua aquella minuta!...
Passa fra! Eh!... passa fra, tratante.

E voltando  escrivaninha pz-se a coordenar outra vez os papeis.

-- Manoel Quentino--perguntou-lhe Carlos j da janella--quem  aquella
rapariga que est aqui defronte no terceiro andar? Aquella cara  nova
para mim.

--Eu sei l d'isso, homem? Tomra que me deixassem.

--Quem ,  Paulo, voc ha de saber. Um rapaz da sua idade...--disse
Carlos, dirigindo-se familiarmente a um dos caixeiros.

Era este um rapaz ainda imberbe, pallido, com certo fundo de melancolia,
transparecendo por debaixo do jovial sorriso, proprio dos seus, ainda
incompletos, dezoito annos.

 pergunta de Carlos, aproximou-se da janella.

--No sei--disse depois de ver a pessoa designada--no a conheo. O
Pires ha de saber.

Pires era o nome do outro caixeiro, que por sua vez foi chamado.

E todos tres, em resultado d'esta conferencia, ficaram encostados 
varanda, praticando em varios assumptos de igual momento.

Manoel Quentino, que j tinha posto por ordem os papeis, olhava de
quando em quando para a janella e principiava:

 Trai la rai...

trauteava o hymno da Carta.

O vento, depois de prejudicar a papelada do guarda-livros, dirigiu os
seus furores contra a pituitaria do mesmo; Manoel Quentino comeou a
espirrar.

--Deus me salve!--dizia elle de cada vez.

 quinta no teve mo em si, que no dissesse a Carlos:

--O' snr. Carlos! Ora a fallar a verdade, homem! Isso sempre  um gosto
exquisito! Ahi posto  janella com este vento dos diabos! Eu j
estou...--e espirrava outra vez--j estou constipado.

--N'esse caso recolho-me--disse Carlos, fechando a janella e vindo
debruar-se na escrivaninha de Manoel Quentino, o qual comera de novo
a correspondencia.

--Sim, senhor, snr. Manoel Quentino;--dizia Carlos expellindo uma
baforada de fumo,  qual o velho fez caretas--voc ser parente de
Quentino Durward, de que falla o Walter Scott? Voc sabe quem era o
Walter Scott, Manoel Quentino?

--Eu no, senhor...--respondeu o velho, continuando a escrever.

--Walter Scott era um romancista. Sabe o que  ser romancista? Diga-me,
j leu algum romance?

--No, senhor, que tenho mais que fazer.

--Pois deixe estar que lhe hei de emprestar romances para ler...

--Muito agradecido.

--O primeiro ha de ser _O Cavalheiro de_...

Os dois caixeiros fungaram do outro lado da sala.

--_De Harmental_--concluiu maliciosamente Carlos--e acrescentou:--No
sei de que se riem estes senhores.

-- porque teem a vida muito canceirosa--respondeu Manoel Quentino.

--Depois hei de emprestar-lhe a _Mademoiselle_...

O mesmo effeito nos caixeiros.

--_Mademoiselle de La Seiglire_--delicada concepo de Jules
Sandeau--concluiu Carlos, olhando-os com gravidade comica.

--Adeus, j me fez enganar!--exclamou Manoel Quentino--Por sua causa
escrevi agora--cavalheiro--em vez de--Companhia.

--Isso emenda-se.

--Ha de emendar boas cousas.

--Emenda, sim. Olhe d'esse _a_ faz-se bem um _o_; depois o _m_ frma-se
do _v_ e do...

--O remedio  outro...

E com exemplar paciencia comeou nova carta.

--Oh! com os diabos! Ento vae outra vez principiar?

-- o que o senhor faz.

--O caso  que voc tem bonita lettra! Invejo-lh'a. Se me ensinasse a
escrever assim!

--No precisa.

E, para fixar a atteno, ia dizendo em voz alta o que escrevia:

--Recebi o seu favor de 14 do corrente e em resposta...

--No preciso? Preciso tal--proseguiu Carlos--rapariga a quem eu
escreva...

--Do nosso ajuste--dizia Manoel Quentino, e fallando para Carlos
alternadamente:--Elle ahi vem com as raparigas; o que eu lhe queria eram
os cuidados!...--O preo do genero...

--Ento parece-lhe indigno o assumpto? Ora diga, Manoel Quentino, diga
se, quando era rapaz, no massava tambem com o tal assumpto os velhos do
seu tempo.

--E a competente commisso.--No que eu, quando era rapaz, j tinha mais
em que cuidar...--Em vista pois das ordens recebidas...--Cuida que me
levantava ao meio dia para pensar em moas, e que me deitava l por
altas horas, inda por causa d'ellas?

--Ento que fazia voc?--insistia Carlos, tomando a penna e desenhando
uma figura na margem do jornal do dia.

--Com lucros provaveis...--O que eu fazia bem o sei; ainda me no
esqueceram as madrugadas dos meus vinte annos...

--Ah! madrugadas!... Bem entendo!...

--Para trabalhar, para trabalhar! Est muito enganado, se cuida que
todos tiveram a sua vida. Bom era isso!--A fallencia da casa Rodrigues
e...

--Grande vida a minha!--continuava Carlos--Ha l nada mais semsabor?
Veja que precioso tempo perdido n'esta soturna sala.

E ao dizer isto ia, insensivelmente, sem reparar no que fazia,
aproximando a penna da borda da carta, que Manoel Quentino escrevia, e
quasi principiava a desenhar algum ornato n'ella.

--Oh! oh!--exclamou o velho, arredando-lhe a mo--Que ia fazer? Se lhe
parece, suje-me agora a carta.

Carlos ergueu-se rindo e pz-se a passeiar na sala.

--O pae inda no veio hoje aqui?

--Ha que tempos!

--E no volta?

--Ha de voltar, se Deus quizer.-- preciso fechar isto mais cdo
hoje--continuou Carlos.--Estes senhores precisam de gosar o carnaval.

--Bom carnaval  o d'este mundo!

--Que horas so?

--Duas e vinte minutos--Respondeu Manoel Quentino, sem olhar para o
relogio e no errando meio minuto.

--Se meu pae...--principiava a dizer Carlos, mas foi interrompido pelo
ranger das botas de Mr. Richard, que se ouviu nas escadas.

Restabeleceu-se a ordem no escriptorio.

Os caixeiros pozeram-se a escrever, e o proprio Carlos pegou em uma
folha ingleza e fez que a examinava na seco commercial.

Manoel Quentino curvou-se ainda mais sobre a banca e moveu com maior
agilidade a penna sobre o papel paquete, em que estava escrevendo.

Mr. Richard entrou no escriptorio com o rosto jovial e assobiando uma
das suas predilectas toadas inglezas; mas, graas ao duro ouvido musical
de que era dotado o velho _gentleman_, to transtornada lhe saa ella,
que o proprio auctor lhe custaria de certo a reconhecel-a.

O _Butterfly_, com a leveza, que justificava o nome de lepidoptero, que
lhe tinham posto, atravessou a sala e foi cumprimentar o seu companheiro
_terra-nova_, o qual, sentado, com a lingua de fra, o recebeu com
benevola, mas sisuda, magestade.

Todos se ergueram  entrada de Mr. Richard, em cujo rosto um olhar,
exercitado em estudal-o, facilmente descobriria certa expresso de
contentamento, despertada pela vista do filho, o qual, elle, n'aquelle
dia, estava bem longe de esperar alli.

O plano de Jenny sortira bom effeito.

Mr. Richard dirigiu-se immediatamente ao seu gabinete particular. Carlos
foi ter com elle, para lhe pedir a beno e ao mesmo tempo aproveitou a
occasio para lhe agradecer o relogio e para desculpar-se de no ter
assistido na vespera ao jantar de familia.

Mr. Richard Whitestone j no tinha cousa alguma no corao contra o
filho. A vinda d'este ao escriptorio fora bastante para dissipar a menor
sombra de resentimento.

--No teve duvida--repetia elle muitas vezes, interrompendo a longa
justificao de Carlos--no teve duvida, no teve duvida... Pois... esse
relogio  de um fabricante muito acreditado, e, segundo o homem affirma
aos compradores, no far differena de meio minuto em cinco annos!
Talvez seja confiana de mais!--acrescentou, rindo com vontade.

--Ou cegueira paternal--observou Carlos, rindo como elle.

--Sim, sim, ou isso, cegueira paternal, sim--concordou Mr. Richard,
rindo cada vez mais e experimentando elle mesmo tambem os effeitos da
tal cegueira.

E em seguida destapou duas garrafas de cerveja de Bass, tirou do armario
uma copiosa proviso de bolacha e, na companhia do filho, celebrou a sua
terceira refeio d'aquella manh.

Passados minutos, voltaram ambos ao escriptorio nas melhores disposies
d'este mundo.

Se Jenny os podesse ver ento, como exultaria de contentamento!

Mr. Richard encaminhou-se para a escrivaninha de Manoel Quentino, Carlos
sentou-se na escrivaninha opposta, e fingiu examinar os livros
commerciaes.

Mr. Richard dirigiu varias perguntas ao guarda-livros, sobre alguns
negocios pendentes, s quaes Manoel Quentino deu respostas laconicas,
mas peremptorias.

O inglez consultou depois algumas cartas, entregou outras ao
guarda-livros, tomou notas, expediu ordens, examinou a escripturao,
abriu o copiador e, de repente, voltando as costas a Manoel Quentino e
dirigindo-se a Carlos:

--J leste a carta do nosso correspondente em Londres?--perguntou com
affabilidade.

--Ainda no, senhor.

--Manoel Quentino! Ento porque lh'a no mostrou?!--disse o pae,
voltando-se outra vez para o guarda-livros; e depois acrescentou de novo
para Carlos:--Ha noticias importantes e que fazem prever a probabilidade
de ser este um anno de vantajosas transaces, se por acaso...

-- um homem diligente, Mr. Leeson--notou Carlos, querendo dizer alguma
cousa, mas com tanta infelicidade, que trocou o nome do correspondente
de Londres pelo do de Liverpool.

--Ho!--disse logo Mr. Richard, mortificado--Leeson!... de Londres!
Repara!... de Londres!?

Carlos conheceu que tinha sido inconveniente a observao, mas o peior
era que no sabia corrigil-a, pois que de todo lhe esquecera o nome do
tal correspondente.

--Ai, de Londres...--dizia elle embaraado.--Eu julguei que... sim, de
Londres;  que me pareceu...

Mr. Richard esperava ouvir o verdadeiro nome, pronunciado por o filho;
mas no succedeu assim.

Manoel Quentino, que tinha bem fundados motivos--motivos, que o leitor
deve prever quaes fossem--para no julgar de instante necessidade pr
Carlos Whitestone ao corrente das noticias commerciaes, abriu comtudo a
escrivaninha e, procurando a carta em questo, levou-a a Carlos, no
podendo disfarar um sorriso, ao qual este correspondeu com ligeiro
movimento de hombros.

Carlos, em vez de citar o nome do correspondente, pz-se portanto a
examinar a carta.

--Falle-lhe n'aquelle negocio da aguardente--disse Manoel Quentino quasi
ao ouvido de Carlos, antes de se retirar outra vez para a banca onde
escrevia.

Mr. Richard pozera-se a passeiar na sala, esfregando as mos, e de
quando em quando parava junto da vidraa, onde tocava um ligeiro rufo.
No estava ainda de todo restabelecido da m impresso que lhe causra o
haver encontrado o filho to pouco sciente do nome dos correspondentes
da casa.

Carlos ficou a olhar para a carta commercial, mas julgo que nem a lia.
Estava pensando como havia de aproveitar o conselho, pouco explicito, de
Manoel Quentino e fallar ao pae no tal problematico negocio da
aguardente, para elle inteiramente mysterioso.

Temia, referindo-se-lhe aventuradamente, aggravar as difficuldades da
sua posio, longe de diminuil-as.

Manoel Quentino continuava a escrever, lanando para Carlos, ao molhar
da penna, um sorriso malicioso.

Este pousou a carta.

O pae olhava-o obliquamente, como a esperar alguma reflexo.

Carlos fitou ainda Manoel Quentino, o qual lhe fez um imperceptivel
signal.

Carlos aventurou-se:

--Emquanto ao negocio da aguardente...--disse elle com certa
hesitao--nada...

O effeito foi maravilhoso!

Mr. Whitestone voltou-se com viveza e, sem disfarar a intima
satisfao, que lhe causava ver o filho to bem informado, exclamou:

--Ah! tambem reparaste? Foi o que logo me deu que entender. Cuidei que
nem estavas ao facto!

Carlos, animado com o resultado, proseguiu com mais coragem:

--Como era negocio de vulto...

Manoel Quentino fez porm uma carta, que o levou a corrigir.

--Isto ... de vulto no digo... mas...

--Mas que podia bem vir a sel-o para o futuro ...  assim--atalhou Mr.
Richard.

--Exactamente--concordou o filho.

Manoel Quentino sorria.

--Mas j estive a pensar--proseguiu Mr. Richard--talvez influissem
n'isto as condies do mercado em Londres. Subiria o genero a ponto de
exceder o maximo indicado nas nossas cartas.

--Pde ser, mas...--dizia Carlos, olhando para Manoel Quentino,  espera
de receber inspiraes d'alli.

Este affeioou os labios como para pronunciar uma palavra, que a Carlos
pareceu dever ser juro. Por isso abalanou-se outra vez a dizer:

--E tambem o juro...

Parou, porque devras no sabia o que devesse dizer do juro, nem se era
natural imaginar que tivesse subido ou descido.

Manoel Quentino moveu a cabea em direco do tecto, exprimindo
mimicamente a primeira hypothese.

--Talvez o juro subisse--concluiu, em vista d'isto, Carlos Whitestone.

Mr. Richard aproveitou a insinuao do filho, e evidentemente satisfeito
notou com vivacidade:

--Effectivamente o juro est muito alto em Londres.

--Ha muito tempo que o no tivemos to desfavoravel--apressou-se Carlos
em dizer, d'esta vez sem hesitar, visto que dava apenas nova frma 
mesma ideia.

-- verdade que no. Creio at que ainda n'estes ultimos dez annos no
subiu tanto, como agora.

Carlos percebeu em Manoel Quentino um movimento de desapprovao, que o
animou a dizer:

--Isso  que no sei; dez annos ser demais, comtudo...

--Olha que no  demais--insistiu Mr. Richard, devras admirado das
informaes do filho; e, depois de meditar algum tempo, continuou,
voltando-se para o guarda-livros:--Em que anno teve logar aquella quebra
da casa Blackfield de Londres, Manoel Quentino?

--Em outubro de 1847--respondeu este, sem levantar os olhos da escripta.

--Em 47?--Ai, ento tens razo, tens; 47 a 55... 8...  isso... Porque
eu lembro-me de que estava ento o juro a 8 por cento.

--E d'essa vez--acrescentou Manoel Quentino--o cambio era-nos mais
desfavoravel que hoje.

-- isso,  isso.

Esta conversa prolongou-se por algum tempo com visivel satisfao de Mr.
Richard, com bastante difficuldade para Carlos e com superior diplomacia
do bondoso Manoel Quentino, que estava sendo collaborador de Jenny, na
obra de pacificao domestica, encetada por ella.

Ouviram-se emfim tres horas na torre de S. Francisco, e Mr. Richard,
depois de ultimo exame aos livros e algumas recommendaes mais, sau do
escriptorio, dando as boas tardes a Manoel Quentino, fazendo a Carlos um
signal de despedida, menos scco do que de ordinario, e, o que mais era,
afagando na passagem o _terra-nova_, cousa que no praticava, seno em
occasies de grande harmonia com o filho.

Ainda mal se tinha perdido nas escadas o som dos passos de Mr. Richard e
o dos latidos de contentamento do _Butterfly_, impaciente de liberdade,
j a carta do correspondente de Londres, descrevendo uma parabola, vinha
car na escrivaninha ao lado de Manoel Quentino, e Carlos accendia novo
charuto e dispunha-se a seguir o exemplo paterno.

--At que soou a hora da redempo!--exclamou elle, pondo o chapo na
cabea.

--Ento j se vae embora?--disse Manoel Quentino, maliciosamente.

--E acha voc que no tomei dse bastante de commercio esta manh? Isto
em pleno carnaval? Que impiedade!

--Eh! eh! eh! E que me diz do tal negocio da aguardente? Ento com que,
est alto o juro, hein? Eh! eh! eh!

--Vi-me devras embaraado com a tal aguardente!

--Mas sau-se bem.

--Agradeo-lhe o auxilio.

--Quer mandar dizer alguma cousa ao correspondente a tal respeito?

--Que v para o diabo! No me pde occorrer o arrevezado nome d'esse
maldito. Como se chama elle?

--Ento no sabe ainda? Woodfall Hope... Uma das primeiras firmas
commerciaes de Londres; e n'este negocio da aguardente...

--No, isso mais devagar, Manoel Quentino--atalhou Carlos--no lhe aturo
nem mais uma palavra a respeito do tal negocio da aguardente. Boas
tardes. Adeus, meus senhores. Deixem isso e vo ver as mascaras. Adeus.

--_Farewell_! Mr. Charles... Eh! eh! eh!...

Dentro em pouco, ouvia-se o descer apressado de Carlos, e a pancada
violenta da meia cancella do portal impellida de encontro ao batente.

O escriptorio voltou ao primeiro silencio. A Praa estava quasi deserta.
Como era tera-feira de carnaval, terminra mais cdo a azafama do
commercio. Os caixeiros bocejavam e o chiar da penna de Manoel Quentino
augmentavam o effeito somnifero do logar.

De repente porm foi mais ruidosamente interrompido o silencio por o
Trai larai, larai, larai, lai do guarda-livros.

O bom homem, revendo o trabalho feito, descobriu omisses e enganos, que
o obrigavam a refazel-o outra vez; a isto procedeu com exemplarissima
paciencia.

Voltou a si todas as culpas.

--Ora eu devia ter mais juizo. Ainda me deixo distrahir como as
creanas; merecia palmatoadas.

Depois, lembrando-se de Carlos:

--Aquelle traquinas tambem! Valha-me Deus!

Em seguida para os caixeiros:

--Os senhores podem ir embora. Vo s mascaras, vo; e olhem se teem
juizo e no arruinem a saude. Adeus. Eu ainda fico.

--Mas se quer que o ajudemos, snr. Manoel Quentino...--disseram elles,
por deferencia.

--Eu quero, mas  que me deixem. Vo com Deus.

Os caixeiros no se fizeram rogar.

--Agora, juizo--continuou Manoel Quentino, ficando s--juizo, seno s
chego a casa  noite, e a Cecilia ha de estar com canceira j. Como se
transtornou hoje tudo! Eu, que contava acabar com isto mais cdo, pois
levava o servio adiantado e vae... Como diabo lhe deu o rapaz para vir
hoje ao escriptorio?... Bom moo, isso l , um corao de pomba... A
cabea  que... E n'isto de negocio, ento!... Eh! eh! eh!... E o pae a
imaginar ha pouco... A gente sempre tem cegueiras pelos filhos! Cala-te,
bca, que tambem no pdes fallar! Coitados dos paes! E o velho quer-lhe
devras... Toda a sua pena  o rapaz no tomar gosto para o commercio.
Aquillo tambem muda... Verduras! Bom rapaz! bom rapaz! Tem a quem sar.
O pae, um homem de bem s direitas... a me era uma santa senhora...
Pois a irm? Isso ento nem fallemos... Um anjo! E pensar que no so
catholicos! A fallar a verdade! Ora adeus! protestantes d'estes, que
remedio tem S. Pedro seno ir recebendo-os no co.

Em consequencia da visita de Carlos, s s tres e meia foi que Manoel
Quentino pde terminar a sua tarefa e fechar o escriptorio, para voltar
a casa com appetite no estomago e tranquillidade no corao. J v o
leitor que tinha razo Carlos ao assegurar que no era das mais
proveitosas a sua ingerencia nos negocios commerciaes.




X


JENNY


Jenny entrou no seu quarto, logo depois da partida de Carlos para o
escriptorio. Era um delicioso quarto, cr de violeta, onde se divisava o
bom gosto e a elegancia desaffectada, maravilhosamente unidos a um no
sei qu de austeridade ingleza, no em tal grau que destruisse a feio
leve e graciosa, que compete aos aposentos de uma mulher de vinte annos,
mas bastante para os despojar de certo excesso de ornamentos, que em
extremo agradam a alguns espiritos, mais que femininos, pueris.

No lhe era cabida a descripo, que um romancista francez nos faz do
quarto de uma das suas heroinas, pintando-nos to abundantes as
tapearias e alcatifas que, em todo elle, se no mediria uma pollegada
de madeira a descoberto, e to flacidas e macias, que n'essa gaiola
perfumada poderia qualquer avesita voar, de canto a canto, sem receio de
magoar as azas.

Este requinte de molle elegancia parisiense mal se quadrava com a indole
sria e com a actividade natural de Jenny Whitestone. Ha em toda a
ingleza um pouco de puritana; no caracter das mais ternas conserva-se
sempre alguma cousa que, debaixo do ponto de vista moral, corresponde
quelle esbelto e inflexivel de frma, que lhes  proprio, to diverso
do requebrar indolente e quasi morbido das mulheres meridionaes.

No se encontrava no quarto de Jenny um unico objecto d'essa mobilia,
quasi de boneca, dos _boudoirs_ da moda, onde predominam o _papier
mach_, o pau rosa, a madeira branca e dourada; e os primores de uma
arte, que,  fora de querer apurar em delicadeza os seus productos, os
faz s vezes acanhados e ridiculos.

A elegancia, alli, no abdicava certa dignidade,  qual hoje  raro
combinar-se. Nenhum dos costumados artificios da industria moderna; tudo
era o que parecia ser; o marmore, marmore; o bronze, bronze; o damasco,
damasco; as rendas, rendas verdadeiras. No havia nos moveis esses
tenuissimos folheados, mascarando, com madeiras de preo, outras de
menos valor; nenhumas d'essas maravilhas de imitao, obtidas com
vernizes e tintas; nenhuns metaes enfeitados, pelo galvanismo, com
falsos titulos de nobreza. Nem um s objecto mentia dentro d'aquelle
recinto.

Os caracteres, naturalmente observadores da boa f, at n'estas cousas a
amam.

A cr predominante do quarto, de um tom que agradaria a pintores, fazia
vantajosamente sobresair a alvura dos cortinados do leito, castamente
descidos.

Cres mais garridas s as das camelias, que, em singelas jarras de
_biscuit_ e porcellana, adornavam o toucador e o fogo.

No usurpavam o logar, devido s pobres flores, essa profuso de
quinquilharias, hoje tanto  moda: vidros de essencias, de pomadas, de
oleo, cartonagens de todos os feitios, figuras de porcellana e de jaspe,
flores de pennas, de papel, de sola, de cascas de cebolas, de tudo com
preferencia s verdadeiras; retratos de rainhas e de reis, sabonetes de
varias cres e frmas e uma infinidade de pequenos objectos, que do a
qualquer d'esses gabinetes a apparencia de bazar ou de exposio de
feira.

Alguns bronzes de arte, alguns purissimos crystaes de Inglaterra,
algumas bonitas floreiras e uma ou outra obra de litteratura ou de
religio, n'aquellas inimitaveis brochuras inglezas, era o mais que alli
se podia ver.

As paredes estavam limpas de arrebicadas lithographias coloridas,
representando meninas a disfararem um sorriso atraz do leque, a
brincarem com um gato, a cheirarem uma flor, a olharem-nos atravs de
uma luneta e em outras muitas posies todas affectadas, de to
graciosas que querem ser; em vez d'este adorno, ento commum nas salas
do Porto, notavam-se as mais afamadas produces do inexcedivel buril
britannico e algumas aquarellas, cpias fieis de paizagens inglezas.

A luz penetrava na sala por entre discretas venezianas e cortinas, que
lhe temperavam a intensidade, at o grau adequado aos habitos de viver
de Jenny.

De tudo emfim vinha a este quarto um aspecto de placido recolhimento, em
que se aprazia o espirito, pensador e inclinado  melancolia, da
amoravel irm de Carlos.

Era alli dentro que, corridos os reposteiros e as cortinas, recostada s
mos a fronte pensativa, em silencio, a ss, tantas vezes, como agora, a
sympathica menina se entregava a meditaes abenoadas de Deus, e das
quaes dimanavam jubilos suaves para quantos de perto a rodeiavam.

Agitado o corao de saudades, sempre vivas e pungentes, contemplava
n'esses momentos, com fervor quasi religioso, o retrato da me, fiel e
mimosa miniatura, que recatava como a mais preciosa das suas joias.

A imagem d'aquella, que a estremecera tanto e que parecia ainda olhal-a
com um bondoso sorriso, que nem a morte lhe apagra dos labios, produzia
em Jenny a mais poderosa impresso.

s vezes,  fora de muito a contemplar, figurava-se-lhe que essas
amadas feies se animavam, que um ligeiro movimento lhe corria nos
labios, que um raio de vida fulgia, por instantes, nos olhos to cheios
de piedade e de tristeza.

Que alegria para o corao da pobre Jenny! Persuadia-se de que a alma da
me, evocada pela sympathia filial, passra alli, illuminra
momentaneamente a imagem inerte, e abenora a filha, que to pequena
deixra orph de apaixonadas caricias.

Esta illuso vivia com Jenny; era n'ella um d'esses intimos segredos do
corao humano, para os quaes no h confidentes possiveis. Perante a
amizade mais provada, perante o amor mais extremoso, a alma, por
expansiva que seja, no se revela toda. Ha uma parte obscura do nosso
mundo interior, sempre inaccessa aos olhares estranhos, onde se refugiam
esses muitos segredos do eu para o eu, segredos, de que ns mesmos nos
ririamos, se os labios ousassem pronuncial-os um dia;--que no ousam. Ha
exemplos de perfumes to subtis, que, aberto o vaso que os contm, quasi
instantaneamente se dissipam na atmosphera; assim estes mysterios
interiores, inconsistente alimento da nossa phantasia, perdem-se tambem,
ao tentarmos communical-os.

Guarde cada um para si essa parte do pensamento, supersties
infundadas, crenas pueris, que no podem separar-se de ns, sem que ns
proprios as desconheamos e com os estranhos zombemos d'ellas, das
pobres, que no nasceram para viver seno assim, presas  alma, de cuja
essencia parece receberem vida.

So como umas delicadas algas maritimas, cuja textura tenuissima se
expande na agua em formosas arborisaes, illudindo as esperanas dos
que, namorados de tanta belleza, as arrancam de l; fra do ambiente, em
que vegetam, cdo se mirram e desformam.

Bem lucida e forte era a razo de Jenny, e comtudo, no mundo interior,
nutria a crena illusoria--pelo menos illusoria me parece, a mim que de
fra a examino--de que aquelle retrato de sua me no tinha uma
expresso invariavel.

Eu queria dizer que isto era sentido, e no pensado, pela bondosa
menina; mas no sei se o rigor philosophico me permittir a linguagem; e
comtudo no vejo como de outra sorte dar conta d'este frequente
phenomeno psychologico--o da persistencia de certas crenas irracionaes,
nos espiritos mais vigorosos e logicos.

Dias havia, em que nos traos e delineamentos d'aquella miniatura, Jenny
julgava descobrir um ar de alegria, que logo se lhe insinuava no
corao; outros em que, pelo contrario, ganhavam vulto a seus olhos no
sei que sombras de tristeza que a faziam estremecer, como se fossem
presagio de mal.

Seriam reflexos de presentimentos proprios, que ento a illudiam?
Talvez; e ficar-se-ha comprehendendo melhor o mysterio, interpretando-o
assim?

Presentimentos! Que espirito philosophico ha ahi, que os admitta?

Jenny era ainda uma creana, quando perdeu a me; no meio dos jogos e
dos brinquedos infantis veio um dia surprendel-a este profundo golpe no
corao; ao seu lado, crescera o mal ameaador e terrivel, mas, no
descuido de to tenros annos, s dera por elle, quando a victima lhe
caa prostrada nos braos. Feliz idade, a d'estas imprevidencias! N'um
momento a vida inteira se lhe affeioou muito diversa, do como at ento
a antevira. Cdo, muito cdo, aquella creana franzina e debil, recebeu
a solemne investidura da sacrosanta misso de mulher; transmittiu-lh'a a
me, j moribunda; legou-lhe, nos derradeiros instantes, a tarefa
abenoada, que at o fim cumprira, sem um s dia de desalento.

Apertando nas mos j frias as da filha lacrimosa, que s ento vira a
morte, que, tanto havia, a ameaava nos seus mais queridos affectos,
incumbiu quelles poucos annos o pesado encargo da familia; e com a voz
trmula e os olhos turvados pelas sombras do adormecer final, disse-lhe
que a essas mos ia deixar entregue a paz da vida interior, a felicidade
dos seus; que a ellas confiava os thesouros e balsamos de affeies e de
carinhos, com que, no lar domestico, se sanam tantas dores e
desilluses, colhidas l fra, nas luctas da sociedade; depois, cingindo
ao peito a filha, como em extrema recommendao, para a qual as palavras
lhe faltavam j, morreu beijando-a; ungiu-a de suas ultimas lagrimas e
impressionou-lhe a mente infantil a ponto que a orph, depois de a
chorar sobre o tumulo, levantou-se mulher, mulher apesar dos seus doze
annos, mulher pela sisudez dos pensamentos, pela consciencia viva e
fervente da sua nova misso.

 um ensino efficaz o do infortunio! Desde essa hora fatal, como que se
abriram os olhos de Jenny para verem mais fundo no corao d'aquelles
que era dever seu tornar felizes. S ento principiou a reflectir que,
entre os coraes mais nobres e puros, se estabelecem s vezes
contrastes, de que podem resultar conflictos dolorosos; que o infortunio
e as miserias da vida nem sequer proveem da funesta influencia do mal,
de que se tenha deixado eivar completamente uma alma humana; que mais
vezes  do encontro de duas paixes, na essencia generosas, que a
tempestade se origina. No alto mar, um vento dominante pde governar o
movimento e a derrota de um navio, mas  necessario que seja extrema a
sua violencia, para que elle, por si s, o faa sossobrar; penetre porm
o vaso mais poderoso no seio d'esses redemoinhos, que formam os ventos
encontrados; e a submerso ser quasi inevitavel.

 assim na vida.

No basta que sejam grandes e sympathicos os caracteres, que laos de
familia ou de sociedade prendem uns aos outros, para que entre elles
exista harmonia. Que nas suas orbitas os animem movimentos contrarios, e
sero j de temer os embates e as perturbaes fataes.

A natureza physica tambem nos mostra como venenos energicos resultam s
vezes da combinao de elementos inoffensivos.

Tudo isto se foi esclarecendo,  fora de meditaes, no espirito da
pequena Jenny, que to precoce adeus teve de dizer quellas espontaneas
e no motivadas alegrias da infancia, que n'ella findaram com o ultimo
suspiro da me.

E cdo foi, muito cedo para uma creana ingleza que, de ordinario, na
idade em que as outras principiam j a querer ser senhoras, brinca
alegre e descuidada nos parques, correndo, saltando, rindo, sem se
affligir por a fimbria dos vestidos ainda se lhe no humedecer na relva.

Esta livre expanso, que sabem e costumam dar  alegria as pequenas
inglezas,  talvez a causa de serem desaffectadamente srias, quando
emfim a natureza, e no a arte prematura, as faz mulheres.

Cessaram pois em Jenny os risos d'essa idade, risos expansivos e
irreprimiveis, que a cada palavra, que  menor causa rebentam, como da
laranjeira florida chovem sobre o prado as ptalas nevadas e fragrantes,
 mais leve virao que lhe agita a folhagem.

Afez-se a reflectir, a votar-se toda  felicidade dos seus, procurando
insinuar-se nos pequenos segredos de caracter de cada um, para os
dirigir, sem lucta funesta, na mesma esphera de aco, no mesmo circulo,
em que tinham de viver.

Desde essa poca principiou a crescer e a vigorar com rapidez o
predominio de Jenny em toda a familia--suave sujeio, grata aos que a
supportavam, como uma beno do co.

At ento amra-se em Jenny uma creana meiga, cujas graas joviaes
faziam distrahir o espirito de preoccupaes mais srias; cdo porm
tomou esse amor diverso e mais respeitoso caracter.

Em Mr. Richard Whitestone  affeio protectora, de que rodeiava a
filha, principiou a misturar-se uma deferencia, que tinha seus vestigios
de venerao; em Carlos, a familiaridade que as idades quasi iguaes e os
jogos e estudos communs haviam feito nascer entre ambos, degenerou
gradualmente em um sentimento de mais respeito, em uma docil submisso,
que em todos os seus actos se denunciava.

Forte com esta dupla preponderancia, a cumprindo Jenny religiosamente o
legado da me, sempre com o pensamento n'ella, sempre com os olhos na
sua imagem, na qual julgava entrever os reflexos da alegria ou da
tristeza, que a sorte da familia devia por certo despertar n'aquella
alma de justa, que a contemplava do co.

Este oraculo, para todos mudo, s eloquente para os sentidos da filha,
consultava-o Jenny com ardente f ao encerrar-se ssinha no quarto, onde
a luz e o rumor de fra penetravam discretamente, como convinha a logar
de to piedosos mysterios.

Era triste a imagem d'esta vez!

Triste porqu?

Se os labios da irm de Carlos trahissem n'aquelle momento as ideias,
que to profundamente a absorviam, elles fallariam d'este modo:

--Pobre me! porque venho encontrar-te assim triste? No passaria ainda
a nuvem d'esta manh?... Mas era to ligeira!... to leve! que a mim
mesma me inquietou pouco. Que adivinhas tu, boa me?--Isto pensava, ao
beijar o retrato--Alegra-te; Carlos deve estar agora no escriptorio;
pobre Carlos!  to bondoso aquelle corao! Como elle havia de amar-te,
como havia de acariciar-te, me, se ainda vivesses comnosco! Poucos o
conhecem bem. Mas por que ests ainda triste? Has de ver como voltaro
amigos.  facil reconciliar aquelles coraes, que a final tanto se
estremecem! Uma ou outra nuvem, que passe entre ambos, gera-a o mesmo
excesso de amor. Parece-me que ia dizer como tudo se passou. A vista de
Carlos foi bastante para dissipar todo aquelle resentimento...
resentimento proprio de quem muito estima!... Ento! J no tens
confiana na tua filha? Bem vs como todos aqui me querem. Elles de
certo vem em mim alguma cousa do teu espirito, me, para serem assim
to doceis com uma pobre rapariga.   tua alma,  tua alma, que me
acompanha, que elles obedecem a final. Contina ao meu lado, me, e eu
serei forte; no me abandones, e vers que no ha fundamentos para
apprehenses. E ainda triste!--E beijava o retrato--E ainda!... e
ainda... e ainda!...--beijava-o repetidas vezes.

Depois tentava a razo dissipar aquelas piedosas illuses:

--Estou louca!--pensava ento Jenny--Pois como pde um retrato...

Aproximava-se mais da luz.

As illuses voltavam outra vez, como volta o enxame de abelhas que o
vento afasta das flores.

--No sei, no sei como isto , no posso saber... mas esta expresso 
mais triste do que a de hontem... De que procede esta tristeza?... A
maneira por que me fallou do baile de hontem... O baile! ... acaso ...
aquela mascara?... Mas que pde resultar d'alli?... Meu Deus! diria que
ainda te pozeste mais triste! Deverei pois acreditar...

N'isto ouviu passos fra da porta.

Quebrou-se o encanto! Como que se extinguiu toda a impresso do retrato
para os sentidos, meio allucinados, da commovida...
visionaria--chamar-lhe-hei assim?--Apressou-se em escondel-o.

A figura de Luiza, aquella mesma criada que j conhecemos, appareceu no
limiar.

--Que , Luiza?

-- a filha do snr. Manoel Quentino.

--Ah! chegou finalmente Cecilia? Que entre, Luiza, que entre. Nem sei
para que a fez esperar--acudiu Jenny com vivacidade.

Era Cecilia uma das suas mais affeioadas amigas.




XI


CECILIA


Passados momentos, entrava no quarto, ligeira como uma andorinha,
risonha como uma creana, a filha de Manoel Quentino. Era a unica
familia que o velho guarda-livros tinha no mundo.

Jenny estendeu-lhe affectuosamente a mo ... e beijaram-se, pensar a
leitora. Pois no beijaram, no, minha senhora; as inglezas poupam muito
mais esse thesouro dos beijos, do que as mulheres dos outros paizes; um
amigavel aperto de mos, um sorriso, uma phrase affectuosa... e mais
nada. Ser para os fazer mais apreciados, quando concedidos?

Cecilia era um modelo da belleza portugueza, e portuense talvez, nas
suas mais felizes realisaes.

 costume entre ns, quando se quer exaltar, no conceito dos leitores, a
belleza de uma mulher, classifical-a entre as hespanholas, entre as
italianas, entre as allems, e entre as inglezas, mas nunca entre as
nossas compatriotas, que soffrem, ha muitos annos, com sublime
resignao de martyres, esta velha e flagrante injustia.

Parece que o typo nacional  indigno de referencia, e que s quando
d'elle aberra e, por um capricho da natureza, reveste a feio
estrangeira,  que uma figura de mulher merece as frmulas, mais ou
menos sonoras e hyperbolicas, da nossa admirao.

 vulgar ouvir-se dizer:--Como  bella! Ha n'aquelle todo vaporoso
certo ar germanico!--Que mulher! Tem o _salero_ de uma
hespanhola!--Que magestade! que _morbideza_!  uma perfeita _madonna_
italiana!--Que poetica gravidade! Dir-se-hia uma candida _lady_! O
que porm se no ouve, pelo menos o que eu ainda no ouvi, : --Que
sympathica rapariga!  uma portugueza perfeita!

A causa d'isto  o sermos ns uma nao pequena e pouco  moda, acanhada
e bisonha n'esta grande e luzida sociedade europeia, onde por obsequio
somos admittidos, dando-nos j por muito lisongeados, quando os
estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por ns.

Falta-nos certo uso de sociedade, que ensina cada qual a occupar o seu
logar. Quando no encarecemos exageradamente as cousas patrias, 
maneira d'aquelle sujeito que vimos n'um dos grupos da Praa, camos no
excesso opposto e nem sequer fallamos d'ellas, como se nos corressemos
da origem.

Bem que peze  vaidade nacional,  foroso o fazer aqui, em familia, uma
confisso:--Ns temos o defeito d'aquelles provincianos que, nos
circulos da capital, suffocam envergonhados, como cousa de mau gosto,
uns restos de amor da terra, que ainha os punge, e deitam-se a exaltar,
com affectao altamente comica, os prazeres e commoes da vida das
grandes cidades, que ainda mal gosaram e ainda mal saboreiam;--fallam
dos theatros, dos bailes, da cantora da moda, do escandalo do dia, sem
se atreverem a dizer uma palavra pelo menos das arvores, das paizagens,
das tradies, dos costumes locaes, do conchego domestico da sua
provincia, o que porventura os outros lhe escutariam com mais vontade; e
no fim de tudo ficam mais ridiculamente provincianos, do que nunca.

Assim tambem os portuguezes, acanhados nos circulos da Europa, no ousam
conferir diplomas de excellencia a cousa que lhes pertena;
envergonham-se de fallar nas riquezas patrias, emquanto abrem a bca,
por conveno, a tanta insignificancia que, em todos os generos, a
vaidade estrangeira aprega como primores: levam o excesso da modestia,
se  s modestia isso, at receiarem que as vistas dos estranhos
averiguem do que lhes vae por casa, e agradecem, com effuses de
sensibilidade, uma ou outra phrase de louvor, que, em momentos raros,
elles lhes concedem.

Se ousamos fallar de Cames, ao mesmo tempo que de Tasso, de Dante e de
Milton; se ousamos apregoar o vinho do Porto, junto com o de Xerez,
Chateau-Laffite e Tokay,  porque lhes deram l fra o diploma de
fidalguia; que por ns ... continuariamos, calados, a ler um e a beber o
outro, sem bem conhecermos a preciosidade que liamos e que bebiamos, ou
pelo menos correndo-nos de uma nos parecer sublime, e a outra deliciosa.

Ainda que se taxe um dos similes de menos delicado,  certo que o mesmo
succede com as bellezas femininas; costumamo-nos s exclamaes 
moda:--Ah! as hespanholas!--Oh! as italianas!--Ai, as allems! e
julgariamos de mau gosto dizer em publico:--As portuguezas! at sem
interjeio prvia a encarecer-lhes a valia.

E isto fazem-o at muitos, que nunca transpozeram as barreiras d'esta
cidade, onde no abundam os typos d'essas varias bellezas exoticas.

Eu porm atrever-me-hei a arvorar a bandeira puritana n'esta campanha
gloriosa.

De certo no sero os leitores que m'o levaro a mal.

Deus me defenda de querer, por forma alguma, ferir a fama tradicional de
todas as j estudadas e classificadas bellezas, admittidas e exaltadas,
como taes, no mundo inteiro; a minha tolerancia abrange todas; queria
smente que se abrisse tambem logar para as nossas patricias, que bem
merecem essa distinco.

As portuguezas no formam typo especifico, dir-me-ho talvez; so uma
variedade apenas de especie mais vasta. Sempre desejava que conhecessem
Cecilia, para que depois me dissessem a qual dos typos femininos,
consentidos e sanccionados, pertencia a amiga de Jenny.

Se houvesse uma frmula unica para a belleza feminina, chamar bella a
qualquer d'estas duas mulheres, agora reunidas diante do leitor, seria
condemnar a outra; to diversas, to oppostas at, eram aquellas duas
physionomias em tudo! Mas no succede assim; tem tantas maneiras de se
realisar a belleza, tantos meios de excitar em ns, no mais intimo do
nosso peito, essas mysteriosas vibraes que nos arrebatam, que seria
loucura disputar primazias em casos assim. E isto  como no mais.

Pois por serem bellos os vergeis do Minho, perdem a belleza as leziras
do Vouga, ou at as paizagens alpestres de Traz-os-Montes?

Cecilia no era loura nem trigueira, nem d'aquella cr pallida, que
sonham os poetas e de que os medicos desconfiam; tingia-lhe o rosto,
graciosamente oval, um colorido que, em linguagem artistica, julgo que
nem tem ainda palavra creada.

Se porm,  falta de termos, sempre lhe quizessem chamar pallida, deviam
acrescentar, que era de uma pallidez, atravs da qual se presentia o
sangue cheio de vida, que s vezes a transformava na diffusa cr de rosa
de um rosto de creana; os cabellos que, por um ondado natural, se
erguiam levemente no alto da fronte, vacillavam entre o negro e o
castanho escuro; os olhos, sim, esses eram negros devras, e,--qualidade
bem rara em olhos!--de uma discrio impenetravel. Olhos discretos,
quando de ordinario so elles os que primeiro atraiam e inutilisam a
reserva dos labios! Olhos, que ousam fitar-vos sem deixar fugir um
segredo, nem desviar-se, por desconfiarem de si proprios! Discretos, mas
expressivos de sympathia e de familiar bondade! No se imaginam os
encantos de uns olhos assim! E no julguem que so por isso incapazes de
eloquencia; anime-os um dia a confiana e o amor, e vero os raios
offuscadores que despedem! Mas o que elles no fazem,--e bem hajam por
isso-- andarem por ahi a desperdiar eloquencia, como esses implacaveis
falladores, que em toda a parte se occupam a declamar discursos. Na
conformao habitual dos labios, no sorrir, no mover da cabea, em todos
os movimentos e gestos emfim, havia, em Cecilia, uma to completa
ausencia de arte, tanta naturalidade e franqueza, que a vista deixava-se
ficar, com prazer suave e sem timidez, a contemplal-a.

Ha um meio de reconhecer o genero de belleza, a que pertencia
Cecilia--genero que eu sustento ser o nacional:--quando, junto de uma
mulher formosa, vos sentirdes  vontade, sem que a razo se vos
perturbe, sem que por galanteria vos julgueis obrigados a lisonjas, sem
que fermente em vs o tanto ou quanto de poesia, que encerram todos os
coraes; quando suavemente dominados pela branda influencia de um olhar
sem requebros, podrdes sustentar com essa mulher uma conversa
affectuosa, sincera, leal, como a sustentarieis com um amigo ou com uma
irm; quando, ao separar-vos d'ella, lhe apertardes cordialmente a mo,
sem que nem a vossa nem a sua estremeam ao encontrarem-se, e finalmente
trouxerdes d'essa entrevista uma impresso agradavel, que mais vos
acalente do que vos agite os sonhos, ficae certos de que encontrastes um
dos typos de que fallo.

Aviso-vos porm que os no julgueis pouco perigosos, apreciando-os pela
placidez d'estes primeiros effeitos; se levaes em conta de ventura a
liberdade do corao, fugi-lhes emquanto  tempo; pois, continuando
n'essa convivencia intima, natural, insinuante, correis o risco de
insensivelmente vos deixardes prender, se um dia, ao tentar terminal-a,
surprendeis-vos devras apaixonados; pela dor que experimentaes,
conheceis ento que fundas raizes lanra j o affecto.

Eu por mim julgo mais irresistiveis as paixes que se geram assim; as
que nascem rapidas, teem evoluo rapida tambem, e muitas vezes
apagam-se em pouco tempo.

Vendo n'isto de paixes uma especie de doenas da alma, como alguns
querem, era possivel talvez estabelecer n'ellas diviso analoga  que,
nas do corpo, admittem os medicos. Haveria assim paixes agudas e
paixes chronicas; umas, como as doenas do mesmo nome, geradas por
impresses subitas, rapidas na sua marcha, promptas na sua terminao;
outras adquiridas insidiosamente, por influencias de todos os dias, e de
que nem se suspeita mal, lavrando a occultas e revelando-se apenas,
quando o terreno j  seu e a victoria certa.

Quaes d'ellas zombam mais da arte, devem sabel-o medicos e doentes.

Mas, voltando a Cecilia, o seu conversar, ao qual dava realce o timbre
de voz, vibrante e sonoro, tinha uma vivacidade e animao, direi at
uma eloquencia natural, que entretinha a ouvir-se; no decurso de
qualquer conversao, era notavel a frequencia com que lhe passavam a
voz e as feies por contnuas e successivas alternativas de tristeza e
alegria; como alternam nas campinas a sombra e a claridade, quando
atravessam rapidas o ar, as nuvens impellidas pelo norte.

Era assim que, referindo acontecimentos tristes, uma ou outra
circumstancia d'elles desafiava-lhe um sorriso ou uma observao jocosa,
e que, no meio da historia mais jovial, no lhe passava despercebido
qualquer ligeiro vestigio de sentimento que ella tivesse, e de repente
lhe desapparecia o riso dos labios e os olhos reflectiam uma generosa
melancolia.

Um dia, por exemplo, contava ella a Jenny, e contava-o quasi a chorar, o
infortunio de um pobre centenario, a quem seu pae soccorrera. O
desgraado velho vivia n'uma casa miseravel, e, abandonado de todos, ia
succumbindo  fome, quando Manoel Quentino o disputou compassivo a morte
to tormentosa.

--Se visse o pobre homem!--dizia ento Cecilia, com tremor de compaixo
na voz--se o visse! Como elle nos recebia, chorando e rindo, como me
pegava nas mos para as beijar! Como erguia ao co aquelles olhos, quasi
cegos pela velhice e pela desgraa! Fazia pena! To trmulo, to
curvado!...--E, de repente, vindo-lhe aos labios um sorriso, que ella
no reprimiu, acrescentou:--E ento n'aquella idade e n'aquella miseria
toda, o cuidado que o pobresinho tinha ainda com o rabicho, que usava na
cabelleira! Coitado!

De outra vez contava, rindo, o episodio caricato de certo operario, seu
vizinho, que voltra, uma noite, a casa em completo estado de
embriaguez, e atordora a rua inteira com expanses de extemporanea
alacridade, altercando, cantando e tocando at altas horas. Tudo quanto
at alli referira lhe merecera sorrisos, mas, n'um instante,
cobriu-se-lhe o rosto de profunda tristeza, e suspirando, proseguiu,
cingindo a mo de Jenny:

--Mas no quer saber? Quando este homem estava mais contente, vieram
trazer-lhe um co, que elle estimava muito e que n'aquella mesma noite
haviam envenenado nas ruas. Parece-me que estou ainda a ver como elle
ficou; esteve por muito tempo calado a olhar para o pobre animal e
depois desatou a chorar e a abraal-o, chamando-lhe seu amigo, seu
companheiro, at...--acrescentou, sorrindo--at seu irmo. Mettia
realmente d. E aquella gente a rir cada vez mais! Era aquillo para rir?
diga.

Justeza de observao, talento para apreciar todas as faces dos
sentimentos e das aces humanas, poucas vezes os d o estudo no grau,
em que ella naturalmente os possuia.

No se podia pois, repetimos, dizer Cecilia apaixonada como uma
italiana, pensativa como uma allem, sria como uma ingleza, languida
como uma hespanhola, _coquette_ como uma franceza, porque de nenhum
d'esses typos se aproximava; era verdadeiramente portugueza, e, para
caracterisar estes, s conheo uma phrase, de que talvez o leitor se v
rir, mas pela qual eu tenho inexplicavel predileco. Associa-lhe o meu
pensamento tal conjuncto de qualidades physicas e moraes, que sempre que
a ouo applicar, ella s suppre para mim uma longa descripo, e se for
a analysal-a no lhe encontro de certo a comprehenso, que
instinctivamente lhe attribuo. Se ao leitor succeder o mesmo, conceber
o typo de Cecilia depois de eu a pronunciar.

Cecilia era o que naturalmente a todos occorre chamar--uma pobre
rapariga.--N'esta expresso nada ha que faa suppr a belleza da pessoa
a quem se applica, bem sei; nem em rigor se refere a qualidade alguma
moral.

 certo; porisso no analyso. Succede porm que, quando de qualquer
mulher, que no conheo, ouo dizer que --uma pobre rapariga--, no sei
por que a imagino bella, bella de belleza nacional e com um corao...
como o corao de Cecilia.

Aqui temos a ingleza Jenny, que no poderia receiar confrontos com a sua
amiga, nem em gentileza nem em bondade; mas, no sei porqu, lembrou-me
chamar a Jenny anjo e fada, e hesitaria em definil-a, como defino
Cecilia.

Accusar-me-ho de dar  filha de Manoel Quentino uma feio
demasiadamente burgueza, com a phrase burgueza, pela qual a caracteriso.
Folgarei de que seja merecida a critica, porque...--v aqui mais outra
confisso, em que revelarei a minha coragem--, eu sympathiso mais com os
typos burguezes do que com os typos aristocraticos,--e em mulheres
sobretudo. Rodeia-se de mais poesia aos meus olhos a rapariga burgueza,
e sem aspiraes a deixar de sel-o, quando a trabalhar  luz do
candieiro, do que a elegante dos sales, gastando a imaginao em
problemas de toucador; a costura, a simples, a modesta costura, util e
abenoada applicao da agulha feminina, agrada-me bem mais do que as
bonitas futilidades do, reputado mais nobre, trabalho de bastidor; a
mulher que a si propria se penteia, acho-a mais merecedora da
contemplao do artista, do que a indolente que, reclinada n'uma
poltrona e folheando o jornal de modas, entrega a cabea s mos de uma
criada ou do cabelleireiro. Esta, a ser copiada, basta-lhe por tla ...
um leque ou uma tampa de cartonagem.

Sim, Cecilia no tinha nada do typo aristocratico; n'isso era ella ainda
genuinamente do Porto, cidade cujo principal titulo de gloria  o ter,
em pocas em que a nobreza era tudo, previsto que podia e devia
prescindir d'ella, para se engrandecer.




XII


OUTRO DEPOIMENTO


--Esteve doente, Cecilia?--perguntou Jenny, accommodando o chapo da
amiga.

--No; porque m'o pergunta?

--Nem eu sei. Pareceu-me ler-lhe no rosto... e depois... veio to tarde.

--Ai, menina,--replicou Cecilia, sorrindo e ageitando o cabello, que o
chapo desordenra-- que se soubesse... Hoje fiz de fidalga.
Levantei-me depois das oito horas.

--Sim, preguiosa? E querem ento ver que se esqueceu de trazer aquelles
cabees, de que me fallou.

--gora. Olhe; trago esses e at mais alguma cousa...

--Bem, bem; vamos ver isso tudo--atalhou Jenny, com curiosidade.

E as duas raparigas foram sentar-se, uma ao lado da outra, no sof
proximo da janella.

--Veio s?--perguntou Jenny, momentos depois.

--Vim.

--Sem mdo?... no dia de entrudo!...

--Mdo nenhum. De minha casa aqui so caminhos, que podem dizer-se todos
de aldeia. Quasi sempre por entre quintas e campos... Encontrei umas
creancitas, que vinham da mestra, e conversei com ellas todo o tempo.

E continuando a revistar o interior de um sacco de marroquim verde com
fechos de ao, Cecilia proseguiu, mudando de tom:

--No julgue que lhe vou mostrar nenhuma preciosidade; foi uma
distraco de meia hora no sero de sabbado. Esta semana tive tanto que
fazer, que no pude occupar-me com estas bagatelas. Bem sabe que no me
cresce muito tempo para brincar. Olhe.

E mostrava a Jenny um delicadissimo primor da arte feminina; um cabeo
apenas, mas do qual, se me auxiliassem conhecimentos technicos, poderia
fazer uma descripo, pelo menos do tamanho da que Homero consagrou ao
escudo de Achilles.

Mas a sciencia das leitoras e a ignorancia provavel dos leitores n'este
assumpto no lhes deixaro sentir a lacuna.

--Pois eu ia quasi dizer-lhe que inda acho este mais bonito, do que o
outro que me mostrou ha dias--disse Jenny, demorando-se a examinar o
cabeo.

--O desenho d'esse  mais delicado, mas... Ai!--acrescentou passando, a
sorrir, a mo pelos olhos, e suspirando--parece-me que nem vejo, de
somno que tenho!

--Somno! E levantou-se to tarde! Que quer dizer isso hoje, Cecilia?

-- que me deitei hontem muito tarde tambem.

--A trabalhar?

Houve um intervallo de silencio, antes que Cecilia se resolvesse a
responder. Jenny insistiu, elevando ao mesmo tempo os olhos para ella.
Viu-a crando e como entretida a segurar um alfinete.

Os alfinetes so os principaes cumplices de todos os disfarces
femininos. Sempre que uma mulher precisa de occultar um sorriso, uma
turbao, um rubor, tem a certeza de encontrar estes amigos officiosos a
servirem-lhe de pretexto. Ha sempre um alfinete a pregar, a despregar, e
a repregar de novo.

A final porm, com visivel esforo sobre si mesma, Cecilia respondeu de
uma maneira, que em vo procurou tornar natural:

--No, Jenny, no foi a trabalhar.

Jenny presentiu um segredo n'aquelle enleio e hesitao, mas no tentou
descobril-o; disfarando as suas suspeitas, disse-lhe:

--Pz agora de lado um trabalho de _crochet_, que me pareceu bonito.

Cecilia mostrou-lh'o, sem dizer nada.

E o silencio manteve-se algum tempo entre as duas, silencio de as
constranger a ambas; at que emfim Cecilia, n'uma d'essas subitas
resolues to frequentes n'ella, e pelas quaes parecia querer
apressar-se a realisar um bom pensamento, antes que ulteriores reflexes
viessem suffocal-o, pz de lado, com certa impaciencia, toda a obra que
tinha estendida no regao, e tomando as mos de Jenny, fitou os olhos,
negros e cheios de vida, nos olhos azues e suavemente melancolicos, com
que esta a seguia admirada:

Cecilia conservou-se ainda alguns momentos silenciosa e indecisa; mas
por fim, crando mais e possuida de sobresalto, que no conseguiu
disfarar sob sorrisos:

--Jenny--disse com a voz trmula de commoo--eu sei que a menina 
minha amiga, e julgo que o melhor  contar-lhe tudo...

--Seja o que for que tem para me dizer, se o que a faz hesitar  a
duvida da minha amizade, posso assegurar-lhe, Cecilia, que...

--No, no , no podia ser--acudiu Cecilia, e por um movimento rapido,
impensado, irresistivel, levou aos labios as mos delgadas de Jenny, que
no lhe pde fugir a tempo.

--Que est a fazer?!--disse Jenny, rindo.

--Deixe-me; sabe como eu lhe quero, sabe a confiana que tenho em si,
Jenny, pois no sabe? Mas  que ... ha certas cousas que sempre custam a
dizer.

Jenny sorriu com expresso particular; previa uma confidencia amorosa no
embarao de Cecilia.

Cecilia comprehendeu a significao d'aquelle sorriso, porque se
apressou a dizer:

--No, no  o que julga, Jenny. No teria a menor hesitao em lh'o
dizer, se fosse isso. Pde crl-o.

Apesar da segurana, com que Cecilia o affirmava, duvido de que, to sem
custo, se resolvesse a fazer uma confidencia, que, sendo a primeira
d'esse genero, faz titubear os mais arrojados. Mas acreditemol-a sob
palavra, que no temos outro remedio.

--Seja o que for,--respondeu Jenny, procurando inspirar-lhe
confiana--no deve ter escrupulos em m'o revelar. Escrupulos porqu?
No somos raparigas ambas? da mesma idade quasi?

--Mas a Jenny  to differente de todas ns! Tem tanto juizo, que no
pde deixar de estranhar certas cousas, que ns, as que temos a cabea
leve, fazemos sem pensar, e de que mais tarde nos arrependemos.

--Est a ser injusta ao mesmo tempo commigo e comsigo, Cecilia. Nem essa
cabea  leve, nem eu da sisudez que me faz.

--Pois bem,--continuou a filha de Manoel Quentino--estou resolvida a
contar-lhe tudo, mas ha de prometter-me dizer no fim, com a maior
franqueza, o que pensa do que eu lhe contar, sim? Olhe que ficamos de
mal se me no disser a verdade, inda que me seja desfavoravel.

--No ha de ser.

--Adivinho que ser.

--Oh meu Deus! Cecilia, est a assustar-me--disse Jenny,
jovialmente.--Ha no seu rosto e nas suas palavras tal expresso de
terror, que me mette mdo! Praticaria de facto algum crime?...

Estas palavras de Jenny, e inda mais o tom em que foram ditas, fizeram
rir Cecilia, e attenuaram muito a timidez com que luctra at alli.

--O que eu quero ento--disse ella-- que me deixe continuar, emquanto
fallo, a cercadura d'este cabeo, que ficou em meio. No sei de que ,
mas acho-me mais  vontade tendo os olhos entretidos.

--Como quizer; mas n'esse caso, deixe-me occupar tambem os meus,
examinando o fundo da sacca.

--No trago mais nada, a no ser...

--Est bom, est bom: eu verei o que . Principie.

Applicadas assim cada uma  occupao que escolheram, Cecilia
principiou:

--No sei se j lhe tenho fallado nas filhas do major Mattos, minhas
vizinhas ha bastantes annos e antigas companheiras de mestra.

--Muitas vezes. Bem sei.

--Estas meninas so muito boas, muito minhas amigas, mas...

Jenny ergueu os olhos para Cecilia, sentindo-a hesitar.

Cecilia proseguiu:

--Mas sobretudo o que so...--digo-lhe isto a si, Jenny--so ainda mais
amigas de se divertir. O genio do pae, to alegre como o de qualquer
rapaz de vinte annos, no desmereceu nas filhas, que todos os dias
inventam novos divertimentos.

-- uma felicidade ter um genio assim, pois no ?--disse Jenny,
examinando um pequeno bordado.

--Isso no vale nada,--acudiu Cecilia, reparando tambem--nem sei como o
trouxe ahi.

Jenny arredou-a com a mo e fez-lhe signal que continuasse.

--Mas emquanto s minhas amigas,--proseguiu Cecilia--trabalhadeiras so
ellas; isso l so, coitadas; mas, no faz ideia, n'uma hora de
descanso... s trindades, por exemplo, j no pensam seno em como ho
de passar o domingo seguinte, e ahi vo lembrar ao pae um passeio pelo
rio acima, um jantar na Pedra Salgada ou em Fonte da Vinha, um almoo a
Lea ou  Foz, uma noite ao theatro, e  raro que o pae, que  perdido
por ellas, no as satisfaa em alguns d'estes projectos, que de mais a
mais lhe agradam a elle tambem,  preciso que se diga. Muitas vezes
convidam-me e, devo-o confessar, teem-me valido muitas horas de
verdadeira distraco, isso tem.  uma familia muito boa, e meu pae no
pe a menor duvida em deixar-me ir com ella para toda a parte.

--Estava  espera de uma confidencia que me fizesse estremecer,
espantar, e saem-me cousas to naturaes e to boas, que confesso-lhe,
menina, chego a estar desgostosa--disse Jenny, fechando o sacco de
marroquim, onde acabra de guardar todos os bordados e dando s feies
um fingido ar de mortificao.

Cecilia sorriu a esta reflexo, mas acrescentou:

--Ainda  cdo. No se apresse a julgar, que pde ter de contradizer-se
depois. Havia muito tempo j... ora eu sei?... desde o anno passado, que
estas meninas tinham entre si combinado um projecto, mais difficil porm
de executar do que nenhum dos outros. Queriam por fora que eu tomasse
parte n'elle. Ao principio disse-lhes que no; mas tanto me pediram,
tanto me convenceram de que no havia nada a receiar, que eu acabei por
prometter que sim. Repare, Jenny, repare. Olhe que principia aqui o mau
da minha historia. O projecto era...

--Espere; deixe ver se sei. Incendiar a cidade?

--Ora!

--Fazer uma revoluo no paiz?

--Est a brincar?

--Partirem todas para a Crimeia?

--Jenny!

--s cautelas e hesitaes, com que est...

--O projecto era irmos todas mascaradas ao theatro.

--Ah!--disse Jenny, no podendo reprimir um gesto e um movimento de
estranheza.

Cecilia, que elevra os olhos para ella, percebeu-lh'os.

--Eu no disse? Veja como principia j a...

--No  por isso, mas... Continue--replicou Jenny, com mais curiosidade,
e no desviando j os olhos de Cecilia.

--Este projecto--proseguiu a filha de Manoel Quentino--tinha, como lhe
disse, grandes difficuldades. O major, to amigo de fazer a vontade s
filhas, no quiz ouvir fallar em tal. Ellas porm  que j no podiam
tirar aquillo da ideia.

--E foram?--perguntou Jenny.

--Havia muito que andavam  espera de occasio. E o carnaval a
fugir-lhes! Ha de haver porm tres dias que o major foi, por negocios
militares, obrigado a sar da cidade.

--E ento?...

--As filhas ficaram ss em casa com uma tia d'ellas, muito boa senhora,
mas que no sabe recusar-lhes nada. Que mais queriam?

--Foram?

--Foram; hontem mesmo. Se parece que tudo se lhes preparou como ellas
desejavam!

--E a menina?--interrogou Jenny, cada vez mais preoccupada com o que
ouvia.

--Tinham-me convidado para ir de tarde a casa d'ellas. Depois de l
estar, mandaram, sem que eu o soubesse, recado a meu pae de que eu
voltaria tarde, pois tinha de ir com ellas a uma reunio em casa de umas
senhoras suas amigas.

--Visto isso...

--Era noite, quando me apresentaram um domin e me communicaram o seu
projecto. Eu ainda lhes puz algumas duvidas, mas...

--Foi?

--Fui. Ah! como est j to sria! No o dizia eu?

Effectivamente Jenny no teve poder de disfarar a impresso, que lhe
estava fazendo a confidencia de Cecilia, j pela natureza d'ella, j
pela similhana, com a que do irmo ouvira poucas horas antes.

--Prometti dizer-lhe a verdade, Cecilia--principiou Jenny, tomando com
affecto as mos da sua amiga, que interrompera o trabalho j--e seria
faltar  minha promessa occultar-lhe que me parece ter sido algum tanto
aventurada essa resoluo. Umas poucas de senhoras, ss, n'um logar como
aquelle, onde dizem que concorre tanta e to diversa qualidade de
gente!... Emfim eu no sei bem, e pelos resultados e que melhor se pde
julgar d'estes meus receios, que talvez sejam exagerados... e so de
certo.

--No so, no, Jenny. Olhe; eu, ao principio, para lhe fallar verdade,
ia com certa curiosidade. S me custava que tivesse sido necessario
enganar meu pae, mas, como no fazia a menor ideia do que fosse um baile
de mascaras, estava com desejos de ver; e, demais a mais, a irm do
major ia comnosco...

--E depois?

--Entramos no theatro, seriam dez horas, amos todas mascaradas. Por
signal que me ri muito com a mascara que levava a irm do major. 
notavel! foi a primeira que appareceu, e tinha alguma similhana com a
cara d'ella. Assim como estas caricaturas, que logo  primeira vista se
conhece de quem so.

E Cecilia quasi se distrahia com a incidente reflexo cerca da mascara;
Jenny chamou-a porm ao assumpto.

--Mas vamos ao que lhe succedeu.

--Ah!  verdade. Andamos primeiro por alguns camarotes, em que estavam
senhoras do conhecimento das minhas companheiras e a quem ellas
fallaram, sem serem conhecidas. Diverti-me com isto. Que graa achei a
uma senhora idosa, a quem se metteu na cabea que ns eramos umas suas
parentes de Braga, terminando em chamar-me a sua Joanninha! Coitada!
ficou to desconsolada, quando, espreitando-me os cabellos, conheceu que
se havia enganado, que deveras fazia pena!--E no ! veem, que tristeza
a minha?!--dizia ella tanto do corao, que eu no tive mo em mim, que
a no abraasse e beijasse; arrisquei-me assim a ser vista e a dar a
conhecer as outras, que depois muito me ralharam por causa d'isto. Mas
se eu no pude!

--Vamos--disse Jenny, sorrindo  sensibilidade da amiga.--E o resto da
noite?

--Ai, Jenny, o resto da noite...--respondeu Cecilia, suspirando, como se
lhe fosse custosa a confisso, e continuou:--Entramos na sala. Nunca foi
a um baile d'esses? Pouco perdeu. Que calor! que confuso! Um quarto de
hora depois de alli entrar, j suspirava por sar; mas ellas nem
pensavam n'isso. Era meia noite talvez, vim sentar-me, cansada,
enfastiada de todo aquelle tumulto.

N'este ponto Cecilia parou, como se o que tinha para dizer lhe causasse
maior perturbao.

Jenny no pde deixar de sorrir pela similhana que esta parte da
confidencia tinha com a do irmo.

--Pouco tempo depois--proseguiu Cecilia--veio sentar-se junto de mim...
uma pessoa...

Um alfinete fez sentir, no sei como, a necessidade de que as attenes
se applicassem todas para elle, e Cecilia no recusava attender, em taes
casos, s reclamaes dos seus alfinetes.

Occupada portanto a pregal-o, ou no sei se a despregal-o, continuou:

--Uma pessoa que eu conhecia; olhou para mim e... comquanto no
suppozesse quem eu era, fallou-me; respondi-lhe, e por muito tempo
ficamos a conversar.

--Em qu?--perguntou Jenny, com modo natural.

A esta pergunta, Cecilia hesitou.

Passados porm alguns instantes, respondeu:

--Eu sei? Em muitas cousas; e  certo que bem agradavelmente; mas cdo
depois vieram outros, menos delicados do que este...

--Do que este?! Ai, visto isto era um homem? no tinha entendido
bem--notou Jenny, com ligeiro ar de malicia.

--Era; pois que tinha eu dito? Ah! sim... uma pessoa. Era um homem, era.
Os que vieram fizeram-me ver mais claro a imprudencia do passo que
tinhamos dado.

Jenny no perdia agora uma s palavra, uma s inflexo, uma s cambiante
de cr, que observava em Cecilia. Esta no o percebia, porque os
alfinetes estavam de uma impertinencia, que nem lhe deixavam attender a
mais nada.

No entretanto dizia:

--O mesmo succedeu s minhas amigas; preparamo-nos logo para deixar o
baile. Vendo porm que nos seguiam, soccorri-me ao cavalheirismo do que
primeiro me fallou, e isso nos valeu.

--Ah!

--Serviu-nos de guia e protector atravs das ruas ainda cheias de
mascaras; mas insistia depois em nos conduzir a casa. Tremi ainda mais
com esta insistencia, do que com a dos outros. Este conhecia meu pae e
se soubesse... Oh meu Deus!... Por mais que lhe rogassemos, no queria
deixar-nos; eu, perdida de susto, pedi a Deus uma inspirao. A
inspirao veio, e foi poderosa. Elle deixou-nos a final, e ns entramos
em casa... mas eram quatro horas da manh.

O que faltra  confidencia podia Jenny bem suppril-o de per si;
desviando porm os olhos disfaradamente, ponderou como se pretendesse
desenganar-se:

--Falta-lhe agora dizer, Cecilia, para ser completa a confidencia, quem
era esse homem e qual foi a inspirao que Deus mandou  menina.

D'esta vez tambem os alfinetes de Jenny parecia exigirem certos
cuidados, que ella lhe concedeu.

Cecilia balbuciava com manifesto enleio:

--Ah! quem era?... no sei; isto ... quero dizer... era...

Jenny pegou-lhe na mo.

--Seja franca at o fim--disse-lhe em tom de insinuante amizade.--Esse
homem era meu irmo.

Cecilia estremeceu e olhou espantada para Jenny.

--Como o sabe?

--Sei tudo--replicou Jenny, apertando-lhe a mo com affecto.--E sei
tambem a inspirao que teve, e agradeo-lh'a.

--Sabe? Mas ento...

--Carlos tem o costume de me contar tudo, e ainda esta manh... ha
pouco... me tinha dito...

--Tudo?--perguntou Cecilia de uma maneira particular e crando.

--Tudo--respondeu Jenny, dando a esta palavra uma inflexo e animando-a
de um sorriso, que augmentaram a intensidade d'este rubor.

Como o leitor viu, tinha havido importante omisso na confidencia de
Cecilia, omisso que aquelle tudo de Jenny lhe mostrava agora ter sido
inutil.

--E que opinio fazia elle... que opinio fazia o snr. Carlos de
mim?--perguntou Cecilia com verdadeira inquietao.

Jenny revestiu-se de seriedade e reflectiu algum tempo, antes de
responder.

No se imagina como se faziam extraordinariamente bellas as feies de
Jenny sob a influencia d'este ar de reflexo, que to frequente lhe
fixava o olhar e lhe desenhava uma ligeira ruga na fronte.

Cecilia consultava com apparente sobresalto aquella physionomia
expressiva.

--Olhe, Cecilia,--disse Jenny por fim--como a menina ainda agora o
reconheceu, no foi por certo prudente o passo que deram. A necessidade
de o occultar de seu pae era bastante prova d'isso, quando nada tivesse
acontecido que melhor o provasse ainda. Carlos procedeu bem e mal; bem,
em as proteger; mal, depois. Elle devia ter sempre na ideia, como eu lhe
disse, que alguma pessoa bem educada, e que de facto tinha desejos de
occultar-se, podia ser essa mascara que elle, depois de proteger,
perseguia. Disse-lh'o ha pouco ainda, mas... sabe o que elle me
respondeu?

--Que foi?

--Se eu lh'o digo, Cecilia,  para que a menina faa sempre o que lhe
aconselharem os presentimentos do seu bom corao, e creia que so
excellentes as inspiraes que lhe vierem d'ahi. Quando eu dizia a
Carlos que imaginasse que era eu mesma a que estava debaixo d'aquelle
dmin, e a que me via perseguida, respondeu-me que no havia
probabilidade d'isso, porque... pessoas que...

--Oh! no diga mais, Jenny, no diga mais--atalhou Cecilia, quasi
fechando-lhe os labios com a mo; e os olhos inundaram-se-lhe de
lagrimas que, umas aps outras, lhe rolaram pelas faces.

Era uma das irresistiveis expanses d'aquella impetuosa natureza.

--Bem v, Cecilia--proseguiu Jenny com affecto--bem v que no tinha
razo Carlos, no que suppunha. A culpa toda era d'elle. E agora no se
afflija, menina. Affligir, porqu? Foi uma brincadeira de raparigas e
sem consequencias alm d'aquellas--acrescentou, sorrindo--de que nem a
inspirao, que Deus lhe mandou, a pde livrar. E se isto a faz chorar
assim, o que ha de deixar para os infortunios reaes?

--Jenny, prometta-me nunca dizer a... a ninguem que era eu...

--Socegue. Dentro em pouco nem eu mesma o sei j.

--Oh! meu Deus s o suppr!...

Jenny conseguiu serenar a rapida tempestade, que turvra o espirito de
Cecilia, e distrahir-lhe a atteno para outros objectos.

Antes de sar de casa de Mr. Richard, j ella tinha rido, e quando
entrou na sua, trazia o espirito tranquillo, e respirava com o desafgo
dos dezoito annos, e d'aquella indole sem preoccupaes.

Feliz idade e feliz corao!




XIII


VIDA PORTUENSE


Manoel Quentino habitava em uma rua proxima do extremo occidental da
cidade, afastada assim do maior bulicio d'ella--bulicio que, desde as
tres horas da tarde at s seis da manh, era para o guarda-livros
insupportavel.

Os gostos de Manoel Quentino tinham de facto variaes diurnas to
regulares, como as de um instrumento meteorologico.

Nas horas de vida commercial impacientava-o o socego do bairro em que
vivia; ao romper do sol por detraz dos outeiros, que elle avistava ao
longe das janellas do seu quarto, tomava-o a febre do trabalho; o cantar
matutino das aves por entre os arbustos do quintal, a no ser aos
domingos e dias santos, no o tentava a ficar a ouvil-as; parecia que
mais bellezas de harmonia achava nos gritos dos vendilhes, que enchem
as ruas da cidade baixa. Pelo contrario, ao declinar da tarde,
entrava-lhe no corao a nostalgia domestica; comeava a odiar o
escriptorio, a rua dos Inglezes, o borborinho das praas, e a suspirar,
como o expatriado, pela alegria do regresso; extasiava-se em ver de casa
descer o astro do dia, e sumir-se no oceano; espectaculo magnifico, ao
qual da varanda da sala do jantar assistia com o prazer do espectador
que de um camarote de frente presenceia fascinado a vista final de
gloria de um drama sacro.

O arranjo interior da pequena casa de Manoel Quentino exprimia certo
bem-estar, certo conforto, que principiava a querer transpr os limites
que o separavam do luxo.

Permittiam-o os ordenados que Manoel Quentino, como primeiro
guarda-livros, recebia das mos de Mr. Richard, mos nunca to
apertadas, que no deixassem sar algumas mealhas mais do que o
ajustado.

Preciso  porm confessar que o espirito economico e a intelligente
administrao de Cecilia concorriam em grande parte para este resultado.
Pelas suas mos, de bem pequenas afeitas ao tracto domestico, to
escrupulosamente regulados andavam os capitaes, que no s satisfaziam
ao necessario, mas derivavam-se ainda para o que se pde j dizer
superfluo.

Escusado  quasi acrescentar que Cecilia era o idolo de Manoel Quentino.
N'ella se concentravam todas as affeies do velho. Tinha apenas seis
annos a filha, quando lh'a deixra confiada a esposa, que elle chorava
ainda; emquanto cercava a innocente de constante vigilancia e de
cuidados assiduos que, por inspiraes do corao, soubera amenisar de
carinhos e de meiguices verdadeiramente maternaes, robusteceu-se-lhe
aquelle amor a ponto de referir d'ahi por diante a elle todos os outros
sentimentos, que o moviam.

Nunca lhe pareceu demasiada qualquer despeza feita com Cecilia.

Empenhou-se em dar-lhe uma educao esmerada, e conseguiu-o.

Exultava de prazer, vendo crescer em vida, em intelligencia, em bondade,
aquella bonita creana, junto de cujo bero velra noites e noites,
scismando no futuro d'ella.

Pouco a pouco deixra-se possuir de um respeito, de uma venerao pela
filha, que tinham seus vislumbres de idolatria.

A primeira madeixa loura cortada aos cabellos de Cecilia, ainda menina,
trazia-a o velho sempre comsigo, como talisman milagroso; o menor
bilhete, dos que ella lhe escrevia para o escriptorio, a respeito de
qualquer negocio domestico, archivava-o, como reliquia, que seria
profanao deixar perder.

Tinha puerilidades Manoel Quentino!... puerilidades que s faro rir aos
poucos, que no as tenham tido iguaes. Movia-o, quasi at s lagrimas,
qualquer phrase affectuosa d'aquellas insignificantes correspondencias.

Como elle era feliz lendo, no alto do bilhete, por exemplo: Meu bom
pae ou meu querido pae, e no fim d'elle--sua extremosa filha ou
sua filha obediente.

Por irresistivel impulso aproximava dos labios aquellas palavras e
beijava-as com fervor.

Quando, no meio do trabalho quotidiano, que elle, como vimos, executava
com uma fleugma e regularidade, que deviam fazer suppl-o homem pouco
sujeito a expanses, a ideia de Cecilia lhe passava pelo espirito, tinha
movimentos de creana.

Pousava a penna, interrompia a conta, correspondencia, ou o que quer que
fosse em que estivesse occupado, para esfregar as mos de contente, como
o rapaz de escola ao acudir-lhe de subito a lembrana de um feriado
proximo.

s vezes no resistia a dar dois passeios no escriptorio, trauteando, e
a vir  janella, com a penna na orelha, a espreitar, por entre os
vidros, a altura do sol.

Ao voltar a casa, Manoel Quentino no se distrahia pelas ruas; procurava
as travessas e atalhos mais solitarios, para evitar importunos;
tardava-lhe a conversa da filha.

Quando na presena d'elle se fallava em alguma epidemia, que
principiasse a ameaar a cidade, j o bom homem no podia dominar um
terror intenso; revelava-se-lhe no semblante em caracteres bem evidentes
e havia-lhe conquistado a reputao de pusilanime, entre os seus
collegas mais novos; j at se divertiam, mal suspeitavam com que
crueldade, a despertar frequentes vezes estes receios pnicos.

A ideia do risco pessoal no era porm a que o fazia empallidecer; um s
receio, uma s lembrana o torturava ento, era a do perigo que podia
correr a vida de Cecilia.

No se concebe em que especie de loucura o lanou uma doena da filha. O
servio do escriptorio foi pela primeira vez perturbado na sua marcha
regular, e a correspondencia, em cuja nitidez caprichava Manoel
Quentino, no raro lhe saa das mos toda manchada de lagrimas. No dia
em que o medico lhe deu, sorrindo, a certeza de que Cecilia estava
salva, Manoel Quentino no teve mo em si, que se no atirasse, a rir e
a chorar, aos braos d'elle, chamando-lhe seu bemfeitor e beijando-o com
paixo.

Esta crise exacerbou aquelle j extremoso amor de pae.

No havia sabbado em que Manoel Quentino, parco em excesso talvez
comsigo, e que por isso grangera entre os amigos a immerecida reputao
de avarento, entrasse em casa com as mos vazias, sem um mimo, uma
lembrana para Cecilia, arrostando com as meigas exprobraes d'esta e
com seus mal simulados arrufos.

Quantas vezes elle fazia, como costuma dizer-se, vista grossa para o
azulado ameaador dos cotovlos e das costuras do casaco, para as
quebras lastimosas do seu chapo de seda, s com o fim de poupar algumas
libras e comprar um chaile, uma marqueza, um vestido novo a Cecilia!

S depois de repetidas insinuaes, pedidos, e at affectuosas ameaas
da parte da filha, s depois d'ella haver esgotado os mil recursos da
sua eloquencia,  que Manoel Quentino se decidia emfim a olhar por si e
a attender s necessidades proprias.

O meio mais poderoso a que, para isso, Cecilia recorria era pedir-lhe
que a acompanhasse a um logar publico qualquer. Ento o guarda-livros,
que no aprendera a recusar-lhe nada, promettia, scismava, coava a
orelha, examinava o fato, torcia o nariz, resmungava e, no dia ajustado,
elle ahi se apresentava de uniforme novo para servir de cavalheiro 
filha.

A ideia de a fazer passar por uma vexao realisra o milagre e vencera
a sua modesta repugnancia.

Cecilia sabia-se objecto d'este culto, e retribuia-lh'o com attenes e
carinhos, que deixavam comprehender ao pae o que devia ser a felicidade
suprema.

O leitor, costumado a passar a noite no theatro, nos bailes ou nas
assembleias, mal pde fazer ideia do prazer intimo com que Manoel
Quentino via escurecer a tarde e scintillarem, ainda pallidas, as
primeiras estrellas no co.

Preparava-se-lhe um d'esses gsos placidos, que so mal concebidos por
quem d'elles anda arredado em habitos de vida mais turbulenta; mas aos
quaes no ha talvez caracter ou temperamento humano, que no corra o
perigo de habituar-se, se por algum tempo lhes experimentar as douras.

 mais facil, e mais vezes se realisa, a transio da vida errante,
tumultuosa e agitada para estes montonos prazeres do viver domestico,
do que a inversa; como se o pendor natural da indole do homem o chamasse
mais para alli.

Os seres de Manoel Quentino, aquelles seus to apreciados seres,
passavam-se todos com uniformidade tal, que, por um, se ficava, com
raras excepes, a conhecel-os todos.

O fim da tarde e a noite d'aquelle dia, em que se passou a parte das
scenas, que havemos descripto at aqui, podem offerecer-nos uma perfeita
amostra d'elles.

Manoel Quentino, depois de jantar, viera assistir, da varanda do
occidente, ao espectaculo do crepusculo e regalar a vista por sobre as
quintas, jardins, casas e alamedas do vasto panorama que o mar cingia de
zona prateada.

A tarde estava de chuva, mas o vento de sudoeste conseguira romper o
extenso manto, que cobria o firmamento, e mostrando um pouco do azul da
abobada celeste, deixava que o sol no occaso dourasse as ultimas nuvens,
que d'aquelle lado limitavam o horizonte.

As occupaes domesticas de Cecilia s de quando em quando lhe
permittiam assomar tambem  varanda, e recostando ento o brao ao
espaldar da cadeira do pae, fazia notar a este as particularidades de
belleza d'aquelle vasto quadro, que o espirito pouco analytico do velho
smente apreciava em globo.

--Repare n'aquella nuvem cr de rosa. No parece mesmo uma ave com as
azas abertas?--perguntava Cecilia, designando uma das taes nuvens, que o
sol tingia os reflexos afogueados.

--Uma ave!--dizia Manoel Quentino, fitando o objecto designado--Ento
como te parece uma ave aquillo, menina?

--Pois no acha? Olhe; v alli a cabea, depois uma aza, depois a outra?
Olhe, agora inda parece mais; at a cauda se conhece bem...

--Eu... se queres que te falle verdade...--continuava Manoel Quentino,
sem perceber ainda a similhana.

--Olhem que pae este! Pois devras no v? Para onde  que est a olhar?

E Cecilia vinha collocar a sua bonita cabea na posio da de Manoel
Quentino, e to perto, que o pae no perdia o ensejo de lh'a beijar na
fronte.

--Ora diga, pois no lhe parece uma ave aquillo?--insistia Cecilia.

--Eu... Ah! agora sim!--exclamou o velho, tendo a final percebido a
similhana--Agora, sim, senhora! L est, e que grande bico que ella
tem! Eh! eh! eh!... Ora o diacho!

--A menina faz favor de chegar aqui.

Era a criada Antonia, que reclamava o conselho de Cecilia em alguma
difficuldade de administrao domestica.

Antonia era um to genuino typo de criada de servir, que dispensa a
descripo.

Cecilia retirou-se da varanda. Manoel Quentino permaneceu com os olhos
fitos no sitio, para onde lh'os dirigira a filha, at que a nuvem cr de
rosa de todo se descoloriu e desformou.

Ento baixou-os para a terra e scismava... na sua felicidade.

Passados instantes, Cecilia aproximou-se p ante p, e, sem ser
presentida, veio por detraz d'elle e tapou-lhe os olhos com as mos,
perguntando:

--Adivinha quem eu sou?

--Ora tem muito que adivinhar!--respondeu Manoel Quentino,
gracejando--pelas mos se conhece logo.  a aguadeira.

--Ora vamos!--exclamou Cecilia, rindo--Mas para onde  que estava a
olhar assim entretido, que nem me viu?

--Estava a ver umas obras, que alm se andam a fazer. Aquillo, se me no
engano,  na casa do conselheiro Arantes.

--Ora se ha de olhar para acol, para aquellas arvores, pe-se a reparar
n'essas casarias! No lhe appetecia estar alli, debaixo d'aquelles
carvalhos?

--No  nenhum impossivel; se quizeres...

--Ento promette levar-me l?

--Prometto tudo o que tu quizeres.

--Veja o que diz! Depois, se lhe pedir alguma cousa difficil!

--Eu j estou costumado s tuas exigencias.

--Sim? pois eu tenho uma cousa a pedir-lhe.

--Ha de ser grande.

--E , promette fazel-a?

--Dize l.

--Mas promette?

--Mas dize primeiro.

--No, senhor, prometta antes.

--Bem sabes que te no digo que no.

--Mas ento que dvida tem em prometter?

--Est bom, prometto.

--D-me a sua palavra?

--Dou a minha palavra--disse Manoel Quentino, rindo.

--Pois o que eu queria pedir-lhe--disse Cecilia, passando os dedos por
entre os cabellos brancos do pae--era que comprasse outro guarda-chuva,
que, a fallar verdade, aquelle sempre est!...

--Ora! cuidei que era outra cousa!

--No importa; mas prometteu.

--Pois sim; mas escuta...

--gora escuto, que tenho mais que fazer.

E retirava-se apressada para no ouvir, dizendo:

--No quero saber, prometteu!

D'ahi a pouco era o pae que a chamava.

--Cecilia,  Cecilia! anda depressa ver um vapor no mar.

Cecilia correu  varanda.

--Vs?

--Agora estou como o pae ha pouco com a nuvem.

--Pois no vs?! Olha; aqui mesmo ao direito d'aquella chamin; entre
aquella entre-aberta de pinheiros.

--Bem vejo. Entra ou se?

--Quer entrar; mas com o rio assim! Aquillo  vapor inglez. Ora traze-me
o oculo.

--Agora  quasi noite e no pde distinguir nada. E demais est frio,
no ser mau fechar a janella e vir c para baixo. Eu tenho tambem de
trabalhar e preciso de accender luz mais cdo.

--Pois ento vamos.

Principiava ento ainda mais agradavel passa-tempo para o honesto
guarda-livros.

Desciam para a sala contigua ao quarto de Manoel Quentino; sala
modestamente mobilada, mas em cada particularidade da qual se revelava o
bom gosto de Cecilia. Se alli dentro se no encontrava nenhum movel de
alto preo, nenhum objecto de elegancia luxuosa, no havia tambem as
ridiculas demonstraes de um gosto grosseiro, amontoadas sem ordem,
adquiridas sem escolha.

Descobria-se em todo aquelle recinto um asseio e conchego, que fazia bem
contemplar.

Manoel Quentino sentava-se junto da mesa do trabalho, em uma cadeira de
braos, verdadeiramente patriarchal; Cecilia trazia luz, fechava as
janellas, pousava a cesta da costura e vinha sentar-se ao lado do pae.

Manoel Quentino contava alguma cousa do occorrido no escriptorio;
Cecilia correspondia-lhe, referindo o que, na ausencia de Manoel
Quentino, succedera em casa.

N'aquella noite o pae fallou muito de Carlos, das suas travessuras, do
seu estouvamento, dos enganos que n'aquella manh lhe fizera ter na
escripta, do episodio da agua-ardente, dos sentimentos de Mr. Richard
para com o filho, e sobre tudo do bom corao do rapaz.

Cecilia escutava-o com atteno, sem nunca o interromper com perguntas,
mas tambem sem nunca levantar os olhos da costura, para os fitar no pae.

N'isto retiniu a campainha do portal.

--Ahi est o homem--disse Manoel Quentino.

--Antonia, v alumiar--bradou Cecilia.

Ouviu-se Antonia descer pesadamente as escadas, depois algumas palavras
trocadas no portal, os passos de duas pessoas subindo, e o _homem_, que
Manoel Quentino parecia esperar, entrava para a sala, tirando o chapo e
cumprimentando os circumstantes com a invariavel frmula:

--Muito boas noites, snr. Manoel Quentino; muito boas noites, menina.

Este _homem_ era um vizinho e amigo de Manoel Quentino, que, havia muito
tempo, ganhra o habito de vir todas as noites alli ouvir ler os
jornaes, tomar ch e sustentar com o guarda-livros o mais soporifero e
descosido dialogo que se pde conceber, retirando-se emfim, ao bater das
nove horas, depois de agasalhar o pescoo com uma manta de l, a qual
levava sempre de preveno para toda a parte. Chamava-se Jos Fortunato;
fora em tempo negociante de cereaes; n'esta poca era proprietario de
predios velhos, possuidor de papeis de credito, homem de habitos
pacificos e ideias conservadoras, modesto no vestir, discreto no fallar,
fazendo ao jantar o seu forte no cozido, e, entre as maiores
extravagancias da sua vida actual, contando a de comprar, de quando em
quando, uma lagosta para comer de salada.

Era d'estes sujeitos, fieis observadores das leis commerciaes, e
rigorosos nas suas contas, a ponto de poderem parodiar uma das peties
do Padre-nosso, dizendo:--Fazei que nos paguem, Senhor, as nossas
dividas, assim como ns pagamos aos nossos credores.

Esta quotidiana visita a Manoel Quentino tornra-se j para o snr.
Fortunato uma necessidade, e de igual frma a presena e o conversar do
ex-negociante de cereaes, com quanto pouco ferteis em distraces, no
eram menos precisas ao pae de Cecilia, que estava n'aquella idade, em
que os habitos imperam com mais fora, e menos se amoldam os genios s
exigencias de habitos novos.

Passados os cumprimentos de tarifa, Jos Fortunato tomava assento ao
lado de Manoel Quentino, e principiava entre elles um dialogo, que, com
as variantes que o leitor prev, era d'este teor a frma:

--Muito frio, snr. Fortunato--dizia um.

--E muita chuva--respondia o outro, ageitando-se.--Esteve hoje l em
baixo?

Pergunta ociosa.

--Estive.

--Ento que se diz de novo?

--Nada.

--O rio vae muito cheio?

--Parece que comea a abaixar um pouco.

--Sempre est um tempo, santo nome de Deus!

--E que desgraas tem j causado!

--Que eu dou-me melhor com o frio--acrescentava d'ahi a instantes Manoel
Quentino.

--Eu lhe digo, eu tambem, para que digamos, no passo mal no inverno;
tenho mais appetite; mas esta catarrhal...

Tossia, para exemplo.

Todos os dias diziam isto um ao outro.

--Para as terras  que isto vae mal.

--J tudo est por a manta de Judas.

Phrase da linguagem popular, que quer dizer, no sei por qu, que tudo
est caro.

--Pois a carne?!

--Se deixam ir todo o gado para o estrangeiro! Devia fazer-se uma lei,
que prohibisse esse desafro.

Alvitre economico, que ainda no perdeu de moda.

--Isto est o diacho!

Este apophthegma fechava quasi sempre e com chave de ouro o dialogo.
Calaram-se os dois.

Cecilia, que esperava por este silencio e j por habito sabia o que
significava, ia ento buscar as folhas do dia e preparava-se para ler;
os dois velhos dispunham-se a escutar.

Qualquer d'elles experimentava um prazer indefinivel em ouvir ler
Cecilia.

Lia com tanta intelligencia e graa, que o snr. Jos Fortunato
confessava, que muitas vezes, ouvindo-a, entendia cousas, em que debalde
tentra penetrar, a grandes esforos de leitura propria.

Era uma scena curiosa aquella.

A compaixo paternal s perdoava a Cecilia a seco dos annuncios; o
mais tudo lhes lia a condescendente rapariga; o artigo de fundo, com
resignao; com intrepidez, as noticias estrangeiras; com curiosidade,
as locaes; o folhetim, com mais vontade; e tudo sem o menor
constrangimento, que podesse aguar aquelle prazer dos seus ouvintes.

O genio de Cecilia nem sempre lhe permittia proceder, sem commentarios,
quella leitura toda. A apologia exaltada do governo interrompia-a ella
s vezes com um parte, capaz de produzir crise ministerial, se fosse
escutado nas camaras; uma catilinaria, acerbamente opposicionista,
desafiava-lhe reflexes, que neutralisavam o contagio anti-governamental
que principiava a fazer das suas nas profundas convices de ordem do
snr. Jos Fortunato.

O leitor deve estar certo de que, por aquelle tempo, monopolisavam a
curiosidade publica as variadas peripecias da guerra da Crimeia.

Cecilia era obrigada a ler aquellas descripes de carnificina, que
todos os dias enchiam as columnas dos periodicos; isto o fazia ella
sempre com a fronte contrahida de desgosto.

Manoel Quentino era pelos alliados, Jos Fortunato esposava a causa dos
russos--um e outro sem saberem bem porqu. Cecilia era s pelos mortos e
feridos.

Um dia parou no meio da descripo de um dos mais sanguinolentos
encontros dos dois exercitos, para interpellar o pae sobre a causa
d'esta guerra implacavel.

A pergunta embaraou consideravelmente Manoel Quentino, que olhou para o
snr. Jos Fortunato, como a ver se lhe vinha auxilio d'alli; o snr.
Fortunato o mais que pde dizer foi:--Que a guerra era l por causa de
umas cousas.

Cecilia tambem no exigiu saber mais.

--Os russos...--leu ella n'aquelle sero--fazem fogo durante a noite
sobre o campo dos alliados; estes absteem-se de responder.

--Teem mdo--commentou logo o snr. Jos Fortunato com um sorriso.

--Isso  plano!--acudia Manoel Quentino, com ares de quem entrava no
mysterio.

--Os atiradores alliados respondem porm de dia com
proveito--continuava a ler Cecilia.

--Ento? era ou no era plano? Eu logo vi--exclamou Manoel Quentino,
exultando.

--Balas perdidas--replicava o outro, encolhendo os hombros com desdem.

--Os soldados--proseguia Cecilia--pedem com enthusiasmo ao general em
chefe, que d a batalha--e, acabando de ler isto, fez um gesto de
averso.

--Pois vo para l!--respondia o snr. Jos Fortunato, como homem que
conhecia a preceito os recursos de defeza da praa.

--Em Sebastopol ha duas mil bcas de fogo--lia ainda Cecilia.

Jos Fortunato olhou para o seu amigo, com gesto provocador e
triumphante; parecia que o convidava a atacar, propondo-se elle a
defender com aquelles auxiliares.

Em seguida Cecilia leu que Vassif-Pach acabava de tomar o commando do
exercito da Asia.

Foi a vez de Manoel Quentino pagar o gesto do outro, como se depositasse
grande confiana no Vassif e nas operaes campaes do exercito da Asia.
Mas o gosto de triumpho foi maior ainda quando ouviu que, a 30 de
janeiro, partira para a Crimeia, Ulrich, que elle no sabia quem era,
com a guarda imperial franceza; Jos Fortunato s teve, a compensar-lhe
o receio d'esta acommettida, a noticia de que estavam seis mil russos em
Pruth.

As noticias locaes eram o terreno neutro, onde caminhavam a par, e sem
conflicto, as curiosidades do auditorio.

Uma cousa no podia Cecilia perdoar aos localistas, era que tratassem
levianamente certos assumptos tristes: a priso de um pobre, uma
desordem domestica, uma tentativa de suicidio, por exemplo.
Impacientava-se com isto, e formulava um voto de censura, que Manoel
Quentino e Jos Fortunato apoiavam.

O noticiario vinha ento abundante de descripes de desastres, causados
pela cheia do Douro.

Era com consternao que Cecilia lia a narrao de tantas miserias.
Commoveu-a sobre tudo um facto verdadeiramente tragico, do qual ainda
haver talvez no Porto quem conserve memoria. O irmo de um piloto de um
dos navios que a corrente arrebatra, depois de tentar em vo salvar o
irmo em perigo, perdeu a razo, vendo-o succumbir; e esta dupla
catastrophe feriu de morte o velho pae de ambos. Manoel Quentino, que
tinha razes para saber o que era o amor de pae, limpou uma lagrima a
occultas. Jos Fortunato, com ser boa creatura, tinha, em circumstancias
assim, certas observaes sccas, de fazerem perder a paciencia a um
santo.

Ouvindo ler aquillo, disse:

--Ora! Isso  historia! Os gazetilheiros s vezes...

--Historia!  snr. Fortunato, por quem !--exclamou Cecilia
impaciente--Lembre-se de que  um irmo a querer salvar um irmo, e a
vel-o morrer; de que  um pae que perde dois filhos; no acha ainda
razo de mais para a morte ou para a loucura?

--Pois ento o outro que no fosse metter-se ao perigo; devia
lembrar-se...

--Ora devia lembrar-se!... quem se lembra de nada n'aquelles momentos? O
snr. Fortunato tem cousas!

Fortunato j estava arrependido do que dissera.

--Com menos motivos--acudiu Manoel Quentino--se arriscou ha tempos na
Foz o Carlitos, l o filho do meu patro. Virou-se no meio do rio um
pequeno barco valboeiro, que a governado por duas creanas, uma das
quaes nem sabia nadar; e elle, que andava s gaivotas com outros
inglezes--que  o seu gosto--no esperou mais nada e zs... mergulhou
como um peixe e salvou a creana. Depois continuou a caar, com a roupa
molhada no corpo, inda por muito tempo, em termos de ganhar qualquer
doena.

Cecilia estava to entretida a examinar no sei o qu, que vinha no
periodico, to perto tinha os olhos das lettras, que julgo nem dava
atteno ao episodio, narrado por Manoel Quentino.

 verdade que, assim que o snr. Jos Fortunato, depois de ouvil-o,
disse, com os seus modos sccos:--Estroinices, Cecilia levantou a
cabea com impeto e fitou-o crando e com uma expresso, pouco
lisongeira para o velho.

Eu no sei bem explicar este movimento em uma pessoa distrahida, como
ella estava, movimento, que alis no teve consequencias, pois, voltando
 posio anterior, passou a ler o folhetim.

Esta parte ouvia-a Manoel Quentino dormitando. No lhe levem isto a mal
os folhetinistas. Jos Fortunato, pelo contrario, ouvia-a com ardor; a
maneira de ler de Cecilia inoculra-lhe o gosto dos romances. Tomava
agora pelas peripecias um calor exagerado. Para elle era ponto de f que
tudo aquillo acontecera, e que tinham vivido, ou viviam ainda, os
personagens, entre quem se travava a aco. Censurava por isso com a
mesma violencia, e louvava com a mesma satisfao esses heroes
phantasiados, como se fossem membros reaes da sociedade.

Lido o folhetim, Cecilia passava o jornal ao snr. Fortunato, e ia tratar
do ch. Fortunato lia para si os annuncios.

Manoel Quentino passava ento pelo somno.

Depois travava-se entre os dois um dialogo, todo cortado de bocejos
contagiosos;--os assumptos eram para estes effeitos. Eis o programma
d'esta noite:

Primeira parte:--Fortunato principia por dizer--Pois 
verdade.--Replica-lhe Manoel Quentino--que a vida estava para
elle.--Queixe-se, que tem de qu--diz o outro--E no tenho
pouco--responde Manoel Quentino. Dois bocejos de ambos os lados, e
pausa.

Segunda parte:--Manoel Quentino queixa-se de umas dores de
cabea.--Fortunato attribue-as ao tempo e esfrega os olhos. Manoel
Quentino inclina-se a que seja antes do estomago. O outro aconselha-lhe
que no use de caf ao almoo. Bocejos reciprocos.

Terceira parte:--O snr. Fortunato, olhando para o tecto, nota que a sala
tem diminuto p direito. Manoel Quentino responde que, para a largura, 
o bastante. O outro diz algumas palavras sobre as vantagens dos
estuques. Manoel Quentino concorda e procura uma transio para fallar
contra os senhorios; Fortunato responde-lhe com uma diatribe contra os
caseiros. Reproduz-se um bocejo em Manoel Quentino, que se transmitte ao
outro.

Quarta parte:--Fortunato diz que est a expirar o carnaval. Manoel
Quentino replica que lhe no deixa saudades. Fortunato faz igual
declarao. Manoel Quentino v com maus olhos a chegada da quaresma, por
causa das confisses. Discute-se quaes os confessores mais passa-culpas.
Manoel Quentino lembra-se de perguntar quem inventaria isto de
confisses. Fortunato fal-as remontar ao tempo dos romanos, supremo grau
de vetustez, e d'elle conhecido.

D'esta vez os bocejos ficaram em meio, graas  entrada de Cecilia e de
Antonia com o taboleiro do ch.

Era notavel a transformao, operada em Fortunato. Alegrava-o o aspecto
das tostas e do leite. Ento que querem? No era que o homem precisasse
d'aquillo; mas emfim todo aquelle apparato bulia-lhe com a sensibilidade
gustativa e, por os mysteriosos laos do physico e do moral, l se lhe
ia entender com a alma por fim.

Esta satisfao interior desentranhava-se em amabilidades para com a
Hebe domestica d'aquella ambrozia--a snr. Antonia.

--Ai, snr. Antonia--dizia elle--assim  que ; cada vez mais nova.

--No me diga isso, snr. Fortunato; logo eu, que estou acabada.

--Acabada! Ainda mal principiou...

Eu no sei se era inteno do snr. Fortunato terminar aqui a orao,
cujo sentido fica um tanto obscuro. E no o sei, porque n'este ponto
Cecilia interrompeu-o, dizendo-lhe:

--Faz favor de ver se est bom do assucar, snr. Fortunato.

--Excellente, menina; mas faz-me favor de mais uma colherinha. Assim,
muito bem; mais uma agora e mais nada... assim... agora mais no. Est
muito bem.

Depois de cada um tomar a sua posio respectiva, o snr. Fortunato
principiou a fallar, misturando na bca as palavras com ch, com leite,
e com tostas e bolos.

--Pois, menina, eu estou morto agora por ver se o tal meliante escapa da
priso.

--Pois quem foi preso?--perguntou Manoel Quentino, que, tendo estado a
dormir, no sabia que o seu amigo se referia ao romance, que vinha na
folha.

--Ento no ouviu?--disse o snr. Fortunato, engulindo um bolo--Ella foi
bem pilhada, isso l foi. Porque o homem, pelos modos, no sabia que o
desconhecido era o pae da rapariga, e tanto que elle ficou espantado
quando o outro lhe appareceu, vestido de preto, e lhe disse...--Aqui o
snr. Fortunato engrossou a voz.--Eu sou a ultima das tuas victimas!--E
o filho ento  que veio a saber d'isto: sim, porque at alli no sabia
nada. Veio ento a saber que a irm do amigo do commendador  que tinha
dado o dinheiro, que elles entregaram  tal viuva do cunhado do
escrivo.

Manoel Quentino mexia machinalmente o ch, olhando boquiaberto para o
amigo, sem que percebesse uma s palavra, apesar do snr. Fortunato
gesticular, voltado para elle.

--Que diacho de embrulhada  essa? Eu se o entendo!

--Ento no leu?--teimava o outro--Elles tinham combinado que, logo que
partisse o navio, o rapaz fosse accusado do roubo feito ao commendador;
e para isso mandaram dizer aos tios do defunto que as joias foram
encontradas na caixa do escudeiro do desconhecido, mas...

--Mas quem demonio  essa gente toda? Que mexerofada de
cousas!--exclamou Manoel Quentino, devras impaciente.

--Ento no ouviu?--insistiu o snr. Fortunato, cuja natural difficuldade
de expresso se exacerbava ao expr as enredadas aventuras de um romance
francez.

Cecilia, que ao principio no attentra no dialogo comico, que se estava
trocando entre os velhos, no pde deixar de rir com vontade, ao dar por
elle.

--Mas onde aconteceu isso tudo, homem?--perguntava Manoel Quentino.

--Em Paris. Pois no...

--O pae no v que o snr. Fortunato est a fallar do romance?

--Ah! isso sim.

--Pois que cuidava?

--Eu sei l o que cuidava. Eu c de romances no entendo. E agora por
isso lembra-me que aquelle endiabrado rapaz, o Carlitos, teimava que me
havia de emprestar l uns romances... Eh! eh! Tem diabo o rapaz.

--Tambem est um estroina!--disse o snr. Fortunato, que era dos que
tinham Carlos na conta de homem perigoso.

--Mas deixe l, que  uma boa alma!--respondeu Manoel Quentino--Ninguem
lhe pde querer mal.  capaz de tirar a camisa do corpo para soccorrer
um pobre. Ahi est que uma vez viram-o, era ainda dia claro, entrar na
cidade, trazendo o cavallo  arreata e na sella vinha uma pobre velha,
que elle encontrou na estrada com um p desmanchado; outro que fosse...
 Cecilia, ento? onde tens tu o sentido, que nem reparas que alli o
snr. Fortunato tem ha tanto tempo a chicara vazia?

--Ai, perdo--disse Cecilia, crando pela distraco em que cara.

No sei bem por que isto a fez crar assim; mas o facto deu-se.

O snr. Fortunato, que havia muito tossia e suspirava com o fim de chamar
para si, e para a chicara, as attenes, disse por delicadeza:

--No tinha pressa.

Manoel Quentino continuou tecendo louvores a Carlos.

--Mas emquanto  tal historia da mulher--dizia Fortunato, recebendo de
Cecilia a outra chavena--isso tambem foi parlapatice no rapaz, pois...

--Ento; faz favor de ver se quer mais assucar--disse Cecilia, com um
certo modo desabrido, que eu tambem no sei explicar, e que contrastava
com a doura que lhe era habitual.

O snr. Fortunato notou-o.

--Est muito bem, menina--disse elle.--Faz-me o favor de mais uma
colherinha. Est muito bem.

--Menos isso, snr. Fortunato--continuou Manoel Quentino.--Bem se v que
no conhece o Carlitos. De imposturas  que elle nunca foi. J em
creana...

--Meu pae, sirva-se antes d'estes bolos--disse Cecilia de modo to
affectuoso, que alvoroou a sensibilidade do velho.

--Deixa estar, filha, que eu c me vou servindo.

--Pois sim--insistia o snr. Fortunato--mas que elle no  l de muitos
bons costumes, isso  que  verdade.

--Antonia, sirva aqui o snr. Fortunato--disse Cecilia sccamente, ordem
que, por excepcional, surprendeu a todos.

Tambem no sei bem explicar a razo d'esta ordem.

--Tudo isso no passa de rapaziada--proseguiu Manoel Quentino.--Mas o
que se chama fundo, boa alma, isso tem.

--Olhe, snr. Manoel Quentino, homem que no toma rumo de vida...

--Tambem ha muitas ms almas  testa de grandes estabelecimentos, snr.
Fortunato. Se um modo de vida fosse garantia e probidade!--disse Cecilia
com ironia.

--Pois bem sei que no, menina, mas...

--Mas, mas, meu caro--disse Manoel Quentino--o que ninguem pde negar 
que est alli um homem de bem...  verdade isso... Muitos fazem peior
com menos a desculpal-os.

O dialogo proseguiu, discutindo-se muito Carlos. Cecilia porm
absteve-se de tomar parte n'elle.

Terminou o ch. O ardor da conversa baixou. Manoel Quentino presentia o
somno. Jos Fortunato sentia-se a digerir. Cecilia trabalhava e s vezes
ficava parada com os olhos fitos na luz, como se ella lhe offerecesse
qualidades novas a examinar. Davam emfim nove horas.

--Ora vamos at casa--disse Jos Fortunato erguendo-se.

--Olhe se se agasalha--recommendou-lhe Manoel Quentino.

--Antonia, venha alumiar--disse Cecilia.

E o snr. Fortunato, feitos os seus cumprimentos, descia as escadas,
conversando com Antonia at  porta da rua a respeito de frieiras, e
mettia-se em casa, onde a imaginao teimava em recordar-lhe a doce
figura de Cecilia, e tudo quanto lhe dissera.

--Estranhei hoje os modos da rapariga--dizia elle ao deitar-se.

Uma perfida paixo comera, havia muito, a minar o corao do pobre
homem.

Manoel Quentino, como tinha de se levantar cedo, ia-se deitar pouco
tempo depois de Fortunato sair.

O dialogo entre o pae e a filha d'esta vez consistiu n'isto:

--Este snr. Fortunato s vezes!...

-- caturra, ...

--E tem umas ideias! Boa noite, meu pae.

--Muito boa noite, minha filha. Deus te abenoe.

Cecilia retirou-se.

Apesar de na vespera se ter deitado tarde, como o leitor sabe, Cecilia
no sentia somno. Parecia-lhe estar ainda experimentando o atordoamento
do baile. Lembrava-lhe tudo quanto Carlos lhe dissera, e o mais que de
Jenny tinha sabido, e affligia-se ento. Depois vinham as reflexes de
Fortunato, depois as palavras do pae e os episodios que de Carlos
Whitestone referira. A final cedeu ao somno. Pouco lucrou na transio.
Ha certo dormir que fatiga mais que a vigilia. Trava-se uma lucta de
sonhos, que nos deixa extenuados.

Cecilia imaginou que ia n'um barco, levado pela corrente impetuosa do
rio, em direco da barra. O perigo era certo, e comtudo o barco ia
cheio de mascaras que danavam. Cecilia gritava, mas ella propria no
escutava a sua voz. O barqueiro era o snr. Fortunato, e, cousa singular,
ao mesmo tempo que remava, ia tomando ch. Depois vinha Carlos, com um
cavallo pela rdea; mas o que mais a surprendia era que vinha pelo mar.
Carlos queria salval-a, tirando-a do barco, mas as outras mascaras e o
snr. Fortunato no deixavam. Porm o snr. Fortunato j no era o snr.
Fortunato, mas sim um dos personagens do romance, que tanto o
impressionra; e o mar tambem j no era bem mar, porque tinha camarotes
em volta. E comtudo o perigo persistia, sem saber bem como ou em qu, e
agora era ella a que fugia de Carlos.

Finalmente, o sonho era de um enredo complicado, tendo por elementos os
diversos acontecimentos e assumptos, que mais tinham preoccupado Cecilia
n'aquelle dia, mas tudo em desordem completa.

Em consequencia d'este sonho, acordou de manh, pallida e abatida--o que
no pouco inquietou Manoel Quentino.




XIV


IMMINENCIAS DE CRISE


Emquanto Cecilia passava assim pacificamente o sero d'aquella noite,
andava Carlos procurando com anciedade, por todos os sales de mascaras,
a sua desconhecida da vespera.

Jenny notra a impaciencia, com que o irmo tinha aguardado a noite e,
ao vel-o sair, disse-lhe com modo particular:

--Adeus, Charles; quer-me parecer que te no recolhers d'esta vez pelas
quatro horas da manh.

--Quem sabe, Jenny?

--Adivinho-o.

Effectivamente no eram ainda duas horas, quando Carlos Whitestone,
cansado de procurar em vo, em cada dmin e sob cada mascara de seda, a
incognita do ultimo baile, voltou a casa em pouco agradavel disposio
do espirito.

Jenny, que o sentiu chegar, sorriu de novo e disse comsigo mesma:

--Inda bem, que terminou o carnaval. Charles, dentro em dois dias, j
pensar em outra cousa.

Acabra de facto o carnaval. Expirra essa poca votada  folia e 
loucura sem rebuos e abria-se agora a da penitencia e dos sermes.

Em qual das duas ha mais verdades, mascaradas sob falsas apparencias,
deixo aos moralistas decidir. Ia principiar o reinado dos vos, durante
o qual a piedade e a moda levam s sextas-feiras a multido para a
igreja de S. Joo Novo, e ao domingo despejam meia cidade nos arrabaldes
proximos, para assistir  procisso dos Passos e ao respectivo sermo do
encontro.

Quasi toda a manh de quarta-feira de Cinza passou-a Carlos em casa.

Contra o que era de esperar do caracter d'elle, dominava-o ainda a
lembrana da mysteriosa mascara; o despeito de a ter deixado escapar,
sem que lhe ficassem vestigios, pelos quaes podesse um dia vir a saber
quem ella fosse, concorria para o no deixar tranquillo agora. Estava
dando tratos  imaginao, para se lembrar de qualquer meio conducente 
soluo d'aquelle problema de carnaval. Mas nenhum alvitre lhe offerecia
a imaginao atormentada.

Sau emfim, sem saber para qu, nem para onde; em vez de procurar os
centros de reunio mais concorridos, e onde, de ordinario, se fazia ver
e ouvir, mudou de rumo, deixou-se ir ao acaso e, passado tempo,
caminhava por entre os pinhaes, que orlam a parte ainda no edificada da
rua da Boa Vista.

Nos seus habitos de vida, essencialmente urbana, eram to raras as
occasies de se ver assim entre arvores e fra do povoado,
principalmente quellas horas do dia, que o facto estava-lhe causando
uma impresso singular.

Parecia-lhe um mundo novo; e alli, a dois passos de casa!

Internou-se por pinhaes e campos, at perder de vista a estrada. Parou
emfim. N'um estado moral, como o de Carlos n'aquella manh, no so
necessarios os grandes espectaculos da natureza para incitarem o
pensamento a uma d'essas divagaes, a que anda to sujeito o dos
poetas.

A vastido do mar, o horizonte amplissimo, que se descobre do alto das
montanhas, o fragor da cataracta, que se despenha no valle, subjugam e
obrigam a meditar at os menos propensos a contemplaes abstractas.

Haja porm um fermento de poesia no espirito de qualquer homem, ou
tenha-se apoderado d'elle a melancolia, que  uma poesia tambem, e
menores causas bastaro para se produzirem effeitos ainda maiores.

O caminhar do insecto ou o rastejar do verme por entre as folhas sccas
do cho, a lande, desprendida do ramo e arrebatada na corrente, o raio
do sol, que vae colorir a maravilhosa teia que a aranha teceu nas
tojeiras, nas praias o movimento de expanso das actinias, ou rosas do
mar, esses verdadeiros forcados das fragas, e outros iguaes phenomenos,
sem importancia para quem os v com animo distrahido, so j alimento
bastante para phantasias mais apuradas.

Carlos tinha a imaginao predisposta para estas impresses subtis, e,
como raras vezes se sujeitava a ellas, recebia-as agora com duplicada
intensidade.

Era pelas tres horas da tarde de um dos mais formosos dias, que nos pde
conceder fevereiro. Havia no campo aquella frescura, aquelle renascer de
vida que, aps longos dias de chuva, traz um dia de sol claro. O co no
tinha uma nuvem, nem lhe empanava o azul o vo transparente de nebrinas.
Os pinhaes estavam silenciosos, como se, julgando-se j na primavera, se
tivessem calado para escutar as aves; o vento, de debil que era, mal
podia agitar as folhas movedias das arvores que o inverno respeita. Era
tal a serenidade da tarde, que o fumo das casas rusticas subia ao ar
lentamente, em columnas direitas, sem que uma virao as quebrasse, e s
muito alto se dissipava na atmosphera.

Do logar onde parra, Carlos ouvia distinctamente a voz das raparigas do
campo, chamando o gado, rindo ou cantando.

Era de longe que partiam aquellas vozes, mas a amenidade da hora e o
silencio deixavam-as chegar at alli sonoras e perceptiveis.

Carlos sentiu-se enlevado por tudo aquillo.

-- uma singular loucura--pensou elle--julgar que se aproveitam os dias
da juventude da maneira por que eu vou passando os meus. Do homem, que
teve a minha vida, emquanto novo, costuma dizer-se que soube gosar
d'ella em tempo. E como  que eu d'ella gosei? Na atmosphera asphyxiante
de um caf; na plateia de um theatro, onde se falla e pensa em tudo
menos na belleza da arte; nas assembleias semsabores; nas esquinas das
praas, ou em lojas  moda. Na verdade, que delicioso viver! E o
espirito, que parece sentir-se palpitar, agitar-se em ns, quando assoma
a mocidade, acaba por embotar-se, por adormecer; torna-se incapaz de nos
proporcionar certa ordem de gosos, para os quaes temos faculdades
creadas. E diz-se ento que soube gosar da vida o que voluntariamente se
privou das mais gratas impresses, que podem sentir-se n'ella!

Isto dizia, ou antes, pensava Carlos, ao entranhar-se cada vez mais no
pinheiral, e respirando a pleno peito a atmosphera balsamica do logar.

--Nem eu sei--proseguia elle--como ainda experimento prazer, ao achar-me
aqui s. Nos habitos de vida, que fiz meus, perde-se at a faculdade de
saber sentir assim, a ss; quando  talvez d'esta maneira que a
imaginao mais subtil se mostra...

Vejam os leitores at onde iam j arrastando Carlos os attractivos
d'aquella solido suburbana!

Operou-se porm uma transformao nas suas ideias, que parecia vogarem,
e  vela cheia, seduzidas pelas douras da vida de anachoreta. Um
pensamento, menos misanthropo, mais social, fel-as mudar de rumo.

--Mas no--reconsiderou elle--no basta sentir;  necessario transmittir
as expresses dos nossos sentimentos, e os troncos das arvores, a final
de contas, no so os confidentes mais proprios. Tudo precisa de
reflectir-se, para no perder na immensidade; a luz, n'um espao vasto,
dissipa-se; o som esmorece; o sentimento parece tambem enfraquecer, se
outra orao, reflectindo-o, o no refora.  porisso que a presena de
um amigo... Mas que amigos tenho eu?

Tremo devras pelos chamados amigos de Carlos, ao vel-o disposto a
responder a esta pergunta, que fez a si proprio.

--F...,--continuou elle--cuja amizade no resistir  primeira falta de
senso que lhe notar n'um folhetim; C..., que romper commigo, se eu
tiver a franqueza de lhe apontar o menor defeito de equitao; L..., que
abandonaria o amigo, logo que o visse seguir um terreno, onde elle
corresse o perigo de enlamear as botas de polimento..., e todos os mais
da mesma fora. Vo l escolher um d'esses homens para companheiro
n'estas _viagens sentimentaes_.

Aqui interrompeu-se para observar um pequeno e agil lacerto, que fugiu
espavorido ao sentil-o aproximar, e do buraco, onde se occultra,
continuava espiando-lhe os movimentos com os olhos vivos e como
scintillantes. Carlos achava curiosissimo este espectaculo vulgar.
Depois seguiu caminho, distrahido ainda, e pensava:

--Ahi est; se eu dissesse a qualquer que me entreteve esse pequeno
reptil, correndo por entre os fetos e por sobre as pedras musgosas
d'aquelle muro, zombaria da minha candura; chamar-lhe-hia pieguice... Ha
certas vibraes de sensibilidade, que no se pde communicar... a no
ser... a no ser a um corao de mulher... Ellas sim, teem certas
puerilidades sublimes, que... Ora adeus! Temos outra como a dos amigos.
Se me recordar de algumas mulheres que tenho amado, que vejo eu? A S...,
mulher nervosa, que teria um deliquio s ao ver aquella
sardonisca--sensibilidade de toucador; a C..., essa ento, mulher forte,
que s um terremoto como o de Lisboa seria capaz de commover; a E...,
belleza de salo, que se levanta ao meio dia, admira a natureza... nos
jardins, e lamenta que a solido no tenha gente que veja como ella a
sabe apreciar...; e as outras regulam por isto. Verdade  que eu tambem
com isto me satisfazia; quem sabe se procurando de outra maneira...

N'este ponto tomaram as suas meditaes outro caracter. Alguns passos
mais adiante, j elle meditava:

-- fora de me rir, em sociedade do amor sincero, desinteressado, dos
casamentos de paixo, da vida de familia, quasi me deixei persuadir de
que me ria convencido. E comtudo, se me sondar devras... se aproveitar
estes momentos raros, em que sou franco e expansivo commigo mesmo...

O leitor sabe de certo at onde podem chegar as excurses do pensamento,
quando no terreno que o de Carlos ia seguindo agora; muito mais se, como
elle, se est em pleno bosque e longe do rumor da cidade; se o sabe, no
estranhar que, momentos depois, j assim estivesse pensando Carlos:

--Um amor bem verdadeiro, uma vida bem intima com uma mulher, a quem se
queira como amante, que se estime como irm, que se venere como me, que
se proteja como filha...,  evidentemente o destino mais natural ao
homem; o complemento da sua misso na terra...

Quando Carlos Whitestone chegra a formular, no pensamento, esta
profisso de f, que, uma ou outra vez, concebeu toda a cabea de vinte
annos, ainda das mais azadas para desvairamentos, attingia a borda do
pinheiral opposta quella, por onde havia entrado.

D'alli por diante o terreno, mais desimpedido de arvores, era occupado
por campos em cultura, vinhedos, quintas, e por as casas respectivas;
umas juntas, outras dispersas, e mais ou menos graciosas todas.

Carlos sentou-se no pequeno muro de demarcao do pinhal. O horizonte
que tinha diante de si, era vasto, e o olhar foi, quasi ao extremo
d'elle, fixar-se em uma das mais distantes d'aquellas casas, ainda que o
espirito no tomasse a menor parte n'aquella apparente contemplao.

Tinha esta casa dois andares; era a face posterior a que se avistava
d'alli. A varanda do primeiro andar estava toda entretecida de
trepadeiras, que subiam do quintal. No intervallo das duas janellas
florescia, em uma especie de alegrete, um arbusto, ao que parecia, de
camelias. Na varanda do andar de cima via-se, pendurada de uma corda,
que se estendia em todo o comprimento d'ella, alguma roupa branca, sobre
a qual o sol batia em cheio, fazendo-lhe realar a alvura.

Como disse, demoraram-se n'aquelle ponto da perspectiva os olhos de
Carlos, sem que os seguisse, desde logo, o pensamento, absorto como
estava ainda na sequencia de meditaes sobre os destinos do homem
n'esta vida.

Mas, instantes depois, alguma cousa se passou, que foi como que o lao
de unio entre o objecto das contemplaes dos olhos e o das do
espirito, que, desde ento, se associou quelles, no exame da modesta
vivenda, em cujas vidraas o sol simulava a apparencia de um vasto
incendio.

O phenomeno nada tinha de extraordinario comtudo. Na varanda de cima
apparecera uma mulher; nada mais. Mas esta mulher, ainda que a distancia
mal permittisse distinguil-a, mostrava, pela elegancia de estatura e
pela vivacidade de movimentos, ser ainda joven. No era para estranhar
que a imaginao de um rapaz de vinte annos a suppozesse tambem formosa.

Viera examinar a roupa, que estava a crar ao sol; tirava uma e
substituia-a por a que trazia de dentro; mais adiante, mudava a face
exposta de outra; de quando em quando interrompia o trabalho e olhava
para fra, pondo a mo por cima dos olhos, como a abrigal-os da
intensidade da luz; outras vezes, voltava-se para a sala e parecia
fallar a algum de dentro. Depois desapparecia; voltava de novo, e
sempre, com manifesta solicitude, applicada ao trabalho.

Carlos seguia com prazer o ir e voltar d'aquella mulher, que a custo
distinguia, mas que nem por momentos imaginou que podesse ser uma
criada.

Elle, que estivera sonhando com os encantos do viver intimo, aprazia-se
de imaginar agora, n'aquella casa, um d'esses mundosinhos modestos, que
lhe estavam a appetecer.

--Uma esposa, nova por certo, canceirosa com os negocios
domesticos...--pensava elle--Deve ser um prazer indefinivel sentir-se a
gente viver sob os cuidados de um d'estes entes, votados assim
inteiramente  nossa felicidade...

Era natural, desde que pensou isto, que se lembrasse de Jenny.
Lembrou-se,  verdade; mas a imaginao sorriu affectuosamente quella
doce imagem, e deixou-a. Ao estado do seu corao no satisfazia s o
sorriso fraternal e meigo que animava de bondade as feies da irm. A
seu pezar, surprendia-se a aspirar a mais.

A tarde adiantava-se, e Carlos no se desviava d'alli; prendia-lhe as
attenes aquella casa e a sympathica viso da varanda.

A final fecharam-se as janellas. Pouco faltava para o sol se esconder de
todo no mar. Carlos reparou ento que era tempo de voltar a casa.

Olhou mais outra vez ainda, e com saudade quasi, para a varanda. Os seus
poucos e imperfeitos conhecimentos da topographia d'aquella parte da
cidade no lhe permittiram conjecturar sequer qual fosse a rua a que
pertencia a habitao.

A nossa costumada discrio impede-nos de compensar este defeito.

Seguindo outra vez o caminho, por onde viera, Carlos voltou a casa, mas
a passos mais apressados.

J proximo da porta, sentiu uma mo, que se lhe pousava no hombro.
Voltou-se; reconheceu um de seus amigos.

--Que fazes tu, homem?

--Recolho-me.

--D'onde vens?

--Do campo.

--Ah! cultivas a bucolica? a poesia pastoril?

--s vezes.

--Dou-te os pezames. Gessner envelheceu; Florian dorme o somno dos
inoffensivos. A proposito, j te mostrei o meu folhetim de critica, a
respeito do volume do Serro?

--Ainda no.

--Apparece ento no Guichard esta noite. O livro  um pretexto; o que eu
procuro  caracterisar a litteratura moderna, estremando os campos, hoje
um pouco confusos, de romanticos e de classicos. Sabes que  o meu
systema investigar nas pequenas apparencias as grandes revelaes?  o
que fao d'esta vez ainda. Assim, n'este estudo, serviram-me de ponto de
partida duas palavras apenas; uma colhida de Racine, na _Berenice_;
outra de Victor Hugo, no _Ruy Blas_. So as palavras finaes de uma e de
outra tragedia. Antiochus v partir Berenice e exclama: _Helas_! Ruy
Blas morre nos braos da rainha e murmura: _Merci!_ Basta-me
isto.--_Helas_!-- o grito de dor,  o desespro,  a falta de coragem
no infortunio;  a ultima palavra de uma litteratura, que no tem
confiana no futuro, de uma litteratura, que vive s do passado.
_Merci_!--, pelo contrario, a resignao, a esperana, o apuramento do
padecer at  essencia inebriante do soffrimento proprio, que chega a
confundir-se com o prazer...  pois a phrase digna de uma litteratura
viva, inspirada do futuro...

A preleco continuou; e Carlos reconheceu, pela impaciencia com que a
estava escutando, a nenhuma disposio que tinha para apreciar n'aquella
noite a sociedade de seus amigos. Separou-se d'este o mais depressa que
pde.

--No serei eu que v ao Guichard esta noite. D'esta vez farei a vontade
a Jenny. Ficarei em casa--disse elle, logo que conseguiu despedir-se.

E entrou justamente quando j a campainha chamava para o jantar.

Jenny, vendo-o chegar, e notando o ar grave que trazia, murmurou
comsigo:

--Ainda  cdo para o restabelecimento. Esperemos.




XV


VIDA INGLEZA


O jantar correu, ao principio, silencioso, como de costume.

Mr. Richarde, apesar de tudo quanto promettia aquelle seu ar de
satisfao, fazia as honras da mesa, usando de monosyllabos, e no se
dava ao trabalho de formular uma orao inteira, sempre que com qualquer
palavra solta lhe era possivel exprimir o pensamento.

--_Roast beef_?... Salame?... Fiambre?... Ostras?--Era a maneira, pela
qual elle perguntava a Carlos ou a Jenny quaes os pratos, de que
preferiam servir-se.

--Mostarda... Queijo... Aquillo... Isto... Traz... Tira... Leva...--Eram
as ordens, que recebiam os criados, os quaes manobravam com uma
promptido, seriedade e silencio, essencialmente britannicos.

Carlos no se mostrava mais expansivo. Alm da pouca disposio para
fallar, que em regra sentia diante do pae, estava n'aquella tarde muito
fra das habituaes condies de espirito, e em outra qualquer companhia
de certo lhe estranhariam igualmente a taciturnidade.

Jenny dava algumas ordens, em voz baixa, aos criados, que se inclinavam
diligentes para escutal-a; fazia, no mesmo tom, uma ou outra observao
a Carlos, e aventurava at algumas perguntas ao pae, sem que lhe fosse
possivel comtudo generalisar conversa.

Tudo isto, a regularidade e perfeito methodo de servio, a gravidade e
asseio dos criados, e a meia claridade da sala, dava no sei que aspecto
solemne ao acto, como se fosse uma ceremonia funebre.

 medida, porm, que se repetiam as libaes e que o effeito dos
variados vinhos se combinava na cabea de Mr. Richard, o velho inglez
principiou a despir-se d'esta soturna gravidade e a lingua a
desencadeiar-se-lhe, rompendo aquella especie de mutismo, que lhe
impunham as regras da etiqueta britannica.

Verificava-se n'isto uma opinio de Fielding, escriptor que disputava a
Sterne as predileces litterarias de Mr. Richard; diz effectivamente o
auctor do _Tom Jones_ que o vinho tem a propriedade de trazer  luz o
verdadeiro caracter dos homens, caracter que, nos periodos de
sobriedade, o artificio consegue dissimular muitas vezes. Ora, como
dissemos, Mr. Richard Whitestone era sorumbatico, por conveno; mas no
fundo permanecia a jovialidade, que vinha  superficie,  medida que se
adiantava o jantar.

Ainda na presena de Jenny, j elle comera a ensaiar alguns gracejos,
a contar passagens da sua vida de Londres, travessuras da meninice, e
algumas extravagancias do tempo de rapaz.

Carlos procurava ento maliciosamente o olhar da irm, a qual, pelo
contrario, evitava com discrio o d'elle; porque estas historias ambos
as sabiam j de cr, to infalliveis ellas occorriam em determinadas
circumstancias.

Sempre que, em taes alturas do jantar, Carlos via servir um per
recheado, esperava j a narrao de como, na sua infancia, Mr. Richard,
ento chamado ainda o pequeno Dick, com mais outros companheiros do
collegio, tinham conseguido roubar uma d'estas aves do pateo do
reverendo Jackson, seu mestre, e do detestavel assado que depois, s
occultas, fizeram com ella.

O lombo de vacca inevitavelmente lembrava a anecdota apocripha d'aquelle
rei de Inglaterra, que em um accesso de bom humor armou cavalleiro este
saboroso artigo comestivel, ao qual, desde ento, se concederam as
honras de _baronet_, como parece indicar o nome de _Sirloin_ ou _Sir
loin_, com que os inglezes o designam.

Um prato de avels trazia quasi sempre comsigo a historia de uma celebre
aveleira, que havia em certo parque das proximidades de Londres, pelo
tronco da qual tantas vezes Mr. Richard, ainda creana, trepra com
feliz exito, at um dia em que, escorregando, ficou suspenso de um galho
por espao de alguns minutos.

O _pudding_ era pretexto para fallar no monstruoso _pudding_ que se
cozinhava na Inglaterra, em no sei que solemnidade popular, e d'ahi a
enumerao de muitos outros usos, e costumes nacionaes e de varias
festas notaveis. Entre essas, a mais detidamente descripta era a do Lord
Mayor; n'esse dia, guardado por toda a City, como dia santo, o
personagem eleito para aquelle alto cargo  processionalmente levado 
presena do Lord Chanceller, com o fim de ser por elle confirmada a sua
eleio. Mr. Richard sabia e descrevia todas as particularidades do
ceremonial, bem como todas as attribuies dos multiplicados cargos de
que se compe a excepcional corporao de Londres, desde o alto Lord
Mayor at o mais modesto bedel de parochia.

Como na procisso fluvial pelo Tamisa, celebrada n'aquelle dia, Mr.
Richard estivera de uma vez em riscos de se afogar, a referencia
minuciosa d'este caso pedia a de um outro analogo que lhe succedera por
occasio dos tumultos populares occorridos durante o processo de
divorcio de Jorge IV, e varias particularidades, pouco edificantes, a
respeito da rainha Carolina e do seu favorito Bergamy.

Carlos ouvia tudo isto calado, com ar de resignao e deferencia filial;
Jenny com uma physionomia mais attenta, ainda que nem sempre a atteno
do rosto lhe estivesse no espirito tambem.

Jenny era a primeira a retirar-se da mesa, segundo o discreto costume,
hoje mais seguido, mas originariamente britannico.

Ento tomavam maior incremento ainda as libaes de Mr. Richard
Whitestone.

Accendia um charuto e dava-se uns ares de familiaridade, que em nenhuma
outra occasio se repetiam.

Carlos, de ordinario, perdia tambem ento um pouco do habitual
retrahimento para com o pae, e, fumando defronte d'elle, entrava com
mais desafogo n'este dialogo.

N'aquella tarde, porm, conservou-se ainda pouco expansivo, e quasi
distrahido, perante a crescente communicabilidade.

N'este dialogo _inter pocula_ eram infalliveis as referencias do
negociante ao seu livro favorito--O _Tristram Shandy_, de Sterne.

Mr. Richard apreciava tudo n'aquelle livro extravagante. Sabia-o quasi
de cr e, apesar d'isso, lia-o ainda e de todas as vezes ria com a mesma
vontade, no obstante no encontrar no decurso da leitura j alguma
cousa imprevista.

Carlos, ainda quando no tivesse lido a obra, tinha j razo para a
conhecer a fundo, graas s quotidianas citaes do pae; era porm
obrigado a escutal-o, como se tudo fosse novo para elle.

As dissertaes philosophicas do pae de Tristram, as ingenuidades e
venetas guerreiras do tio Tobias, as argucias e faanhas do Corporal
Trim, as interminaveis e extravagantes divagaes de Tristram, o
supposto auto-biographo, tudo Mr. Richard citava com enthusiasmo e com
vivacidade.

Nem lhe passavam por alto os episodios e as dissertaes, que respiram
certas liberdades, verdadeiramente rabelesianas, capazes de alvoroar os
ouvidos menos pechosos. O episodio dos amores do tio Tobias e os do seu
fiel camarada, de indole menos quixotesca, eram at das passagens
favoritas e das que com mais cordiaes risadas commentava.

Vinham luzes e proseguia o dialogo, nem sempre demasiado ingenuo.

Ao levantar da mesa, tomavam-se posies ao fogo; a conversa
continuava, mas o ponto culminante da loquacidade e da viveza de Mr.
Richard Whitestone tinha passado j.

N'este primeiro periodo de declinao sobrevinham as citaes do _Tom
Jones_.

Mr. Richard no se cansava tambem de exaltar aquelles soberbos perfis da
penna de Fielding e as judiciosas reflexes que o auctor mistura 
narrativa.

Depois, a proximidade do calor do fogo, as exhalaes do carvo inglez,
a preponderancia dos vapores do tabaco, e mais tarde o _punch_,
deprimiam ainda mais os espiritos do commerciante.

Passava a fallar de politica, citava o _Times_; n'esta noite disse a
Carlos que Lord Palmerston estava resolvido a dissolver o parlamento, no
caso de no encontrar apoio na camara dos communs.

Isto j foi dito em tom soturno. Carlos era de todo indifferente aos
destinos do parlamento inglez.

Depois fallou nos principaes movimentos e feitos de armas do exercito
alliado na Crimeia e no provavel exito da campanha; e d'aqui entrou em
consideraes sobre o estado do commercio em Londres. Carlos luctava
heroicamente para reprimir bocejos de fastio.

Era noite cerrada; a voz de Mr. Richard tinha j umas entonaes surdas,
que, combinadas s pancadas do relogio da sala, produziam em Carlos um
effeito soporifero irresistivel.

Jenny, quando pelo silencio que reinava, sentia que tinham chegado as
cousas a este periodo critico, voltava outra vez  sala. Era ento que o
irmo aproveitava a occasio para sar.

N'esta noite ficou.

Jenny olhou-o admirada.

Carlos respondeu-lhe, encolhendo os hombros, como a exprimir a resoluo
de ser condescendente aquella vez, ficando.

A irm agradeceu-lhe com um gesto; mas pensava comsigo:

--Bem sei. Ainda no te passou o desgosto pelo mau resultado da tua
aventura. Paciencia!

Carlos voltra a casa, como dissemos, reconciliado com a vida domestica
e convencido de que estava bem disposto para saborear os prazeres de um
sero inglez.

Resolveu por isso ficar. Mas a suspeita de Jenny era tambem fundada.

Desalentado pela falta de indicaes em relao ao mysterio da mascara,
na qual a seu pezar pensava ainda, mingoava-lhe animo para sar, sem
esperanas de o elucidar.

Mas a vida domestica, tal como se passava ao fogo, junto do qual Mr.
Richard quasi dormitava, no era a que o podia satisfazer.

O viver intimo, cujos encantos Carlos julgra ter concebido aquella
tarde, era apenas o accessorio de alguma cousa mais essencial ao
corao, de alguma cousa, cuja necessidade comeava a sentir emfim.
Sorria-lhe o conchego domestico, mas aquecido, mas illuminado por outras
chammas, que no eram as que lambiam o _fender_ do fogo; animado por
mais ardentes sentimentos do que os de um affecto fraterno, ainda que
dos mais estreitos, e do que os do respeito filial, ainda que dos mais
arreigados e extremosos.

Estava por isso experimentando agora o desengano, e a comparar a
monotonia d'aquella noite ingleza, com o prazer que imaginra poder
saboreiar-se, sem abandonar os lares domesticos.

Isto fazia-o ainda mais silencioso e sombrio, do que estivera em outras
noites que passra como aquella em casa.

Depois que veio Jenny succedeu o que quasi sempre succedia tambem. Mr.
Richard manifestou desejos de a ouvir tocar.

Em virtude d'isto, passaram a uma das salas proximas. Mr. Richard
sentou-se ao lado do fogo, tambem accso alli; Carlos, proximo d'elle;
Jenny ao piano.

Jenny, conhecendo por experiencia as predileces paternas, abriu a
colleco dos _Cantos populares_ de Russell e procurou uma poesia de
Morris; a qual tanto o pae como o irmo ouviam sempre com piedoso
recolhimento.

O motivo d'esta atteno estava sobre tudo na lettra, que parecia feita
de proposito para avivar, em toda esta familia, saudades da vida
passada. Foi a meia voz, mas com verdadeiro sentimento, que Jenny cantou
essa poesia, intitulada a _Biblia de minha me_, cuja traduco  a
seguinte:

Este livro  tudo quanto me resta d'ella! Ao vel-o, sinto rebentarem-me
irreprimiveis as lagrimas dos olhos; com os labios tremulos, com a
fronte turvada, aperto-o ao corao.  esta a arvore de familia, 
sombra da qual j muitas geraes se teem abrigado.--As mos de minha
me folhearam esta Biblia; foi ella mesma quem m'a legou ao expirar.

Ai, como me esto lembrando aquelles, cujos nomes me veem de envolta com
estas memorias! Tantos que, em torno do lar, costumavam reunir-se aps a
orao da tarde, a conversar no que dizia este livro, em um tom que me
calava no intimo do seio; ha muito que elles esto com os mortos
silenciosos; mas sinto-os viver ainda aqui.

Meu pae lia este livro sagrado aos filhos, s filhas,  familia toda!
Como era sereno o olhar de minha me, ao curvar a cabea para escutar a
palavra de Deus! Aquella figura angelica! Ainda a estou a ver!--Que
memorias me occorrem em tropel n'este momento!--De novo parece reviver,
dentro das paredes d'este quarto, aquelle pequeno grupo.

Tu,  Biblia! s o mais seguro amigo do homem! Eu tenho j experimentado
a tua constancia! Quando todos me trahiam, achei-te fiel; vi em ti um
conselheiro, um guia! As minas da terra no possuem o thesouro, que me
compre este livro. Ensinando-me a maneira de viver, elle tambem me
ensina como se deve morrer.

O assumpto da cano ingleza, depois que Jenny a terminou, fez car
naturalmente a conversa sobre diversas passagens da Biblia; Mr. Richard
citou um versiculo, outro e outro, at que uma duvida lhe impediu de
proseguir: d'ahi o pedido feito por elle  filha, para verificar a
exacta redaco do texto.

Jenny abriu pois o livro, que em todas as salas se encontrava sempre 
mo, e leu.

Carlos gostava de ouvir ler a irm aquellas singelas e sublimes paginas
da Biblia.

Diz-se muito mal da lingua ingleza, e, de facto, ouvindo fallar certos
filhos da Gr-Bretanha, lembra logo os conhecidos versos:

  O mundo a porfiar que os bretes grunhem
  E os bretes, etc., etc., etc.

porm uma voz, como a de Jenny, meiga, melodiosa, e modulada com
intelligencia e graa, parece transformar essa lingua ingrata em no sei
que cantar de aves, que tem attractivos, at para os que no a
comprehendem.

O recolhimento religioso, com que Jenny lia os mais bellos episodios do
Velho ou do Novo Testamento, augmentava o effeito agradavel da sua voz.

Infelizmente, porm, a leitura descarnada e despida de commentos
d'aquellas paginas no bastava ao fervoroso anglicanismo de Mr. Richard
Whitestone, porisso, a cada passo, a interrompia para citar as
interpretaes de alguns dos reverendos doutores da sua episcopal
igreja, ou os recentes desenvolvimentos, que ouvira ao ecclesiastico
inglez na missa protestante, do Campo Pequeno.

Jenny olhava para o irmo e fazia-lhe signal para que se reprimisse, e
pelo menos simulasse atteno s divagaes do pae. Serviu-se s dez
horas ch preto, e Mr. Richard readquiriu um pouco de animao para, a
proposito do ch, fallar na importancia da companhia das Indias
Orientaes, nos servios feitos por ella ao commercio, na sua historia,
nas difficuldades com que luctou, e nos meios de que dispunha. Em
seguida expz um projecto de lavra propria sobre o engrandecimento das
colonias inglezas, formulou acerbas censuras ao systema colonial
portuguez, e em seguida uma expressa condemnao da politica franceza em
geral.

Mr. Richard odiava cordialmente a Frana. Ou elle no fosse inglez.

Emfim, s onze horas cessou Mr. Richard de fallar; as palpebras
comearam a pesar-lhe; a chamma do fogo a amortecer, sem que as tenazes
fizessem o seu officio, avivando-a.

Meia hora depois, separava-se a familia, no tendo Carlos, em toda a
noite, dito uma duzia de palavras.

Jenny acompanhou ainda algum tempo o irmo atravs dos corredores, que
conduziam ao quarto de cada um.

--Ento que tens tu a dizer da minha converso? d'esta commovente e
miraculosa regenerao do filho prodigo?--perguntou Carlos a Jenny,
quando chegavam  porta da sala da livraria, onde deviam separar-se.

--Que no sei se ser muito duradoura--respondeu a irm.

--E como queres que o seja, Jenny? No viste que narcoticas delicias as
d'este conversar ao fogo? Dormir  um prazer; mas na minha idade!

--Ento, Charles!--disse Jenny, olhando para elle, com ar de
reprehenso.

--Olha, minha boa Jenny, acredita o que te digo; eu fui hoje sincero
devras nas minhas tentativas de reconciliao com a fada do lar
domestico, com aquelle genio bom, que protegia a gata borralhenta na
historia que nos contavam em creana. Vim para casa, sonhando umas
delicias de viver intimo, as quaes, infelizmente, tive o desgosto de
achar que eram illusorias. Tanto azul e dourado que via transformou-se
em uma cr... pardacenta...

--Talvez tu sejas muito exigente.

--Ai, no o era, no. Mas que queres? Posso ter coragem para ouvir
manh e depois e sempre a historia do per do reverendo Jackson? a das
festas do Lord Mayor? a das assuadas  rainha Carolina? ou deve-se-me
estranhar que deserte diante das subtilezas theologicas dos doutores da
nossa igreja, ou...?

--Tens razo;  preciso principiar por educar o corao, antes de tentar
regenerar-te.

--O corao?! Que queres dizer?

--Tu vens para casa, como vaes para o theatro; procuras distrahir-te.
Ora  claro que este viver de familia no entretem uma imaginao como a
tua, se  s para satisfazeres a imaginao que ficas; e concebo que
tudo isto te deve ser insupportavel, se o corao se fechou j de todo
aos unicos gsos, que ns podemos prometter-te.

--No me faas to endurecido, que no saiba j apreciar os tocantes
prazeres d'essa convivencia intima, Jenny. Julgas que no sei o que vale
a tua affeio e at a do pae? Mas ouve, filha, e no sejas muito severa
commigo. Emquanto o pae ha pouco fallava, muito  sua vontade, na
portentosa companhia das Indias Orientaes, eu estava a pensar...

--Em qu?

--Estava a pensar em que eram inteiramente falsas certas ideias, muito
bonitas, que, esta tarde, durante um passeio, que dei pelo campo...

--Pelo campo!... Tu?!

-- verdade, pelo campo, eu... mas... certas ideias, dizia, que me
haviam occorrido por l. Agora vejo melhor; e penso que se no deve at
viver to ligado, como era costume na antiga vida patriarchal.  justa,
ou desculpavel pelo menos, esta tendencia moderna para afrouxar um pouco
mais os laos de familia, sem amortecer de todo os sentimentos que a
animam e unem, mas tornando mais independentes os habitos de viver de
cada um. E  assim. Que se lucra em reunir em um feixe apertado dois ou
tres homens de indoles e de gostos diversos, s porque so parentes, a
ponto de impedir-lhes os movimentos, e a liberdade de aco? O mais que
succede,  nenhum d'elles poder dispr de toda a energia das suas
faculdades; incommodam-se reciprocamente, de apertados que esto, e...
odio no direi... mas... s vezes... certa m vontade... pequenas
dissenses, e... quando menos se espera, mais azedas discordias ainda,
so as inevitaveis consequencias d'isso.

Jenny abanava a cabea, fitando o irmo, emquanto elle fallava.

--Que doutrinas!--disse ella por fim--que triste philosophia a tua... de
hoje. Cada vez te comprehendo menos, Charles.

Carlos pz-se a rir.

--Ento porqu, Jenny? Que achas tu em mim de to incomprehensivel?

--Ha dias... na manh que se seguiu a uma das muitas noites, que passas
fra de casa, e quando era mais natural que estivesses n'estas ideias de
agora, fallaste-me com eloquencia e convencimento nas douras da vida de
familia; persuadirias d'aquella vez o mais extraviado. Foi, ainda me
lembro, a proposito de uns versos, escriptos por um amigo no teu album.
Hoje ento...

--Tudo se explica;  pela razo, que eu disse. Tentei apertar-me nos
taes ambicionados laos, seduzido pelas promessas dos romancistas
moralisadores; a final vi que me magoavam como laos que eram... Mas que
versos foram esses, que me despertaram to salutares ideias? No me
recordo.

--Se queres que t'os leia?...--perguntou Jenny, pousando a mo na chave
da porta da bibliotheca, como preparando-se para abril-a.

--Se quero? peo-t'o.

Os dois irmos entraram na sala quadrada, onde, at a meia altura da
parede, corria uma estante de palissandro, abastecida de magnificas
brochuras e encardernaes inglezas. Havia no meio da sala uma solida
mesa rectangular, em estylo antigo, com embutidos de metal nos fechos,
lavores de primorosa talha nas faces, e apoiada em grossos ps, torcidos
em espiral,--um perfeito modelo d'essa bella mobilia ultimamente
resuscitada, graas sobre tudo s predileces dos inglezes, que a teem
tornado j rara, de muito que a procuram. Cobriam esta mesa varias
publicaes recentes, periodicos estrangeiros e do paiz, e gravuras; e
em volta d'ella, commodas poltronas, e escabellos com assentos estofados
parecia convidarem  leitura.

Jenny pousou a luz, e, pegando em um album, que estava entre os outros
livros e periodicos, principiou folheando-o, emquanto o irmo se sentava
ao lado d'ella.

--Se me no engana a memoria--dizia Jenny-- a traduco de uma lenda
popular da Bretanha que se intitula...--Tendo encontrado justamente a
pagina que procurava, concluiu:--_Amel e Pennor_.

--No tenho j a menor ideia do que seja.

--Ora ouve ento.

E Jenny principiou a ler, com suavidade e graa inexprimivel, a seguinte
lenda, verdadeira ou falsamente attribuida por um moderno escriptor
francez  musa popular da Bretanha.[1]

  --Longe, longe d'aqui, nas costas da Bretanha,
  Poetico paiz, que um mar sinistro banha,
  Vivia, ha muito tempo, um pobre pescador,
  Que se chamava Amel, com a mulher Pennor.
  Tinham elles um filho, uma creana loura,
  Um anjo, que o porvir dos paes inflora e doura;
  Ao voltarem a casa, alegres, todos tres,
  Na praia os surprende a noite de uma vez.
  Crescia o mar veloz, medonho, ingente, forte!
  N'esse tempo as mars eram vivas. A morte
  Sobre as ondas boiava, indomita, cruel!
  Olhando para a esposa, assim lhe diz Amel:
  --Pennor, vamos morrer! A vaga se aproxima!
  Vivers mais do que eu! Animo! Sobe acima
  Dos hombros meus, mulher. Pousa-te bem. Assim.
  E, ao veres-me sumir... ai, lembra-te de mim!
  Pennor obedeceu. Firmando-se na areia,
  Desapparece Amel na vaga, que o rodeia.
  --Amel! bradava a esposa; ai, pobre amigo meu!
  Qual de ns soffre mais?--tu, que morres, ou eu,
  Que te vejo morrer?--E as aguas, que subiam,
  O corpo da infeliz no vortice envolviam.
  Olhando para o filho, assim lhe diz a me:
  --Filho, vamos morrer! Olha a mar que vem!
  Vivers mais do que eu! V! filho, v! coragem!
  Sobe aos meus hombros, sobe! e ao tragar-me a voragem,
  Ai, lembra-te de mim e de teu pobre pae!
  E o mar a submergiu. Chora a creana e vae
  Pouco a pouco afundir-se.  flor da agua revolta,
  Apenas j fluctua a trana loura e solta...
  ...Uma fada passou sobre o affrontado mar;
  Viu o cabello louro, em baixo, a fluctuar;
  Estende a mo piedosa e, segurando a trana,
  Com ella attrahe a si a pallida creana.
  E, sorrindo, dizia:--Ai, que pesada que s!
  Mas viu cdo a razo; inda segura aos ps
  Do filho estremecido, a pobre me comea
  A erguer tambem da onda a humida cabea.
  Sorriu a boa fada, ao ver assim os dois,
  E repetiu ainda:--Ai, que pesados sois!
   que, aps a mulher, seguia-se o marido
  Estreitamente aos ps da terna esposa unido.
  Ao vel-o, inda outra vez a meiga fada riu,
  E, leve, para a praia o vo dirigiu
  Com este cacho vivo, esta humana cadeia,
  Cujos los o amor piedosamente enleia.

Pousando o livro, Jenny continuou:

--Seguem-se mais quatro versos, consagrados  moralidade do conto, os
quaes talvez me julgues dispensada de ler, por inuteis.

--De certo. A allegoria  transparente, at sem commentarios. Mas,
dize-me tu uma cousa, Jenny: que faria ou que diria a boa fada se,
pairando sobre a praia, um dia, em que as mars no fossem vivas, nem o
mar ameaasse devorar a piedosa familia... que faria ou diria ella, se
encontrasse os tres formando o cacho vivo da imagem, to ridiculo n'esse
caso, como tocante nas condies, em que o considera a lenda? A fada por
certo que sorria tambem, mas acrescentando d'essa vez: Ai, que varridos
sois! Dize-me agora se queres que eu ajunte alguma cousa tambem,
correspondente aos taes quatro versos de moralidade, que
supprimiste?--terminou Carlos, tocando levemente as faces de Jenny, e
com um sorriso triumphante, ao qual ella correspondeu com outro, mas
replicando:

--No, no  preciso. Mas repara, Charles, que as tempestades no mar
formam-se s vezes em um momento. E ninguem pde prever a poca, em que
 para receiar o perigo. No viste como os pescadores voltavam a casa,
alegres todos tres, portanto confiados no mar? Se, tendo esta
confiana, se houvessem separado e no caminhassem com as mos unidas?
Ao vir a mar, nem Amel procuraria que a esposa lhe sobrevivesse, nem
Pennor tentaria salvar o filho, nem o cabello louro da creana, vindo 
tona da agua, attrahiria as vistas da fada bemfazeja, dando-lhe occasio
de salvar aquelle ... cacho vivo... Entendes?

--E to longe ando eu j, que vos no possa offerecer os hombros, se a
mar vier um dia ameaar-nos?

--No, Charles; nem  a ti, tal como s, que eu ralho e quero mal; mas a
um Charles, que s vezes gostas de fingir.  singular! ha certas almas
generosas que teem o vicio opposto ao da hypocrisia: esforam-se por
parecerem ms! Para que has de estar a fazer mentir a tua bca, dizendo
o que no sentes?

--No nego que houvesse algum mau humor nas minhas palavras de ha pouco,
mas...

Jenny collocou-lhe a mo diante dos labios.

--Que esse mas fique para manh. Por emquanto inda no confio muito
n'elle.

--Ento negas-me a justificao?

--No vs que, melhor do que tu, te est a justificar a minha confiana?
 por isso que no quero ouvir-te.  tarde. Boa noite, Charles.

--Boa noite, Jenny.

E os dois irmos separaram-se, apertando cordialmente as mos.

Carlos a mais reconciliado outra vez com as douras da vida domestica.
Ficra-lhe muito agradavel impresso d'este dialogo com Jenny, para que
podesse deixar de ser essa a sua opinio final.




XVI


NO THEATRO


Dias depois, affixavam-se cartazes nas esquinas, annunciando a _Lucia de
Lammermoor_.

Mr. Richard Whitestone no era assiduo frequentador do theatro lyrico.

Havia porm uma circumstancia, que, infallivelmente, o levava l, uma
vez pelo menos.

Tendo j desesperado de ouvir no theatro do Porto musica de compositores
inglezes, como Haendel, Gray, Arnold, Bishop e outros, cujos nomes a
cada momento citava com enthusiasmo, resignra-se a afagar smente o seu
acrisolado patriotismo com ir ao theatro, quando se cantavam aquellas
operas, cujos librettos eram extrahidos de algumas das obras primas da
litteratura ingleza.

O _Othello_, o _Macbeth_, os _Capulletos_, as _Prises de Edimburgo_, os
_Foscaris_, o _Marino Faliero_ e outras n'este mesmo caso, luctavam
vantajosamente com o seu muito amor pelo fogo e traziam ao publico
aquella physionomia, radiante de contentamento e expressiva de saude,
que o leitor j conhece.

Preparava-se de antemo, n'essa tarde, relendo a obra, que servira de
assumpto  opera, e ia depois com vontade para o theatro.

No era porm Rossini, Verdi, Bellini, Ricci e Donizetti os que o
attrahiam e enlevavam; era Shakespeare, era Byron, era Walter Scott,
cujos grandiosos vultos lhe parecia estar vendo no palco evocados, por
sua vez, pelos mesmos personagens, que o genio d'elles tinha evocado
outr'ora.--A musica era o accessorio. Os applausos do publico roubava-os
Mr. Richard, por patriotismo, aos maestros, para conferir quelles seus
famosos conterraneos.

No numero das taes operas contava-se _Lucia de Lammermoor_. Assumpto
escossez, tratado por penna escosseza, e das mais admiraveis em desenhar
typos sympathicos e immortaes, no era para Mr. Richard resistir-lhe.
Havia de ir por fora.

Foi; mandou tomar um camarote para aquella noite. A plateia nunca lhe
agradou. Estava mais comsigo e com os seus no camarote; e isto de estar
comsigo e com os seus tinha para elle a fora de necessidade.

Era costume invariavel de Mr. Richard convidar Manoel Quentino, n'estas
occasies.

Grande mortificao causava a este tal convite, mas no se atrevia a
recusar. Aceitava e agradecia at, porm, a occultas, suspirava por ter
de privar-se uma noite dos suaves prazeres dos seus seres domesticos,
das attenes e cuidados filiaes de Cecilia e at das montonas
reflexes do amigo Jos Fortunato; este no sentia menos pezar em
modificar habitos j inveterados n'elle e prescindir do ch e dos
bocejos do vizinho.

Mas no havia remedio. Manoel Quentino a.

Depois de resolvido a isso, entendia ento que tinha restricto dever de
chegar a tempo. Era o guarda-livros a pontualidade em pessoa; em tudo
observava o preceito de antes esperar do que ser esperado; e, comquanto
no fosse provavel que esperassem por elle para comear o espectaculo, 
certo que, pouco depois de anoitecer, viam-o j a passeiar no atrio do
theatro, aguardando que lhe abrissem as portas dos corredores.

Assim fez n'esta noite.

Logo que as viu patentes, comprou o libretto da opera; porque nunca pde
tambem resignar-se a ouvir cantar, sem entender o que se cantava; subiu
para o camarote e,  escassa luz que havia ainda na sala, pz-se a ler.

Depois assistiu ao accender das serpentinas,  afinao dos instrumentos
da orchestra, ao encher gradual da plateia, dos camarotes e das
varandas, o que para elle constituia uma parte da diviso e no das
menos curiosas. Aguava porm este inoffensivo prazer o cuidado que lhe
estava dando a demora da familia Whitestone; temia j que ella no
chegasse ao principio da opera. Isto no o deixava socegar.

Emfim ouviu abrir-se, atraz de si, a porta do camarote; voltou-se.

Eram Mr. Richard e Jenny, que chegavam.

Mr. Richard saudou, com familiaridade, o guarda-livros; Jenny
apertou-lhe a mo com affecto.

--No o esperava agora aqui!--disse Jenny, tirando a capa e reparando as
leves desordens da sua _toilette_.

--O snr. Whitestone fez-me o favor de me dizer que viesse.

--E Cecilia?

--Cecilia!--disse Manoel Quentino, encolhendo os hombros--eu j lhe no
digo nada. Para qu? Com'assim, no se resolve nunca a vir.

Mr. Richard, emquanto a filha se preparava, viera  frente do camarote
passar um exame rapido  sala.

--E o Carlinhos?--perguntou Manoel Quentino a Jenny emquanto se
encarregava, com soffrivel galanteria, de acommodar a capa, que ella
acabava de tirar.

-- provavel que esteja c--respondeu Jenny.

--Aonde? Na plateia?

--De certo.

--Tendo camarote!  vontade de gastar dinheiro!--pensou para si o
economico Manoel Quentino.

Depois de tomarem todas as respectivas posies, Manoel Quentino,
ficando junto da cadeira de Jenny, entendeu que no devia estar calado.

--Sempre me lembra--disse elle, portanto--quando venho ao theatro, de
ver representar a celebre Josepha Thereza Soares! Aquillo  que era
mulherzinha! Que tambem a Grata Nicolini... no sei se lhe diga... Se
quer que lhe falle verdade, menina, agradavam-me mais as peas, que se
representavam d'antes, do que as de hoje. S os vestuarios e as vistas!
Agora so salas e casacas, casacas e salas e acabou-se.  o pae que quer
que a filha case com um velho rico;  a filha que quer casar com um
rapaz pobre, que  poeta;  o rapaz a descompr o velho; a rapariga a
morrer... e passe por l muito bem. No lhe acho graa nenhuma. Eu
queria que vissem: _D. Jos II, visitando os carceres_--_Camilla ou os
subterraneos_--_O Barba rxa_--_Ha dezeseis annos ou os
incendiarios_--_Os sete infantes de Lara_--_A Ignez de Castro..._

E Manoel Quentino dispunha-se a continuar esta revista theatral, quando
Jenny o interrompeu, perdendo assim a melhor occasio de se informar,
entre outras cousas, dos merecimentos da celebre Josepha Thereza, de
quem inda agora ouvimos fallar com saudades os frequentadores
reformados, cujos legitimos successores so os _dilletanti_ de hoje.

--Carlos tem ido ao escriptorio?--perguntou Jenny, a meia voz.

--Esteve l ... no outro dia, na tera-feira, por infelicidade
minha--respondeu o guarda-livros, lembrando-se dos enganos a que dera
occasio a tal visita.

--Porque diz por infelicidade?

Manoel Quentino ia a contar a Jenny a especie de auxilio, que lhe
prestra Carlos no escriptorio; mas, parecendo-lhe ver em Mr. Richard,
ainda que apparentemente distrahido, certos indicios de estar prestando
atteno ao que elle dizia, julgou conveniente mudar de rumo e
respondeu:

-- que eu, apesar dos meus cincoenta e cinco annos, no tenho mo em
mim que no me distraia, vendo-o; e, com a minha palestra, nem trabalho
eu... nem...

Aqui hesitou alguns instantes, porque lhe parecia demasiado lisongeiro o
que ia dizer, mas a final sempre concluiu:

--Nem... nem... nem o deixo trabalhar a elle.

O proprio Mr. Richard mordeu os labios, para encobrir um sorriso.

Jenny, a mesma Jenny, no pde conservar-se inteiramente sria; mas,
sorrindo, agradeceu com gesto de bondade as generosas intenes do
guarda-livros.

Pareceu-lhe, porm, conveniente desviar a direco da conversa e porisso
lembrou a Manoel Quentino:

--Mas ainda no me disse por que Cecilia no veio.

--E eu sei l? No vem, porque no quer. J d'antes era uma santa
historia para a resolver a aproveitar-se de qualquer convite, que a
menina tinha a bondade de lhe fazer.  l de um genio particular aquella
pequena; e desde creana que assim a conheo! Que se lhe ha de fazer?
Mas agora sobre tudo... A rapariga tem o quer que  a affligil-a. Isso 
que tem. Ella bem faz por disfarar; mas...

Manoel Quentino tomou n'este ponto ares de mysterio e proseguiu em tom
mais baixo:

--Eu no sei, mas... acho-a outra ha dias para c. No lhe tenho querido
dizer nada, porque... porque sei como ella , e tenho mdo de
mortifical-a ainda mais, porm...

--Mas ento--perguntou Jenny, sinceramente attenta ao que Manoel
Quentino lhe dizia--o que  que lhe faz julgar?...

--Acho triste a rapariga. Olhos de pae no se enganam com essa pressa.
Os outros nada vem, mas os meus... A Cecilia no era assim; quem a viu
d'antes! Ella ri e graceja ainda,  verdade; mas ha alli certo modo, que
eu lhe estranho. A menina, que bem a conhece, ha de ter visto...

--No; no tenho notado mudana n'ella.

--No que tambem... eu lhe digo... Ora deixe-me ver... Ella no voltou a
sua casa desde... desde tera-feira, no?  isso mesmo. De ento para c
 que eu mais tenho notado...

Jenny escutava com crescente curiosidade o que Manoel Quentino dizia.

--Ahi est que hoje...--continuou elle--depois de eu chegar a casa...
mas peo-lhe, por amor de Deus, que lhe no v dizer estas cousas; ella
pe-se por l depois a scismar...

--Fique descansado--disse Jenny, procurando no perder uma s das
palavras que ouvia.

--Pois esta tarde... Eu j notra que ella ao jantar no tinha comido
quasi nada... e eu, a fallar verdade, no gosto de ver aquillo.
N'aquellas idades  que  o comer, e as cousas no correm bem, quando
no ha appetite. Pois no lhe parece?

Jenny fez um movimento de affirmao, comquanto eu no d por assentado
que ella tivesse sobre o appetite absolutamente as mesmas ideias que
Manoel Quentino.

--E depois?--perguntou ella.

--De tarde--continuou o velho--a pequena, contra o seu costume,
metteu-se para o quarto, a ponto de me assustar; no tive mo em mim,
que a no chamasse. No me respondeu logo. Lembrou-me se lhe teria dado
alguma cousa, e, j sobresaltado, ia a descer as escadas, para ver o que
era, quando ella me appareceu, mas...  menina, ou me engano muito, ou a
rapariga tinha chorado; ella vinha a rir, vinha, mas eu...

--Foi de certo illuso sua; por que havia Cecilia de chorar?

--Pois ahi est o que me afflige.  o no saber! s vezes lembra-me...
serei eu a causa? Ora  preciso que lhe diga que eu antes queria
trabalhar como um negro toda a minha vida, e no ter um triste bocado de
po para comer, do que dar motivo a uma s lagrima d'ella.

E havia um tremor na voz de Manoel Quentino, ao dizer isto, que commoveu
Jenny.

--Socegue--disse-lhe ella, animando-o.--De certo no  a causa d'essa
tristeza, que lhe parece notar em Cecilia. Que mais pde fazer por ella,
do que o que faz?

--E tudo merece, menina, e mais! Assim eu podesse.  um anjo! No
imagina.

--No imagino, sei; pois no  ella a minha mais querida amiga?

Manoel Quentino no pde ter-se, que no tomasse as mos de Jenny e as
apertasse commovido.

N'isto rompeu a orchestra a symphonia da opera; fez-se silencio na sala.

As ideias de Manoel Quentino seguiram novo curso; esqueceu as
confidencias que tinham deixado Jenny pensativa, e, prestando ouvidos 
musica, fixou os olhos no panno, que esperava ver subir immediatamente.

--Pois a historia d'esta peca--dizia elle, emquanto o panno no subia--
bem bonita, mas muito triste. Pelos modos, era um fidalgo..., no me
lembro agora d'onde...

E, depois de pensar um momento, acrescentou:

--De Hespanha, acho eu... Era, era de Hespanha...

Mr. Whitestone estava distrahido; mas no ha distraco possvel que
impea um inglez de corrigir qualquer inexactido, que, embora de leve,
toque pela sua nacionalidade; por isso interrompeu immediatamente a
narrativa de Manoel Quentino, emendando-a.

--Ho! no, no. De Hespanha! Ho! Da Escossia, da Escossia. _In the
Lothian county_. _The bride of Lammermoor_, de sir Walter-Scott.  bem
conhecido isso.

--Ai,  verdade,  da Escossia, . J me no lembrava. Pois este
fidalgo, ao que parece, tinha l umas birras com outro seu vizinho,
tambem muito nobre,  verdade, mas sem nada de seu. Eram rixas velhas e
at me parece que uma demanda dos meus peccados! Vae logo o... o S.
Pedro e faz com que este tal se namore da irm do outro. Que isto
acontece muitas vezes.

N'este ponto foi o panno acima.

Manoel Quentino, depois de exame passado  scena, proseguiu:

--Esses homens de saias, que ahi esto, so os criados do tal fidalgo.
Andam  cata do amante, que vinha fallar com a rapariga ao jardim.

O argumento exposto por Manoel Quentino proseguiu por este teor e
estylo, sem que Mr. Richard nem Jenny lhe dessem atteno.

Depois da chegada do barytono e durante o recitativo d'este, ia Manoel
Quentino vertendo em vernaculo as phrases italianas que percebia, por
conseguinte aquellas que menos precisavam de ser vertidas.

_Mortalnemico_--recitava no palco o barytono.--_Mortal
inimigo_--traduzia o velho do camarote.--_Di mia prosapia_--dizia
um.--_Elle mesmo confessa que tem prosapia_--interpretava, e d'esta
vez desastradamente, o outro.--_Io fremo_!--acrescentava d'ahi a pouco
tempo o cantor.--Diz que treme--traduzia Manoel Quentino.

E assim por diante, at que Mr. Richard, ao principiar no palco a aria:

  _Cruda... funesta smania_.

pz termo com ligeiro _psiu_ aos luminosissimos esclarecimentos do
guarda-livros.

Manoel Quentino calou-se logo, promettendo a continuao para o primeiro
intervallo.

Antes do fim do acto, deu-se na plateia um incidente vulgar no nosso
theatro, e cuja frequente repetio, em certos annos, mantem em perpetua
tribulao o espirito dos emprezarios.

 entrada da prima-donna, e antes d'ella soltar a primeira nota,
romperam de um dos lados da sala alguns signaes de desagrado.

A maioria do publico, alheia s altas questes de bastidor, elementos
d'estas subitas tempestades, estranhou ver assim reprovar quem, dias
antes, se applaudia com phrenesi, porventura exagerado.

Manifestou-se portanto reaco, extremaram-se os campos,
desenvolvendo-se, de parte a parte, um ardor, que, durante alguns
minutos, interrompeu o espectaculo.

Na plateia tudo era movimento e confuso; nos camarotes, os homens
penduravam-se, para observarem, _au vol d'oiseau_, a borrasca humana que
se lhes desencadeiava aos ps, e alguns, menos impacientes, formulavam,
l de cima, acerbas censuras, que se perdiam no espao; as senhoras
quasi desmaiavam de assustadas; outras, mais animosas, examinavam a
binoculo as peripecias da contenda; a orchestra, deixando de tocar, e
erguida em massa, passra a ser espectadora; os cantores cruzavam os
braos e imitavam-a; os habitantes das varandas,--porventura os unicos
espectadores de boa f e de amor de arte sem mescla,--urravam de
indignados; a auctoridade punha-se em p no camarote e pedia para ser
ouvida...

No meio d'este tumulto, Mr. Richard dava evidentes signaes de desagrado,
traduzidos por muitos _hos!_ por muitos estalidos de lingua, por muito
sacudir de cabea, e por pancadas de impaciencia com os ns dos dedos no
encosto do camarote.

Manoel Quentino, igualmente escandalisado, era mais verboso na expresso
de sua indignao.

Esse fartou-se de fallar, de ralhar, de gesticular, de censurar as
auctoridades, de formular projectos absurdos de policia theatral, e isto
tudo, quasi debruado no camarote, e fitando a massa escura da plateia,
cujo alvoroto ia crescendo.

Jenny olhava tambem na mesma direco, mas o motivo era outro.

No camarote proximo ouvira fallar com severidade dos amotinadores da
sala, e, entre os nomes mencionados, escutra o do irmo. Jenny
estremeceu, e d'ahi vinha o cuidado com que examinava a plateia.

No entretanto, Manoel Quentino bradava:

--Eu, se fosse  auctoridade, mandava todos para o Carmo. Isto  um
desaforo. Vem uma pessoa para se divertir, e vae... e vae... e vae...

A hesitao no terminar a phrase era devida a ter alguma cousa attrahido
a atteno do velho para um ponto da sala.

--Oh! oh!--disse elle por fim--Ora, se elle l no havia de estar!
Podera! A festa no se fazia sem elle. Estava de ver!

--Quem?--perguntou Jenny, receiando comprehendel-o.

--L est tambem o Carlinhos; pois no v?

--Onde? Onde?--perguntou logo, com vivacidade, Mr. Richard.

Manoel Quentino sentiu ao mesmo tempo a mo de Jenny a apertar-lhe o
brao, como para recommendar-lhe discrio. Antes porm de a sentir, j
elle tinha percebido a necessidade de ser prudente.

--Acol!--e apontou em direco exactamente opposta ao logar, em que
estava Carlos.

--Aonde, homem?... No vejo.

--Pois no ser elle? Alli, ao p d'aquelle sujeito de chapo branco. O
snr. Richard ainda no v... Admira!... Olhe, elle l vae embora... Olhe
agora... Adeus, l foi...

--No era elle.

--Era, era... At me parece que elle me fez signal de l, como quem...
sim... como quem... estava zangado com este desaforo.

Principiava Manoel Quentino a prejudicar a causa que defendia, levando
longe demais a defeza. Era sestro seu.

Carlos achra-se effectivamente envolvido na maior fora do tumulto,
ainda que com fim louvavel, qual era o de pacificar dois amigos, prestes
a entrar em combate por causa d'esta questo theatral. Levantando porm
occasionalmente os olhos para o camarote, percebeu um signal de supplica
e inquietao em Jenny, e porisso, emquanto os olhos de Mr, Richard,
guiados traioeiramente por Manoel Quentino, o procuravam em outro
ponto, cedeu elle o logar a novos apaziguadores e saiu da plateia.

Manoel Quentino, que lhe seguia os movimentos, respirou ento, dizendo:

--Elle ahi vem; ver v. s. que no tarda. E tem razo em vir; no se
pde estar l em baixo com similhante gente.

Effectivamente Carlos no tardou a entrar. O primeiro olhar foi para a
irm, que soube tranquillisal-o com outro, e habilital-o a comprehender
o papel, que lhe convinha representar diante do pae.

Carlos, entendendo-a, foi severo para com os desordeiros, o que
evidentemente agradou a Mr. Richard.

No entretanto, havia-se restabelecido a serenidade na sala; o primeiro
acto terminou sem outra novidade mais do que a de ser no fim a
prima-donna applaudida com enthusiasmo pelos mesmos que a tinham pateado
 entrada.

Mysterios de theatro, os quaes nunca pude penetrar.

Mr. Whitestone sau no intervallo; Carlos ficou.

Manoel Quentino tomou ento a palavra para prgar um sermo a Carlos,
sobre os perigos das ms companhias. Carlos escutou-o, rindo e
commentando-lhe as sentenciosas palavras com ditos jocosos, que no
permittiam ao velho a manuteno d'aquella seriedade, que reclamava to
substancioso assumpto.

Passado tempo, principiou Carlos a analysar as differentes _toilettes_ e
typos femininos, que adornavam os camarotes, critica em que nem sempre
era em demasia benevolo. De uma das occasies em que, para proseguir
n'este exame, procurava limpar os vidros do binoculo, tirou do bolso um
pequeno leno de mulher, com cercadura de renda, para o qual se pz a
olhar admirado.

Depois, segurando-o por uma das pontas, e mostrando-o  irm, disse,
sorrindo:

--Ainda me tinha esquecido isto, Jenny.

--O qu?

--Outra apprehenso que fiz, com esperana de por ella obter
esclarecimentos, e... que cabea a minha!... nem j sabia que o tinha em
meu poder...

--Mas a que te referes?

--Ento esqueceste-te j da minha confidencia, no dia do carnaval?

--Ah!--disse Jenny, olhando immediatamente para Manoel Quentino.

As vistas d'este tinham-se tambem fixado no leno, e parecia examinal-o
cada vez com mais curiosidade.

--D-m'o--disse Jenny, estendendo a mo para recebel-o.

--No posso--respondeu Carlos, retirando a sua, a rir.

--D-me licena?--disse Manoel Quentino, estendendo tambem a mo para
elle.

--Para o entregar a Jenny depois?

--No, no ; queria ver...

--Que tem voc a ver com este leno?--perguntou Carlos, dando-lh'o.

Jenny mostrava-se cada vez mais inquieta.

Manoel Quentino examinava o leno com atteno.

-- celebre!--dizia elle-- exactamente um dos lenos que eu dei a minha
filha no dia dos annos d'ella.

--Como?--perguntou Carlos, olhando para a irm.

A inquietao de Jenny redobrava.

--No que  exactamente!... as rendas... o bordado dos cantos... S
falta... Ah... mas a marca tambm!... um C.!... Este leno  de Cecilia!
Como  possvel?!...

Jenny julgou que era tempo de intervir.

--Ora ahi temos o snr. Manoel Quentino embaraado com uma cousa bem
simples--disse ella, rindo.--Esse leno,  de Cecilia, ; que duvida?
Deixou-o ella, por esquecimento, ha dias... na tera-feira... em minha
casa. Este bulioso tem o costume de levar tudo do meu quarto, sem me
consultar, e, julgando que era meu...

--Ah! bem me parecia que era o leno que eu tinha dado a Cecilia. Estava
admirado!

Carlos olhava para Jenny e para Manoel Quentino, como sem saber ainda
bem o que pensar d'aquillo.

--Espero que m'o restituirs--disse Jenny--a mim  que compete
entregal-o a Cecilia.

Carlos ia a responder, talvez imprudentemente, quando um gesto da irm
lhe impz silencio e acabou de explicar tudo.

Emfim j no era mysterio para elle o nome da desconhecida do baile.

Tirando o leno das mos de Manoel Quentino e entregando-o  irm,
disse, com entonao de intelligencia, para esta:

--Tens razo, Jenny. s tu, a quem compete entregal-o. Acredita que foi
por esquecimento que eu no te fallei n'este... roubo... O que reputo
uma felicidade.

--Porqu?--perguntou Jenny, fazendo-se sria.

--Por... por causa da surpreza que veio agora causar ao nosso amigo
Manoel Quentino.

--No, eu s estranhei...

Jenny mudou o assumpto da conversa.

Carlos ficou pensativo. Voltou  plateia, ao principiar o segundo acto.
Todos lhe estranharam a distraco e a indifferena com que assistia 
discusso, que ainda durava, sobre o facto da pateada.

Nem mais attenes lhe mereceram os cantores e a opera.

Jenny observava-o do camarote, e no deixou de reconhecer essa
indiferena na posio invariavel, em que elle se conservou durante dois
actos e um intervallo inteiro, como alheio a tudo o que em volta de si
se passava.

--Que resultar agora de todo aquelle meditar?--pensava a irm.

Ao principiar o ultimo acto, Carlos voltou ao camarote.

Manoel Quentino, no podendo luctar mais tempo contra a fora do habito,
adormecera. Mr. Richard estava absorvido em um dialogo, com um seu
compatriota, de cabellos e suissas cr de neve, gravata da cr das
suissas, e tez cr de rosa de Alexandria; fallavam nos triumphos lyricos
da celebre Malibran, que ambos tinham, quando rapazes, escutado em
Londres; no estylo de canto da phenix dos tenores--o famoso Rubini, o
qual haviam admirado em 1831, no _Queen's Theatre_; no _D. Giovanni_, de
Mozart, musica de que nunca se saciam os tympanos britannicos; e na
_Beggar's Opera_ de Gray--protesto do gosto nacional contra a escola
italiana, que se riu do protesto.

Carlos, sentando-se junto da irm, podia pois julgar-se a ss com ella.

--Ento a minha bella incognita do dmin de seda...--principiou elle.

Jenny olhou receiosa para Manoel Quentino.

--No tenhas mdo--disse Carlos.--Dorme e ameaa resonar.

--Ests agora convencido, Charles--disse Jenny ainda a meia voz--da
verdade do que eu te dizia aquella manh?

--A respeito?...

--A respeito da tua aventura da noite de carnaval. Cecilia  uma menina
bem educada e de grande delicadeza de sentimentos. Deu imprudentemente
aquelle passo, que Deus sabe quantos desgostos lhe poderia vir a causar,
se a tua generosidade no prevalecesse a final sobre as tuas...
loucuras; como ha de continuar a prevalecer ainda, assim o espero. No
estiveste tu mesmo para a perder no conceito dos que a no respeitam,
porque a no conhecem? No terias agora remorsos?

--Mas Cecilia...

--No mesmo dia, em que tu me fallaste n'isso, me veio ella contar tudo.
Tambem tenho a sua confiana. E se soubesses com que receios o fez! se
visses com que lagrimas no fingidas me interrompeu, quando eu lhe ia a
confessar o que pensavas das mulheres, que se encontram ss e mascaradas
n'aquelles logares!

--Pois tu disseste-lhe...  Jenny!...

--O bastante para a acautelar de passos, como aquelle; visto que nem
sempre apparecem protectores que, no meio das suas velleidades,
conservem ainda uns restos de sentimentos generosos...

--Valha-te Deus, Jenny! Mas... na verdade que me custa ainda a
acreditar! Pois era Cecilia! Confesso-te, Jenny, que nunca suppuz que
aquella rapariga tivesse tanta graa, tanta intelligencia, tanto...

--No  d'essa injustia que eu desejo ver-te arrependido, Charles, mas
antes da do conceito que fizeste de Cecilia, do modo como a trataste, s
por a veres onde nem quizeste suppr que podesse estar tua irm...

--E repito!--acudiu Carlos, com vivacidade.

--Pois bem, Charles--respondeu Jenny placidamente, mas em tom
reprehensivo.--Digo-te eu ento que as qualidades, que a vida inteira de
Cecilia do-lhe direito a exigir de ti tanta considerao e estima, como
a que dizes ter-me.  ainda hoje a minha melhor amiga.

Carlos olhou para a irm, admirado; tal era a gravidade, que lhe
descobriu no olhar e na voz.

Devemos confessar que elle nunca viu em Cecilia outra cousa mais do que
uma rapariga bonita, a qual muitas vezes lhe merecera olhares
complacentes, mas de quem to depressa se esquecia, como d'ella se
afastava.

Recordo-me de haver dito, que esta qualidade, de no desafiar
immediatamente impresses profundas, caracterisava a especie de belleza,
que Cecilia possuia.

Nos seus dotes moraes nunca pensra Carlos; e para que havia elle de
pensar n'isso? Por estes motivos a seriedade, de que se revestira
subitamente o rosto de Jenny, impressionou-o.

--Bem, Jenny--respondeu elle, fazendo-se serio tambem.--As tuas palavras
rehabilitariam at aquelles que precisassem de ser rehabilitados. E
Cecilia, creio-o firmemente, no est n'esse caso. Censuras, em tudo
isto, s as mereo eu. Hei de provar-te que assim o penso.

Jenny estendeu-lhe a mo.

--Agora reconheo-te pelo que s. Agradecida.

E depois, apontando para Manoel Quentino:

--Escuso de lembrar-te que elle ignora tudo.

--E ficar ignorando.

Manoel Quentino sonhava-se agora no escriptorio, a fazer uma baralhada
conta de sommar.

Passados momentos, rodava pelas ruas da cidade a carruagem, que
transportava a casa a familia Whitestone.

Das tres pessoas, que ella conduzia, nenhuma fallou durante todo o
caminho.




XVII


CONTAS DE CARLOS COM A CONSCIENCIA


Impressionado pelas occorrencias d'aquella noite, que lhe afugentavam o
somno, Carlos ao voltar a casa, encostou-se pensativo  mesa e abriu
machinalmente um livro.

Quiz o acaso que fosse um volume das obras de Byron e nas _Horas de
Ocio_. Carlos leu:

  _Woman! experiance might have told me..._

a atteno j o no acompanhou ao segundo verso. Fora fatal a primeira
palavra:--_Woman_!--mulher!--Apoiada n'este magico substantivo, a
imaginao ganhou esforo e, deixando os sentidos seguirem os versos
restantes, divagou,  sua vontade, mais rapida e por mais longe do que
elles.

O caminho, que estes continuaram seguindo, provavelmente poder o leitor
encontral-o, se quizer, na sua bibliotheca: deixaremos porisso Byron em
paz, e iremos, como podermos, atraz da imaginao de Carlos.

Principiou por se recordar da revelao que a um acaso devera momentos
antes. Recordar, disse eu? Para com rigor me poder servir do termo, era
necessario que tal descoberta lhe tivesse j, por instantes sequer,
deixado livre o campo do pensamento; e teria?  licito duvidar.

Entrou depois Carlos em tarefa mais activa, qual foi a de tentar avivar
a imagem de Cecilia, que apenas lhe apparecia como vaga reminiscencia, e
velada por uma nuvem, que elle em vo procurava dissipar.

Se o leitor j alguma vez pz hombros a emprezas d'estas, deve saber que
desesperadoras difficuldades ellas trazem quasi sempre comsigo. Quanto
mais ardente  o desejo de recordar uma physionomia, que ainda no temos
bem gravada na memoria, tanto mais parece comprazer-se um maligno
espirito de impacientar-nos, alterando-lhe completamente o typo,
combinando os elementos physionomicos mais disparatados, debuxando a
capricho o perfil, colorindo mentirosamente os cabellos e a tez,
assombrando com a mais grosseira infidelidade as inflexes e os relevos.

Em uma palavra, Carlos, que tinha visto frequentes vezes Cecilia, ainda
que nunca muito attentamente, no pde, por mais que o tentasse, tirar
da memoria uma imagem distincta d'essa rapariga.

Em compensao recordava-se do metal de voz sonoro, com que ella lhe
fallra no baile, da graciosa maneira de rir, de tudo quanto lhe
dissera, de todas as pequenas circumstancias d'aquella aventura do
carnaval, de todas, e to profundamente se deixou embeber n'estas
cogitaes que, apoiada a cabea entre as mos, os cotovlos sobre a
mesa, e os olhos meio fechados, nem se lembrava de Byron, que
sinceramente julgava continuar a ler, nem sequer tinha consciencia do
logar onde estava.

A luz amortecida diffundia no aposento soturna claridade, e o silencio
era tal, que Carlos ouvia-se respirar.

De repente, como que tentando sair d'aquelle estado, afastou de si o
livro com vivacidade.

Vergou a cabea para traz sobre as costas da cadeira, e passou a mo
pelos olhos,  maneira de quem desperta de um sonho. Mas, depois de
avivar a luz, caiu de novo na mesma abstraco de que sara.

Foi porm s a mo esquerda que se encostou  cabea d'esta vez,
emquanto que a direita pegou em uma penna e pz-se a desenhar e a
escrever  ta sobre uma folha de papel branco, que lhe estava ao
alcance.

Escusado  dizer que a alma no tomava parte n'isto.

Segundo a theoria de Xavier de Maistre, _la bte_ ou o _outro_, que, em
ns, devemos distinguir do _eu_, cansra-se de ler e escrevia agora. A
alma, essa continuava na tarefa anterior, meditava ainda.

Observo porm que so perigosas muitas vezes as occupaes, a que o tal
_outro_ se entrega, quando sacode por momentos o jugo do companheiro. O
mesmo Xavier de Maistre aponta-nos exemplos d'isso.

Uma das distraces mais arriscadas  esta de escrever, A mo 
indiscreta; e a razo se se descuida, est sendo atraioada, quando
menos o pensa, por estes automaticos movimentos, que parecem sem
significao.

Olhae por cima do hombro do homem absorvido em graves pensamentos, cuja
mo move ao acaso a penna sobre uma folha de papel; entre muita cousa
insignificante,  raro que uma ou outra palavra, um ou outro signal no
symbolise, no denuncie a ideia dominante, que o possue.

Esse outro motor ou principio, que nos domina as aces, quando a
consciencia no as regula e dirige, parece ter, como a alma, uma memoria
tambem. Exerce-a sobre as particularidades insignificantes, que
acompanharam qualquer acontecimento de importancia para o nosso destino.
Impressionou-nos uma revelao? quando o pensamento se estiver occupando
d'ella, a memoria do _outro_ reproduzir a maneira de trajar da pessoa,
de quem a ouvimos, a cr das paredes do aposento, onde a escutamos, uma
phrase dita simultaneamente por um homem que passava. Ora, muitas vezes
estes accessorios teem ainda bastante analogia com o facto principal,
para que um espirito investigador, sabendo-os, possa ir por elles, de
deduco em deduco, at o fundo dos nossos pensamentos.

D'ahi vem o perigo de confiar, em taes momentos, a penna da mo, que se
move sob a vontade d'este guia, o qual no tem a discrio necessaria
para no deixar no papel vestigios das suas curiosas memorias.

Era o que estava succedendo a Carlos.

Principiou por desenhar, distrahidamente, um elmo; isto parece nada ter
que ver com as provaveis cogitaes do seu espirito, n'aquelle momento.
Cumpre-me, porm, declarar que, na occasio em que no theatro, pela
primeira vez, Carlos reparou em Cecilia, passava por diante d'elle um
individuo, embrulhado em um manto romano e com um elmo, exactamente
similhante ao do desenho.

Depois do elmo, delineou a penna uma meia mascara; aqui j a analogia 
mais evidente e dispensa commentarios; uma mo, depois; pensava talvez
na de Cecilia, cuja belleza notra ao apertar-lh'a,  despedida.
Adiante...--agora parece maior o desacerto--um lampeo de praa! 
verdade que havia um a illuminar a mysteriosa incognita, no momento em
que, na afflico, invocra o nome de Jenny, e conseguira, graas a esse
nome invocado, evitar a ulterior perseguio de Carlos. E  provavel que
fosse esta a razo de similhante desenho, visto que, em seguida, a mo
escreveu por muitas vezes, e em diversas frmas de lettra:--_irm, por
sua irm, por Jenny_! Depois chegou a vez de um orgo de
igreja;--esboo, que s julgar incoherente quem se no recordar da
santa do kalendario, da qual esse  o emblema. De facto, a ideia do
sacro instrumento veio de Santa Cecilia, e a ideia da santa no era das
que acudiriam  mente de um protestante, se, c na terra, alguma
homonyma, por canonisar, a no chamasse l. Aps isto, escreveu uma
palavra absurda, singular, inqualificavel; foi esta:--_Ailicec_; mas
inverta-a o leitor e cessar a estranheza, que ella lhe possa causar;
seguiram-se-lhe outras, no menos exquisitas, e formadas de diversas
combinaes das mesmas sete lettras, que emfim appareceram dispostas por
ordem natural na palavra: Cecilia. Mais abaixo,--singular
transio!--escreveu Carlos em caracteres bem
legiveis:--Papa;--depois:--Calvino; e, acto continuo, o nome de um
compatriota e amigo seu, que, mezes antes, tinha casado com uma senhora
catholica.--Veja o leitor se poder interpretar estes signaes, e ao
mesmo tempo diga se no estava sendo de grande indiscrio para a alma,
o _outro_, companheiro inseparavel d'ella.

A final a mo traou, muito de vagar, as duas seguintes palavras
reunidas:--Cecilia Whitestone.

A razo pareceu ento despertar, e, espantada com o que viu feito na sua
ausencia, tentou pr termo a similhantes imprudencias; e a mo
subitamente passou um trao por as duas ultimas palavras, logo depois de
escriptas.

Carlos levantou-se para passeiar no quarto.

Principiou ento a convencer-se de que tinha de facto sido injusto em
formar to levianamente um conceito pouco favoravel da mascara, e menos
cavalheiro do que devia, no seu procedimento para com ella. Jenny
havia-o reprehendido por isso tudo--e Carlos julgou ouvir a propria
consciencia applaudindo Jenny. Chegou a persuadir-se de que tinha
remorsos, e pareceu-lhe necessario imaginar alguma maneira de remediar
to grandes culpas.

Ouviu duas horas, ainda a pensar n'isto.

Deitou-se vestido sobre o leito; e cada vez a parecer-lhe mais
necessaria e urgente uma resoluo n'aquelle sentido!

Eram tres horas, quando julgou ter somno. Deitou-se por baixo da roupa,
e apagou a luz.

O socego, que o rodeiava, um d'estes socegos nocturnos, to completos
que at o roer da larva invisivel, occulta no seio da madeira, se ouve
distinctamente, impacientava-o, longe de convidal-o ao repouso. Quando o
espirito est agitado, quando uma ideia qualquer nos inquieta, o
silencio, a tranquillidade exterior parecem-nos um escarneo e
irritam-nos.

Em menos de um quarto de hora j a cama estava em desordem, e a
travesseira no cho. Carlos accendeu de novo a vela, trouxe um livro
para a cama e esteve meia hora com elle aberto nas mesmas paginas.

Sentou-se impaciente no leito, e imaginou que tinha febre.

E assim se conservou at s cinco horas da manh, que foi smente quando
adormeceu, ou antes se deixou car exhausto por o cansao, que produz a
insomnia.

E que resultou de tanto pensar? Vl-o-hemos brevemente.

Vamos agora a casa de Manoel Quentino, onde nos encontraremos com
antigos conhecimentos.

Ao voltar do theatro, contra Manoel Quentino  filha, no s o enredo
da _Lucia_, que no podra concluir no camarote, mas todos os principaes
successos da noite; esqueceu-lhe porm o episodio do leno, ao qual no
dera importancia.

Cecilia escutou-o calada.--Dir-se-hia que j a impacientava ouvir tantas
vezes fallar em Carlos; porque, de facto, parecia proposito formado em
Manoel Quentino o ter sempre que contar do rapaz, d'ess estouvado, a
quem, apesar de todos os estouvamentos, o bom homem queria devras.

A julgar pela apparencia de ligeira mortificao, que tomava n'esses
instantes o rosto de Cecilia, devia suppr-se que existia n'ella uma
forte antipathia para com o predilecto do pae.--Mas ser prudente no
confiar demasiado no rigor logico d'estas deduces physionomicas, e
muito mais em mulheres.

No dia seguinte pela manh, ao partir para o escriptorio, Manoel
Quentino no deixou a filha menos melancolica do que nos anteriores; at
lhe pareceu mais falta de cr. Falta de cr! Deus sabe os intimos e
dolorosos estremecimentos, que estas palavras desafiam no corao de um
pae! So para elle as faces rosadas de uma filha, como o firmamento para
estas organisaes impressiveis em excesso, onde, ao toldar-se de nuvens
o co, se projectam as sombras da tristeza; onde, quando elle ostenta um
azul sem mcula, se reflecte a luz das alegrias.

Imagine-se o cuidado, com que devia partir o bom homem.

Que tratos no dava  memoria! Que concepes mais ou menos
extravagantes! que minuciosas investigaes sobre todos os seus proprios
actos e palavras no vinha fazendo pelo caminho, s para descobrir a
causa d'aquella mal disfarada melancolia! E tudo em vo!

No escriptorio no o deixou este cuidado; mais de uma vez, se surprendeu
com a penna, a incansavel companheira, parada no meio de uma palavra,
com os olhos fitos no papel, e sem verem cousa alguma; em completa
abstraco, elle, to pouco propenso a isso!

Depois da morte da mulher--havia quinze annos--, e da doena de
Cecilia--havia seis--nunca tal lhe acontecera; estranhava-se.

Alguma razo tinha Manoel Quentino para estes cuidados.

No que se podesse dizer Cecilia verdadeiramente triste; a imaginao do
pae, excitada pelo seu muito amor, exagerava o mal,  fora de o temer;
mas perdera a despreoccupao, quasi infantil, que era natural n'ella;
desgostra-se de repente de alguns passatempos, que, no meio das
canceiras domesticas, ainda conservava de creana; tomra-se
inesperadamente do gosto de passeiar s pelos corredores e pelas ruas do
quintal, que no era proprio do seu caracter pouco meditativo, at ento
pelo menos. Manoel Quentino estranhava, por exemplo, no a ver fazendo
saltar o agil e engraado gato maltez, que no andava pouco sentido com
a mudana; no a ouvir j cantar a meia voz, quando trabalhava  janella
do quintal; ou formular observaes, innocentemente satyricas, a
respeito de alguns vizinhos, e as impertinentes perguntas com que, muito
de proposito, costumava impacientar a criada; nem o mais ligeiro indicio
denunciava agora n'ella uma indole propensa ao jovial.

Na manh, em que Manoel Quentino luctava com as apprehenses que estas
mudanas em Cecilia lhe despertavam, trabalhava ella no quarto com as
janellas fechadas, contra o seu costume, e to distrahida, que no era
raro parar-lhe a agulha a meio caminho da costura.

Por mais de uma vez, Antonia, vindo consultal-a sobre negocios
domesticos, foi constrangida a repetir a pergunta, porque Cecilia no a
tinha comprehendido--o que, seja dito em abono da snr. Antonia da
Natividade, no procedia de falta de clareza na redaco da phrase.

De uma d'estas fundas abstraces, to repetidas n'aquella manh em
Cecilia, veio arrancal-a o toque impetuoso da campainha do portal.

A este som Cecilia estremeceu e dirigiu os olhos para o relogio da sala,
com um gesto de surpreza. Pouco passava da uma hora; no podia ainda ser
o pae que voltasse, e raras vezes outra mo que no a d'elle fazia assim
soar a campainha--muito menos quellas horas do dia.

A estranheza augmentou e quasi degenerou em inquietao e susto com a
entrada da criada, cuja physionomia no era de facto, n'aquelle momento,
para tranquillisar ninguem.

A veneravel matrona trazia estampado no rosto, vigoroso de expresso, o
mais completo espanto.

Cecilia, vendo-a, ergueu-se de subito e fez-se pallida, como se j
aguardasse uma m noticia.

--Menina!... menina!...--dizia, a custo, a criada, fra de respirao.

--Jesus! Que , Antonia? que ?--perguntou Cecilia, batendo-lhe o
corao com tal violencia, que parecia despedaar-lhe o peito.

--Ai que ainda no estou em mim! continuava a outra.

--Diga, mulher! diga o que .

--Ora que ha de ser! Ai!... No se assuste... Safa!... Eu sempre
fiquei!...

--E no diz!

--Digo, digo, menina. Pois porque no havia de dizer? Para isso vim.

--Pois no parece. No v o susto em que estou?

--Susto?! No  caso d'isso, socegue...  que... a, deixe-me, por amor
de Deus, respirar...

Cecilia ajuntou as mos com impaciencia.

-- um senhor--disse por fim Antonia--um senhor todo asseiado e bonito,
que quer... Ai! sempre se me pregaram umas dores de cabea!

--Que quer o qu, Antonia?

--Que quer fallar  menina.

--A mim! Voc que diz, mulher? Isso pde l ser!

--Tanto pde, que elle l est.

--L! Aonde?

--Na sala das visitas.

--Pois mandou-o entrar?! Valha-me Deus!

--Ento que havia eu de fazer? Se elle procurava a menina... No, a
delicadeza no fica mal a ninguem; sobre tudo com pessoas delicadas
tambem. Havia de ver que modos aquelles to bonitos! Obsequio vae,
obsequio vem; senhora para aqui, senhora para alli; no  l como estes
cabouqueiros, que s vezes veem por ahi, que julgam que todos foram
creados a bora e a caldo verde, como elles. No, senhora; bem se v que
este  pessoa fina...

--Mas...  impossivel. Ha engano; no pde ser a mim que elle procura...
Voc ouviu bem?

--Ouvi, menina, ouvi. Ora que scisma! Graas a Deus no estou tonta de
todo. Ia agora deixar entrar assim, sem mais nem menos, um homem pela
casa dentro, sem ouvir, sem perguntar... Credo, menina! melhor conceito
faa de mim. Olhem agora! Ora essa no est m! No, se eu no entendia
aquillo, estava bem servida com a minha vida! Por as palavras se entende
a gente e nosso Senhor nos d sempre ouvidos para ouvir, olhos para ver
e juizo para entender. Amen.

--Est bom, est bom. J agora no ha remedio seno ir ver quem . E o
pae no estar em casa!...

--Ora no temos nenhum ataque de ladres. Nem que fosse alguma cousa do
outro mundo... Se a menina estivesse s, no digo ... mas na companhia
de uma pessoa de ... de representao...

Cecilia parecia ainda irresoluta.

Antonia insistiu:

--Ento, menina! Olhe que isso at parece mal tambem. Fazer esperar
assim aquelle senhor! A final no sei de que tem receio. Ento se a
gente vae a...

--Ora cale-se, mulher, cale-se. Se eu sei o que voc tem estado para ahi
a prgar...--interrompeu-a Cecilia, j impaciente--Que hei de ir, sei
eu. J que o mal est feito...

--O mal!  menina, no me diga isso, por quem . Ento queria que eu...

Cecilia, depois de rapidamente se ageitar ao espelho, voltou as costas 
snr. Antonia, e dirigiu-se para a sala onde a criada introduzira a
estranha visita, que tanto a estava inquietando.

Antonia seguiu-a, resmoneando o resto das suas reflexes.

Ao entrar, no viram ninguem. A pessoa, que alli esperava, sara para a
varanda de pedra, que deitava sobre o quintal. Voltou porm, logo que
percebeu que as duas haviam entrado na sala, mas, como ficasse com as
costas voltadas  luz, no foi logo possivel a Cecilia reconhecer quem
fosse.

Cecilia deu alguns passos, com hesitao, dizendo:

--Ao que parece, v. s. deve ter vindo enganado.

--No, minha senhora, no vim.  v. exc. mesma que eu procuro.

Cecilia parou estupefacta. A voz, que assim lhe respondia, era-lhe
conhecida; a pessoa no o era menos.

Ella reconheceu Carlos Whitestone.

O sobresalto e a confuso, que se apoderaram da filha de Manoel
Quentino, n'esse momento, so indescriptiveis, mas faceis de conceber
por quem tenha escutado, com Jenny, a dupla confidencia, de que atraz
fizemos meno.

Cecilia teve de apoiar-se ao encosto da cadeira proxima, para disfarar
a sua turbao, as faces craram intensamente e a custo pde dizer, em
voz tremula e sumida:

-- snr. Carlos!... V. s. aqui!...

--Venho cumprir um dever, minha senhora.

--Queira sentar-se--disse Cecilia, quasi constrangida ella propria a
fazel-o para no cair.

--Tem duvida, minha senhora, em me escutar a ss?--perguntou Carlos,
designando Antonia, com o olhar.

Cecilia, ainda mal senhora sua, fez signal  criada, que, collocada no
limiar da porta, mostrava poucas disposies de abandonar o posto, e por
isso fingiu no perceber a ordem, apesar de ter entendido bem at as
palavras de Carlos.

O genio de Cecilia precisava de reagir contra o enleio, que a tomra;
encontrou auxiliar na impaciencia com que repetiu a ordem, acrescentando
com certo desabrimento:

--Saia.

Antonia no resistiu. Subiu as escadas, de mau humor, resmungando:

--Olhem agora o peralvilho! Ora j viram! Louvado seja Deus! Sempre ha
gente n'este mundo! Que no v eu descobrir o grande segredo! Melhores
barbas do que as d'elle teem confiado na filha de meu pae. O snr. doutor
Raposo, um lettrado de mo cheia... pois no punha nenhuma aquella em
fallar diante de mim dos seus autos e demandas. Servi tres annos o
doutor Dionysio, e, depois de jantar, contava-me tudo o que via e ouvia
por casa das familias, onde tratava de medico. E, graas a Deus! nunca
tiveram de se arrepender d'isso. Est para nascer o primeiro que tenha
razo de queixa da minha lingua... Olha agora .. O lerma, o magricellas,
o dois de paus...

E procurando parodiar burlescamente os modos de Carlos:

--Tem duvida, minha senhora, em me escutar a ss?!... Tem duvida, tem,
sim, senhor; e ento que acha?... Ou, se no tem, devia ter... Ento
escuta-se assim um creancelho, um homem, que nem pe navalha na cara,
sem estar presente uma pessoa de juizo? Hein?--E ella ento: Saia!
Gsto d'isto! Saia; no que elle no ha mais Saia. No se, no,
senhora, no se assim com essa pressa. Ora ahi est... Ou se se 
porque...  porque...  por a gente querer viver bem com todos;  o que
... no  por mais nada!

A palinodia prolongou-se n'esta afinao; e a reputao de Carlos ficou
de rastos no conceito da snr. Antonia.

Logo depois de se perder nas escadas o som dos passos de Antonia,
Cecilia, tremula e confusa, continuou:

--No posso ainda imaginar a que deva a honra...

Carlos no a deixou proseguir.

--Perdo, minha senhora, v. exc. deve suppr qual o fim, que me levou a
solicitar este favor...

--Eu?!--perguntou Cecilia, a tremer.

--Sim, minha senhora--continuou Carlos--se v. exc. me conhecesse, se
tivesse aprendido a fazer-me justia, devia prever, ao ver-me entrar
hoje aqui, em sua casa, que s um motivo me podia trazer.

--E era?--murmurou Cecilia, quasi receiando-se da resposta.

--Pedir-lhe perdo, minha senhora.

--Perdo!...

Cecilia sentiu o atordoamento precursor da vertigem, ao ouvir aquellas
palavras.

--Sei tudo, minha senhora--proseguiu Carlos--e acredite que tenho
sinceros remorsos de no haver adivinhado logo; nunca senti assim o
effeito das minhas leviandades.

--Mas... sabe... o qu, senhor?--balbuciou Cecilia, como se tentasse
ainda duvidar do que era j certeza para ella.

--No me quer poupar ao desgosto de recordar uma scena, em que eu fui
to culpado?

--Pois Jenny disse-lhe?--exclamou, quasi involuntariamente, Cecilia,
como fallando comsigo mesma.

E os olhos brilharam-lhe de lagrimas, prestes a desprenderem-se-lhe
pelas faces.

Carlos atalhou-a:

--No, minha senhora; Jenny no foi indiscreta. O acaso revelou-me tudo
o que eu, desde aquella noite, tanto desejava saber. Minha irm apenas
me fez comprehender bem toda a pouca delicadeza do meu procedimento e a
necessidade de uma justificao;  essa que eu venho aqui offerecer-lhe.
V. exc. tem direito a ella, como o teria Jenny e como eu o exigiria de
quem tratasse minha irm... to grosseiramente, como eu tratei v. exc.

--Mas, snr. Carlos, toda a culpa tive-a eu...

--No diga isso! Insistir em no me reconhecer culpado  apenas uma
maneira delicada de recusar-me o perdo que, de proposito, vim aqui
implorar-lhe.

Cecilia no respondeu; Carlos proseguiu:

--V. exc.  a melhor amiga de Jenny; ella mesma, hontem, m'o disse.
Peo-lhe que me no julgue indigno da sua amizade tambem, minha senhora.
Eu supponho-me igualmente o melhor amigo de minha irm. Duas pessoas,
que teem assim a estima de um anjo, como aquelle, devem estimar-se uma 
outra; no lhe parece?

--Mas eu, snr. Carlos, nunca tive motivos para... no tenho direito para
deixar de... estimal-o.

--Perda-me portanto?

Cecilia guardou por algum tempo silencio, depois, fazendo esforo sobre
si mesma, disse com vivacidade:

--Snr. Carlos, no fallemos mais n'isto, peo-lhe... Esqueamos tudo,
como se tivesse sido um sonho... mau.

E terminando assim o pensamento, baixou os olhos, como desfallecida pela
violencia da lucta, que sustentra.

Carlos no replicou immediatamente. Houve um silencio de alguns
segundos, incommodo para ambos; emfim, olhando para Cecilia:

--Esquecer!--disse Carlos, de uma maneira, que parecia mostrar no lhe
ser demasiado grata a proposta, e depois acrescentou:--Pois sim...
Esqueamos, visto que assim o quer. Mas eu tenho a esquecer,
arrependendo-me; j o fiz; v. exc., perdoando; por que recusa fazel-o?
Perda?

Cecilia ia de novo negar-se a admittir-lhe a culpa, mas, erguendo os
olhos, viu Carlos que lhe estendia a mo e, sem bem attentar o que
fazia, estendeu tambm a sua, murmurando:

--Perdo.

Quando, reflectindo, a quiz retirar, e juntamente a palavra, j no era
tempo.

Logo que ouviu de Cecilia o perdo, que viera de proposito solicitar
alli, Carlos levantou-se.

--Obrigado, minha senhora--disse elle.--Cumpri o meu dever; agora parto
satisfeito.

A pobre rapariga no podia responder mais nada; se ainda lhe estava
parecendo um sonho tudo aquillo!

--Mais duas palavras s;--disse ainda Carlos, pegando no chapo--quando
v. exc. chegou, no estava eu aqui dentro; reparou? N'esse momento,
minha senhora, acabava de fazer uma singular decoberta.

--Uma descoberta?!

--Muito singular. Ha poucos dias--continuou Carlos, aproximando-se da
janella, junto da qual estava j Cecilia--passeiava eu n'aquelles
pinheiraes... acol. Meditava... nem posso bem dizer em qu. No sei de
que maneira me attrahiu a vista, e depois me occupou a imaginao, uma
casa, que avistei d'alli. Tinha a varanda revestida de trepadeiras, uma
roseira no intervallo das duas janellas e, no andar de cima, apparecia
frequentemente uma senhora, toda occupada em trabalhos domesticos,
n'esse lidar modesto, que rodeia, a meus olhos, de suave perfume de
poesia as mais bellas figuras de mulher.

Cecilia baixou os olhos, crando, e pareceu entretida a examinar a
andarella do castial de vidro, que lhe ficava  mo.

--Imagine agora a minha surpreza, quando, ha pouco, chegando aqui,
reconheci esta varanda, esta janella, esta roseira, por as mesmas que de
to longe me haviam chamado a attenco. D'ahi--acrescentou,
sorrindo--facil me foi concluir quem era a senhora. No haver mysterio
n'isto? No parece que esta roseira queria aconselhar-me de longe o
passo que hoje dei? Eu, por mim, estou tentado a crl-o, e tanto que,
por gratido, peo-lhe licena, minha senhora, para levar commigo uma
memoria d'ella. Permitte-me que crte uma d'aquellas flores?

Cecilia s pde sorrir em resposta, baixando a cabea.

Carlos aproximou-se da japoneira e cortou um boto, ainda mal
desabrochado; voltando  sala, curvou-se respeitosamente diante de
Cecilia, e, depois de mais outra phrase de cumprimento, sau.

Ella viu-o sar, sem que fizesse o menor movimento, e por muito tempo
permaneceu no mesmo logar e na mesma posiao em que havia ficado.

Dominava-lhe o esprito um turbilho de ideias, que ora o mortificavam,
ora, no sei de que maneira, o embalavam agradavelmente.

Foi ainda Antonia quem fez cessar mais esta abstraco.

--Ento quem era a final este senhor de tantos recatos e
cautelas?--perguntou a criada, a quem a curiosidade mordia com
verdadeira sofreguido.

--Pois no conheceu? Era o filho do snr. Ricardo, do patro do pae...

--Ai sim?! Como est um homem! A ultima vez que o vi, era elle uma
creana... Pois olhe que... a respeito de educao... pde com a que
tem... Sempre  herege!

--Por que diz isso?

--Ento no viu o descco, com que lhe pediu, e na minh cara, para me
mandar embora? E a menina ento... foi logo! E que queria por fim este
chincharabelho?

--Nada... E sabe?... Escusa de fallar a meu pae... n'esta visita...

-- porque... Jenny... e o irmo querem causar uma surpreza a meu pae...
para o dia dos annos d'elle e... avisam-me... por isso...

Decididamente Cecilia no tinha geito para mentir; hesitava, crava, a
dizer isto, que no era possivel illudir-se ninguem.

A criada que, segundo ella mesma dizia, tinha olhos para ver, notou este
rubor e confuso, e commentou-os a seu modo:

--Aqui anda cousa. Ora queira Deus, queira!... Nem sei se diga ao snr.
Manoel Quentino... Mas nada, nada; ella l sabe voltar o pae para onde
quer e a final quem fica mal sou eu. L se arranjem... Humh! Uma
surpreza para o dia dos annos. Pois no foste! Para mim  que elles veem
com isto!

Cecilia, procurou encerrar-se no quarto; pegou de novo na costura; mas
posso afianar que no adiantou o trabalho.

Manoel Quentino tinha razo; alguma cousa affligia a filha.




XVIII


CONTAS DE JENNY COM A CONSCIENCIA DE CARLOS


Sando de casa de Manoel Quentino, Carlos no ia menos agitado, do que
deixra a filha do guarda-livros.

Aquella visita de Carlos, visita que, a seus proprios olhos, elle
procurava fazer passar como a mais natural reparao de uma das suas
muitas leviandades, talvez perante a analyse imparcial tenha de receber
outra qualificao, que no a de um cumprimento de dever.

Se se tratasse de outra mulher, que no fosse Cecilia, de outra com
menos graas attractivas, embora com mais direitos ainda  reparao,
talvez Carlos no chegasse a convencer-se to profundamente e to
depressa, como parecia ter-se convencido, da instante e imperiosa
necessidade d'aquelle passo que dera; talvez o pensamento de tal visita
o no tivesse possuido toda a noite e, pelo menos, no se resolveria por
certo a realisal-o, sem haver consultado Jenny, a sua boa conselheira em
todos os actos da vida; mas, longe de a consultar, antes lhe andou
occultando com cuidado o projecto emquanto o meditava, como com receio
de ser dissuadido d'elle.

Ha certos homens, escrupulosos respeitadores da lettra das leis, que
praticaro desafogados qualquer aco, averiguadamente illicita, sempre
que possam sophismar os artigos do Codigo de maneira que se resalvem da
pronuncia judicial; dando-se-lhes pouco que o espirito, que os dictra
ao legislador, fique muito maltratado pelo sophisma.

Isto, que se pratca com as leis civis, poucos so os que, todos os dias
e a cada momento, o no fazem tambem em relao ao codigo intimo da
consciencia. Raros ousam, se alguns, arrostar contra as prescripes
d'este juiz inflexivel e perscrutador, e confessar o delicio
desassombrados; quasi todos as discutem, as torcem, as commentam,
alteram e sophismam, at as prem em accrdo apparente com os actos que
praticaram.

O orgulho leva muitas vezes o criminoso a recusar defender-se nos
tribunaes humanos; nem o despreso geral, nem as severidades da lei so
bastantes para o obrigarem a vergar a cabea; tem coragem para adoptar o
crime, deixando-lhe o nome de crime; mas esse mesmo, a ss, no tribunal
da consciencia, procurar com ardor pleitear a causa, que abandonou
perante juizes, de cujas mos pde sar a sentena de morte.

Longe de ns o querer estabelecer analogias, muito intimas, entre estes
perpetradores de grandes maldades e Carlos, que, para com a consciencia,
s tinha a justificar-se de um d'esses peccaditos que, mais ou menos, ha
de forosamente commetter quem tenha nas veias um sangue de vinte annos.

Mas  um tal jury o da consciencia, que, sempre que taes pleitos so
necessarios no seu tribunal, a causa  j por isso m. Para as justas
dispensa advogados.

No procuremos illudir-nos ns, como Carlos; sem querer duvidar dos bons
sentimentos d'elle, pde-se ir buscar outras razes para a visita, cujos
promenores no ultimo capitulo relatamos.

O que  fra de duvida  que depois d'aquella vigilia, em que o leitor o
viu, no teve Carlos pensamento e imaginao, seno para descobrir um
meio de tornar a encontrar-se com Ceclia, e de fallar-lhe.

O resultado foi o que sabemos.

Se havia sido to profunda a impresso produzida por a casual revelao
do theatro n'aquelle espirito affectado j de vagos preludios do mal,
mais a fundo se gravou ainda depois da visita feita a Cecilia.

Parecia que nas poucas palavras que n'essa entrevista Cecilia
pronuncira, Carlos tinha decifrado sentidos occultos; pensava n'ellas.

Depois a coincidncia de ter sido quasi evocado por aquella mal
distincta figura de mulher, quando dias antes fitra de longe
distrahidaraente os olhos em uma janella, avultava-lhe agora como uma
cousa acima do simples acaso; por pouco estava a acreditar que a secreto
influxo lhe haviam n'esse dia obedecido os olhos.

Vejam se no  serio o estado do corao de Carlos, que assim est quasi
a tornal-o supersticioso.

Eram duas horas da tarde, quando Carlos chegou a casa. Tomando logo por
a rua do jardim, para onde se abriam as janellas do quarto da irm,
parou por baixo d'ellas, e bateu nos vidros uma leve pancada.

Pouco depois agitaram-se, afastando-se, as cortinas, e o vulto de Jenny
acudiu quelle signal.

--s tu, Charles?! A estas horas!

--Pdes fallar-me, Jenny?

--Entra.

Carlos tornou outra vez por a rua, por onde viera; entrou no portal;
atravessou alguns corredores e dentro em pouco achava-se no quarto de
Jenny.

Jenny estava occupada na feitura do enxoval de uma creana
recem-nascida, cuja pobre familia era soccorrida por a bondosa menina.

Carlos sentou-se ao lado da irm.

Jenny continuou a trabalhar.

--Ento que milagre  este? As magnolias do jardim haviam de fazer um
espanto ao verem-te entre si a estas horas do dia!

--Sabes d'onde eu venho?--perguntou Carlos, em vez de responder, e
brincando machinalmente com um colar de coraes, que tirra de cima do
toucador.

--Eu, no--disse Jenny sem olhar para o irmo.

--Venho de casa de Manoel Quentino.

--De casa de Manoel Quentino? E a que foste l?

--Pedir perdo a Cecilia.

Houve um intervallo de silencio.

Jenny voltra-se subitamente para Carlos, fixando n'elle o olhar serio e
penetrante; Carlos com a cabea baixa parecia todo absorvido na tarefa
de contar o numero de coraes, de que se compunha a enfiadura.

--Dizes a verdade, Charles?--perguntou Jenny, ainda immovel, e
continuando a fital-o.

--Ento por que no ha de ser isto verdade?--replicou Carlos, tambem na
mesma posio.

-E fallaste-lhe?

--Fallei.

--Que lhe disseste?

--Confessei-me culpado de quanto tivera logar n'aquella noite do baile
e... pedi-lhe perdo...

--E ella?...

--E ella...--proseguiu Carlos, pousando emfim o colar--depois de algumas
modestas hesitaes... perdoou-me.

--Ah! Charles, Charles! Essa tua cabea!...--disse Jenny a meia voz, e
com inflexo benignamente reprehensiva.

--Ento--tornou-lhe Carlos com modos de ligeiro enfado--No fiz bem? No
era esse o meu dever? Eu esperava at que me applaudisses a aco e
tu...

A estas palavras Jenny no pde reprimir um movivento de impaciencia;
arredou a costura em que trabalhava, tomou as mos de Carlos, e fitando
nos d'elle os olhos limpidos e serenos, como o co de primavera,
perguntou-lhe com um meio sorriso:

--Falla-me a verdade, Charles. A verdade s, entendes? Para que
procuraste tu Cecilia?

--Que pergunta! Pois no te disse j? No era do meu dever?...

--No, no era. Melhor seria fingires sempre que ignoravas tudo, do que
dares quella pobre menina motivo para crar na tua presena. Esse acto,
que dizes eu devia applaudir, no partiu do teu corao, que  muito bom
e muito generoso, partiu mas foi d'esta cabea--e pousava-lhe a mo na
fronte;--d'esta cabea, que  uma estouvada.

--s injusta d'esta vez, Jenny.

--No sou. Quero acreditar que te illudisses a ti proprio; mas, se
pensares melhor, vers que tenho razo. Hontem, ao sares do theatro,
estavas triste. Bem o senti. E por que estavas triste? Eram remorsos
pela m opinio, que tinhas formado de quem te merecia smente
respeitos, que no tiveste?

--Eram.

--No eram, Charles, no eram. Para que procuras tu enganar-me? No
eram. Tu smente lamentavas o fim de uma aventura,  qual tinhas
imaginado mais longa durao. O caracter da pessoa, de que se tratava,
mostrava-te, depois que a conheceste, que eram sem fundamento as tuas
esperanas, e tu ento...

--Jenny!

--Para que o queres negar? Olha que eu tenho a vaidade, e o orgulho
tambem, de saber ler nos teus pensamentos. Ha muito o aprendi e tu mesmo
me auxiliaste.

Carlos baixou os olhos e principiou a torcer machinalmente a corrente do
relogio.

Desde este momento a victoria era de Jenny. Ella comprehendeu-o e
proseguiu:

--Depois a imaginao, essa travssa imaginao, que ns ambos
conhecemos, pz-se a trabalhar. Ella no podia resignar-se a ver
terminar to depressa o romance, que phantasira to longo, e lidou, e
lidou, e apesar de te recolheres hontem mais cdo, no durou a tua
vigilia menos do que a d'aquella celebre noite do carnaval; no 
verdade? Confessa. E o corao a dizer-te, muito baixo, que devias...
que era mais generoso deixar acabar tudo alli, e a imaginao a crear
difficuldades, a inventar deveres, a entreter-te de no sei que pontos
de honra muito exigentes; e ento o corao, o pobre corao, que cada
vez ia perdendo mais terreno, a lembrar-te que pelo menos consultasses
tua irm, Charles, e a outra, a m, nem isso te concedeu; provou-te a
vantagem de me occultares tudo! Tinha mdo de que eu podesse
dissuadir-te! E tu a obedeceres  imaginao, e a levantares-te, a
partires, a procurares Cecilia, e a pedir-lhe um perdo de creana, que
em outras circumstancias te faria rir, e a pobre menina a conceder-t'o,
sem bem saber o que fazia. Confessa, Charles, confessa, a verdade
d'isto.

Carlos no pde disfarar um sorriso, e, levando aos labios a mo que a
irm pousra na sua, murmurou:

--Feiticeira!

Jenny sorriu tambem.

--Na verdade!--proseguiu ella, d'ahi a pouco-- uma forte imaginao
essa tua, que tanta cousa consegue de ti! e comtudo...--acrescentou,
cobrindo-se de repente de mais seriedade--e comtudo eu prefiro ainda
dirigir-me ao teu corao, que tambem  forte, porque  muito sensivel e
muito generoso e que a ha de poder vencer; no  verdade?  a elle que
eu vou fallar, Charles, e espero que serei escutada.

--Falla, Jenny, falla. Aconselha-me. Bem sabes que ha muito te tenho por
meu bom anjo. Falla--disse Carlos, affectuosamente.

--Ora dize-me, Charles--continuou Jenny, cada vez mais commovida:--no
imaginas o que pde resultar d'essa tua phantasia, a deixares-te assim
arrastar por ella? Cecilia at hoje tem sido feliz. No passado no tinha
nada que a envergonhasse ou que lhe dsse pena; no futuro no antevia
nuvem, que de longe a ameaasse. Era uma vida aquella tranquilla e
serena, como no imaginas. Mas Cecilia tem dezoito annos, Charles, e um
corao cheio de confiana e uma imaginao... um pouco  similhana da
tua... Conheo-a, a ella tambem. Se alguma vez se apoderar d'aquelle bom
espirito qualquer ideia, se passar uma hora a acalentar qualquer
illuso, acredita que j no ser sem esforo, e sem dor, que a
arrancar de si. E dize-me, Charles: a tua consciencia, que  justa, no
havia de querer mal, e muito,  tua phantasia, que  uma enganadora, se
ella fizesse, com seus conselhos, nascer essa illuso, obrigando-te a
sacrificar ao capricho de uma manh o futuro inteiro de uma existencia?

--Mas de que maneira imaginas tu esse sacrificio?--interrogou Carlos,
levantando os olhos para a irm.

--De que maneira? Pois dize-me: se Cecilia, que podia esquecer aquella
scena do baile e todas as suas consequencias, principiasse, depois da
tua visita, a pensar mais n'ella? se, sabendo-te senhor de um segredo
seu, principiasse a... a pensar mais em ti? se, crando na tua presena
de acanhamento ao principio, pouco a pouco... quem sabe l?... viesse a
crar... de commoo... de... amor?...

E, ao pronunciar esta palavra, as faces de Jenny tingiam-se de desmaiado
carmim.

Carlos sorriu, vendo-o.

--Tu ris, Charles?  porque estranhas em mim estas palavras ou por
suppres infundados os meus receios? Em qualquer dos casos no tens
razo. O que no conheo por mim, ha muito aprendi a conhecer por os
outros, e por ti, Charles, principalmente por ti. Eu sei como essas
cousas se passam; como o capricho se transforma em ideia fixa, como a
ideia arrasta aps de si a paixo. Eu sei, Charles; que o tenho visto em
ti e sei que Cecilia tem imaginao, como a tua, que a pde conduzir a
esses extremos; com a differena de que em ti a paixo transforma-se
ainda em esquecimento, e n'ella... Se te viesse a amar...

--Que grande mal! Amal-a-hia eu tambem, Jenny.

Jenny desviou a cabea, procurando exprimir enfado, e tornou-lhe:

--Eu a fallar-te ao corao, Charles, e tu a responderes-me com a
phantasia! Creana de vinte annos! quando se te poder fallar serio?
Pois bem; s creanas permitte-se-lhes brincar, menos com os objectos,
com que no sabem lidar ainda. Tu ainda no aprendeste a lidar com os
affectos e com o corao dos outros, sem perigo para elles. Por isso eu
te peo que no continues. No imaginas o que poderia resultar d'ahi, em
que luctas te verias envolvido, se um dia...

--Eu tenho coragem para luctar--disse Carlos, um pouco estouvadamente.

--Guarda-a para quando a lucta for inevitavel; mas no provoques tu
mesmo a experiencia, que  sempre dolorosa.

--No te comprehendo.

--Eu s te peo, Charles, que deixes de uma vez esse capricho, que te
senhoreia ainda, bem o vejo. Pra, Charles, pra, se queres evitar no
futuro o arrependimento tardo; pra, se te queres poupar a remorsos. 
a tua irm, que te pede isto, e tu... dizias estimar-me...

--No faltava seno que o duvidasses agora, Jenny--disse Carlos, meio
agastado.

--No duvido, Charles, e tanto que tenho f em que has de saber vencer
esse capricho.

Carlos baixou a cabea e ficou silencioso por algum tempo.

--No sei, Jenny--disse d'ahi a pouco, levantando-se e passeiando no
quarto--no sei at se  s capricho isto.

--Ento  j paixo?--disse Jenny com olhar malicioso, e pegando outra
vez na costura, em que trabalhava--Uma paixo de dois dias! Como cresceu
depressa! Vamos, Charles; no sejas creana. Contento-me com que
interrogues desapaixonado a tua consciencia, e o que ella te disser...

--Ai, no te fies muito na minha consciencia, Jenny. No vs como ella
me aconselha?

Jenny fez um gesto de incredulidade, olhando para o irmo.

--Ella? Ento foi devras a consciencia que te aconselhou a visita a
Cecilia? Falla com franqueza.

Carlos no pde insistir.

Continuou passeiando com os olhos fitos no cho.

A final parou, e olhando para a imagem da irm, que do espelho o fitava,
disse, com modo sacudido:

--Vou tentar obedecer-te, Jenny; mas receio...

--No me falles em receios. Sem f nada se alcana, incredulo. Coragem!
ainda ha pouco te gabavas de a possuir para as luctas.

--Adeus, Jenny. O que te posso dizer  que se podr desvanecer em mim
esta impresso que me causou Cecilia...--Bem vs que te estou fallando
agora com franqueza--no receiarei nunca mais pelo meu corao.

--Recordo-me de j me teres dito uma cousa assim... de outra vez.

Carlos ia a responder, mas, como se procurasse fugir a uma conversa que
o mortificava, sau com precipitao do quarto.

Jenny viu-o sar e ficou pensativa.

Momentos depois entrou Elisa com uma carta.

--De quem vem isso?--perguntou Jenny.

--De casa do snr. Manoel Quentino.

Jenny conheceu a lettra de Cecilia. Abriu a carta e leu:

    Minha boa Jenny.

    Contra o que lhe tinha promettido, no me  possivel hoje visital-a.
    No me sinto boa, e receio ter de me conservar em casa por alguns
    dias. Meu pae mostra-se inquieto pela minha saude e ainda que no
    seja seno para o tranquillisar, preciso de privar-me do prazer de a
    ver. Jenny, lembre-se de mim e pea a Deus que me conceda a bondade
    de corao e a serenidade de espirito da menina, pois com este meu
    genio e cabea, duvido da felicidade na vida. Adeus.

    Sua amiga,

    _Cecilia_.

--Ah! tambem ella!--murmurou Jenny, ao terminar a leitura, e ficou mais
pensativa do que antes, e uma pequena ruga desenhou-se-lhe na fronte.

O desalento, que parecia descobrir-se atravs das expresses d'aquella
pequena carta, que em vo Cecilia tentra tornar jovial, justificava a
ligeira nuvem que viera assombrar a fronte, habitualmente serena, da
bondosa Jenny; habituada como estava s alegrias sem motivo, 
despreoccupao da sua amiga, tantas vezes reveladas em cartas e em
conversas anteriores, estranhava com razo estes indicios de tristeza.

Alm d'isso, o que na vespera ouvira a Manoel Quentino sobre as mudanas
subitas da filha, no lhe tinha ainda esquecido.

Era no que pensava, quando Carlos a procurou no quarto; e foi essa a
causa principal da apprehenso, exagerada talvez, com que soube da
visita feita pelo irmo a Cecilia, e da anticipaco com que previa o
futuro d'esta, to estreitamente ligado ao procedimento de Carlos.

O estado de Carlos tambem no satisfazia. A segurana que, diante
d'elle, affectra, ella propria a no sentia. Inquietava-a o acontecido,
sem saber bem porqu. A seu pezar, j nenhum outro pensamento a
distrahia d'aquelle.

Para tranquillisar-se, tratava de convencer-se de que eram infundados os
receios. Recordava todas as passageiras inclinaes que conhecera no
irmo e que to depressa, e sem consequencias ms para ninguem, vira
desvanecer; esforava-se em explicar de mil maneiras a inquietao de
Cecilia com excluso d'aquella, que, no obstante, uma voz interior
teimava em repetir-lhe.

De pensamento em pensamento, foi levada quellas disposies de
espirito, nas quaes se aprazia em contemplar as feies amadas da me, a
sua conselheira de alm tumulo.

E assim, a piedosa filha, com a fronte pendida sobre aquelle retrato,
cau em um meditar profundo, que por muito tempo se prolongou.

A final ergueu os olhos ao co e pareceu dirigir-lhe uma orao mental.
O olhar do Senhor baixaria sobre este anjo, que o implorava para
serenar-lhe o espirito?  certo que, passados alguns instantes,
diffundia-se-lhe no semblante a costumada placidez.




XIX


AGGRAVAM-SE OS SYMPTOMAS


Com toda a sua natural bondade, e superior penetrao de espirito,
commettera Jenny uma imprudencia.

No hesitando em confessar ao irmo as apprehenses que sentia, ao
pensar nos resultados da visita feita por elle a Cecilia, deixando-lhe
entrever a possibilidade de que se originasse d'ahi, para a pobre
rapariga, um d'esses sentimentos, a que imprudentemente se abrem os
coraes juvenis e que to depressa adquirem s vezes a fora de paixo,
Jenny, a previdente Jenny, apressra o mal, que julgra conjurar assim.

Escutando-a, Carlos, longe de reflectir nas srias consequencias que
podia arrastar comsigo tal paixo, se porventura nascesse, estava
sentindo um agradavel prazer em a ouvir fallar na possibilidade d'ella;
sorria-lhe j seductoramente esse amor, nas mal delineadas frmas, sob
que lhe apparecia como cousa de futuro e contingente ainda, que era.

Toda a cautela  pouca com estas imaginaes, sempre promptas a voar
para a regio dos sonhos dourados.

 preciso usar para com ellas da prudencia que se deve ter com as
creancas, surprendidas  borda de um abysmo; o brado, que se solta
instinctivamente com o fim de as salvar,  que muitas vezes as
precipita; mais vale encommendal-as  Providencia e no lhes mostrar o
perigo, seno depois d'elle passado. Ha situaes na vida em que tambem
o corao se aproxima, brincando, de um despenhadeiro; todo o conselho
n'este caso  igualmente arriscado; o sobresalto, que produz, pde
effectuar a quda.

Aconteceu isto com Carlos Whitestone.

 notavel a importancia que, n'estas cousas de corao, damos  opinio
alheia! Andamos muito tempo a hesitar sobre o nome de certos
sentimentos, que nos inspira uma mulher, e apesar de contnuo reflectir,
no ousamos chamar-lhe amor; um dia, porm, encontramos o primeiro
estouvado, que se lembra impensadamente de o classificar como tal, e
logo a nossa opinio a curvar-se perante to ponderosa auctoridade. Ha
exemplos at de alguem quasi se chegar a convencer de que ama uma
mulher, s  fora de lh'o repetirem.

Mais desculpa tinha comtudo Carlos; porque no era Jenny sujeita a
formar juizos levianos, nem a exprimir suspeitas e receios, que no
tivessem fundamento.

Por isso tudo, sau elle do quarto da irm, muito peior do que viera.--E
perdoem-me as leitoras, se chamo peiorar ao progredir no caminho do
amor; no lhe chamaria por certo assim, se no fosse o cortejo de
contrariedades, que de ordinario acompanha esta paixo.

O resto do dia passou-o Carlos no quarto, em completa ociosidade.

Ociosidade! E poder dar-se tal nome a esses longos intervallos de
repouso apparente, em que descansam os musculos, mas em que o cerebro
executa porventura os seus mais violentos e fadigosos exercicios?--Se o
leitor tem a infelicidade de no possuir um d'estes espiritos frios, que
sem cessar absorvidos pelo cumprimento dos deveres da vida positiva, no
sentem a necessidade de sacudir, de quando em quando, o jugo, para
correrem por dominios mais propriamente seus, dir se era ociosidade
aquillo.

Desde esse dia, a vida de Carlos ia entrar em uma d'aquellas phases, que
ao romancista, no resolvido a illuminar os seus quadros de outra luz,
que no seja a da realidade, levantam serios embaraos.

Quando uma paixo sincera domina o corao do homem, exalta-se,
sublima-se n'elle o que  a vida subjectiva; mas a vida exterior, a
apparente, a que s avulta para quem no possue olhos que vejam, e
corao que entenda o corao d'este homem, essa, baixa ao nivel das
puerilidades.

Quando a dignidade varonil, o empertigamento masculino se conservam
irreprehensiveis e intactos no auge de uma paixo,  de receiar sempre
pela sinceridade d'ella.

Tudo quanto  convencional esquece ento.

Ora, no homem mais grave e sisudo, ha sempre escondida a crena de
outros tempos. O elemento pueril no morre nunca de todo em ninguem. A
arte social applica-se com afan a occultar das vistas alheias esse
legado da infancia; os mais sisudos so os que melhor o conseguem; mas
basta um descuido de momento, uma distraco, e elle ahi vem 
superfcie.

Assim se explicam as proverbiaes canduras dos mathematicos e dos
amantes.

Os jogos foram tambem inventados por esse motivo. Fingiu-se acreditar
que era uma cousa grave o _wist_, o voltarete, o _boston_, etc., etc.,
para qualquer pessoa poder, em publico, entregar-se a elles, sem offensa
da sisudez convencional; porque, se se no fizessem estas concesses 
creana humana, que s vezes tem impertinencias, corria-se o risco de
mais escandalosas rebellies da parte d'ella.

Mas, como dissemos, uma paixo verdadeira, uma d'essas, cada vez mais
raras, paixes, nas quaes o prazer de amar lucta, em intensidade, com o
de ser amado, absorve muito o espirito, para que elle possa exercer a
vigilancia precisa sobre a travssa creana, de que fallamos.

E, a no haver indulgengia da parte de quem espia estas quebras de
seriedade, a victima da paixo corre o perigo de ser menos bem olhada.

Por isso temo fazer chronica do que se passou em Carlos, nos dias
successivos  conferencia que teve com a irm; porque, em tudo, pouco se
nos deparar digno de um heroe de romance.

Appllo porm para as reminiscencias dos leitores, para depois, sendo
necessario, parodiar a defeza de Christo  peccadora.

Um dos primeiros phenomenos manifestados em Carlos foi uma subita
timidez, n'elle verdadeiramente excepcional; uma perfeita timidez de
creana; completo contraste com os seus passados arrojos, que ainda o
haviam acompanhado na primeira visita feita a Cecilia.

Agora pela primeira vez se sentia acanhado.

Impellia-o o corao a tornar a ver Cecilia; sau no meio da tarde com
esse intento, dirigiu-se para a rua, onde ella morava; de longe, ao
dobrar a esquina, pareceu-lhe descobril-a  janella. Que fortuna! No 
verdade? Assim parece que deveria reputar o facto. Pois no teve coragem
de lhe passar pela porta e, sem ser visto, seguiu caminho differente.
Mas com que m vontade ia contra si proprio!

D'ahi a pouco assomava de novo  mesma esquina; no estava ninguem 
janella; pareceu animar-se com esta observao e caminhou para diante
d'esta vez.

Ia ao mesmo tempo contente e mortificado, por no ver ninguem. No sei
se admittem que uma s causa tenha assim effeitos oppostos; fica-lhes
livre darem ao facto a interpretao que quizerem: eu limito-me a
registal-o.

Quando ia j proximo da casa, appareceu subitamente alguem  janella.
Era Cecilia; adivinhou Carlos que era ella, antes de reconhecer. Com a
appario ficou mortificado e contente; outra vez o mesmo phenomeno
paradoxal.

Apressou logo os passos e tomou uns ares de homem atarefado, como se
quizesse dar a entender que a sua passagem por alli era puramente casual
ou motivada por negocio urgente.

Incoherencia! dir um galanteador de profisso. Incoherencia, 
verdade; e pobre da paixo, que no d para incoherencias. Se o rigor
syllogistico resiste a uma d'estas commoes do corao, no vale a pena
tomal-a a serio.

Ao passar por defronte da janella, Carlos cumprimentou Cecilia,
timidamente, quasi canhestramente, sem lhe sobrar coragem para a fitar e
no ousando voltar de novo a cabea, em todo o resto da rua, que seguiu
at o fim.

Interiormente redobrava a impaciencia e m vontade contra si proprio.
Elle, que sempre se reconheceu arrojado, agora com acanhamentos de
namorado novio!

Parou na alameda, que ficava ao fim da rua. No lhe sau aquillo da
ideia.--Que quer isto dizer?--pensava elle--Ento no estou eu
transformado em estudante de quinze annos, que nem frieza de animo tem
para cumprimentar a prima, por quem julga morrer de amores? Acho-lhe
graa!

E enchendo-se de brios, preparou-se, passados momentos, com maior
denodo, para voltar.

Mas, apesar de todas as prevenes, a coragem ia-lhe faltando,  medida
que se aproximava do logar do perigo.

Justamente na occasio, em que o attingia, chegava Manoel Quentino 
porta de casa.

Era uma d'estas coincidencias felizes, de que, em outra occasio, Carlos
saberia tirar partido.

D'esta vez quasi sentiu que ella se dsse.

Foi obrigado a parar, depois de ter, sem a menor apparencia de audacia,
cumprimentado de novo Cecilia, que estava  janella.

--Ento por estes sitios!--disse-lhe Manoel Quentino admirado--O que o
trouxe por aqui hoje?

Carlos balbuciou algumas palavras, que no formularam resposta alguma.

Manoel Quentino sorriu maliciosamente.

--Ora ande l, ande l com Deus.

Carlos crou.--Crou!

--Acredite que vim... por acaso--insistia elle.

--Sim, sim; pois eu bem sei--continuava Manoel Quentino no mesmo tom.

Carlos estava sobre brazas.

--Serio...

--Serio, sim, serio... pois  l homem que falle de outra frma?... Ora
v com nossa Senhora, v... eh! eh! eh!...

Carlos no teve arte de demorar a conversa, durante a qual no aventurou
um s olhar para Cecilia e nem animo lhe assistiu para aceitar o
offerecimento que lhe fez Manoel Quentino de subir e descansar algum
tempo.

Partiu, cada vez mais desgostoso comsigo, parecendo ter sido o seu
principal empenho occultar, e no revelar, a Cecilia o que principiava a
sentir por ella.

E agora uma pergunta: no o comprehenderia Cecilia? Parece racional
dizer que no; mas quem pde l adivinhar como o corao da mulher
adquire certa ordem de conhecimentos, sobre tudo se...

Mas ponhamos de parte _ses_ menos discretos; que os sentimentos de
Cecilia no so para se devassarem assim de passagem.

O resto do dia Carlos passou-o s no quarto, a ler.

Ha alguma cousa tambem de particular na maneira de ler, quando se est
em taes disposies de espirito.

Preferem-se os romances; mas no  pelo lado litterario, que mais se
apreciam; porm exactamente como os apreciam as creanas e a maioria das
mulheres--pelas peripecias do enredo;--e, permitta-se-me dizer, que
imagino ser esta a classe dos leitores, que mais deve lisongear o
romancista.

Seguem-se ento com ardor as phases successivas de uma paixo descripta
alli; deixa-se tomar o corao de amor pela heroina; assume-se o
caracter do heroe; e no se perdoa ao auctor quando termina por alguma
catastrophe a historia, que escreve.

Isto aconteceu com Carlos. Symptoma terrivel! Leu em uma especie de
embriaguez um romance inteiro de Walter-Scott, e muito tempo depois
ficou a pensar no que lera; no tanto nas bellezas, que, em todos os
generos, abundam nas ainda menos afamadas obras do grande romancista,
como na felicidade dos noivos; porque, nos ultimos capitulos dos seus
romances, raras vezes Walter-Scott deixa de os unir sacramentalmente.

 noite voltou Carlos a passar por casa de Cecilia. Havia luz na sala da
frente, luz que s se percebia por uma entreaberta das portas
interiores. Eram as horas do sero e do ch de Jos Fortunato.

Carlos saboreou um prazer indefinivel em observar aquella luz. Vo vendo
os leitores experientes se no  de inspirar receios o estado do Carlos.

Em casa evitava Jenny; receiava-se d'ella; Jenny, pela sua parte,
julgava prudente no provocar novas conferencias sobre o assumpto.

Se ella soubesse que j no era com estes meios brandos, que havia de
vencer!

No primeiro domingo, depois d'estas scenas, Carlos que, com toda a
diplomacia, soubera de Manoel Quentino ser a Cedofeita que elle e a
filha costumavam ir  missa, rompeu com os deveres de protestante e
aproximou-se da porta d'aquelle vetusto templo catholico, s horas a que
sabia dever terminar alli o officio divino.

Passeiava na alameda lateral com toda a resoluo de se fazer d'esta vez
notado.

Mas, ao sar a primeira gente da igreja, apoderou-se d'elle a costumada
timidez, e, j com receio de ser percebido, foi encostar-se ao porto de
ferro do cemiterio contiguo, por no ter tempo de ir mais longe.

Serviu o mal a inspirao;--mal e bem ao mesmo tempo; porque, ainda
n'aquelle momento, havia no espirito de Carlos o mesmo antagonismo de
aspiraes, que era, havia dias, o seu estado habitual.

Coincidia com o receio de ser visto a vontade de ser descoberto. No
pde haver logica na expresso, quando falta ao objecto que se exprime.

 certo porm que Manoel Quentino, sando da igreja com a filha,
encaminhou-se para o cemiterio.

N'aquelle cemiterio repousava a me de Cecilia, e raro era o domingo em
que Manoel Quentino, depois da missa, no ia orar alli, junto da
sepultura da esposa.

Quando Carlos percebeu a direco, que elles seguiam, era tarde para
retirar-se. Manoel Quentino j o tinha visto; Cecilia tambem.

O pae sorriu-lhe com familiaridade; Ceclia crou, ao corresponder ao
acanhado cumprimento de Carlos.

--Ento veio orar pelos mortos?--disse Manoel Quentino, com malicia.

Carlos encetou vagas explicaes da sua presena alli.

--Pois se veio orar pelos mortos, achou companhia--continuou o
velho;--que eu, infelizmente, tenho aqui por quem o faa. Ora deixe-me
ver se encontro o cveiro, para que nos abra a porta do cemiterio.

E, com este intento, dirigiu-se para a sacristia, deixando sem ceremonia
Carlos s na presena de Cecilia.

Precisarei de dizer que este inesperado e involuntario encontro enleiou
sobremaneira os dois? Falla-se muito dos embaraos de uma primeira
entrevista. No serei eu quem os negue; quer-me porm parecer que a
segunda  ainda mais difficil de sustentar, quando a primeira no foi de
todo insignificante.

O que  verdade  que a imaginao de Carlos no lhe suggeriu uma s
palavra que dissesse.

Nem sequer fallou no tempo! Cecilia no foi mais eloquente, fixou os
olhos na porta da igreja, por onde desapparecera o pae, e emmudeceu.

N'isto uma velha mendiga, d'estas que nunca faltam  porta das igrejas
ao findar a missa, aproximou-se d'elles, coxeando e gemendo.

--Meu rico senhor,--disse ella dolentemente a Carlos--tenha compaixo
d'esta velhinha, que j no o pde ganhar.

Carlos no lhe dava attenco.

A velha insistiu:

--Ora d, d, meu fidalgo; e que nosso Senhor o veja dar.

--No pde ser--disse distrahidamente Carlos.

A velha recorreu a Cecilia.

--Minha linda menina, pea-lhe que me d uma esmolinha, pea; e que
nosso Senhor os faa a ambos felizes, j que to bem os talhou um para o
outro.

Cecilia tentou sorrir, mas a confuso obrigou-a a baixar os olhos;
Carlos no menos confuso tambem com o equivoco da mendiga, tirou do
bolso uma moeda de prata e deu-lh'a, dizendo:

--Ahi tem; e v com Deus, mulher.

Mas a mendiga entendeu que no devia supprimir assim as competentes e
diffusas formulas da sua gratido.

--Ora nosso Senhor os faa muito felizes e os deixe viver muito tempo na
companhia um do outro, j que to bem os juntou! Coitadinhos! Eu hei de
rezar muito ao Senhor para que os abenoe e os tenha a ambos na sua
divina guarda. Adeus, meu senhor, adeus; adeus, minha senhora. Nosso
Senhor Jesus Christo os ha de sempre ver do co e dar-lhes a felicidade
que desejam. Ora coitadinhos!... Padre nosso, que estaes no co...

Carlos e Cecilia viram-a afastar-se e sorriram, sem olhar um para o
outro, e sem saber bem o que dissessem. Voltou Manoel Quentino e nenhum
lhe referiu o caso, que com certeza o faria rir.

Este silencio , no meu entender, de maxima significao.

Carlos acompanhou Manoel Quentino e Cecilia at  modesta campa, sobre a
qual um nome, uma data e muitas flores marcavam o logar, onde jazia a
que os dois ainda ento choravam com saudade. Ao chegarem alli, Cecilia
ajoelhou e recolheu-se por algum tempo em orao piedosa; Manoel
Quentino, de p, encostado  grade, orava tambem.

O contagio d'aquella commoo apoderava-se da alma de Carlos. No sabia
elle igualmente o que era ser orpho de me?

Duas almas, que receberam, ainda em plena infancia, a precoce provao
d'esta dolorosa experiencia, devem entrar mais rapidas em intelligencia
de affectos. Ha um lao invisivel a prendel-as j.

Quando no templo, ou junto de uma campa, uma se enleva na orao, a
piedade filial da outra adivinha todas as palavras d'aquella prece,
resente todas as angustias d'aquella dor.

Calado, triste, fitou Carlos os olhos na sympathica figura de mulher que
orava assim, e quasi se sentiu impellido a ajoelhar-se-lhe ao lado e a
orar tambem.

Ao erguer-se, encontrou Cecilia os olhos de Carlos, ainda fitos n'ella.
Havia tanta sincera compaixo, impressa n'aquelle olhar, tanta d'essa
sympathia, que desvanece hesitaes e inspira confiana, que, pela
primeira vez, Cecilia ousou olhal-o de face, dizendo-lhe com gesto de
gratido e commovida:

--Trouxemol-o a um triste logar, snr. Carlos. Perdoe-me se no poupei o
espectaculo, pouco de alegrar, das oraes de uma filha junto do tumulo
de sua me.

--Ha muitas especies de alegria, minha senhora--respondeu Carlos.--s
vezes os sentimentos melancolicos trazem comsigo algum prazer tambem, um
prazer suave, intimo, consolador. Agradeo-lhe ter-me proporcionado um
d'esses prazeres.

E calaram-se.

Manoel Quentino, findas as suas oraes, deu-se pressa em sar d'aquelle
logar, ao qual no era affeioado.

A dupla qualidade, doce e amarga, da saudade faz com que uns, para quem
a primeira predomina, gostem de renoval-a; e que outros, que pelo
contrario lhe sentem mais o travor do que a doura, se apressem a
fugir-lhe. Manoel Quentino era dos ultimos.

Carlos sau com elles do cemiterio. Cecilia caminhava adiante. Carlos,
com os olhos n'ella, entretinha com Manoel Quentino aturada conversa
sobre os mais diversos assumptos. O velho guarda-livros fallava da
agricultura, de emprezas de commercio, de politica patria, de
melhoramentos municipaes, parando muitas vezes, no meio da rua, para dar
mais forca s suas reflexes. Carlos escutava-o com paciencia e
docilidade, at ento sem exemplo, e pelas quaes o proprio Manoel
Quentino estava maravilhado.

s vezes, ao chegarem a uma travessa, que podia conduzir Carlos mais
directamente a casa, o guarda-livros dizia-lhe:

--Agora ento vae por aqui?

--No; eu acompanho-o mais algum tempo--respondia Carlos.

--No, mas veja l...

--No tem duvida; sigamos.

S muito prximo j da casa de Manoel Quentino  que este insistiu de
tal maneira com Carlos para que no fosse mais adiante, a no querer
fazer-me companhia ao jantar--acrescentava elle--que, a seu pezar,
Carlos condescendeu.

Despediu-se affectuosamente de Manoel Quentino e de Cecilia, com olhar
um pouco menos timido j do que os antecedentes, mas do qual ainda se
envergonharia qualquer galanteador dos menos arrojados. Ao dobrar a
esquina, que lhe devia roubar  vista o pae e a filha, ousou voltar-se
para olhar ainda.

Manoel Quentino desapparecia j do portal; Cecilia, que ficra um pouco
atraz, voltra-se... occasionalmente--julgo eu que occasionalmente--de
maneira que os seus olhares trocaram-se com os de Carlos.

Este facto, bem simples, foi durante todo o dia alimento para a
imaginao do rapaz.

No ha imaginaes que de menos se sustentem, do que a dos namorados.
D-se-lhe um facto insignificante, um sorriso, uma palavra, um olhar, e
ella saber extrahir de to pouco infinitas riquezas de alimentao...
espiritual. D'ahi em diante, o acaso...--no sei que fosse outra
cousa--fazia com que, todas as tardes, Cecilia estivesse  janella,
quando Carlos passava a cavallo, em direco aos arrabaldes; e de noite,
quando o snr. Fortunato principiava a notar que ia j tardando o ch,
havia sempre um momento, em que Cecilia resolvia ir ver como estava o
tempo, ficando alguns minutos por dentro dos vidros a contemplar o co.

Ora queria ainda o acaso...--continuando a suppr que era elle o motor
de tudo isto--que fosse exactamente n'essa occasio, que voltasse Carlos
dos arrabaldes, para onde de tarde passra. No lhe era possivel
desconhecer o perfil de Cecilia, assim apparente no fundo illuminado da
janella; por isso naturalmente a cortejava, e, como a luz de um lampeo
se reflectia n'aquelle momento sobre o cavalleiro, tambem Cecilia no
podia deixar de reconhecel-o, e por isso naturalmente lhe correspondia
ao cumprimento.

Successos d'esta importancia preencheram muitos dias mais. No
terminaria este capitulo, se fosse a registral-os todos. Amplie-o a
memoria dos leitores. Pde fazel-o, porque este capitulo  commum aos
romances de toda a gente.

No entretanto estranhava Jenny cada vez mais o irmo, e Manoel Quentino,
de seu lado, cada vez mais se preoccupava com as mudanas no genio de
Cecilia.

Carlos rompera completamente com os antigos habitos de vida.
Notava-se-lhe a falta nos cafs, no theatro, nas assembleias, nos grupos
dos amigos.

Passava horas e horas no quarto; s vezes, com a cabea pousada nas
mos, sem ler, sem escrever, sem fazer cousa alguma; outras, ouviam-o os
criados passeiar por muito tempo, fumando charuto aps charuto, e
enchendo de fumo a atmosphera em que respirava.

Saa, ora a p, ora a cavallo, mas quasi sempre os passeios eram para
fra da cidade. Affeiora-se subitamente  companhia de um velho
inglez, o typo mais massador d'esta colonia portuense, a ponto de ir s
vezes esperal-o ao escriptorio e acompanhal-o com paciencia admiravel
at casa--a qual ficava na direco da de Manoel Quentino.

Se alguma vez succedia ficar ao p de Jenny, esta admirava-se da mudana
de ideias, que se operra n'elle; se procurava mostrar-se jovial,
percebia-se-lhe o esforo para conseguil-o. Tudo isto dava muito que
pensar  irm.

Um dia, Jenny viu-o arremessar de si, com manifesto enfado, um livro que
estava lendo.

Olhou e reconheceu um volume das obras de Byron.

--Que  isso?!--perguntou Jenny, sorrindo--Que m vontade  essa hoje
contra o auctor que tanto aprecias?

--Impacienta-me s vezes este poeta lord, para te fallar sinceramente.
Ha tanta amargura e tanto sarcasmo em algumas d'estas paginas, que,
pouco a pouco, nos fazemos maus, depois de uma aturada leitura d'esses
admiraveis poemas.  sublime, mas  desconsolador. Leio-o com a cabea
atordoada, mas com o corao confrangido. Os instinctos da aguia so
mais altos e heroicos do que os das pombas; mas ns todos queremos as
pombas mais perto de casa e no nos consolaria tanto a vizinhana da
aguia, embora nos excite mais a curiosidade quando, uma ou outra vez, a
fitamos.

Jenny, em vez de sorrir a estas reflexes do irmo, to alheias ao seu
modo ordinario de pensar, fitou-o com maior seriedade e, depois de um
instante de silencio, disse-lhe:

--Olha para mim, Charles.--Carlos levantou os olhos para ella.--Dizes
isso do corao?

--Digo; por que m'o perguntas?

--Por desejar sabel-o.

E calou-se, abaixando de novo a cabea para a costura, em que
trabalhava.

De outra vez, aproximando-se da irm, que tambem estava trabalhando,
Carlos tirou-lhe da caixa da costura a Biblia, e, abrindo-a ao acaso,
leu algum tempo em silencio. Depois, pousando-a sobre a mesa, disse em
tom de gracejo:

--Sempre que recordo estes singelos costumes patriarchaes, descriptos no
_Genesis_, no posso deixar de pensar nos muitos esforos que o homem
parece ter feito para embaraar, cada vez mais, o caminho da sua
felicidade. V tu, Jenny, a simplicidade com que se fez todo este
casamento de Isaac e de Rebecca, e compara-a s mil impertinentes
difficuldades, que, sob o nome de conveniencias, hoje  preciso vencer,
para se realisar um intento similhante...

Jenny respondeu-lhe no mesmo tom:

--Que ests a dizer, Charles? Quererias tu devras ver renovados esses
costumes? Se, imitando Abraho, o pae mandasse um servo,  terra dos
seus avs, procurar mulher para o filho, aceital-a-hia este rebelde
Isaac, embora o servo tivesse, como o da Escriptura, pedido e recebido
antes de Deus a inspirao que lhe assistiu  escolha?

Carlos pz-se a rir. Passados momentos, respondeu:

--Mas pelo menos, n'esses tempos, os que j se mettiam a talhar o futuro
dos outros, inspiravam-se de boa origem; hoje... a affabilidade da
mulher que abaixasse o cantaro para matar a sde ao viandante e aos seus
camlos, no bastaria por certo para mostrar n'ella a escolhida por
Deus. O servo de hoje, antes de lhe pendurar os pendentes nas orelhas, e
de lhe enfiar os braceletes nos pulsos, quereria saber das posses e da
posio social da rapariga...

Este dialogo, no menos do que o primeiro, deu que entender a Jenny.

Pela sua parte, Cecilia no fornecia menos motivos  estranheza do pae.

Todos aquelles symptomas, que Manoel Quentino j antes descobrira
n'ella, haviam recrudescido agora.

Exagerra-se em Cecilia a especie de exaltao, frequente nas mulheres
nervosas, que faz to promptos n'ellas os risos como as lagrimas, sob a
influencia de motivos igualmente pueris. Um amanhecer chuvoso e sombrio,
uma flor desfolhada pelo vento, uma borboleta tolhida pela geada,
avultam como desgraas grandes; o dispersar das nuvens, os primeiros
rebentos de uma planta, a primeira andorinha que se v passar, a
primeira manh que o cantar das aves sauda, desafiam expanses, proprias
dos grandes jubilos.

Excita-se a impaciencia com uma palavra; vencem-se antigas averses com
um s olhar; um nada basta para destruir longos projectos; novas
resolues vigoram rapidas; acredita-se cegamente nas inspiraes do
momento; desconfia-se de resolues meditadas; em uma palavra, tudo
ento  mobilidade no caracter da mulher. Nunca ha menos logica nos
sentimentos, do que em situaes assim. O corao pulsa sem rithmo
regular, o rubor e a pallidez disputam incessantemente as faces
virginaes, trahindo mysteriosas luctas interiores.

Manoel Quentino, pouco versado n'estes phenomenos do corao, via-lhes
s as manifestaes, que eram bastantes para o inquietarem. Ninguem lhe
tirava da ideia que a filha estava para car doente, que a doena da me
se transmittiria a ella tambem. E com esta apprehenso o pobre homem era
quem adoecia devras.




XX


MANOEL QUENTINO PROCURA DISTRACES


O dia 1. de abril de 1855 cau ao domingo.

Mencionamos esta circumstancia, cuja exactido o leitor pde, se quizer,
verificar; porque no foi ella insignificante para os destinos das
differentes pessoas, entre as quaes vae travada a aco da historia que
escrevemos.

So estas cousas justamente as que to falliveis tornam as previses
humanas; do facto ligeiro e pco rebentam s vezes taes e tantos
successos estupendos, que no s revolucionam a sorte de um homem, mas
at a dos imperios.

Como a referida circumstancia no se realisaria, se no fossem os annos
bissextos, segue-se que, por tal facto, a sorte dos que figuram n'esta
narrao ficou ligada a no menos gradas; personagens do que Julio
Cesar e Gregorio XIII, que foram os que, em pocas successivas,
regularam n'este ponto o kalendario, tal como hoje est.

Feita esta reflexo de philosophia da historia, prosigamos.

Sendo domingo, jantou Manoel Quentino mais cdo, e, como visse de tarde
que a tristeza da filha se no dissipava, insistiu com esta para que no
ficasse em casa. Lembrou-lhe uma visita a Jenny. Cecilia acolheu o
alvitre com repugnancia visivel.

Um sentimento de delicadeza obstava-lhe a que procurasse a sua amiga
mais intima. Na mesma casa, em que ella vivia, vivia Carlos tambem, e eu
julgo que o leitor ter percebido, sem que eu lh'o tenha dito, que no
era j o filho de Mr. Whitestone uma pessoa indifferente para Cecilia.

Manoel Quentino instou porm com a filha para que sasse a tomar ar e
distrahir--dizia elle--e pediu isto de maneira, que Cecilia resolveu
fazer-lhe a vontade, indo visitar as filhas do major Mattos, que moravam
algumas casas acima da sua.

--Vae, vae;--disse Manoel Quentino--sempre te distrahirs mais com
ellas, do que ficando toda esta santa tarde commigo.

--E ento o pae ha de ficar s?

--Eu... eu estou bem assim...

--Isso  que no--replicou Cecilia--irei, se me promette que vae dar um
passeio tambem.

--Pois sim, sim. Tudo se ha de arranjar. L por isso no seja a duvida.

--Mas ento vista-se.

--Deixa-me descansar.

--Eu no saio, sem o ver sar.

Manoel Quentino foi obrigado a condescender. Estava intimamente
persuadido de que era vantajoso para a filha passar aquella tarde com
alguem, que a distrahisse; porque elle, nas tristes disposies de
espirito em que se sentia, no via bem como o fizesse.

Sau pois, para obrigar Cecilia a sar, e, ao mesmo tempo, ia em busca
de distraces tambem.

Era um excellente homem Manoel Quentino, mas dotado de pouca penetrao
para investigar o enigma da tristeza de uma rapariga de dezoito annos. O
seu excessivo amor de pae no o deixava ver claro n'isto. Tudo se lhe
figurava presagio de doena, e essa ideia fixa privava-o da necessaria
frieza, para ver claro n'estas cousas.

Cada manh, ao acordar, era um pensamento negro o primeiro que se lhe
apossava do espirito--Irei encontrar Cecilia com doena
declarada?--pensava elle.

Todas as tardes, ao voltar a casa, em vez de tremer com o anticipado
prazer de encontrar e abraar a filha, tremia com o susto de a vir achar
enferma.

Por mais que fizesse para tirar aquillo da ideia, no o podia conseguir.
Dormindo, inquietava-lhe os sonhos; comendo, vertia-lhe fel na comida;
trabalhando, distrahia-lhe a atteno do trabalho.

Os amigos do guarda-livros viam-o com olhos inquietos e murmuravam, uns
com os outros, na ausencia d'elle:

--Este pobre Manoel Quentino tem cousa que o rala.

--Est acabado, est.

--Se assim contina, bem pde o snr. Richard ir lanando, as vistas
sobre outro caixeiro, porque este...

N'esta tarde fez Manoel Quentino um esforo desesperado para sar
d'aquelle sobresalto, em que andava.

Mas o pensamento humano, quando devras tomado por uma ideia fixa, em
vo se esfora por arrancal-a de si; em vo se desvia para direces
diversas; um como pendor natural o faz voltar de novo a ella. Pde-se,
de alguma sorte, comparal-o a estes dados falsificados que, qualquer que
seja a maneira por que se arrojem  mesa, mostram sempre aos olhos a
mesma face, em virtude da desigual distribuio de massa na sua
espessura.--Os phenomenos de equilibrio moral parece obedecerem a leis,
comparaveis s do equilibrio physico.--A estabilidade do pensamento est
intimamente dependente da proporcional intensidade das ideias que sobre
elle actuam. Agitem um pensamento e deixem-o depois entregue a si, sem
novas causas a solicital-o; a ideia mais grave lhe determinar a posio
de equilibrio; para que esta se possa indifferentemente verificar em
qualquer sentido,  necessario que todas as ideias o solicitem com fora
igual--phenomeno s proprio dos espiritos fatuos.

Como vimos, Manoel Quentino no pensava por aquelle tempo seno na
tristeza da filha, tristeza por elle supposta preludio de doena, que
cdo a viria disputar ao seu amor. Durante toda a tarde no houve
corrente de pensamentos, suscitados pelos objectos que via, que a final
de contas no terminasse n'aquelle.

Sempre que Manoel Quentino emprehendia um passeio, com o fim de se
distrahir, no hesitava na escolha do itinerario. Desde tempos
immemoriaes adoptra um e nem lhe passava por o sentido modifical-o.
Deixava-se conduzir por o habito n'isto, como em tudo o mais.
Atravessava a cidade at  Ribeira; seguia depois, pela margem direita
do rio, at Campanh; chegando ao Esteiro, tomava pela estrada de cima,
que o levava ao jardim de S. Lazaro, e emfim recolhia-se a casa.

Foi o que fez n'aquella tarde. A cidade atravessou-a lidando ainda com o
pensamento de tristeza, com que sara de casa.

A primeira diverso operou-a s a vista do mercado de peixe, na Ribeira.

As lanchas valboeiras tinham, n'aquelle instante, chegado ao caes. As
regateiras, os compradores particulares e os pescadores que vendiam,
animavam o mercado com movimento e vozeria.

Este espectaculo, cheio de vida commercial, no achou indifferente
Manoel Quentino. Agradava-lhe aquelle trafego; examinava com olhos
conhecedores a excellencia do peixe, e informava-se curioso dos preos
que regulavam o mercado. Ao sar d'alli, ia pensando:

--No ha nada para arranjo domestico, como a pescada.  o peixe mais
innocente que ha. Com razo lhe chamam a gallnha do mar. Ahi est a
sardinha, que  gostosa; mas  mais doentia tambem. Que a sardinha de
Espinho ainda no tanto, mas esta da barra!... D'onde vir a
differena?... Pois no ser toda ella o mesmo peixe?... S se  da
praia aqui ser mais pedregosa e o peixe sar mais batido... Que esta
costa da Foz sempre  muito cheia de pedras!... S o perigo que correm
as embarcaes aqui!... Ainda no outro dia, aquella grande desgraa dos
oito pescadores que naufragaram!... Muita pena teve Cecilia, quando as
folhas contaram de um que deixou uma creancinha orph! Pobre Cecilia!...
tem um corao!... Coitada!...  um anjo... Assim que me lembro
d'aquella tristeza em que anda...

E ahi estava a ideia fixa com elle! Parece que ella propria fora a que
dispozera esta fileira de ideias associadas, para conduzir a si o
pensamento.

A impresso produzida pelo mercado desvanecera-se de todo; Manoel
Quentino proseguiu no passeio, j outra vez melancolico.

Mais adiante, tendo passado a ultima casa, que lhe tolhia a vista do rio
e a da margem opposta, volveu naturalmente os olhos para o vulto
escalvado e sombrio da Serra do Pilar, coroada pelo seu convento em
ruinas e a sua igreja circular. Os tristes vestigios das guerras civis
esto ainda n'aquelle logar muito evidentes, para que a lembrana
d'ellas no acuda subita ao espirito de quem quer que o contemple por
momentos.

Manoel Quentino, como quasi todos os portuenses da sua idade, havia sido
mais do que simples espectador das scenas tragicas d'essas memoraveis
pocas.

--Ha vinte e tantos annos--pensava elle--no havia, a estas horas, tanto
socego, por aquelles sitios, no. Nem tambem estes passeios pela beira
do rio eram tanto de appetecer como agora. Havia mais perigos, do que o
dos nevoeiros do Douro. A fallar a verdade sempre era um tempo
aquelle!... O que eu passei!... Parece-me que ainda foi o outro dia, e
j l vo vinte e tantos annos!... Oh! mas que alegria tambem, quando se
abriram as linhas!... N'esse tempo era ainda a me de Cecilia uma
creana. S quatro annos depois  que eu principiei a pensar n'ella...
Pobre rapariga!... Parece-me que ainda a estou a ver!... delgadinha,
desmaiada, boa para todos, mas trabalhadeira ao mesmo tempo...  por
isso que receio... Valha-me Deus! assim que me lembro da tristeza da
pequena!...

E da Serra do Pilar e do tempo do Cerco conseguira aquella ideia
dominante achar caminho para se lhe insinuar de novo no pensamento. E, o
que mais , parece que cada vez trazia comsigo maior cortejo de
sinistros presagios.

Ao chegar  fonte do Carvalhinho, subiu uns degraus de pedra que alli
ha, e beheu, mesmo do caneiro, alguns goles de agua; cousa que nunca se
esquecia de fazer, porque tinha f particular nas virtudes medicinaes
d'aquella excellente agua.

--Ah!--dizia elle outra vez distrahido--Consola beber uma agua assim!
Para aguas o Porto! Dizem que em Lisboa so ms as aguas! Pois  das
cousas mais precisas para a saude.  verdade que eu vejo por aqui tambem
muitas doenas, apesar das aguas boas. E sobretudo a gente nova est
sando to franzina e to fraca, que  uma cousa por maior! E o medo,
que eu tenho, quando reparo em Cecilia!  to delicada, to...

E ahi estava outra vez assombrado para grande espao de tempo.

Chegou  quinta chamada da China,--um dos passeios favoritos das classes
populares portuenses.

Desciam a rampa, que antecede o porto, alguns bandos de gente do povo,
rindo, cantando, em plena festa; iam em direco ao rio. As barqueiras
de Avintes aproximavam os barcos da margem para os receber; outras,
ainda a grande distancia, chamavam, com toda a fora d'aquelles pulmes
robustos, as pessoas que vinham por terra. Cruzavam-se os barcos,
movidos pelos vigorosos braos d'estas engraadas e joviaes remeiras, e
carregados com os frequentadores das diverses campestres do Areinho e
da pesca do savel. Tudo era riso e cantigas no rio.

Manoel Quentino via tudo isto, e escutava entretido o canto de uma
barqueira, que dizia:

  As riquezas d'este mundo
  Para mim no tem valor:
  Eu sou rica nos tens braos,
  Sou rica do teu amor.

E elle pz-se a pensar:

--Como esta pobre gente vive satisfeita n'esta vida trabalhosa do
rio!... Ao vento,  chuva, e sabe Deus o que tem em casa para comer! E 
um gosto como ellas cantam e riem!... Raparigas de quinze e dezeseis
annos consola vel-as j mover aquelles remos, que esfalfariam um homem,
como eu. No ha como estes ares e esta vida do campo, para fazer as
pessoas robustas. Se eu adivinhasse que Cecilia aproveitaria com
elles!...

E retomava o pensamento a posio de equilibrio estavel, de que por
instantes se desvira.

Chegou ao ponto da margem, chamado Rego Lameiro. Ahi opra o Douro uma
das suas subitas e surprendentes transformaes. Expiram as collinas
fronteiras de uma e outra margem, interrompidas por um valle
deliciosissimo, onde a vegetao  mais abundante, mais povoadas as
verduras, e onde se encorporam em riachos as aguas escoadas dos proximos
declives. Apreciam-se to raros intervallos, em que o Douro, o severo
Douro, sorri, como se aprecia um raio de alegria em rosto habitualmente
carregado.

N'este sitio alarga-se o leito das aguas, diminue portanto a fora da
corrente d'ellas, chegando, nas mars baixas, a permittir a formao de
pequenos ilhotes de areia, para onde vo brincar as creanas dos
pescadores. A tortuosidade das margens, furtando  vista o seguimento do
rio, d a este a completa apparencia de um pequeno, mas pittoresco lago.
Os olhos descobrem, de um lado, o extenso areal de Quebrantes, ao qual
succedem prados e leziras sempre verdes, veigas fertilissimas, arvoredos
espessos e, escondidas por o meio, as risonhas casas de algumas pequenas
povoaes campestres; adiante as quintas da Pedra Salgada, e atravs do
vo azulado da distancia, a aprazivel aldeia de Avintes; do outro lado o
palcio do Freixo com seus torrees e balaustradas e as quintas e
ribeiras de Valbom e Campanh. E se  ao fim do dia, quando o sol doura
todo o quadro, reflectindo-se afogueado nas vidraas voltadas ao
occidente, e a virao da tarde enfua as velas brancas das pequenas
embarcaes do logar, e o co  azul e as aguas limpidas, a paizagem
compensa bem os privados de gosar as bellezas mais celebradas por
viajantes e poetas, as analogas das quaes s a nossa cegueira nos no
deixa s vezes ver a dois passos da porta.

Era aqui que Manoel Quentino se sentava sempre durante alguns minutos,
sobre uma pedra solta da margem.

--Como isto  bonito!--pensava elle-- que nem ha outro passeio assim,
nos arredores do Porto. E a tarde ento est to serena e socegada, que
at se percebe d'aqui tudo o que se diz no Areinho. Se eu tivesse
dinheiro, era onde comprava uma quinta. Chegando aos sabbados, saa do
escriptorio e mettia-me n'um barco... ou a p mesmo... A final  um
passeio...  verdade que se viesse Cecilia, sempre era longe. Ainda que
ella no se cansa... No se cansa?... no se cansava... agora...

E a ideia negra, aquella pertinaz ideia negra, a tomar outra vez posse
de Manoel Quentino! e, com o ir adiantando-se a tarde, parecia cada vez
mais negra, como se as sombras crescessem para ella tambem!

D'ahi em diante, no se modificou o processo das cogitaes do velho.
Uma fabrica de cortumes, umas creanas, a quem deu esmola, uns armazens,
tudo quanto viu, aps varias oscillaes do pensamento, faziam car
Manoel Quentino na preoccupaco anterior.

De maneira que o passeio, aquelle passeio que o devia distrahir, antes
lhe exacerbou o mal, que o atribulava.

Subia elle j a ngreme costeira, que leva do Esteiro de Campanh at o
sitio do Padro. A tarde arrefecera subitamente. Ou fosse o resultado
d'aquelle contnuo pensar em cousas tristes ou influencias de outras
causas,  certo que Manoel Quentino principiou a no se sentir bom.
Pesava-lhe a cabea, como ourada; dobravam-se-lhe os joelhos de
fraqueza; sentia um geral quebrantamento no corpo, que lhe dificultava
j o regresso a casa; e depois a melancolia a condensar-se-lhe no
corao, que parecia que lh'o estava a apertar com mo de ferro.

Quasi se arrastava por aquella custosa estrada acima desalentado e
melancolico.

Chegando a uma das vendas, onde, aos domingos de primavera e estio,
costumam celebrar festivas merendas alguns joviaes habitantes da cidade,
chegaram-lhe aos ouvidos cantos e risadas, que, no atordoamento em que
ia, o incommodavam; pareceu-lhe ouvir pronunciar o seu nome, no meio
d'aquella vozeria; mas j no podia dispor da atteno para escutar o
que diziam. Continuou caminhando.

De repente, appareceu  porta um dos da companhia a chamal-o.

Manoel Quentino voltou-se lentamente para elle, sem dizer palavra.

--Ento d'onde vem, snr. Manoel Quentino?

--D'ahi de baixo--respondeu, com voz fraca.

--E no encontrou ninguem conhecido pelo caminho?

--Eu, no.

--Pois ainda agora o procuraram aqui.

--A mim?!

--Sim; ento no sabe o que ha?--disse o sujeito, que lhe fallava com
certos modos de importancia e cuidado.

O corao de Manoel Quentino principiou a bater desordenado.

--Eu no...

--Pois vieram, ha poucos minutos, procural-o aqui, para que fosse, j,
j, a casa, porque...

--Porque?...--interrogou Manoel Quentino, passando-lhe um calefrio por
todo o corpo e seccando-se-lhe subitamente a bca, como em accesso de
febre.

--Porque... pelos modos... sua filha... estava bastante doente...
Disseram que o tinham antes ido procurar ao escriptorio... mas...

Manoel Quentino j no escutava; encontrando foras no seu amor,
sobresaltado assim, quasi deitou a correr por o mesmo caminho, pelo qual
com dificuldade se arrastra at alli.

O que lhe dera o aviso pz-se a rir, ao vel-o partir com tal pressa.

--Venham ver, venham c ver!--dizia elle para os companheiros.

Um d'elles chegou  porta.

--Pobre homem! Chama-o. Olha que isso pde fazer-lhe mal.

-- Manoel Quentino! Psiu! Olhe que  hoje o l.de abril, homem! Manoel
Quentino!

Mas o pobre velho nem o ouviu; cada vez corria mais.

Estes homens tinham celebrado o 1. de abril--este dia que, no sei por
qu, o uso popular consagra a reciprocas mystificaes--ferindo no mais
doloroso o corao de um pae! E ainda poderam rir!

Louvado seja Deus! Ha gente assim graciosa no mundo!

--Vo l agora segural-o,--disse o mystificador--deixa-o, maior alegria
o espera ao chegar a casa.

E voltou a divertir-se.

No entretanto Manoel Quentino proseguia n'aquella marcha rapida,
desordenada, como se desejasse fazer desapparecer de subito a distancia,
que inda o separava da filha, e ia murmurando:

--Cecilia... pobre filha!...  nossa Senhora!... que desgraa! que
desgraa! para que sa eu?... No pde ser... Mas para me virem assim
chamar... Quem sabe se... Grande perigo! grande perigo, por certo!
Virgem Santa! E este caminho  to longo!... E ella morta talvez por me
ver chegar...  filha, filha...

E as lagrimas caam-lhe em fio pelas faces.

O atordoamento de cabea augmentava; a energia muscular, que a nova
recebida momentaneamente lhe dera, cedia de novo logar ao mesmo
desfallecer, que, antes, lhe vergava os membros. O pobre velho
aterrava-se ao perceber isto.

--Oh! dae-me forcas, Senhor, dae-me foras para chegar depressa! Por
misericordia!--dizia elle, tremendo--A minha pobre filha!...

E os ouvidos zuniam-lhe cada vez mais; diante dos olhos, passavam-lhe,
de quando em quando, faiscas, manchas avermelhadas, nuvens de sangue;
ouvia o bater das fontes e das carotidas; furtava-se-lhe o cho debaixo
dos ps; andava e no se sentia andar; j no tinha poder de regular os
movimentos, que se succediam sem a coordenao regular.

Uns homens, que passaram por elle, pararam a examinal-o, e Manoel
Quentino ouviu-lhes ainda dizer:

--Olha como vae aquella alminha! ha de custar-lhe a dar com a porta de
casa.

Estas palavras affligiram ainda mais este pobre pae, j to afflicto.
Tinha chegado  capellinha do Padro.

--Que angustias, meu Deus! Valei-me, nossa Senhora!--murmurou elle.

Encostou-se algum tempo s grades da porta, porque j no podia andar.

Fez uma orao fervente, d'estas oraes que, se no abrirem de prompto
caminho at o throno de Deus,  porque para sempre se fecharam j as
portas do co a todas as preces da humanidade. Mais sentida, mais do
corao, do que aquella,  que se no fazem no mundo.

Pareceu ganhar vigor por um pouco. Proseguiu, mas com o andar mais tardo
e vacillante. Cdo porm voltaram as ameaas do mal. Um entranhado
terror apoderou-se-lhe do corao, uma como mysteriosa consciencia de
proximo perigo.

As luzes da illuminao publica appareciam-lhe coloridas de vermelho. A
perturbao de vista augmentou; tudo girava em volta d'elle; os objectos
tornavam-se-lhe indistinctos, afigurava-se-lhe que o terreno descia de
repente, e em uma descida to rapida, que elle teve de parar para no
car. Encostou-se  ombreira de uma porta.

Ouviu a voz de alguem, que j nem viu, dizer-lhe:

--O senhor no est bom? Entre para descansar.

--No--disse elle com certo desabrimento, como se aquelle conselho lhe
desvanecesse cruelmente a illuso, que fazia por conservar ainda.

E de novo tentou caminhar.

Estava proximo do cemiterio publico, chamado do Repouso; deu mais alguns
passos.

Os mesmos symptomas atacaram-o de novo e com maior violencia; a vertigem
foi completa; o cho pareceu faltar-lhe.

O bom do homem ainda pde murmurar:

--Senhor!... Senhor!... por piedade!... pois hei de morrer aqui, sem ver
minha filha?!...

E cau sobre um dos bancos de pedra da alameda que est em frente do
cemiterio.




XXI


O QUE VALE UMA RESOLUO


Cecilia, pensando que o pae no prolongaria demasiado o passeio, voltou
a casa ainda com dia.

Anoiteceu, porm, sem que Manoel Quentino apparecesse.

Tudo era sombras na rua: para o lado do mar coloria-se o co do rubor
inflammado do crepusculo... e ninguem!

O corao de Cecilia principiou a ennevoar-se de vagos receios, que ella
at fugia de definir.

Mas estas nevoas foram-se condensando em cerrao,  medida que descia a
noite, e Manoel Quentino sem apparecer! A imaginao de Cecilia comeava
j a lembrar-lhe mil escuras explicaes d'aquella extraordinaria
demora.

A boa rapariga no podia socegar.

Vinha  janella com esperanas de avistar o pae no principio da rua, e
retirava-se para dentro outra vez, pezarosa e assustada porque o no
via.

Fallava a Antonia, desejando ouvir d'ella alguma supposico, que a
tranquillisasse; mas a criada, tambem assustada com a demora do amo,
longe de a animar, aterrava-a com as suggestes da sua fertil
imaginativa.

--Olhem agora!--dizia ella--No que uma demora assim! Eu nunca vi!...
Quem sabe l? No lhe fosse por ahi acontecer alguma!...

--O que lhe havia de acontecer, mulher? Voc tambem!--disse Cecilia,
tranzida de susto com esta vaga insinuao da criada.

--O que lhe havia de acontecer?--proseguiu esta--Ellas em qualquer parte
se armam. At na cama se quebra uma perna. Veja aquelle velho, que
passava d'antes todos os dias por aqui para a alfandega. Ento no
escorregou um dia no degrausito da porta, que no tinha mais do que
isto--e indicava uma mo travessa;--cau, e de tal maneira, que no fim
de oito dias estava enterrado.

Cecilia empallidecia s de ouvir estas palavras.

--Mas, se tivesse succedido alguma cousa, tinha j mandado dizer.

--Conforme, menina... s vezes acontecem os males em sitios, onde
ninguem conhece uma pessoa, e se se no pde fallar... Ahi est que...

--Havia logo de succeder tudo mal. Nem que o pae fosse para algum serto
de selvagens. Voc tem cousas!

--Pois sim, mas o que  certo  que se a demora fosse natural, elle 
que j tinha mandado aviso. Pois ento no havia de saber a canceira e
susto que causava  menina?

Cecilia afastou-se, impaciente, d'esta Cassandra de cozinha, e voltou 
janella.

Estavam j accesos os lampees da rua. As sombras da noite parecia
estenderem-se ao corao de Cecilia.

--A menina quer que traga luz?--perguntou a criada, entrando na sala.

Esta pergunta, obrigando-a a notar o adiantado da hora, soou
funebremente aos ouvidos de Cecilia.

--No--disse ella, com voz alterada.--Luz, to cdo!

--Cdo?! Onde vo as sete, menina! Est de ver que no vem.

--Que no vem! Que no vem! Voc est douda, mulher? Pois no ha de
vir?--exclamou, com dobrada impaciencia e quasi com raiva, Cecilia,
debruando-se mais na janella.

--A menina no faz nada em o esperar assim. L por estar ahi no  que
elle vem mais depressa--ponderou tolamente a snr. Antonia.

--No lhe importe; deixe-me--disse-lhe sccamente Cecilia.

--Uma cousa assim!--proseguiu a criada--No que quando a gente mal se
precata! Se uma pessoa muito socegada de sua casa e s Deus sabe para
qu! Para onde iria tambem aquella creaturinha do Senhor? Quem pde l
dizer o que lhe succedeu? Sume-te! Eu lembro-me de que um dia meu pae...

--V buscar luz, v--ordenou Cecilia, para escapar ao caso, que Antonia
apparelhava, com o piedoso intento de tirar d'elle talvez uma induco
pouco de tranquillisar.

Antonia sau.

Cecilia, de assustada que estava, j no sabia o que fizesse.

Qualquer vulto, que assomava ao principio da rua, lhe parecia o pae;
seguia-o com anciosa curiosidade, cdo transformava-se em desalento esta
curiosidade, porque o via passar indifferente para alm da porta da
casa.

Andavam j bem perto dos olhos as lagrimas em Cecilia, quando Anlonia
voltou com a luz.

--Ento, ainda nada?--perguntou a criada.

Cecilia no lhe respondeu.

--Quer que feche as janellas?

--No.

--No tem que ver; a cousa no  natural. O pae  amigo de recolher-se
cdo e no era homem que no mandasse recado, no caso de, de todo em
todo, no poder vir. Ninguem me tira d'isto. Aquillo foi cousa que lhe
succedeu por l.

O relogio deu meia hora depois das sete.

--J sete e meia! Sempre  demais!  menina, eu vou extrahir o ch, no
acha?

--No; cale-se para ahi. Quero l saber de ch. Bem me importa a mim o
ch. Voc perdeu o juizo?

-- que o snr. Jos Forrunato no tarda por ahi...

--Pois se vier, veio. No tenho mais em que pensar, seno no snr. Jos
Fortunato! Deixe-me, deixe-me.

Antonia era d'estas pessoas, a quem as maiores inquietaes no fazem
perder a ideia das suas obrigaes habituaes. Emquanto o espirito se
perturba e a bca lhe traduz os pensamentos, as mos, independentes da
imaginao, proseguem na tarefa do costume.

Cecilia no; caracter apaixonado, era toda da ideia que a possuia. A
irresoluo, que devia quelle estado de anciosa duvida, para tudo a
inhabilitava.

Em nada consentia que lhe fallassem n'aquelle momento, nada queria
escutar, de nada queria saber.

Anciada, nervosa, impaciente, febril, passava de uma para outra janella,
voltava ao interior da sala, chegava ao patamar, e corria  janella
outra vez.

Em uma d'estas occasies ouviu duas mulheres, que passavam na rua,
dizerem:

--Uma desgraa assim! Foram todos; uns morreram, outros ficaram
aleijados para toda a vida.

O corao de Cecilia bateu com violencia ao ouvir aquillo. No pde
reprimir-se, que no perguntasse s mulheres de que desgraa fallavam.

E tremia de ouvir a resposta. Disseram-lhe que era de uma saibreira, que
desabra na vespera sobre uns trabalhadores. Respirou!

De outra vez, era um homem que viera a correr desde o principio da rua e
parra defronte da casa, irresoluto, como quem procurava reconhecer uma
de entre aquellas diversas moradas. Cecilia queria perguntar-lhe quem
elle procurava, mas quasi no tinha voz para o fazer, tal era o intenso
terror, que se apossou d'ella, ao ver este homem.

Parecia-lhe impossivel que no fosse algum mensageiro de desgraas.

A final conseguiu fallar-lhe. O homem procurava um vizinho.

Cecilia guiou-o, ainda mal restabelecida do susto que sentira.

Tendo voltado  sala ouviu tocar a campainha do portal.

Estremeceu alvoroada de esperanas e de temores.

--Ser elle?

N'este tempo j Antonia vinha no corredor e com fleugma inalteravel
atalhou:

-- o snr. Jos Fortunato; so as horas.

Cecilia voltou as costas despeitada e triste. Sentiu no corao uma
quasi m vontade contra o nocturno visitador.

Era de facto o snr. Jos Fortunato que chegava.

--Muito boa noite, menina; passou bem?--disse Jos Fortunato, ao entrar
para a sala.

--Muito afflicta, snr. Jos Fortunato, muito afflicta, no faz
ideia!--respondeu Cecilia.

--Sim?!--tornou o outro, pousando os varios artigos do seu complicado
vestuario, guarda-chuva, capote, _cache-nez_, luvas, chapo, a caixa do
tabaco, e tomando assento no logar do costume.

--Pois no quer saber?--continuou Cecilia--meu pae sau esta tarde, a
dar um passeio, e so as horas que v, e no voltou ainda a casa!

--Na verdade, ...  celebre! Succeder-lhe-hia alguma cousa?

Pergunta suficientemente tola.

Jos Fortunato rivalisava com Antonia, na maneira de intervir na
presente crise; as suas palavras, longe de serem tranquillisadoras,
tinham por effeito exacerbar a inquietao e o susto.

Cecilia sentiu esse effeito, porque chegou logo  janella, com maior
anciedade ainda, dizendo a tremer:

--Que lhe havia de succeder?...

--O snr. Manoel Quentino--continuava Jos Fortunato, placidamente
sentado  mesa--havia j alguns dias que andava assim no sei como. Eu
disse-lhe ainda antes de hontem:--Homem,  preciso olhar por isso,
antes que v a mais; consulte alguem.--Mas elle, no, senhor; _tinha_
l aquelle genio.

A escolha do tempo para o verbo era para fazer redobrar os terrores de
Cecilia. _Tinha_! Este bom homem de Jos Fortunato era d'estas cousas;
dir-se-hia que, para elle, Manoel Quentino j no podia merecer as
honras do presente de um verbo! No contente com isto principiou:

--Estas mudanas de tempo no so nada boas, sobre tudo em certas
idades. Tem havido por ahi muitas molestias repentinas. Ahi est que
aquelle Gamba, que era empregado na camara, teve hontem um ataque de
apoplexia e foi-se, enquanto o diabo esfrega um olho.

--Jesus! snr. Fortunato; por quem , no falle n'essas cousas!--exclamou
Cecilia angustiada--Se tivesse succedido alguma desgraa a meu pae, no
havia j de ter vindo alguem dizel-o aqui? Aquillo  que se demorou...

--Pois eu no digo, menina, que... mas s vezes; olhe que a gente para
adoecer basta estar vivo e depois um desastre... Ahi est que tambem o
pae tinha um outro mau costume, de que eu tambem o avisei muitas vezes;
ia sempre quelles vapores inglezes, quando elles entravam, e, apesar de
ser homem pesado, porque j no  creana, usava n'sso de muito pouca
cautela, e, s vezes, na atracao... Olhe que  uma cousa perigosa!
Para quem no sabe nadar...

As palavras de Jos Fortunato soavam aos ouvidos de Cecilia, como um
dobre a finados.

--Snr. Jos Fortunato!--disse ella, quasi erguendo as mos--No v que
com essas palavras me mata? Demais, meu pae no tinha hoje de ir a bordo
de vapor algum. Hoje ao domingo! Estou a dizer-lhe que foi passeiar.

--Socegue, menina. Eu espero tambem que no tenha succedido nenhuma
desgraa. Isto era um modo de fallar. Deus  bom e sabe a falta que o
snr. Manoel Quentino c fazia ainda. Nem quero que me lembre similhante
desgraa! Credo! Santissima Trindade! Ainda se elle fosse homem, que
tivesse regulado os seus negocios; mas parece-me que no fez ainda
disposies. Eu bem sei que tudo quanto elle tem  da menina, mas ainda
assim, havia ahi uns dinheiros mal parados... e... e... sempre  bom
olhar por essas cousas...

Cecilia no pde reter o pranto, que lhe acudiu aos olhos a estas
lugubres consideraes do seu interlocutor.

--Ento no se afflija--dizia este, no mesmo tom de voz.--Que fazemos
ns em nos estarmos a affligir? no fazemos nada; por isso... E demais,
se fosse vontade de Deus que alguma desgraa acontecesse, a menina no
ficaria desamparada; tem amigos e protectores... Perdia um bom pae, isso
perdia; mas.

-- snr. Jos Fortunato, pelas almas, no me falle assim! Isso 
crueldade.

--Eu no digo isto para a affligir. Socegue. Mas n'estas cousas  bom
suppr o peior.

E, ainda que nas melhores intenes, continuou o snr. Jos Fortunato
n'este homoeopathico systema de conforto.

A agitao de Cecilia augmentava.

--Antonia!--bradou ella, vendo passar a criada no corredor--Tenha
paciencia; eu no posso socegar. Esta incerteza mata-me, v, v voc ao
escriptorio, v por ahi, v saber... v procurar... O snr. Jos
Fortunato est agora aqui e... V. v.

-- menina! no v que  noite fechada?! Uma mulher s por essa cidade
abaixo, feita uma Maria tola!

-- creatura, ento que tem?

--Ora essa? Ento que tem?!

--No  bonito, no--concordou Jos Fortunato, tomando posio mais
commoda.

Cecilia no lhe deu resposta, correu de novo  janella.

A rua estava deserta.

--Olhe se lhe faz mal esse ar--dizia Jos Fortunato.--A menina parece
que est j um pouco tomada da garganta.  preciso cautela; estas
constipaes despresadas... Seria bom beber alguma bebida quente.

Ah! snr. Jos Fortunato, snr. Jos Fortunato! ahi anda j um pouco de
egoismo; a hora do ch vae passando.  barro humano!

--No sei bem o que tem mo em mim, que no vou eu mesma!--exclamou
Cecilia ao voltar da janella--E se isto contina assim, no respondo por
o que farei. Oh! No ser eu rapaz!

Jos Fortunato no comprehendeu qual era o seu dever n'esta occasio.
Foi defeito de percepo e no de vontade.

A intelligencia era-lhe ronceira e as boas lembranas acudiam-lhe, mas
tarde; quando j no era tempo de realisal-as. Foi por isso que s teve
a dizer:

--Pois olhem o milagre! Se a menina fosse rapaz!... Mas desengane-se,
snr. D. Cecilia, se tiver succedido alguma desgraa ao pae, mais
minuto, menos minuto, ella ha de saber-se.

--Agradecida, pela consolao!--no pde deixar de dizer Cecilia, com
manifesto mau humor.

--De uma vez tinha eu ido a um magusto, ahi para os lados da Cruz da
Regateira, e ao voltar...

L parecia ao snr. Jos Fortunato aquella occasio apropriadissima para
contar um caso.

Antonia dispunha-se para ouvil-o.

Cecilia fez um movimento de impaciencia e voltou para a janella.

No momento, em que chegou alli, avizinhava-se vindo da extremidade da
rua, opposta aquella d'onde ella esperava o pae, um homem a cavallo.

Era Carlos; voltava do costumado passeio extra-urbano.

Cecilia reconheceu-o, e acudiu-lhe uma lembrana.

Emquanto o cavalleiro vencia a distancia que o separava ainda de casa,
Cecilia voltou-se para dentro, dizendo:

--Ento no querem ir saber de meu pae, no?

O emprego do verbo no plural foi um empuxo dado  prra intelligencia
do snr. Jos Fortunato, o qual, pela primeira vez, se lembrou de que
podiam ser de algum prestimo os seus servios.

-- menina! mas no v que  noite fechada?--disse Antonia, como, havia
pouco tempo, dissera j.

O snr. Fortunato estava ainda elaborando mentalmente a descoberta que
fizera. Cecilia no esperou pelo resultado de tal elaborao.

Carlos Whitestone estava por baixo das janellas d'ella, e cortejava-a.

Cecilia no hesitou.

--Snr. Carlos--disse com a voz tremula de sobresalto.

Carlos, surprendido por se ouvir chamar assim, aproximou logo o cavallo
da janella.

--Minha senhora?

--Perde-me, por quem , isto que fao;--continuou Cecilia--mas desde o
principio da tarde que meu pae saiu e ainda no voltou a casa, nem
d'elle tenho noticia! Imagine o meu susto! Sabe por acaso, se...

--E para onde foi elle, quando saiu?

--Disse-me que ia passeiar... mas...

--E no voltou!--atalhou Carlos, estranhando tambem aquella excepcional
demora.

--Que lhe ter succedido, meu Deus?!--exclamou Cecilia, recebendo a
communicao da surpreza de Carlos e transformando-a logo no mais
apprehensivo terror.

As resolues em Carlos eram to promptas, como morosas em Jos
Fortunato.

--Socegue, minha senhora. Eu vou j saber d'isso e conte que, dentro em
pouco, lhe trarei aqui seu pae.

--Oh! muito agradecida, snr. Carlos, muito agradecida!--disse Cecilia,
com a voz repassada de gratido.

Carlos cortejou-a de novo e partiu a galope.

Ao vel-o partir, a consolao de uma esperana entrou pela primeira vez
no corao de Cecilia.

Carlos era para ella um d'estes homens, que, se um dia tentam o
impossivel, conseguem-o.

Ao voltar-se, achou Cecilia, a dois passos de si, Antonia e o snr. Jos
Fortunato, que olhavam com physionomias estupidamente pasmadas.

--Que foi fazer, menina?!--disseram elles quasi ao mesmo tempo.

--Aquillo a que me obrigaram. Se podesse, ia eu. Ha muito que no
estaria aqui j, cansando inutilmente o espirito a procurar explicaes
e s a encontral-as assustadoras; se tivesse mais alguem a quem
recorrer, no iria incommodar uma pessoa, a quem...

--Mas, n'esse caso, porque me no disse? ento no estava eu
aqui?---perguntou Jos Fortunato, com a maior candura d'este mundo.

Cecilia fitou-o com olhar de raiva e nem lhe pde responder.

--A fallar a verdade--disse Antonia--no sei o que parece! Pois a menina
vae assim, sem mais nem menos, fallar da janella para baixo, com aquelle
senhor?...

--Se a vizinhana por ahi visse...--acrescentava o outro, espreitando
para verificar se a sobredita vizinhana teria de facto visto--E ento
quem? Um cabea no ar... o filho...

--Basta!--exclamou Cecilia, no podendo j reprimir-se mais tempo--Era
escusado isto, era, se outras pessoas tivessem tido j a lembrana e a
caridade de o fazer. Ha uma hora que me vem n'esta afflico e s sabem
dar-me consolaes, que fariam rir a quem no tivesse no corao esta
agonia que eu tenho. Agora ento veem com os reparos da vizinhana; a
vizinhana no me tira uma s das canceiras com que estou, para que eu
me deva importar com ella.

Jos Fortunato estava deveras condodo por se no ter lembrado a tempo
dos seus deveres. Era sestro do homem.

-- snr. Antonia, faz favor de me vir alumiar--dizia elle, procurando
j munir-se dos seus numerosos petrechos de campanha.

--Onde vae? onde  que vae?--perguntou Cecilia--J agora o que est
feito, est feito. Quando o snr. Fortunato fosse ao fim da rua, j o
snr. Whitestone teria corrido a cidade toda.  melhor ficar.

Jos Fortunato ficou.

Tambem era qualidade sua esta pouca tenacidade, com que pugnava pelas
resolues tomadas.

No entretanto Carlos voava por toda a cidade, que, em pouco tempo,
atravessou de norte a sul.

Por milagre no atropellou ninguem. Muitos dos que escaparam quella
carreira impetuosa, quella velocidade, comparavel  do acrolitho,
ficavam a murmurar phrases, mais ou menos impacientes, contra o
imprudente cavalleiro.

Chegou, no fim de alguns minutos, ao escriptorio da rua dos Inglezes.

O silencio d'aquelle logar, a essas horas, formava perfeito contraste
com a animao que alli reinava nas manhs dos dias de semana.

Carlos fez estremecer a casa com as rijas pancadas que descarregou na
porta.

Alguns vizinhos chegaram  janella.

O criado do escriptorio correu a receber as ordens do seu patro mais
novo.

Carlos, mesmo a cavallo, perguntou-lhe se tinha visto Manoel Quentino
n'aquella tarde.

Disse-lhe o criado que o vira atravessar o mercado do peixe, em direco
a Campanh; que, sendo esse o seu passeio predilecto, era provavel
que...

Carlos no ouviu o resto, partiu a galope outra vez, na direco
indicada.

--Sume-te!--disse o criado comsigo--Parece que leva diabo no corpo.

Com igual rapidez seguiu Carlos toda a margem direita do rio, horas
antes trilhada por Manoel Quentino. Era preciso ser excedente
cavalleiro, para se no esbarrar por um caminho d'aquelles, a taes horas
da noite e com tal impetuosidade de carreira.

Carlos dirigiu-se ao armazem de vinhos, que a casa Whitestone possua em
Campanh. Nas vizinhanas morava o mestre tanoeiro, que acudiu a saber
quem era e o que pretendia o nocturno cavalleiro, que ameaava rebentar
as dobradias das grossas portas de castanho do armazem.

Vendo Carlos, ficou espantado. Carlos perguntou-lhe por Manoel Quentino.

O homem respondeu que, ao cerrar da tarde, o vira subir a estrada do
Padro, e que devia ter j voltado a casa havia muito tempo.

Carlos proseguiu a sua corrida, deixando to estupefacto este, como
deixra o criado do escriptorio.

Na estrada passou por um grupo de sujeitos, que regressavam, cantando,
do bom retiro campestre, onde,  mesa e  sombra da ramada, haviam
passado a tarde inteira.

Carlos conheceu-os. Eram alguns dos mais folgazos membros da classe
commercial, pela maior parte conhecidos de Manoel Quentino.

Ia a passar-lhes adiante, quando se lembrou de informar-se com elles
tambem a respeito do velho.

Responderam-lhe rindo e contaram-lhe da mystificaco, que o leitor sabe
j, porque eram estes os mesmos que ns j encontramos. Os homens riam
ainda, ao lembrarem-se da pressa com que Manoel Quentino galgra a
costeira de Campanh.

--Que estupida graa!--disse Carlos, preparando-se para seguir o
caminho.

--Ora essa!--respondeu um do bando--At ser uma alegria para o velho,
quando chegar a casa e vir que...

--Se no tiver morrido antes pelo caminho--atalhou Carlos; e, picando o
cavallo, partiu a galope.

--O homem vae doudo--disse um.

--Esbarra-se!--acrescentou outro.

-- um inglez de menos. Que o leve o diabo.

E continuaram a cantar e a rir.

Carlos chegou em um momento  capella do Padro.

D'ahi seguiu, a trote mais moderado, pela estrada, informando-se aqui e
alm a respeito de Manoel Quentino. Poucos indicios colheu, at que por
acaso interrogou a mulher,  ombreira de cuja porta o velho
guarda-livros se encostra.

Esta deu-lhe assustadoras informaes do estado em que o viu, e agourou
mal do destino do homem.

Verdadeiramente inquieto, proseguiu Carlos nas suas pesquizas, at
chegar  alameda do Repouso.

Em um dos bancos de pedra pareceu-lhe distinguir o vulto escuro de um
homem. Aproximou-se.

Com sentimento de verdadeira alegria, reconheceu Manoel Quentino.

Cdo porm succedeu o susto a esta primeira impresso.

O velho estava immovel e com as feies transtornadas, como se fora
cadaver j.

Carlos segurou-lhe o brao, que sacudiu com violencia.

--Manoel Quentino! Manoel Quentino--bradava elle.

Respondeu-lhe um som rouco e inarticulado.

Carlos chamou-o mais alto outra vez.

quella voz conhecida, Manoel Quentino abriu lentamente os olhos e fixou
em Carlos a vista esgazeada.

--Que  isto, Manoel Quentino? Que faz aqui? Que tem? Diga: que lhe
succedeu?

Depois de alguns esforos, o velho conseguiu exprimir uma resposta
desordenada.

--Eu... eu vinha... no sei o que senti em mim... Quando me disseram
da... doena de Cecilia... quiz correr... e... e faltou-me a vista...
e... Eu j no estava bom... O frio... julgo que foi o frio... Por mais
que quiz ver se me movia... Agora mesmo.

--Socegue. Sua filha est boa e s com muito cuidado pela sua demora.
Veja se pde erguer-se.

--Mas... alli... em baixo... disseram-me...

--Foi uma estupida graa de uns senhores, que, avaliando a delicadeza
dos sentimentos dos outros por a dos seus, julgaram dever solemnisar o
1 de abril d'aquella maneira cruel.

--Deus lhes perde, se assim foi...

--Foi; disseram-m'o elles mesmos. Ande, venha. No faa maiores
inquietaes em casa, do que as que j vo por l.

--Pobre filha!... Eu vou... mas no sei se...

Manoel Quentino tentou levantar-se, porm vacillaram-lhe os passos e
cau sentado outra vez.

Carlos estava irresoluto; no sabia o partido que tomasse.

--Ento, Manoel Quentino, veja se ganha foras. Experimente se pde
montar a cavallo.

Novo esforo do velho, succedido de igual resultado.

O embarao de Carlos augmentava.

Pensava j em o levar na garupa, quando passou na estrada uma sege de
aluguer, que voltava para a cidade. O boleeiro deixava ir os cavallos a
passo e assobiava; uma especie de jockei dormia ao lado d'elle; Carlos
conheceu o boleeiro.

-- Gonalo.

--Quem me chama?

--Vae vasio o carro?

O boleeiro reconheceu Carlos.

--Ah!  v. s.? Vae vasio, vae, sim senhor, meu patro.

--Ento ajuda-me a transportar para l este sujeito, que est doente, e
leva-nos a toda a brida para a rua de...

O boleeiro correu a prestar o auxilio pedido.

--E tu--acrescentou Carlos, para o improvisado jockei--monta n'esse
cavallo, e leva-m'o a casa. Avia-te!

Carlos era obedecido como um dos freguezes de mais prompto e generoso
pagamento que havia na cidade.

--E olha--disse elle ainda para o jockey--de passagem vae ainda a casa
do doutor F. e pede-lhe que venha sem demora ver o snr. Manoel Quentino,
a sua casa. Dize-lhe que vaes do meu mando. Anda.

O rapaz partiu como um foguete.

Carlos e o boleeiro ajudaram Manoel Quentino a entrar na sege; dentro em
pouco faiscavam as pedras das caladas sob as patas dos cavallos,
fustigados com toda a alma por o boleeiro, cujo ardor o estimulo de uma
gorgeta excepcional instigava.

Carlos tinha cumprido a promessa feita a Cecilia.

Foi com um grito de jubilo, que Cecilia, cujos terrores haviam
recrudescido com a demora, viu parar a carruagem  porta de casa e sar
d'ella o pae, amparado cuidadosamente pelo brao de Carlos Whitestone.

Os primeiros momentos absorveram-os inteiramente as expanses de
alegria.

Correu ao portal e ahi recebeu nos braos o pae, chorando commovida.
Desentranhava-se aquelle piedoso sobresalto em phrases soltas, sem nexo,
em exclamaes, em perguntas, em beijos, em lagrimas e em sorrisos.

Manoel Quentino subiu as escadas apoiado de um lado em Cecilia, do outro
em Carlos. Foi assim que entrou para a sala, onde Antonia e Jos
Fortunato, no meio de felicitaes, de perguntas, e at de conselhos,
lanavam olhares de desconfiana a Carlos, que nem atteno lhes dera
ainda.

Passada a primeira exploso de alegria, incoherente e irreflectida,
houve logar no corao de Ceciia para duas ordens de sentimentos
oppostos.

O primeiro foi de gratido para Carlos.

Estendendo-lhe amigavelmente a mo, disse-lhe, com um olhar, uma
inflexo de voz, e um rubor de faces, que multiplicavam o pouco valor da
palavra:

--Muito obrigada.

Phrase insignificante, que n'esta occasio teve mais eloquencia, do que
um discurso.

Depois inquietou-a outra vez o estado em que via o pae. A decomposio
do rosto, a pallidez, a tristeza no habitual, reproduziram vivos os
receios, que a chegada d'elle serenra.

Interrogou-o ento sobre os promenores do succedido. Carlos deu uma
rapida explicao. Cecilia escutava-o com o sobresalto do susto e
lagrimas de reconhecimento. Antonia e Jos Fortunato acharam nos factos
pretextos para formularem conselhos de prudencia, a que elles s deram
atteno.

Cecilia redobrou de cuidados para com o pae: que os aceitava com certa
frieza morbida, que a assustava.

Carlos associou-se por vezes  joven e carinhosa enfermeira e, com to
intelligente solicitude, que obteve d'ella frequentes sorrisos de
approvao e de agradecimento.

Quando o medico chegou, ainda Carlos no deixra a casa.

O facultativo informou que tinha sido aquillo uma das oito frmas de
congesto cerebral, admittidas por o professor Andral, e das mais
benignas. Descreveu os symptomas, apreciou as causas, formulou o
tratamento, sangrou e saiu.

Manoel Quentino achava-se melhor.

Carlos despediu-se mais tranquillo e prometteu voltar.

 sada, Cecilia apertou-lhe a mo com affecto.

Antonia resmungou.

Jos Fortunato recolheu-se a casa perto da meia noite e pouco satisfeito
com a sua pessoa.




XXII


EDUCAO COMMERCIAL


Manoel Quentino foi constrangido pela fora das circumstancias a
conservar-se de cama, nos dias seguintes a este.

Impozera-lh'o o facultativo, que lhe assistira; pedira-lh'o Cecilia, e
exigira-lh'o Carlos e o proprio Mr. Richard Whitestone, que viera, pela
manh, visitar o guarda-livros.

Esta necessidade de absteno de exerccio era o que mais affligia
Manoel Quentino. Figurava-se-lhe que os negocios commerciaes caminhariam
desordenados sem a sua cooperao; mortificava-o a ideia do chos em que
o escriptorio cairia, se por muito tempo a doena se prolongasse.

--Valha-me Deus! Como ha de ser isto agora?--dizia elle, devras
aterrado com a ideia, quando na presena de Cecilia e de Carlos, que
demorra a sua visita, mais do que Mr. Richard, tomava a custo um caldo
adietado, unico alimento que lhe permittia a arte medica.

--Que canceira lhe est a dar essa ninharia!--disse Carlos, procurando
desvanecer aquelles cuidados--Socegue; a sua doena ser de pouco tempo;
a casa Whitestone no se perde com essa pressa. L esto os outros
caixeiros.

-Ora os outros, sim!... Os outros!...  bom de dizer...

--Mas ento, meu pae, que se lhe ha de fazer? Quando Deus lhe der saude,
trabalhar dobrado. Agora veja, mas  se toma esse resto de caldo...

--Nem quero que me lembre! Em que desordem no irei encontrar tudo por
l! E depois, a escripturao atrazada!...  filha, bastar de caldo por
agora.

--S duas colhres mais.

--E por que no ha de o Paulo fazer a escripturao?--insistiu Carlos.

Manoel Quentino fitou n'elle um olhar de espanto.

A sciencia da escripturao era para o velho guarda-livros da tal
difficuldade e transcendencia, que a pergunta de Carlos sora-lhe aos
ouvidos e irritra-lhe os nervos, como uma imperdoavel heresia.

--O Paulo?! O senhor tem cousas!... Cuida que escrever nos livros
commerciaes  o mesmo que fazer um rol de roupa suja?!

--Ao principio no duvido que se lucte com alguma difficuldade, mas no
fim de tres dias...

--Tres horas, tres horas...  melhor tres horas... Valha-o Deus! 
Cecilia, eu no posso levar ao fim este caldo... Tira para l, filha...

--Era uma colhr s--disse Cecilia, fingindo que lhe obedecia, mas com
um modo, que quebrou a Manoel Quentino a coragem de resistir-lhe.

--Ento d c.--E, fechando os olhos, esgotou at s fzes aquella
especie de taa de amargura, fez uma careta, e respirou no fim, como se
alliviasse de enorme encargo.

D'ahi a pouco, a ideia de faltar ao escriptorio incommodava-o outra vez.
Antevia mil complicaes srias nos negocios pendentes, e to longe ia,
n'este caminho, a sua fertil imaginao, que no parava seno em
imminente fallencia.

Homem habituado a no passar um s dia ocioso, exagerava as
consequncias da sua falta; guarda-livros, que adquirira, por trabalhosa
experiencia, o saber commercial, suppunha indispensaveis annos para
habilitar qualquer intelligencia a adquirir igual saber e a ordenar a
escripturaco dos livros de commercio.

Por isso ouviu com espanto acompanhado de zombaria a proposta que, como
extremo e efficaz recurso, Carlos acabou por lhe fazer, depois de em
longa discusso sobre o assumpto ter, com o auxilio de Cecilia,
combatido aquellas apprehenses.

--Est bom; socegue--disse Carlos.--Deixe-se ficar na cama o tempo que
quizer e que lhe for preciso, porque, emquanto  escripturaco, eu
encarrego-me d'ella.

Manoel Quentino conservou por algum tempo os olhos, muito abertos,
voltados para o filho de Mr. Richard; l lhe parecia to extravagante
aquella promessa em um homem, de cuia experiencia commercial sabia o que
pensar, que nem com resposta atinou que lhe dsse.

 prpria Ceclia surprendeu o offerecimento. Ambos julgaram isto um
gracejo da parte de Carlos. Comtudo era to sria a expresso que tomou,
n'aquelle momento, a physionomia d'elle, que Cecilia principiou logo a
acreditar que no era zombaria a proposta.

Manoel Quentino no se convenceu to depressa.

--Ento com que... encarrega-se da escripturaco?--perguntou o velho,
no podendo reter um sorriso, o primeiro que se lhe desenhou nos labios
esta manh.

--Encarrego, sim.

--Olhem que fortuna para a casa! Agora  que ella prospra... Eh! eh!
eh! Valha-o Santo Antonio.

--Ento faz-me a injustia de me suppr incapaz de applicar as minhas
foras a uma empreza qualquer, quando d'ahi possa provir algum bem para
um amigo?

Desde que Carlos fez esta pergunta, Cecilia esposou logo mentalmente a
causa d'elle: no s acreditou na sinceridade do offerecimento, mas
at--vejam que confiana!--at na possibilidade, ou mais ainda, na
probabilidade da sua realisao.

Manoel Quentino no era to facil de mover dos seus juizos. Comtudo
tambem o abalaram as palavras de Carlos, ainda que em outro sentido.

--No, homem;--disse o guarda-livros, meio commovido--eu no duvido da
sua boa vontade, nem do seu animo decidido para sacrificios. Bem
recentes tenho provas que me no deixam duvidar. Sei que lhe devo talvez
a vida. No pense que sou ingrato. Mas, venha c, oua: como quer
encarregar-se de um servio, ao qual tem sempre andado estranho? Era
como se eu me mettesse a ir salvar a nado alguem, que estivesse a
afogar-se no meio do rio. De que me valeriam os bons desejos, se iria ao
fundo, como um prgo, antes de l chegar?

--Mas to difficeis lhe parecem essas cousas de commercio, que, dentro
em dois ou tres dias, com alguns conselhos e explicaes suas, eu no me
habilite a comprehendel-as?

Manoel Quentino encolheu os hombros.

--Homem, que conceito faz da minha intelligencia?!--insistiu
Carlos--Demais, eu alguma cousa aprendi no collegio, que talvez me
sirva. Pde ser que no ande de todo j perdida uma sciencia que, devo
confessar, tenho deixado fra do servio desde... desde que a adquiri.

--Ora adeus! Onde vo as chuvas do anno passado? Olhem com o que elle
vem! O que aprendeu no collegio!...

--Emfim tentemos. No se perde nada em tentar. O Manoel Quentino no vae
esta semana, nem talvez estes quinze dias ao escriptorio...

--Longe o agouro!

--No vae, que no deve ir. Eu estou resolvido a experimentar a minha
aptido commercial. Quem sabe? Pde ser que adquira at gosto pelo
negocio.

--Quem dera!

--Pois pde ser. Encarrega-se de me dar lies? Tres bastam-me.

--Havia de fazer boas cousas com tres lies!

--Apostemos?

--V, v  sua vida. Divirta-se. Isto no  uma brincadeira como...

Carlos revestiu-se de toda a sua gravidade.

--Ento, Manoel Quentino! to leviano me julga, que no admitte que eu
falle serio alguma vez?

--No, mas...

Cecilia tomou, a mdo, a defeza de Carlos.

--Uma vez que o snr. Carlos se offerece para o ajudar, por que no
aceita?

--Ahi vem a outra! Ora para o que lhe deram hoje! Este rapaz engana-se a
si proprio. Eu j disse que no duvido dos seus bons sentimentos, mas...

--Mas--atalhou Carlos--uma palavra s! Quer dar-me algumas lies de
escripturao commercial? Bem v que no perde nada com isso.

--Ho de ser curiosas!

--Sejam ou no sejam. Quer ou no.

--No seja essa a duvida.

--At  noite, meu mestre--disse Carlos, pegando no chapo para sair.

--At  noite--respondeu Manoel Quentino, divertido com a resoluo de
Carlos, em cujo exito no depunha f, mas divertido a ponto de se rir
com vontade e de quasi se lhe desvanecerem as apprehenses a respeito do
escriptorio.

Ao sar, Carlos despediu-se de Cecilia, dizendo-lhe:

--Esto empenhados os meus brios, minha senhora. Dentro em tres dias
prometto ser um caixeiro consciencioso e expedito.

Cecilia sorriu, estendendo-lhe a mo.

--Agradecida por tanta generosidade, snr. Carlos.

--E acredita que seja s generosidade?

--Ento?

Carlos no replicou. Correspondeu, sorrindo, ao cumprimento de Cecilia,
e saiu, sentindo um intimo contentamento ao dizer a phrase trivial:

--At logo.

Cecilia ficou a pensar no que poderia haver, alm de generosidade, no
procedimento de Carlos.

Em todo aquelle dia andou to satisfeita a filha de Manoel Quentino, que
os cuidados, que a saude d'ella tinham causado ao pae, diminuiram
consideravelmente; o que no foi para elle pequena garantia de melhora
na saude propria.

Carlos d'alli foi para o escriptorio.

No causou pequena surpreza a Mr. Richard ver Carlos estabelecido na
banca de Manoel Quentino, examinando, com solicita atteno, os livros
commerciaes, as correspondencias do dia, e algumas atrazadas; os outros
caixeiros no estavam menos admirados do insolito phenomeno; e muito
mais o ficaram, quando Carlos lhes dirigiu algumas perguntas sobre o
andamento de certos negocios, e quando inclusivamente o viram attender
alguns freguezes, que vinham pedir informaes ao guarda-livros, e
responder a muitos j com verdadeiro conhecimento de causa.

Em toda a Praa se fallou n'aquillo; foi um verdadeiro acontecimento no
mundo commercial. Houve curioso que phantasiou negocios, s para se
informar, por seus olhos, do que lhe constra.

A prompta intelligencia de Carlos, auxiliada pela educao que era
creana tivera, permittiu-lhe ver claro nos processos de escripturaco,
onde espiritos, menos cultos e atilados, s conseguem achar caminho,
depois de muitos esforos e tentativas.

Os pontos capitaes recordou-os ou comprehendeu-os  fora de reflexo;
restavam-lhe pequenas duvidas, difficuldades de segunda ordem, que a
experiencia de Manoel Quentino, em poucos momentos, deveria elucidar.

Estas duvidas e dificuldades,  preciso dizer-se, eram principalmente
sobre a utilidade dos complicados processos de escripturao, que Manoel
Quentino, fiel aos velhos systemas, escrupulosamente seguia. Carlos
previa methodos mais simples e expeditos para executar certos
lanamentos e operaes, e, vendo adoptados os mais extensos e
tortuosos, sentia-se embaraado, suppondo haver alguma razo para a
preferencia e no a podendo descobrir.

Ao sair do escriptorio levava Carlos muito adiantada a sua instrucco
commercial. Havia muito tempo que no tivera to laboriosa manh!

 noite, quando se preparava para ir a casa do mestre, encontrou Jenny
no corredor, a qual, como gracejando, lhe disse:

--Ser verdade, Charles, o que acabo agora de saber?

--Ento que soubeste tu?

--Que foste hoje um canceiroso guarda-livros e que a todos maravilhaste
no escriptorio com a tua applicao ao negocio.

-- verdade; tive esta manh esse capricho.

--Capricho? Ser somente capricho essa febre subita de trabalhar, que te
acommetteu?

--Ento que mais ha de ser?

Jenny esteve algum tempo calada, sem desviar os olhos do irmo.

--Tens razo. Ser capricho.  de certo; mas talvez no to innocente e
sem importancia como o queres fazer.

--Ahi est que tambem tu s inconsequente, Jenny.

--Porqu?

--Ralhavas-me, ha dias, por o meu desapgo aos negocios do escriptorio;
agora vejo-te com vontade de me ralhares pela minha applicao.

--Se no houvesse n'ella uma inteno, de que eu desconfio!

--Uma inteno?...

Jenny mudou de tom.

--Deixas-me fazer-te uma pergunta?

--Dize.

--Aonde vaes tu agora?

Carlos perturbou-se ao responder:

--A casa de Manoel Quentino.

--Ah!...

--Bem vs que o pobre homem est doente...

--Soube agora que passou bem a tarde. Mandamos l perguntar. Por isso,
se te custa a visita...

--Mas... prometti...

--Ah!... prometteste!...

--Olha, Jenny. Digo-te a verdade. Para tranquillisar o bom homem, que
no podia resignar-se a deixar o escriptorio ao desamparo, prometti-lhe
encarregar-me do servio, Mas bem sabes, ou deves suppr, at onde
chegam os meus conhecimentos commerciaes. Para tornar effectiva a
promessa, careo de informaes, que s Manoel Quentino me pde dar, por
isso...

--E no receias que, doente como est, lhe faa mal a applicao de
espirito, a que o vaes obrigar?

--So certas duvidas apenas.

--E se as expozesses antes ao pae?

Na fronte de Carlos desenhou-se uma ligeira ruga de impaciencia.

Jenny, com ar de tristeza, acrescentou, suspirando:

--Bem vejo, Charles, que esqueceste a palavra que me tinhas dado.

--No te entendo.

--Entendes, entendes. Dize-me, se eu te pedisse que no fosses hoje a
casa de Manoel Quentino?...

--Tinha que ver Jenny com caprichos, exactamente como outra qualquer
mulher! No nasceste para essas fraquezas femininas, minha boa, minha
sisuda irm.

E pegando, a rir, nas mos de Jenny, levou-as aos labios e partiu
apressado para no a escutar de novo.

Jenny viu-o sair, e uma dolorosa expresso gravou-se-lhe no semblante.

--J no est na minha mo valer-lhe!--disse ella com amargura--Como
findar isto, meu Deus!

Foi muito desagradavelmente surprendido n'essa noite o snr. Jos
Fortunato, ao encontrar Carlos Whitestone em casa de Manoel Quentino.
Descobriu elle n'isto indicios de grandes transtornos nos seus uniformes
habitos de vida.

A primeira noticia do facto recebeu-a de Antonia, que no via tambem com
olhos favoraveis aquella intruso.

Antonia e Jos Fortunato eram duas potencias alliadas e ciosas das suas
prerogativas e influencias para com Manoel Quentino.

--Temos c o homem!--dissera Antonia a meia voz, ao snr. Jos Fortunato
quando lhe abriu a porta.

--Quem?--perguntou este, parando nos primeiros degraus da escada.

--O de hontem... O inglez...

--E a que vem elle c?

--Eu sei. A modo que me no vae agradando isto. Pelos bonitos olhos do
pae no  que...

Um negrume toldou o horizonte do corao do snr. Jos Fortunato.

Entrou para a sala do sero, o qual se fazia agora no quarto de dormir
de Manoel Quentino, visto recommendar-lhe a medicina a prudencia de no
abandonar o leito.

 habitual saudao do recem-chegado responderam Manoel Quentino e a
filha, e, no parecer do homem, alguma cousa mais distrahidamente do que
do costume.

No lhe agradou aquella distraco. Carlos fez-lhe um ligeiro signal de
cumprimento e voltou  tarefa, em que parecia occupado.

Procedia-se, n'aquelle momento,  primeira lio commercial.

Jos Fortunato no podia comprehender o que via.

Manoel Quentino, sentado no leito, tinha no rosto a gravidade do
professorado, temperada por certo sorriso de duvida nas boas intenes e
na efficacia do estudo do discipulo.

De um lado do leito, sentava-se Carlos Whitestone, partilhando a
attenco entre as preleces de Manoel Quentino e as festas ao gordo
gato maltez, que se lhe viera roar pelas mos--prova de confiana, que
nunca dera a Jos Fortunato, apesar de mais longa convivencia.

Havia ainda outro objecto a attrahir as attenes de Carlos e porventura
a maior ou mais preciosa poro d'ellas,--era Cecilia.

Em p, do outro lado da cama, tendo na mo a costura, de que
frequentemente se descuidava, seguia com curiosidade as preleces
paternas e as objeces, com que as interrompia Carlos, e no podia
disfarar de todo o riso, que a singular lio lhe desafiava.

A chegada de Jos Fortunato no alterou esta disposio de cousas e de
pessoas; no era elle homem para constranger ninguem.

--Ora vamos a isto;--comeou Manoel Quentino--para lhe fallar a verdade,
no sei bem por onde principie.

--Eu lhe digo...--ia Carlos a responder, quando Manoel Quentino o
interrompeu.

--Ento, ento! No principie j a atrapalhar, seno no temos nada
feito. Ora espere l... Deixe-me c ver...

E, depois de pensar algum tempo, continuou:

--Usam-se no commercio tres livros principaes...

Este comear _ab ovo_ no agradou ao discipulo, que o atalhou dizendo:

--J sei.

--J sabe! Como j sabe?

--Pois nem isso havia de saber?! Creia que esta manh, no escriptorio,
levei a minha instruco commercial ainda muito mais longe.

--Ora adeus!

--Ver.

--Ento, se j sabe, escuso eu de...

--Sei que ha tres livros principaes em commercio, que se chamam: Diario,
Razo e Caixa, e que ha tambem os auxiliares.

Manoel Quentino estava devras admirado de Carlos saber tanta cousa!

--O pae de que se admira? Eu mesma, parece-me que sabia isso
tambem--disse Cecilia.

Manoel Quentino olhou para ella, e encolheu os hombros.

--Com que gente eu estou mettido! Bem;--acrescentou pouco depois para
Carlos--ento faa favor de me dizer o que  que no sabe, para eu lh'o
ensinar.

--Olhe: eu o que desejo  obter esclarecimentos, em relao a certos
pontos, sobre o que tenho duvidas. O processo da escripta a final no 
cousa to complicada, que no se possa comprehender, examinando-a com
atteno; muito mais se, conseguindo despertar a memoria, alguma cousa
ella nos vem tambem auxiliar. S me parece que esse processo ainda podia
ser mais simples do que o fazem.

--No podia, no, senhor. No venha agora para c com modernices. Tudo 
preciso.

--No  tal. E seno vejamos: A escripturao pde fazer-se por partidas
chamadas simples e dobradas; no  verdade?

--, sim, senhor.

--E differem ellas...

--Eu lhe digo--atalhou Manoel Quentino.--Supponha o senhor que alli o
snr. Jos Fortunato compra dez pipas de vinho  casa. Percebe?

--Que havia eu de fazer a tanto vinho?--resmoneou o snr. Jos Fortunato,
para dizer alguma cousa.

--As quaes pipas importam--continuou Manoel Quentino--em dois contos de
ris. Percebe?... O senhor escreve no Diario, em lettras grandes--sempre
em lettras grandes--percebe? Jos Fortunato deve, por dez pipas de vinho
a duzentos mil ris--dois contos de ris. Percebe?

--Sim; isso j eu sei... mas...

--Espere l. Ou homem! J sabe, j sabe! O senhor sabe tudo! Ento se j
sabe!... Este  o methodo de partidas simples.

--Perdo. Entendo que o methodo de partidas simples no se resume a to
pouco, pois que...

--Se  assim, pouco mais difficil  do que aquelle, pelo qual fao a
escripturao da nossa casa--disse Cecilia, rindo, e emquanto ageitava a
dobra do lenol, que Manoel Quentino desordenra.

--E creia, minha senhora--acudiu logo Carlos, no mesmo tom--que, a final
de contas, muitos dos nossos caixeiros deviam tomar por modelo a
simplicidade dos methodos de v. exc,, pois valem mais do que as
baralhadas e mysteriosas escripturaes de certos livros, nos quaes a
melhor vista no consegue penetrar. Parece-me.

--Pois parece-lhe uma tolice--disse Manoel Quentino, a quem
impacientavam estes levianos juzos criticos sobre uma arte, para elle
to transcendente como perfeita.

Jos Fortunato bocejava.

--Mas vamos c--proseguiu Manoel Quentino.--Quer ver agora como fazia
aquelle lanamento por partidas dobradas? Se o snr. Jos Fortunato,
comprando o vinho, aceitasse uma lettra ou lhe endossasse alguma,
pagavel  ordem d'elle; percebe? O senhor escrevia no Diario: Lettras a
receber a vinho...--Note que os nomes do crdor e do devedor se escrevem
sempre em lettra grande.--Percebe? Depois explicava a transaco por
baixo d'estes titulos...

No pretendendo os leitores provavelmente instruir-se em sciencia
commercial, dispensar-me-ho de transcrever na integra a preleco de
Manoel Quentino.

Durante ella, manteve-se sempre em conflicto o espirito prtico, o
respeito s velhas formulas, a experiencia intransigente do mestre, com
o arrojo innovador, as tendencias simplificadoras e a averso a inuteis
complicaes do discipulo.

Mais uma vez se verificou a eterna lucta entre a theoria e a prtica;
uma, com seus instinctos de joven, com seus habitos de actividade, com
seus amores pelo futuro e pelo progresso; outra, com a frieza da idade
madura, com uma indole, essencialmente prosaica e conservadora; fiel ao
passado, que foi sem mestre, desconfiada do futuro, que no conhece,
severa para com as ideias novas, cujos humores travssos a impacientam.
Uma, brincando e esperando no dia de manh, como creana; outra,
ralhando e suspirando pelo dia de hontem, como av; uma, apaixonada do
ideal e reparadora de _tuertos_, como D. Quixote; outra, odiando
utupias, e contente com a ordem estabelecida de cousas, como Sancho. Em
todos os campos da sciencia humana se encontram, frente a frente, estas
duas filas de contendores. Emquanto o medico novo baseia raciocinios e
assenta diagnosticos sobre recentes descobertas physiologicas, o prtico
velho encolhe os hombros, sorri, formla ou opra; emquanto o joven
lettrado desenvolve theorias de sciencia social, vistas transcendentes
de philosophia de direito; o jurista, encanecido no fro, examina os
artigos do codigo, esmiua a lettra da lei, aconselha as partes e
despacha os autos.

No exemplo que temos  vista, Manoel Quentino era o representante das
ideias conservadoras; Carlos, o apostolo do progresso.

Por vezes o inabalavel rochedo da experiencia do guarda-livros foi
rudemente aoutado pelas objeces, que a lucida intelligencia de Carlos
contra elle despedia. Manoel Quentino fazia porm como o rochedo; no as
repellia, deixava-as passar por si e ficava firme.

Manoel Quentino explicra, por exemplo, a Carlos a maneira de fazer os
lanamentos, no caso de uma supposta remessa de l para Liverpool.

Carlos combateu a longura e complicao dos processos seguidos, expondo
a maneira como, no seu entender, se podia e devia simplificar a
escripturao; parecia-lhe que muitas indicaes feitas nos livros
escusavam de ser registradas, e n'este caso estavam todas aquellas
contas que, pelo processo de Manoel Quentino, eram creditadas e
debitadas simultaneamente; desnecessario julgava fazer meno d'ellas,
visto que ficavam logo por esse facto saldadas.

Os methodos indicados por Carlos eram to simples, to racionaes, to
despidos de minuciosidades defeituosas, despojavam os livros de tantas
indicaes superfluas, ronceiramente consagradas pelo habito, que Manoel
Quentino no soube como combatel-os.

Imagine-se a contrariedade que experimentou com isto!

No era elle homem porm que rompesse com habitos velhos e renegasse,
perante as primeiras objeces de um rapaz inexperiente, o classico
systema, a que fora fiel durante os muitos annos do seu tirocinio
commercial; por isso retorquiu com acrimonia:

--No sei de contos; assim  que se faz.

--Ser; mas no se podia fazer tambem da maneira que eu digo?

--Podia... no podia... isto ... podia... no podia, no, senhor.

--Porqu?

--Porque no.

--Mas , sem comparao, mais simples.

--E  com o que lhe d!  mais simples,  mais simples... e acabou-se!
Deixal-o ser!... No se trata aqui de ser mais simples, nem menos
simples...  como  e como deve ser... Estava-se mesmo  espera do
senhor para vir fazer descobertas!... At agora temos andado todos s
aranhas... Faltava c o snr. Carlos com as suas simplicidades! Ora no
est m!...  mais simples!... Pois peior; ns no queremos cousas
simples... Ser mau o processo, mas olhe que se tem feito e guiado muito
boas casas com elle. Fie-se l nas suas escripturaes simples, e ver o
que vae! Theorias!... Estou de p atraz com ellas! No provam bem.
Negociante de theorias, fallencia no caso.  mais simples!... Olhem a
grande cousa!... Mais simples era no fazer lanamento nenhum, se vamos
a isso.

Carlos pz-se a rir. Comprehendeu a repugnancia que devia encontrar
Manoel Quentino em ceder n'aquella discusso e respeitou-lh'a. Recuando
generosamente n'este campo, avanou n'outro; porque Cecilia soube ser
grata quella delicadeza de proceder para com o pae.

Manoel Quentino anciava por uma desforra; encontrou-a.

Duante a passada discusso, tendo-se fallado muitas vezes em facturas, o
velho voltou-se agora de subito para Carlos, perguntando-lhe
_ex-abrupto_ se sabia fazer uma factura. Carlos no respondeu logo.

O homem prtico presentiu n'esse campo completo triumpho. No admittiu,
por cautela, explicaes verbaes; mandou vir papel, penna e tinta, e
disse para o discipulo:

--Risque e encha.

Carlos hesitou. Manoel Quentino saboreou as douras de uma victoria.

--Ora ahi est,!--exclamou elle--Ahi est do que servem as theorias! 
isto sempre... Fallam que nem um bacharel... e vae-se a trabalhar e...
passe por la muito bem! no atam nem desatam!... Ento? Veja se se
lembra de algum methodo mais simples de sair do aperto... Qual!... Aqui
 que eu os quero ver... No fogo  que se conhecem os soldados... Isto
de queimar polvora em fogos presos no presta para nada... Ora escreva,
escreva l, faa o que eu lhe disser e deixe-se de theorias. No tenha
vergonha de aprender. Todos aprendem at  morte.

E principiou a indicar-lhe a maneira de riscar o papel, as inscripes
que tinha a fazer, as verbas que devia registrar, e isto tudo sem lhe
deixar passar por alto a minima particularidade.

Carlos obedecia-lhe com tal docilidade de discpulo, que fazia rir
Cecilia.

--V; escreva ahi, no alto da folha--disse Manoel Quentino--Factura
de... agora um genero qualquer que queira carregar.

--De paciencia ento, que  genero de que o Manoel Quentino bem precisa
agora para aturar a molestia.

--Ento! est a brincar ou que faz? paciencia preciso, mas  para o
aturar a si.

--Paciencia confiada ao cuidado de meu pae!--dizia Cecilia--Valha-nos
Deus! que no  homem que tenha cautela com a mercadoria.

--E adeus! Esto as duas creanas a brincar. E eu que as ature!

Se Manoel Quentino tivesse mais algum conhecimento dos pequenos
mysterios do corao, no fallaria assim collectivamente de Carlos e
Cecilia, isto de os confundir debaixo da denominao generica de
creanas era imprudente, no estado actual dos sentimentos de ambos.

Proseguiu a indicao da maneira de encher a factura e com isto terminou
a lio.

Em seguida, serviu-se o ch, que n'aquella noite no soube a Jos
Fortunato, como de costume.

Manoel Quentino, apesar das suas impaciencias, estava, de si para si,
espantado de tanto que sabia Carlos.

--Que esperteza de rapaz!--dizia elle para Cecilia, quando esta, depois
de todos se haverem retirado, fazia engulir ao pae a ultima chavena de
caldo d'aquelle dia e lhe arranjava os travesseiros para o somno da
noite--Tem diabo! Como entende to bem estas cousas de commercio, a que
andou sempre estranho! Era capaz de enrodilhar outro, que no tivesse a
experiencia, que eu tenho! Uma cousa assim! Parece at que adivinha! 
at um peccado andar fra da vida do negocio... Deem-lhe alguns annos de
pratica, e vero o que d'alli se.

Ceclia calava-se.




XXIII


DIPLOMACIA DO CORAO


A educao commercial de Carlos continuou e com os mais rapidos e
auspiciosos progressos.  segunda noite espantava elle Manoel Quentino,
apresentando-lhe os lanamentos, que pela manh fizera e nos quaes o
experimentado guarda-livros nada teve que notar.

A custo pde convencer o fogoso discipulo de que no convinha que elle
proprio escrevesse nos livros geraes, onde era contra as praxes
apparecer lettra de mais do que um individuo. Bastava, dizia o velho, e
j no era pequeno servio, que Carlos o auxiliasse no expediente e
deixasse tudo preparado para que, ao terminar o seu impedimento, elle,
Manoel Quentino, s tivesse a transcrever no _Diario_ e no _Razo_ as
transaces operadas durante essa poca.

No fim de tres ou quatro seres, Manoel Quentino j no tinha que
ensinar mais ao discipulo.

Elle sabia tudo!

Terminaram pois as lies, mas no terminaram com ellas as visitas de
Carlos, como seria natural que acontecesse. Mudaram apenas de caracter
aquelles seres.

Carlos era agora o que se encarregava da leitura das folhas, com grande
mgoa de Jos Fortunato, que no podia encontrar na diverso metade do
prazer que n'ella recebia, quando a leitura era feita por Cecilia.

De mais a mais, Carlos divertia-se muitas vezes  custa do velho.
Sabendo de Manoel Quentino que elle era possuidor de varios papeis de
credito, raro era o dia em que, no decurso da leitura, no improvisava
noticias e insinuaes, que faziam entrever uma imminente baixa de
fundos e porventura uma banca-rota.

Jos Fortunato declamava ento contra os governos presentes, passados e
futuros, com toda a acrimonia que lhe era possivel.

Quando os dois velhos tratavam s vezes alguma discusso acalorada,
Carlos aproveitava a occasio de entrar com Cecilia em um dialogo, cuja
indole era cada vez mais perigosa para o corao de ambos. E seno,
ouamos.

Cecilia trabalhava, certa noite, em uma camisa de panninho para o pae.

--Que nome se d a isso que est a fazer?--perguntou Carlos, curvando-se
sobre a costura.

-- uma camisa--respondeu Cecilia, sorrindo. Pois nem conhece!?

--Que  uma camisa sei eu; no perguntava isso; mas... essa costura em
que est agora a trabalhar, como se chama?

--Isto?  um posponto.

--Ah! um posponto!... Um posponto  a mesma cousa que um sobre-cosido;
pois no ?

Cecilia desatou a rir a esta pergunta.

--No, senhor, no . Nem tem nada uma cousa com outra.

--No?! Pois olhe... parece, porque... posponto ... como quem diz:
depois do ponto; sobre-cosido, sobre ou depois do cosido, e portanto...
depois do ponto tambem.

--Ser; mas... em todo o caso, so cousas diversas.

--Ento que differena fazem?

--Ora que curiosidade! Ha de interessar-lhe muito agora conhecer essa
differena.

--E porque no? No v que ando com vontade de ampliar os meus
conhecimentos? No tem reparado na minha docilidade a ouvir as lies de
escripturao?

--Mas essas podem servir-lhe.

--Mas vamos; um posponto  isso; muito bem. E agora um sobre-cosido?

Cecilia, rindo, procurou na obra, que estava a fazer, o exemplo j
realisado de um sobre-cosido e mostrou-o a Carlos, dizendo:

--Ahi est um sobre-cosido. Agora estude a differena, a ver se a sabe
explicar.

Carlos examinou-o com apparente atteno e a mais composta seriedade.

E Cecilia interrompia o trabalho, s por causa d'isto.

--Ento?--perguntou ella maliciosamente, quando Carlos deu mostras de
haver terminado o exame.

--Reconheo que de facto so cousas diversas, mas no posso bem dizer em
que consiste a differena.

--O que o deve affligir muito.

--Mas diga--insistia Carlos, que parecia devras empenhado em elucidar
este negocio dos pospontos--todas as costuras se fazem a posponto?...

Cecilia no podia escutar com seriedade este inquerito inesperado.

--No, senhor;--respondeu a rir--conforme a qualidade da obra, assim se
prefere a qualidade do ponto.

--Ah! visto isso, o posponto...  um ponto tambem?

--Pois est claro.  um ponto que se d assim. Ora repare.

E Cecilia, acompanhando a palavra com a aco, principiou a trabalhar
com todo o vagar, ao passo que Carlos assistia  demonstrao com a
attenta seriedade de um discipulo. Ainda que me parece que menos vezes
lhe seguiam os olhos os movimentos da agulha, do que se fixavam a
admirar a perfeita modelao e delicado colorido da mo que a movia.

--Repare--dizia Cecilia--d-se, supponhamos, o primeiro ponto; maior ou
menor, conforme a delicadeza da obra, j se sabe. Assim. Ora agora, a
agulha entra aqui mesmo pelo meio d'este primeiro ponto... V?... E vae
sar adiante, de maneira que este segundo ponto tenha o mesmo
comprimento do primeiro. Entende? A terceira vez entra por onde sau a
primeira, a quarta por onde sau a segunda... e assim por diante...
Entende agora?

--Muito bem. E o sobre-cosido?

--Mas como lhe deu para querer saber doestas cousas?

-- uma esquisitice. Concordo. Mas... ento que quer? Mau  que eu tenha
um d'estes desejos. Incommodo-me deveras, se os no satisfao.

--Ah! No sabia que era assim caprichoso!

--E no concebe esta maneira de sentir?

--Eu, no.

--No diga que no.  impossivel. A imaginao feminina, sem duvida mais
delicadamente sensivel do que a nossa, no pde ignorar estes pequenos
caprichos. O capricho , a meu ver, uma prova de superioridade moral em
que o tem. Vamos; termine a minha lio.

--Ento que quer saber agora?

--Que  um sobre-cosido?

Cecilia condescendeu ainda em lhe explicar o que era o sobre-cosido,
como j lhe explicra o que era o posponto. Carlos deu-se no fim por
satisfeito.

Agitou-se ainda algum tempo a discusso a respeito de assumptos d'esta
natureza.

Carlos foi durante ella sempre serio; Cecilia, a cada momento, a
interrompia com o riso, que lhe desafiava a estranha lio, que nunca
esperra ter de dar a um discipulo d'este genero.

Em quasi todos os seres, passados em casa de Manoel Quentino, os
colloquios entre Carlos e Cecilia versaram sobre objectos de igual
transcendencia e sustentaram-se em um tom da mesma gravidade que este,
que registamos.

Ahi esto uns colloquios inoffensivos e inconsequentes, pensar talvez o
leitor. Pois engana-se, se pensa assim. Recorde-se da sentena de quem,
n'estas cousas de amor, escreveu _ex-professo_:

    _Parva leves capiunt animos_.

De facto, nada ha de tanta influencia para o corao como um colloquio
assim, bem futil, bem insignificante, no estado a que haviam chegado os
sentimentos de Carlos e de Cecilia.

Quanto mais ligeiro, quanto mais pueril  o assumpto de um dialogo
d'estes, tanto mais se empenham os coraes dos que o sustentam.

Os dialogos amorosos, que estamos costumados a escutar entre o galan e a
primeira dama, no tablado dos theatros, ou a ler nos capitulos dos
romances, dialogos cortados de interjeies e cheios de subtis theorias
do mais acrisolado sentimento, so excepes na vida real; e, quando se
do, se-se d'elles mais livre, mais disposto a esquecer, menos propenso
a sonhar; servem como de expanso aos affectos accumulados--expanso em
que estes s vezes completamente se dissipam. Mas os constrangimentos,
os silencios, dos quaes a imaginao em vo procura livrar-se, e sobre
tudo o conversar aturado sobre mil cousas futeis e indifferentes, isso
sim, que  bem mais para temer; porque, emquanto dura a troca reciproca
de formulas insignificantes, o corao pe em campo outros emissarios
secretos e invisiveis, que adiantam consideravelmente as negociaes
pendentes e conseguem realisar a entrega da praa, sem o minimo combate
manifesto.

Digam-o os numerosos pares, para quem voam as horas e desapparece o
mundo, de enlevados que se entregam a esses interminaveis dialogos,
motivo de zombarias apparentes e de occultas invejas dos que os no
podem gosar; digam se, quando mais sinceros sentiam em si os affectos,
eram metaphysicas e transcendentes especulaes sobre o amor o que assim
lhes absorvia as attenes e os cuidados; digam se, quando, ao terminar
um d'esses felizes dias, tentavam reproduzir as impresses recebidas no
decurso d'elle, recordando as palavras ditas e escutadas n'aquellas
longas entrevistas, outra cousa lhes conseguia avivar a memoria que no
fosse dialogos pouco dramaticos, banalidades sobre assumptos
indifferentes, mas sob cujo disfarce o corao achra meio de dizer
muito, e at mais eloquentemente, do que ainda poeta algum o pde
exprimir--nem o proprio Petrarca nos seus trezentos e dezoito sonetos.

Isto aconteceu a Carlos Whitestone. Poucas vezes voltra a casa mais
possuido d'essa intima e indefinida alegria de quem assiste em si ao
ateiar de uma paixo, do que na noite, em que se verificou o dialogo,
que o leitor provavelmente julgou sem consequencias.

Prolongou-se este estado de cousas. O medico, a quem fora confiado o
tratamento de Manoel Quentino, prudente em demasia, apenas lhe promettia
esperanas de o deixar sar passada uma semana mais.

Carlos no pensava com frieza de animo no termo d'aquelle praso.
Poderia, sem causar estranheza, continuar, ainda depois d'elle, as
visitas que lhe eram j to necessrias? At alli servia-lhe o pretexto
de vir dar contas a Manoel Quentino do servio da manh; mas depois?

Carlos continuou a ser diligente nos negocios do escriptorio. Mr.
Richard ainda no acabra de conformar o espirito quella mudana do
filho.

Em casa de Manoel Quentino, s este era quem talvez no suspeitava um
segundo motivo na assiduidade de Carlos. Antonia e Jos Fortunato j a
commentavam havia muito.

E Cecilia? Respondam por mim as leitoras.

Uma noite ia o snr. Jos Fortunato a retirar-se, e entre elle e Antonia
travou-se, j no portal, o seguinte dialogo:

--Ento, snr. Antonia, que lhe parece este inglez aqui sempre mettido?

--Que quer que lhe faa? O que me admira  o snr. Manoel Quentino no
reparar...

--Mas diga-lhe que...

--Eu?! Deus me livre! O snr. Jos Fortunato  quem...

--Eu?! Nada; n'essa me no metto; mas a snr. Antonia tem quasi
obrigao de...

--Eu lhe digo... Eu, como o outro que diz, no quero fallar, sem
primeiro me encher de razo... Hei de tirar umas informaes a respeito
do inglez, e depois...

--Informaes de quem?

--Mesmo defronte da casa d'elle vive uma cunhada do homem da sobrinha de
uma comadre minha, de quem eu sou muito conhecida e amiga; manh, se
tiver tempo, sempre hei de l chegar. Porque a mim consta-me que este
rapaz  um estoira-vergas dos meus peccados...

--Elle l se v!

--Ora o que nos havia de apparecer!

E os dois despediram-se; Jos Fortunato para ir curtir em casa as cruas
mgoas do corao; Antonia para assentar, no repouso do travesseiro,
sobre a maneira de obter da cunhada do homem da sobrinha da sua comadre
as informaes de que precisava, para se encher de razo.




XXIV


EM QUE A SENHORA ANTONIA PROCURA ENCHER-SE DE RAZO


A cunhada do homem da sobrinha da comadre da senhora Antonia habitava,
como da bca da dita senhora soubemos, defronte de Mr. Richard
Whitestone. Era a morada uma pequena casa terrea, a cuja meia porta
passava a inquilina metade do tempo, observando ou transmittindo aos
outros o resultado das suas observaes.

Se o amor de saber define etymologicamente o philosopho, difficil ser
encontrar algures individualidade to bem acondicionada para se lhe
encabear o disputado titulo, como a snr. Josfinha da Agua-benta; que
por este nome era sua graa conhecida em todo o bairro.

Era mais que amor de saber o que a possuia; era ancia, era febre, era
delirio!

s nove horas da manh do dia seguinte quelle, em que entre Jos
Fortunato e Antonia se tramra, _in limine_, aquella conspirao, de que
lavramos acta, achava-se a diligente criada de Manoel Quentino,
inflammada no santo ardor domestico,  porta da sua, conhecida e amiga,
no louvavel intuito de colher informaes a respeito de Carlos
Whitestone.

--Snr. Josfinha!--chamou a snr. Antonia para dentro de casa,
elevando, em desentoado falsete, a voz inclassificavel.

--Hui!--respondeu de dentro outra voz, digna de emparelhar com esta.

--Passou bem?

--Mas quem ?

E uma figura de mulher de meia idade, perfeito typo de mulher de
soalheiro, foi pouco e pouco tomando vulto e relevo no vo escuro da
porta, e assomou emfim  cancella.

--Ai, pois  vocemec, snr. Antonia? entre.

--Ai, nada, no entro, que no me posso demorar.

--Ento que pressas so essas hoje?

--Bem v que so nove horas, e preciso de olhar pelo jantar.

--Isso tem muito tempo--disse a snr. Josfinha da Agua-benta,
encostando-se  cancella, e proseguiu:--Ento quem a trouxe por estes
sitios?

--Fui alli adiante a um recado do patro, e sempre quiz bater para saber
de si.

--Muito obrigada. Ento ainda se d bem na casa?

--Vamos andando. Da maneira por que hoje as cousas esto, ainda no 
das peiores.

--Diz bem. A soldada, a fallar a verdade... acho que no  l das de
tentar, mas...

--Est feito, est feito; ha-as melhores e ha-as peiores--disse a snr.
Antonia, que no gostava de entrar em particularidades da sua vida, nem
para isso vinha.

--Elle tambem...--insistia a outra--no pde alargar-se muito. Um
caixeiro...

--Deixe l. Ha por ahi patres, que vivem em maiores apertos.

--Diga-m'o a mim, snr. Antoninha. Olhe a minha Luiza... Conhece? A
filha do nosso Antonio. Pois esteve alli abaixo a servir seis mezes em
casa do commendador Collao e sau de l porque aquillo chega a pouca
vergonha. Os criados passavam fome de rato. Olhe que chegavam a dar-lhe
po de uma semana e a comprar sardinha da caravella para a ceia d'elles.
Pois quem via aquillo na rua, parecia que tinham as rendas do bispo.

--Pschi! E quando ao menos so promptos na soldada!

--Promptos?! Isso sim! A uma criada, que l esteve tres annos, ainda
hoje esto a dever um anno inteiro. Ora isso  mesmo uma dor de
consciencia, no acha?

--Mas ento que quer? O luxo  muito.

-- assim, . Diz bem.  uma cousa por maior! Vocemec ha de conhecer
aquelle Maltez, que  no sei o qu na administrao, um homem bem
afigurado, que anda sempre com um co preto...

--Ai, bem sei. O cunhado d'aquelle militar de quem dizem as ms
linguas...

--Tal e qual. Pois no sei se tem reparado no luxo com que se apresentam
as filhas e a mulher.  santo Deus! Emfim uma cousa  ver, outra 
dizer. Aqui ha dias passaram ahi todas e eu benzi-me e tornei-me a
benzer! No que nem a rainha pde luxar assim. Qual! Ora, veja a snr.
Antoninha, o pae dizem que no ganha mais de trezentos mil ris por
anno. Milagres no se fazem... O dinheiro no nasce no quintal...

--Deus sabe d'onde elle vem.

--Eu tambem sei alguma cousa, vamos l. Sei a quem magoam muitas
d'aqellas grandezas. Olhe que a senhora d'elle tem chegado a pedir
emprestado a uma rapariga, filha de uma amiga minha, que esteve l a
servir muitos annos. A rapariga, coitadinha, que se mata a trabalhar...
porque ella hoje  engommadeira, teve vergonha de dizer que no, e
adeus, minha vida.

--Tola foi; c para mim  que elles vinham bem guiados.

--Por isso eu digo: a snr. Antoninha no  das que tem razo de queixa.

--Ai, no sou, no, senhora; isso no sou; graas a Deus.

--O passadio  bom?

-- bom, , sim, senhora; l n'isso no ha que dizer...

--O peior que alli tem  a priso; pelos modos se poucas vezes. Tirante
l, aos domingos, o ir visitar o Senhor ao Carmo.

--Bem v que o patro quasi nunca est em casa... e  uma menina s...

--E a pequena no tem por ahi j a sua inclinao? Ha de ter...

--No... Que eu saiba...

--Ha de ter, ha de ter. Hoje em dia! Olhe a snr. Antoninha aquella
rapariga do Cosme Villas-boas, uma creana se pde dizer... pois o que
ahi vae j com ella por causa do filho do escrivo!

--Sim. Ento?...

--Ora! nem quero que me lembre!  um desafro! O pae d'ella, no outro
dia, pescou-o a fallar com a pequena, e correu para o rapaz com uma
navalha. O rapaz fugiu, e a me d'elle veio ento  janella e pz-se a
berrar com o velho. Sempre disseram cousas uma  outra aquellas duas
creaturas! Um passo assim!

--No que ha gente n'este mundo!

--O pae pelos modos queria-a casar com o brazileiro, que anda a fazer
aquellas casas em Santa Catharina.

--Isso era uma mina para a rapariga!

--Mas ento que quer? Virou-se l para o filho do escrivo.

--Forte tola!

--E elle ento que  uma figura! No o conhece?

--Eu no.

-- mesmo cinco ris de gente. Um desconjuntado, um lorpinha...

--So gostos.

-- assim; diz bem. Mas ento a sua ama...

--Essa... por emquanto...  aqui como a sua vizinha.

--Qual?

--A do inglez, a filha do patro l do meu amo.

--Ah! Essa ento!  aquillo que alli est.  uma boa menina, isso ;
muito amiga da pobreza... Exquisita como todas as inglezas, mas no
mais... Olhe que, desde que somos vizinhas, ainda no teve uma palavra
que me dissesse!  janella ningum a v, e quando passa por aqui, faz-me
uma cortezia muito sria e mais nada.

--Ella  muito da menina l de casa.

--. Eu tenho visto a sua ama vir ahi muitas vezes.

-- uma boa familia esta.

--, isso . No ha que se lhe diga.

--O velho julgo que  pessoa capaz.

--,  assim meio maniaco, mas a final no  mau sujeito, no. Tem suas
venetas, como quasi todos os inglezes... mas...

--E o rapaz mesmo...

--O snr. Carlos? Ai, por amor de Deus, no me falle n'isso.

A snr. Antonia chegra emfim ao topico desejado.

--Ento?

--Isso  uma pea de fazenda!

--Que me diz!

--Faz l ideia do que alli est! Um estroina assim no ha! Recolhe-se a
casa l porque altas horas da noite. Dorme at ao meio dia. Ora veja a
snr. Antoninha que vida pde ser a d'elle.

--Ento joga?

--Elle joga, elle fuma, elle passa a vida nos botequins e nos theatros,
elle bebe, elle anda sempre com ms companhias.

--Que tal! Hein!

--Isso no faz ideia! Em casa anda tudo a ferver por causa d'aquelle
menino. No falla com o pae, a irm passa um martyrio com elle. Disse-me
a Susana, que  ainda minha prima, e que esteve l a servir oito dias,
que aquillo  uma pouca vergonha. s vezes est a mortificar aquella
pobre irm, e ralha, e ralha, e torna a ralhar, e ella ento,
coitadinha, chora que  uma dor do corao. Ha dias em que no faz outra
cousa.

--Arrenego eu o Judas Iscariote!

--E ento, snr. Antoninha,  um menino a quem tudo faz conta. No sei
se me entende? Seda e chita  tudo panno para elle fazer obra. Dizia o
Luiz, que foi muito tempo criado d'elle, que eram tantas as cartas que
recebia de differentes, que era uma cousa por maior!

--Tratante! O que elle precisava...

--Diz que ahi com uma comediante do theatro gastou elle contos de ris
ao pae. At o velho quiz mandal-o para Inglaterra.

--Fosse e nunca voltasse! Arrenego-o eu!

-- da pelle do mafarrico. Depois ento diz que bebe!

--Faltava mais essa!

--Pois se elle  inglez! s vezes, quando vem para casa, j de dia
claro, chega a ser preciso deital-o na cama, porque no da accrdo de
si.

--Olhem que vergonha! Uma pessoa fina, e... A gente sempre v cousas!...

--Aqui ha tempos... V vendo a snr. Antoninha; ia eu j a abrir a porta
da rua, pela madrugada, e entrava aquella creaturinha para casa. Vinha
amarello, esgadelhado; bem se conhecia o estado d'aquella cabea.

--No, tambem com uma vida assim no pde ir muito longe.

--Pois no, no... E  at uma felicidade para elle, se morrer.

--Aposto que a estas horas ainda dorme?

--Abriu agora mesmo as janellas. Hoje madrugou.

--Ento  alli o quarto d'elle?

--,  alli mesmo  entrada. O pae e a irm saram logo pela manh cdo.
Pelos modos diz que chegou da Inglaterra um inglez muito rico com uma
filha, a quem elles foram visitar. Disse-me a Dorotheia, que  a
despenseira, que o velho quer ver se casa o filho com a tal ingleza.

--E o rapaz?

--O rapaz?... bem pensa elle n'isso!... Olhe l se elle os foi visitar.

Haviam chegado as duas mulheres a este ponto do dialogo, quando entrou
na rua uma sege da praa, puxada com toda a fora por dois vigorosos
cavallos, e veio parar  porta da casa de Mr. Richard Whitestone.

O boleeiro saltou immediatamente da taboa para receber as ordens da
pessoa que vinha dentro e que as gelosias corridas das portinholas
furtavam  curiosidade das duas mulheres.

Em seguida tocou  campainha; appareceu-lhe, passado algum tempo, o
criado particular de Carlos; trocadas poucas palavras entre ambos, este
retirou-se, voltando cdo depois com a resposta.

Tendo-a ouvido, o boleeiro veio abrir a porta da carruagem, da qual saiu
ento uma senhora de elegante apparencia, toda vestida de preto e cujas
feies se occultavam em um longo vo, impenetravel aos olhos vidos de
Antonia e da sua amiga.

Esta senhora desappareceu pelo porto do jardim em companhia do criado
de Carlos.

A snr. Antonia e a snr. Josfinha trocavam entre si olhares
eloquentes.

--Mas...--murmurou Antonia.

--Que ?... Diga.

--No me tinha dito que o pae e a filha haviam sado?

--Ha mais de uma hora.

--Ento...

--Ento o qu?

Os olhos proseguiram algum tempo o dialogo.

--Ora sempre  desafro!--disse a snr. Antonia, aps o dialogo, dos
olhos.

-- isto que v.

--Conheceu-a?

--Eu no.

--Mas com este descaro?!

-- para que veja.

--No, pois no saio d'aqui, sem descobrir quem ella , ou pelo menos...

--Ora diga a snr.^a Antoninha se isto no  fazer pouco caso da
vizinhana.

E as duas continuaram n'estes santos commentarios. A snr. Josfinha
chegou a adiantar algumas perguntas ao boleeiro, que lhe viera pedir
lume para accender um cigarro. Este, porm, s lhe pde dizer que era
uma senhora ainda nova e bonita, que morava em Santa Catharina.

Antonia tomou conta na rua.

As conjecturas continuaram at que de novo appareceu no portal a pessoa
que era objecto d'ellas. Agora acompanhava-a Carlos, que, com toda a
galanteria, a ajudou a entrar no carro, entrando tambem atraz d'ella,
depois de haver dado algumas ordens ao boleeiro.

E o carro partiu outra vez, com toda a velocidade, pelo caminho por onde
viera.

Estavam estupefactas as duas espectadoras da scena.

--Reparou?--disse a snr. Josfinha.

-- que j me no escapa mais.

--Pareceu-me nova.

--E bonita.

--Ento que me diz a isto?

--Que estou atordoada!

--J viu um descaramento assim?

--Eu no.

A snr. Antonia retirou-se d'alli, devras indignada e decidida a
intervir em casa do amo, para desmascarar o libertino, que se
introduzira sorrateiramente n'ella a pretexto de servios
desinteressados e de falsa amizade.

Antonia conseguira o seu intento, enchera-se tanto de razo, que j
ameaava trasbordar por ella fra.




XXV


TEMPESTADE DOMESTICA


s quatro horas da tarde d'este mesmo dia voltava Mr. Richard Whitestone
a casa, com aquelle ar de satisfao ingleza, que j lhe conhecemos, e
em passo vagaroso, como de homem que terminou as tarefas srias e
principiou a gosar as douras do _no fazer nada_. Parte da manh
passra-a com um compatriota, pae de uma nevada e loura lady, a quem de
facto Mr. Richard estimaria ver matrimonialmente ligado o filho.

Como n'estas intenes do discreto inglez conseguira entrar a
despenseira, no sabemos ns; mas  certo que, ou por fora de logica ou
por occulta inspirao, havia ella acertado, ao informar a snr.
Josfinha da Agua-benta. Comquanto o no ter sido acompanhado pelo filho
n'aquella visita matinal houvesse algum tanto desagradado ao inglez,
consolava-se, esperando que elle condescenderia em o acompanhar  noite,
na segunda visita que tencionava fazer.

Ia pensando n'isto o velho commerciante, precedido da ligeira
_Butterfly_, impaciente com a morosidade do dono, que to a miudo a
obrigava a retroceder.

Trauteando por entre dentes o predilecto: _cheer_, _boys_, _cheer_,
caminhava vagarosamente Mr. Richard pela rua das Flores acima, e pascia
a vista nas bem providas exposies de ouro, que adornam um dos lados da
rua, quando de repente parou defronte de uma taboleta, como se
impressionado por algum objecto que vira n'ella.

Por muito tempo durou este exame.

Havia alli o que quer que fosse que o inglez tomava a peito investigar.
E no o conseguindo de fra do mostrador, entrou na loja.

--Faz favor de deixar-me ver um relogio, que est ahi exposto?--disse
elle para o ourives.

O ourives, com sorriso amavel e maneiras delicadas, satisfez-lhe
promptamente ao pedido.

Mr. Richard examinou o relogio com minuciosa atteno.

-- um bello relogio!--dizia o ourives--Valioso por todos os respeitos.

Mr. Richard fez um signal afirmativo com a cabea, e proseguiu calado no
exame.

-- inglez, no  verdade?--perguntou d'ahi a instantes.

--, sim, senhor. De fabricantes muito acreditados.

--E ento... mandou-o vir directamente da Inglaterra?

--No, senhor...

O ourives principiou a olhar para Mr. Richard com mais cuidado. O que
estava pensando, ao olhal-o assim, no sei; mas uma sombra de
desconfiana parecia anuviar-lhe o semblante. Passados alguns instantes
continuou:

--Para fallar com franqueza a v. s., ainda no ha muitas horas que o
comprei.

--Ah! E... pde saber-se a quem?...

--Comprei-o a um rapaz, que eu conheo de vista, mas cujo nome ignoro...
Supponho que  tambem inglez... Vinha em carro com uma senhora...

Mr. Richard abriu muito os olhos, fitando o ourives e repetiu:

--Com uma senhora?...

--Sim, uma senhora ainda nova, vestida de preto, que ficou  espera
d'elle. O rapaz entrou aqui, disse que estava para ir para fra da
terra, e propz-me a compra do relogio e da corrente... Entramos em
ajuste...

--Bem, bem; pouco me importa isso--disse Mr. Richard, com ligeiras e
convulsivas contraces de labios, que eram n'elle indicio de clera
reprimida.--Vamos a saber: Por quanto m'o vende agora?

O ourives fez valer os seus direitos a algum modico lucro, direitos que
Mr. Richard no lhe contestou, vindo a final a comprar, pela segunda
vez, o relogio e a corrente, com que havia j presenteado o filho.

Porque no havia para elle duvida, e escusa de a haver para o leitor, de
que eram exactamente aquelles mesmos os objectos que tinha agora
presentes.

Ao sair da loja, Mr. Richard ia com a physionomia outra vez serena, mas
l por dentro, quem o podesse perscrutar, encontraria um grau de
irritao, a que raras vezes lhe subia o genio fleugmatico.

O criado, que estava  porta quando Mr. Richard chegou a casa, era o
mesmo que recebera pela manh a visita, que tanto indignra a snr.
Antonia.

--A que horas sau hoje o snr. Carlos?--perguntou Mr. Richard, em tom de
voz scco e aspero.

--s... s dez horas--respondeu, j sobresaltado, o criado.

--S?

O rapaz teve vontade de dizer que sim, mas Mr. Richard fitava-o com um
olhar, que lhe desvaneceu toda a impassibilidade precisa para isso.

--S?--repetiu o inglez, com mais fora.

--No... no senhor...--respondeu o criado.

--Ento?

--Com... com...

--Com quem?--perguntou Mr. Richard, cada vez mais imperioso.

--Com uma senhora, que... que veio procural-o... mas... era j de
idade--acrescentou o homem, como correctivo.

Porm Mr. Richard j lhe havia voltado as costas, entrando para casa.
Jenny estranhou-o. Habil na leitura d' aquella physionomia, nem uma s
ruga, que accidentalmente a carregasse, podia passar-lhe despercebida e
sem lhe excitar desejos de decifral-a.

Mr. Richard respondeu benignamente, mas em poucas palavras, s perguntas
de Jenny, e quiz saber se Carlos j tinha vindo para casa.

Recebendo resposta affirmativa, acrescentou que, antes de jantar,
desejava ir ao quarto d'elle.

Era esta resoluo to extraordinaria, que Jenny, ao ouvil-a, olhou
fixamente para o pae.

Conheceu que alguma cousa tinha occorrido, capaz de trazer aps si uma
d'essas scenas violentas, que ella tanto fazia por afastar.

Pretendeu conjural-a.

--Pois vamos--disse a sorrir, e dispondo-se a acompanhar o pae.

--No, no--respondeu Mr. Richard, afastando-a com doce violencia.--Eu
pretendo... preciso de fallar-lhe a ss.

Jenny soltou-lhe o brao, a que j se apoira desanimada com a frieza,
mal occulta, d'aquellas palavras.

Mr. Richard tentou abrandar a impresso do primeiro movimento, dizendo:

-- de negocios que se trata... At j!... No entretanto, pdes mandar
servir o jantar.

Jenny viu-o partir sobresaltada e procurando em vo adivinhar a razo
d'aquella entrevista.

Mr. Richard n'este tempo appareceu no quarto do filho.

Muito longe de esperar aquella visita, Carlos, recostado no canap,
pensava... em Cecilia provavelmente.

Ao ver o pae, que to raro o procurava no quarto, levantou-se com
alvoroo e mal occulto espanto.

Mr. Richard caminhou para elle, e tirando do bolso o relogio e a
corrente disse, quasi gaguejando, como sempre lhe acontecia quando sob o
dominio de violenta commoo:

--Ahi tem. Quando vender as... as dadivas das... das... pessoas que...
que o estimam... seja para... fins que... que o no envergonhem, nem...
deponham tristemente contra... o seu caracter...

 vista do relogio foi tal a commoo que se apoderou de Carlos, que
nada pde responder; baixou os olhos, confuso, corou intensamente, como
se a consciencia lhe estivesse dizendo que a severidade das arguies do
pae era merecida.

Estes signaes foram por Mr. Richard interpretados como tacita
confirmao das suas suspeitas.

Cresceu n'elle com isto a irritao.

--Seja extravagante muito embora... mas... mas... nunca seja... nunca
seja vil...

Carlos estremeceu ao ouvir aquella palavra, e levantou com vivacidade a
cabea.

--Senhor!--exclamou, mal conseguindo o respeito filial suffocar-lhe a
indignao que sentira.

--Vil, sim--repetiu Mr. Richard com mais fora, como se excitado por
aquella apparencia de reaco.--Quero que no faa d'esta casa theatro
das suas... aventuras... escandalosas.

--Mas...

--Lembre-se de que  aqui--proseguiu, sem o attender, o pae--aqui,
debaixo d'estes tectos, que no tem a delicadeza de respeitar, que 
aqui que embranqueceram os cabellos de seu pae... que foi aqui que sua
me morreu... que  aqui que vive sua irm.

--Creio que ainda no dei motivos para...

--Quem o procurou esta manh? Com quem saiu de carruagem? Com que fim
vendeu esse relogio?

Carlos calou-se. Parecia resolvido a guardar silencio, em relao
quellas perguntas; nem era de animo to docil, que ouvisse, sem se
irritar tambem, estas severas recriminaes, feitas antes de julgamento
minucioso.

O seu orgulho revoltou-se.

--No posso explicar nada d'isso, mas dou-lhe a minha palavra que...

Mr. Richard atalhou-o:

--Nem eu quero tambem averiguar dos actos da sua vida. Teem-me chegado
aos ouvidos rumores de muita extravagancia sua, de que no tenho feito
caso. Mas quero, mas exijo... E inda tenho fora bastante para o
conseguir, pde crl-o... Quero e exijo que se respeite o meu nome e...
e a minha casa. Fique entendendo.

--Mas eu j lhe dei a minha palavra de honra de que todos os meus actos
d'esta manh no podiam deshonrar nem o seu nome, que  o meu tambem,
nem esta casa, que eu respeito como...

--A sua palavra de honra! No basta. Bem v que tenho motivos para
duvidar d'ella... e porisso...

--N'esse caso, como no tenho outra garantia a offerecer, calo-me.
Depois de uma resposta como essa, quando  de um pae que a recebemos,
no nos resta outro partido, alm do silencio--disse Carlos, com
decidida resoluo de no continuar este dialogo, receiando com razo
que a impetuosidade do genio o levasse a esquecer a qualidade da pessoa,
que altercava com elle.

Mr. Richard calou-se tambem e deu em passeiar no quarto. Depois disse,
ainda com severidade, mas em tom menos elevado:

--Parece-me que concordar commigo em que me assiste o direito de pugnar
pelo decro da minha casa?

Carlos no respondeu.

-- um dever imperioso de todo o chefe de familia. A excessiva
benevolencia  tambm immoralidade--disse ainda o pae.

O mesmo silencio da parte de Carlos.

--Espero que no tenha deixado adormecer em si to profundamente os
sentimentos de honra, que no comprehenda j este dever da minha parte.

Nenhuma resposta ainda.

Mr. Richard, que conhecia o filho, percebeu que em vo esperaria d'elle
defeza ou desculpa.

Saiu portanto do quarto.

Quando fechou atraz de si a porta, Carlos atirou ao cho, com movimento
de raiva, que havia muito a custo reprimia, uma preciosa jarra da China,
que se fez pedaos; em seguida pz-se a percorrer o quarto a passos
largos, e ai do objecto que encontrava na passagem!

A campainha soou emfim, chamando para o jantar.

Carlos tentou dar  physionomia um aspecto de serenidade, no que foi mal
succedido. L estava o olhar de Jenny a espial-o, e no era ella a que
se illudiria com estes fingimentos pueris.

Imagine-se como correu o jantar, principiado sob taes auspicios.

O tinir dos talheres e dos crystaes era o unico ruido que interrompia o
solemne silencio da sala. At os criados andavam em bicos de ps,
dominados por aquella como atmosphera pesada, que se respirava alli
dentro.

Jenny ainda tentava sorrir s vezes, mas, coitada, gelava-se-lhe o
sorriso nos labios,  vista das frontes ligeiramente contrahidas do pae
e do irmo. E sem poder descobrir o motivo d'aquella animadverso entre
elles! Como to de repente se condensra esta tempestade, que ella nem
tempo tivera para tentar desvanecer?

O jantar terminou como comera, silencioso e triste. Carlos foi o
primeiro a levantar-se da mesa. Mr. Richard no teria d'esta vez
companhia para o seu to apreciado pospasto.

O inglez comeava a sentir mentalmente os effeitos de uma mudana de
pensar. Estava-lhe j parecendo que havia sido muito severo para com o
delicto do filho.

Podia muito bem ser que tivesse peccado por inexacta a interpretao que
dera ao facto, e ainda quando no fosse, era a final uma leviandade de
rapaz, que talvez no merecesse to asperas censuras.

O tolerante inglez s esperava por o primeiro ensejo para naturalmente,
airosamente, realisar a reconciliao com o filho. Onde ia j o seu
resentimento?

Ficou pois devras mortificado, assim que viu Carlos levantar-se para
sar, levando comsigo as esperanas do almejado ensejo.

Olhou para Jenny, a ver se d'ella partiria alguma tentativa para reter o
irmo.

Jenny, absorvida a estudar a physionomia de Carlos, no deu pelo gesto
do pae.

J Carlos ia no meio da sala, quando Mr. Richard disse, em voz alta, as
primeiras palavras que, desde que se sentra dissera:

--Chegou hontem  noite... Mr. Smithfield, de Londres...

Carlos parou, ficando por alguns instantes a olhar para o pae, como se
esperasse ouvir d'elle mais alguma cousa; depois continuou a caminhar
para a porta.

--Chegou Mr. Smithfield e a filha, Alice Smithfield--disse ainda Mr.
Richard.

Carlos tornou a parar, e vendo que o pae no acrescentava mais nada, deu
ainda alguns passos.

-- um homem, a quem a nossa casa deve muitos favores, tanto commerciaes
como... pessoaes--disse Mr. Richard.

Estas palavras suspenderam outra vez Carlos, que ia j proximo da porta.

E como Mr. Richard se calasse, o filho estendeu a mo para o reposteiro.

--Estivemos l, esta manh, eu e Jenny.

Carlos no disse nada; esperou ainda.

Mr. Richard acrescentou:

--E ficamos de voltar esta noite... Elles partem manh para o Minho
e... Perguntaram por... por ti.

Mr. Richard realisra um grande esforo: pozera de parte o tom
ceremoniatico com que at ahi tratra o filho.

Carlos, que j desviava o reposteiro, vendo que o pae no proseguia,
curvou-se respeitosamente e sau, como se no tivesse comprehendido o
sentido d'aquellas insinuaes.

Mr. Richard viu-o sar, e de novo se lhe carregaram as feies, que
haviam j desanuviado de todo; ao mesmo tempo estalava-lhe entre os
dedos uma avel, com que estivera brincando, tal foi a fora, de que a
contrariedade lhe animou n'aquelle momento os musculos.

Jenny vira tudo isto, afflicta e irresoluta. Para sanar o mal, era
necessario conhecer-lhe a causa, e ella ainda a no sabia. Levantou-se e
foi encostar-se ao hombro do pae.

--Que tem?--disse-lhe com voz affectuosa.

--Fao quanto posso para viver em paz, mas j vejo que no  possivel.

--Ento por qu?

--Pois no viste?

E levantou-se, dando alguns passos agitados na sala.

--Carlos tem vinte annos--acrescentou, passeiando ainda.--Aos vinte
annos, ha j deveres para todo o homem... E se elle se esquece de que os
tem e de que os deve e ha de cumprir... eu que sou pae...

 entrada de um criado interrompeu-o.

Mr. Richard sentou-se, pz-se a ler o _Times_ e recaiu no silencio, de
que nada mais o tirou. Seria o _Times_ que o absorvia assim? O que 
certo  que em toda a tarde no desviou os olhos da primeira columna do
jornal.

Muito enigmatica devia vir esta primeira columna, que tanto custava a
ler!

Jenny dirigiu-se ao quarto do irmo.




XXVI


INEFFICAZ MEDIAO DE JENNY


Jenny foi encontrar o irmo apparentemente entretido a torcer as longas
orelhas do _terra nova_; mas no era necessario ser muito versado em
physiognomia, para perceber que lhe no estavam n'aquillo as attenes.

--Que foi isto, Charles?--disse Jenny, com a voz ainda turvada de
commoo--Por amor de Deus, isto que ?

Carlos levantou a cabea, e respondeu, fingindo sorrir:

--No te assustes, Jenny. Eu e o pae representamos hoje uma pea do
antigo repertorio, do repertorio da infancia. Elle lembrou-se de me
ralhar, como a uma creana; eu fiz como as creanas costumam, amuei.
Ora, aos dez e doze annos, scenas d'estas tinham para mim uma feio de
tragedia; aos vinte, predomina n'ellas o caracter de perfeita comedia...

--Mas... o que se passou entre vs, que dsse logar a isto?

--Nada ou quasi nada. Interpretaram mal uma aco minha. Eu podia, mas
no devia, explical-a; afiancei porm, sob minha palavra de honra, que
no era exacta a interpretao que lhe davam; e meu pae, que acabava de
se apregoar respeitador e mantenedor da boa fama do nome Whitestone, foi
o primeiro a manchal-o, duvidando de uma palavra de honra firmada com
elle.

--Jesus, Charles!... Que has de sempre ter d'essas susceptibilidades com
uma pessoa de quem no deves suspeitar que possa nunca fazer do teu
caracter conceito algum desfavoravel!

--Mas se m'o assegurou!

--Pobre pae! E imaginas que era friamente que elle te reprehendia? Eu
no sei ainda o motivo que deu origem a essa scena, que disseste, mas...

--Um motivo insignificante. Esta manh precisei de dinheiro; era urgente
a necessidade e a somma avultada. No gsto de recorrer a outra pessoa,
quando posso recorrer a mim. Demais, estava s em casa. Commigo s tinha
um objecto, que promptamente me podia valer a quantia de que precisava.
Era o relogio e a corrente, que recebi do pae quando...

--E foste?...  Charles!--disse Jenny, olhando com desapprovao para o
irmo.

--Tirei da corrente este pequeno sinete de agatha, a parte menos valiosa
do presente, para conservar uma memoria d'elle. Sabes que no  pelo
preo dos objectos, que me offerecem, que eu os aprecio. Vendi o mais;
confesso que vendi. Passadas horas o acaso fez-me o favor de conduzir
meu pae pela mo justamente at  loja do ourives, onde relogio e
corrente estavam j expostos  venda. Reconheceu-os, comprou-os de novo,
e trouxe-m'os, dizendo-me por essa occasio algumas palavras que... que
s a elle poderia, e deveria, ter a paciencia de ouvir.

--Mas... que m cabea a tua! Para que foste vender aquelle relogio, que
elle, coitado, com tanto gosto mandra vir para ti?

--Porque se tratava de alguma cousa mais importante e mais grave do que
os arrufos de um pae, por mais respeitaveis que elles possam ser.

Jenny fez involuntariamente um gesto de duvida.

--Acredita-me, Jenny. No duvides tu, como elle duvidou. Affirmo-te,
tomando os mais sagrados testimunhos, que, se ainda se dsse o motivo
que se deu, no hesitaria, apesar do que houve, em vender outra vez este
mesmo relogio e esta mesma corrente.

--Ento que forte motivo foi esse?

--No posso dizer-t'o.

--J me no contas, como d'antes, os teus segredos, Charles?

--Este no  meu.

Jenny calou-se.

Carlos olhou por algum tempo para a irm; depois veio pegar-lhe nas
mos, dizendo:

--Olha bem para mim, Jenny. Tu ests a duvidar tambem da minha palavra.

--No... Charles... no duvido.

--Dize: pdes acreditar que teu irmo, com todos os seus estouvamentos,
commetta uma vileza?

-- Charles! Que pergunta!

--Pdes acreditar que elle se esquea por um momento do muito respeito e
amor que te deve, Jenny? e da venerao que sempre teve pela memoria da
me, que mal chegou a conhecer?

--No, Charles, no. Para que me perguntas isso? Ninguem, melhor do que
eu, te conhece o corao e te avalia os sentimentos; bem o sabes.
Ninguem te faz mais justia--respondeu Jenny, sensibilisada com a
manifesta commoo, que se conhecia na voz de Carlos, quando lhe fallra
assim.

--Pois de tudo isto me accusaram ha pouco... E foi meu pae!

--E julgas que o pensava, ainda quando t'o diza... se o disse?

--Se o no pensasse, calar-se-hia ao ver o mal que me causavam aquellas
accusaes e a maneira por que eu as repelli... mas insistiu.

--Perda-lhe tu tambem isso. Vamos; comquanto eu no faca a injustia de
te suppr capaz de aces, to carregadamente ms, como essas que
dizias, acredito tambem que no seja de tudo um justo este incorrigivel
irmo que tenho, e creio que precisar um pouco da indulgencia, que
recusa ter para com os outros. Tudo isso passou j. Olha, meu Charles,
tu deves fazer como os lagos e como os prados, que no conservam
vestigios das nuvens que os assombraram, ao passarem por diante do sol.
Se visses como o pae ficou, assim que te retiraste da mesa! Coitado! Se
foi injusto comtigo, est pagando bem cara a injustia! Acredita que a
sente mais do que tu. Eu estava a reconhecer n'elle o desejo de te pedir
desculpa por alguma cousa, de que se arrependia j. Mas, que queres?
estas passagens no se podem fazer assim depressa, ainda que haja a
melhor vontade. E tu no lhe dste tempo. Serias um anjo, Charles, se
fosses bom e generoso a ponto de...--E olha que era uma vingana
tambem.--Se fosses bom e generoso a ponto de voltares para a sala e
vires fazer companhia ao pae esta tarde...

--Tu, que me conheces, Jenny, como pdes lembrar-te d'essa proposta? No
sabes como eu sou? Percebeste alguma vez em mim a aptido para
dissimular, de que precisaria, se quizesse fazer o que me indicas? Os
meus resentimentos so curtos,  verdade; mas, emquanto duram, no sei
disfaral-os. manh j nada terei na memoria talvez de tudo isto; mas
hoje, mas agora, aggravaria o mal, se me apresentasse to cdo diante do
pae.

Jenny no insistiu, porque reconheceu a verdade d'esta reflexo do
irmo. D'ahi a pouco, disse-lhe:

--Dou duas horas de vida ao teu resentimento, e j  suppl-o muito
vividouro. Ao anoitecer, nem sombras haver d'elle. Acompanhar-nos-has
ento a casa de Mr. Smithfield, o que ser o maior prazer que pdes
causar ao pae; e o dia de manh vir sem nuvens.

--No, Jenny, no vos posso acompanhar esta noite.

--No digas que no, Charles. Ento s assim reservado?

--No; mas... tenho destino para esta noite j.

--E de tanta urgencia, que no possas...

--No posso faltar, no.

-- Charles, no ouviste o que o pae disse?--Mr. Smithfield  um homem
que tem feito servios  casa...

--Hoje no posso; amanh visitarei esse senhor.

--manh partem elles para o Minho.

--Tanto peior. Vl-o-hei na volta.

--Vaes desafiar uma tempestade, recusando-te a to pequeno sacrificio.

--Que querem? Digam a esse homem, que eu tenho mau caracter, que sou
desagradecido, intratavel, grosseiro, egoista; e que por isso no deve
estranhar a minha pouca pressa em ir dar-lhe os emboras pela sua feliz
viagem.

Carlos disse tudo isto com impaciencia, que sobresaltou a irm.

Foi com ligeiro tremor de voz, que ella lhe respondeu:

--Tu bem sabes que no  isso que eu posso dizer de ti, Charles, nem
deixar que os outros, na minha presena, digam.

Carlos abrandou inimediatamente, ao ouvir estas palavras.

--Pobre Jenny! s a unica pessoa que me conhece devras.

--E tu a que te conheces menos--respondeu a irm, com doura, e depois
acrescentou:--Vens?

--No posso.

-Charles!

--Mas se eu prometti!... Olha, Jenny, se s minha amiga, no insistas
mais a este respeito; que no seja o dia de hoje to aziago para mim,
que esteja destinado a receber durante elle desgostos das pessoas a quem
mais estimo.

As lagrimas assomaram d'esta vez aos olhos de Jenny.

--Era para t'os evitar, que eu insistia, Charles... Perda-me se...

E a commoo no a deixou continuar.

Carlos apoderou-se-lhe das mos, que cobriu de beijos.

--Minha boa Jenny! minha generosa irm! perda-me tu, perda a este
estouvado, que nem sabe o que diz. De joelhos te devia implorar, filha,
eu, que te pago em lagrimas os sorrisos que me ds. Tu a pedir-me
perdo! Eu a perdoar-te, Jenny! O qu?... O conforto que me tens dado
sempre?... Esta serenidade, que me fazes durar na vida, anjo? As
caricias e cuidados de me que me ensinaste a conhecer? pobre me, s
dois annos mais velha do que este mau filho, que no sabe seno
affligil-a!  isto que tenho a perdoar-te? Dize. No repares para as
loucuras d'esta minha cabea. E agora escuta-me. Eu desejava fazer-te a
vontade, mas... hontem... o... Manoel Quentino mostrou-me desejos de
celebrar na minha companhia o ultimo dia de recluso, a que a doena o
tem obrigado. manh j elle se.  uma pequena e suave festa de
familia, e na qual smente servem de galas os affectos e as flores. Esta
manh no pude ir visital-o, como elle me pediu... Era agora,  noite,
que eu tencionava ir... Queres que eu deixe de satisfazer o desejo do
pobre homem?

Jenny, depois de fitar por algum tempo o irmo, suspirou, baixando os
olhos.

--Responde, Jenny--repetiu Carlos--e se julgares que, no meu logar,
poderias fazel-o, sem que um pequeno remorso t'o estorvasse, eu
obedeo-te e... no irei.

Jenny permanecia calada.

--Ento?--repetiu Carlos.

--Que queres que te responda, Charles? Seria sem hesitao que eu te
diria vae, se estivesse convencida de que  esse sentimento de
generosidade o que te chama l.

--Ento duvidas do que eu disse?

--No. Mas duvido, e ha muito, do conhecimento que tens de ti proprio.
Ensinaste-me a ler em ti, Charles, n'aquelles tempos, em que me
communicavas todos os teus pensamentos; habituei-me ento, e leio ainda
agora, que evitas essas longas conferencias de outras pocas...

--Que evito! Pois imaginas?...

--No imagino, sei. Cuidas tu, Charles, que tenho perdido de vista o
irmo, que to longe d'ella tem procurado andar? Ai, no tenho, no.

--E que tens visto a essa distancia?--perguntou Carlos, gracejando.

--O bastante para me affligir; o bastante para pedir a Deus que me
inspire um dia, em que talvez seja mais carregada do que nunca a nuvem
que venha ameaar-nos.

--Visionaria!

--Oh! se o fosse!

--No me dirs tu, Jenny, como te deu para seres to apprehensiva d'esta
vez! Logo d'esta, em que no  um capricho o que se apoderou do corao
de teu irmo!

--No ?

--No, digo-t'o afoutamente, no .  um sentimento novo para mim
aquelle, a que ando sujeito... Ahi volto eu s velhas confidencias de
outros tempos; no reparas?

--D'esta vez, Charles, ha duas pessoas, que ambas me so caras,
empenhadas n'isto; eis uma causa da minha inquietao. D'esta vez, se de
um dos lados smente houver sinceridade...--e ser do teu lado, a
havel-a smente de um?--recar sobre o outro todo o peso de
irremediavel infortunio; outra causa que me faz estremecer. E quando
sejam sinceros ambos, no haver tantas luctas a travar? tantos
obstaculos a vencer?  de tudo isto que vem as minhas apprehenses.

--Socega, Jenny; eu tenho mais confiana no futuro do que tu.

N'este ponto, entrou um criado com recado de Mr. Richard a Jenny, de que
eram horas de preparar-se para a visita a Mr. Smithfield.

--Ento, Charles... Vens?--disse ella ainda uma vez para o irmo.

--Por quem s, Jenny, no insistas mais. Basta que te diga que no sei
de motivo to forte que me podesse obrigar hoje a faltar  minha
promessa. O mais que fazes  perturbar-me o socego de espirito para toda
a noite, com o remorso de no ter condescendido comtigo.

Jenny curvou a cabea e sau do quarto.

Carlos correu a retel-a  porta, para dizer-lhe ainda uma vez:

--Perda-me, Jenny.

Ella s pde responder-lhe, commovida:

--Vae.

Passados minutos, vieram da parte de Mr. Richard perguntar a Carlos, se
elle o acompanharia  visita ao compatriota Smithfield. Carlos respondeu
que lhe era impossivel fazel-o aquella noite.

Recebendo esta resposta do filho, Mr. Richard pz-se a esfolhar com
impaciencia uma rosa que tinha na mo.




XXVII


O MOTIVO MAIS FORTE


Meia hora depois, ouviu Carlos o rodar da carruagem, que levava Mr.
Richard e Jenny  hospedaria, em que estava alojado Mr. Smithfield.

Julgra que respirara satisfeito, quando tivesse emfim conseguido ficar
toda aquella noite  sua propria disposio; mas cdo reconheceu que o
esperra em vo.

Ha situaes na vida era que, para qualquer lado que a resoluo nos
encaminhe, gera-se-nos sempre no animo um remorso, mais ou menos
intenso, por haver abandonado os outros.

Em uma d'estas dilemmaticas contingencias se tinha achado o esprito de
Carlos.

Na vespera havia de facto promettido, no a Manoel Quentino, como  irm
dissera, mas a Cecilia, o que maior fora dava ainda  promessa, que no
faltaria  festa, disfaradamente planeada por ella, para celebrar o
restabelecimento do velho.

Era uma especie de innocente conspirao entre os dois; e  provavel que
o leitor ou leitora no ignorem o ardor com que, de ordinario, o corao
se vota a este genero de emprezas, com este genero de allianas.

Carlos no tinha coragem de faltar, nem que fosse para suspender
aquellas lagrimas que vira imminentes nos olhos da irm. Resistiu pois,
como vmos.

Mas a resistencia deixou de si vestigios dolorosos; aquelle pezar,
causado a Jenny, sentia-o ainda o corao de Carlos; ficra-lhe a dor
intima, que at os alvoroos de prazer, excitados pela lembrana da
proxima entrevista com Cecilia, pareciam exacerbar.

Porque ha d'estas contradices nos sentimentos humanos;  por a mesma
razo que, s vezes, a negrura dos presagios mais se condensa entre os
maiores fulgores da felicidade, e que se aviventa a luz de vagas
esperanas nas mais tenebrosas situaes da vida.

As horas porm adiantavam-se, e Carlos preparou-se para o sero festivo,
que o esperava.

N'esta noite empregou na tarefa de se vestir um esmero, para que raras
vezes lhe sobrava paciencia.

Parecia estar-se apromptando para um baile.

--Que importuna occasio escolheu este Mr. Smithfield para a sua
visita!--pensava Carlos, emquanto ajustava ao espelho o lao da gravata
de seda--Por causa d'elle  que Jenny me deixou assim pezaroso... Mas
d'onde vir a exagerada apprehenso, que ella mostra d'esta vez?--E
vestia o collete branco.--No a devia tranquillisar o conhecimento que
tem de Cecilia? No devia at desejar que o meu corao se fixasse aqui,
que no fosse mais longe? S se receia de mim... Verdade  que o meu
passado... Oh! mas d'esta vez...

No meio de uma turba de agradaveis pensamentos desvaneceu-se a impresso
penosa, que lhe deixra a despedida da irm.

Afagando-os a todos, terminou Carlos a sua acurada _toilette_ e
dispz-se a partir, acompanhado por um cortejo de esperanas, to vivas
e palpitantes, que nem lhe deixavam sentir j o ligeiro remorso que, de
mistura com ellas, lhe havia entrado o corao.

Ia j a transpr o limiar da porta, quando um subito rumor de vozes, de
passos apressados e gritos agudos, como arrancados por a mais dolorosa
tortura, o fizeram parar.

Informou-se, cheio de inquietao, do motivo d'aquelle ruido.

-- a snr. Catharina, que est com um dos seus ataques--respondeu o
criado, a quem elle se dirigiu.

Eram to frequentes estes accessos na velha Kate, que, desde que Carlos
soube ser essa a causa do rumor que ouvira, no lhe deu mais importancia
e caminhou outra vez para a porta.

Redobrou porm a violencia dos gritos, e tanta e to crescente angustia
exprimiam, que o gnio de Carlos no lhe permittiu mais tempo ouvil-os
impassivel; obedecendo a generoso impulso, subiu apressado as escadas e
entrou n'aquelle mesmo quarto, onde j acompanhamos Jenny.

Illuminava o aposento apenas a froixa claridade de uma lamparina, quando
Carlos entrou alli.

Em volta do leito da velha ingleza agrupavam-se todas as criadas da
casa.

A pobre louca estrebuxava to violentamente com os braos, que ellas mal
conseguiam segural-os.

Gesticulando com movimentos desordenados, soltando, entre gritos agudos,
palavras sem nexo, reunindo syllabas sem significao, descomposta e com
os cabellos em desordem, aquella desgraada inspirava ao mesmo tempo
compaixo e terror.

Carlos aproximou-se do leito.

A velha Kate, vendo chegar uma nova figura junto de si, fitou n'elle um
olhar de expresso quasi selvagem e, depois de algum tempo, pz-se a rir
e a bater as palmas, com os modos infantis proprios d'aquelles estados
de embecilidade.

--Olhem!...  elle!...  elle!... --dizia ao mesmo tempo, reparando cada
vez mais em Carlos--Como veio para aqui?... Inda bem que vieste!...
Agora sim!... Quero ver agora quem me far mal?... Vem c, Dick, vem
c!... Agora sim!...

E acenava-lhe para que se aproximasse do leito.

Carlos condescendeu.

--Vejam! vejam!--dizia a velha, passando as mos pelos cabellos de
Carlos-- outra vez o Dick, que eu conheci... Este sim!... J no tem
nenhuns cabellos brancos... Este sim... Eu bem dizia que havia de
voltar. O outro no era verdadeiro... Agora j no receio esses
malditos, que me teem aqui presa ha tanto tempo!... Que venham!... Tu
no me has de deixar s com elles outra vez, Dick, no? Olha que me
matam!

--Socega, Kate, socega--disse Carlos carinhosamente--Ninguem te quer
fazer mal.

-- porque tu no sabes ainda o que elles me teem feito!... Olha;
repara... No vs o cadeiado que me pozeram aos ps?... Nem os posso
mover... nem os sinto!... E agora... metteram-me aqui no peito um
ferro... aqui... c o sinto dentro.... Arde, como se estivesse em
braza... E este lao?... no vs este lao, que me deitaram ao
pescoo?... no vs como est apertado?... suffoca-me!... Ai!... ai!...

E respirando a custo, apertava com ancia, o brao de Carlos, que a
segurava.

--Ento, Kate, v se descansas;--dizia elle--eu vou j mandar tirar-te
tudo isso, que te afflige assim...

--Ento... manda... manda! Por compaixo, Dick, manda; no deixes
martyrisar assim a velha Kate!... Por amor de teus filhos, Dick! Eu no
tenho foras para soffrer tanto! Estou muito velha, Dick, muito
velha!... tem compaixo de mim!...

E rompia em soluos to expressivos de dor, que at as criadas no foram
superiores  commoo.

Depois encostou a cabea ao hombro de Carlos, dizendo-lhe ao ouvido, com
expresso de susto e de mysterio:

--Foram ellas que me fizeram todo este mal, no foram?

--No; socega...

--Foram! foram, sim!--bradou, elevando a cabea com violencia e
inflammando-se-lhe outra vez o olhar, que parecia despedir faiscas, como
sempre que era contrariada.

--Pois foram, foram; mas...

--Ento no fiquemos aqui. Vamos outra vez para a Inglaterra, Dick. Para
que me trouxeste tu para esta casa? Para qu?

--Descansa, que havemos de ir; mas  preciso que estejas socegada.

--Estou... no vs que estou?... mas... no me deixes s,
no?--acrescentava, com entonao de supplica, quasi infantil.

--Ento no vs aqui tanta gente?

--No a quero. Manda-a embora; a todos... manda-os a todos embora!... Eu
quero estar s comtigo...

--Mas...

--Manda-os embora, por amor de Deus, manda-os embora!

Carlos no teve corao para resistir a este pedido da louca.

 sua ordem saram as criadas do quarto, deixando Carlos s com ella.

--Fecha, fecha essa porta, para que no entrem outra vez, fecha.

Carlos fechou a porta.

--E agora vem c; senta-te aqui, ao p de mim; eu no posso dormir, se
tu aqui no ests... E eu queria dormir... Tenho somno.

E tomou entre as suas as mos de Carlos.

Carlos sentiu que as d'ella comeavam a arrefecer, d'essa frialdade de
glo, que excita em ns uma repulso instinctiva. Pela primeira vez lhe
acudiu a ideia de que podia ser aquella a ultima noite da pobre mulher.

Este pensamento fel-o olhar para ella com mais atteno.

A escassa luz da lamparina ainda lhe permittiu conhecer a profunda
alterao de feies, que a pobre demente apresentava.

Deram nove e dez horas, e Carlos no sara de junto da velha criada,
que, segura s mos d'elle, estremecia ao menor movimento que sentisse,
como receiando ser abandonada outra vez. Era tal o terror que mostrava
de ficar s, que tirou o animo a Carlos de tentar sequer deixal-a.

Assim as horas, que elle contava passar na companhia de Cecilia, iam-lhe
correndo junto d'esta desgraada octogenaria, que com discursos
incoherentes, de mistura com risos e com prantos igualmente expressivos
de desvario, o conservou alli.

Pouco a pouco, principiou a tornar-se-lhe mais tardia e inintelligivel a
pronuncia, mais sumida a voz, mais ennevoado o olhar.

--Pozeram-me estes ferros...--murmurava ella, interrompendo-lhe a ancia,
a cada instante, as palavras sem nexo que dizia--pensam que eu no
sou... Kate?... sou Kate, sou!... Foi  viuva do fogueiro... que eu
dei... o vestido verde... O fogueiro morreu... morreu no mar...  porque
no so bons christos... No foi o gallo que cantou, foi a coruja...
Dizia que eram esmeraldas e... assim  que a irm se perdeu... O cedro
chorava... era o pae d'ella...

Carlos, pousando-lhe a mo no pulso, mal o pde j perceber... Tentou
sair, para chamar alguem que ministrasse os soccorros precisos, mas a
contraco, com que a velha o segurou, o estremecimento que lhe correu
pelo corpo, ao sentir a tentativa de Carlos, obrigaram-o a desistir.

--E para qu?--pensava elle--ninguem j agora arrebatar esta presa 
morte. Pelo menos que seja tranquillo o passamento. Deixal-a morrer em
paz.

E ficou, ficou elle s, unico espectador d'aquella scena lugubre,
d'aquelle espectaculo pouco talhado para a sua juventude, para a sua
indole e para os vestidos de gala, com que, para bem outros fins,
esmeradamente se preparra.

Era notavel o contraste. A velha caiu em silencio profundo, apenas
cortado de surdos gemidos.

Dava meia noite, quando uma respirao mais ampla, aps um profundo
repouso, fechou o circulo d'aquella longa existencia.

Carlos conheceu que tinha diante de si um cadaver.

Depois de por algum tempo a encarar melancolicamente, desceu-lhe, com
piedoso respeito, as palpebras sobre os olhos amortecidos.

Foi n'este piedoso mister que o vieram encontrar Jenny e Mr. Richard.
Voltando da visita a Mr. Smithfield e sua filha, souberam no portal que
Carlos no havia sado, em consequencia do violento accesso que
acommettera Kate.

Ahi mesmo se desvaneceu toda a irritao de animo em Mr. Richard.

--Ento no sau?

--No, senhor,--disse o criado--havia-se vestido para sar, mas at
agora tem estado s no quarto da snr. Catharina.

O velho inglez, que tinha ainda pela que fora sua ama uma verdadeira
affeio, sentiu-se commovido ao ouvir isto.

Elle e Jenny correram ento ao aposento de Kate.

--Expirou agora--disse Carlos, ao vel-os entrar.

O pae e a filha acercaram-se apiedados do leito.

Jenny no recusou lagrimas de saudade quella velha mulher, que ella,
to longe, quanto lhe ia pelo passado a memoria, se recordava de ver
sempre junto de si.

Mr. Richard curvou tambem a cabea, perante aquelle to solemne
espectaculo.

Carlos ficava-lhe defronte e ao lado a irm.

Jenny, enxugando os olhos, voltou-se para elle.

E, como se obedecesse a irresistivel impulso do corao, apertou-o nos
braos, dizendo:

-- n'isto que te reconheo, Charles. Quem poder duvidar ainda da
generosidade da tua alma?

Carlos correspondeu ao abrao da irm, beijando-a affectuosamente na
fronte.

E ao descingir-se-lhe dos braos, encontrou a mo de Mr. Richard, que se
estendia francamente para a sua.

--O seu proceder foi o de um homem de bem e... de corao, Charles.
Honra-o--disse, com voz tremula, o inglez.

Carlos apoderou-se d'aquella mo, que se lhe estendia, e curvou-se para
beijal-a.

Perante aquelle leito mortuario desvanecera-se de todo a tempestade
domestica.

Foi assim que Carlos faltou  promessa que tinha feito a Cecilia, falta
que horas antes pensava e dizia no haver motivo to forte que o levasse
a commetter.

Resistiu de facto aos resentimentos do pae, resistiu,--e mais custoso
lhe foi--s lagrimas da irm; mas no teve animo para resistir 
compaixo por uma pobre mulher, velha, demente e moribunda.

Ficou, para lhe fechar os olhos.

Era assim o caracter de Carlos.




XXVIII


FORMA-SE A TEMPESTADE EM OUTRO PONTO


A snr. Antonia no perdera o seu precioso tempo, nem desaproveitra a
sciencia adquirida por meio das observaes da manh.

Ao voltar a casa, encontrra na rua o snr. Jos Fortunato, e a elle,
como fiel alliada, communicra logo alli o peculio de descobertas, com
que enriquecera o thesouro dos seus j numerosos conhecimentos.

Jos Fortunato horrorisou-se com a serie de estupendas noticias, que
ouviu de to auctorisada bca.

--No ha que fiar nos homens de hoje!--foi a sentena que elle lavrou,
depois de ponderar os famosos artigos d'aquelle libello diffamatorio.

--A mim no me enganou o melro--fez-lhe notar a snr. Antonia.

--Pois olhe que a mim...

--Agora o que  preciso  abrir os olhos fechados, que ha l por casa.

--Abrir?!... Melhor seria fechar alguns, que j se abriram de mais para
elle... No sei se me entende?

--Entendo, entendo. No ha de ter duvida. Socegue.

E a snr Antonia, serenando assim as apprehenses do seu protegido,
entrou para casa. Jos Fortunato ia pensando:

--Se eu avisasse o pae, mas de maneira que no soubesse que era eu...

Cecilia andava contente aquella manh.

O seu bom corao deixra-se repassar todo de alegrias, d'essas alegrias
travssas, agitadoras, de quem no quer reflectir no que as faz nascer;
alegrias que, vindo  luz, gosam da luz como as creanas, as quaes a
festejam com risos e cantares, ainda sem saudades do passado, nem
incertos temores do futuro, a amargurarem-lhes to ingenuo prazer.

Pobre rapariga! Mal sabia ella, que bem de perto a seguia a nuvem, que
havia de assombrar-lhe o fulgor d'aquelle contentamento!

Antonia machinava em silencio contra ella.  similhana da aranha, em
traioeira emboscada, aguardava paciente que aquella buliosa borboleta,
que voava em volta de si, viesse prender as azas na sua enredada teia.

Cecilia demorava-se porm pouco tempo junto d'ella, e pouco tempo em
toda a parte. Lembrava uma avezita prisioneira, quando, ao amanhecer de
um dia de sol desanuviado, aps longos de nuvens e de chuva, bate as
azas, salta de poleiro em poleiro, esvoaa de encontro s grades da
gaiola, e ensaia de novo o canto, havia muito interrompido.

Occupada com os preparativos do que ella chamava a festa do pae, Cecilia
no parava um momento. Descia ao quintal, para colher flores;
escondia-se no quarto, para formar ramos, e com elles enfeitar as
jarras; passava  sala de Manoel Quentino, para que a ausencia no fosse
estranhada, e com o fim de dizer ao pae algumas palavras de affecto;
depois voltava ao quintal e sempre com a ligeireza e agilidade, proprias
d'aquelle corpo flexivel e elegante e d'aquella nervosa compleio.

De quando em quando, chegava tambem  janella, esperanada em que um
feliz acaso lhe satisfizesse no sei bem que secretas aspiraes, as
quaes talvez a leitora adivinhe.

Foi em uma d'estas occasies, que Antonia, encontrando-se com ella no
corredor, lhe disse  queima-roupa:

--J esta manh vi o snr. Carlos.

Cecilia perturbou-se; mas inquiriu, affectando indifferena:

--Aonde?

--Ia a sar de casa. Entrou com uma senhora nova para uma carruagem...

--Havia de ser Jenny, a irm...

--Ai, no; no era, no, senhora. Essa tinha sado com o pae, logo pela
manh, que m'o disse a snr. Josfinha. Esta tal, que eu digo, chegou de
fra. Pelos modos...  das taes comediantes do theatro... que elle
conhece.

--Comediantes?!--disse Cecilia, no procurando j disfarar a
inquietao.

Aps este preludio, a snr. Antonia entrou de alma e corao na materia,
que esgotou completamente. Disse quanto ouviu, quanto viu e, mais ainda,
quanto pensou e concluiu de tudo o que ouvira e vira, graas quelle
vigor de deduco logica, que era dos mais caracteristicos dotes d'esta
senhora.

Cecilia, comquanto lhe parecessem exageradas as opinies da criada,
sentia que se lhe ia enlutando o corao ao ouvil-a; e que toda aquella
disposio para rir e cantar, com que lhe principira o dia, se lhe
estava transformando em irresistivel desejo de chorar.

No estio dos nossos climas amanhece s vezes o dia puro e formosissimo;
o co  azul; resplendentes os raios do sol; tepida e perfumada a
virao, que agita as folhas dos arvoredos; pouco a pouco, parece que o
sol desmaia; que desbota o azul do co; que nos abafa a atmosphera
inflammada; accumulam-se no horizonte, e espalham-se depois por todo o
firmamento, nuvens de um azulado de chumbo;--frma-se a trovoada.

Esta manh de Cecilia foi bem similhante a um d'estes dias de vero.

Quando Antonia acabou de expr as conceituosas reflexes a respeito do
caracter e vida de Carlos, e de provar  saciedade ser elle possuidor
das peiores qualidades d'este mundo, Cecilia separou-se subitamente
d'ella e correu a fechar-se no quarto.

Foi com as faces pallidas e com os olhos vermelhos que ella appareceu
diante do pae ao jantar. Contrastava tanto com estes vestigios de
tristeza o sorriso, a que pretendia obrigar os labios, que o effeito era
mais triste ainda.

Todo se alvoroou o corao de Manoel Quentino, ao vel-a; to contente
pela manh, e agora assim! Olhava para a filha, mas no se atrevia a
interrogal-a.

Cecilia bem fez por se mostrar jovial; fallou sempre durante o jantar,
mas havia tanto de facticio n'aquella vivacidade, que ninguem se podia
illudir, quanto mais o pae!

Reinou, durante todo o dia, entre Manoel Quentino e a filha aquella
especie de mutua desconfiana, que se d sempre com duas pessoas, quando
ha entre ellas um segredo, guardado por uma e suspeitado por outra, e no
qual ambas evitam fallar.

Aproximou-se a noite.

Jos Fortunato foi pontual.

Ceclia estava cada vez mais agitada; o corao era-lhe disputado por
esperanas, misturadas de receios, de ver chegar Carlos  hora
promettida, e por o presentimento, que lhe segredava que elle no viria
aquella noite.

A impaciencia, que d'aqui lhe nascia no espirito, revelava-se nas mais
pequenas cousas. Quanto mais se fechava a noite, tanto mais era para
notar em Cecilia aquella especie de excitao nervosa, em que as
occorrencias do dia a haviam lanado.

Chegou a ser cruel para com Jos Fortunato.

s vezes, at as respostas, que dava ao pae, saam-lhe com certo
azedume, de que immediatamente se arrependia, empregando depois tanto
ardor nas desculpas, que ainda mais afligiam e inquietavam o velho.

Segundo o costume, era ainda  doena, e s  doena, que elle attribuia
aquillo tudo, e por vezes, chamando a filha a si, insistiu, depois de a
beijar, em lhe tomar o pulso.

Manoel Quentino, que no entendia cousa alguma de organisaes nervosas,
julgava ver na frequencia das pulsaes em Cecilia um symptoma evidente
de febre e, por sua vontade, j teria rodeiado a filha de todo esse
apparato medico, com que, sob pretexto de combater uma doena, tantas
vezes se aggravam incommodos ligeiros.

Deram sete, oito, nove horas, e Carlos no apparecia.

A snr. Antonia andava com ares triumphantes. Jos Fortunato trocava
olhares de intelligencia com ella.

--Estou muito admirado da demora de Carlos!--dizia Manoel
Quentino.--Est decidido que no vem.

--Ser melhor trazer o ch--lembrou Antonia.

--Ser melhor esperar que lh'o mandem trazer--acudiu Cecilia com frieza.

Manoel Quentino, ao ouvir o tom d'esta resposta, fixou tristemente os
olhos na filha. Estranhava-a.

--O snr. Carlos teve pelos modos hoje outras distraces--observou Jos
Fortunato.

--E eu que o diga--acrescentou Antonia.

--Que diabo esto vocs a rosnar?--perguntou Manoel Quentino.

-- que...--ia Antonia a explicar-se, quando Cecilia a interrompeu.

--Ande, Antonia, ande; traga ento o ch, ande; avie-se.

E disse isto com a impaciencia de quem no admittia demoras.

Antonia obedeceu. Cecilia deixou tambem por um pouco a sala.

O snr. Jos Fortunato aproveitou o ensejo para fazer o seu amigo sciente
do que havia, em relao a Carlos.

Muito contra o que esperava, em vez de o ver indignado e horrorisado
quasi, achou-o com umas disposies para levar o caso a rir, que o
maravilharam.

--Aquella cabea no toma rumo!--dizia Manoel Quentino--Nem eu sei como
por tanto tempo aturou o servio do escriptorio! E olhe que foi bom e
real servio o que elle fez! Inda estou para saber como aquelle diabo de
rapaz pde em to pouco tempo fazer o que a muitos leva annos! Mas ento
com que... esta manh... Hein? Fugiu o passaro da gaiola? E de
carruagem! Fugir a sobredita senhora com o rapaz para o deserto? Eh!
eh! eh!... Bem; ento... n'esse caso... vamos ns tomando o nosso ch,
snr. Fortunato, vamos. J o podiam ter dito; escusavamos de ter alterado
as horas...

Quando Cecilia voltou  sala, inda Manoel Quentino ria, a bom rir.

--Cecilia--disse-lhe elle--vamos ao nosso ch; voltamos hoje aos nossos
antigos habitos, filha. Isto de passaros novos fogem, pilhando a gaiola
aberta... Os que ficam so estes, como o snr. Jos Fortunato, que j
esto trpegos de todo... Eh! eh! eh!...

O snr. Jos Fortunato no gostou demasiadamente da imagem. Manoel
Quentino proseguiu:

--Aqui o amigo contou-me agora a historia de uma certa carruagem e de um
certo rapaz, que Antonia lhe disse...  muito engraada... Eh! eh! eh!

--Eh! eh! eh!--fez o snr. Jos Fortunato tambem--mas ficou-lhe bastante
caro o entrar no duetto, visto que Cecilia o castigou, dizendo:

--Engraada? Ento  por excepo. No  essa a principal qualidade das
historias do snr. Fortunato.

Jos Fortunato pz-se logo muito serio; Manoel Quentino olhou espantado
para a filha.

Episodios d'estes reproduziram-se durante todo o sero d'aquella noite.
Que triste no era a alegria que Cecilia affectava, ao trazer para o
quarto do pae as flores, que preparra de manh, cheia de contentamento!
Lidar com flores, assim, com tanta melancolia, s quando se enfeita com
ellas um tumulo. Marejava-lhe nos olhos o pezar do corao; de pouco lhe
valia o sorriso nos labios. O sero acabou cdo. Cecilia precisava de
estar s; queria-se livre de todo o constrangimento, queria poder
chorar, sem receio de vistas curiosas, de perguntas indiscretas, de
reflexes impertinentes.

Ser necessario dizer que velou toda a noite?

Levantou-se na madrugada seguinte com resoluo formada.

--Eu  que era louca--pensava ella--illudi-me sem fundamento...
acreditei... e por que acreditei eu?... De que me queixo?... Nem direito
tenho a resentir-me. Paciencia!--dizia a meia voz, suspirando--Hei de
ter fora bastante para tirar esta loucura d'aqui.--E levava a mo 
cabea, e, depois de reflectir, murmurava, mais baixo ainda, descendo-a
para o logar do corao:--E d'aqui nada terei que arrancar?

Manoel Quentino foi n'essa manh para o escriptorio. A convalescena era
completa, mas para o ser tambem a sua alegria seria preciso que, ao
despedir-se da filha, no tivesse notado no semblante d'ella outra vez a
antiga expresso dolorosa.

Horas depois d'elle sar, passava Carlos, segundo o costume, por baixo
das janellas, d'onde ordinariamente Cecilia o esperava.

D'esta vez, achou-as fechadas, e corridas as cortinas.

Carlos estranhou aquillo, e por muito tempo no desviou os olhos
d'ellas.

Atravs d'essas desapiedadas cortinas algum o observava porm. Era
Cecilia.

Vejam como ella tentava arrancar da cabea, ou antes do corao, o que
chamra loucura?

E desejaria devras arrancal-a?

Sem ser vista, seguia todos os movimentos de Carlos; viu-o passar; olhar
com atteno para as janellas; caminhar mais de vagar  medida que se
afastava; parar, e, parecendo tomar uma subita resoluo, retroceder,
atravessar a rua e entrar para o portal da casa.

Cecilia recuou, como se podesse temer ser vista de fra.

Cdo ouviu tocar a campainha da cancella.

Cecilia estremeceu e dirigiu-se ao corredor.

J ahi encontrou Antonia, que descia para ver quem tocava.

--Antonia--disse-lhe rapidamente Ceclia--se for alguem a procurar-me...
diga-lhe que... que no posso fallar, que... estou doente... Seja quem
for... Entende?

--Entendo, sim, menina--respondeu Antonia, com um sorriso de quem
entende de mais.

Foi com modos desabridos que recebeu Carlos...

Este perguntou-lhe se Manoel Quentino tinha ido de facto para o
escriptorio, porque, vendo todas as janellas fechadas, lembrra-se de
que tivesse talvez recado.

Antonia respondeu:

--Pois fique descansado. Foi para o escriptorio, foi, sim, senhor. Elle
agora est de todo. E a menina manda dizer que no pde fallar a
ninguem, porque est doente.

--Doente?!--perguntou Carlos com uma inflexo de voz, que fez quasi
arrepender Cecilia, que o escutava, da ordem que dera  criada.

--No  cousa de cuidado, graas a Deus;--proseguiu esta--mas, em todo o
caso, no a deixar to cedo receber visitas... de ceremonia. E ha de
dar-me licena, que tenho a minha vida.

E, acto contnuo, ouviu-se o bater da cancella, que se fechava.

--Antonia--disse Cecilia  criada, assim que esta chegou ao patamar,
trazendo nos labios um sorriso de victoria--a fallar a verdade voc foi
de uma grosseria!

--Ora deixe l, menina. Tudo  preciso com certa gente.

Carlos, ao sair do portal, pensava:

--Despeitos! Ser por eu no ter vindo hontem? Deus o queira; tudo se
explicar em meu abono e depois o direito a uma compensao ser optimo
advogado na minha causa. A indifferena era peior.

D'alli foi Carlos para o escriptorio, onde deu a Manoel Quentino os
parabens, pelo seu restabelecimento.

--Sinto--acrescentou--no ter podido hontem festejar, como tencionava, o
seu ultimo dia de doena, mas o que houve l em casa... J sabe?

--J sei--respondeu Manoel Quentino, que se mostrava algum tanto
embaraado.

--Esta manh ia com teno de saber de si--continuou Carlos.--Vendo
todas as janellas fechadas, receiei que se tivesse sentido peior. Soube
porm que era sua filha que se achava incommodada.

--Cecilia?!--exclamou Manoel Quentino, j assustado.

--Socegue--respondeu Carlos, sorrindo, porque o espanto de Manoel
Quentino acabava de confirmar as suspeitas, que tivera--pela maneira por
que me fallou a criada, imagino que no  de gravidade o incommodo. Nem
tempo tive de averiguar d'isso, tal foi a pressa com que ella me fechou
a porta. A boa mulher parecia ter mdo de mim. Fallou-me com um
arreganho!

Manoel Quentino fez que sorria; mas era evidente que alguma cousa lhe
pezava no corao.

Depois de curta hesitao, aproximou-se de Carlos, e ainda com modo
constrangido, disse-lhe, chamando-o de parte:

--Snr. Carlos, eu tenho-o por um homem de bem; por isso prefiro
fallar-lhe com franqueza a andar com jogo encoberto, que nem  para o
meu genio, nem para o seu.

Carlos ficou surprendido com aquellas palavras, to inesperadas como
mysteriosas.

--Ento que temos, Manoel Quentino? Falle. Parecem communicaes graves
as que tem para me fazer--dizia elle, olhando-o interrogadoramente.

--Escute. Eu sei os favores que lhe devo e sei a f que se pde
depositar no seu caracter, que ser tudo quanto quizerem, menos capaz de
uma infamia.

Carlos escutava-o cada vez mais admirado.

Manoel Quentino proseguiu, augmentando-se-lhe o embarao com que
principiou:

--Mas... no mundo, em que vivemos, ha a verdade e ha as apparencias,
e... no basta smente attender  primeira,  preciso tambem salvar as
outras...

--Mas a que vem tudo isso?--perguntava Carlos.

--A propsito de uma... de uma loucura, mas que, apesar de saber que o
, eu tenho obrigao de attender. Esta manh veio ter ao escriptorio
pela porta interna uma carta anonyma. Queira lel-a, e depois dir o que
devo fazer.

A carta, cuja lettra era visivelmente disfarada, dizia:

Alguem, que toma a peito a reputao dos seus amigos, avisa-o de que as
visitas do snr. Carlos a sua casa, esto j dando que fallar 
vizinhana. Lembre-se de que, pela sua reputao, esse rapaz  uma
visita pouco propria em qualquer casa, onde existe uma menina de dezoito
annos.

Assignado: Um amigo desinteressado.

Carlos, acabando de ler esta carta, passou-a para Manoel Quentino,
dizendo-lhe com profundo despreso:

--Estas so ferroadas de insectos, que se esmagam com o p.

--No julgue que me deixo levar por esses protestos de amizade
desinteressada;--disse Manoel Quentino--mas, tanto peior se, como
suspeito, ha antes malevolencia n'isto. A bca, d'onde saram estes
conselhos, espalhar a calumnia; e, se tenho coragem para me rir d'ella,
quando se refira a mim s, estalar-me-hia o corao, se de minha filha
se dissesse uma s palavra que a affligisse, que lhe causasse uma
lagrima.

--Tem razo--respondeu Carlos, curvando a cabea, pensativo.

--Agora diga; que me aconselha que faa? Confio no seu cavalheirismo, e
por isso  a si e a mais ninguem que peo conselho.

--Obrigado, Manoel Quentino--respondeu Carlos, apertando-lhe a mo.--
preciso que se me fechem as portas da sua casa.

---Carlos! O senhor bem v que eu no lhe mereo essa ironia.

--No  ironia.  effectivamente preciso que eu deixe de visital-o. Eu
saberei comprehender a sua posio; acredite-me.  justo que pague a
leviandade, com que me afiz a habitos, que, reconheo-o hoje, no eram
talvez os que a minha indole me pedia. Paciencia.

Manoel Quentino abraou-o commovido.

 noite, Mr. Richard e Carlos e muitos dos seus amigos assistiram na
capella ingleza do Campo Pequeno s ceremonias funebres pela velha Kate,
em cuja sepultura o proprio Mr. Richard lanou, segundo o costume
inglez, os primeiros punhados de terra.

No fim do enterro, Carlos despediu-se de Manoel Quentino, que viera
assistir ao acto.

O bom homem, j habituado  companhia de Carlos nos seres, no teve mo
em si que lhe no dissesse:

--Venha commigo, Carlos; ao menos hoje ainda. Riremos um bocado; isto de
ir para casa com as ideias de um enterro na cabea, no  grande
cousa... Venha.  dar muita importancia ao mundo, privarmo-nos, por
causa d'elle, da...

--No, Manoel Quentino; convem por agora interromper as minhas visitas.
Talvez um dia o procure, mas... Adeus, adeus.

E voltou a casa.

Jenny viu-o to melancolico, que lhe disse:

--Charles, quando d'antes tinhas alguma cousa que te affligisse,
confiavas-m'a. Por que j o no fazes agora?

--Jenny, concede-me algum tempo. Talvez, dentro em pouco, eu tenha muito
que te dizer e muitos conselhos a pedir-te.

Foi a resposta que obteve.

Carlos no faltou  palavra que dera a Manoel Quentino.

Dois dias se seguiram a este sem que a vizinhana do guarda-livros
tivesse que reparar nas assiduas passagens de Carlos por aquella rua,
nem a snr. Antonia de soffrer a contrariedade das suas visitas.

Mas, se na sobredita vizinhana houvesse quem depois da meia noite
estivesse acordado, poderia s vezes ver passar um homem por diante das
janellas fechadas d'aquella casa, e olhal-as como se esperando que ellas
a final se cansassem de sua desesperadora discrio.

Taes eram j as propores que havia tomado em Carlos o que Jenny
chamra uma phantasia!

Porque esse homem era elle.

Chegra-se a maio. Era uma d'estas noites de luar, serenas, tepidas,
perfumadas, em que um instincto irresistivel nos leva a procurar as
arvores, a escutar de perto o murmurio das fontes. Abafa-se nas salas.

Demorra-se Carlos d'esta vez diante das janellas de Cecilia em uma
d'aquellas contemplaes, de que s os espiritos frios podem ter animo
de zombar, quando certo rumor na pequena janella de grades, que se abria
no muro do quintal de Manoel Quentino, lhe chamou a atteno.

Carlos retirou-se para a parte assombrada da rua e esperou. A janella
abriu-se, e o luar, batendo em cheio do lado d'ella, illuminu a suave
figura de Cecilia.

Carlos permaneceu immovel.

Cecilia estava s; e quem, se no ella, tinha n'aquella casa imaginao
bastante para se seduzir com os encantos de uma noite assim?

Recostando-se  janella, a filha de Manoel Quentino conservava-se tambem
immovel. Havia tanta languidez no reclinar da cabea sobre a mo, tanta
belleza e poesia n'aquella figura pallida, que a phantastica luz do luar
mais pallida fazia, que, ainda sem ter a imaginao de Carlos, era
possivel quasi acreditar por momentos ser aquillo uma appario de noite
de estio, como, nas suas lendas, as concebe a phantasia popular.

Que lisongeira voz segredou ao ouvido de Carlos, que era n'elle que
aquella mulher pensava? Vaidades de corao, e tantas vezes mentirosas
illuses dos desejos, quem ha ahi que possa gabar-se de nunca vos ter
experimentado?

Cecilia foi subitamente despertada d'aquelle quasi sonho, em que parecia
arrebatal-a a claridade do luar, por a voz de alguem que lhe pronunciava
o nome por baixo da janella.

Cecilia reconheceu, estremecendo, aquella voz. Era a de Carlos.

-- snr. Carlos!--exclamou ella, sobresaltada e fazendo um movimento
instinctivo para retirar-se.

--Escute--disse Carlos--escute-me. So poucas palavras s as que tenho a
dizer-lhe. Vim aqui sem esperana de lhe fallar. Contento-me ha muitos
dias com menos. Ver as janellas da casa em que mora tem-me bastado. Mas,
uma vez que o acaso a trouxe ahi, deixe-me no perder a unica occasio
que tenho agora para lhe dizer o que desejava...

--Mas bem v que...

--Oua-me. Dei a minha palavra a seu pae de que no voltaria a esta
casa. Houve alguem interessado em interromper as minhas visitas, e
conseguiu-o, porque eu mesmo julguei necessario interrompel-as.
Acreditar que o fiz sem custo, Cecilia?

Cecilia no respondeu, porque no podia.

--De hoje em diante s um motivo me pde trazer de novo aqui, a sua
casa,  luz do dia, e aos olhos de todos; mas antes, preciso interrogar
o seu corao, Cecilia. Elle s me pde auctorisar a adoptal-o, esse
motivo que digo.

Cecilia ganhou coragem e conseguiu emfim responder:

--Snr. Carlos, a doena de meu pae acabou. O generoso procedimento que
teve para com elle, durante os dias d'essa doena, creia que fez nascer
em mim sentimentos de... gratido, que nunca mais esquecerei. Recordo-me
de que fui a primeira a implorar o seu auxilio, e sei de que importancia
foi o que me concedeu. Por ns quiz o snr. Carlos abandonar, e por muito
tempo, habitos de vida proprios da... sua idade, e... da sua posio...
O ultimo dia da enfermidade de meu pae, pelo menos, devia para si, snr.
Carlos, ser o primeiro dia de liberdade e... e foi. Se meu pae entendeu
que devia exigir... ou pedir-lhe que terminasse o... sacrificio, no me
compete a mim ir de encontro s resolues de meu pae. No vejo a
necessidade de adoptar qualquer motivo para renovar umas visitas, que
hoje no teem razo para serem renovadas... por isso...

--Mas, Cecilia, e se essa razo, e forte, e irresistivel, e urgente,
estiver em mim, no meu corao?...

--Snr. Carlos, espero que me faa a justia de acreditar que...--e a voz
de Cecilia tremia ao dizer isto--que eu sou ainda superior a esses
galanteios. Se as circumstancias, que acompanharam o nosso primeiro
encontro, lhe poderam deixar impresses que o levem a tratar-me assim,
peo-lhe que se recorde de que Jenny, de que sua irm, ainda me trata
como amiga, depois de saber tudo quanto n'aquella noite se passou.

--Cecilia!

--Adeus, snr. Carlos. Sei que ha muita nobreza de sentimentos na sua
alma e por isso espero d'ella que comprehenda a necessidade de acabar
com isto. Adeus.

E retirou-se apressadamente da janella.

Carlos ficou por muito tempo immovel no logar em que Cecilia o havia
deixado, e sem saber como explicasse to rigorosa severidade.

No tinham decorrido muitos minutos, assomou  mesma janella um vulto
que, curvando-se para a rua, disse em tom de zombaria, para Carlos:

--Muito boa noite. Com licena.

E fechou as portas da janella.

Era a snr. Antonia, que tinha espiado de longe Cecilia, sem que
conseguisse ouvir o dialogo d'ella com Carlos.

Logo que a sua jovem ama se retirou, correu a observar quem estava na
rua, viu e reconheceu Carlos ainda junto do muro.

Carlos, achando-se surprendido, estremeceu e partiu d'alli inquieto.

--Saberia ella que a ouviam e por isso fallaria assim? Ou espial-a-ho
sem que o desconfie? Alguma cousa deve ter-se passado, desfavoravel para
mim, para ser assim tratado. A minha falta s no explica...

E chegou a casa, pensando n'isto tudo.




XXIX


OS AMIGOS DE CARLOS


A scena, que descrevemos no precedente capitulo, aggravou o estado moral
de Carlos.

Cada vez mais concentrado, passava horas inteiras no quarto ou
entranhava-se pelas ruas de verdura do jardim; cada vez mais triste, nem
Jenny podia j inspirar-lhe aquellas promptas alegrias de outros tempos
e tanto do caracter d'elle.

Jenny convenceu-se de que era mais do que um mero capricho o que assim
se assenhorera do corao do irmo.

E em Cecilia que seria?

A filha de Manoel Quentino havia desde muito evitado a presena de sua
amiga. D'isto mesmo desconfiava Jenny.

-- preciso sondar aquelle corao tambem, e se o encontrar assim...
ento... ento...

Esta reflexo terminou-a ella sentando-se  secretria e escrevendo:

Cecilia.

 amanh o dia dos meus annos. No me reservar para ento a surpreza de
me assegurar que ainda vive? Repare que ha dois longos mezes que a no
vejo. Fico esperando-a, desde o romper do dia de manh.

Sua amiga

Jenny_.

O dia seguinte era de facto o do anniversario de Jenny.

Cecilia recebeu a carta e hesitou sobre o que lhe convinha fazer. Tinha
receio de ir, temia encontrar-se com Carlos; tinha remorsos de recusar,
havia tanto que evitava a companhia d'aquella que sempre lhe dera provas
de tanta estima! Alm de que, terminra com a doena do pae o pretexto
com que ella justificava a ausencia. Era demais um dia santo o dos annos
de Jenny, e, como tal, mais livre para Cecilia. Em toda a noite no
resolveu comtudo o que fizesse, nem fallou a alguem do convite recebido.

Comeou o dia seguinte.

Carlos acordra com a resoluo formada de abraar algum partido
decisivo. Era-lhe insoffrivel a incerteza, em que estava vivendo.

Com a cabea apoiada entre as mos, todo recolhido ao mundo interior e
cortadas as relaes com o externo, procurou assim descobrir o melhor
caminho, por onde sasse d'aquella situao, insupportavel para o genio
d'elle.

No sei se deva aconselhar o meio como efficaz. Talvez seja mais
prudente pensar com os olhos abertos para o mundo que nos rodeia, visto
que n'elle vivemos e actuamos, e que, a no o incluirmos como elemento
nos nossos calculos, corremos o risco de adoptar resolues, que mais
tarde nos valham choques incessantes e dolorosos conflictos.

O pensar com os olhos fechados  s bom quando se trata de cousas
puramente metaphysicas; mas procurar assim regras de procedimento na
vida,  imprudente.

O resultado que produziu em Carlos este systema de pensar, foi a
seguinte carta, que elle escreveu com vivacidade quasi febril:

    Cecilia.

    Ha dias recusou ouvir-me, quando o acaso me aproximou de si; no
    leve o rigor ou a desconfiana a ponto de desviar os olhos d'esta
    carta que escrevo, subjugado por uma necessidade irresistivel, por
    uma violencia do corao. Quando lhe fallei com toda a sinceridade,
    que inspira uma paixo vehemente, Cecilia tomou as minhas palavras
    por um simples galanteio e recusou escutal-as; e no haveria na
    minha voz alguma cousa a assegurar-lhe que eu no mentia? Como
    poderei esperar agora que seja mais efficaz esta carta,  qual no
    posso transmittir aquillo que se no traduz em palavras: o
    sentimento? Como a poderei convencer, Cecilia? Se imagina sequer o
    respeito, a venerao que tenho pelo nome de minha irm, no
    acreditar que possa mentir, invocando-o, ao affirmar-lhe que a amo,
    Cecilia; se cr que a memoria de minha me  para mim de tanta
    adorao e saudades, como as que se apoderavam do corao de Cecilia
    e lhe transluziam no rosto, quando a vi ajoelhada no tumulo da sua,
    pela memoria de minha me lh'o juro tambem Que mais quer? que mais
    exige? No me julgue pelo passado; entre elle e a minha vida de hoje
    elevou-se uma barreira, no dia em que principiei a trazer a sua
    imagem no pensamento e o seu nome, etc., etc...

Eu pouparei ao leitor a transcripo na _integra_ d'esta carta, que
proseguia assim por mais algumas paginas e em estylo que, provavelmente,
lhe deve ser familiar.

Carlos terminava por pedir a Cecilia, que lhe revelasse tambem o estado
dos seus sentimentos. Qualquer que seja a resposta, obrigar-me-ha a um
passo decisivo para o meu futuro, terminava elle.

Acabava de assignar, fechar e sobrescriptar esta carta, e pensava na
maneira de a enviar ao seu destino, quando ouviu um som de passos e de
vozes, que cada vez parecia mais proximo, at que muitas, repetidas e
violentas pancadas fizeram oscillar a porta do quarto, como se ameaasse
um arrombamento.

Carlos levantou-se em sobresalto, sem que lhe occorresse logo a
explicao de todo aquelle ruido.

--Ol, santo ermito--dizia uma voz pelo buraco da fechadura--abri a
porta a uns pobres romeiros, que de longe vem, attrahidos pela fama da
vossa piedosa vida.

--_Monsieur Charles_--continuava outra voz--_ls des soins d'ici bas, se
retira loin du tracs_,  maneira do rato da fabula, que se penitenciava
em um queijo; queira Deus que este tambem...

--Por causa de uma mulher recolheu-se Achilles  tenda, abandonando os
companheiros. Os invulneraveis teem destas fraquezas.

--Alto l, a insinuao  grave ou, pelo menos, anticipada. Nada de
condemnar antes de ouvir.

--Abre, abre, Carlos; por ordem superior!

Carlos teve ainda alguns momentos de hesitao.

A vozeria redobrava; repetiam-se, com mais violencia, as pancadas na
porta.

Resolveu-se emfim a abril-a.

Entraram. Eram os principaes companheiros dos seus passados
divertimentos, muitos dos quaes j encontramos n'aquelle jantar da Aguia
d'Ouro. Fartos de o aguardarem todas as noites, sem que em nenhuma de
tantas o vissem apparecer, tinham resolvido procurar esse transfuga dos
seus arraiaes.

Operou-se completa mudana de scena, digna, pela celeridade, de um
tablado inglez.--Em poucos momentos, um bando de rapazes invadiu o
quarto; e cdo, cadeiras, mesas, sofs e leito foram occupados por
elles, como por um enxame de abelhas.--Tudo era desordem minutos depois.

--Ento que  isto? que  isto? Que quer dizer esta mysteriosa
recluso?--perguntava um, estendendo-se no sof, em postura digna do
sulto.

--Como se ha de explicar este eclipse total de um dos mais luminosos
astros da nossa brilhante pleiade? A Venus do proscenio de S. Joo chora
por ti; o genio que preside  feitura das costelletas da Aguia esmorece;
no Guichard a deusa do paradoxo lamenta um dos seus mais fervorosos
servos;  uma serie de calamidades por ahi alm. Como as explicas
tu?--Isto dizia outro, vasando meio vidro de _curious essence_ sobre o
fino leno de bretanha.

--Expliquem-as como quizerem--respondeu Carlos, sentando-se com enfado,
que no procurava encobrir.

--Ora que tem isso que explicar? disse o do sof--No fallaram ahi em
eclipses? As minhas recordaes de lyceu dizem-me que o eclipse  em
geral o resultado da interposio de um astro entre ns e o eclipsado.
Procurem aquelle que nol-o tem occulto...

--Imaginem que estive doente--acudiu Carlos, tentando desviar a conversa
da direco que este seu amigo lhe dera.

--Rejeitada a explicao por maioria--bradou um rapaz louro e de modos
feminis, typo de Apollo de _cake_, cartaz vivo de cabelleireiros e
alfaiates, ageitando ao espelho as complicadas madeixas de um cabello
monumental.

--Por unanimidade--bradaram mais dois.

--Adopto-a eu--contradictou um occupado a despejar quantas gavetas
encontrava,  procura de lumes para accender o charuto.--Carlos est
doente, mas... do corao... Pois que  o amor?

  --_Ah nhe d'amore
  La fiamma io sento_

trauteou o do toucador, cantando a aria de Rosina.

--A tua alma est doente, Carlos--sentenciou um estudante de medicina,
que era tido na conta de espirituoso.--E essa pathologia  a minha
especialidade.

--Que falle a sciencia ento; que falle a sciencia--exclamaram alguns.

O estudante sentou-se ao lado de Carlos, revestiu-se de um ar de
gravidade doutoral, e tomando-lhe'o pulso, principiou:

--A alma padece de mui variadas frmas. Temos os pruridos da duvida,
doena chronica nos philosophos que procuram a certeza; hypertrophias de
crenas, mal frequente aos vinte annos; aneurismas de aspiraes, muito
vulgares em bachareis formados; ictericias de desespro, nos chefes de
familia numerosa; fracturas de caracter, nos homens politicos; luxaes
de senso commum, nos poetas; paralysias de ociosidade, nos empregados
publicos; dyspepsias de indignao, nos contribuintes; _noli me tangere_
de susceptibilidades, nos deputados fluctuantes; convulses de
enthusiasmo, em afilhados de ministros; marasmos de desalento, em
pretendentes sem proteco; cancros de exigencias, em diplomatas
indispensaveis; epilepsias de ciumes, nos maridos; e as cataractas do
amor, em...

-- a doena de Carlos,  a doena de Carlos.

Carlos moveu-se com impaciencia.

--Pois  terrvel doena!--continuou o orador--Vejamos. Causas:-- hoje
inquestionavel que esta especie de cegueira procede de ordinario da
exposio do doente ao fogo e esplendor de uns olhos e ao halito
embalsamado de uns labios de mulher. Para evitar o contagio
construram-se em tempo varios estabelecimentos hygienicos a que
chamaram conventos. A doena porm zombou d'elles, como costumam fazer
as verdadeiras epidemias dos lazaretos e cordes sanitarios, e at no
famoso hospicio de Thebaida se manifestaram casos d'ella. A mocidade 
condio favoravel para se contrahir o mal; porm na velhice  elle mais
para temer, por de mais tristes consequencias. De resto, traz de
ordinario comsigo esta molestia srias complicaes.

Carlos mordia os labios de impaciencia; o amigo continnuou, entre as
gargalhadas dos outros:

--Os symptomas so variados. Em geral o doente tem physionomia de parvo
caracteristica; no intervallo dos accessos ce em uma especie de
beatifica idiotia, da qual nem os causticos o arrancam. Nos paroxismos
chega a arrepellar os cabellos, a amarrotar os collarinhos, a soltar
gritos, que bolem com a vaidade dos tigres, e arrulhar de maneira que
causa o desespro dos pombos. Nos casos mais fortes, a doena toma um
caracter de malignidade e o doente faz-se poeta. N'este estado o medico
perde as esperanas e reclama os sacramentos... do matrimonio.

--E o tratamento? e o tratamento?--perguntaram alguns rindo.

--A hygiene  tudo, meus amigos; mal vae se a profilaxia no atalhou a
molestia. Nas _Confisses_ de Joo Jacques allude-se, como preservativo,
s mathematicas. No approvo. Para mim  averiguado que as mathematicas
tem s por effeito o imprimir  doena a feio perniciosa. O
mathematico amoroso  a mais rebelde especie de doente, de que ha
noticia. Entra nos incuraveis. Os meus preceitos so outros. Recommendo
a gastronomia, porque as funces do estomago e do corao so
antagonistas. Aconselho a leitura do _Feliz independente_, e de todas as
obras de bom senso--antidoto do amor.--Mas se a molestia, apesar de
tudo, progride, ento o especifico mais heroico para radicalmente a
curar...

--Qual ?--perguntaram simultaneamente.

--O casamento.

De todos os circumstantes foi Carlos o nico que no applaudiu a
dissertao do amigo. Passeiava a passos largos com impaciencia
crescente.

--Peo-lhes, por especial favor, que me deixem em paz--disse elle,
acalmada a trovoada de gargalhadas.

--Deves-nos uma confidencia--tornou-lhe o do sof, tomando uma posio
ainda mais orientalmente commoda.

-- uma satisfao--acrescentou outro, empunhando um florete, e pondo-se
em posio de esgrima.

Carlos nunca se sentira de to m vontade para com os seus amigos.

--A cousa  facil de explicar--disse elle sccamente.--Sabem que sou,
que sempre fui homem de caprichos. A agradavel convivencia dos meus
amigos principiara a enfastiar-me de morte. Resolvi pois furtar-me ao
prazer--invejavel--de os ver. Ahi teem. Passando-me isto,
encontrar-me-ho de novo talvez, e talvez que no.

--Nada, nada. A camara, ouvidas as explicaes do ministro, no se d
por satisfeita, nem passa  ordem do dia--replicou o do florete.--Ha
ainda cousas a esclarecer. Voc deve-nos um relatorio. Aquella celebre
mascara? aquelle mysterioso domin, que prometteu seguir at o fim do
mundo, nas vesperas da sua sequestrao? Nunca mais se fallou em tal, e
ha quem insista em ver ahi o principio de to subita converso.

Carlos recebeu uma desagradavel impresso com a importuna lembrana e
sentiu vontade de tomar a serio a posio bellica, que o interpellante
conservava, e fazel-o arrepender de possuir to boa memoria.

Limitou-se porm a responder:

--No me perguntem cousa alguma a esse respeito, porque nada lhes posso
dizer.

--Ah! mysterios!... Ai, amor! amor!--exclamou o do espelho, e continuou,
cantando:

  _Dove non ride amore
  Giorno non v'ha sereno..._

--Deixem Carlos; um juramento, feito a horas mortas, tendo por
testimunhas as estrellas, e uns olhos, mais brilhantes ainda,  sagrado.

--Nada posso dizer, porque nada sei--acudiu Carlos, despeitado pela
interpretao que deram s suas primeiras palavras.

--E nada sabes, porque nada viste? Meu caro, a tua discrio vae sendo
de mau gosto--disse o do sof, executando um movimento, em virtude do
qual lhe subiram as pernas cincoenta centimetros e lhe desceu outro
tanto a cabea.

--_Eureka_! _Eureka_!--bradou um que se aproximra da mesa--uma prova
irrecusavel do crime!... O instrumento do delicto! Uma carta!...

A estas palavras Carlos estremeceu. O da descoberta empunhava com gesto
triumphante a carta escripta momentos antes a Cecilia.

--Uma carta! E de que especie?--perguntava o cro.

--Ora! _papier rose_ e _odeur enivrant_--respondeu o outro,
aproximando-a do nariz, com gesto expressivo.

Carlos teve vontade de atirar pela janella fra aquelle seu amigo, que
proseguiu:

--E o sobrescripto diz...

--O qu?... o qu?...--perguntaram todos, acercando-se d'elle com
ardente curiosidade.

-- indiscrio de mais!--exclamou Carlos, levantando-se para lhe
arrancar a carta das mos.

Os outros detiveram-o.

--Que  isso? D'onde te surgiram,  ultima hora, esses escrupulos de
donzella ingenua?

--Prohibo-lhes que... -- dizia Carlos, esforando-se por se lhes livrar
dos braos.

--Ora deixa-te de pieguices--respondiam elles, rindo e continuando a
segural-o.--L tu d'ahi depressa, antes que o leo se solte. Olha que
est furioso! No imaginas.

--Excellentissima senhora--lia vagarosamente o da carta, como para
prolongar mais a scena que o divertia.

--Ah... Ex... cel... len... tis... si... ma!--repetiam os outros,
accentuando cada syllaba.

--Cecilia de...--continuava o que lia.

--Ce... ci... lia! Oh nome musical!

--Phylarmonica invocao!

--Santa patrona da harmonia!

--Inspiradora da harpa!

Por um movimento mais energico e imprevisto, Carlos conseguiu afastar o
grupo, que lhe estorvava a passagem, e correndo  mesa, tirou finalmente
a carta das mos do que a havia descoberto.

--Ha certas familiaridades, para que no auctoriso ninguem--disse elle,
pallido e agitado de indignao e de raiva.

Depois tocou a campainha com violencia.

Acudiu ao chamamento o seu criado particular.

Carlos entregou-lhe a carta, dizendo:

--Leva ao seu destino.

Ia o criado a retirar-se, quando elle o reteve para lhe dizer ainda a
meia voz:

--Se te perguntarem... dize que  do mando de... _miss_ Jenny.

O criado, mostrando ter comprehendido, sau.

Todos haviam guardado silencio at ento, seguindo com pasmo os
movimentos de Carlos.

Depois do criado se retirar, ainda este silencio se manteve por algum
tempo; a final uma voz disse:

--Bonito final de acto! O criado se, Carlos senta-se sorumbatico, e os
outros actores contemplam-o attonitos e... aparvalhados--_Tableau_.

A estas palavras, todos se entre-olharam e, como se se achassem uns aos
outros ridiculos, soltaram unisona gargalhada.

Carlos julgou melhor sorrir tambem, ainda que interiormente se lhe
estivesse redobrando a impaciencia.

--Palavra de honra!--continuou um--que nunca vi Carlos assim. Est
romantico.

--Ultra!

--Furioso!

--Como um leo!

--Como um touro!

--Como um turco!--disse o de tendencias orientalistas.

--V, v, Carlos; observa os bons principios. O amor fez te selvagem.
Civilisa-te.

--Conta-nos a historia d'essa Cecilia.

-- alta ou baixa?

--Morena ou loura?

--Typo grego ou oriental?

--Aposto que  a do dmin.

--Com certeza.

--V, homem; conta-nos como isso principiou.

--Olha que uma paixo concentrada  um ninho de aneurismas;
cautela!--disse o medico das doenas de alma.

--Cecilia!  euphonico na verdade!

--Peo-lhes que no continuem a fallar assim de um nome que eu...
respeito.

Uma risada geral acolheu o pedido.

--Ah! ah! ah! Ests muito bom!

--Est delicioso!

--Nunca o vi apurado a este ponto!

-- Carlos!

--_Povero amico~_!

O rubor de despeito e de clera tingiu as faces de Carlos.

--Repito. Que eu respeito. Julgo que me daro licena para poder fallar
serio alguma vez.

--Ah! de certo. Mas, sempre que isso acontecer, eu no me hei de poder
ter com riso.

--Tu a fallares serio!

--Ento de facto ests apaixonado? Pois conta-nos isso. Bem sabes que os
amigos so para as occasies.

--_Amicus certus..._

--Canta a tua aria de confidencia, que o cro te secundar...

--Quando no, procuraremos, descobriremos, e depois ento seremos
implacaveis, crueis! V l!

--Fatal dmin!

--Pois acreditas?

-- elle com certeza.

-- Carlos, acautela-te. Colheste a flor em mau terreno; apanhaste a
perola em agua bem envolta, um baile de mascaras!

Carlos tentou obrigal-os ao silencio pelo silencio.

--Estou resolvido a no lhes dar explicaes. Por isso quando quizerem
deixar de ser inutilmente importunos...

Ainda por muito tempo no adoptaram elles essa resoluo. A assembleia
manteve-se em ruidosa e desordenada discusso por mais de meia hora.
Carlos fingiu ler.

Emfim viu-os sair e respirou, como se livre de um peso, que lhe
comprimisse o peito.

--Adeus, Carlos, _muchas venturas_!--dizia um.

--Fao votos pela tua felicidade--secundava outro.

--Adeus, adeus.

Um cantava:

  Ai quem me dera em Sevilha,
  Onde a travssa hespanhola
  Sob a elegante mantilha
  As negras tranas enrola.

E a alegre companhia abandonou tumultuariamente o quarto.




XXX


PESO QUE PDE TER UMA LEVIANDADE


Com a sada dos amigos, no se dissipou immediatamente em Carlos a m
impresso que lhe deixra aquella visita.

No sei que haja alguem to indifferente e sobranceiro  opinio alheia,
que possa ouvir, sem se commover e revoltar, o nome s que seja de
qualquer pessoa estimada, pronunciado menos reverentemente por labios
estranhos e de mistura com as phrases e palavras de uma conversa
leviana.

Um delicado pudor de corao sobresalta-se, quando assim exposto a
olhares profanos o idolo do seu mais puro e secreto culto.

Desgostoso com os outros, no estava Carlos mais satisfeito comsigo.
Soltra inconsideradamente da mo a carta escripta a Cecilia, e s agora
reflectia na pouca delicadeza com que o fizera, e na inconveniente
escolha de emissario. Um outro motivo de inquietao o perturbava ainda.
No momento de expedir o criado com a mensagem, esquecera-lhe que, sendo
dia santo, Manoel Quentino estaria provavelmente em casa; e como poderia
Cecilia occultar-lhe o contedo da carta, ainda quando lhe dissesse que
era de Jenny?

Todas estas consideraes foram, a pouco e pouco, levando Carlos a um
d'esses estados de impaciencia e de agitao de espirito, inconciliaveis
com o repouso do corpo, o qual provocam a aco, ao movimento.

As indefinidas aspiraes que, em taes estados, sentimos, sendo
superiores aos meios de que dispomos para satisfazel-as, accumulam em
ns excessos de energia, que se revelam por uma actividade sem plano,
sem fim,  qual cedemos como a necessidade organica, no tentando, nem
conseguindo regulal-a ou conduzil-a.

Por isso, como se no limitado espao do quarto abafasse, Carlos
levantou-se para sar.

Transpunha j a porta, que abria do quarto para o jardim, quando o
estalar da areia sob o pizo leve de alguem que caminhava na rua proxima,
lhe fez desviar a cabea.

Por pouco lhe escapava dos labios uma exclamao de prazer.

Era Cecilia.

Esta inesperada appario vinha to completamente realisar os secretos e
vagos desejos, que o estavam agitando; parecia tanto ser o mysterioso
effeito das evocaes do proprio corao, que--illuses s concebidas
por quem j assim as sentiu alguma vez--Carlos quasi acreditou ser
verdadeiro milagre de amor a presena de Cecilia, alli, n'aquelle
momento. E tanto se convenceu d'isso, que nem tentou dissimular o que
estava sentindo. Viu-a e persuadiu-se de que viera ao appllo, que elle
lhe dirigira, de que a leitura da carta bastra para a determinar, de
que, cheia de confiana, vinha para dizer-lhe que aceitava a homenagem
do amor, que elle lhe offerecia, e o pagava com o seu.

Dominado por este pensamento, do qual rir smente o leitor, que tenha
j passado os quarenta annos, Carlos estendeu a mo tremula para a pobre
rapariga que, mais tremula ainda, o fitava, e murmurou:

--Oh! obrigado, Ceclia; obrigado por ter vindo!

Cecilia olhava-o admirada; no comprehendia ou receiava comprehender
demasiado o sentido d'aquellas palavras.

--Agora oua-me, oua-me por piedade, Cecilia; quero dizer-lhe tudo o
que em mim se tem passado desde que pela primeira vez a encontrei;
oua...

E naturalmente Carlos conservava entre as suas a mo de Cecilia, e esta,
como surprendida ainda pela subita scena que estava bem longe de
esperar, parecia haver perdido a consciencia do que se passava, e nem
tentava retirar-se.

Carlos proseguiu:

--Cecilia, se veio, foi porque acreditou que havia sinceridade nas
palavras que eu lhe disse, no  verdade? No  verdade que no
suspeitar nunca mais que seja um simples galanteio, indigno de si, o
que me leva a repetir-lhe uma, e mil vezes, que a amo?

Estas palavras restituiram a Cecilia a consciencia que perdera quasi. O
sangue abandonou-lhe subitamente as faces, para cdo affluir com mais
violencia a ellas; saiu-lhe dos labios um grito que mal pde reprimir, e
tentou retirar a mo, que Carlos continuava a segurar nas suas.

--Snr. Carlos!--disse ella, com a voz agitada de sobresalto e confuso.

--No se retire assim, Cecilia. Nada receie. Amo-a muito, mas respeito-a
tanto, quanto a amo; e mais depressa...

No pde continuar; um rumor de passos e de vozes, que se ouviu na rua,
e j proximo ao porto do jardim, fel-o estremecer.

Teve um presentimento; obedecendo-lhe attrahiu rapidamente Cecilia para
dentro do quarto, em cujo limiar se passra esta curta scena, e fechou
sobre si a porta com precipitao.

Cecilia olhava-o assustada.

Ia a bradar, quando Carlos lhe pz a mo na bca, dizendo:

--Silencio por piedade!

Foi prudente. O jardim era j de novo invadido por a mesma turba de
estouvados que, momentos antes, abandonra o campo. Chegaram ainda a
tempo de verem fechar a porta do quarto e saudaram a descoberta com
gargalhadas.

Passados momentos, escutavam-se-lhes as vozes de fra.

--Abre a porta, abre a porta; agora  inutil a dissimulao, Carlos.
Seguimol-a, tivemos um presentimento; vimol-a entrar. Ha de ser ella.
No o negues. Abre!

Cecilia, ao escutar estas palavras, sentia-se desfallecer.

--Oh! meu Deus!--exclamou, erguendo assustada as mos para o co.

Carlos parecia fulminado.

--Ento, Carlos, ento? Abre, que maneiras novas so essas? Tu no eras
assim.

--Isso fica-te mal.

--S queremos vel-a e retiramo-nos.

--Vel-a e apresentar-lhe os nossos respeitos.

--Ento, ento?

Carlos teve um momento de desespro. Sem bem attender no que fazia, sem
calcular consequencias, deu um passo em direco da porta, com o olhar
inflammado e os labios tremulos de clera.

Impediu-lhe porm a passagem Cecilia, que quasi lhe caiu de joelhos aos
ps.

--Quer-me perder, snr. Carlos!--dizia ella com a voz tomada de
afflico--Quer-me perder?!

Carlos parou, e tentando erguel-a disse, no menos commovido:

--Cecilia; juro-lhe pelo que ha de mais sagrado que...

N'este momento uma das vozes dizia:

--Ento, avarento, no nos queres mostrar essa tua Cecilia?...

Estas palavras fizeram estremecer a filha de Manoel Quentino.

Ao ouvir assim o seu nome pronunciado, e d'aquella maneira, por labios
estranhos, ergueu-se com um movimento energico, cheio de orgulho e de
dignidade revoltada, e, cobrindo-se-lhe as faces do rubor da indignao,
disse, voltando para Carlos o olhar cheio de amargura:

--Em que lhe tinha merecido eu isto, senhor?

--Cecilia!...--balbuciou Carlos, empallidecendo.

Foi ella a que d'esta vez, afastando-o com soberana altivez, caminhou
para a porta em passo firme e seguro.

Carlos collocou-se diante d'ella.

--Que vae fazer?--exclamou com voz supplicante.

--Deixe-me! Menos de receiar para mim , alli fra, a presena d'essa
gente, do que aqui a sua proteco _generosa_.

Esta ultima palavra saiu-lhe dos labios quasi expressiva de despreso.

--Cecilia, pois julga?...

--Alli pde haver crueldade, que nem as minhas lagrimas commovam, mas
aqui... ha peior... ha a infamia... que me feriu no corao.

E o tom commovido, com que disse isto, mostrava comear a dissipar-se j
a energia, de que se inspirra ao principio.

 palavra infamia Carlos deixou tambem o irresoluto embarao, que o
enleira at ento; tomando as mos de Cecilia e olhando-a em face,
disse-lhe, tendo na voz toda a eloquencia da sinceridade:

--Cecilia, no ha tempo agora para me justificar. Mas aceite-me um
juramento. Pela memoria de minha me, pela vida de meu pae, pela
felicidade de minha irm lhe juro que no mereo essas suspeitas.

Um hypocrita poderia pronunciar este mesmo juramento, mas no com o tom
de persuaso e de verdade que a voz de Carlos possuia n'aquelle
instante.

No se mente assim.

Cecilia acreditou-o; todas as suspeitas, que por momentos lhe haviam
assombrado o espirito, se desvaneceram.

Extincta a indignao, com a fora ficticia que emprestra quella
natureza feminina, readquiriu o imperio perdido  brandura propria do
sexo, que com razo n'ella confia, como na mais irresistivel arma.

Assomaram-lhe por isso, e abundantes, as lagrimas aos olhos, e, cortada
de soluos, s pde murmurar, apertando convulsivamente a mo de Carlos:

--Salve-me! Salve-me ento, snr. Carlos; que estou perdida!

O ruido que, durante esta rapida scena, mais rapida a passar-se do que a
descrever-se, no havia cessado, redobrava agora de vehemencia.

Carlos s achou um meio para sair d'aquella situao. Correu  sala da
bibliotheca, e abriu-a. Cecilia fugiu para ella e quasi instinctivamente
fechou a porta atraz de si.

O expediente era arriscado ainda, porque os criados podiam ver apparecer
Cecilia d'aquella parte da casa, o que no menos a comprometteria. No
occorreu outro porm  lembrana de Carlos.

Depois de procurar por alguns instantes desvanecer todos os vestigios da
agitao, que a scena descripta lhe causra, foi abrir finalmente a
porta aos seus importunos amigos.

--Ento tomaram-me hoje para victima de motejos, meus senhores?

--Deixa-te de ares de tyranno de comedia, que te no vo bem. Vamos a
saber que  d'ella?

--Quem?

--Ora, quem! A rapariga?

--Continuam as zombarias?

--Homem, no o negues. Encontramol-a alli acima,  esquina. No sei qual
foi de ns que teve um diabolico presentimento. Seguimol-a de longe.
Vimol-a hesitar, ao chegar ao porto. Symptoma infallivel! A final
entrou. Corremos. Ainda assistimos ao fechar da porta... e agora esta
demora pouco delicada... a tua m vontade... Demais, a alguns pareceu
ouvir rumor de vozes aqui dentro. Ora vamos; confessa.

--No te faas piegas; que sentimentalismos so esses?

--Tu que n'estas cousas foste sempre dos mais exigentes; que sempre
pugnaste por os direitos de boa camaradagem!...

--Eu que o diga. Lembras-te, d'aquella vez na Carria?

--E em Lea commigo? Cheguei a desesperar com as exigentes curiosidades
d'este senhor.

--V l se preferes que a procuremos.

--Querem obrigar-me a ser incivil, mandando-os sar?

--Incivil ests tu sendo j.

--E tu a fazeres drama, Carlos! Desconheo-te.

--Est decidido--disse o louro adamado--o homem reage. O remedio 
facil. Procuremol-a. Elle por certo que a no confiou  familia para
guardar. Deve estar escondida aqui.

--Batamos a mata. A gazella ha de apparecer.

E n'um instante principiou desordenada pesquiza em todo o aposento. No
houve movel nem escondrijo, que no fosse revistado.

--E na bibliotheca?--disse por fim uma voz.

-- verdade! Na bibliotheca!--repetiram os outros. E todos caminharam
para l.

Carlos tremeu por Cecilia.

--Prohibo-lhes que abram essa porta!--exclamou, com voz perturbada.

--Bravo! Acertamos! Ouvem-o?

--Ah! _diavolo_! Est fechada por dentro.

Carlos respirou.

-- a primeira vez que me lembra achal-a assim. Mysterio! Deixa ver se
pela fechadura...

--Carlos, abre ou manda abrir esta porta.

--Escutem. Ha rumor l dentro.

--Deixa ouvir.

-- ella.

O que espreitava, continuou:

--Pareceu-me que vi agora o vestido de uma mulher.

--Ah!

--Foi ler _Paulo e Virginia_. Conselho de Carlos, que est dado a
leituras brandas.

--Ah! ah! ah!

--Pschiu! Calae-vos.

Carlos levantou-se desesperado.

--E eu exijo silencio. Alguem se aproxima.  ella. _Incessu patuit
dea..._  mais razoavel do que tu; veio s boas.

Carlos lembrou-se da anterior tentativa de Ceclia e receiou que se
renovasse.

Agora j elle lhe no poderia impedir os passos. Perdeu com esta ideia
toda a fora moral; sentiu-se desalentado.

A chave girou na fechadura.

--Desbarretem-se, meus senhores. Eil-a emfim!--disse um dos do rancho.

Carlos fechou os olhos, como se na presena de perigo imminente; a mo
apertava-se-lhe convulsamente sobre a caixa de revolvers que tinha perto
de si.

Em vez porm do tumulto que esperava ouvir, e que Deus sabe a que
excesso o arrastaria, seguiu-se to profundo silencio, que o obrigou a
erguer a cabea surprendido.

Todos os rapazes, havia pouco ainda to turbulentos, recuavam agora
calados e descobertos e como procurando occultar-se uns com os outros.

No lmiar da porta, que se abria, apparecia a figura candida e serena de
Jenny, com o brao passado pela cinta de Cecilia, a cuja cabea,
suavemente animada por um sorriso de melancolia, sustentado a custo,
servia o seu hombro de apoio.

Jenny conservou-se por algum tempo assim, olhando-os com gesto composto
e admirado, que parecia subjugal-os.

Havia n'esta scena um quadro que impressionava.

As feies angelicas da irm de Carlos revelavam tanta doura e tanta
nobreza ao mesmo tempo, e as de Cecilia tanta melancolia e tambem tanta
confiana na amiga a que se amparava, que os mais levianos do bando
curvaram respeitosamente a cabea diante d'aquellas duas mulheres.

S um olhar como o de Carlos, exercitado no estudo do rosto da irm,
podia notar-lhe nos labios um leve tremor, a denunciar que quella
apparente placidez no correspondia uma completa serenidade de corao.

Era comtudo affavel e segura a voz com que ella se dirigiu aos amigos de
Carlos.

--Peo desculpa de os ter feito esperar. _Julgamos_ que meu irmo tinha
j sado e _viemos_ ambas procurar um livro.

E depois, mostrando-lhes Cecilia:

-- minha amiga... ou mais do que amiga...  quasi minha irm.--E
acrescentou, sorrindo para ella:--Cdo o ser, no  verdade?

Cecilia estremeceu e voltou para Jenny o olhar admirado. Ia talvez a
fallar.

Jenny reprimiu-a, apertando-lhe occultamente a mo; e proseguiu,
sorrindo:

--Perde-me a indiscrio, Cecilia; talvez at nem indiscrio fosse j,
porque... estes senhores so... os amigos de meu irmo Carlos.

E estas palavras soube dizel-as Jenny com delicada inflexo de ironia na
voz, que augmentou o embarao dos que a escutavam.

Curvando-se ligeiramente para elles, Jenny sau da sala com Cecilia.

Carlos no ousou erguer os olhos para a irm.

Vendo-a sar, voltou-se para os seus antigos companheiros, que
principiavam a formular desculpas, e disse-lhes com provocadora frieza:

--Espero que estar satisfeita a sua curiosidade. Ordenam mais alguma
cousa?

--Desculpa, Carlos; ns julgamos...

--Tu bem vs que no sabiamos...

-- menino, acredita que...

--Palavra, que pensei que era a do dmin.

--Tambem eu.

--Espero que no leves a mal.

--Aquillo era brincadeira.

--Adeus, Carlos; apparece. Faze-te visivel.

--Mil perdes e... e parabens.

E deixaram o quarto.

Na rua diziam:

--E esta!

--Carlos casar-se!

--_Requiescant in pace_!

--Amen.

A porta a fechar-se sobre o ultimo, e Carlos a correr  bibliotheca para
ajoelhar aos ps da irm.

--Jenny! Jenny! O amor que eu te tinha  pouco para o que te devo. 
preciso adorar-te, minha irm.

Jenny ergueu-o, e, olhando-o com expresso triste e meiga, disse:

--Deixa esse excesso de affeio para alguem, que j agora tem mais
direito a ella do que eu.

E apontou para Cecilia, que, chorando, escondia o rosto no seio da
amiga.

Carlos dirigiu-se a ella commovido:

--Cecilia Cecilia, querer perdoar-me?

Cecilia estendeu-lhe a mo, sem responder, nem levantar o rosto.

Carlos curvou-se para beijal-a.

Uma lagrima assomou aos olhos de Jenny.

Erguendo-os ao co, murmurou, dirigindo-se talvez  imagem da me,
presente  sua imaginao:

--Obrigada! obrigada!

Que lhe agradeceria Jenny? A inspirao que d'ella lhe viera, de certo.




XXXI


O QUE SE PASSAVA EM CASA DE MANOEL QUENTINO


Voltando ao principio da manh d'este dia, vejamos o que se passra em
casa de Manoel Quentino, que assim  indispensavel  intelligencia dos
ulteriores successos que temos de narrar.

Ao acordar n'aquella manh, Cecilia no tinha ainda resolvido se
aceitaria o convite de Jenny. Prolongra-se at ento a lucta de
resolues, entre as quaes vacillava.

Era dia santo, como j dissemos. Manoel Quentino no tivera portanto de
sar cdo para o escriptorio. Depois de proceder a uma _toilette_, mais
escrupulosa do que a dos dias e trabalho, envolveu-se no classico capote
de cabeo, traste rico em memorias da vida passada, e desceu ao
quintal, a fazer horas para a missa. Ahi, passeiando por baixo das
ramadas, que de todos os lados o orlavam, e que j n'aquella poca do
anno se revestiam de folhas viosas, aproveitava Manoel Quentino os
raios de um desanuviado sol de primavera, cedendo pouca atteno s
flores dos alegretes lateraes, e ao gorgeio dos passaros, que por sobre
a cabea lhe andavam festejando a manh.

O pensamento de Manoel Quentino vagueava longe d'alli.

Efectivamente todo o sombrio cortejo de ideias tristes, que a melancolia
de Cecilia, havia pouco tempo, lhe suscitra, voltava a assenhorear-se
de novo d'elle, e com a passada persistencia.

--Tambem esta vida, que ella passa,  de to poucas distraces! A
fallar a verdade! Aos dezoito annos! Sim...  preciso espairecer. Em vez
de estar aqui a perder tempo, o que eu devo  ir por ahi fra com ella.

E pensando assim, foi caminhando para casa.

--Cecilia--disse, ao encontrar a filha--a manh est to bonita! Vamos
ns por ahi fra?

--Aonde?

--Por ahi. Damos uma volta, antes da missa. Ns que fazemos aqui
mettidos?

Cecilia, julgando satisfazer os desejos do pae, condescendeu.

Meia hora depois saram ambos. Cecilia pensava ainda se se resolveria a
assistir  festa do anniversario de Jenny.

Poucas palavras se trocaram entre o pae e a filha, durante todo o
passeio. Vieram terminal-o a Cedofeita, aonde assistiram  missa.

 sada do cemiterio, que, segundo o costume, foram depois visitar,
Cecilia pareceu pela primeira vez sar da hesitao, em que desde a
vespera estava, e disse, parando  entrada da rua, que a devia conduzir
pelo mais curto caminho a casa de Mr. Richard Whitestone:

--Nem sei o que faa. Jenny pediu-me para ir passar hoje o dia com ella.

-Hoje!

--Sim, escreveu-me para m'o pedir...

--Como quizeres, filha... Ainda que hoje  dia santo e eu...

Manoel Quentino ia exprimir a pena que lhe causava o prescindir
n'aquelle dia da companhia da filha, mas calou-se, receiando com isso
constrangel-a. Cecilia comprehendeu-o porm.

--Eu sei, pae, eu sei que no gosta de se ver s n'estes dias, que passa
em casa--e bem poucos so! Mas olhe, ha tambem certas companhias, que
mais nos entristecem do que ainda a mesma solido; e a minha hoje no
podia alegral-o muito.

--Que dizes, Ceclia? Que lembrana!

--Acredite-me.

--E por qu?

--Porque me sinto triste, e no poderia, por mais que fizesse,
constranger-me.

Manoel Quentino commoveu-se a ponto de lhe apontarem lagrimas aos olhos.

--Eu j tinha notado essa tristeza, Cecilia, j. No m'a descobres tu,
que ha muito ella me d cuidado--Mas, j que me fallaste n'ella, dize-me
a razo: o que te afflige, o que  que tens? No te sentes boa?

--No me pergunte nada, meu pae; que no lhe posso... que no lhe sei
responder.

Manoel Quentino ficou por algum tempo com os olhos na filha, que
desviava os seus, e no pde soltar palavra.

--Pois ento vae--disse por fim Manoel Quentino--vae. A menina Jenny 
boa e estou que te saber consolar melhor do que eu... Vae! no serei eu
que te aparte da companhia d'aquelle anjo.

Cecilia beijou a mo do pae, que, ao separar-se d'ella, lhe viu lagrimas
nos olhos.

 entrada da rua, por onde Cecilia seguiu, permaneceu Manoel Quentino
at a perder de vista.

--Aquellas lagrimas! aquellas lagrimas!--murmurava elle, de mal comsigo
mesmo por no as saber explicar--E eu que a no posso ver assim sem me
dar vontade de chorar tambem!  forte cousa!

E continuou, com a cabea baixa, a caminhar para casa.

Manoel Quentino, de distrahido que ia, no cortejou a vizinhana, acto
de polidez, a que raras vezes faltava; e por pouco no ia passando alm
da porta de casa sem a conhecer.

Antonia, ao vel-o entrar s, perguntou admirada:

--Ento a menina?

--A menina no janta em casa.

--Ora essa! E no me disseram nada!

--Ella resolveu agora mesmo.

--Sempre fazem cousas! E aonde foi ella jantar?

--A casa de Jenny.

--De quem?!

--De Jenny, do snr. Whitestone...

--Que me diz!

--Sim; a casa do snr. Richard Whitestone.

--Est bom, est! Bem digo eu!

--Ento que  que tem?

--Nada; no tem nada. Visto isso, quer que tire o jantar?

--Sim, tire.

Manoel Quentino jantou pouco. Jantar, a que no assistisse Cecilia, no
era jantar que lhe prestasse.

--Ento o senhor no come?--dizia-lhe, a cada passo, Antonia.

--No tenho vontade.

--Boa te vae!

Manoel Quentino levantou-se da mesa e foi sentar-se  janella.

Antonia, depois de sacudir a toalha, tossiu como quem tinha alguma cousa
a dizer.

Manoel Quentino no deu por isso.

Antonia resolveu-se a tomar a iniciativa.

--Ora agora que j jantou, sempre lhe quero dizer uma cousa, snr.
Manoel.

--Diga l.

--Ainda que, a fallar a verdade, eu no devia talvez...

--Pois ento, no diga.

--Mas, por outro lado,  tambem da minha obrigao...

--Pois ento, diga.

Antonia percebeu a grande indifferenca de animo, em que estava o patro,
e sentiu vontade de instigal-o um pouco.

--Ora diga-me, snr. Manoel Quentino, o senhor  cego?

--Julgo que no.

--Pois olhe que o parece. Ento no tem conhecido mudana de genio c na
menina?

A pergunta alterou de facto o tom das respostas do velho guarda-livros;
foi j voltado pra a criada e com vivacidade, que respondeu:

--Tenho, sim, por qu? Voc tambem?...

--Pois podra! Aquillo so l os modos d'ella?

--No so, Antonia, isso no so.

--Nem para l caminham.

--E voc no sabe o que aquillo ser? ella no se lhe tem queixado de
algum mal, de alguma doena?...

--Doena? ora adeus! Que eu saiba no. Elle ha muitas doenas...

--Isso sei eu.

--Pois sim, mas... algumas, em que no pensa,  que... Doena do
corao.

--Do corao!--exclamou Manoel Quentino, fazendo-se pallido--Pois
Cecilia queixou-se do corao? Que diz, mulher.

--Adeus, que me no entende! Quero eu dizer... Olhe... a final as cousas
so assim! A menina tem dezoito annos...

--Olhem que novidade! Isso sei eu; mas queixou-se?...

--Ento se sabe, se sabe, snr. Manoel Quentino, e se se no lembra de
mais nada, no sei que lhe faa.

Uma ideia surgiu pela primeira vez ao espirito de Manoel Quentino, e,
fora  confessar, que no veio muito cdo.

--Pois ser?...--voltando-se para a criada, acrescentou com modo
grave:--Antonia, voc diga o que sabe. Bem v que preciso de olhar por
isso. Falle, mulher.

--Pois n'esse caso... snr. Manoel Quentino--disse a criada, como se,
smente convencida d'estas razes, se resolvesse a fallar--eu no quero
encargos de consciencia, e, para seu governo, sempre lhe digo que deve
vigiar por este negocio.

--Que negocio? Por que negocio hei de eu vigiar? Eu no a entendo.

--Pois no tem visto devras o que por ahi vae?

--Eu no; voc bem sabe que eu fecho a casa com as costas e por isso...

--Ento aquellas visitas do filho do inglez...

--Adeus, adeus! Cuidei que era outra cousa!--redarguiu Manoel Quentino,
encolhendo os hombros--Ahi vem voc tambem. Pobre rapaz! L por ter suas
verduras, j no pde entrar em uma casa, que no digam logo... Que
mundo este!...

--Ai, e julga que no  assim? Ento est bom. Pois ande l, ande...

--Mas na verdade voc imaginou?  mulher, no viu como foi e porque foi
que aquelle pobre moo veio aqui a primeira vez?

--Eu, no, senhor. Pois olhe que tenho pensado bem n'isso.

--Pois no se lembra d'aquella tarde em que eu tardei e que Cecilia...

--Se me faz favor, no foi essa a primeira vez.

--Foi, sim.

--No foi, no, senhor.

-- mulher! que demonio de cabea a sua! pois, na verdade, no se
lembra?...

--Eu s me lembro de que, muito tempo antes d'esse dia, veio aqui uma
tarde aquelle senhor; perguntou pela menina, disse que lhe queria
fallar; eu mandei-o entrar para a sala; a menina foi ter com elle; ao
vel-o fez-se vermelha, como uma rom, e mandou-me sair; e eu ouvi-os
estar a conversar perto de meia hora...

--Voc est douda, mulher?

--No estou, no, senhor.

--Quando foi isso?

--Logo depois do entrudo. Lembra-me bem de que foi tres ou quatro dias
depois d'aquelle em que deixou ir a menina com as do Mattos; cousa que
eu, no seu logar, no fazia, mas...

--Mas Cecilia no me fallou nunca n'essa visita!

--Isso sei eu.

--E voc?...

A menina recommendou-me que no lhe dissesse nada, porque era uma
surpreza que lhe queriam fazer... Mas, por mais que eu lhe perguntasse o
que era, nada de novo.

Manoel Quentino principiava a sentir-se inquieto. Comtudo a confiana
que depositava em Cecilia era tal, que, no obstante conhecer o caracter
leviano de Carlos, hesitava ainda em suppr mal do que, pela primeira
vez, ouvia.

--E depois voltou?

--At o tal dia, em que o senhor adoeceu, no; mas quem o quizesse ver
era chegar, ahi a certas horas da manh, e ao cerrar da noite, 
janella.

--Sim; eu lembro-me de que s vezes...

--Alli, a estanqueira  quem me fez reparar.

--Mas isso l...

--Pois no tem nada, bem sei; mas, quasi sempre a menina, s mesmas
horas, estava  janella...

--Cecilia?!

-- verdade. E d'esse tempo  que vem aquella mudana n'ella.

Manoel Quentino passou a mo pela testa, como para arredar de si uma
ideia afflictiva.

--Depois ento--continuou Antonia--veio o p da sua doena e dos
negocios do escriptorio, e ahi o tivemos mettido em casa. Ento julga o
snr. Manoel Quentino devras que elle teria paciencia para assim aturar
tanto tempo, se...

--Cale-se, mulher!--exclamou Manoel Quentino, com voz alterada--Carlos 
generoso. Para servir um amigo, no hesita em sacrificios.

--Ser; mas olhe que no fui eu s que desconfiei.

--Era preciso ser muito infame para abusar assim da confiana de um
homem velho, honrado e doente... No; nem Carlos nem Cecilia entrariam
n'essa indigna combinao!...

--Eu no digo que fosse combinao de ambos; tanto no digo eu; mas
emfim... alm de mim, houve quem pensasse...

--Isso sei eu; e c recebi o golpe. A carta anonyma no deixou de me
chegar s mos. Mostrei-a a Carlos; e saiba ento que foi elle, elle
proprio, que resolveu no voltar c mais.

--Ai, sim? pois essa no sabia eu! Agora  que vejo de que casta elle .
Ento quer que lhe diga? Depois que elle deixou de c vir, uma noite
ouvi correr o fecho da porta do quintal.

Era noite de luar; ainda estava a p e espreitei  janella. A menina
descia a escada do pateo.

Manoel Quentino olhava para a criada com o gesto desfigurado, e a
respirao quasi suspensa.

--E depois?

--Deu-me uma pancada no corao e fui, p ante p, pelas escadas abaixo.
Cheguei ao quintal. A menina estava  janella de grades e fallava para a
rua com alguem. Com mdo de ser vista no pude chegar-me perto e no
ouvi o que diziam. Fui dar a volta, pelo lado dos limoeiros, d'onde
podia ouvir melhor, mas, quando cheguei, ia a menina embora. Fui 
janella, e l o vi a elle...

--Mente! mulher! voc tem estado a mentir desalmadamente!

--Ora essa, snr. Manoel Quentino! Assim Deus salve a minha alma! Isto
era l cousa que eu dissesse, se no fosse verdade?!

Manoel Quentino levantou-se e pz-se a passeiar no quarto, com agitao.

--Pois ser possivel, meu Deus, que assim possa haver maldade no corao
de um homem? Carlos! Carlos, a quem eu estimava como filho, a quem eu
sempre defendia, quando o accusavam de estouvado! Carlos, que se dizia
meu amigo! que parecia incapaz de uma aco infame!

--Por esse mesmo tempo andava elle de carro com as comediantes...

--Se tudo isto  verdade... ento... Oh! mas Cecilia tambem... Cecilia!
Ella dissimular, fingir... enganar-me! Ella!...

E o pobre velho quasi se suffocava a chorar.

--Custa-me estar a affligil-o assim, snr. Manoel Quentino; as ento? que
se lhe ha de fazer?--continuava Antonia--Quando ha pouco me disse que a
menina tinha ido jantar a casa do inglez... veja l, sabendo eu o que
sabia... veja como devia ficar.

--Jenny foi quem a chamou; junto d'aquella nada receio por Cecilia... De
todos posso vir a duvidar--quem sabe o que terei ainda de aprender?--mas
de Jenny, d'essa!...

--E seria de facto a snr. Jenny quem mandou chamar a menina?

Manoel Quentino fitou a criada com olhar fulgurante de indignao.

--Que damnada teno tem voc hoje de me inquietar, mulher? Que maldita
suspeita  essa, lingua de vibora? No v que pde matar-me com essas
palavras envenenadas, no v, demonio?

--Deus me perdoe, snr, Manoel Quentino, que no fao isto por mal. Mas,
sabe o amor que tenho  familia, e no queria que alguma desgraa
acontecesse...

--Cale-se, mulher, cale-se! Eu sei que so boas as suas intenes; mas
Cecilia disse-me que Jenny fora quem a convidara.

--Pois eu no digo que no. Eu sei at que a menina hontem recebeu uma
carta de mando da snr. Jenny; ella no me disse o que ella continha,
nem eu lh'o perguntei. Mas, esta manh, logo depois que saram, veio ahi
um criado de l com outra carta; no era o mesmo, mas sim um que eu vi,
no dia do passeio com a comediante, e que, pelos modos,  criado s do
rapaz.--De quem vem essa carta? perguntei-lhe eu.--Vem, disse o
brejeiro, com modos avelhacados e sorrindo, vem de miss Jenny. Mas, eu
no sei... a carta  to differente das que...

--E essa carta?--perguntou Manoel Quentino, fra de si.

--Essa carta est l dentro.

--E Cecilia?...

--Esta no a leu ella, porque veio depois que saram.

--V buscar-m'a.

--Mas talvez seja da filha, talvez; eu...

--V buscar-m'a--exclamou Manoel Quentino, elevando mais a voz.

Em poucos momentos foi executada a ordem.

Manoel Quentino passeiava, levava as mos  cabea, fechava os olhos,
aspirava com ancia, parecia louco.

Antonia trouxe a carta. Manoel Quentino lanou os olhos para o
sobrescripto e estremeceu.

Reconhecera o talhe da lettra de Carlos!

Deixou-se cair com desalento na cadeira que tinha proxima.

-- meus Deus! estarei destinado a este infortunio?...--murmurava elle,
com a cabea escondida entre as mos, atravs das quaes passavam as
lagrimas.

Depois, com movimento de raiva, tentou abrir a carta que conservava
ainda nas mos; mas suspendeu-se por um melindroso sentimento de
delicadeza, que no conseguiu vencer.

--No, no a abrirei! No ha infamia que desculpe uma villeza.

Antonia, que promettera farto alimento  curiosidade, suspirou de
despeito.

--Ento no l?

--No--respondeu sccamente Manoel Quentino, que principiou de novo a
passeiar pela sala a passos largos. Depois, tomando uma subita
resoluo, parou e disse, erguendo a cabea:--Antonia, o meu chapo e o
meu casaco.

Antonia abriu para elle os olhos espantados.

--Credo! que vae fazer, senhor?

--O meu chapo e o meu casaco!

--Snr. Manoel Quentino! onde  que quer ir? O senhor no est em si!

--No ouviu, mulher?! O meu chapo e o meu casaco!

Havia na voz do pae de Ceclia uma entonao especial, que, sendo nova
para a snr. Antonia, no pde a experiencia d'ella dizer-lhe de que
seria presagio, e por isso prudentemente resolveu obedecer, sem mais
commentarios.

Dentro em pouco, voltou com os objectos pedidos, dizendo apenas, como a
mdo:

--Mas, aonde vae, senhor?

--Saber a verdade--respondeu Manoel Quentino; e, sem ulterior
explicao, desceu apressado as escadas.

Antonia parecia paralysada de espanto.

--Sume-te!--dizia ella--O homem vae varrido! Ora queira Deus! queira
Deus que elle no v para ahi fazer alguma! Nossa Senhora nos livre de
tentaes do demonio e dos mais inimigos da alma.

A snr. Antonia professava um odio, desenganadamente cordial, contra os
taes inimigos que mencionou.




XXXII


OS CONVIVAS DE MR. RICHARD


Na mesma manh, em que se realisaram os acontecimentos narrados nos
ultimos capitulos, Mr. Whitestone, depois de muito lidar no jardim e na
estufa, transplantando, mondando, alporcando, semeiando, regando as
varias plantas da sua colleco, com no pequeno detrimento de muitas,
recolhera-se emfim ao gabinete, e por curiosidade abrira o volume da
_Vida e Opinies_ de Tristram Shandy, mina inesgotavel de prazer e de
instruco para o bem disposto _gentleman_. De cada vez que o lia--e
raro era o periodo de vinte e quatro horas que passava sem o
fazer--descobria no livro cousas novas, srias, jocosas, philosophicas,
de profundeza especulativa, de utilidade prtica, tudo emfim. Mr.
Richard mostrava-se intimamente convencido da opinio expressa por o
proprio Sterne, a respeito d'esta obra singular e de difficil
classificao: O verdadeiro _Shandeismo_ dilata os pulmes e o corao
(diz elle algures), e  maneira de todas as affeces que participam
d'esta propriedade, faz com que o sangue e os outros guias vitaes do
corpo corram livremente em seus canaes e que gire livre e desimpedida a
roda da vida.

Ora effectivamente meia hora de leitura de uma pagina humoristica de
Sterne era em Mr. Richard remedio efficaz contra melancolias e
contrariedades na vida.

Abrira Mr. Richard o livro ao acaso, e lia agora a pagina, em que se diz
como o pae de Tristram, ao saber da morte de um dos filhos, encontrra
lenitivo, em lhe ser este acontecimento pretexto para consideraes
philosophicas a respeito da morte.--Um bem que encadeiasse a lingua de
meu pae (diz Tristram), e um infortunio que a soltasse, eram quasi
iguaes para elle, e s vezes era o infortunio o mais apreciado dos
dois.

Estas palavras deram que pensar a Mr. Richard; elle imitava estes
apreciadores de vinho que conservam muito tempo no paladar cada gole que
sorvem, e olham com indignao para os grosseiros bebedores, que
despejam de um trago to preciosa bebida.

--E  assim;--reflectia elle, pousando o livro e saboreando a
considerao que lera--ou mais ou menos succede o mesmo com toda a
gente. Se fosse possivel fazer correr o mundo tanto  vontade dos que
d'elle murmuram constantemente, que se lhes tirasse todo o pretexto de
murmurar, causar-se-lhes-hia no pequena mortificao.

Estes pensamentos foram interrompidos por o criado, que entrou para
annunciar:

--Mr. Morlays.

--_Verbi gratia_--disse para si Mr. Richard, depois de ter dado ordem de
mandar entrar o annunciado.

Effectivamente o inglez, que chegava, era um d'estes pessimistas, para
quem o universo inteiro se apresenta tingido das mais escuras cres; era
uma victima, ao mesmo tempo lastimavel e insupportavel, do _mau humor_,
que o douto _Feuchtersleben_ chama--prosa vulgar da vida, irmo do tdio
e da preguia e envenenador que lentamente traz comsigo a morte.

Mr. Whitestone, homem laborioso e contente do mundo, estava em constante
opposio ao seu compatriota e amigo, que era d'estes que teem feito
adquirir aos nevoeiros de Londres a immerecida fama de fomentadores do
_splen_--fama, contra a qual principiam, com muito criterio, a
protestar os homens pensadores, descobrindo antes na ociosidade,
favorecida por as fabulosas riquezas de alguns _lords_, a causa
d'aquelle mal de suicidas.

O aspecto de Mr. Morlays denuncial-o-hia  medicina antiga como uma
victima d'esse mysterioso humor negro, que ella chamou _atrabilis_. Era
a variedade do inglez, que pde denominar-se escura; e a escuridade, que
lhe estava no rosto, projectava-se-lhe tambem nas disposies moraes.

O gabinete, em que se reuniam os dois inglezes, era um compendio do
quanto pde tornar o curso da vida facil e suave; tudo alli respirava
conforto; tudo favorecia aquelle doce repousar de fadigas melhor do que
por ninguem saboreado pelos _Her magesty's subjects_, residentes nos
nossos climas meridionaes.

Cadeiras de varias frmas e mecanismos, nas quaes se esmerra o genio
inventivo em multiplicar e variar as molas, em distribuir as
articulaes, em combinar os movimentos, em contornar os angulos e
saliencias at accommodal-as, o mais possivel, a todas as posturas, por
mais caprichosas e extravagantes, que o instincto do repouso as podesse
suggerir; tapetes, onde os ps se profundavam como na relva dos campos;
cortinas a temperarem a intensidade da luz, e finalmente o fogo,
companheiro inseparavel d'estas organisaces do norte, ainda n'aquelle
mez quasi de estio, a crepitar e a lamber com a lingua inflammada as
grades do fogo. Mr. Whitestone pensava como S. Francisco de Salles, a
quem attribuem a opinio de que o fogo  bom durante doze mezes no anno.

Mr. Morlays encontrou em tudo isto motivos para observaes de critica
atrabiliaria.

--Maus habitos, Mr. Richard, maus habitos! Estes costumes
elanguescedores so os que tem operado a visivel degenerao da raa
humana. As escrofulas...

--Misericordia, Mr. Morlays! Que feia palavra para antes de
jantar!--exclamou Mr. Richard, rindo.

--So os males da civilisao. Depois do assucar, o peior inimigo do
nosso organismo  o fogo.

--Ento o assucar tambem?

--O assucar! Eu tenho para mim que a mais lastimosa descoberta da
industria do homem foi a d'esse p insidioso, que traioeiramente nos
tem envenenado o corpo todo, misturando-se ao sangue...

-- celebre! Eu tinha ideia de que Mr. Morlays era at apaixonado pelo
doce!

--E que prova isso? A nossa natureza  feita assim. Adquirido o habito
do mal, at o mal, at a dor, lhe  indispensavel.

Mr. Richard ficou algum tempo calado, como a meditar sobre a lei do
habito enunciada pelo seu amigo.

Depois perguntou:

--No haver meia hora na vida, durante a qual Mr. Morlays veja este
mundo com bons olhos?

--O defeito no est nos meus olhos, creia; mas no que a elles se
apresenta de contnuo. Este  o peior dos mundos, acredite.

--Tristram Shandy--disse Mr. Richard, sorrindo--lamenta tambem no ter
nascido na lua ou em outro qualquer planeta, excepto Jupiter e Saturno,
por causa de serem muito frios; por isso que, diz elle, em outro
qualquer no lhe podiam ter corrido as cousas peior do que n'este, o
qual elle julga ter sido feito com os acrescimos e as aparas dos
outros... Eh! eh! eh!... Mr. Morlays no hesitaria em dizer o mesmo;
estou vendo.

--E por que havia de hesitar?

O criado, entrando outra vez, annunciou Mr. Brains.

--Oh! oh!--disse Mr. Richard--ahi vem o antidoto contra a sua influencia
pessimista.

--Este v tudo azul-celeste!--notou Mr. Morlays, com sorriso de
commiserao.

Ouviu-se no corredor uma voz cantando jovialmente:

  _God save Victoria!
  Long live Victoria!
  God save the Queen!_

E Mr. Brains, inglez que reagia pertinazmente contra a sisuda etiqueta
nacional, entrou com grande exhibio de cumprimentos e mesuras para a
direita e para a esquerda, simulando atravessar por entre filas de
personagens, que o saudavam, e ia dizendo:

--Mylords! myladies! gentleman! sem incommodo! sem incommodo!--e
chegando perto de Mr. Richard:--Bons dias, lord Whitestone, bons dias;
folgo muito de vos ver to bem disposto. Oh! nosso leal subdito, lord
Morlays!--como vae o diabo preto, que vos acompanha para toda a parte?

--No to bem disposto como o diabo cr de rosa de Mr. Brains.

--Nem por isso, nem por isso. Descuidou-se hoje, deixando-me varrer
todas as ostras do mercado, sem me reservar nenhuma! Cheguei a acreditar
que Mr. Morlays tinha razo; o mundo tem provaes! Eh! eh!...

--Ria, ria. Eu confesso que me seria difficil imaginar outro mundo
peior.

--Oh! Para isso basta supprimir as ostras da creao. Perde logo
cincoenta por cento do valor que tem. Eh! eh! eh! Uma comida leve, que
no compromette o estomago! antes o predispe a mais substancial
refeio.

No acompanharemos, atravs das diversas transies, o longo e
substancioso dialogo mantido entre os tres inglezes.

As questes mais graves, que agitavam ento as intelligencias e pejavam
de papeis os gabinetes diplomaticos da Europa, o destino das naes, a
futura sorte dos povos, tudo, n'aquella manh, foi tratado por elles e
decidido em termos categoricos e com tanta consciencia e
infallibilidade, como s a d e permitte o fro de subdito inglez, cujos
privilegios, debaixo d'este ponto de vista, parece no terem limites.
Monarcas, generaes, ministros, diplomatas, publicistas, todos passaram
em comprida procisso aos olhos d'este triumvirato, que os julgou e
sentenciou com a impavidez e preciso proprias do espirito britannico.

A guerra da Crimeia historiaram-a elles a seu modo: com grande exaltao
da Inglaterra, e acerba critica da Frana, a cujo exercito nada mais
concediam seno uma fanfarronice, s vezes feliz.

Escusado ser dizer que tudo isto era condimentado com reflexes
lugubres de Mr. Morlays e com ditos joviaes de Mr. Brains. O primeiro,
para deprimir a Frana, inventava exemplos de crueldade, e quasi de
canibalismo, commettidos pelo soldado francez: o segundo, com o mesmo
patriotico fim, contava anecdotas comicas, nas quaes se demonstrava o
quixotismo dos alliados da velha Inglaterra. Mr. Whitestone aceitava
tudo de boa vontade.

A illaco, que dos seus arrazoados tirava Mr. Morlays, era quasi sempre
esta:

--Este mundo  um covil de feras!

A de Mr. Brains formulava-se de ordinario assim:

--Este mundo  um grande theatro.

Pouco a pouco, ascendeu a conferencia a mais sublimados assumptos. A
questo politica abriu campo a mais vasta questo social, onde os dois
inglezes continuaram a conservar cada um a sua provada individualidade
ao servio da causa da patria commum.

Mr. Brains, o optimista, abraava-se com entranhado affecto s utopias.
N'este momento, estendendo a vista atravs dos seculos futuros, estava
percebendo ao longe a to almejada unidade dos povos, realisada por uma
s nao, por uma legislao unica, por uma lingua commum; a suppresso
da palavra guerra d'esse vocabulario universal, em consequencia de no
ter objecto a que se applicar; e depois a materia, subjugada pela
intelligencia, obrigada a trabalhar, e o espirito, livre da atteno as
impertinentes exigencias da vida positiva, a entrar em especulaes de
ordem superior, em concepes metaphysicas.

--Ento  que se realisar o ultimo fim do homem na terra! Que no viva
eu, Mr. Whitestone, para saudar esse grande dia! Que no possa dizer, na
lingua universal de ento, o meu bom dia ao sol que romper!

Mr. Richard, sorrindo com ares de quem no tinha f muito ardente em to
dourado futuro, perguntou:

--E que lingua ser essa, Mr. Brains? alguma das existentes hoje, que se
generalisar; ou outra nova, que ter de se formar ainda?

--Quem o pde dizer, Mr. Richard? Isso  segredo do futuro. Mas no ha
duvida que existem grandes plausibilidades a favor da ingleza.

--Ah! sim?

--Por certo. Primeiro que tudo,  a Inglaterra a primeira nao
colonial. Em todas as cinco partes do mundo  j familiar o inglez. A
joven America, nos seus elementos mais vigorosos, nos que ho de vencer
os outros,  de origem ingleza tambem. E depois, meu caro Mr. Richard, a
Frana tem em si inoculado o principio destruidor, que ha de
sacrifical-a; a Frana  papista, o que vem a ser o mesmo que estar
condemnada  morte. Demais, o caracter philosophico da lingua ingleza...

No o seguiremos agora na dissertao philologica, cujo corollario foi
que, com o andar dos seculos, toda a humanidade fallaria inglez--lei
que, se se realisasse, talvez concorresse a produzir grave desafinao
na celebrada harmonia dos orbes, pelo lado da humanidade.

Mr. Morlays tomou a palavra para ir  mo ao compatriota.

Como era de prever, no tinham tanto de lisongeiras as vistas de Mr.
Morlays sobre os destinos sociaes. A humanidade, principalmente a que
no era ingleza, no devia, pensava elle, bater as palmas ao futuro, que
se lhe antolhava.

Sempre que meditava n'estas cousas, Mr. Morlays, em vez de sorrir a
utopias, sonhava catastrophes. Foi por isso que ponderou em tom lugubre:

--No creio, Mr. Brains, no creio que seja possivel realisar-se d'essa
maneira e por o successivo progresso dos povos essa nacionalidade
univesal. Segundo o que eu tenho lido, o mundo, em que pousamos os ps,
 essencialmente sujeito a convulses; encerra um nucleo inflammado,
que, a cada momento, lhe est alterando a superficie. Grandes
cataclismos tem j presenciado a humanidade, e quem sabe quantos
presenciar ainda? Parte dos continentes que habitamos, segundo se l
nos livros dos naturalistas, foram outr'ora todos cobertos de aguas;
sendo de crer que naes de outros tempos estejam sepultadas hoje nos
abysmos do mar. Ora, se no futuro se operarem ainda d'essas revolues,
como  plausivel acreditar, a parte continental do globo ser submergida
e do seio das aguas surgiro superficies no povoadas. O que  possivel
 que, em virtude das especiaes condies geographicas da Inglaterra e
da sua natureza insular, ella no participe da sorte dos grandes
continentes, dos quaes est desligada; que prevalea e sobreviva  ruina
e submerso d'elles, vendo at acrescerem ao seu territorio as novas
terras, que o cataclismo arrancar do fundo dos mares. Ento talvez, e s
assim, se poder realisar o futuro, que Mr. Brains imagina, sendo os
inglezes os unicos possuidores do globo.

Depois, como se receiasse que esta to extravagante como patriotica
theoria geologica no tivesse sido comprehendida, acrescentou:

--Porque... reparem. Vejam este chapo--e tomou para exemplo o chapo de
panno, que servia a Mr. Richard durante as suas operaes
horticolas.--Supponhamos esta copa o mundo; sendo as saliencias das
dobras os continentes, e as cavidades os mares; aquella pequena
saliencia do meio, que fica isolada das outras, seja a Inglaterra.
Carregando eu nas saliencias exteriores, at as desfazer, as cavidades
elevam-se e vo augmentar a saliencia do meio. Vem?

E, como para no perder a feio pessimista ainda n'esta concepo,
concluiu:

--Talvez fosse uma felicidade que todas as saliencias se desfizessem de
vez!

J vem os leitores que, embora por processos differentes, os dois
compatriotas de Peel aguardam com f viva o mesmo phenomeno na historia
do futuro:--O soberano predominio da nao ingleza sobre o mundo
inteiro.

Esta  de facto a crena de todo o verdadeiro inglez, diversificando
apenas, como os dois grandes exemplares que o leitor tem  vista, na
maneira de concebel-a realisada.

Mr. Richard sorriu  theoria historico-geologica do amigo.

--Ser bom que, por cautela, nos vamos passando para a ilha, Mr.
Morlays. O fundo dos mares no  grande clima para viver, e o consul de
sua magestade no nos isentar de sermos engulidos como simples
portuguezes.

Mr. Brains applaudiu cordialmente a observao do amigo Richard.

 medida que se adiantava a manh e que os odoriferos vapores da
cozinha, atravessando as salas, chegavam s pituitarias, britannicamente
apuradas, dos convivas, a conversa principiou a baixar das alturas, por
onde pairara, para assumptos mais terrenos e comesinhos.

s tres horas, sentindo o instincto a impellil-os para a mesa do jantar,
abandonaram os tres inglezes o gabinete de Mr. Richard e passaram para a
sala de recepo, onde Jenny e Cecilia, sentadas uma junto da outra,
conversavam intimamente.




XXXIII


EM HONRA DE JENNY


--Oh! fez bem em vir, Cecilia;--disse Mr. Richard, caminhando com a mo
estendida para a filha de Manoel Quentino--fez bem em vir alegrar a
festa de Jenny.

--Alegrar!--repetiu Cecilia, trocando com a sua amiga um olhar de
melancolia e de intelligencia.

--Alegrar, sim--respondeu Jenny, apertando-lhe as mos com
affecto.--Ento cuida que no  alegria sufficiente a que a sua presena
nos d?

Cecilia suspirou.

--Est doente, Cecilia?--perguntou Mr. Richard, reparando para o ar de
abatimento que se lhe lia no semblante.

--Uma ligeira indisposio, de que me prometteu hoje mesmo curar-se, em
atteno aos meus annos, no  verdade?--respondeu Jenny por ella e em
ar de gracejo.

Mr. Morlays, o lugubre, aproximou-se n'este momento de Jenny.

--Miss Jenny--disse elle--eu costumo saudar com jubilo os anniversarios
das pessoas que estimo, como mais um passo dado para o livramento da
vida.

--Oh! Mr. Morlays--respondeu Jenny, sorrindo--to pesado lhe parece o
captiveiro, para assim suspirar pelo termo d'elle?

--Deixe-o fallar, miss Jenny;--acudiu Mr. Brains--o mau humor de Mr.
Morlays explica-se at pela presena de algumas brancas entre os seus
cabellos ruivos e pelas duas sinistras pgadas de pata que j se lhe
divisam no canto das orbitas.

Mr. Morlays fez uma careta e encolheu os hombros; mas no respondeu.

--Ns outros--acrescentou Mr. Brains--ns outros, os feios e fortes da
humanidade--eh! eh! eh!... temos razo para nos lamentar,  aproximao
das horas do occaso; mas as que na vida nos servem de astros... essas
so sempre brilhantes; porque, at no occidente, nos encantam as
estrellas. Veja pois sem cuidado correr o tempo, miss Jenny.

Esta galanteria, de um requinte britannico, mereceu a desapprovao de
Mr. Morlays.

-- inexacta comparao--tornou sisudamente--essa dos astros  vida do
homem. A quda e o extinguir dos astros so ficticios. Occultam-se-nos,
mas no se apagam. Melhor se compararia a vida a um foguete.

--Oh! A um foguete? Singular comparao!--exclamou Mr. Brains, rindo.

--Vamos l a ver, vamos l a ver--disse Mr. Richard Whitestone,
sentando-se.

Mr. Morlays, medindo a sala a passos largos, desenvolveu a imagem,
assim:

--O homem, como o foguete, principia a animar-se por uma faisca que se
ateia; eleva-se ento com chamma e estrondo, pra um momento... e
depois... estoura, e ce veloz, silencioso, extincto, deixando na terra
smente o esqueleto que o fogo j no anima.

Mr. Richard sorriu  original imagem do seu amigo e conviva.

Mr. Morlays tem razo.

--E quando daremos ns o estouro da metaphora?--perguntou o risonho Mr.
Brains, mostrando uma fileira de bem ordenados dentes, e depois
acrescentou:--Concordo com Mr. Morlays; mas peo-lhe que note que se ha
foguetes que descem como elle diz, silenciosos e extinctos, a arte
pyrotechnica tem inventado tambem alguns, cuja quda  alumiada por
lagrimas de cres, que os acompanham at  terra. Eu por mim imitarei ao
car o foguete de lagrimas... Eh! eh! eh!

A conversa continuou n'este teor e frma, at  chegada de Carlos.

Cecilia, vendo-o entrar, aproximou-se da janella, onde Jenny se lhe foi
em breve reunir.

Mr. Brains saudou Carlos, cantando:

  _I'm afloat! I'm afloat, etc., etc._

que so as primeiras palavras de uma popular cano ingleza.

Carlos correspondeu, sorrindo, ao cumprimento.

Mr. Morlays no foi menos caracteristico do que o companheiro.

--Ainda mais outro anno nos encontramos aqui, Mr. Charles. Quem sabe
onde para o anno ter de ir quem nos quizer procurar?

Mr. Brains apressou-se a responder.

--Ao cemiterio do Campo Pequeno, de certo que no, Mr. Morlays; porque,
quando para alli resolvesse ir, escusado seria procural-o l, porque 
de crer que no estivesse de humor para tratar de negocios. Eh! eh!
eh!...

A hilaridade no se communicou a Mr. Morlays, que pelo contrario ficou
mais sombrio.

Mr. Whitestone, desde que o filho entrra, occupava-se em uma singular
tarefa. Foi sentar-se ao piano e principiou a correr os dedos pelas
teclas com presteza e com uma desharmonia s supportavel ao seu ouvido
inglez.

Esta especie de divertimento era d'aquelles, a que, por excentricidade,
mui frequentemente se entregava.

Felizmente para os dois convivas, os ouvidos d'elles no eram mais
pechosos em cousas de harmonia, do que os de Mr. Richard; porque se no
fosse isso, nem eu sei calcular os resultados gravissimos que podia ter
aquella barbara occupao.

Cecilia, Jenny e Carlos, esses estavam muito absorvidos por os proprios
pensamentos, para que os incommodasse o selvagem prazer de Mr.
Whitestone, sob cujos dedos gemia, como um suppliciado, o magnifico
piano de Erhard, victima d'esses caprichos anti-musicaes.

Emquanto isto se passava, Cecilia dizia a Jenny:

--Por favor lh'o peo, Jenny! Deixe-me ficar aqui! Eu no sei se poderia
por muito tempo suster esta tristeza que se me pz no corao. Tenho
mdo de chorar.

--Creana!--respondia Jenny--No estou eu ao p de si? No seja assim
fraca. Esse seu corao deu-se agora a phantasiar desgraas impossiveis,
que no se concebem.

--Impossiveis?!

--Impossiveis, sim. Olhe, Cecilia; eu andei primeiro do que a menina em
imaginar futuros negros. Cecilia ria ainda e eu estava j sria. Este
Carlos tem-me obrigado muitas vezes a isto e d'esta vez sobre tudo...

--Jenny!

--D'esta vez sobre tudo, porque eu sabia que era um corao que elle
encontrra no caminho e... aquelle estouvado podia no reparar... e
magoal-o. Avisei-o.

-- Jenny!

--Avisei-o; porque, bem v, Cecilia, todos os sacrificios so dolorosos.
Sacrificar orgulhos, sacrificar vaidades, sacrificar at caprichos, tudo
 sacrificar; e eu no imagino que isso se faa sem esforo; mas os
sacrificios do corao... oh! esses...

--Matam!--concluiu Cecilia, quasi insensivelmente.

--Pois no matam? Isso sabia... quero dizer--emendou a sorrir--isso
suppunha eu. Por isso pedi a Carlos que se esquecesse... Sim, que se
esquecesse; no tempo em que eu lhe pedia isto, talvez ainda no viesse
d'ahi grande mal.

Cecilia no respondeu. Um suspiro respondeu por ella.

--E quem sabe--proseguiu Jenny, olhando-a--se seria eu que me enganava
ao pensar assim?  certo porm que meu irmo no me obedeceu.

--No?--interrogou Cecilia, com expresso de duvida.

--No; longe de esquecer, avivou impresses, e em poucos dias eram j
to fundas, que me assustavam.

Cecilia meneou a cabea ainda, como quem duvda.

--Vamos, Cecilia; no me olhe d'essa maneira. Quem lhe ensinou a
desconfiar assim? Com quem aprendeu esses modos de sorrir, to pouco da
sua idade?

Cecilia baixou, silenciosa, a cabea.

--Convencida de que se passavam cousas novas no corao de meu irmo...

--E convenceu-se d'isso?

--Convenci. No eram os antigos caprichos, muito meus conhecidos. No
eram aquellas phantasias, que to bem se davam com os seus habitos de
vida, que nem o obrigavam a alteral-os.

--No eram?

--No. Com grande espanto meu, vi-o mudar. Fez voluntariamente o que nem
os meus rogos...--pois eu creio que bem vontade teria de me
satisfazer--o que nem os meus rogos haviam conseguido. Desde que o
percebi, desde que assim o vi to outro do que sempre fora, mudei tambem
de pensar. O meu unico fim, Cecilia, creia, era a felicidade de Carlos e
a sua. Emquanto julguei que ella estava no esquecimento a tempo,
trabalhei por apressal-o; desde que me convenci de que este esquecimento
era impossivel, desde que me convenci de que no era n'elle que estava a
felicidade... ento... voltei os esforos em direco diversa.

Tocou a campainha, annunciando o jantar.

Os dois inglezes, to insensiveis ao escandalo musical perpetrado por
Mr. Richard, estremeceram agora  voz do instrumento, tocado pela
desembaraada mo do escudeiro na sala do jantar.

--Para a mesa!--exclamou Mr. Richard, deixando em paz o piano--No temos
a esperar por ninguem.

Em consequencia da recente morte de Kate, os convites no se tinham
estendido alm dos dois intimos da casa--Morlays e Brains.

Os dois inglezes e Carlos encaminharam-se para as duas senhoras.

Cecilia, vendo-os, disse segurando a mo de Jenny:

--Jenny, Jenny; se  minha amiga, deixe-me ficar aqui!

--Que diz, Cecilia?

--No posso, sinto que no posso forar-me a ponto de...

Calou-se, estremecendo.

Carlos estava junto d'ella, offerecendo-lhe o brao para a conduzir 
sala do jantar.

Jenny tinha fitado attentamente a sua amiga, e parecera convencer-se de
que lhe seria effectivamente custoso o constrangimento de algumas horas,
a que se ia sujeitar.

--No, Charles;--disse, em vista d'isso e sem desviar os olhos
d'ella--Cecilia no pde fazer-nos companhia. Est incommodada e precisa
de alguns minutos de repouso.

Mr. Richard aproximou-se, perguntando o que era.

--Nada;--respondeu Jenny--mas seria crueldade constrangel-a.  um
incommodo passageiro, mas, em todo o caso,  um incommodo.

--Ser bom retirar-se ao quarto de Jenny.

Cecilia escusou-se, dizendo que ficaria bem alli.

Jenny prometteu vir em breve fazer-lhe companhia.

Mr. Whitestone indicou uma poltrona propria para descanso, e foram
jantar.

--Que quer isto dizer, Jenny?--perguntou Carlos, encontrando-se com a
irm  porta da sala.

--Que est a chegar o momento de dizeres adeus s tuas leviandades,
Charles. Quero ver que fundo de sisudez ha n'este meu estouvado irmo.

--Mas...

--Repara que esperam por ns.

E entrando para a sala, tomaram logares  mesa.

O leitor no espera de mim a fiel enumerao de todos os pratos, com que
se adornou n'este dia a mesa, sempre abundante e variada, de Mr.
Richard.

Nada faltou de tudo quanto possue o cunho caracteristico da cozinha
britannica, desde o _roast-beef_ ao _plum-pudding_, desde a batata ao
_chester_.

Os tres inglezes fizeram as devidas honras  maestria do cozinheiro. Mr.
Morlays chegou a sorrir; Mr. Brains esgotou todas as interjeies do
vocabulario patrio e assegurou que nem no _Erectheum club_, em St. James
_square_, se jantava melhor; Mr. Richard Whitestone contou todas as suas
historias e expz theorias de culinaria.

Jenny e Carlos eram os unicos silenciosos e preoccupados. Jenny via com
impaciencia a morosidade do jantar e escutava distrahida os cumprimentos
dos convivas. Carlos tremeu, como nunca, perante o inesgotavel thesouro
das reminiscencias paternas.

Com todos os vagares foi o jantar aproximando-se d'aquella phase critica
dos jantares, especialmente inglezes, em que a gravidade e a etiqueta
so postas de lado inteiramente, em que a parte feminina levanta
arraiaes e foge amedrontada ante as bandeiras da orgia que, aos
primeiros _toasts_, comeam a desenrolar-se; e em que os convivas
masculinos, livres do unico lao que os refreiava, preparam-se a
reproduzir nas salas scenas vulgares em mais baixos tablados.

Nada falta: vinhos entornados, crystaes partidos, _toasts_
interminaveis, discusses em que ninguem sabe o que discute, corpos
estendidos por debaixo da mesa e, em alguns, um somno digno dos sete
dormentes.

Tinha attingido o jantar de Mr. Whitestone este periodo de transio.

Jenny agradecera os primeiros brindes que lhe foram dirigidos.--O
proprio Mr. Morlays fora diffusissimo na sua saudao, que parecia haver
modelado por a de um personagem de Dickens, como se ver do seguinte
excerpto:

--E sendo Mr. Richard Whitestone um dos raros caracteres honrados que se
encontram na vida--terminra Mr. Morlays--e sendo miss Jenny Whitestone
em tudo digna filha de Mr. Richard Whitestone, eu fao votos pela
felicidade de Jenny Whitestone, para que possa assim recompensar Mr.
Richard Whitestone pela sua honradez, probidade, cavalheirismo;
recompensa que Mr. Richard Whitestone no pde nem deve esperar do
mundo. Sendo demais miss Jenny Whitestone a terna irm de Mr. Charles
Whitestone, corao leal, generoso, sem fermento de maldade social, eu,
bebendo  saude de miss Jenny Whitestone, brindo tambem Mr. Charles
Whitestone, porque o sentimento fraterno faz uma s d'aquellas duas
almas, da mesma sorte que miss Jenny Whitestone receberia, como dirigido
a si, um _toast_ a Mr. Charles Whitestone, seu affectuoso irmo. De
maneira que este brinde individual a miss Jenny Whitestone transforma-o
a sympathia cordial que liga esta familia exemplar em um brinde
collectivo  familia Whitestone. Miss Jenny Whitestone!

E bebeu.

--_Hear_! _hear_!--applaudiu Mr. Brains, batendo com os ns dos dedos na
mesa, o que j fizera durante todo o _speech_, mais por fora de habito,
do que por se tornar necessario o recommendar atteno em to limitada e
attenta assembleia.

Jenny agradeceu modestamente o eloquente discurso.

Mr. Richard brindou os hospedes em termos no menos laconicos.

Carlos, em poucas palavras, desempenhou-se de identicos deveres.

E os _toasts_ succediam-se e o nivel do liquido descia nas garrafas de
crystal.

Jenny levantou-se. Era tempo de deixar ss os convivas. Ia soar para
elles a hora de liberdade.

Carlos viu com inveja o movimento da irm. No a poder imitar! Ficou
porm.

A desapparecer atraz do reposteiro da sala a ultima dobra do vestido
branco de Jenny e uma transformao completa a operar-se na scena.

Mr. Brains passou a perna por cima do brao da cadeira e deixou-se
escorregar at ficar com a cabea  altura da mesa. Mr. Morlays estendeu
os cotovlos por esta adiante, metteu a cabea entre as mos, posio na
qual as faces lhe tomaram um geito de caricatura, eminentemente comico;
Mr. Richard, esse fez balanar a cadeira sobre os dois ps posteriores.

ccenderam-se charutos, cobriu-se de fumo a atraosphera da sala,
encheram-se e despejaram-se copos sobre copos.

Os criados retiraram-se discretamente.

--Uma cano, Mr. Brains--disse Mr. Richard Whitestone.

--Mr. Morlays que cante--respondeu aquelle.

--Ho! Mr. Morlays! Seria capaz de nos cantar um _dies illa_--notou Mr.
Richard, rindo.

Mr. Morlays fez uma careta, com pretenses a sorriso.

--As digestes costumam reconciliar Mr. Morlays com a humanidade--dizia
Mr. Brains.

--As feras saciadas so menos terriveis--acrescentou Mr. Richard
jovialmente e batendo com familiaridade no hombro do seu amigo Morlays.

Este tornou a sorrir, a seu modo.

--Vamos  cano!--insistiu Richard, voltando-se para Mr. Brains--Vamos
 cano.

--Mas a presena aqui do amigo Morlays faz receiar que succeda como no
brinde de Lucrecia. Lembra-se? Se nos saa vinho de Syracusa?

Depois dos risos, concedidos  reflexo de Mr. Brains, este dispz-se a
cantar.

Ns, os portuguezes, que mais de que uma vez alcunhamos de sorumbaticos
e melancolicos os nossos alliados bretes, somos talvez na Europa o povo
mais sisudo e grave dos tempos modernos.

Eu creio que nem a philosophia e o _landwehr_ da Allemanha; nem o
_knout_ e a sombria poltica da Russia; nem os fuzilamentos e o
militarismo da Hespanha; nem os _meetings_ e os _fenians_ da Inglaterra;
nem o suffragio universal e a febre napoleonica da Frana, teem
conseguido tornar as respectivas naes mais avssas ao canto, do que a
nossa. Com o nosso co, com a nossa vegetao, com os nossos vinhos e
com a nossa lingua e com to pouca disposio para nos occuparmos de
cousas srias--e n'esse particular nenhum povo nos leva a palma--esta
quasi averso que temos ao canto, denota uma indole essencialmente
sisuda e pouco de gente do meio-dia.

Em qualquer jantar nacional, qual seria o conviva que teria coragem para
imitar Mr. Brains, satisfazendo ao pedido do seu amphitryo e
dispondo-se a cantar?

E, se algum houvesse, com que olhos de escandalisados o no encarariam
os outros?

Ninguem ha mais pussillanime diante do ridiculo do que o portuguez;
ninguem que mais corajosamente o encare de face, do que o cidado
britannico. Ora o ridiculo imita os costumes insidiosos de certos ces,
que mordem as pessoas que lhes fogem, e recuam diante de quem os espera
a p firme.

O que  verdade  que Mr. Brains, vergando-se sobre as costas da
cadeira, com as pernas estendidas, os olhos meios fechados, a mo
pousada sobre o corpo, principiou a cantar com voz de impossivel
classificao, em timbre nazal e em musica inglezamente montona, uma
cano de Sharpe feita para occasies como esta.

O sentido era pouco mais ou menos este:

  V! sem mdo enchei os copos
  De vinho, cr de rubim;
  Levem-o aos labios as damas;
  Consagral-o-ho assim.

  No peito o vinho alimenta
  Da amizade o almo calor,
  E o engenho d'elle regado,
  Ascende em vo maior.

  Enchei os copos, fiae-vos
  N'esta bebida de reis
  Com tanto que...

Estava escripto que os dotes vocaes e os talentos artisticos de Mr.
Brains no seriam devidamente apreciados. A lembrana da scena do
banquete da Lucrecia fora at certo ponto fatidica!

De facto, quando o inglez chegava quelle verso da cano, um forte e
cada vez mais proximo rumor, como de passos precipitados, de vozes em
confuso, de supplicas e de ameaas, partindo da sala immediata, veio
emmudecer a larynge do cantor e enrugar a testa de Mr. Whitestone, a
quem,  hora solemne do jantar, impacientavam interrupes.

Quando ia a elevar a voz para saber a causa d'aquelle desacato, abriu-se
com violencia a porta da sala, e aos olhos espantados de todos os
presentes desenhou-se a figura de Manoel Quentino, pallido, agitado,
como nenhum d'elles o tinha ainda visto.

Ao mesmo tempo Jenny, attrahida pelo ruido, apparecia  outra porta da
sala.

Mr. Richard Whitestone olhou pasmado para o guarda-livros.




XXXIV


MANOEL QUENTINO ALLUCINADO


Melhor do que qualquer dos personagens d'esta scena, prev o leitor os
motivos do apparecimento de Manoel Quentino na sala e do estado de
perturbao em que se apresentou.

As revelaes da criada tinham-o feito j, como vimos, sair
desorientado. Chegando a casa de Mr. Richard, soube do criado de Carlos,
que Cecilia havia entrado pela manh no jardim; mas conjecturava este
que ella provavelmente se retirara j, porque a no vira mais em
casa.--Os criados, que serviam  mesa, confirmaram a conjectura,
assegurando a Manoel Quentino que Cecilia no tinha assistido ao jantar.

No  possivel dizer que ideias se succederam no espirito de Manoel
Quentino ao ouvir tudo isto. Correu-lhe pela vista o vo das nevoas, que
antecedem uma vertigem. Tomou-se-lhe o corao de dor e de clera;
esqueceu todas as consideraes que poderia ainda sopeal-o, e rompendo,
em vociferaes incoherentes, por entre os criados que o rodeiavam,
appareceu, como vimos, verdadeiramente allucinado diante de Mr. Richard
e dos estupefactos convivas.

O olhar de Manoel Quentino, animado por expresso estranha, correu em um
momento a sala.

A ausencia de Cecilia acabou de perturbar o velho.

Fitou Carlos, cheio de raiva prompta a fazer exploso, e atravessando,
com andar mal seguro, o espao que o separava d'elle, veio pousar-lhe a
mo no hombro, dizendo em voz suffocada e tremula por o esforo que
fazia a reprimir a violencia da paixo crescente:

--Snr. Carlos, eu venho aqui saber de minha filha.

A estas palavras, Jenny descrou. Os dois inglezes conservaram-se
boquiabertos; Mr. Whitestone no desviou mais de Manoel Quentino e de
Carlos o olhar penetrante.

--Snr. Carlos!--repetia Manoel Quentino, com uma expresso em que se
revelava ao mesmo, tempo a angustia e a clera--Sou eu!... eu ... repare
bem!  um pae, que lhe vem pedir contas de sua unica filha!

Carlos, a quem a surpreza parecia haver paralysado,--a surpreza e
porventura ligeiros remorsos de consciencia tambem,--olhava para Manoel
Quentino e, crando e empallidecendo, permanecia como subjugado pelo
olhar de irritao d'aquelle velho, que o interrogava assim.

Manoel Quentino, ao ver esta perturbao, perdeu todo o poder que ainda
conservava sobre si.

--Carlos--disse elle--o senhor abusou da confiana do homem que lhe
abriu sem hesitar as portas de sua casa; o senhor zombou cruelmente
d'estes cabellos brancos, que foram creados em servio honrado e sem
vergonha; o senhor esmagou o corao que se lhe abrira, como o de um
pae... o senhor ...  um infame!

Quem visse a postura e o rosto de Carlos julgaria verdadeira a
accusao. Surprendido inesperadamente por ella, faltou-lhe a reaco
para repellil-a.

Mr. Whitestone, ao escutar as ultimas palavras de Manoel Quentino,
empallidecera, phenomeno raro n'elle, e que se julgaria
irrealisavel.--Cdo porm o sangue reagiu contra a represso que o
expellira das faces, e affluiu com maxima intensidade a ellas. Os olhos,
brilhando com fulgor extraordinario, no se desviavam do filho, como 
espera de vel-o protestar contra aquella grave accusao.

Jenny, erguendo a cabea, por um movimento cheio de dignidade,
adiantou-se na sala. Subira-lhe tambem s faces um rubor de impaciencia,
vendo o irmo emmudecer perante uma accusao, que ella sabia ser
injusta.

Com fogo no olhar e vivacidade na voz, que eram pouco do caracter
d'ella, disse, dirigindo-se a Manoel Quentino:

--Manoel Quentino, acaba de fazer uma accusao, que o deshonra, porque
 falsa.

O velho guarda-livros voltou-se para Jenny, e em lucta entre a duvida e
a esperana, perguntou anciosamente:

-Falsa?

--Sim, falsa;--repetiu Jenny com firmeza--to falsa, como cruel! Eu sei
o que a motiva.... Mas se, em dezoito annos de convivencia com
Cecilia,--que so todos os que ella tem de vida,--Manoel Quentino
aprendesse a conhecel-a, se depositasse mais f nos nobres sentimentos
d'aquelle corao, que  obra sua, se tivesse mais confiana na sua
propria filha, hesitaria sempre ao accusal-a, e no viria aqui soltar
essas expresses que a poderiam perder, embora innocente...

A porta da sala, em que Cecilia ficra, abriu-se, e a filha de Manoel
Quentino appareceu, pallida e sobresaltada, porque tinha reconhecido a
voz do pae e suspeitado tudo.

Jenny, vendo-a, caminhou apressada para ella, e, apertando-a nos braos,
disse para Manoel Quentino:

--A filha, de quem vinha saber, estava commigo. Receia ainda por ella?

Manoel Quentino correu para Cecilia e abraou-a com phrenesi.

Mas as suspeitas, que as informaes de Antonia lhe haviam feito nascer,
no estavam de todo suffocadas n'aquelle espirito.

Reparando na pallidez e no ar de abatimento da filha, e lembrando-lhe a
anterior confuso de Carlos, Manoel Quentino afastou-a brandamente de
si, fitou-a por algum tempo em silencio e perturbado, e depois disse com
tristeza e affecto:

--Por que ests assim pallida e commovida, filha? Por que perdeste
aquella alegria de outros tempos? Por que choraste?

E, voltando-se para Carlos, acrescentou j sem a primeira vehemencia,
mas ainda com amargura:

--A quem hei de eu pedir contas d'estas lagrimas, snr. Carlos? Das
d'ella... e das minhas?

Cecilia, ouvindo-o dizer isto, encostou-se vacillando ao seio de Jenny.

--Basta, Manoel Quentino!--disse esta com voz severa--Respeite-se! Essa
exaltao  indigna de si. Respeite-se e pea perdo a Deus do que est
fazendo padecer a este anjo com essas palavras. Vamos, Cecilia, no
podemos ficar mais tempo junto de quem, devendo ser o primeiro a
fazer-lhe justia,  o primeiro a offendel-a, duvidando de si. Vamos.

Manoel Quentino ergueu as mos para Jenny.

--Espere! espere! E se tem poder para me tirar do corao isto, que m'o
esmaga, faa-o, faca-o! Por muito que os outros soffram, quem soffre
aqui mais sou eu!

Havia na voz do pobre pae a commoo mais sincera!

Jenny parou a escutal-o.

Manoel Quentino estendeu para ella a carta de Carlos, que trouxera
comsigo.

--Quem escreveu esta carta a minha filha?

Jenny ficou enleiada  vista da carta; olhou para Carlos, cuja
physionomia lhe disse tudo.

Cecilia ergueu tambem a cabea com espanto.

Em Manoel Quentino, que notou a perturbao de Jenny, redobrou com isto
a anciedade, e sem attender a que ia sacrificar Cecilia, insistiu
imprudentemente:

--Quem escreveu esta carta a minha filha? Esta carta recebida ainda ha
poucas horas? Ella ahi est ainda como me chegou s mos. Abram-a,
leiam-a, e, se o que contiver no justificar as minhas suspeitas...
se...

E Manoel Quentino, ao dizer isto, ia j abrir a carta, quando a voz de
Mr. Richard o deteve.

--No  preciso. Essa carta  minha.

Eram as primeiras palavras ditas por o velho inglez, desde o principio
da scena,  qual assistira at ento immoyel e silencioso. Mr. Richard
Whitestone era homem de rapida percepo e de resolues no mais
demoradas.

Entrando-lhe a intelligencia em uma corrente de pensamentos, em poucos
instantes lhe attingia o fim e, acto contnuo, formulava a si mesmo um
plano de procedimento, que logo punha em pratica. Tinha j comprehendido
tudo; a confuso de Carlos e o seu grau de culpabilidade, os fundamentos
da accusaco de Manoel Quentino e a generosa e nobre interveno de
Jenny. Previu a imminente derrota da filha, perante um documento, cuja
existencia ella no suspeitava; previu as consequencias d'esta scena; o
perigo que corria a reputao de Cecilia; o descredito que resultaria
para o nome de Carlos, que era tambem o d'elle--Richard--e o de Jenny; e
immediatamente talhou para si papel em uma situao na qual elle s
poderia intervir com bom exito.

Manoel Quentino, ouvindo ao patro aquellas palavras, ditas em tom firme
e seguro, ficou a olhal-o embaraado.

Jenny fitou as feies inalteradas do pae e comprehendeu-o.

A boa e generosa menina sentiu desejos de se lhe lanar ao collo, para
lhe agradecer aquella prompta e feliz resoluo.

Carlos conheceu que lhe cravam as faces, ao ver quanta magnanimidade
havia no procedimento do pae.

Era a segunda lio, que, n'aquelle dia, recebia dos seus; lio de
grandeza de alma, salvadora da reputao de uma pessoa, que elle
sinceramente amava, mas que, com actos irreflectidos, segunda vez ia
perdendo.

--Esta carta  de v. s.?--repetia Manoel Quentino, deixando
insensivelmente cair a carta, que conservra na mo.

Jenny correu a apanhal-a e passou-a para as mos de Mr. Richard, que
trocou um olhar de intelligencia com a filha.

Travra-se n'aquelle momento tacita alliana entre os dois para salvar a
reputao de uma rapariga, innocente e indefeza.

-- minha, sim--continuou Mr. Richard, tomando a carta e abrindo-lhe
naturalmente o fecho.-- minha... ou melhor, ... de ns
ambos--acrescentou, designando Carlos com a mo, mas sem o
fitar.--Tinhamos resolvido preparar uma surpreza a Jenny hoje, que  dia
de seus annos, convidando Cecilia, que ha muito tempo no viamos aqui.
Mas gorou-se o plano, porque Jenny, j antes de ns, a tinha convidado;
e fez muito bem. Ahi est o que ... Esta carta foi escripta por Carlos
e dictada por mim... E se duvda?--concluiu, fazendo o gesto de entregar
a carta a Manoel Quentino.

Era um d'estes expedientes heroicos, que tudo podem perder ou salvar.

Servem-se d'elles, em occasies assim, os homens de coragem e de
sufficiente confiana em si proprios, para no receiarem trahir no
semblante a posio critica, em que ficam collocados, depois de os
empregarem.

A esses taes  quasi sempre o meio efficaz e salvador.

Manoel Quentino no ousou aceitar a prova, que se lhe offerecia.--Os
habitos de respeito, contrahidos em longos annos de servio e que um
momento de indignao, quasi de delirio, lhe tinha feito esquecer,
dominaram-o de novo, restituindo-lhe a sua natural brandura e timidez de
caracter.

--Perdo--disse elle, quasi com humildade e como arrependido j da
excitao anterior.--Perdo; eu julguei...

--Est bom, est bom--atalhou Mr. Richard com modo de quem no desejava
continuar no assumpto.-- preciso ser menos... prompto em obedecer a...
certas exaltaes... inconvenientes.

O epitheto foi dito depois de alguma hesitao em adoptal-o.

Manoel Quentino ia ainda a abrir a bca para desculpar-se, porm Mr.
Richard o impediu.

--No fallemos mais n'isto.... No vale a pena. Sente-se e faa-nos
companhia  mesa.

--Perdo, Mr. Richard, mas...

Mr. Richard fingiu que o no ouvia; chamou por um criado para preparar
logar e talher para Manoel Quentino. Este sentou-se, quasi sem bem
reparar no que fazia.

Jenny e Cecilia saram outra vez da sala.

O jantar continuou.

Tinha porm perdido para sempre a feio jovial do principio.

O que se passra e a presena de Carlos e de Manoel Quentino, qual
d'elles mais constrangido e sombrio, inutilisavam todos os esforos de
Mr. Richard para restabelecer no dialogo a perdida animao.

As libaes repetiram-se, mas sem longos _toasts_.

--A seu sobrinho, Mr. Brains!--dizia por exemplo Mr. Richard, bebendo.

Mr. Brains fazia uma mesura a agradecer. Os outros levavam os calices
aos labios.

--A seu amigo Roxboy, Mr. Whitestone!--dizia em seguida Mr. Brains.

Mr. Whitestone agradecia; os outros repetiam a saudao como
anteriormente.

--Mr. Morlays, a seu tio das Indias!

Mesura de Mr. Morlays. Os outros como antes.

Estes mesmos laconicos _toasts_ terminaram. A feio da assembleia
carregava-se cada vez mais.

Mr. Richard fez um ultimo esforo para a desanuviar.

--Outra cano, Mr. Brains!--disse elle, enchendo-lhe o copo.

O inglez fitou Mr. Richard com olhos de estremunhado.

--Eu cantar! Para a transio ser menos sensivel, que cante Mr. Morlays
primeiro.

Mr. Morlays grunhiu um monosyllabo imperceptivel e esvasiou at  ultima
gotta o calix, que tinha defronte de si.

--Ento cante Mr. Morlays--insistiu Mr. Richard, sem grandes esperanas
do convite ser aceito.

Contra a espectativa geral, o sorumbatico inglez levantou-se e enfiando
as mos nos bolsos do collete, pronunciou, era tom funebre, o nome da
cano que se propunha a cantar.

--_The old saxton_--o velho cveiro--de Park Benjamin.

Mr. Brains fez um gesto de arripiado. Mr. Morlays, imperturbavel,
principiou cantando.

Eis o sentido da cano que elle, com exquisito tacto da opportunidade,
julgou dever escolher:

Junto de uma sepultura, cavada de pouco, estava o velho cveiro,
encostado  enxada, j gasta pelo uso. Tinha terminado a tarefa e parra
 espera do cortejo funeral que transpunha n'aquelle momento a porta
aberta do cemiterio. Era uma relquia do tempo passado este velho! Os
cabellos estavam-lhe to brancos, como a espuma do mar; e dos labios
tremulos saam-lhe, em voz submissa, estas palavras:--Venham venham! que
eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Para homens e para creanas, anno aps anno, uns de
pezares, outros de alegrias, edifiquei essas casas que por ahi jazem em
torno, em cada recanto d'este funereo terreno. Me e pae, filhos e
filhas, um por um, vieram acolher-se  minha solido. Mas, ou estranhos
ou parentes, venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Muitos esto commigo, e comtudo estou s! Eu sou o
rei dos mortos! Meu throno fao-o de um sepulcro de pedra ou de frio
marmore, e o meu sceptro de commando  a enxada, que empunho. Todos os
homens so meus vassallos, quer cheguem da choupana, quer cheguem das
salas, todos, todos, todos! Agitem-se embora na ancia do prazer ou na
ancia do trabalho! Venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo
todos!

Sim, eu os guardo! Seu leito final  aqui; aqui debaixo, no escuro seio
da terra.--E o cveiro calou-se, porque o cortejo funeral passava
silenciosamente n'aquella planicie. E eu disse commigo: Ao findar dos
seculos, uma voz, mais poderosa do que a d'este velho cveiro, bradar
mais alto do que o tremendo clangor da trombeta final: Venham! venham!
que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Imagine-se o effeito que a voz do cantor, a musica e a lettra da cano
produziriam depois de um jantar.

A musica obrigava a repetir por mais de uma vez o estribilho final de
cada estancia no original.

--_I gather them in, gather, gather, gather, I gather them in_--cantava
Mr. Morlays, com entonao, que fazia lembrar um sino dobrando a
finados.

No se concebe estomago que ficasse imperturbado aps uma sobremesa
d'estas.

O cantor seguia com malignidade, verdadeiramente satanica, o effeito do
canto sobre o acto visceral dos seus amigos.

Mr. Brains reprimia a custo a indignao que sentia.

Acabando de cantar, Morlays sentou-se e bebeu novo calix de vinho.

Apenas um monosyllabo scco de Mr. Richard Whitestone o congratulou.

A misanthropia de Mr. Morlays, azedada com o escandalo de Manoel
Quentino, folgou com a vingana que tomra. D'ahi por diante todos
somente suspiravam por se levantar da mesa.

Mr. Brains foi o primeiro, que ousou fazel-o.  indole jovial do
Democrito inglez repugnava a atmosphera pesada que estava respirando
alli. Mr. Morlays imitou-o. O mau humor d'este crescera de ponto com as
occorrencias do dia. As suas caprichosas digestes estavam em risco de
serem perturbadas, e em consequencia d'isso teve a humanidade muito que
soffrer no conceito de to hypochondriaco personagem.

Carlos retirou-se tambem ao quarto.




XXXV


A SENTENA DO PAE


Manoel Quentino, ficando s na presena do patro, no se sentia  sua
vontade. Foi pois com verdadeira satisfao que recebeu um recado de
Cecilia, a pedir-lhe que a acompanhasse a casa.

Despediu-se de Mr. Richard, a quem dirigiu pela segunda vez mal
formuladas desculpas, que o inglez recebeu com affabilidade, e ao mesmo
tempo com ares de quem preferiria no ouvir fallar mais em tal.

Manoel Quentino foi ter com Cecilia, que estava na outra sala com Jenny.

--Cecilia, perda-me se duvidei de ti;--disse elle com a voz
suffocada--perdoa a minha imprudencia de ha pouco, filha; foi uma
loucura. Bem o vejo agora. Perda-a ao muito amor de teu pae...

A commoo no o deixou continuar.

Cecilia lanou-se-lhe, chorando, nos braos.

--Manoel Quentino, que est a fazer?--disse Jenny--No v como a
afflige?

--Menina--respondeu Manoel Quentino, voltando-se para ella--perde-me
tambem se pude imaginar que a sua proteco de santa...--de verdadeira
santa, miss Jenny--que essa abenoada proteco podia deixar-se vencer.
E, por quem , no se esquea de velar por ella, por minha filha!

--Mais valiosa proteco encontra Cecilia era si mesma--respondeu
Jenny.-- um corao forte.

Manoel Quentino tinha a cabea da filha encostada ao peito; ouvindo
estas ultimas palavras, cingiu-a ainda mais a si, e murmurou para Jenny,
procurando no ser percebido por Cecilia:

--Forte?... Era... emquanto lhe pertencia.

Jenny demorou o olhar nas feies do velho.

Aquella resposta dava a entender que algumas suspeitas lhe restavam
ainda da verdade; que elle podia estar convencido j da innocencia da
filha, que podia julgar com menos severidade e duvida as tenes e
procedimento de Carlos, mas sem haver fechado de tal maneira os olhos 
evidencia, que suppozesse que nada havia de commum entre os coraes dos
dois.

Jenny respondeu, percebendo isto:

--Forte ha de sel-o sempre; resta fazel-o feliz.

--Se miss Jenny o no conseguir, quem mais o conseguir?

--Trabalharei--disse Jenny, sorrindo.

--D-lhe a serenidade do seu corao e tel-a-ha salvado.

Jenny, que abraava n'este momento Cecilia, ouvindo estas palavras,
meneou a cabea, e, entre risonha e melancolica, disse ao ouvido da sua
amiga:

--No  assim que eu desejo salvar-te.

Pela primeira vez a tratava por tu.

Emquanto se passava esta scena, Carlos de volta ao quarto engolfava-se
em pensamentos profundos. Tudo quanto succedera lh'o estava reproduzindo
a memoria, e cpia de affectos e de paixes agitavam-lhe o corao em
palpitar desordenado.

Que lhe competia fazer? Como devia sair da posio em que se achava? De
que maneira compensar com uma resoluo nobre, digna dos sentimentos que
percebia no corao, a insuperavel timidez, que durante o jantar se
apoderra d'elle.

N'isto pensava Carlos, quando o criado lhe entrou no quarto, annunciando
que Mr. Richard Whitestone o mandra chamar ao gabinete.

Carlos esperava esta entrevista, que, depois do succedido, podia
dizer-se inevitavel; elle proprio a procuraria talvez espontaneamente;
mas, apesar d'isso, no se sentia preparado para ella; nem outra cousa
lhe succederia, talvez, quando mais espaada fosse.

Causou-lhe pois o effeito de imprevista.

Vacillavam-lhe os passos ao dirigir-se ao gabinete do pae, como se fora
um ro, caminhando para o tribunal, em que vae ser julgado.

Quando Carlos entrou, Mr. Richard estava em p, encostado ao marmore do
fogo. Tinha a expresso to severa, quanto era possivel  sua
physionomia ingleza, e conservava na mo a carta de Carlos, como quem
acabava de a ler n'aquelle momento.

Carlos parou no meio da sala, esperando que o pae lhe dirigisse a
palavra.

Mr. Whitestone estendeu para o filho a carta aberta, perguntando com
modo rapido e incisivo:

--Que ha de verdade n'isto que se diz aqui?

--Tudo--respondeu Carlos, procurando dar  voz a firmeza, que no
sentia.

Mr. Whitestone enrugou a fronte ao ouvir a resposta; fez um leve
movimento de hombros e de labios, e, passando a carta para o filho,
apenas lhe disse:

--Ahi a tem. Rasgue-a, queime-a. Deve fazel-o... porque destruir assim
a prova de uma nova... infamia.

As faces de Carlos cobriram-se de intenso rubor.

--Meu pae!--balbuciou elle.

--Repito-o; de uma infamia--proseguiu Mr. Richard com redobrada
acrimonia.--No sou eu o primeiro que lh'o diz; e se j se calou
vergonhosamente diante da primeira accusao, no  muito que escute a
segunda com a mesma... humildade.

E acabando de dizer isto, pz-se a passeiar no quarto, como costumava
quando assim exaltado, e continuou:

-- falso orgulho esse que... todo se alvoroa ao ouvir uma palavra e
com tanta facilidade se conforma, ao que  bem peior,  feia aco que
ella exprime.  orgulho de theatro... No comprehendo devras.

Carlos respondeu:

--Eu posso estranhar que a accusao me venha de quem me devia conhecer
melhor, e de quem no est dominado, como o primeiro que me accusou, por
um excesso de paixo violenta, mas desculpavel. Estranho e lamento que,
no curto periodo de alguns dias, tenha j ouvido duas vezes de meu pae a
accusao de... infame.

Mr. Richard, que, emquanto o filho fallra, ia augmentando a velocidade
dos passos, com que media a sala, parou repentinamente n'este ponto e
fitou Carlos com um olhar cheio de fogo.

--Estranha, por qu? Faz favor de me dizer? No me apontar algum nome
mais exacto para dar s suas aces?... Devras que no sei... Julgo que
no querer arguir-me de demasiado severo?... Repito o que j lhe disse
no outro dia. Tenho sido em excesso benevolente comsigo, tenho fechado
de proposito os olhos a muitos desvarios seus, desculpando-lh'os com o
verdor dos annos. Mas aces ha, que nem a creanas se desculpam... E,
sempre que nos actos de um homem existe o caracter de... baixeza...

Carlos no pde suspender um movimento instinctivo de reaco, ao ouvir
esta palavra.

Mr. Richard, percebendo-o, repetiu com mais fora, e olhando fixamente
para o filho:

--De baixeza... e de villania!... Em taes casos,  criminosa a
indulgencia; e nunca  demais toda a severidade de opinio contra esse
homem. Escusa de protestar com esses movimentos e gestos. Mais
severamente do que eu, o accusava ha pouco a sua propria consciencia,
obrigando-o a calar-se e a abaixar a cabea diante das arguies
d'aquelle homem... que... que... que tentra deshonrar.

--Eu j lhe disse, senhor--acudiu Carlos, com vehemencia desusada para
com o pae--que tudo quanto escrevi n'essa carta  verdadeiro. Seria
imprudente, fui de certo; d'isso me accuso eu; mas diz-me a consciencia
que estou sendo severamente julgado e por isso...

--Era bom que a sua consciencia tivesse acordado mais cdo. Escusava de
ter deixado que da bca de um estranho, e diante de testimunhas, caisse
sobre o nome de seu pae e de sua irm uma accusao grave e que ns
mentissemos para o salvar. Esses escrupulos veem bastante tarde. Deve
confessar.

Carlos curvou a cabea e ficou silencioso.

Mr. Richard ficou tambem algum tempo calado, depois proseguiu:

-- verdadeiro tudo quanto diz n'essa carta! Lembre-se de que ainda ha
poucos dias marcava n'esta mesma casa, na casa em que habita sua irm,
entrevistas a...

Carlos no o deixou continuar:

--Peco-lhe que no renove essa insinuao, senhor; j dei a minha
palavra em como ella era injusta. No posso offerecer prova mais
convincente, mas custa-me devras ver que me recusam esta. No dia em que
succedeu o facto, a que allude, n'esse dia em que pela primeira vez ouvi
o epitheto de infame da bca de meu proprio pae, j eu me sentia bem
outro do que tinha sido at alli. Creia-me, senhor; no  uma v
inclinao, um ephemero capricho de rapaz, o que sinto por Cecilia. A
unica importante mudana de caracter, que tenho experimentado na vida,
operou-a ella sem uma palavra, sem uma teno formada, sem denunciar um
desejo. Adivinhei-a talvez, mas no que ella se me revelasse nunca.
Cecilia s de per si conseguiu, e sera esforo, o que nem as
reprehenses de meu pae, nem os conselhos e os pedidos de Jenny haviam
conseguido nunca, por isso creio na sinceridade dos meus pensamentos
para com ella, por isso...

Mr. Richard escutava o filho com manifesta impaciencia; parecia que lhe
seria quasi to desagradavel o ver Carlos conseguir justificar-se, da
maneira por que o estava fazendo, como persistir sob a accusaco de
menos leal, que lhe tinha sido feita.

O amor proprio de Mr. Richard--porque emfim  foroso confessar que Mr.
Richard tinha amor proprio tambem--no se sentia muito lisongeado com
esta sincera paixo de Carlos por Cecilia, a filha do seu guarda-livros.

Um enxame de preconceitos se alvoroava todo a esta ideia; preconceitos
que a razo clara e forte de Mr. Richard se pejaria de reconhecer como
legitimos, mas aos quaes, sem o saber, se sujeitava.

Eram de diversas ordens.

Preconceitos de inglez, primeiro que tudo; nunca  com absoluta
indifferena que o filho da Gran-Bretanha v uma mulher de outro paiz
roubar-lhe o corao de algum dos seus parentes. Ha em toda a alma
ingleza a profunda convico mais ou menos declarada de uma
superioridade de raa, que a no deixa encarar desapaixonada alliancas
d'estas.

Depois sobrevinham os preconceitos de commerciante, o qual, por mais
considerao e estima que tenha por um guarda-livros, no pde de todo
em todo olhal-o como de natureza igual  sua, e no se lisongeia
demasiado com obter nora ou genro em casa d'elle.

Ainda o preoccupavam preconceitos de capitalista; por mais philosophicas
doutrinas que estes expendam sobre a vaidade das riquezas, na pratica da
vida no abstrahem d'esse elemento quando combinam calculos para
resolver o problema da felicidade. Finalmente at preconceitos de pae
lhe offuscavam a luz da inlelligencia, pois no obstante a severidade
das arguies que lhe ouvimos,  certo que poucas mulheres no mundo lhe
pareciam dignas do seu Carlos. Tudo isto o fazia pois escutar de m
vontade a declarao do filho, a quem interrompeu precipitadamente.

--Est bom. Eu no preciso saber a historia das transformaes do seu
caracter, o qual at me parece ser demasiadamente sujeito a ellas. E se
 essa a garantia unica que tem da sinceridade dos seus sentimentos, ha
de concordar que  bem fraca. Mas seja como for; depois do succedido,
parece-me escusado indicar-lhe o melhor partido que tem a abraar.

Carlos elevou para o pae o olhar interrogador.

Mr. Richard guardou, por instantes, silencio; depois acrescentou:

--Dentro em oito dias sae um vapor para Londres...

--Mas...

Mr. Richard fingiu no ouvir a interrupo, e continuou:

--Ha muito que se faz necessaria uma entrevista pessoal com Mr. Woodfall
Hope, porque...

--No sei se me ser possivel obedecer-lhe, senhor.

Mr. Whitestpne voltou-se com vivacidade para o filho, e, visivelmente
irritado, disse:

--Espero que no commetta a baixeza de querer demorar-se aqui, depois do
que se passou. No me faa envergonhar de o ter por filho.

Carlos desacostumra-se a arrostar por muito tempo com a severidade do
pae. Sentia-se incapaz de reagir diante d'aquelle olhar. Baixou a cabea
e calou-se.

Mr. Richard acrescentou instantes depois, em voz ainda severa, porm j
menos rispida:

--Pde retirar-se e faa por ser homem de bem. Ha erros que deixam
vestigios, que nunca se apagam mais. Respeite as familias, porque o
contrario  deshonrar a sua. Se se lembrasse de que tinha uma irm...

N'este ponto ouviu-se rumor  porta do quarto.

--Que temos?--perguntou Mr. Richard, impaciente.

Era um criado que vinha do mando de Jenny perguntar se Mr. Richard a
podia receber.

Mr. Richard fez um signal affirmativo, e voltando-se para Carlos:

--Saia. Sua irm precisa fallar-me.

Carlos curvou a cabea e saiu sem dizer palavra. Era ainda o ro que
deixava o juiz, no o filho que se despedia do pae.

Carlos encontrou-se com a irm na sala contigua. Ella estendeu-lhe a
mo, dizendo:

--Vs, Charles, vs o resultado das tuas loucuras?

--Loucuras, Jenny! Pois ainda lhes chamas assim?

--Principio a ter vontade de lhe dar outro nome, principio; e  por isso
que venho aqui.

--Que vens fazer?

--Advogar a causa de uma m cabea, em atteno a um pobre corao, que
no tem culpa nenhuma em andar unido quella estouvada.

-- Jenny!--exclamou Carlos, tomando, cheio de confiana, as mos da
irm.

--Ento! Deixa-me, que o pae espera-me.

E separando-se do irmo, disse a rir:

--Que difficil papel me fazem representar em toda esta historia!




XXXVI


A DEFEZA DA IRM


Jenny abriu vagarosamente a porta do gabinete de Mr. Richard.

Este andava ainda de um para o outro lado, a passos largos, com a cabea
baixa e as mos atraz das costas.

Ao ouvir abrir a porta, parou, aguardando quem chegava.

--s tu, Jenny?--disse, ao ver o rosto da filha, e usando de uma
affabilidade, que formava completo contraste com a aspereza com que se
dirigira a Carlos.

Jenny aproximou-se do pae e, apoderando-se-lhe da mo, beijou-a com
affecto.

--Que quer dizer isso, Jenny?--disse Mr. Richard, procurando retiral-a.

--Deixe-me agradecer-lhe, senhor, uma aco generosa, nobre, digna de
si, e que me fez sentir, mais do que nunca, o orgulho de ser sua filha.

--Ora essa, Jenny. E foi para isso que vieste?--perguntou Mr. Richard,
sorrindo e j sem o menor vestigio de rugas na fronte, momentos antes
contrahida.

--E para mais alguma cousa--respondeu Jenny, com a respeitosa
familiaridade de filha, a quem diz a consciencia que nada lhe ser
recusado.

--Ento falla.

--Sabe tudo, no  verdade?

--Sei; infelizmente sei.

--E que tenciona fazer? E perde-me o querer assim penetrar as suas
resolues; mas tantas vezes voluntariamente m'as confia, que me
animo...

--Fazes bem, Jenny, fazes bem--atalhou Mr. Richard, affectuosamente--Eu
no me esqueo de que s uma boa conselheira.

--Bem; ento d'esta vez?...

--J reflecti; e tomei algumas providencias. Carlos partir para Londres
no vapor que...

Jenny moveu a cabea, em signal de desapprovao.

Mr. Whitestone, percebendo o gesto da filha, olhou para ella em silencio
alguns momentos.

--Parece que no approvas, Jenny.

Jenny calou-se.

--Responde, falla. Com toda a franqueza dize-me o que pensas d'esta
medida.

--Pois bem; direi. No era isso que eu esperava de meu pae.

--Ento?--perguntou Mr. Richard, com levissimo tom de despeito.

--O seu proceder de ha pouco deixou-me esperar outra resoluo mais...
mais... mais acertada--concluiu, depois de modesta hesitao e
corrigindo a fora da phrase com a brandura da expresso.

--Que podia eu fazer?

Jenny, em vez de responder directamente, continuou:

--Quer obrigar a partir Charles, quando elle levaria comsigo, no
corao, alguma cousa que o no deixaria ser feliz no desterro--porque 
um desterro a que o vae condemnar; quer obrigal-o a partir, quando,
atraz de si, aqui, deixaria alguem, que sentiria essa ausencia como uma
condemnao cruel...

Mr. Richard olhou admirado para a filha, ao ouvil-a fallar assim;
depois, com ar mais grave do que at ahi, respondeu, parando defronte
d'ella:

--No, Jenny; quero obrigar a partir Charles para acabar a tempo com um
capricho, que podia vir a fazer a infelicidade d'elle e...--depois de
hesitar por algum tempo, o velho inglez concluiu:--e d'ella, d'esse
alguem de quem tu fallas, supponho eu. No vs que  uma inclinao de
dois dias essa de Carlos?

--No , senhor, no . Eu sinto que no . D'esta vez bem vejo que 
sincera.

Mr. Whitestone encolheu os hombros, sorrindo.

--A Jenny ainda no aprendeu a conhecer seu irmo.

--Tenho seguido passo a passo, desde o principio, esta paixo de
Charles. J desconfiei d'ella tambem; j receei por Cecilia, e tentei
dissuadir meu irmo do que imaginei no passar n'elle de um capricho.
Depois reconheci que me enganra.

Mr. Richard abanou a cabea, em signal de duvida.

--Ha quanto tempo te convenceste da sinceridade d'essa paixo em
Carlos?...

--Ha muitos dias; desde...

Mr. Richard sorriu...

--E se eu tiver provas de que, ainda ha bem poucos, teu irmo era ainda
o mesmo irreflectido e estouvado rapaz de outros tempos?

--Provas?...

--Se eu te mostrasse que elle hoje, ainda como d'antes, no hesita, para
satisfazer doudas e pouco delicadas phantasias, em cortar por certas
contemplaes, respeitaveis para quem possue intactos os sentimentos de
familia, ridiculas talvez para elle?

-- injusto... demasiadamente severo para Charles, senhor.

--Pergunta-lhe se foi em homenagem a essa rapariga, por quem o imaginas
apaixonado ha tanto tempo, que elle vendeu o relogio, de que no dia de
seus annos eu lhe tinha feito presente. Affligiu-me este facto, no por
o valor do objecto, mas porque me revelou uma fraqueza na alma de meu
filho, uma tibieza nos sentimentos de dignidade, que no esperava
encontrar n'elle.

--Charles affirmou-me que fora um motivo poderoso o que o obrigra...

--Mentiu!--disse Mr. Richard com azedume.

-- senhor!--exclamou Jenny, como exprobrando-lhe a dureza da expresso.

--O motivo sei eu qual foi...

--Ter provas certas de que o sabe?

Mr. Richard vacillou a esta pergunta, dizendo depois:

--Quasi evidentes.

Jenny sorriu ao repetir:

--Quasi.

Mr. Richard, como excitado por aquelle sorriso, insistiu:

--De certo no foi Cecilia a pessoa que n'esse dia procurou teu irmo e
o acompanhou de carruagem at  loja do ourives, onde se effectuou a
venda.

Jenny soube pela primeira vez estas particularidades, mas, animada pela
confiana que o irmo lhe souhera inspirar, disse sem hesitao:

--E so esses os unicos fundamentos da accusao?

--E julgo que...--e mudando repentinamente de tom, acrescentou:--Mas,
deixando isso, a no fazer o que fiz, que querias tu que eu fizesse?

Jenny, desviando os olhos para um periodico de gravuras que estava sobre
a mesa, respondeu:

--No sei que mal haveria em ceder ao impulso d'aquelles dois coraes,
visto que...

Mr. Richard bateu, algum tempo impacientemente, uma pancada com a mo na
secretria, junto da qual tinha parado.

--Julguei que Jenny no conhecia o mundo por o ter visto nas paginas dos
romances.

--No, senhor; no o conheo d'ahi; mas tambem o no conheo por
experiencia pessoal. Das lies de meu pae obtive o pouco que d'elle
sei; por isso avalio o bom e o mau das nossas aces na vida,  luz do
dever e da consciencia. No foi o que me ensinou?

Mr. Richard aceitou com um sorriso a correco filial.

--Pois foi  luz do dever e da consciencia que eu procedi.

--Julguei que, depois do acontecido, o dever lhe aconselharia outra
cousa.

--Algum absurdo? Loucuras?... Phantasias? s mulher a final, Jenny!

Jenny aproximou-se do pae, que viera sentar-se em uma cadeira junto do
fogo; apoiou-se-lhe ao hombro e, a meia voz, disse-lhe como a brincar:

--Desejava agora, por um momento s, deixar de ser sua filha, senhor.

--Para qu?

--Para me atrever a fazer-lhe uma pergunta.

--Auctoriso-te a fazel-a, Jenny--respondeu o inglez, completamente
desarmado contra a diplomacia da filha.

--Auctorisa? Eu sei?!

--Exijo at que a faas.

--Sou mulher a final! disse o pae... Pde ser... E como mulher tenho
talvez o meu fraco pelo sentimento--preconceitos do corao... No 
isto?... Mas... era a pergunta que eu, se no fosse sua filha, lhe
quereria fazer: mas esse seu espirito, recto, esclarecido e forte...
julgar sem preconceitos d'esta vez?

--Que preconceitos queres que sejam os meus?--perguntou Mr. Richard,
desviando os olhos.

--Quem sabe l? Cecilia  filha de Manoel Quentino, um homem honrado,
mas... subalterno; fiel, mas pobre; um caracter generoso, mas... educado
na escola da obediencia; capaz de se sacrificar por ns, mas... vivendo
dos ordenados da nossa casa.

--Douda! Ento no me fazes a justia de acreditar que a fora da minha
razo seria bastante para vencer esses preconceitos de educao...
quando os tivesse?--disse Mr. Richard, porm de modo, que estava
justificando Jenny.

--Assim o espero; por isso  que...

--No--interrompeu Mr. Ricnard--no  isso o que me faz hesitar. O
motivo  diverso.  porque no creio na durao dos sentimentos de
Carlos;  porque lhe conheo o caracter leviano, e hesito por essa razo
em fazel-o chefe de uma familia, que elle no saberia guiar e que
tornaria desgraada.

--No  justo para com seu filho, senhor. Elle herdou os dotes do seu
corao.  leal e generoso. E ser salval-o, fazel-o entrar pelo corao
no caminho do dever.

--Dizes-te amiga de Cecilia, Jenny, e no hesitas em arriscar-lhe assim
imprudentemente a felicidade?

Jenny demorou algum tempo sobre o pae um olhar quasi malicioso.

--Eu, pelo menos--disse ella por fim--tenho uma garantia:  o corao de
Charles, que est do meu partido; mas ainda ha bem pouco tempo que o pae
concebia outra alliana para meu irmo,  qual at este pequeno auspicio
faltava. Que fez da confiana, que ento depunha em seu filho, ao querer
fazel-o chefe de uma familia? Por que no hesitava ento, e hesita
agora? Ser-lhe-hia indifferente a felicidade de Alice Smithfield, da
filha do seu amigo? De certo que no; mas  que sabia que Charles,
promettendo fazel-a feliz, havia de ser fiel a essa promessa. E agora...

Mr. Richard no atinou com a resposta que dsse a este argumento da
filha.

Ergueu-se e voltou a passeiar.

D'ahi a instantes parou, e dirigindo-se a Jenay, disse:

--E demais, se, depois do que succedeu diante de testimunhas, eu fosse
seguir o teu conselho, no soffreria a reputao d'essa pequena com
isso? O mundo no veria n'este acto, que pde ser... que creio mesmo que
seja, muito justo, mas que  preciso confessar tambem que no  natural,
no veria n'esse acto a reparao de offensa maior?

Jenny sentiu-se alentada ao ver a nova face, que o pae dava  discusso.

--E a partida repentina e inesperada de Charles, depois dos factos que
succederam, no dar logar a vozes menos favoraveis ainda para ella,
para elle e... para ns todos?

Mr. Whitestone no respondeu.

--Eu conheo pouco o mundo,  verdade;--proseguiu a filha--mas parece-me
que, em todo o caso, elle fallar; o que se tem a fazer  dar s nossas
aces a feio mais natural, para que menos curiosidade lhe excitem.
Conduzamol-as de modo a deixar-lhe entrever os motivos, que nos convier
que elle supponha; mas sem mostrarmos o proposito de revelar-lh'os, para
que no desconfie da inteno e procure ento os verdadeiros.

Mr. Richard olhava para a filha com um sorriso, j muito desanuviado.

--Bravo! que machiavelismo! No te sabia to diplomata. Vamos 
applicao ao caso presente.

Jenny sorria tambem, mas de intima satisfao, porque se presentia
victoriosa.

--Trata-se de diminuir pouco a pouco a estranheza do acto, que o faz
hesitar; preparar as opinies para aceital-o como natural.

--E como? Que queres que eu faa?

--O que lhe dictar o corao. No  a mim que compete aconselhal-o.

Mr. Whitestone baixou a cabea, com ar de reflexo.

Jenny principiou a dizer, como se fallasse para si propria, mas de
maneira que fosse escutada por o pae:

--O mundo  assim. D-se-lhe a verdadeira explicao dos factos, raras
vezes a acredita. Forja-se outra s vezes menos natural e plausivel,
quasi sempre a prefere. Principalmente se a verdadeira  generosa e
nobre, e a falsa interesseira e mesquinha. A alliana de Charles com a
filha de Manoel Quentino, tendo por explicao smente o affecto dos
dois, seria estranha e incomprehensivel; mas se Manoel Quentino, em vez
de ser guarda-livros, fosse um socio da casa...

Mr. Richard, ouvindo estas palavras, desviou para a filha o olhar. Viu-a
distrahida, examinando, com apparencias de atteno, um pesa-papeis de
crystal.

Mr. Richard teve uma lembrana.

Aproximou-se da secretria, e, tomando uma folha de papel, escreveu
n'ella algumas linhas.

Jenny sorria, como se estivesse de longe lendo tudo o que o pae se
pozera a escrever.

No fim o inglez releu com atteno o que havia escripto; dobrou
cuidadosamente o papel e entregando-o  filha, disse com rapidez, como
se receiasse que a resoluo, que abrara, lhe fugisse ainda:

--Ahi tens. Entrega isso a Manoel Quentino.  uma memoria dos teus vinte
e dois annos.

Jenny, que astuciosamente deixra ao pae o prazer e a gloria da boa
ideia, cuja insinuao viera d'ella, suspeitou logo qual a natureza do
escripto e disse com effuso:

--Agora sim! Torno a reconhecer o seu corao generoso.

--Ento j sabes o que isso contm?

--Adivinho-o sem o ler. Attendendo aos antigos servios prestados por
Manoel Quentino  casa Whitestone, meu pae associa-o de hoje em diante
ao negocio e  sua firma. No  verdade?

--Quasi por formaes palavras--respondeu Mr. Richard, passando
amigavelmente a mo por as faces da filha.

--Que mais ordena, miss Jenny?--perguntou jovialmente o inglez.

--Peo mais uma cousa.

--Dize.

--Peo para no fazer desde j uso d'este papel.

--Ento?

--Este facto, que serve para preparar a opinio publica para o outro...
no  verdade?

--Eu no prometti ainda...

--Este facto--continuou Jenny, fingindo que no ouvia a
resposta--causaria ainda estranheza, se no fosse preparado tambem com
antecedencias.

--Como?

--Recordo-me de que no ha muitos dias o pae me fallou de um negocio
commercial, em que esteve para tomar parte a casa Whitestone, o que no
fez por instancias de Manoel Quentino, instancias que a salvaram de um
abalo, talvez fatal para ella. No foi assim?

--Foi. O homem mostrou d'essa vez um tino commercial...

--A quantas pessoas fallou j d'esse servio do seu guarda-livros?

--Que eu saiba a nenhuma. Certas tentativas, por felicidade frustradas,
no  muito conveniente revelal-as, pois podem abalar a confiana na
prudencia da casa...

--Pois, se me permitte dar-lhe um conselho, deixe que se faa d'esta vez
excepo  regra. Durante esta semana, eu se estivesse no seu logar,
fallaria a toda a gente n'aquillo. O nome de Manoel Quentino havia de
andar, n'estes oito dias, nos ouvidos de todos. Toda a Praa havia de
ficar sciente dos seus prestantes servios... e depois que haveria que
estranhar quando se enviasse ao pae de Cecilia este documento, em cujas
dobras vae a felicidade de duas pessoas?

--E julgas tu que a gratido  facto mais natural para o mundo, do que a
iniciativa no beneficio? Se subtrahires da explicao o elemento
interesse, o facto ser incomprehensivel.

--N'esse caso  deixar ao mesmo tempo suspeitar que Manoel Quentino tem
conseguido accumular riquezas, e que da nossa parte...

Mr. Richard sorriu.

--Mais aceitavel ser o facto  opinio, ainda que...  uma trabalhosa
semana a que me destinas! No recuso porm a tarefa; veremos o que 
possivel fazer. Mas o meu egoismo no me consente ver-te assim
desoccupada, emquanto eu trabalho.

--Ento em que tenho a occupar-me?

--Na justificao de teu irmo. O meu assentimento aos teus ultimos
projectos, Jenny, fica dependente d'essa condio. Emquanto no me
convenceres de que foi nobre o motivo que levou Carlos a vender aquelle
relogio, no esperes de mim...

--Mas Charles insiste em occultar-m'o.

--Pois fosse a empreza facil, que no a confiaria de ti. No julgues
isto capricho da minha parte. Tu bem deves comprehender a importancia
d'essa justificao. A f no basta;  mister provas. Os teus planos
baseiam-se na excessiva confiana em teu irmo;  fraca base para a
felicidade da pessoa, de quem advogas a causa.

--Procurarei obter provas.

--Ento dentro de oito dias.

--Dentro de oito dias.

E o pae e a filha separaram-se do melhor accrdo.

Os preconceitos de Mr. Richard no haviam absolutamente serenado; mas
Jenny tinha conseguido, por assim dizer, destacal-os do intimo, em que
elles viviam dominando, e apresental-os  vista do pae que,
envergonhando-se d'elles, os renegou.

Mr. Richard estimaria ainda encontrar outra soluo  crise presente;
mas por causa alguma consentiria j em se mostrar sob o imperio dos seus
preconceitos clandestinos.




XXXVII


COMO SE EDUCA A OPINIO PUBLICA


No dia seguinte Manoel Quentino sau cdo para o escriptorio.

Andou toda a manh pensativo o guarda-livros.

Quanto mais reflectia na scena da vespera e em outras antecedentes,
tanto mais confirmada lhe parecia a vaga desconfiana de que no fora
inteiramente verdadeira a explicao de Mr. Richard.

Mas no lhe queria mal por ella o velho guarda-livros; antes
inteiramente lh'a agradecia. Assustava-o porm o estado do corao de
Cecilia. Seria ainda tempo de arrancar de l aquella affeio to louca,
que por imprevidencia deixra crescer.

Nisto pensava ainda Manoel Quentino, quando entrou no escriptorio um dos
mais sisudos e abastados negociantes da Praa, e muito affavelmente o
cumprimentou, dirigindo-lhe as mais lisongeiras expresses sobre os seus
relevantes servios  casa Whitestone e applaudindo a sagacidade com que
antevira a suspenso de pagamentos de uma poderosa casa de Londres e
evitra que a firma Whitestone soffresse na quebra. Manoel Quentino
ficou surprendido com o inesperado cumprimento. Elle j nem pensava
n'aquillo, nem imaginava que Mr. Richard, unico que o podia contar, o
conservasse to presente na memoria.

O grande conceito, em que tinha o negociante que lhe fallra, no
deixava porm ser-lhe indifferente o louvor recebido d'elle.

A surpreza do velho augmentou, quando a este primeiro se succedeu outro
e quando todos os que n'aquella manh entravam no escriptorio pareciam
apostados a reproduzir, com pequenas variantes, phrases iguaes de
louvor.

A considerao que Mr. Whitestone gosava na Praa fizera com que por
toda ella se espalhasse com rapidez a fama dos servios prestados por
Manoel Quentino, a quem o honrado inglez, fiel s promessas que fizera a
Jenny, exaltou com uma vehemencia de phrase e de expresso, pouco
habitual  sua fleugma britannica, e que por isso mesmo leve dobrado
effeito.

Como sempre acontece,  medida que a noticia se transmittia,
ampliavam-se os servios de Manoel Quentino. A opinio publica, que at
ento nem attentra n'elle, suppondo-o um ente inteiramente nullo,
soffreu um d'estes reviramentos subitos, de que por certo os leitores
ho de conhecer exemplos.

Em um grupo de negociantes, estacionados no passeio da rua dos Inglezes,
discutiu-se toda a manh Manoel Quentino. Um insistia em dar a entender
aos collegas que havia muito adivinhra o homem; outro proclamava-o j o
primeiro guarda-livros do Porto; outro fazia valer o seu profundo
conhecimento da lingua ingleza; outro a sua perfeio calligraphica;
outro a sua actividade, o seu desembarao em operaes e escripta
commerciaes, e a sua longa pratica, etc., etc.

--Disse-me ha pouco Mr. Whitestone--acrescentou a isto tudo um
baro--que o homem tem j o seu peculio bem bonito.

Mr. Whitestone no se esquecera d'esta parte do plano de Jenny.

--Que duvida!--disseram alguns.

--Sabem o que alli est?--fez notar um brazileiro-- um bom director de
banco.

--E olhe que  verdade.

Esta opinio prova a que ponto subira, em poucas horas, o credito de
Manoel Quentino. Julgal-o apto para director de um banco era o mais alto
grau a que podia eleval-o o conceito publico. Tal foi o effeito do
artificio de Jenny.

Mr. Richard via com prazer o bom exito do plano. O amor proprio de
artista estava a suffocar o resto de preconceitos, que ainda sobreviviam
n'elle. Por prudencia chamou de parte Mr. Brains, que viu na Praa, e
deu-lhe a entender que convinha no fallar na scena do jantar da
vespera.

--Porque, Mr. Brains--disse elle--bem v que aquelle pateta de Carlos
portou-se de maneira, que ser pouco airoso para um inglez se se vier a
saber...

Feita esta reflexo, o orgulho nacional terminava a obra, encadeiando a
lingua de Mr. Brains; a de Morlays tambem a mesma causa foi, alm da
misanthropica incommunicabilidade, sufficiente para a refreiar.

N'esta mesma manh, Cecilia, achando-se s em casa, julgou ouvir uma
carruagem parar-lhe  porta.

Indo  janella, ficou agradavelmente surprendida vendo Jenny, que descia
de um elegante carro descoberto, entrar para o portal.

Cecilia correu a recebel-a nos braos.

--Este sol no me deixou desde pela manh ficar quieta,
Cecilia--disse-lhe Jenny.--Appeteceu-me tomar ar e vim, para me fazeres
companhia.

--Eu?

--Sim, tu; e desde j te declaro que no me sinto de animo para aceitar
desculpas. Veste-te e vamos.

--Mas, Jenny... repare...

--Reparo que so dez horas e que no tenho paciencia para esperar mais.
Queres que te leve  fora?

--Mas estou s...

--Emquanto te vestes algum vir de certo, e se no vier... Emfim estou
resolvida a cortar por todas as objeces, ainda que seja de uma maneira
absurda. V l se pdes luctar commigo.

Cecilia sorriu a este capricho de Jenny; era to pouco sujeita a elles,
que a filha de Manoel Quentino suspeitou que alguma ideia occulta andava
n'isto.

Retirou-se porm para obedecer-lhe.

Jenny ficou s na sala.

No esteve muito tempo sem que ouvisse passos na escada.

Era Antonia que voltava de fra.

Antonia no suspeitava a presena de Jenny em casa. O jockey, para
evitar o resfriamento da horsa, conduzira o carro at o fim da rua, de
maneira que Antonia, ao chegar, nada viu  porta, que lhe denunciasse a
visita.

Achando a sala aberta, suppz que era Cecilia que estava alli e ainda do
corredor principiou a clamar:

--Bem se diz: no ha nada que o tempo no descubra. Agora mesmo acabo de
saber aonde mora a tal sujeita, com quem o snr. Carlos saiu de carruagem
aquella manh. No que nem de proposito! Ia eu...

Aqui interrompeu-se de subito, porque reconheceu que estava fallando a
Jenny, em vez de Cecilia.

--Boa te vae--exclamou Antonia, mortificada. Mas j tinha dito bastante
para que Jenny no a deixasse retirar.

--Espere, acabe. Aonde mora essa senhora? Diga.

Antonia estava visivelmente embaraada.

O typo inglez de Jenny mostrou-lhe immediatamente que era na presena da
propria irm de Carlos, que ella tinha imprudentemente avanado aquellas
palavras.

Jenny no lhe deu tempo de dominar esta primeira impresso e de tomar um
partido.

--No se constranja. Falle. Est diante da irm de Carlos. Sei o facto a
que se refere. Eu tambem tenho o maior interesse em conhecer a pessoa de
quem fallava. Por isso acabe o que ia a dizer...

--Ora nem vale a pena. A minha ideia no era....

Jenny resolvera no abandonar aquelle ensejo de resolver o mysterio, que
se promptificra a elucidar em oito dias. Um secreto presentimento lhe
assegurava que d'esta pesquiza resultaria a justificao do irmo.

--Vamos--insistiu ella, dando s palavras o tom de familiaridade propria
a inspirar confiana.--Dizia que tinha descoberto a morada d'aquella
senhora...

--Eu no disse...

--No negue. Oua-me. Eu sei tudo o que se tem passado entre meu irmo e
Cecilia.

--Sabe?!

O que Jenny no sabia era quaes as ideias da snr. Antonia sobre este
assumpto, e por isso continuou com a maior precauo:

--Sei, e bem v que, no s como irm, mas como amiga, devo... preciso
de...

--Mas quaes so as tenes da senhora?

--Concorrer para evitar o infortunio de ambos--respondeu Jenny,
ambiguamente.

Antonia interpretou a seu modo a resposta.

--Pois bem; eu sei que a senhora tem muito juizo, e por isso digo-lhe,
esta manh...

N'isto ouviu-se Cecilia fechar a porta do quarto.

--Silencio;--disse Jenny--Cecilia vem ahi. Vamos sair juntas. No lhe
diga nada, emquanto no fallar commigo.  para bem d'ella. manh pela
manh procure-me. Sabe onde moro?

--Sei, sim, minha senhora.

--Ento no falte. Vocemec  uma mulher de juizo, e por isso quero
fallar-lhe. E no diga a Cecilia!

--Esteja descansada--disse Antonia, a quem as ultimas palavras de Jenny
tinham em extremo lisongeado e ganho de corao para a causa d'ella.

Cecilia chegou  sala.

Dentro em pouco, ambas aquellas duas mulheres de belleza incontestavel,
ainda que de to diversa indole, partiam no elegante carro, conversando
e rindo, com a despreoccupao da juventude.

Jenny tinha com anticipaco dado as ordens para o passeio.

Seguiram pela estrada da Foz. Passaram quasi toda a manh  beira-mar.
Jenny parecia outra. A sua seriedade ingleza cedera o logar a uma
vivacidade de conversao e a um contentamento, quasi de creana.

Tudo lhe era motivo para alegria, que pouco a pouco se communicou a
Cecilia tambem.

Ha poucas cousas to fatalmente contagiosas como a alegria das pessoas
srias.

Foi uma deliciosa manh a das duas raparigas. Cecilia estava muito longe
de prever em que terminaria aquillo.

 uma hora voltavam para o carro e s duas entrava elle, com grande
surpreza e sobresalto de Cecilia, pela rua dos Inglezes, ento em plena
actividade commercial.

A presena das duas amigas causou sensao na Praa. Todos conheciam
Jenny; raros, se alguns, podiam dizer quem fosse Cecilia.

Um inglez veio cumprimentar Jenny. Ella aproveitou a occasio para lhe
apresentar Cecilia. Dentro em pouco corria voz na Praa de que era a
filha de Manoel Quentino a senhora que acompanhava a ingleza.

Mr. Whitestone veio receber a filha ao portal. Ao ver Cecilia, trocou um
sorriso de intelligencia com Jenny. Com toda a galanteria as ajudou a
descer do carro.

Foi grande a surpresa de Manoel Quentino, vendo entrar a filha no
escriptorio.

Jenny applaudiu o espanto do velho, rindo com vontade. Mr. Richard
tambem no ficou srio.

No menos surprendido foi Carlos com o encontro, que estava bem longe de
esperar.

Entre Cecilia, Carlos e Manoel Quentino conservou-se invencivel
constrangimento.

Perto das tres horas, os grupos que estavam ainda na Praa, viram sair
do portal do escriptorio a familia Whitestone, Cecilia e Manoel
Quentino, e todos tomarem logar no carro. Momentos depois este, guiado
por Carlos, atravessava por entre esses grupos, e seguia toda a extenso
da rua, deixando atraz de si uma esteira de commentarios.

Manoel Quentino ia enleiado; Cecilia, pensativa; Jenny, contente.




XXXVIII


JUSTIFICAO DE CARLOS


No dia seguinte pela manh, era a snr. Antonia introduzida com muita
deferencia no quarto de Jenny. A criada de Manoel Quentino estava
penhorada com tantas attenes, e era j, de corpo e alma, creatura da
inglezinha, como ella chamava a Jenny Whitestone.

Jenny fel-a sentar junto de si e pediu-lhe que lhe dissesse quanto sabia
da tal senhora, a quem alludira na vespera.

Antonia com muitas digresses, a que era inclinada, contou como
n'aquella manh, passando por a rua de Santa Catharina, vira estar o
snr. Paulo, segundo caixeiro do escriptorio de Mr. Richard, fallando, da
rua para a janella, com uma senhora, que lhe sorria com affecto.
Antonia, obedecendo a natural curiosidade, affirmou-se na tal senhora e
reconheceu-a a mesma que procurra Carlos e sara com elle n'aquella
manh, em que Antonia viera colher informaes da snr. Josefinha da
Agua-benta.

--Era ella sem tirar nem pr. Emquanto a mim, alguma comediante do
theatro, porque dizem... mas perde-me a senhora o eu estar com isto.

Jenny fingiu no attender  opinio de Antonia e perguntou:

--E diz ento que mora?

--Na rua de Santa Catharina.

E entrou na minuciosa descripo da casa, com todas as particularidades,
que a podessem fazer conhecida.

Jenny j no tinha nada mais a saber de Antonia.

Ao recompensar generosamente a boa vontade da informao, disse, como
para acalmar os escrupulos ficticios de Antonia:

--Creia que lhe fico ainda obrigada por o que me contou. E agora tenho a
pedir-lhe outra cousa.

--Diga, minha senhora, diga.

--A snr. Antonia no ha de dizer que veio aqui.

--Ora essa!

--Estou certa de que no diz; alm d'isso, falle verdade, quer muito mal
a meu irmo?

--Eu, minha senhora?--disse Antonia, visivelmente enleiada com a
interpellao.

-- provvel que sim. Quasi todos so injustos para Carlos, antes de o
conhecerem. Depois, vendo como elle  bom, generoso e delicado, acabam
por adoral-o.

A snr. Antonia ficou abalada nos seus juizos a respeito dos dotes
criticos da cunhada da sobrinha do homem da sua comadre.

--Ora diga--continuou Jenny--no so prevenes smente as que tem
contra meu irmo?

--Sim... eu... quero dizer... a fallar a verdade...

--Pois bem; s lhe peo que, durante alguns dias, no pense bem nem mal
de Carlos, at... at ter noticias minhas.

-- minha senhora, pois eu pensava l...

--V, v, snr. Antonia, para que Cecilia no desconfie. No lhe diga
cousa alguma, nem falle na tal senhora...

--Esteja descansada.

Logo que Antonia saiu, Jenny deu ordem para prepararem o carro.

E quando lhe annunciaram que esta ordem estava cumprida, desceu ao
portal e entrando para o carro, disse ao criado, que a ajudou a subir:

--Ao alto de Santa Catharina.

Em pouco tempo, achou-se transportada l. Jenny, pelos signaes que
recebera de Antonia, e conservava de memoria, pde reconhecer a casa da
tal senhora e mandou parar defronte d'ella.

S ento hesitou pela primeira vez n'esta serie de actos, a que
obedecera como subjugada por quasi instinctiva violencia.

--Em casa de quem vou eu entrar?--pensou ella---Que mulher ser esta?
Carlos afianou-me... porm...

 porta da casa contigua estava um criado, olhando com curiosidade para
o carro era que viera Jenny.

Jenny mandou perguntar a este criado informaes a respeito da senhora
que vinha procurar.

Obteve a resposta de que morava na tal casa uma senhora viuva, na
companhia do filho.

Jenny no hesitou mais; saltou para o passeio e tocou a campainha.

Passados minutos, era recebida em uma modesta, mas asseiada sala, por
uma senhora ainda bella, apesar de haver j passado o verdor da
juventude.

Jenny foi direita ao fim da visita.

--Minha senhora--disse ella--eu chamo-me Jenny Whitestone.

A senhora estremeceu de surpreza. Jenny proseguiu com uma conciso,
verdadeiramente ingleza:

--Venho de proposito procural-a, e no sei ainda a quem tenho a honra de
fallar. O fim da minha visita  este: Meu irmo, Carlos Whitestone, sau
ha dias de casa na companhia de uma senhora; entrou em uma loja de
ourives, e vendeu um relogio, que, pouco tempo antes, recebera de meu
pae.--Este facto foi sabido; meu pae experimentou com isto grande
desgosto, e esta aco de Carlos tem sido interpretada de maneira
desfavoravel para elle e trazido comsigo dissenses domesticas, que
trabalho por aplacar. Meu irmo afiana no ter sido indigno o motivo do
sacrificio que fez d'aquella dadiva do affecto paterno; insiste porm em
no o explicar. Eu creio na palavra de Carlos, porque o conheo; mas nem
todos depositam n'elle a mesma confiana. Soube por acaso que era v.
exc. a senhora, que n'aquella manh acompanhava meu irmo. Poderei
obter de v. exc. provas para a justificao de Carlos?

Emquanto Jenny fallava, a senhora mostrava-se cada vez mais agitada,
como se diversas sensaes se combatessem n'ella. Ao ouvir-lhe esta
pergunta, respondeu com as lagrimas nos olhos:

--Pde, sim, minha senhora; mas... depois de v. exc. as ver, dir se me
ser possivel deixar de pedir-lhe que no use d'ellas.

--Como?--perguntou Jenny, admirada.

Em vez de responder, a senhora levantou-se e aproximou-se de uma
secretria, que abriu. Voltou dentro em pouco, trazendo alguns papeis na
mo.

--Eu sou a me de Paulo, o caixeiro do escriptorio do snr. Whitestone.

--Ah!

--Queira ler esta carta, minha senhora.

Era uma carta de Paulo  me.

Jenny leu; a meia leitura, saltavam-lhe j as lagrimas dos olhos e
comprehendia tudo.

N'esta carta Paulo confessava-se criminoso e dizia-se perdido para
sempre. O muito amor, que tinha  me, tornra-lhe insupportavel a ideia
de que a menor privao fizesse sentir  pobre senhora as amarguras de
unia existencia, para cujo amparo s elle ficra, depois da morte de seu
pae.--Este sentimento piedoso perdeu-o. No bastando para tratal-a, como
desejava, os ordenados do escriptorio, contrahiu dividas primeiro; para
as saldar, jogou nas loterias; acresceu o mal; e mais tarde, em um
momento de desespro, durante o mez da doena de Manoel Quentino,
subtrahiu uma avultada somma da caixa, fechando os olhos s
consequencias.--A confiana de Carlos era facil de illudir; mas na
vespera do regresso de Manoel Quentino ao escriptorio, Paulo previu que
o desconfiado guarda-livros cdo descobriria tudo. Aps o susto, veio o
remorso, e aps o remorso, a resoluo desesperada. Para evitar o
suicidio, resolveu fugir da cidade. N'esta carta despedia-se portanto da
me, e recommendava-lhe que pedisse proteco a Mr. Richard e sobretudo
a Carlos, em cujo caracter generoso o pobre rapaz confiava cegamente.

-- meu bom Charles!--disse Jennv, ao acabar de ler--eu bem sentia que
havia de ser digno de ti o motivo, que te levou quillo. Comprehendo
tudo, meu irmo...

--Seu irmo  uma alma sublime, a quem Deus pagar em venturas as
lagrimas de gratido, que elle me tem feito derramar.

Jenny apertou commovida as mos da senhora, que chorava.

Contou a me de Paulo os promenores das scenas, que se passaram
n'aquella manh: como, ao acordar, dera pela ausencia do filho e
encontrra esta carta a explical-a; o seu desespro, a sua irresoluco;
a ignorancia, em que ficou sobre o destino de Paulo.--Disse depois como
o bilhete de um amigo desconhecido, indicando a Paulo a hora a que devia
estar a bordo do navio, lhe dera indicios.

Depois contou toda a entrevista com Carlos, a quem ella recorrera
desesperada. A prompta disposio d'este para valer-lhe, como, obtida
com a venda do relogio a somma do alcance de Paulo, Carlos a acompanhra
 Foz, at bordo do navio, e lhe restituira o filho, que ella j
suppunha perdido.

--Horas depois--concluiu ella--recebia eu em casa este bilhete de Paulo.

Jenny leu-o. Dizia apenas:

Tudo est salvo, minha boa me. A generosidade do snr. Carlos livrou-me
da deshonra. Resta-me o dever da regenerao, que sinto agora mais vivo
do que nunca.

--E agora diga, minha senhora, devo accusar meu proprio filho? No era
por mim que elle se perdia? E devo pagar-lhe assim?  de justia, bem
sei; mas... perde-me se me falta a coragem. No desculpar esta
fraqueza a uma me?

Jenny abraou-a com ternura.

--Tranquillise-se, minha senhora. No  a esse corao que eu pedirei
tal sacrificio. Deus me inspirar algum meio de valer a todos. Sinto-me
agora com fora para tudo.

--Pobre Paulo! O muito amor que me tem foi que o levou quillo. Ainda
hoje sente remorsos to vivos!... Elle bem faz por se alegrar, mas...
conheo que lhe peza esta pena dentro da alma. Se eu fosse s--disse-me
elle ha dias--se a minha desgraa no podesse cair sobre a cabea de
mais ninguem, eu j teria confessado tudo! Envergonho-me de mim mesmo,
quando penso no meu silencio. E eu, senhora, que abenoaria a hora, em
que espontaneamente elle o confessasse, no tenho coragem para
dizer-lhe: Falla! Parece-me quasi uma ingratido... Era como se eu
propria, sabendo que elle se deshonrra por mim, o apontasse deshonrado
aos olhos dos outros.

Jenny consolou a pobre me e prometteu-lhe no revelar a alguem o que
d'ella acabra de saber.

Sau d'alli com a alegria no corao a generosa irm de Carlos.

De caminho ia pensando na maneira de proceder para patentear ao pae a
innocencia de Carlos, sem trahir a confiana, que a me de Paulo
depositra n'ella.

De subito acudiu-lhe uma ideia, que a fez sorrir. E, em vez de voltar
para casa, como tencionava, deu ordem para que a conduzissem ao
escriptorio da rua dos Inglezes.

Mr. Richard, que passeiava na Praa, vendo chegar a filha, aproximou-se
d'ella sorrindo.

--Que madrugada  esta, Jenny?

--Admira-se? pois ha muito que ando por fra.

--Ento  dia de feira?

--No, senhor; mas tenho hoje de lhe dar contas de um trabalho de que me
encarreguei.

--Qual?

--Um problema que prometti resolver em oito dias.

--Ah! e ento?...

--E ento, nem tanto tempo me foi preciso; j possuo a soluo; agora s
me resta uma difficuldade.

--Qual ?

--Achar a maneira apropriada de lh'a fazer saber.

--Isso no custa a imaginar.

--No  muito facil, porque prometti que no serei eu que a diga.

--E ento quem ha de ser?

-- o que venho procurar.

--Aqui?

--L acima, ao escriptorio, onde me deixar subir e demorar algum tempo.

--Como quizeres. E pde saber-se se a soluo  satisfactoria?

--A melhor possivel.

--Duvido.

--Ver.

--Verei.

--Duas palavras mais; os seus caixeiros sabem todos inglez?

--Manoel Quentino...

--Esse sei que sim; os outros?

--Paulo no o falla, mas entende-o; o outro nem o entende, nem o falla.

--Bem. Outra cousa. Ha de fazer-me uma promessa.

--Dize.

--Quando souber a soluo do problema, se reconhecer que foi severo de
mais para com seu filho, ser, em compensao, indulgente para com o
verdadeiro culpado.

--Pois ha culpados?

--Promette?

--Mas...

--Prometterei, porm...

--At logo. Ou eu me engano muito, ou, d'aqui a meia hora, pde vir
saber o resultado.

--De ti?

--De mim no. At logo.

E desappareceu, subindo com ligeireza as escadas carunchentas do
escriptorio.

Ao entrar alli dentro, Jenny revestiu-se de um d'aquelles ares graves e
pensativos, que to bem lhe iam  physionomia sympathica.

Estavam na sala Manoel Quentino, Paulo e o outro caixeiro, e todos se
levantaram, ao verem entrar a joven ingleza.

--Por favor, deixem-se estar como esto--disse ella, sentando-se ao p
de Manoel Quentino.--Quero descansar algum tempo aqui; mas no
interrompam os trabalhos.

--Estava bem longe de a esperar hoje por estes sitios, miss Jenny--disse
Manoel Quentino, continuando a trabalhar.

--Precisei de fallar com o pae... Mas que tem, Manoel Quentino?
Parece-me triste; Cecilia como est?

--Graas a Deus, menina, Cecilia... no est mal.

--Ento no esteja triste. Para tristezas basto eu.

--Ento miss Jenny est triste?

--E no pouco, Manoel Quentino.

Manoel Quentino sorriu, como quem duvidava.

--De que se ri? Julga-me incapaz de sentir a tristeza?

--No, mas no vejo o que possa causar-lh'a.

--Ento oua e diga se o motivo no  para estes e peiores effeitos.

Jenny, passando de repente a fallar inglez, como se desejasse ser
smente comprehendida por Manoel Quentino, a quem se dirigia em tom
confidencial, proseguiu:

--Charles tem excellente corao, como sabe; mas uma cabea!... Sem o
querer,  o motivo de continuados desgostos em casa. Ahi est que se d
agora com elle um facto, bem singular, que  a causa da minha tristeza.

E Jenny principiou a contar a Manoel Quentino a historia do relogio, o
desgosto de Mr. Richard, a insistencia de Carlos em occultar as razes
que o moveram quella venda, razes que elle se limitava a affirmar no
serem vis.

--Mas que quer?--proseguia Jenny--quem o acreditar? Eu e mais ninguem.
O conceito que geralmente fazem de meu irmo, no lhe serve de fiana
valiosa. Isto tem feito existir entre Charles e o pae, ha j muitos
dias, uma frieza... mais do que frieza, uma quasi hostilidade, que me
afflige. Se soubesse, Manoel Quentino, o que tenho chorado por causa
d'elles!...

Jenny que, como dissemos, fallava agora em inglez e como quem no
receiava que alguem mais a comprehendesse na sala, lanava de quando em
quando olhares furtivos para Paulo e via-o mudar de cor, passar de
pallido a crado, empallidecer de novo, crar outra vez, emquanto mal
segurava na mo tremula a penna, com que escrevia.

Jenny seguia com prazer todos estes signaes, e por elles conjecturava
que estava sendo entendida.

--Verduras!--disse Manoel Quentino, procurando desculpar Carlos.

--Que importa que o sejam? So motivo bastante para nos fazer soffrer a
todos.

Jenny insistiu muito n'isto, exagerou as cres sombrias com que pintou o
horizonte domestico. N'isto fallava ainda, quando Mr. Richard entrou no
escriptorio. Jenny receiou que qualquer pergunta d'elle inutilisasse
todo o artificio, e por isso correu ao encontro do pae e, fingindo
abraal-o, disse-lhe ao ouvido:

--No se refira a nada do que ha pouco lhe disse e demore-se aqui no
escriptorio.

Mr. Richard fez, sorrindo, um signal de assentimento.

Jenny sustentou uma conversa insignificante, sem nunca perder de vista
Paulo, cuja turbao indicava uma violenta lucta interior. Jenny
agourava bem do que ia observando n'elle.

Emfim deixou afrouxar a conversa e fez ao pae signal para que entrasse
no gabinete. Mr. Whitestone assim o fez.

A agitao de Paulo cresceu. Jenny espiava-lhe todos os movimentos e
expresses. Viu-o pousar a penna e erguer-se, como movido por forte
resoluo. Jenny tremeu de sobresalto! Depois fez-se pallido, passou a
mo pela fronte e sentou-se outra vez. Jenny desanimou. Ergueu-se emfim
resoluto, e sem parar um momento mais, dirigiu-se ao gabinete de Mr.
Richard e pediu licena para entrar.

--Entre--disse de dentro a voz do negociante.

Paulo entrou, fechando a porta atraz de si.

Jenny no pde conter-se; saram-lhe involuntariamente dos labios estas
palavras:

--Est ganha a causa!

Manoel Quentino olhou para ella admirado.

Jenny pz-se a rir.

--Se soubesse, Manoel Quentino, que se est agora mesmo desmoronando o
ultimo e pequeno estorvo, que se oppunha  sua felicidade!...

Manoel Quentino cada vez a comprehendia menos.

Jenny nada mais disse.

A conferencia de Paulo e de Mr. Richard durou muito tempo. De fra s se
percebia um indistincto rumor de vozes, sem se distinguir uma s
palavra.

A final abriu-se a porta outra vez.

Passou por Jenny o tremor de incerteza.

O primeiro que saiu foi Paulo; trazia as faces afogueadas, os olhos
vermelhos; mas, por entre estes vestigios de tristeza, transluzia certo
ar de contentamento de alma, que tranquillisou Jenny.

Momentos depois saiu Mr. Richard. Atravs da impassibilidade e frieza
apparente da physionomia do velho, o olhar de Jenny percebeu que lhe ia
muita alegria no corao.

Mr. Richard deu algumas ordens, fez algumas recommendaes, e depois,
voltando-se para a filha, disse-lhe que estava  disposio d'ella.
Retirava-se do escriptorio a uma hora excepcional.

Jenny acompanhou-o.

--Saste-te perfeitamente da tua incumbencia, Jenny--disse-lhe o pae,
quando a ss com ella no carro.

--Ento no sa?

--E como o conseguiste?

--Mais de vagar!... Esse  o meu segredo. Diga, no estar Carlos ainda
justificado?

Um sorriso foi a resposta que obteve esta pergunta; sorriso de orgulho,
de affecto, de commoo, que tudo estava ento experimentando aquelle
corao de pae.

--Carlos tem uma alma generosa, leal; eu tenho sido devras injusto com
elle.

Jenny exultou ao ouvir esta confisso.

--Escuso de perguntar--disse ella--se foi indulgente com o culpado:
tenho at a pedir-lhe perdo de ter antes exigido a promessa d'aquillo,
que por certo espontaneamente faria.

--Enganas-te; eu castigo.

Jenny olhou-o inquieta.

--O castigo  um dever moral--proseguiu o pae.-- o meio de regenerao.
As almas fracas e vis castigam-se com rigores; s o mdo pde
refreial-as. Mas Paulo, apesar da sua fraqueza, tem vigorosos ainda os
instinctos da honra; para estes o castigo, que regenera,  o pagar a
culpa com o beneficio. No mesmo dia, em que Manoel Quentino for meu
socio, Paulo ser nosso guarda-livros, ser-lhe-ho augmentados os
salarios e confiada a caixa.

Jenny beijou as mos do pae.

--Deus no castigaria por outra frma.

--No digas heresias, Jenny.

Haviam chegado a casa.

--Agora pdes fazer a Manoel Quentino o teu presente--disse Mr. Richard.

--E depois...

--Depois examinaremos de vagar o resto das tuas loucuras.




XXXIX


CORA-SE A OBRA


Manoel Quentino estava ainda em casa, na manh do dia seguinte, quando
Antonia lhe veio annunciar que a inglezinha chegra em uma carruagem e
perguntava por elle.

Cecilia e Manoel Quentino correram ao encontro de Jenny.

--Estranham-me a madrugada? Que querem? No pude dormir toda a noite com
a lembrana d'esta visita. Desejava encontrar ainda em casa o snr.
Manoel Quentino e como sei dos seus habitos matinaes...

--Ainda tenho meia hora--disse o guarda-livros, consultando o relogio.

--O fim da minha visita  simplesmente entregar-lhe em mo propria uma
mensagem de meu pae. Quer ver?

E passou para as mos do velho a carta, que o leitor conhece j.

Emquanto Manoel Quentino se dispunha a lel-a, Jenny dizia a Cecilia:

--Ento como vae esse corao?

--O corao?

--Sim; eu no quero que elle se deixe curar seno por mim. Entendes?

--E acha-o doente?--perguntou Cecilia.

--E acha-o so?--perguntou Jenny, imitando-a.

Cecilia ia a responder, mas suspendeu-se, olhando para o pae.

--Jesus! Que tem meu pae? Olhe!

Manoel Quentino, que acabra de ler a carta de Mr. Richard, estava
efectivamente perturbado; fizera-se pallido, e tremia olhando para o
escripto, que conservava na mo.

Jenny sorriu.

Cecilia correu para o pae.

--Que  isso? que  o que tem?

Manoel Quentino mostrou-lhe em silencio a carta do inglez.

Cecilia leu-a em um relance de olhos. No fim, banhada de lagrimas,
abraou o pae com transporte.

--Oh que felicidade, meu pae!

O velho parecia hesitar ainda entre a alegria da nova e no sei que
amargo pensamento, que teimava em enlutal-a.

-- de certo  influencia d'este anjo--disse Cecilia, designando
Jenny--que devemos esta ventura.

O guarda-livros olhou tambem para Jenny, e, com certa perturbao de voz
mal disfarada, perguntou-lhe:

--Miss Jenny, a que servios devo eu uma to generosa recompensa?

--Sero poucos os de dezoito annos de fidelidade, Manoel Quentino?
Vamos--continuou sorrindo--querem ver que nos se um desconfiado?
Asseguro-lhe eu, Jenny--continuou com voz firme e grave, porque julgou
divisar um raio de desconfiana no olhar de Manoel
Quentino---asseguro-lhe eu, que vi escrever essa carta e que beijei,
reconhecida, a mo que a escreveu, asseguro-lhe que pde e que deve
aceitar a merc--se merc se pde chamar--com a certeza de que a obteve
por nobres e reaes servios.

Estas palavras desarmaram Manoel Quentino. Todas as sombras suscitadas
pela leitura se desfizeram.

Havia-lhe de facto occorrido, que lhe queriam compensar d'aquella
maneira as tenes, menos leaes, de Carlos para com a filha, e, com esta
ideia, o orgulho e o despeito, mal sopeados ainda, revoltaram-se-lhe no
corao outra vez.

Mas o conceito, em que tinha Jenny, no lhe deixava supportar estes
escrupulos, desde que por ella os via condemnados.

Agora porm era Cecilia a que ficava pensativa.

Passada a primeira expanso de alegria, que a felicidade do pae lhe
despertra, acudiu a reflexo a fazel-a meditar sobre as tenes de
Jenny.

Esta, que observava a amiga, chamou-a de parte.

--Que ares graves so esses, Cecilia?

--Jenny, deixa-me fazer-lhe uma pergunta?

--No; se for feita de maneira to ceremoniosa. V que no  assim que
eu te trato.

--Mas...

-- condio para que te escute. Falla.

--Diga-me...

A um gesto de Jenny, corrigiu, sorrindo:

--Dizes-me toda a significao d'isto?

--De qu?

--D'esta generosa aco, que eu sinto vir da... tua inspirao?

--Ento no te basta a explicao que dei? To impossivel te parece j a
gratido, que...

--No, mas as circumstancias, que occorreram... o que se passou...

--Que tem tudo isso?

--Jenny, perda-me; mas a minha consciencia obriga-me a pr de parte
todas as reservas e a fallar-te com franqueza...

--E inda agora o fazes?

--Responde-me... Quaes so as tuas tenes?

--Que tenes?

--As tuas tenes... a meu respeito?

--Ah!... As melhores tenes d'este mundo... Fazer-te feliz.

--Mas repara, Jenny, que eu no o posso nunca ser,  custa de
sacrificios alheios.

--E quem  que se vae sacrificar?

--No sei, mas... acudiu-me um pensamento... louco por certo... mas
inquieta-me... A tua generosidade  capaz de tudo...

--Vamos l a ver esse pensamento louco, que te occorreu.

--N'aquella manh, no dia dos teus annos, quando me appareceste, como o
anjo de misericordia, em um momento de afflico... lembras-te?

--Vamos adiante... O anjo de misericordia  que veio de mais ahi...

--N'esse momento, ouvi-te dizer algumas palavras, que tremi de
comprehender, depois quando disseste a... teu irmo que eu tinha
direitos a exigir d'elle a affeio que...

--E no tinhas?

--Ouve-me, Jenny. D'aquella vez a tua angelica presena bastou para me
salvar; mas se no bastasse, quando eu tivesse sido surprendida, como o
acaso me arriscou a ser, alli, s, n'aquelle logar, e ficasse perdida na
opinio de todos, coberta de vergonha e de despreso, ainda assim
preferiria retirar-me s com a minha consciencia, que me no accusava, a
usar dos direitos a essa reparao, que dizias. Exigir affeies! Repara
bem, Jenny:--Exigir!--E podem l exigir-se affeices? Receber as
apparencias d'ellas, em vez da realidade! E a quem d isso venturas?

--Tens razo, Cecilia. V; eu tambm sou do teu pensar, e comtudo teimo
em fazer-te feliz. E sinceramente confesso que isto hoje  um passo dado
no caminho, em que entrei e que estou disposta a seguir at o fim.

--Mas...

--Com franqueza, Cecilia. Falta-nos o tempo para rodeios. Acreditas ou
no na affeio de Carlos?

--No.

--Que _no_ to desenganado!--tornou Jenny, sorrindo--Ha de custar-me a
perdoar-t'o. No sei se sabes que tomei sobre mim o justificar meu
irmo. J tenho alcanado muitas victorias. Meu pae confessou-se j
hontem injusto para com elle. A tua criada Antonia est meia abalada
tambem.

--Antonia?!

-- verdade. Eu suspeitei que meu irmo tinha n'ella um inimigo, e
parece-me ha ver acertado. E seno dize-me: no foi Antonia quem te
contou a historia de certa visita, que Carlos recebeu?

Cecilia desviou os olhos, ao ouvir a referencia ao delicto, que com to
amargas censuras lhe fora de facto contado pela criada.

--Bem vejo que me no enganei--continuou Jenny.--Pois at Antonia se
dar por vencida a final. Emquanto  tal visita... dir-te-hei de
passagem que tudo est satisfactoriamente explicado.

--Como?--perguntou Cecilia com vivacidade.

-- segredo que meu irmo te poder revelar, quando... entre ti e elle
no devam existir segredos.

--Tarde viria ento, para me aproveitar, o esclarecimento.

--At l contenta-te com a minha palavra; ou tambem duvdas d'ella?

A volta de Manoel Quentino  sala interrompeu o dialogo.

Cecilia ficou no fim d'elle com mais confiana no futuro, e mais
frequentes lhe assomaram os risos aos labios no resto da manh.

Espalhou-se rapidamente na Praa, durante aquella manh, a nova da
promoo de Manoel Quentino.

Choveram-lhe parabens de todos os lados, cresceu na opinio publica a
reputao do guarda-livros.

Conceituando altamente a classe commercial, no podia Manoel Quentino
ficar indifferente, ao sentir-se guindado por ella na escada da
considerao. Deixava-se possuir de legitimo orgulho, que, no obstante,
o no fazia soberbo.

Paulo foi no mesmo dia nomeado guarda-livros, com augmento de ordenado.

O pobre rapaz recebeu com lagrimas a nomeao. Estas lagrimas estavam
vingando Mr. Richard.

As manifestaes publicas de intimidade entre as duas familias
repetiram-se, graas aos artificios de Jenny.

Uma noite, Cecilia, obrigada por ella, appareceu no theatro.

Os amigos de Carlos reconheceram-a, e os boatos do proximo casamento de
Mr. Richard com a filha do seu novo socio principiaram, desde ento, a
transpirar na cidade com certa insistencia.

A phantasia de alguns novelleiros explicava o facto por motivos
occultos, dando a entender que os servios, que devia a casa Whitestone
a Manoel Quentino, eram maiores do que os reconhecidos por ella e que as
economias do velho guarda-livros tinham valido para atalhar os males
causados pelos arrojos do patro. Desde que se achra assim meio de
fazer intervir na explicao o elemento interesse, os animos aceitavam-a
de mais boa mente.

Tinha Mr. Richard razo.

Partira porm um vapor para Londres e, aps o primeiro, outro e outro,
sem que o velho commerciante inglez fizesse lembrar ao filho o
cumprimento da sua sentena.

Uma manh, estava Mr. Richard no gabinete, enthusiasmado na contemplao
da chamada guia dourada, ou technicamente: _Aquila Chrysaetos_, raro
visitador dos suburbios de Londres, que elle recebera nas vesperas de um
seu amigo de Boxhill, onde fora caada e morta, quando d'este quasi
extase de colleccionador o arrancou o rumor da porta do gabinete que se
abria; Mr. Richard voltou-se e viu o rosto da filha, que espreitava para
dentro.

--Entra, Jenny, entra--disse elle, com a affabilidade com que sempre lhe
fallava.

Jenny entrou.

--Que te traz por aqui, to de madrugada?

--Encarreguei-me de uma apresentao, que peo licena para fazer-lhe.

--De uma apresentao?! De quem?

--De uma pessoa--respondeu Jenny maliciosamente--que lhe quer pedir as
suas ordens para Londres. Ha muitos dias j que tinha de partir para l.

Mr. Whitestone olhou, sorrindo, para a filha, cujas palavras, com o seu
sahor epigrammatico, o deliciavam.

--Que entre, que entre o teu recommendado.

Jenny abriu a porta e introduziu Carlos na sala.

Apesar da timidez, que sentia sempre na presena do pae, Carlos recebia
agora coragem da consciencia de ter ganho de antemo a causa, que vinha
por formalidade advogar alli.

--Meu pae--disse elle, adiantando-se para Mr. Whitestone--no ha muitos
dias, que pela sua bca ouvi qualificada como infamia uma aco minha;
venho pedir-lhe agora que me deixe usar do unico meio, que tenho, para
evitar que a arguio seja, at certo ponto, merecida.

--Qual ?--perguntou concisamente Mr. Richard.

--Procurar Manoel Quentino e pedir-lhe para offerecer o meu nome,
honrado por meu pae com uma vida inteira de probidade, a essa menina,
que as minhas imprudencias, e nunca as minhas intenes, iam
sacrificando. Salvou-a uma vez a generosidade de minha irm; outra, a
sua, senhor. Deixe-me pois seguir o exemplo to nobre que me apontaram e
com elle o que, ao mesmo tempo, me aconselha o corao.

--E j pensaste bem, Carlos;--disse Mr. Richard, que tinha j perdido
toda a sua rispidez--j pensaste bem no que vaes fazer? No temes que
venhas ainda a arrepender-te d'esse passo pouco reflectido? No receias
tornar-te o instrumento da infelicidade d'essa menina? Ests preparado
para as obrigaes, que, como chefe de familia, vaes chamar sobre ti?

--Eu sei que o passado poucas garantias me pde conceder; mais tenho f
em que o futuro me justificar...

--F?--disse Mr. Richard, rindo-- o unico fiador que tens por ti?

Jenny pousou a mo no hombro do pae, dizendo com suavidade:

--E eu.

Mr. Richard voltou-se.

--Tu? Tu afianas Carlos?

--Afiano.

-- arrojo!

--No  a primeira vez. E o pae sabe qual de ns tem tido razo de se
arrepender. Se eu, da minha confiana; se o pae, das suas suspeitas.

-- falta de melhor, aceito a garantia.

E voltando-se para o filho:

--Parta ento, Carlos; e lembre-se de que, depois do passo que vae dar,
... deve ser outro homem.

E Mr. Richard Whitestone estendeu a mo para o filho, que a beijou,
antes de partir.

--No sei se fizeste bem, Jenny--dizia o pae, vendo-o sar do quarto.

--Consultei a memoria de minha me, tendo os olhos no retrato d'ella.
Tenho f nas resolues que me veem assim.

Mr. Richard olhou algum tempo para a filha com amor, e depois,
apertando-a ao peito, disse:

--Deus te oua!... E ha de ouvir, que bem lh'o mereces.

--E ns, senhor, ficamos aqui?--perguntou Jenny.

--Pois que mais queres tu ainda?

-- natural que seja Charles o primeiro a tratar este negocio em casa de
Manoel Quentino; mas ser delicado que seja o unico?

Mr. Richard tocou a campainha.

--Que apromptem o carro para j--disse ao criado que acudiu ao signal.

--E agora que mais queres?

--Agradecer-lhe.

E depois de abraar o pae, saiu a correr da sala.

Esta scena teve em casa de Manoel Quentino os seguintes resultados:

Estava o pae de Cecilia preparando-se para sair, quando viu entrar
Antonia no quarto com inquietao e sobresalto.

--Que , Antonia? Que temos ns?--disse Manoel Quentino, surprendido com
o aspecto da criada.

--Est alli alguem a procural-o, snr. Manoel Quentino.

--Ainda algum importuno a dar-me parabens. Emquanto eu fui
guarda-livros, ninguem me procurava... agora...

E preparou-se para ir ver quem era.

Cecilia, ao ouvir a criada, crada de maneira particular e sob no sei
que pretexto, recolheu-se ao quarto.

 que se lembrou, n'aquelle momento, de um bilhete, que na vespera
recebera de Jenny, com estas ss palavras:

Desejo-te e agouro-te muito risonhas madrugadas.

Assignada--Tua irm, _Jenny_.

Logo que Cecilia saiu, Antonia chegou-se ao p de Manoel Quentino e
disse-lhe em ar de mysterio:

-- elle outra vez!

--Elle quem?

--O filho do inglez.

--Carlos?!

Foi com alvoroo que Manoel Quentino desceu as escadas e chegou 
presena do irmo de Jenny.

Carlos no estava menos agitado. Nos seus gestos e palavras havia uma
gravidade, que Manoel Quenlino lhe estranhou.

No se sentiam  vontade um na presena do outro, o que no  para
admirar depois das scenas occorridas entre ambos.

Carlos rompeu primeiro o silencio.

--Manoel Quentino, eu venho aqui para um fim muito serio e de maxima
importancia para ns ambos.

Depois de curto intervallo de pausa, acrescentou:

--Venho aqui pedir-lhe a mo de sua filha.

Manoel Quentino deu um salto na cadeira, em que estava sentado.

--Pedir a...?

--A mo de Cecilia--repetiu Carlos, com firmeza.

Uma nuvem toldou por momentos o espirito de Manoel Quentino. As
suspeitas, mal acalmadas, agitaram-se de novo quellas palavras.

Carlos, notando-o, acrescentou:

--No lhe occulto agora que ha muito sinto por sua filha uma affeico,
que em vo procurei combater. Curvei a cabea ante as suas accusaes,
Manoel Quentino, no porque me exprobrasse a consciencia alguma teno
infame, mas porque pelas minhas imprudencias podia de facto ter
arriscado a boa fama da pessoa, que eu quereria defender por todo o
preo,  custa de todos os sacrificios, e tinha remorsos d'isso. No 
reparao, que venho aqui oferecer; Cecilia no carece d'ella; venho
pedir-lhe a minha felicidade.

Manoel Quentino permanecia como estupefacto.

--De meu pae tenho j o consentimento; tenho tambem a approvaco de
Jenny; falta-me apenas...

--E Cecilia?...

--Interrogue-a.

Manoel Quentino, quasi sem saber o que fazia, dirigiu-se  porta para
chamar a filha. Esta no estava longe, como  de prever.

Ao entrar na sala, o rosto tinha-lhe dito mais, do que se podia esperar
das palavras.

Manoel Quentino no era para mais hesitaes e reservas. Atirou-se ao
pescoo de Carlos; abraou-o, beijou-o, chamando-lhe seu querido filho.

--Cecilia--dizia Carlos d'ahi a pouco, aproximando-se d'ella--se, para
avaliar os seus sentimentos, esperasse que m'os revelasse, duvidaria
ainda, sabe?

--Mas no duvda?

--No, porque... os adivinho; julgo eu que os adivinho.

--E que mais quer? Infelizes dos que no sabem adivinhar assim. Esses...
no amam devras. No lhe parece?

--E adivinha tambem?

--Espero que sim.

--Mas ainda ha to pouco tempo que duvidava!

--Ou queria obrigar-me a duvidar.

--E no o conseguiu?

--Bem v que creio, antes de ouvir a justificao.

--Prometto-lhe que no abusarei d'essa generosa confiana--respondeu
Carlos, beijando-lhe a mo, que ella lhe estendia.

Ora succedeu que a snr. Antonia surprendesse esta scena. Rica de tal
descoberta, correu a dar parte d'ella ao amo, que cantarolava na sala
contigua.

Mas qual no foi o seu espanto, ao ver Manoel Quentino receber s
risadas a communicaco do delicto!

Um raio de luz atravessou o entendimento d'aquella prudente senhora.

Tinha ella bastante tino politico para deixar de imitar os deputados
que, aos primeiros indicios de mudana ministerial, teem a cautela de se
passarem, com armas e bagagem, para a opposico, com o fim de no dia
seguinte amanhecerem do lado do poder.

Teve cdo a snr. Antonia occasio de manifestar este tacto politico.
Ouviu-se tocar a campainha do portal, e Antonia, que veio abrir a
cancella, achou-se na presena do snr. Jos Fortunato, o qual a vinha
prevenir de que vira passar Carlos na rua.

--Olhem o milagre! Se elle est c em cima!--disse Antonia, encolhendo
os hombros.

--L em cima!--exclamou o outro.

--Temos grande novidade. A cousa agora  a valer.

--O qu? o que  a valer, snr. Antonia, o que  a valer?

--Desconfio que ha casamento tratado.

O snr. Jos Fortunato fez uma careta.

--Que me diz?!

--Sim; ento que ha ahi de maior? Talhados so elles um para o outro. Da
mesma idade e...

No pde continuar; o carro de Mr. Richard parava junto do portal, e o
velho inglez saltou lepidamente d'elle e ajudou Jenny a sar.

--Santa Virgem, que ahi vem tudo!--exclamou Antonia, correndo pelas
escadas acima a annunciar os recem-chegados.

A curiosidade do snr. Jos Fortunato venceu o despeito e fel-o entrar
tambem para ver.

Viu um singular espectaculo!

Jenny abraava Cecilia com effuso; Manoel Quentino era gravemente
abraado por Mr. Richard; depois era Carlos, que apresentava Cecilia a
Mr. Richard, dizendo:

--Trago-lhe mais uma filha, senhor.

E Mr. Richard, que respondia, abraando-a:

--Agradecido, Carlos.  um verdadeiro thesouro, que me ds.

Cecilia beijava commovida a mo do inglez. Manoel Quentino, soltando
phrases desordenadas, abraava toda a gente. Antonia dava parabens a
todos e de ninguem era attendida.

O snr. Jos Fortunato viu e voltou as costas ao que vira. Desceu as
escadas, despercebido de todos, sacudiu na soleira da porta o p dos
seus sapatos, e, resmoneando palavras inintelligiveis, saiu para no
voltar.




CONCLUSO


Vencidas as difficuldades, que as differentes religies de Carlos e de
Cecilia traziam comsigo, o casamento fez-se. No exponho agora aqui as
condies do contracto, por me parecerem de pouco interesse para o
leitor.

Manoel Quentino no desceu no conceito publco. Pelo contrario, passou a
ser um d'estes homens, que em certas pocas o Porto julga indispensaveis
e cujos nomes passam a figurar em quantos cargos, sociedades e
commisses se organisam n'esta emprehendedora cidade.

Tem sido successivamente director de um banco, mordomo da Santa Casa e
camarista.

Mr. Richard contina com os seus habitos de vida ingleza e com as
leituras do Sterne.

Os seus compatriotas Brains e Morlays so ainda o que sempre foram; um,
o inglez que chora; outro, o inglez que ri.

Preciso de acrescentar que Cecilia e Carlos vivem felizes?

Nem eu sei se teria coragem de lhes escrever a historia dos amores se
esse no fora o resultado.

E Jenny?

Jenny  sempre o anjo bom da familia.

Nunca Mr. Richard teve de pedir-lhe contas da fiana que dera por
Carlos. Este no lhe tem offerecido ensejo para isso.


FIM.


[1] Paul Feval.




INDICE

I--Especie de prologo, em que se faz uma apresentao ao leitor

II--Mais duas apresentaes, e acaba o prologo

III--Na Aguia d'Ouro

IV--Um anjo familiar

V--Uma manh de Mr. Richard

VI--Ao despertar de Carlos

VII--Revista da noite

VIII--Na Praa

IX--No escriptorio

X--Jenny

XI--Cecilia

XII--Outro depoimento

XIII--Vida portuense

XIV--Imminencia de crise

XV--Vida ingleza

XVI--No theatro

XVII--Contas de Carlos com a consciencia

XVIII--Contas de Jenny com a consciencia de Carlos

XIX--Aggravam-se os symptomas

XX--Manoel Quentino procura distraces

XXI--O que vale uma resoluo

XXII--Educao commercial

XXIII--Diplomacia do corao

XXIV--Em que a senhora Antonia procura encher-se de razo

XXV--Tempestade domestica

XXVI--Inefficaz mediao de Jenny

XXVII--O motivo mais forte

XXVIII--Frma-se a tempestade em outro ponto

XXIX--Os amigos de Carlos

XXX--Peso que pde ter uma leviandade

XXXI--O que se passa em casa de Manoel Quentino

XXXII--Os convivas de Mr. Richard

XXXIII--Em honra de Jenny

XXXIV--Manoel Quentino allucinado

XXXV--A sentena do pae

XXXVI--A defeza da irm

XXXVII--Como se educa a opinio publica

XXXVIII--Justificao de Carlos

XXXIX--Cora-se a obra





End of the Project Gutenberg EBook of Uma famlia ingleza, by Jlio Dinis

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